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18 de julho de 1990
O pesadelo de
uma bela cidade

Marcado pelos seqüestros, o
Rio tem uma população empobrecida
e uma economia anestesiada

A maioria dos brasileiros guarda uma boa lembrança do Rio de Janeiro. Deslumbrado com as praias, o clima e as florestas da cidade, em 1920 o paulista Monteiro Lobato a definiu como "o grande almoxarifado das belezas naturais" do Brasil. Mais tarde, o país inteiro aprendeu a brincar o Carnaval pelo padrão criado pela boemia carioca, e sempre se achou muito natural entrar na folia ao som daquela marcha que louvava a "Cidade Maravilhosa, cheia de encantos mil, coração do meu Brasil". Durante décadas, a então capital federal atraiu para si muito do que o país tinha de melhor em termos humanos: escritores, artistas, políticos, homens de idéias, de cultura e de talento tinham ali o seu ponto de convergência, e a todos encantavam as proverbiais cortesia, cordialidade e verve da gente carioca.

O Rio sempre serviu, também, como uma espécie de árbitro para o que deveriam ser a moda, o gosto e as tendências do Brasil como um todo. Foi no Rio dos anos 70 que a cantora Gal Costa instalou-se na Praia de Ipanema em companhia de um séquito de pessoas de cabelo crespo, bolsa a tiracolo e conversas esquisitas - criavam-se ali as "dunas do barato" e toda uma espécie de cultura. Talvez tenha sido a última manifestação de vitalidade daquela que todos consideravam, afetuosamente e com orgulho, sua segunda cidade. De lá para cá, os brasileiros puderam aprender que o Rio de Janeiro mudou muito - para transformar-se na mais dolorosa tragédia brasileira do século XX.

Em 1980, a Baixada Fluminense, cinturão miserável na periferia da segunda maior cidade do país, foi reconhecida oficialmente pela ONU como a região mais violenta do mundo. São assassinadas ali mais de 2.500 pessoas por ano, número superior à soma de brasileiros mortos em combate na Revolução de 1930, na guerra paulista de 1932, na II Guerra Mundial e no período de repressão do regime do AI-5. Em 1981, 36% dos cariocas declararam, em um levantamento do Instituto Gailup, que já haviam sido assaltados pelo menos uma vez na vida. Em 1988, bandidos conhecidos pelos apelidos de "Naldo" e "Buzunga" tornaram-se celebridades nacionais ao convocar a imprensa para anunciar, de metralhadora em punho, que haviam tomado posse de um pedaço do comércio de drogas na cidade.

O ano de 1990, como se sabe, marcou a rotina do Rio pela facilidade com que se comete um crime que a Constituição classifica como hediondo - o seqüestro, que trouxe para as págínas dos jornais nomes como "Maurinho Branco" e "Professor", por exemplo, criminosos que submeteram o empresário Roberto Medina, da agência de publicidade Artplan, a um cativeiro de quinze dias. Foram trinta seqüestros em seis meses, contra quinze em todo o ano de 1989 e dez em 1988. A trigésima vítima é o empresário alemão Wolfgang Rudolf Prinz, diretor da Aumund do Brasil, seqüestrado por seis homens nos portões da empresa, na Zona Norte do Rio, na quarta-feira da semana passada.

SUMIÇO DE 1,5 MILHÃO DE DÓLARES - Terminado o seqüestro, Medina está traumatizado, mas livre, são e salvo na medida do possível. A realidade, porém, é que aspectos cruciais de seu seqüestro permanecem misteriosos - e podem se transformar numa fábrica de dinamite no interior da máquina policial do Rio de Janeiro, além de nova fonte de inquietações para os 6 milhões de moradores da cidade. Um dos principais enigmas é saber quanto a família pagou pelo resgate e para quem foi o dinheiro. Oficialmente, sabe-se que os bandidos receberam uma bolada de 2,5 milhões de dólares. Também oficialmente, o Banco Central informa que a família foi autorizada a comprar uma soma bem maior de dinheiro pelo câmbio oficial - 4 milhões de dólares, em duas etapas, uma de 1,5 milhão e a outra de 2,5 milhões.

