| |
18 de dezembro de 1985
Las locas tinham
razão
Julgados por um tribunal civil segundo
normas que negaram aos milhares de desaparecidos, Videla, Massera
e Viola são condenados como homicidas e ladrões
Ergueu-se na segunda-feira
da semana passada, em Buenos Aires, um marco da História
da América Latina. Pela primeira vez em 25 anos, desde que
o continente foi assolado por uma epidemia de ditaduras militares
megalomaníacas, os responsáveis pelos crimes nelas
praticados em nome de um salvacionismo grosseiro foram remetidos
à cadeia. Os generais Jorge Rafael Videla e Roberto Viola
e o almirante Emilio Massera, que governaram a Argentina entre 1976
e 19 81, presidindo a mais sangrenta ditadura da história
do país, foram condenados por um tribunal civil como homicidas
e ladrões. Videla e Massera receberam penas de prisão
perpétua. Viola ganhou dezessete anos de cadeia. Todos perderam
as patentes militares.
Jorge Videla, Emilio Massera e Roberto
Viola nunca acreditaram que a democracia fosse um bom regime para
a Argentina, mas a ela devem a vida. Presidiram um regime no qual
20.000 pessoas foram assassinadas sem que suas famílias conseguissem
receber de volta nem explicações nem os cadáveres.
Receberam da democracia um julgamento público. Negaram a
seus adversários os mais elementares direitos humanos, permitindo
que quartéis se transformassem em centros de tortura. Receberam
da lei o direito de defesa. Jorge Rafael, Emilio e Roberto tiveram
a sorte de não encontrar Videla, Massera e Viola do outro
lado da mesa. Se isso tivesse acontecido, estariam mortos. E, se
as suas viúvas fossem aos palácios procurá-los,
seriam chamadas de "locas".
Militarmente medíocres, os três
exemplares condenados da ditadura argentina foram catapultados da
caserna ao poder sem maiores motivos que os da conveniência
da tropa. Videla, um obscuro professor, foi como governante pouco
mais que um general de almanaque de uniformes coloridos. Massera,
um almirante mulherengo, exibicionista e trapalhão, exibia,
ainda no poder, as características básicas do aproveitador.
Viola, um general de pouca vontade, soube ser enérgico contra
adversários civis e deixou-se depor por colegas militares
com a resignação do penetra convidado a deixar uma
festa. Todos os três, no poder, anunciaram que lideravam um
processo de reconstrução nacional. No banco dos réus,
depois de ter presidido uma das maiores desorganizações
já vistas no continente, procuraram, através de condutas
diversas, demonstrar que não eram criminosos.
UTOPIA CONSERVADORA - A Corte de
Justiça que os remeteu à cadeia produziu uma sentença
ao mesmo tempo histórica e didática. Eles foram condenados
por uma razão e apenas uma: o descumprimento das leis vigentes
no país ao tempo em que eram governantes. Esse motivo tão
simples pode parecer absurdo por faltar-lhe grandiloqüência.
No entanto, o aspecto civilizador das leis está precisamente
na capacidade que elas têm de atingir tanto um governante
quanto um punguista. Os generais argentinos, como tantos outros,
acreditaram num Estado em que as leis podiam ou não valer,
segundo a conveniência de uma utopia conservadora, mãe
da generosa prole de ditaduras continentais. Trata-se de um mundo
ideal e simples. Nele, acredita-se que uma nação só
progride em ordem e para haver ordem é preciso que se tenha
menos liberdade e mais energia. Para que a sociedade aceite medidas
enérgicas é necessário que haja força
e, por isso, deve-se recorrer militares, fonte suprema de força,
energia e ordem.
Num continente em que o general Juan Perón
foi arquétipo da ladroagem argentina, o general Pérez
Jiménez foi paradigma de degenerado na Venezuela e o general
Mariano Melgarejo tornou-se exemplo de demência na Bolívia,
pretendendo comandar uma carga de cavalaria nos Andes para socorrer
Napoleão II, que estava em dificuldades na batalha de Sedan,
na França, o mito da ordem militar sobreviveu de longe à
sua negação pela História.
SALVACIONISMO VULGAR - Na realidade,
ao fim da recente epidemia de ditaduras, vê-se com alguma
clareza que nem mesmo os militares acreditam na ordem de seus regimes.
Jamais houve tanta anarquia nos quartéis argentinos quanto
no período em que os generais reconstruíam através
de apostilas e conspirações a vida da sociedade civil.
Por trás do mito da ordem, as ditaduras trouxeram sempre
uma política conveniente sobretudo aos setores mais conservadores
e liberticidas, interessados em obter mais trabalho por menos salários,
mais negociatas com menos liberdade de imprensa e mais poder com
menos oposição parlamentar. Ao fim das contas, desejavam-se
o máximo de proclamações dos quartéis
e o mínimo de eleições.
País algum foi reconstruído
através do salvacionismo vulgar desses regimes. Pelo contrário.
Na Argentina as Forças Armadas foram lançadas na anarquia
e dela passaram ao delírio beligerante que culminou na humilhação
da guerra das Ilhas Falklands, em 1982. Regimes construídos
numa visão apocalíptica deste fim de século
e instruídos por uma coleção de preconceitos
mambembes de "segurança nacional" terminaram em
graus variáveis de desgraça. A maior delas coube à
Argentina, e a esse país coube o marco de enviar os ditadores
à cadeia. Os generais Videla e Viola, bem como o almirante
Massera, disseram no tribunal que combateram a chamada "guerra
revolucionária" e, portanto, seus governos são
inocentes. Se tivessem estudado melhor as opiniões do general
francês Jacques Massu, um dos criadores, na Argélia
dos anos 50, da parafernália ideológica da segurança
nacional, teriam aprendido: "A idéia de que os militares
podem governar um país é, no mínimo, uma soberba",
disse Massu. Precursor e pragmático, o general levou a tortura
ao Exército francês, mas antes aplicou-se choques elétricos
para saber que efeitos eles podiam fazer.
