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18
de julho de 1973
A singular sucessão
argentina
Foi, certamente, um dos segredos mais bem
guardados de todos os 157 anos de história da Argentina como
país independente. No começo da madrugada da última
sexta-feira em Buenos Aires, no enésimo ato do aparentemente
interminável drama peronista, Hector Cámpora, que
estava "no governo", abriu as portas da Casa Rosada para
Juan Domingo Perón, que estava "no poder", como
o léxico do peronismo vem repetindo exaustivamente desde
sua vitória nas eleições de 11 de março.
À 1h35 do dia 13, o vice-presidente Vicente Solano Lima anunciou
para o Senado que algumas horas depois todo o governo do presidente
Cámpora iria renunciar. Novas eleições seriam
convocadas, dentro de quarenta dias, para que Perón pudesse
se candidatar e assumir, enfim, a presidência do país.
Para os 24 milhões de argentinos,
desde que Cámpora tomou posse no último dia 25 de
maio, não havia nenhuma dúvida de que o comandante
da nação era o ex-ditador, e que o presidente cumpria
na Casa Rosada apenas o papel de seu funcionário mais graduado.
Apesar disso, entretanto, ninguém esperava por uma mudança
tão rápida e tão brutal. Após um pouco
menos de 1.200 horas no governo - o mais curto que a Argentina já
teve -, Cámpora abriu mão de suas escassas, frágeis
responsabilidades para que nada pudesse fazer a mais tênue
sombra sobre o poder de Perón.
Por volta da 1 hora da tarde de sexta-feira,
como havia sido anunciado, ele fez sua peregrinação
até o Congresso e ali, humildemente, renunciou. Em seu lugar,
para dirigir a Argentina até as próximas eleições,
foi empossado o presidente da Câmara, Raúl Lastiri
- estrategicamente, genro de José López Rega, ex-secretário
e um dos homens de maior confiança de Perón.
A massa peronista, naturalmente, nada tinha
a opor. Encantados em ver dispensado seu intermediário junto
a Perón, milhares de peronistas começaram a afluir
em ônibus lotados para o bairro de Vicente López, onde,
na residência do líder máximo, estava instalada
a verdadeira central do poder na Argentina. Todos, mais que qualquer
outra coisa, queriam ouvir a sua palavra. E, às 10 horas
da noite, Perón finalmente se manifestou. Com voz rouca,
semblante abatido, o caudilho apresentou por uma cadeia nacional
de rádio e televisão a versão oficial dos singulares
sucessos das últimas horas. Num exemplar exercício
de retórica e eufemismos, Perón assegurou que tudo
estava bem. Cámpora, segundo disse, estava decidido a renunciar
antes mesmo de ser eleito, para lhe abrir o caminho da presidência.
E, dentro do combinado, tudo havia corrido da maneira mais natural
possível.
SEM INTERESSE - Era, mesmo na rica
antologia das sucessões presidenciais latino-americanas,
um episódio de extraordinária raridade. Segundo o
relato de Perón, Cámpora ("o exemplo mais honroso
que um cidadão pode dar a seu país") jamais manifestou
qualquer ambição pela presidência. Mesmo com
a candidatura de Perón proibida pelos militares, Cámpora,
segundo a versão oficial, pediu ao líder autorização
para impô-la "de qualquer maneira", no ano passado.
E, como o caudilho se recusasse, teria sido estabelecido um compromisso:
Perón visitaria a Argentina em novembro do ano passado, e
Cámpora aceitaria o lançamento de sua candidatura
com a condição de que renunciaria depois de eleito.
Depois disso, caberia ao Congresso e ao povo eleger "o candidato
da genuína preferência popular".
Perón, no seu discurso, guardou-se
de se apresentar como esse candidato da genuína preferência
popular - chegou a dizer, mesmo, que nem se interessa pela decisão
que os argentinos tomarão a respeito de seu futuro presidente.
Sua candidatura, entretanto, ficou tacitamente aceita. "Se
Deus me der saúde e me permitir, hei de empenhar até
o último esforço de minha vida para cumprir a missão
que me possa corresponder", disse ele ao final de seu discurso.
"Qualquer que seja o futuro imediato e mediato da República,
continuarei sendo um soldado a seu serviço."