Descobriu-se, na semana passada, que essa diferença, que obviamente deveria ser devolvida aos cofres do banco, não se encontrava com Roberto Medina nem com nenhum dos integrantes da equipe que participou das dramáticas negociações para salvá-lo. Há poucos dias, surgiu uma primeira pista a respeito de seu paradeiro. Em conversa com um conhecido, uma pessoa que esteve com o deputado Rubem Medina, irmão do empresário e uma personalidade-chave das negociações em torno do seqüestro, ouviu a informação de que uma parte desse dinheiro tenha sido gasta com policiais que atuaram na operação de resgate. Até aí, nada demais. Poucos hábitos estão tão integrados às delegacias brasileiras como o de empresários às voltas com criminosos tirarem dinheiro do próprio bolso para fazer funcionar, com mais eficiência, uma máquina sabidamente enferrujada há quem pague a gasolina para os automóveis poderem circular e também ofereça um bom emprego num serviço privado de segurança. O problema é que, no caso Medina, essa atitude envolveria uma soma colossal de 1,5 milhão de dólares.

Procurado por VEJA, na sexta-feira da semana passada, Rubem Medina admitiu que o 1,5 milhão de dólares não se encontrava em poder da família, mas não entrou em maiores, detalhes sobre seu paradeiro. "Vamos pagar ao Banco Central o que devemos, já nos próximos dias", disse o deputado. Sobre a possibilidade de que teria sido obrigado a pagar a policiais corruptos, que teriam inflacionado o valor final do seqüestro em mais de 50%, Medina faz um desmentido categórico. "Isso é loucura, não ocorreu", diz. Mais tarde, contudo, o deputado lembra que vive no Rio de Janeiro. "Tenho mulher, filhos e muito medo", diz ele. "E só vou falar tudo o que sei sobre esse sequestro quando sentir que há lei e segurança neste país."

Como qualquer outro parlamentar, Medina dispõe de direitos inacessíveis a um cidadão comum. Pode circular à vontade pelos palácios onde as autoridades fazem seus despachos, tem cacife para apresentar pedidos e reivindicações de seu interesse - e até dispõe de uma regalia exclusiva da categoria, a imunidade. O problema é que se ele sabe do envolvimento de policiais que teriam embolsado 1,5 milhão de dólares no resgate e sente-se incapaz de fazer uma denúncia às claras por temer o que pode acontecer com sua família é porque se sente um cidadão muito menos imune do que, por exemplo, o contrabandista João Simão Neto. Em 1987, de fato, Simão Neto denunciou o delegado paulista Josecyr Cuoco, encarregado das investigações do seqüestro do ex-vice-presidente do Bradesco Antonio Beltran Martinez, de torturá-lo nas dependências de uma delegacia para confessar a autoria do crime. Preso, julgado e condenado, até hoje Cuoco cumpre pena em São Paulo.

SEMENTE DE MEDELLÍN - Outra cena histórica que tem muito a ensinar sobre as terríveis transformações ocorridas no Rio de Janeiro, contudo, aconteceu em Nova York. Foi ali, num escritório com trinta funcionários instalado num velho edifício, na extremidade sul de Manhattan, que tomou posse um dos novos executivos do Lloyd Brasileiro, a empresa estatal de navegação, o publicitário José Colagrossi Neto, o "Juca Colagrossi", 33 anos, que também se envolveu nas negociações com os seqüestradores de Medina. Para quem gosta de imaginar que o problema número 1 do país é a mordomia e o tráfico de influências na máquina do governo, está aí uma excelente notícia. Colagrossi entende tanto de navios como a maioria dos brasileiros entende de beisebol. Seu salário ficará na faixa dos 7.000 dólares por mês e ele irá residir, com a mulher e o filho, numa das mais agradáveis cidades do mundo. Ele é um velho amigo do presidente Fernando Collor, para quem trabalhou na campanha presidencial, e tornou-se, desde a posse, um dos pivôs da política do Rio de Janeiro.