Nas dez páginas seguintes contam-se
as histórias da condenação dos generais e também
da vitória daquelas mulheres que ficavam diante do palácio
do governo com os retratos de seus maridos e filhos desaparecidos.
Eles as chamavam de "las locas". Elas os chamavam de assassinos.
Na semana passada, por decisão judicial, essa questão
foi resolvida: as loucas tinham razão.
A
noite dos generais
Depois de sete meses de um julgamento
histórico, as condenações fecham um ciclo inédito
de terror, corrupção e impunidade
"Estou preparado para o pior",
confidenciou a um amigo o general Jorge Rafael Videla, ex-presidente
da Argentina, pouco depois do início do histórico
julgamento, encerrado na semana passada, que colocou no banco dos
réus os chefes da ditadura que dominou o país de 1976
a 1982. Cabeça do golpe que inaugurou o capítulo mais
trágico da vida argentina, Videla ainda se comportava então,
mesmo preso, com a altivez e a postura de estátua de salão
nobre que exibiu no poder. Alto e magro, silhueta que lhe valeu
o apelido popular de "Pantera Cor de Rosa", extremamente
empostado e cioso da própria aparência, Videla fez
questão de comparecer às primeiras sessões
do tribunal engalanado com todas as condecorações
de seu uniforme militar - para deixar claro, conforme explicou,
que sentia orgulho por ter comandado o Exército no combate
ao terrorismo. Sentava-se no banco dos réus, acusado de dezesseis
homicídios, ao lado de outros oito chefes militares.
Esses nove homens compuseram as três
juntas militares que subjugaram o país entre a queda da presidente
Maria Estela Martínez de Perón, a "lsabelita",
e o desastre nas Malvinas, em 1982. O almirante Emilio Massera e
o brigadeiro Orlando Agosti integraram, com Videla, a trinca do
primeiro reinado. Depois vieram o general Roberto Viola, o almirante
Armando Lambruschini e o brigadeiro Omar Graffigna. Enfim, coube
à Argentina sobreviver à junta formada pelo general
Leopoldo Galtieri, o brigadeiro Basilio Lami Dozo e o almirante
Jorge Anaya. Nas longas semanas seguintes, enquanto se arrastava
o julgamento, esses nomes seriam associados a casos de seqüestro,
tortura e morte que resultaram no desaparecimento de quase 9 000
argentinos.
PRESSÕES - Videla, o homem
que em 1977 atrasou em 1 hora e meia um encontro com o então
secretário de Estado americano, Cyrus Vance, porque se demorou
numa cerimônia de quartel e, de volta ao seu palácio,
decidiu trocar a farda por um traje civil, resolveu depois apresentar-se
ante os seis juízes do Tribunal Federal de Recursos unicamente
de terno - agora para indicar que não aceita autoridade da
corte para julgá-lo. Como o ditador grego Georges Papadopoulos
- que o precedeu em 1975 na galeria de governantes chamados a prestar
na Justiça e hoje cumpre pena de prisão perpétua
na cadeia de Kordallous, de Atenas -, Videla recusou-se a nomear
um advogado. "Os atos de governo exercidos por mim são
matéria de opinião e fogem à alçada
judicial", justificou.
Àquela altura, ainda se temia na
Argentina que o julgamento talvez nem chegasse ao fim, tantas eram
as pressões contra sua realização, sem contar
as dificuldades dos próprios juízes para enquadrar
juridicamente crimes praticados por um aparato clandestino plantado
no poder. Mas, diante do risco de uma condenação mais
iminente, o ex-presidente, de 60 anos, abatido pela desonra pública,
prisão e problemas gastrintestinais, não conseguiu
manter a atitude olímpica a que se propusera. "Isto
é a grande revanche dos perdedores", acusou. A mesma
nota, aliás, foi invocada pelo almirante Emilio Massera,
seu companheiro na primeira junta militar e, a partir de agora,
até o fim da vida, na Penitenciária de Magdalena,
caso se mantenha a sentença proferida pelo juiz León
Arslanian na segunda-feira. "Estou sendo processado porque
ganhamos uma guerra justa", acusou Massera em sua defesa final.
"Se a tivéssemos perdido, não estaríamos
aqui."
TERÇO E COMUNHÃO - Massera,
como Videla e todos os generais levados à Justiça,
defendeu-se argumentando que, na luta contra o terrorismo praticado
por organizações esquerdistas, combateu numa guerra
tão justa quanto "suja". Para os acusadores, o
regime e sua guerra custaram 20 000 assassinatos e quase 9 000 desaparecimentos,
além de mais de 100 000 casos de torturas de presos. Se os
chefes do ciclo militar aberto por Videla, um católico tradicionalista
que inicia o dia com a reza do terço e comunga todos os domingos,
tivessem processado os subversivos em vez de liquidá-los,
de nada poderiam ser acusados. Discutindo a natureza da guerra,
o tribunal poderia ter trabalhado por décadas, mas para os
juízes a questão era outra.