A versão oficial, entretanto, não
foi suficiente para encobrir os indícios de que as coisas,
na realidade, se passaram de maneira bem menos macia. Embora o caminho
certo ainda não tenha sido claramente indicado dentro do
labirinto da sucessão, parece plausível que Perón
visse com preocupação crescente os rumos da Argentina
sob Cámpora. Com um governo reconhecidamente fraco, sujeito
a excessos de uns e pressões de outros, vendo facções
diversas investirem seguidamente para capturar segmentos de poder,
o presidente não se revelou capaz, em seu mês e meio
na Casa Rosada, de pôr ordem na casa. Com a perspectiva de
ver o país caminhando progressivamente para uma espécie
de caos, Perón teria então decidido agir de forma
drástica - sob pena de ver o movimento peronista e seu próprio
prestígio seriamente comprometidos.
SEIS QUILOS - Com a intervenção
direta de Perón, todo um sistema de alianças foi posto
em funcionamento. Os militares, embora com alguma relutância
inicial, deram pelo menos seu acordo tácito à manobra
do caudilho - basicamente, concluindo que sua presença na
Casa Rosada seria no fim das contas um fator de tranqüilidade
e uma alternativa para a desordem, possibilitando a execução
de algum plano viável de recuperação econômica
e de reconquista da confiança dos investidores estrangeiros.
E, como segundo pilar sobre o qual estaria sustentando sua posição,
Perón contaria também com o apoio das facções
mais moderadas - e extremamente influentes - do movimento peronista.
A exata constituição destas
alianças terá urna importância vital para o
futuro dá Argentina - principalmente porque Perón,
aos 77 anos, está com sua saúde particularmente abalada,
e isso, inevitavelmente, traz à tona discussões sobre
seu sucessor, antes mesmo de sua eventual chegada à Casa
Rosada. Ao aparecer na televisão na noite da sexta-feira,
Perón, de fato, deixou claro que seu estado geral não
é bom. Ofegante, cansado, fez freqüentes pausas em seu
discurso. E, ao terminar, levantou-se momentaneamente e voltou a
sentar, dando a impressão de que sentia alguma dor. A origem
de seus problemas estaria numa operação da próstata
feita um ano atrás em Barcelona. Ao voltar à Argentina,
teria sofrido hemorragias internas e perdido 6 quilos.
As complicações na saúde
do líder seriam completadas por problemas renais e por sua
condição cardíaca. Perón, segundo se
comenta em Buenos Aires, estaria usando uma sonda (particularmente
incômoda nos momentos em que se senta) e, há dez dias,
teria tido inclusive uma ameaça de parada cardíaca,
provocada por um excesso de antibióticos. É certo,
de qualquer forma, que Perón tem sido visitado quase que
diariamente por Pedro Gossio, um dos mais eminentes cardiologistas
da Argentina.
"FÓRMULA LINDA"
- Diante de todas essas incertezas, a residência de Perón,
naturalmente, foi assaltada na sexta-feira por compactos grupos
de jornalistas que, antes de seu pronunciamento na televisão,
queriam alguma declaração do caudilho. Perón
falou sobre sua doença, sobre as próximas eleições,
sobre a crise argentina - mas, como um excelente esgrimista, esquivou-se
admiravelmente de comprometer-se. A conversa revelou, de qualquer
forma, um Perón em excelente forma verbal e política:
Pergunta - General, qual é a situação
do país?
Resposta - Isso é o país
que está resolvendo, não eu...
P - Vai apresentar sua candidatura?
R - Não vou apresentar nada. Isso
são vocês que estão dizendo.
P - Que acha da fórmula Perón-Balbin?
R - Acho uma fórmula linda. Balbin
é um excelente companheiro.
P - E quando vai aceitar comer um churrasco
conosco?
R - Quando for oportuno. Os médicos
não me deixam.
P - Estão tratando de seu fígado?
R - Do fígado e do resto... Meu
avô já dizia que, quando o paciente se sente bem, é
provável que não esteja.
P - Se o indicarem para a presidência,
aceita?
R - Quando chegar a hora, decidirei.
P - O senhor diria que nas últimas
eleições votou-se mas não se elegeu?
