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18 de fevereiro de 1987
Sob o signo
da abundância

Começa no campo a colheita
da maior safra já vista
no país, enquanto na cidade
os agricultores protestam

Na pequena propriedade do agricultor Luís Davi Peccin, de 74 anos, localizada no município de Santo Ângelo, no Rio Grande do Sul, vivem-se dias de alegre ansiedade. Semeada em meados do ano passado, a lavoura de soja de 56 hectares da família viceja com quase 1 metro de altura, sinal de celeiro cheio, e em breve chegará o momento da colheita. De olho na discussão em torno dos preços para a safra agrícola, o velho Peccin prepara pessoalmente o trator, a colheitadeira e faz recomendações diárias aos nove filhos que vivem com ele e à mulher sobre como proceder à colheita. Ao contrário do que aconteceu na safra passada, quando a seca ceifou metade da sua lavoura, e diferente do que se deu nos anos anteriores, quando a área semeada era pequena devido aos custos elevados de plantio, este ano a lavoura dos Peccin é ampla e verdejante - e promete entregar a seus proprietários uma quantia inédita de grãos.

Distante cerca de 330 quilómetros de Santo Ângelo, no município paranaense de Medianeira, a 500 quilômetros de Curitiba, o jovem proprietário Nilvo Vendrame, de 21 anos, já mergulhou - ao contrário dos gaúchos Peccin - na faina da colheita. Ele e os irmãos, com quem divide 290 hectares de terra, começaram a tirar do solo, na semana passada, a primeira safra de milho plantada pela família em vinte anos, que ocupa uma extensão de 130 hectares. Logo nos primeiros dias de trabalho das colheitadeiras, Vendrame pôde confirmar o que os técnicos da Cooperativa Agropecuária Três Fronteiras, à qual é associado, já haviam previsto - de sua lavoura emergiria uma safra recorde de milho.

"Nós investimos muito para conseguir boas safras", conta Vendrame. "Estou satisfeitíssimo com o resultado." Confrontado com a estimativa dos agrônomos de que vai colher 9.000 sacas de milho até o final do mês, faturar cerca de 760.000 cruzados e, de quebra, estabelecer uma marca de produtividade inédita de setenta sacas por hectare, quando a média dos agricultores do Estado é de 44 sacas, Vendrame se espanta. "Nunca esperei colher tanto milho", afirma. "Mas também não esperava que o preço, na hora de colher, estivesse dando tanto prejuízo." O preço vigente para a saca de milho na semana passada era de 84,6 cruzados. Os custos da produção, dois meses atrás, já viajavam à altura dos 160 cruzados por saca - uma diferença de 89% contra o produtor.

As cenas exibidas pelos Peccin, do Rio Grande do Sul, e os Vendrame, do Paraná, os celeiros agrícolas de onde sai a metade dos alimentos consumidos pelos brasileiros, contrastam com o protesto semeado em Brasília e em centenas de cidades do interior por agricultores furiosos com a política do governo para o setor. Estimulante um ano atrás, ela é, hoje, alvo de sua ira, num processo de mudanças tão bruscas e imprevisiveis quanto as registradas pelo clima. À primeira vista, parece haver um paradoxo intratável. Os mesmos agricultores que protestam estão começando a colher uma monumental safra de 63 milhões de toneladas de grãos - 5 milhões a mais que o recorde anterior, alcançado em 1984, e 10 milhões acima da safra colhida no ano passado, que foi castigado pela estiagem. À segunda vista, porém, verifica-se que conflitos como esse são inevitáveis num setor, como a agricultura, em que a intervenção do governo nos preços e nos financiamentos é uma das peças-chave de todo o processo de produção.

De fato, se a safra é pequena, faltam alimentos, o preço ao consumidor sobe, o país perde exportações - mas o agricultor ganha condições de barganhar mais pelo que vende. Se a safra é espetacular, não faltam alimentos, os preços não pressionam a inflação, chovem dólares com a venda dos excedentes no exterior - mas o agricultor perde força ao negociar com o mercado. Este drama estava perfeitamente evidente, na semana passada, quando o país começava a colher sua maior safra na história - e Brasília amanheceu na quinta-feira tomada por uma multidão de agricultores. O problema é que ela começa a ser colhida quando seus principais instrumentos operacionais, como os preços de venda, as taxas de juros e a disponibilidade do crédito oficial, só na semana passada foram divulgados pelo governo, com pelo menos um mês de atraso. Na prática, o govemo cedeu consideravelmente, mas num momento em que os agricultores, já exasperados, só se contentariam com muito mais. Para piorar, só agiu quando o país constatava que a zanga dos agricultores era real, ainda mais porque carregava um cacife respeitável e inquestíonável: a próxima supercolheita, que chega quando nos centros urbanos começa a vicejar o fantasma da recessão industrial. E aí que o trabalho dos Peccin e dos Vendrame da agricultura começa a se mostrar vital.