Como sempre, tratava-se de comparar as
leis e os fatos para verificar se neles houvera crimes. A conclusão
foi simples: Videla e Massera, assim como Viola, Agosti e Lambruschini,
foram mandados para a cadeia. Isso porque, segundo os juízes,
"sem desconhecer a necessidade de combater e reprimir o terrorismo,
tal repressão e tal combate nunca deveriam ultrapassar os
limites da lei, sobretudo levando-se em conta que as Forças
Armadas contavam com instrumentos legais suficientes, em vigor já
antes da queda do governo constitucional". Na sentença,
os juízes lembraram que o governo tinha poder de "declarar
zonas de emergência, baixar decretos, efetuar julgamentos
sumários e, até mesmo, aplicar a pena de morte".
Em vez disso, os integrantes das juntas militares preferiram seguir
a via das execuções clandestinas.
"Estudamos as disposições
do direito nacional e internacional, ouvimos teóricos da
guerra convencional e revolucionária, conferimos os ensinamentos
da Igreja Católica e não encontramos uma única
regra que justificasse ou sequer atenuasse a culpa pelos fatos que
foram examinados neste tribunal", acrescenta a sentença.
Videla foi condenado à pena de reclusão perpétua,
o que significa que deverá permanecer numa cela separado
dos seus companheiros de cadeia. Também Massera deverá
ficar preso para sempre, embora a legislação argentina
acene com a possibilidade de devolver-lhe a liberdade no começo
do próximo século, caso mostre bom comportamento.
Viola foi condenado a dezessete anos de prisão. Os três
receberam a pena adicional da "inabilitação perpétua".
Ou seja, deixarão de receber o soldo de oficiais e suas mulheres
terão direito à pensão reservada a viúvas
de militares.
OUTRO BANCO - Os demais tiveram
melhor sorte. Lambruschini ficará preso oito anos e Agosti,
quatro e meio, Graffigna, Galtieri, Anaya e Lami Dozo se viram absolvidos
pelo tribunal, mas os três últimos têm um outro
banco dos réus à sua espera. Eles estavam no poder
quando a Argentina enfiou- se na enrascada das Malvinas - e em janeiro
próximo um tribunal militar dirá se merecem ou não
ir para a cadeia pelo patrocínio da aventura. No processo
concluído na última segunda-feira, tanto os oficiais
absolvidos quanto os atingidos por penas relativamente pequenas
foram favorecidos pelos critérios adotados pelos juízes.
Eles examinaram o envolvimento de cada integrante das três
juntas nos apresentados pelo promotor Julio Strassera, em vez de
analisarem em bloco cada trinca. Além disso, julgaram a participação
de cada Arma nos seis anos de morticínio. Pelo primeiro critério,
o tribunal concluiu que Videla e, logo abaixo, Massera tinham mais
pecados a pagar. Pelo segundo, elegeram o Exército como a
Arma mais envolvida na campanha de extermínio de parte da
população, seguida pela Marinha.
Para alívio do presidente Raúl
Alfonsín, que temia a reação de jovens militares,
nenhum dos réus foi condenado à pena de degradação,
que os exporia a ter os galões arrancados, diante da tropa,
por um oficial de patente inferior. Para preocupação
de outros oficiais envolvidos em casos de seqüestro, tortura
ou morte, o tribunal decidiu que também eles devem ser levados
a julgamento, rejeitando a tese de que os que cumpriram ordens não
são responsáveis. Cerca de 1 600 processos sobre crimes
desse gênero estão em curso na Argentina. Todos irão
adiante, e centenas de outros processos poderão ser abertos.
Os três grandes condenados no processo
encerrado na semana passada seguiram diferentes linhas de defesa.
Videla insistiu na teoria de que fora o comandante de uma guerra
vitoriosa. "Foi uma guerra aceita em seu momento, eu diria
aplaudida em seu resultado por grandes setores da sociedade, sem
cujo concurso talvez não pudesse ter sido possível
a vitória militar conseguida", sustentou Videla numa
das sessões do julgamento. Massera, com mais agressividade,
optou por uma trilha semelhante. "Aqui estamos porque ganhamos
a guerra psicológica", disse Massera num discurso de
improviso em que resumiu sua defesa. "Se necessitam acabar
conosco, que o façam, mas não arrebatem à Argentina
sua única vitória neste século", emendou
adiante, batendo na velha tecla do pessimismo portenho. Viola, enfim,
travou através de seu advogado, José Maria Orgeira,
uma luta corporal com cada acusação em que se viu
envolvido.
ESCORREGÃO - No esforço
para livrar seu cliente da prisão, Orgeira recorreu a qualquer
argumento disponível - a certa altura, afirmou que muitos
argentinos desaparecidos na verdade sobreviveram à repressão
e se refugiaram na Cidade do México. Segundo o advogado,
foi uma decisão infeliz: o terremoto recentemente ocorrido
na capital mexicana é que os teria feito desaparecer de verdade.
"Simultaneamente com as notícias que davam conta do
lamentável terremoto padecido por nosso país irmão,
na Argentina se descobria o véu de uma realidade tantas vezes
afirmada", discursou Orgeira. "A lista dos supostos desaparecidos
é composta, em parte, por nomes de pessoas que por um ou
outro motivo saíram da República Argentina."
Em outro momento da defesa, Orgeira cometeu um grave escorregão
ao sustentar que nenhum subversivo teria sido preso ilegalmente
se nada tivesse feito. Reconheceu, assim, que seu cliente se envolveu
com prisões ilegais - o que, segundo a legislação
argentina, dá cadeia.