Na realidade, às pessoas com as quais se encontrou antes de embarcar para Nova York, no sábado dia 7, Colagrossi transmitiu uma impressão bem diferente - a de uma pessoa convencida de que, se não deixasse o país, seria um homem morto. No Rio, ele era apontado como candidato com chances de ser presenteado com um dos melhores cargos federais da praça - a presidência da Light. Sua mulher, Ana Luiza, até já tomara posse de outro posto nobre da administração na cidade, a presidência da LBA. Subitamente, porém, e logo após encerrado o seqüestro, todo esse edificio de prestígio veio abaixo. Em Brasília, após uma conversa com o embaixador Marcos Coimbra, secretário-geral da Presidência, e um diálogo rápido com o próprio Fernando Collor, sua nomeação consumou-se em menos de 48 horas.

Agora a família encontra-se em Nova York e alugou urna casa em Nova Jersey, a uma hora de trem do escritório do Lloyd Brasileiro, num típico subúrbio de classe média americana. Na semana passada, circulava nos meios empresariais do Rio de Janeiro o rumor de que Colagrossi teria sido a pessoa que ouviu dos próprios seqüestradores a informação de que uma parte do resgate destinava-se a policiais. Teria ouvido também a explicação de que eram esses novos sócios no crime que haviam provocado um aumento no valor a ser pago. "O teor de minhas conversas com os seqüestradores é algo que faço o possível para esquecer", diz Colagrossi, em Nova York. "Por enquanto, não respondo a nenhuma pergunta sobre eventuais ameaças que tenha recebido."

Caso venha a ser confirmada, a possibilidade de que uma fatia da máquina policial do Rio de Janeiro tenha embolsado uma parcela do resgate irá se transformar no maior escândalo do gênero da História do país. O embarque de Juca Colagrossi para Nova York, contudo, já é um acontecimento rico em ensinamentos. Nem mesmo um amigo do presidente Fernando Collor, que tem a sua disposição quase 6.000 agentes da Polícia Federal e até mesmo, em caso de catástrofe, 300.000 soldados do Exército para manter a ordem no país, consegue sentir-se em segurança na segunda maior cidade brasileira. No momento em que desembarcou no Aeroporto Kennedy, em Nova York, Colagrossi transformou-se, sem que ninguém tivesse se dado conta, no primeiro "refugiado político" do Rio de Janeiro entregue ao crime. Transformou-se também no símbolo de uma semente venenosa - seu nome é Medellín, a cidade da Colômbia onde o governo pela mão do Estado foi substituído pelo governo pela mão dos criminosos.

Existe, evidentemente, uma gigantesca diferença de tamanho entre uma situação e outra. Membros com cadeira cativa nas listas de personalidades mais ricas do mundo, os traficantes de cocaína da Colômbia formaram um autêntico governo paralelo não apenas em Medellín mas em todo o país. Apoderam-se da máquina pública, chegam a lançar propostas exóticas, como pagar a divida externa em troca da garantia de que não serão extraditados para os Estados Unidos, e mantêm em funcionamento uma máquina de violências sem igual contra os que definem como seus adversários. Em cinco anos, o cartel da droga de Medellín assassinou três candidatos à Presidência da República, um ministro da Justiça, um governador, cinqüenta juízes e 1.000 policiais.

Não é essa, como se sabe, a paisagem do crime no Rio de Janeiro. Não se tem notícia de um único policial, promotor ou juiz que tenha sido jurado de morte por quadrilhas da cidade, muito menos um secretário de Segurança ou um governador. Também não é garantido que isso venha a ocorrer um dia. É certo, de qualquer modo, que há dez anos, quando começou a montar seu império criminoso, a máfia de Medellín provocou, em vários cidadãos de seu país, uma reação idêntica à de Juca Colagrossi - centenas de personalidades, muitas com cargos no primeiro escalão do governo, preferiram refugiar-se no estrangeiro e levar uma vida discreta.