'PERÍODO ÁUREO' - "A safra que vem aí é realmente notável", adinira-se um dos maiores especialistas brasileiros em questões agrícolas, o presidente da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas da USP, Femando Homem de Mello. "Podemos estar às portas de um período áureo da agricultura." O governo procurava na semana passada, depois da volta dos agricultores insatisfeitos a suas fazendas, animar o setor da economia que mais rapidamente responde aos estímulos econômicos. "Quem plantar atendendo ao apelo do governo será remunerado satisfatoriamente", promete o minístro da Agricultura, Iris Rezende, ainda se refazendo dos embates com seu colega da Fazenda, Dilson Funaro, para armar um pacote que atendesse aos reclamos dos agricultores. "As últimas medidas do governo visaram pôr fim à situação angustiante que estavam vivendo milhares de produtores rurais.

Ao longo da semana passada, enquanto aguardavam o desfecho das negociações de suas lideranças com o governo em torno de preços melhores e juros menores, o campo começava a dedicar-se a colher os frutos do seu trabalho. Em Cascavel, no Paraná, o agricultor Ismael Zornita, de 55 anos, foi o primeiro em sua região a deflagrar a colheita, apressado em tirar do chão a sua safra de soja. "Não posso esperar mais senão vou acabar perdendo tudo", diz ele, que plantou 65 hectares. "Este ano o sojal maturou mais cedo e eu não vou poder esperar que o sol reduza a umidade da lavoura ao ponto ideal."

Em 1954, quando chegou ao Paraná recém-casado, vindo do Rio Grande do Sul, Zornita não imaginava que se tornaria agricultor. Abriu quase por acidente um moinho para beneficiamento de arroz e, com o passar do tempo, lentamente, foi ligando-se às coisas da terra. "Em 1978 troquei o moinho por terras e comecei a plantar soja", lembra. As safras se sucederam e Zornita prosperou. Hoje, quando a maioria dos seus vizinhos já se desencantou com as baixas cotações da soja, ditadas por um mercado externo superabastecido, Zomita permanece fiel ao grão da sua primeira lavoura. "Essa supersafra de milho vai trazer prejuízos para muita gente", acredita. "Eu vou insistir sempre na soja, que é mais garantido. O único comprador de milho é o governo."

O fato é que não há garantias definitivas no tipo de negócio em que Zornita está metido. Suas apreensões e esperanças, por isso mesmo, se assemelham às de Olacyr Francisco de Moraes, o brasileiro que ostenta o vistoso título de maior produtor mundial de soja. Com 50.000 hectares semeados em duas grandes fazendas, uma no Mato Grosso e outra no Mato Grosso do Sul, Olacyr, de 55 anos, ainda não se deu por satisfeito com as gentilezas do clima nesta safra, que distribuiu sol e chuva com regularidade e abundância. "Até agora está indo tudo bem", pondera o megaplantador, instalado em seu escritório, em São Paulo. "Mas a safra só termina quando se encerra a colheita, pois de uma hora para outra o tempo pode mudar." Este ano, Olacyr deve bater outro de seus recordes anuais, colhendo 120.000 toneladas de soja de sua lavoura inteiramente mecanizada. No mercado intemacional, a valores da semana passada, isso equivalia a 24 milhões de dólares. "É uma boa safra, principalmente considerando que há oito anos niinguém imaginava plantar soja no cerrado", gaba-se Olacyr. "Hoje, usando variedades de sementes criadas aqui mesmo, no Brasil, temos produtividade até maior que em outras regiões."

CRÉDITO BARATO - Este ano a produtividade se elevou em quase todas as lavouras brasileiras em conseqüência, principalmente, da disponibilidade de crédito barato - estipulado pelo governo, no ano passado, em 10% ao mês, sem correção. "O juro fixo foi o melhor adubo dessa supersafra", constata o agricultor paulista Flávio Teles de Menezes, 41 anos, presidente da Sociedade Rural Brasileira. "O dinheiro barato e o clima aumentaram em 20% a produtividade das lavouras." As verbas do crédito rural, que cresceram 35% em relação à safra anterior, foram transformadas principalmente em adubo e sementes escolhidas. "Nesta safra investi tudo o que tinha no plantio", afirma Benoni Félix Pessoa, 56 anos, o maior produtor de algodão da região de Assaí, no Paraná. "Adubei melhor a terra, usei mais defensivos e aumentei a área plantada. Nem sobrou dinheiro para novas máquinas."