À exceção de Graffigna,
que estava em liberdade e compareceu à sessão de leitura
da sentença, os outros réus souberam de seu destino
pela televisão. Antes de anunciar a decisão dos juízes,
o presidente do tribunal, juiz León Arslanian esclareceu,
subindo ligeiramente o tom de voz, que os seis magistrados encarregados
da sentença haviam chegado àquelas conclusões
"por unanimidade". Recolhidos a uma sala da Unidade Penal
22, no centro de Buenos Aires, a duas quadras do Palácio
dos Tribunais, onde permanecem desde março, os homens que
dispuseram do poder de vida e morte sobre 28 milhões de argentinos
durante seis anos souberam que seu sangrento delírio chegara
ao fim. Videla ficou com os olhos pregados num livro até
que sua pena foi anunciada. Então, sem dizer uma palavra,
ele deixou a sala.
No tribunal, tão logo se divulgou
a pena reservada a Massera, ouviu-se um choro em surdina que vinha
do fundo da sala. Era o sueco Ragnar Hagelin, pai de Dagmar Hagelin,
morta aos 17 anos com um tiro na cabeça que a surpreendeu
pelas costas, ao ser confundida com uma militante da organização
terrorista Montoneros numa rua de Buenos Aires. O executor de Dagmar
foi o capitão Alfredo Astiz, o temido "Anjo Louro"
dos porões da tortura, mais tarde celebrizado por sua covardia
na guerra das Malvinas. Astiz, muito valente com adversários
imobilizados, comandava a guarnição encarregada de
defender as ilhas Georgia do Sul quando, à visão dos
navios ingleses, rendeu-se como um guarda-noturno inepto antes de
disparar um único tiro.
Além do choro de Hagelin, emocionou
a platéia presente ao tribunal o incidente protagonizado
pela líder das Mães da Praça de Maio, Hebe
de Bonafini. Ao entrar, Hebe acatara a ordem de entregar o lenço
branco que lhe cobria a cabeça, um dos emblemas das mães
de desaparecidos. Depois, já sentada, tirou da bolsa um outro
lenço e o colocou na cabeça. A pedido do promotor
Strassera, que lhe lembrou a existência de regras que proíbem
a exibição de símbolos políticos em
tribunais, concordou em retirá-lo. Mas resolveu recolocá-lo
quando o juiz León Arslanian começou a anunciar a
absolvição de alguns réus. Polidamente, o juiz
interrompeu a leitura para adverti-la: "Senhora, ou tira o
lenço ou terá de retirar-se". Hebe ergueu-se
e, em voz alta, decidiu: "Está bem, então eu
vou-me embora".
Do lado de fora do tribunal, argentinos
com os ouvidos colados a aparelhos de rádio exultaram com
as condenações mais duras - como se seu time predileto
tivesse marcado um gol - e lamentaram as absolvições
com expressão de derrota. Além das Mães da
Praça de Maio, outros argentinos uniram-se aos protestos
contra decisões que consideraram demasiado brandas. "As
sentenças não têm nenhuma relação
com a magnitude do genocídio praticado", reagiu Adolfo
Pérez Esquivel, ganhador do Prêmio Nobel da Paz em
1980 e presidente do Serviço de Paz e Justiça da Argentina.
Pelo menos um oficial considerou as penas demasiado severas. Trata-se
do contra-almirante Horacio Zariategui, que foi secretário-geral
do Ministério da Marinha entre 1976 e 1978, ao tempo do almirante
Emilio Massera, e na manhã de sexta-feira fez uma desfeita
pública ao presidente Raúl Alfonsín.
Pela primeira vez em seu governo, Alfonsín
comparecera ao Colégio Militar para uma cerimônia de
formatura de cadetes. Recebido de pé pelos militares presentes,
que se perfilaram para a continência de praxe ao chefe supremo
das Forças Armadas, Alfonsín notou que somente o contra-almirante
permanecia sentado. À saída do presidente, repetiu-se
a cena. De volta à Casa , Alfonsín puniu Zariategui
com dez dias de prisão. Ex-aluno do Colégio Militar,
o atual presidente sabe que os oficiais apreciam quem exerce a autoridade.
Com seu tipo de milongueiro bonachão, Alfonsín sabe
preservar a disciplina. Com sua pose de chefe militar, o general
Videla administrou um país convulsionado pelo caos nos quartéis.
Nenhum oficial jamais negou continência. Em contrapartida,
milhares de militares negaram obediência às leis do
país.
MÃOS LIVRES - Videla ascendeu
à Presidência para comandar um projeto pomposo batizado
de Processo Nacional de Reorganização. Num paralelo
extracontinental, terminou como o imperador da Etiópia Hailé
Selassié, que na agonia de seu regime fingia que o trono
ainda era efetivamente seu - e recebia no palácio os militares
do Derg que já tinham esvaziado por completo seu antigo poder.
Videla simulava comandar o Exército, quando, na verdade,
os oficiais tinham as mãos inteiramente livres para manchá-las
com o sangue dos adversários políticos. Bastaria prender
os subversivos - como fez, por sinal, o presidente Alfonsín,
que mantém na cadeia o ex-dirigente montonero Mario Firmenich,
à espera de julgamento e, talvez, de condenação
à prisão perpétua. Mas os militares argentinos
preferiram eliminá-los, e não só os subversivos.
