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18 de maio de 1988
A caminho da Grande Nação

Uma Europa como se fosse um só país, de 320 milhões de
habitantes e riquezas conjugadas - isso começa em 1992

O senhor Giovanni Manfredi Sanchez Dupont Meier-Smith, que como prenome usa também o de John, ou Jean, ou Juan, ou Hans - conforme o caso - e que mais comumente se faz chamar pelas iniciais dos dois últimos sobrenomes, MS, acordou naquela manhã às 7 horas, em seu domicílio em Paris, e às 8 embarcava para Londres a bordo do TGV, o trem-bala francês. Às 11 horas MS desembarcava no centro de Londres, depois de uma tranqüila travessia pelo túnel sob o Canal da Mancha, e rumava para o prédio da City onde todas as quartas-feiras dava expediente como conselheiro legal de uma companhia de seguros belga. Às 2 da tarde ele telefonou para a filha que estuda em Barcelona e em seguida enviou, pelo aparelho de fac-símile, um documento pedido pelo filho que faz o ano letivo em Amsterdã - MS gosta de manter os filhos em escolas de países diferentes porque acha que o contato com as diversas línguas e os diferentes sistemas educacionais os enriquece. Às 5 recebeu uma chamada da mulher, em Paris. Ela acabara de ver na RAI, a televisão italiana, que um espetáculo interessante estava marcado para aquele fim de semana no teatro La Scala, de Milão, e perguntava - que tal reservar ingressos? Afinal eles estariam por perto, na casa de campo de amigos à beira do Lago de Como. Às 5h30 MS manteve sua última reunião de trabalho, com um grupo de agentes luxemburgueses da companhia, e a providência final do dia foi mandar uma ordem para pagar em Frankfurt o carro que acabara de comprar na Alemanha - um Mercedes-Benz, naturalmente. Às 6h30 ele tomou o trem de volta. Às 9h30 estava em Paris. Acabara-se mais um dia ordinário em sua vida.

Este "Mister Europe", como o personagem poderia também ser chamado, ou "Monsieur Europe", ou "Heff Europa", ou "Signore Europa" - ou até mesmo "Senhor Europa" -, já tem data marcada para começar a existir: 31 de dezembro de 1992. Nesse dia todas as barreiras cairão - as barreiras comerciais, industriais, de circulação de pessoas, de serviços, bens e capitais que hoje se confundem com essa invenção chamada "país". O entusiasmo é grande - e a aposta no futuro é colossal. "O objetivo é criar uma comunidade na qual os comerciantes farão negócio com seus clientes nos diversos países como hoje fazem com os clientes da esquina ou da cidade vizinha", diz lorde Cockfield, um superinglês que, instalado como superburocrata na supercapital da Europa, Bruxelas - sede da Comunidade Econômica Européia -, prepara os detalhes da Operação-1992. Outro funcionário da Comunidade Européia, o espanhol Joaquin Portilio, mais tomado pelo ardor da retórica mediterrânea, completa: "Será o acontecimento mais importante para o continente desde a descoberta da América, em 1492". Para dizer tudo numa só fórmula, o que se pretende é que a Europa Ocidental de hoje pareça, em 1992, muito mais com um país único do que com o conjunto de nações hoje existente.

Velho de mais de trinta anos, o processo de união européia conheceu, nesse espaço de tempo, períodos de maior ou menor aceleração. O primeiro grande momento ocorreu no dia 25 de março de 1957, data da assinatura do Tratado de Roma - documento que, firmado às 6 horas da tarde de um dia chuvoso no Palácio do Campidoglio, uma das jóias renascentistas da Cidade Eterna, consagrou a integração de Alemanha, França, Itália, Bélgica, Holanda e Luxemburgo naquilo que nos primeiros anos foi mais conhecido por Mercado Comum Europeu do que pela denominação mais corrente, de Comunidade Econômica Européia, ou CEE. Depois disso a Comunidade conheceu um primeiro alargamento em 1973, com a entrada em seu seio de três outros Estados - Grã-Bretanha, Irlanda e Dinamarca -, um segundo em 1981, com a entrada da Grécia, e o último em 1986, com o ingresso dos irmãos nem sempre muito amigos da Península Ibérica, Espanha e Portugal. Ao mesmo tempo que crescia em extensão, porém, a CEE passou por períodos em que perdeu em profundidade, como na década de 70 - quando a crise econômica e os sucessivos choques do petróleo fizeram com que cada país se fechasse em busca de suas próprias soluções. O que se conseguiu, em termos de integração, foi pouco mais do que uma simples união alfandegária, ou seja, a junção de países no comércio entre os quais não se pagam direitos aduaneiros.