1 MILHÃO DE EMPREGOS - O pesadelo cotidiano dos cariocas multiplica a impressão de que a cidade transformou-se numa lavoura muito fértil para essa semente venenosa se desenvolver. Acredita-se, por exemplo, que 1 milhão de pessoas no Rio de Janeiro garanta seus vencimentos no fim do mês em atividades que, de uma maneira ou de outra, estão diretamente ligadas à expansão da criminalidade. Nesse bloco encontram-se desde vigilantes de bancos e de edifícios, cuja profissão é proteger o patrimônio das pessoas e das empresas, até malfeitores de toda ordem, de vendedores de drogas a camelôs que comercializam peças roubadas de automóvel. Pelo volume, é uma massa humana enorme - equivale a um quinto da população ativa do Rio. Pelo seu peso social, também é uma força a ser levada em conta - pois em qualquer lugar do mundo, quando 1 milhão de pessoas tem atividades que se cruzam, mesmo em campos opostos, acaba desenvolvendo interesses, ramificando modos de comportamento e até criando barreiras de proteção dentro da máquina do Estado.

"Averdadeira tragédia é que, se todos os tipos de criminalidade e contravenção fossem eliminados em 24 horas, no dia seguinte 1 milhão de pessoas estaria na rua à procura de um emprego", afirma o deputado Cesar Maia (PDT-RJ). É sabido que desde o início do século o Rio de Janeiro vem se tornando um pólo cada vez menor na definição dos destinos do país. Enquanto a indústria paulista, por exemplo, triplicava seu peso na produção nacional, as fábricas fluminenses mantinham-se num quadro de produção anacrônico, sem muitas chances de competição - de 1900 até hoje seu peso caiu para menos de um terço. "Fala-se muito em decadência do Rio de Janeiro, mas essa visão está errada", afirma a professora Hildete Pereira de Meio, da Universidade Federal do Rio de Janeiro. "O Rio não parou de crescer. O que aconteceu é que São Paulo se desenvolveu mais depressa e, a partir dos anos 70, Minas Gerais e Rio Grande do Sul atingiram taxas de crescimento maiores."

ESVAZIAMENTO ECONÔMICO - É verdade que até agora encontra-se no Rio de Janeiro o segundo maior parque industrial do país, com uma produção anual de 10 bilhões de dólares. Também é verdade, contudo, que em Minas Gerais, onde há menos indústrias e a produção fica na faixa dos 9 bilhões de dólares, os sinais de prosperidade e de progresso são muito maiores - hoje em dia, por ser mais moderno, o parque industrial mineiro acumula exportações eqüivalentes ao dobro das conseguidas pelas fábricas instaladas no Rio.

Até hoje, de qualquer forma, o Rio de Janeiro dispõe da mais ampla rede de hospitais públicos do país e sua renda per capita é, de longe, superior à de mineiros e gaúchos. Os índices de desemprego são menores do que na maioria dos Estados brasileiros, inclusive São Paulo. Numa situação que se mantém desde os tempos da corte de dom Pedro I, a cidade é o paraíso nacional de funcionários públicos. Vivem no Rio mais servidores federais do que em Brasília. Numa estatística que diz muito a respeito das relações que os poderes públicos mantêm com os serviços que prestam ao contribuinte, sabe-se que 48% dos 130.000 funcionários do governo fluminense são pessoas contratadas sem concurso - um recorde nacional.