Enquanto o ministro da Economia, José
Alfredo Martínez de Hoz - preso preventivamente durante algumas
horas, na semana passada, por um juiz que resolveu juntar-se ao
noticiário acusando-o de ter destruído a empresa petrolífera
estatal -, articulava uma desastrada política financeira,
os militares punham em prática as idéias de um velho
amigo de Videla, o general Iberico Saint-Jean, nomeado pelo presidente
governador da província de Buenos Aires. "Primeiro,
mataremos os subversivos", pregava Saint-Jean. "Depois,
seus cúmplices e, finalmente, seus inspiradores." Videla,
um homem de hábitos austeros que mesmo na Presidência
sempre engraxou pessoalmente seus sapatos, presidiu a multiplicação
dos mortos na Argentina - e na semana passada, ao pagar por seus
crimes, juntou-se a uma galeria de presos ilustres.
O decano dessa galeria é o alemão
Rudolf Hess, condenado em Nuremberg à prisão perpétua
e, aos 91 anos, ainda recolhido à prisão de Spandau,
em Berlim. Nela figura a viúva de Mao Tsé-tung, Jiang
Qing, uma das cabeças da catastrófica Revolução
Cultural. Aos 71 anos, Jiang Qing, para quem a revolução
"teria de ser impiedosa", hoje faz bonecas de pano numa
prisão nas imediações de Pequim. Outro preso
célebre é o grego Georges Papadopoulos, que, com seus
dois vice-primeiros-ministros, Stylianos Patakos e Nicholas Makarezos,
achava necessário perseguir cabeludos e proibir o uso da
minissaia. Papadopoulos foi igualmente condenado à prisão
perpétua.
Todos se arriscam a cumprir o mesmo destino
do marechal francês Philippe Pétain, chefe do governo
colaboracionista de Vichy, que ficou preso na Ilha de Yeu, na costa
da França, até morrer aos 95 anos. E todos poderiam
ter evitado essa trajetória se assimilassem a tempo a lição
contida numa frase de Pétain numa carta à sua mulher:
"Se eu tivesse sabido que as instalações aqui
eram tão lamentáveis, não teria mandado para
cá nem meus piores inimigos". Para os democratas argentinos,
a punição de Videla e Massera é um aviso a
eventuais aventureiros. "O futuro da tortura está indissoluvelmente
ligado ao futuro dos torturadores", observa o americano Edward
Peters, professor da Universidade da Pensilvânia e autor de
um livro recente sobre o assunto. A frase vale para outros crimes
da mesma família e poderia encaixar-se harmoniosamente na
sentença dos juízes argentinos contra os réus
militares.
O elogio da loucura
Depois de oito anos de luta, as Mães
da Praça de Maio conseguiram
um triunfo que parecia impossível no começo da ditadura
Em julho de 1977, o ministro do Interior
da Argentina, general Albano Harguindeguy, convidou um oficial a
acompanhá-lo ao balcão da Casa Rosada e dali contemplar
um punhado de mulheres que, cabeças cobertas por lenços
brancos, caminhavam lenta e silenciosamente em torno do obelisco
da praça localizada em frente ao palácio do governo.
"Veja, são as loucas da Praça de Maio",
disse Harguindeguy, cunhando uma expressão que ficaria célebre.
Eram mães de argentinos desaparecidos nos porões da
sangrenta repressão política desencadeada pelo regime
militar no ano anterior. Desde abril de 1977, quando se reuniram
na praça pela primeira vez, lideradas por Hebe de Bonafini,
elas exigiam notícias sobre o destino de seus filhos e a
punição dos responsáveis pelos desaparecimentos.
Na última quinta-feira, como têm
feito semanalmente nos últimos oito anos, as mães
estavam de novo na Praça de Maio. Como sempre, eram lideradas
por Hebe de Bonafini, a viúva de 57 anos que, depois de testemunhar
o sumiço de dois filhos e uma nora, teve a idéia de
reunir semanalmente na praça suas companheiras de infortúnio.
Algumas estavam acompanhadas dos maridos e de outros parentes. Todas
portavam os mesmos lenços brancos e exibiam cartazes com
o rosto e o nome dos parentes perdidos, além de uma inscrição:
"Com vida me levaram". Mas muita coisa mudara.
O general Jorge Rafael Videla, por exemplo,
que estava na Presidência quando Harguindeguy as batizou de
loucas, agora cumpre a pena de reclusão perpétua a
que foi condenado. O próprio Harguindeguy, por enquanto posto
em sossego no seu amplo apartamento no bairro de Palermo, pode acabar
na cadeia onde hoje estão recolhidos outros de seus ex-chefes,
todos condenados pela Justiça argentina. Na última
quinta-feira, enfim, a própria paisagem da Praça de
Maio mostrava fundas diferenças em relação
aos tempos da ditadura.
PROVA VIVA - No lugar dos antigos
pelotões de soldados armados de metralhadoras, só
dois carros da Polícia Federal e dois policiais motorizados
guardavam a Casa Rosada. Junto com as mulheres, marchavam também
crianças segurando seu próprio retrato e uma dramática
inscrição: "Nascido em cativeiro". Essas
crianças, filhas de desaparecidos, recuperadas anos depois
de seu nascimento pelos avós - e constituíam na semana
passada uma prova viva de que a teimosa loucura das mulheres da
praça, além de conseguir a punição dos
generais, conseguiu resgatar ao menos alguns argentinos tragados
pela repressão. Nem por isso os 10 000 manifestantes liderados
por Hebe de Bonafini estavam satisfeitos: "Ahora, ahora, resulta
indispensable: aparición com vida e castigo a los culpables!",
gritava a multidão concentrada diante da Casa Rosada.