Agora a idéia européia está relançada a todo vapor. De uns meses para cá, ela é onipresente tanto nos discursos dos políticos como na mesa dos empresários, nos planos dos homens de cultura e até no pensamento das pessoas das ruas. "Restam-nos cinco anos, exatamente, para fazer de 320 milhões de seres humanos um povo em movimento, um ator da História", disse o presidente francês François Mitterrand em sua mensagem de ano-novo aos seus compatriotas, no primeiro dia deste ano. A noção de que em 1992 os 320 milhões de habitantes dos doze países da CEE habitarão um só espaço social e econômico de 2,2 milhões de quilômetros quadrados foi tema obsessivo da campanha eleitoral encerrada na semana passada na França - em torno da qual, sintomaticamente, os principais candidatos mostraram unanimidade. A união continental fez-se presente, também, no primeiro minuto da primeira declaração feita por Mitterrand logo após sua reeleição para outro mandato de sete anos - quando ele mencionou, em primeiro lugar entre as tarefas a realizar, "as obras do canteiro da Europa". O presidente francês não perde ocasião para falar do assunto - e não há dúvida de que fará do segundo mandato que acaba de receber, ele que não encontra nada mais estimulante do que "fazer história", um período dedicado sobretudo à integração européia. Em outros países os sinais são igualmente eloqüentes. Na Itália, o programa de Ciriaco de Mita, recentemente feito primeiro-ministro, é fortemente carregado no sentido de preparar o país para 1992. Na Alemanha, um recente congresso do Partido Democrata Cristão, o partido no poder, foi igualmente dominado por esse tema. Na Inglaterra, o Ministério do Comércio e Indústria lançou no mês passado uma campanha que inclui anúncios de rádio, distribuição de folhetos e conferências para preparar os empresários para 1992. Em suma, e para se ter toda a dimensão da atual febre européia, hoje em dia é impossível percorrer um jornal do continente, ou assistir a um noticiário de TV, sem que pelo menos uma vez, seja na seção econômica, seja na política ou na cultural, não se depare com a cifra mágica de "1992".

O que vai acontecer, precisamente, em 1992 são coisas de mexer profundamente com os conceitos correntes de "Estado" ou "fronteira". Os próprios postos de fronteira, para começar, pelos planos não existirão mais, fisicamente, entre os países da Comunidade. As empresas terão liberdade para produzir, vender e comprar onde quiserem entre os doze países. Os impostos sobre o consumo serão os mesmos, ou mais ou menos os mesmos, por toda parte. Os diplomas emitidos num país serão reconhecidos nos outros. Um cidadão holandês que queira ter uma conta num banco alemão pode fazê-lo, assim como um dinamarquês que queira firmar um contrato de seguro na Inglaterra está completamente livre para isso. Se um consumidor belga achar que é mais barato comprar um aparelho de videocassete na Itália, que o faça - e provavelmente nem terá de ir à Itália para isso, porque terá o aparelho italiano à disposição na loja da esquina. Se um francês quiser comprar um carro na Alemanha, é livre para fazê-lo - não, como atualmente acontece, tendo de pagar um imposto francês de consumo ao cruzar a fronteira de volta.

É tentador, e até inevitável, chamar a Europa que se desenha para 1992 de "Estados Unidos da Europa". Vive-se chamando-a assim. O mais fascinante, no entanto, é que nem de Estados Unidos da Europa, propriamente, se trata - mas algo ainda mais inovador. "O que está em gestação não é uma supranação, mas uma metanação", diz o sociólogo francês Edgard Morin. Como arquitetura política, vislumbra-se a criação talvez mais original da História desde a consolidação dos atuais Estados nacionais. Com um detalhe confortador: pela primeira vez, repassando-se o destino europeu de Julio César a Adolf Hitler, com escalas em Carlos Magno e Napoleão Bonaparte, tenta-se a unificação do continente não pela dominação mas pela aceitação, não pelo capricho da potência do momento mas pela tranqüila associação entre pares. O jogo todo se faz em nome de conceitos como liberdade, no plano pessoal, e concorrência, no plano econômico. Na outra ponta, só há vantagem para o cidadão e o consumidor. De quebra, a conjunção de esforços leva a uma dimensão de poder. De novo, desloca-se para o centro do mundo uma Europa que tantas vezes, e de forma algo prematura, nestas últimas décadas, foi dada como votada à decadência.

Um detalhe que pode se revelar de gênio foi ter marcado uma data - 1992 - para começar. Desde logo desencadeou-se com isso uma corrida que contagia os governos, as empresas e as consciências. "O simples expediente de se ter marcado uma data já está fazendo maravilhas", constata a revista inglesa The Economist. O mundo que se cuide diante dessa Europa que se prepara para entrar em cena - e que em muitos aspectos até já entrou, embora nem sempre, fora do continente, tenha-se consciência disso.


 
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