Nesse quadro de dificuldades, parece difícil imaginar que as coisas fiquem como estão - é mais lógico temer que a situação até possa piorar. "O Rio não só está sendo esvaziado economicamente como também é possível demonstrar que o quadro se agrava a toda hora", afirma Adalberto Teixeira, diretor do Sindicato dos Bancos do Estado. Na década de 70, de fato, quando já havia perdido a indústria automobilística para o ABC paulista, e o Pólo Petroquímico para Camaçari na Bahia, que se tornaria uma usina de modernização no Nordeste, o Rio de Janeiro mobilizou-se com a finalidade de se tornar o grande centro financeiro do Brasil.

No início, a proposta até que funcionou. Há dez anos, por exemplo, a Bolsa de Valores do Rio concentrava 65% do movimento do país, e apenas 30% ficava em São Paulo. Hoje, o placar é de 68% a 28% - a favor da Bolsa paulista. De uns tempos para cá, ao constatar que tinham um volume maior de negócios em outras praças, empresas de porte nessa área resolveram providenciar a mudança. Já deixaram o Rio o Unibanco, o Citibank, o Chase Manhattan e o Banco Francês e Brasileiro. "O Rio hoje é uma lembrança do passado", afirma o economista Tadeu Francisco Mazano, especializado numa matéria chamada Geografia dos Negócios, que consiste, exatamente, em aconselhar empresários a descobrir em quais regiões do país devem colocar dinheiro - e de onde é mais prudente retirá-lo na primeira oportunidade. Sabe-se que a última grande indústria metalúrgica a se instalar no Rio de Janeiro foi a Vale Sul, há exatamente dez anos.

De lá para cá, o único registro de novidades nessa área foram notícias ruins. A Santa Matilde, empresa que produzia vagões de trem e máquinas agrícolas e oferecia 8.000 empregos, foi praticamente desativada - hoje, em seus quadros, restam 1.200 funcionários. A Emaq, que atuava na mesma área, também vive sem encomendas. "O problema dos investimentos no Rio é bastante simples", afirma o deputado Francisco Dornelles, do PFL. "Nenhum empresário pode querer investir num lugar em que não sabe se, daqui a três anos, haverá luz para tocar sua fábrica ou um meio de transporte decente para seus empregados."

Uma outra dificuldade de porte pode ser vista a olho nu. Se em outros pontos do país as últimas décadas foram marcadas pela construção de bem-desenhados sinais de progresso, essas novidades ficaram ausentes do Rio. A última grande obra ali realizada foi o metrô, que transporta 350.000 pessoas por dia - uma módica produtividade em comparação com os 2,2 milhões de passageiros servidos em São Paulo. A penúltima obra de peso foi o Aterro do Flamengo, que promoveu uma grande revolução na paisagem - e aliviou o trânsito de quem anda de automóvel pela cidade. Mais alguns túneis e viadutos, inclusive o Paulo de Frontin, que desabou em 1971 - e só. No mesmo período, uma cidade como Curitiba, por exemplo, deu início a um sistema de transportes muito mais avançado, que permite a um cidadão ir de casa para o trabalho sem gastar, em geral, mais de trinta minutos dentro do ônibus. No Rio, quem vive no subúrbio e trabalha no centro precisa sair de casa às 5 da manhã.

SALÁRIOS MENORES - Uma das peculiaridades notórias do Rio de Janeiro é a capacidade de as autoridades públicas fingirem que os problemas dos moradores mais humildes da cidade não lhes dizem respeito. Pegue-se, a título de exemplo, um drama que acompanha qualquer cidadão na hora em que resolve se casar e precisa arrumar um lugar para morar. Pode-se até admitir que na maioria das cidades brasileiras o problema da moradia transformou-se numa tragédia pública. Pode-se apostar, porém, que em nenhuma delas o quadro é tão dramático como no Rio. Nos últimos 25 anos, a população da cidade saltou de 4 milhões para 6 milhões de pessoas. Desses novos habitantes, 400.000 foram residir em casas de verdade, ou seja, apartamentos ou sobrados de cimento, telha e tijolo, em que as lâmpadas acendem, sai água das torneiras e, em geral, costuma-se atravessar uma enchente sem maiores dificuldades. Os outros, isto é, 1,6 milhão de habitantes, acabaram abrigando-se na mais célebre das residências populares do país - as favelas.