A manifestação convocada
por Hebe Bonafini começou na noite de quarta-feira e, madrugada
adentro, incorporou milhares de outros argentinos igualmente decepcionados
com a sentença divulgada na segunda-feira - eles consideram
algumas penas demasiado brandas. "Nó sempre soubemos
que o governo não teria determinação política
para condenar os responsáveis", acusa Hebe. "Os
únicos condenados foram nossos filhos, chamados de terroristas
sem terem sido julgados." Segundo Hebe, o julgamento dos militares
acabou servindo de instrumento para manobras eleitorais do governo
Raúl Alfonsín. "Dias antes das eleições
parlamentares, foi feita a leitura da peça da promotoria,
que era bastante dura", observa Hebe. "Agora, passadas
as eleições, os criminosos são perdoados."
O coro dos descontentes não se limita
às Mães da Praça de Maio - ele abrange, por
exemplo, o ex-presidente italiano Sandro Pertini, cuja densa biografia
inclui um combate sem tréguas ao nazi-fascismo. "Não
quero entrar no aspecto jurídico que aconselhou os magistrados
de Buenos Aires a condenar à prisão perpétua
apenas dois dos responsáveis pela tragédia argentina",
ressalvou Pertini em Roma, na manhã de quinta-feira passada.
"Mas, do ponto de vista moral, acho que muita gente, e com
razão, ficou amargurada diante de tamanha brandura."
Pesquisas de opinião pública recentemente promovidas
atestam que 90% dos argentinos desejam a punição dos
militares envolvidos em crimes políticos e 70% entendem que
também os oficiais de patentes inferiores devem ser levados
a julgamento. Mas é improvável que manifestações
em favor de penas mais rigorosas consigam arrastar multidões
às ruas de Buenos Aires.
CRÍTICA DOLOROSA - "Há
desinteresse, há silêncio, há falta de participação",
reconhece Hebe de Bonafini, "mas creio que tudo isso ocorra
por desinformação e por medo". A verdade é
que milhões de argentinos entendem que o desfecho do processo
foi adequado tanto do ponto de vista político quanto do jurídico.
"Os juízes foram hábeis ao não emitir
sentenças demasiadamente severas", acredita o cientista
político Guillermo O'Donnell, argentino radicado no Brasil,
onde se dedica à pesquisa dos processos de transição
ocorridos em países submetidos a regimes autoritários.
"É importante castigar, mas com moderação.
Nada de olho por olho, dente por dente", recomenda O'Donnell.
"Acho que o presidente Alfonsín ficou bastante fortalecido."
"É doloroso criticar as Mães
da Praça de Maio, que desempenharam um histórico e
heróico papel. mas é preciso fazê-lo",
emenda o escritor Pablo Giussani, autor do livro A Soberba Armada,
em que faz uma severa análise da organização
terrorista Montoneros, à qual esteve ligado. "As mães
inicialmente queriam a entrega dos militares à Justiça",
observa Giussani. "Agora, renegam a Justiça e querem
a intervenção do Estado no papel de juiz." Segundo
o escritor, os setores ligados a Hebe de Bonafini exigem a existência
de um inimigo que deve ser destruído - "e os argentinos
estão fartos desse automatismo agressivo agregado ao culto
do maniqueísmo".
"Ele diz isso porque aderiu ao governo
de Alfonsín", rebate Hebe. O presidente Raúl
Alfonsín, por sinal, viu cumprida na semana passada uma das
mais caras promessas de sua campanha - a de levar a julgamento os
responsáveis pelos anos negros da repressão. Parecia,
então, uma promessa impraticável, tão impraticável
quanto as palavras de ordem das Mães da Praça de Maio
nos anos 70. Naquela época, com o Congresso fechado, Raúl
Alfonsín era um político em recesso forçado
sobrevivendo como advogado. Como tantos outros argentinos, ele poderia
ter sido incorporado à galeria dos desaparecidos - bastaria
que um oficial qualquer o incluísse no índex dos que
deviam morrer para que um comando noturno modificasse o curso da
História. Mas sobreviveu para chegar ao poder e ver sua promessa
materializar-se, para espanto de generais como Albano Harguindeguy.
VALOR INESTIMÁVEL - É
natural que Harguindeguy considerasse loucas tanto as Mães
da Praça de Maio quanto as promessas de Alfonsín -
seu conceito, afinal, repousava na lógica do poder sem limites.
Nessa lógica, aliás utilizada pelo governo da União
Soviética para declarar a insanidade mental dos dissidentes
e interná-los em hospícios, só a loucura poderia
fazer alguém pensar ser possível enfrentar uma junta
militar destinada a reorganizar a nação argentina,
ainda que ao preço do extermínio de uma parte da população.
Atrás dessa loucura, contudo, havia o patrimônio cultural
da humanidade.
Mulheres como Hebe de Bonafini, decididamente,
em certas épocas e em certos países, são, todavia,
mais parecidas com o gênero humano que os generais das juntas
argentinas. A produção desse tipo de louco providencial
é, por sinal, uma das marcas da humanidade. Em junho de 1940,
por exemplo, com seu país ocupado por tropas alemãs
e, administrado pelo governo colaboracionista de Vichy, um jovem
general francês, com quase 2 metros de altura, circulava em
Londres num carro adornado por uma bandeira tricolor bordada pela
mulher de um coronel que o assessorava. Sua determinação
de resistir ao avanço nazista parecia tão insana que
no dia 18 de junho de 1940, quando compareceu à BBC para
fazer um discurso ao povo francês, os técnicos da rádio
inglesa nem se preocuparam em gravar a alocução.