R - Sim, de certa forma, porque se limitou
inconstitucionalmente o direito dos cidadãos.
P - General, e se o senhor for candidato?
R - Filho, esta é uma possibilidade,
e há 50.000 possibilidades...
Para todos, entretanto, parecia claro que
de todas essas possibilidades só a volta de Perón
parecia plausível. Em todos os setores da vida argentina,
passava-se a aguardar o dia em que Perón retomará
à Casa Rosada, após quase dezoito anos de ausência.
FÓRMULA BIZANTINA - "Elegemos
Cámpora porque sabíamos que era um fiel intérprete
de Perón: quando Perón se resfriava, ele espirrava",
proclamava com entusiasmo solto, na tarde da última quinta-feira,
o deputado peronista Rodolfo Arces Dichas. Não estava só.
Nas ruas centrais de Buenos Aires, no bairro de Vicente López,
onde Perón mora no número 1065 da Calle Gaspar Campos,
nas imediações da Casa Rosada, o slogan "Perón
Presidente" tomava corpo. Na verdade, era o desembocadouro
irresistível da fórmula bizantina de sucessão
arquitetada por Perón. Se durante os últimos sete
meses as marchas e contramarchas do velho caudilho puderam ser enganosas,
a movimentação de personagens nos últimos dez
dias foi galopante e sem mais preocupações de manter
as aparências. Uma reconstituição desses acontecimentos
indica a progressiva queda das barreiras que o separavam da ocupação
direta do gabinete presidencial:
6 de julho - O presidente Cámpora
oferece um jantar no Teatro San Martín para seiscentos chefes
e oficiais das três armas. Na ocasião, expõe
a política de seu governo e convida os militares a participarem
da "reconstrução do país". Diz Cámpora:
"As Forças Armadas, antes transformadas em instrumento
da dependência, serão parte da libertação".
Em suma, um convite às avessas do "Gran Acuerdo Nacional"
de Alejandro Lanusse, visando fixar as bases filosóficas
e políticas para um novo exército.
7 de julho - Nasce, no Parlamento,
a idéia de um "Partido da Revolução Nacional",
que aglutinaria peronistas e radicais - as forças políticas
mais importantes da Argentina. A discussão é movimentada,
beirando a ficção política, já que grande
número de deputados considera a idéia descabida e
fantasiosa. Não sabem, ainda, que o líder do partido
radical, Ricardo Balbin, e a cúpula peronista estavam em
freqüentes negociações.
9 de julho - Poucas horas antes
do início das comemorações do 157° aniversário
da independência do país, Hector Cámpora se
dirige à residência de Perón para "saudá-lo".
Em seguida, preside uma missa na catedral Metropolitana, e, logo
após um desfile militar, quando conversa cordialmente - e
durante mais tempo do que o protocolar - com os comandantes das
três armas.
10 de julho - Sem aviso prévio
nem precedente, o comandante-chefe do Exército, tenente-general
Jorge Carcagno, bateu à porta do velho caudilho, representando
o primeiro contato formal entre o ex-presidente e a cúpula
das Forças Armadas. Presente ao encontro apenas o coronel
Juan J. Cesio, chefe de Política e Estratégia do Estado-Maior
do Exército. Nada transpirou da reunião, além
de rumores desenfreados. Perón se despede de Carcagno com
um forte abraço público e um significativo "Hasta
muy pronto, general..."
11 de julho - O poder executivo
restitui a patente militar ao ex-presidente Perón, sem esquecer
os 400 milhões de pesos referentes a seus "soldos atrasados"
como tenente-general do Exército nos últimos dezoito.
anos. Era o primeiro resultado concreto da visita do general Carcagno,
no dia anterior. Era, também, a evidência de que arroubos
de vinte anos atrás raramente sobrevivem ao tempo."
Em sua famosa carta escrita no dia 12 de junho de 1956, em Assunción
do Paraguai, ao dirigente peronista John William Cooke, Perón
declarava: "Meus companheiros são vocês. Se algum
dia o Exército quiser me devolver a patente que estes canalhas
me tiraram, após 45 anos de serviços ininterruptos,
eu lhe lançaria ao rosto minha nomeação, pois
não quero mais pertencer a uma instituição
desonrada e aviltada por seus próprios generais, que parecem
ser tudo, menos homens de guerra e de honra".