A unanimidade dos levantamentos econômicos demonstra que, no Rio de Janeiro, os preços são bastante semelhantes aos de São Paulo. Essas mesmas pesquisas demonstram, porém, que um trabalhador típico gasta mais e vive pior no Rio. Os salários dos metalúrgicos, por exemplo, são 25% menores do que em São Paulo. Os ônibus que esses milhões de assalariados precisam tomar para ir de casa para o trabalho custam mais. Em geral, a despesa com transporte, um gasto salgado no bolso das famílias humildes, é 400% superior ao que se gasta em São Paulo.

Hoje a maioria dos cariocas leva um cotidiano bem mais apertado do que o de vinte anos atrás - em 1970, por exemplo, os consumidores do Rio ativavam um comércio varejista 80% mais rico do que a média nacional. Hoje essa vantagem prossegue, mas diminuiu bastante - é de 20%. Junto com o empobrecimento, costuma vir uma lenda sociológica bastante conhecida, que é a idéia de associá-lo às favelas, à marginalidade e daí ao crime. Uma dificuldade nesse raciocíiuo é que, se as coisas funcionassem através de regras tão automáticas, não haveria seqüestradores nem traficantes de drogas no Rio de Janeiro mas nos confins do Nordeste brasileiro. A outra dificuldade é que essas idéias são desmentidas pela própria experiência da cidade. No Leblon de hoje, por exemplo, ocorrem muito mais crimes e assaltos do que na década de 70 - quando se pôs abaixo a Favela do Pinto.

"O verdadeiro problema social e econômico do Rio de Janeiro é a polícia", afirma o professor Mário Henrique Simonsen. "Quando a polícia cumprir sua obrigação, os investimentos poderão voltar." Na semana passada, o drama dos cariocas encontrava-se nesse ponto. O Rio já teve governantes que promoveram investimentos arquitetônicos pesados e fechavam os olhos à matança de mendigos, como Carlos Lacerda. Também passou quatro anos com Leonel Brizola no Palácio Guanabara, onde produziu-se a engenharia de um pacto de convivência com as quadrilhas de traficantes de drogas abrigadas nos morros. A cidade do Rio já teve até um prefeito, Marcos Tamoyo, dono de uma casa na Tijuca que não tinha água e que era obrigado a residir num imóvel em Copacabana. Por trás de comportamentos tão diversos, sempre se manifestou uma atitude idêntica - a extrema dificuldade das autoridades para assegurar um direito elementar aos cidadãos, que é o de viver em segurança.

Na semana passada, ocorreram cenas patéticas nessa área. Um grupo de policiais do Rio de Janeiro foi até Assunção, no Paraguai, para apanhar dois membros de uma quadrilha de seqüestradores escondidos naquele país. A operação teve um final feliz - os policiais retornaram, na sexta-feira passada, com dois bandidos presos. O problema é que ela foi montada como um graride circo - uma equipe da TV Globo estava presente para registrar imagens - e esqueceram-se de certas questões diplomáticas, como o fato de que os policiais agiam num país estrangeiro. Foram todos presos, liberados no fim do dia e puderam retomar ao Rio de Janeiro depois do constrangimento. Também descobriu-se, na semana passada, um proeminente membro de uma das quadrilhas de seqüestradores do Rio. É ninguém menos que o advogado Alfredo Nobre, que já ocupou o graduado posto de diretor do Instituto Penal Vieira Ferreira Neto, em Niterói. É mesmo uma notícia muito ruim - depois da descoberta de que um dos articuladores do seqüestro de Roberto Medina, Nazareno Barbosa Tavares, chegou a ter um emprego no Tribunal de Contas do Estado sob a gestão do governador Moreira Franco.


 
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