Perdeu-se, assim, a oportunidade de guardar
para a História uma relíquia da II Guerra Mundial
- o primeiro discurso do general Charles de Gaulle em seu desterro
londrino. Ele conclamou franceses e francesas a resistir ao invasor,
derrubar os "governantes de ocasião" e restaurar
o regime legal. Sustentou também, numa imagem mais tarde
repetida à exaustão por outros oradores, que a França
perdera uma batalha, mas não a guerra. No dia 2 de agosto,
De Gaulle foi condenado à morte pelos "governantes de
ocasião", chefiados pelo marechal Philippe Pétain,
que se apresentava à veneração de seus compatriotas
como "Pai da Pátria". Quatro anos depois, Pétain
estava na cadeia e De Gaulle no poder. Também nos anos 40,
o rabino Leo Baeck, preso no campo de concentração
de Theresienstadt, na Checoslováquia, dava aulas sobre a
obra de Platão e meditava sobre a criação do
Estado de Israel. Parecia louco. Mas viveu para assistir em liberdade
à consumação de seu sonho.
REFRÃO AMPLIADO - "Para
as gerações futuras, o exemplo das Mães da
Praça de Maio ficará como um inestimável valor
ético", diz o escritor argentino Osvaldo Bayer. "Elas
foram o único expoente da resistência em meio a um
povo que não soube opor-se à ditadura mais criminosa
e corrupta de toda a sua História." Hebe e suas companheiras
mantiveram-se agarradas à sua obsessão mesmo quando
todo o resto da Argentina parecia sucumbir a apelos patrióticos
forjados pelos militares no poder. Durante a guerra das Malvinas,
por exemplo, multidões compareciam à Praça
de Maio para gritar o refrão expedido pelo governo do general
Leopoldo Galtieri: "As Malvinas são argentinas".
Nas manhãs de quinta-feira, as mães juntavam-se aos
manifestantes e ampliavam a palavra de ordem: "As Malvinas
são argentinas, e o desaparecidos também", repetiam.
"Um desaparecimento nunca é
esquecido por um parente, e ele não se tranqüilizará
enquanto os segredos que envolvem o caso não forem esclarecidos",
diz José "Pepe" Zalaquett, um combativo advogado
chileno especializado em direitos humanos e atualmente exilado em
Washington. Pepe Zalaquett, dono de uma agenda de endereços
que lhe permitiria enriquecer rapidamente se resolvesse tomar-se
empresário, tem intimidade tanto com autoridades quanto com
a situação política de outros países.
"Também ocorreram horrores no Brasil ou no Uruguai",
compara. "Mas, nesses países, parentes e amigos geralmente
souberam a verdade, o que não ocorreu na Argentina."
Para Zalaquett, a decisão dos juízes favoreceu politicamente
o presidente Alfonsín. "O governo argentino está
na posição de um poder vitorioso que investiga e julga
crimes praticados por autoridades já desprovidas de qualquer
poder militar", pondera.
ESQUECIMENTO - "O mais importante
na sentença é que juízes chegaram à
conclusão de que houve uma repressão clandestina no
país, com seqüestros, e mortes, e que tudo isso foi
feito pelos militares", afirmou, na segunda-feira, à
saída do tribunal, promotor adjunto Luiz Moreno Ocampo. "Eu
preferiria que a sentença fosse a pedida pelo promotor Julio
Strassera", diz o coronel da reserva Jaime Cesio. "Mas
o essencial é aceitarmos e respeitarmos as decisões
da Justiça. Do contrário, jamais nos reencontraremos.
" O promotor Robert Jackson, principal acusador americano no
julgamento de Nuremberg, também gostaria de ter obtido condenações
mais duras para alguns nazistas, mas rendeu-se à decisão
dos juízes. "O princípio cardinal é que
não se pode colocar um homem no banco dos réus se
não se admite a possibilidade de ele ser libertado",
ensinava Jackson.
Poucos argentinos lamentaram publicamente
a prisão perpétua imposta a Videla e Massera. Entre
eles figuram as 1 500 pessoas que compareceram, na quinta-feira,
à missa mensalmente encomendada pela organização
Familiares e Amigos dos Mortos pela Subversão - e que à
saída gritaram refrões anticomunistas e vivas aos
ex-comandantes punidos. Hebe de Bonafini teme que, com o tempo,
mais argentinos achem desnecessário manter na cadeia os responsáveis
pelos anos negros. Precedentes históricos favorecem seu raciocínio.
Em 1948, apenas 18% dos franceses aceitavam a libertação
do marechal Pétain. No ano seguinte, essa percentagem já
alcançava 37%. Em 1980, apenas 8% dos franceses achavam que
o marechal traíra seu país, contra 59% que encampavam
a tese segundo a qual Pétain agira com boas intenções,
mas fora atropelado pela História. Fosse qual fosse a opinião
dos franceses, o fato é que o marechal morreu na cadeia.
O escritor Emesto Sábato, que durante
nove meses comandou a pesquisa que resultou no livro Nunca Más
- uma dramática sucessão de casos de seqüestros,
torturas e assassinatos catalogados pela Comissão Nacional
sobre o Desaparecimento de Pessoas -, admite que o resultado do
julgamento não foi exatamente o que muitos argentinos, ele
inclusive, esperavam. "Mas isso pode ocorrer em qualquer sistema
judiciário, por mais perfeito que seja", ressalva Sábato.
"Assim, com todos os defeitos que este julgamento possa ter,
foi um processo único na História. Devemos considerá-lo
como uma honrosa contribuição da democracia argentina
a toda a humanidade."