12 de julho - Para a população,
apenas mais um dia cinzento, chuvoso e de frio penetrante em Buenos
Aires. Para os analistas políticos, finalmente, a evidência
de que as visitas, encontros, recepções e declarações
da semana escondem um ponto de não-retorno do governo Cámpora:
o comandante-chefe do Exército visita diversas guarnições
militares, almoça com o líder radical Ricardo Balbin
e é novamente recebido por Perón na rua Gaspar Campos,
desta vez com o almirante Carlos Álvarez e o brigadeiro Hector
Fautario. Mas, sobretudo, há o almoço oferecido pelo
secretário geral da CGT, José Rucci, surpreendentemente
acompanhado por apenas uma parte de seus quarenta guarda-costas,
aos deputados e senadores peronistas. Entre o café e a sobremesa,
Rucci acaba com as aparências: anuncia que Perón deve
ser o presidente dos argentinos e que, à mesma hora -3 da
tarde - as fábricas estavam se mobilizando para levar o líder
do justicialismo a ocupar o seu lugar na Casa Rosada.
CARTAZES - A notícia correu
como pólvora, e a palavra "renúncia" passou
a adjetivar os nomes de Cámpora e Solano Lima. O deputado
Rodolfo Arces, já incontido, advogava por uma emissora de
rádio: "Não podemos ter dois governos, um da
rua Gaspar Campos e o outro na Casa Rosada". Seu colega da
velha guarda peronista Victorio Calabro, vice-governador da província
de Buenos Aires, declarava sem receio que "Cámpora deve
agradecer a sorte de ter chegado a ocupar o lugar que, merecidamente,
é de Perón, e pode ficar muito satisfeito por ter
permanecido na Casa Rosada desde 25 de maio até agora".
Nos sindicatos de luz e força, por sua vez, apareceram como
por milagre cartazes impressos de "Perón Presidente-Balbin
Vice". O Congresso, irrequieto mas obediente, debatia o projeto
de lei de nacionalização dos depósitos bancários
e se perguntava quem, àquela altura, era o chefe da nação.
Em meio ao esoterismo político,
contudo, prevalecia uma engrenagem sucessória cuidadosamente
lubrificada. Segundo a "Ley de Acefalias", em caso de
renúncia do presidente e do vice-presidente da nação
o cargo passa automaticamente para as mãos do presidente
do Senado. Mas havia o inconveniente de Alejandro Díaz Rialet
ser um dos líderes do Partido Radical e, portanto, não
totalmente sintonizado com as aspirações peronistas
para um governo de transição entre Cámpora
e Perón. O próprio presidente do Senado, contudo,
por precaução ou pressão, anunciou a seus colegas
que precisava ausentar-se do país por um período de
trinta dias, deixando o caminho aberto para o presidente da Câmara
dos Deputados, o fiel Raúl Alejandro Lastiri.
PASSO PRÉVIO - Assim, sem
decretos nem leis, sem comunicados nem eleições, sem
tiros nem mortes, rumores informaram aos argentinos que, a partir
do dia seguinte, eles teriam um novo presidente singularmente semelhante
a seu antecessor. De fato, como Cámpora, Lastiri caracteriza-se
fundamentalmente pela ausência de originalidade e por uma
carreira política percorrida sob o lema da fidelidade a Perón.
Além de ocupar alguns cargos diplomáticos secundários,
seus postos mais importantes no peronismo foram o de secretário
particular - recentemente, de Isabel Martínez, a terceira
mulher de Perón, e, no início da carreira, de Oscar
Nicolini, ministro das Comunicações no governo de
Perón e velho amigo de Eva Duarte, a "Evita" dos
argentinos.
Arrancando-o da obscuridade, seu sogro,
o ministro do Bem-Estar Social e cacique peronista, o astrólogo
José López Rega, conseguiu, em março último,
elegê-lo deputado e depois presidente da Câmara. Foi
o passo prévio - talvez premeditado - para que Lastiri, aos
57 anos, galgasse o cargo máximo da nação,
igualmente com perfeita consciência de que o faz por uns efêmeros
quarenta dias.