A cadeia tem algumas comodidades
Os cinco ex-comandantes condenados já
estão de malas prontas. Eles aguardam apenas uma ordem judicial
para se mudar da Unidad 22, um insalubre presídio no centro
de Buenos Aires, para um lugar mais aprazível: a Penitenciária
de Magdalena, uma prisão militar no campo, a 120 quilômetros
da capital. Ali deverão cumprir suas penas - mas afastados
dos presos comuns, soldados que cumprem penas por insubordinação
e jovens que foram detidos ao se recusarem a prestar o serviço
militar por serem testemunhas-de-Jeová.
Os generais conhecem bem o local: eles
já passaram cinco meses ali cumprindo prisão preventiva,
antes de serem transferidos para a U-22, às vésperas
do julgamento, em abril passado. A diferença, agora, é
que os cinco sabem exatamente o tempo estipulado para a sua hospedagem
forçada. Caso sejam mantidas as sentenças, o brigadeiro
Orlando Agosti, 62 anos, tem reserva confirmada até o meio-dia
de 23 de abril de 1989. O almirante Armando Lambruschini, 60 anos,
sairá no dia 29 de outubro de 1992. O general Roberto Viola,
61 anos, só recuperará a liberdade no próximo
século: ao meio-dia de 21 de outubro de 2001. Seu velho amigo,
o general Jorge Rafael Videla, 60 anos, e o almirante Emilio Massera,
59 anos, estão condenados a viver ali para sempre. Caso mereçam
os benefícios legais reservados aos presos de bom comportamento,
a prisão perpétua poderá ser revista. Nessa
hipótese, ambos têm chance de deixar a cadeia em outubro
de 2004.
TORNEIOS DE TRUCO - Todos terão
certas vantagens em relação aos delinqüentes
comuns, já que não usarão roupas de presidiários
e viverão em chalés com janelas sem grades, recolhidos
a quartos pintados de cor creme. Há um banheiro para cada
conjunto de dois quartos - equipado com banheira. Os oficiais-presidiários
deverão receber diariamente um exemplar dos jornais Clarín
e La Nación e poderão assistir a seus programas favoritos
num televisor em cores instalado num salão de 24 metros quadrados
onde também serão servidas quatro refeições
diárias. No verão, por exemplo, um prato de frios
poderá substituir a sopa, como entrada no almoço e
jantar. E frutas da estação ou sorvetes, em vez de
pudins, adoçarão a sobremesa.
Como o general Videla está condenado
à reclusão perpétua - e não à
prisão perpétua, como o almirante Massera -, levará
uma vida solitária, apartado dos companheiros, limitando-se
à leitura dos livros religiosos e de História, que
aprecia, regada a generosas porções de mate cozido.
Ele também poderá dedicar-se à conclusão
do livro de memórias que começou a escrever alguns
meses atrás. O ex-presidente já estabeleceu uma rotina
na prisão. Faz mais de um ano que, todos os dias, varre sua
cela, exercita-se numa bicicleta fixa e recebe visitas da mulher,
Raquel Alicia, que sempre leva roupas lavadas em casa para o marido.
No seu penúltimo aniversário, ela promoveu uma festa
em família, com champanhe para todos. Os outros quatro presos
poderão continuar a se reunir como nos últimos tempos.
O quarteto costuma distrair-se com torneios de truco após
o jantar, em noitadas que recendem as baforadas do brigadeiro Orlando
Agosti em seus charutos.
Avós contam com a sorte na busca
dos netos
As Avós da Praça de Maio
têm tido mais sorte do que as Mães. Desde 1977, quando
iniciaram seu movimento, as mulheres argentinas em busca dos filhos
seqüestrados não conseguiram encontrar um único
"desaparecido". Nesse mesmo período, as Avós
da Praça de Maio descobriram 28 das 180 crianças seqüestradas
junto com seus pais ou nascidas nas prisões clandestinas
do regime militar. Algumas delas haviam sido adotadas pelos próprios
responsáveis pela morte de seus pais verdadeiros. "É
uma busca quase louca, na qual não se pode desperdiçar
o menor boato", diz a presidente do grupo das Avós da
Praça de Maio, Maria Isabel de Mariani.
Investigando por conta própria,
elas alcançaram o primeiro resultado concreto em 1979, ao
localizar na cidade de Valparaíso, no Chile, os irmãos
Anatole e Victoria Grisonas. As crianças tinham sido abandonadas
por agentes argentinos numa praça da cidade e acabaram adotadas
por um casal chileno, em cujo poder continuam até hoje, com
a concordância de seus avós verdadeiros. O caso mais
recente e espetacular veio à luz no último domingo
de agosto passado. Nesse dia, Matilde Artés Company reencontrou-se
numa sala de tribunal com sua neta, Carla Graciela, hoje com 10
anos. Os pais de Carla morreram sob tortura quando ela tinha apenas
1 ano e a menina foi adotada por um agente do regime militar atualmente
preso sob a acusação de envolvimento em dezenas de
assassinatos.
Ao ver Matilde pela primeira vez Carla
perguntou: "Você é minha avó? Por que demorou
tanto?" Na semana passada, Matilde não quis fazer comentários
sobre a condenação dos ex-comandantes, acatando a
orientação do juiz que oficializou a entrega da neta.
Essa tragédia tem outra face, menos conhecida: os distúrbios
sofridos pelas crianças que testemunharam o seqüestro
dos pais. Um grupo de psicólogos que acompanha esses casos
constatou que 67% das crianças sofrem de pesadelos constantes
e 71 % demonstram "passividade intelectual e emocional".
Há casos piores. Um menino de 12 anos, que passava horas
diante da janela aguardando em vão o regresso dos pais e
de quatro tios seqüestrados, foi encontrado morto na cama,
certa manhã. O atestado de óbito registrou a causa:
parada cardíaca.
|
|