Mas se toda a complexa articulação
política de Perón teve alguns sinais aparentes nos
dias que antecederam seu clímax de quinta-feira à
noite, ela foi marcada, essencialmente, por movimentos de bastidores.
Na verdade, na noite do dia 6 de julho, quando o ainda presidente
Hector Cámpora oferecia o jantar de "camaraderia"
aos 600 militares, o seu destino já estava selado. Poucas
horas antes ele havia se reunido com o gabinete na residência
de Perón, a fim de discutirem o espinhoso projeto de reformulação
dos ministérios, combatido pela cúpula militar*.
MAUS COZINHEIROS - Após discutirem
o assunto no primeiro andar da residência, desceram todos,
com exceção do caudilho, para o andar térreo,
passando então a discursarem sobre o papel que seria reservado
a Perón na nova estrutura governamental. "Ele será
o presidente", teria dito Cámpora categoricamente. Imediatamente
- e sob o mais absoluto sigilo - foi constituída uma comissão
ministerial para cuidar dos trâmites legais da sucessão.
Aparentemente, portanto, não teriam ocorrido rupturas nem
dissenções no momento do parto da sucessão.
No dia seguinte, contudo, em outra reunião
entre Cámpora, Perón e alguns ministros na residência
de Vicente López, teria havido uma altercação
suficientemente forte para reforçar a tese dos que acreditam
em divergências profundas entre Cámpora e o caudilho.
"Eu lhes dou os tomates, a alface, o azeite e o vinagre. Dou-lhes
o saleiro e a receita, e nem assim vocês sabem preparar uma
salada. Isso só tem uma explicação: vocês
não são bons cozinheiros", teria explodido Perón,
em meio a críticas generalizadas à inação
do governo em diversos setores.
Parece, igualmente, que o apressamento
da operação retorno-ao-poder foi provocado pelo receio
de que irrompesse, senão uma guerra civil, pelo menos uma
"incompatibilidade armada" entre a extrema-direita e a
extrema-esquerda peronista. O confronto teria assumido proporções
temerárias em Córdoba, onde o dirigente sindical comunista
Agustín Tosco, pretendia inaugurar uma "capital de la
patria socialista".
Diante disso, várias unidades militares
do norte e nordeste argentino estariam inquietas, e Perón
chegou a ser informado na semana passada de que a oficialidade do
III Exército, com sede em Córdoba, estava revoltada
com a falta de autoridade de Cámpora.
Além disso, Perón teria sido
advertido pelo professor Giancarlo Elias Valori, seu assessor para
relações com o Mercado Comum Europeu, e pelo gerente
da Fiat na Argentina, que a intranqüilidade no país
poderia afugentar irremediavelmente o capital estrangeiro, impedindo
que fosse levado adiante o plano de investimentos europeus pretendido
por Perón. Assim, pressionado pelo tempo e pela idade, aconselhado
por militares e civis, lisongeado pela adulação popular
permanente às portas de sua casa, e tentado pela proximidade
geográfica da Casa Rosada, Perón decidiu que o momento
havia chegado. E que o capítulo Cámpora deveria ter
um fim, mesmo abruptamente.
OS CINQÜENTA DIAS - A fugaz
permanência de Cámpora na Casa Rosada, no fim, acabou
sendo um dos episódios mais vazios, melancólicos,
da história recente da Argentina. A submissão insistente,
quase compulsiva, que o presidente fez questão de mostrar
em relação a Perón durante os 49 dias de seu
governo, criou em Buenos Aires um clima altamente original de dissolução
da presidência. No ar politicamente rarefeito do palácio
presidencial, desde o início de seu governo, transformado
numa espécie de província remota da metrópole
instalada na casa de Vicente López, Hector Cámpora
se movimentava como um comandante sem navio, sob o olhar mais ou
menos complacente da maioria dos argentinos.
É certo que, ao renunciar na última
sexta-feira, Cámpora podia apresentar, tecnicamente, uma
densa folha de serviços. Mas, de tudo que seu governo fez,
muito pouco teve origem genuína na vontade pessoal do presidente
Cámpora, na realidade, ou sancionou com a devida pompa burocrática
fatos já consumados ou, mais simplesmente, apenas executou
ordens vindas da casa de Perón, aonde ia praticamente todos
os dias.
Os dias de vácuo camporista, de
qualquer forma, acabaram trazendo uma série de mudanças
não só na fachada como também na substância
da vida argentina. O clima de "libertação",
imposto pela massa peronista ao governo logo no primeiro dia, com
a queda da prisão de Villa Devoto, foi uma das alterações
mais importantes. Desde 25 de maio, realmente, a Argentina passou
a ser um dos poucos países do continente latino-americano
que não tem presos políticos - mais de 3.000 deles
recuperaram sua liberdade depois da posse de Cámpora. Ao
mesmo tempo foram abolidos por lei os julgamentos especiais para
acusados de subversão. E o Ministério do Interior
tirou dos agentes e outros funcionários da temida Polícia
Federal o direito de prender pessoas ou entrar em residências
sem ordem judicial.
"TRÉGUA SOCIAL"
- No campo econômico, embora não tenha havido tempo
suficiente para qualquer avaliação sólida,
alguma movimentação foi igualmennte sentida. Através
do plano de "trégua social", foi concedido um aumento
geral de 200 pesos (150 cruzeiros) a todos os operários e
empregados, os subsídios familiares foram elevados em 40%
e um novo salário mínimo de 1.000 pesos foi fixado
para todo o país. Para muitos argentinos, foram modificações
sensíveis. Um operário com mulher e três filhos,
que antes recebia menos de 700 pesos entre salário e subsídios,
ganha agora mais de 1.350.
Para a América Latina em geral,
o intervalo camporista também pareceu especialmente significativo
- não pela personalidade do presidente mas pelo aparente
alinhamento da Argentina com os países que seguem uma política
nacionalista ou de esquerda. Um dos primeiros atos de Cámpora
foi restabelecer relações com Cuba. O Chile, automaticamente,
ganhou as simpatias de Buenos Aires. A Argentina passou a pedir
com insistência uma reformulação dos fundamentos
da OEA, aproximou-se mais do que em qualquer outra época
do Pacto Andino e, depois de uma série de escaramuças
com o Brasil, denunciou na semana passada os Acordos de Nova York
sobre o aproveitamento dos recursos energéticos da Bacia
do Prata.
TRIUNFO "HISTÓRICO"
- Com Cámpora afastado, Perón vacila entre três
possibilidades para retornar à Casa Rosada. A primeira é
a que inclui uma composição com Ricardo Balbin, para
apresentá-lo como candidato à vice-presidência,
garantindo assim uma votação esmagadora, "histórica",
como lhe agrada. Afinal, com os radicais fora de uma fórmula
de composição, o ex-presidente perderia não
só os votos que eles lhe trariam, mas veria reduzidas as
possibilidades de obter esse triunfo esmagador, caso Balbin se aliasse
a um candidato antiperonista.
Há também a fórmula
do "Perón doméstico", segundo o léxico
político argentino: a candidatura de sua mulher, Isabel,
como vice. É uma solução que corre o risco
de deflagrar um confronto semelhante ao de 1956, quando o general
Eduardo Leonardi vetou a candidatura de Eva Perón ao lado
do marido. Uma das fórmulas mais citadas inclui a hipótese
de um candidato militar à vice-presidência. No final
da semana, o nome do general Carcagno era um dos mais citados. Seria
uma solução de tranqüilidade recíproca
para o caudilho e para os camaradas com os quais acaba de se reconciliar.
Há, finalmente, uma terceira alternativa
- a do "Perón líder". Nela, o ex-presidente
buscaria um companheiro de chapa capaz de fundir as correntes contraditórias
que abalam atualmente o peronismo. Teria de ser um homem de indiscutível
lealdade, capaz de inspirar um novo influxo à liderança
do caudilho. Perón certamente não teria dificuldades
em encontrar homens de lealdade extrema. Difícil será
encontrar alguém capaz de serenar os ânimos dos agitados
peronistas.
* O projeto de reformulação
dos ministérios previa - contra a vontade dos militares -
a transferência das políticas de fronteiras e de vias
fluviais da jurisdição das Forças Armadas para
a do Ministério do Interior.
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