Proprietário de 170.000 hectares espalhados em diversos municípios, Pessoa tem a seu serviço nesta colheita nada menos que 3.000 pessoas e sintetiza da maneira mais clara possível a imensa força que a agricultura tem na circulação de dinheiro dentro da economia. Os trabalhadores a serviço de Pessoa irão colher, nos próximos dois meses, 30.000 arrobas diárias de algodão. Pela tarefa cada um deles receberá 300 cruzados por dia - o que soma, no final do mês, a quantia de 7.200 cruzados, quase oito vezes superior ao salário mínimo. "A supersafra de grãos é uma boa noticia para o Brasil, que precisa alimentar o povo", diz Pessoa. "Se o governo não retirar os incentivos que deu no ano passado, a gente pode produzir outras safras como esta."

O principal incentivo fornecido à agricultura nesta safra, além do juro fixo de 10%, foi a nova política de preços mínimos - aqueles pelos quais o governo se compromete a comprar a safra do produtor, se ele não conseguir quem lhe pague mais no mercado. O governo estabeleceu, em julho, que os preços mínimos teriam reajustes plurianuais, através de um mecanismo similar ao do gatilho dos salários. Quando os custos agrícolas atingissem mais de 20% de alta, o gatilho seria disparado. Até então, os preços mínimos eram estabelecidos anualmente e não sofriam reajustes até a próxima safra. A medida não chegou a ser aplicada, pois foi substituída no pacote da semana passada por reajustes mensais, mas o campo respondeu de forma entusiasmada à sua criação.

NIVELADORA LASER - Em Pelotas, no Rio Grande do Sul, pode-se verificar a injeção de ânimo trazida pela perspectiva de preços cambiáveis através dos cuidados que cercam a safra de arroz da Granja 4 Irmãos. A granja faz parte de um grande complexo agroindustrial, o grupo Joaquim de Oliveira, que fatura anualmente 2 bilhões de cruzados, e não poupa investimentos. Os equipamentos que controlam os 300 quilômetros de canais de irrigação artificial da lavoura, mecanizada em 99%, foram aperfeiçoados. Uma sofisticada máquina niveladora dotada de um aparelho laser de 70.000 dólares, que calcula milimetricamente a topografia da lavoura, foi acionada. Cada um dos 900 funcionários da granja ouviu várias vezes a mesma recomendação - a meta era elevar ainda mais a produtividade.

Como nos tempos do imigrante português Joaquim de Oliveira - que fundou em 1913 o que é hoje um grupo de empresas inteiramente voltado à produção e ao beneficiamento de arroz -, seus descendentes, que hoje estão à frente do negócio, acreditam que se inaugura uma nova era para a agricultura. Do ponto de vista da produção eles estao corretos. Dos sulcos de sua lavoura vão sair, este ano, 52.000 toneladas de arroz, uma produção que supera largamente a das safras anteriores. Do ponto de vista dos lucros o esforço redundou em irritação com o governo.

"O custo de produção de uma saca de 50 quilos é de 181 cruzados, mas o preço mínimo oferecido pelo governo é de 130 cruzados", contabiliza Moacyr de Oliveira, sobrinho do fundador. "Nós somos punidos por produzirmos um arroz de boa qualidade, que recebe o mesmo tratamento do que se planta de pior por aí." Como qualquer empresário moderno, Oliveira prega preços livres, sem amarras governamentais. De uma outra forma, o pequeno agricultor gaúcho Frederico Adolfo Kindler, de 69 anos, dono de 8 hectares próximos à cidade de Ijuí, também dispensa a relação com o governo. Sua safra de soja e milho deste ano, beneficiada pelo clima, só não foi maior porque ele se recusa a pedir crédito bancário. "Prefiro me virar com o que o tempo me dá do que arrumar dívidas", justifica-se.

Às margens do Rio Paraná, perto da divisa com o Mato Grosso do Sul, os pequenos produtores organizados na Associação Comunitária do município de Querência do Norte também convivem com os sentimentos conflitantes trazidos pela mega-safra. Em 1985, eles ocuparam uma área improdutiva de 5.000 hectares e ali instalaram um projeto de lavoura de arroz irrigada, como outras que existem na região. Nos últimos dois anos, cerca de 100 famílias arrendaram terras na área comunitária e empenharam-se em aplicar ali as técnicas de cultivo modernas ensinadas pelos agrônomos da associação. Este ano, ao colher sua segunda safra, eles já se tornaram responsáveis por 47% do arroz irrigado produzido no Paraná - e estão orgulhosos por isso. Mas, assim como o empresário Moacyr de Oliveira, revoltam-se com os preços estipulados para o seu produto. "Nós todos estamos orgulhosos pelo que fizemos aqui", diz o lavrador Teodósio Reginato, de 53 anos. "Mas quando se pensa nos preços dá vontade de largar tudo e criar gado no Mato Grosso."

O fato é que embora a supersafra desse ano seja tão pródiga em grãos quanto em dores de cabeça para o governo e os produtores, ela prova que a agricultura brasileira melhorou, e não o contrário. Ela está se tornando cada vez mais dinâmica e sepultou, definitivamente, a imagem clássica do fazendeiro com a mão na enxada ou do senhor que reinava na casa grande. Hoje, o agricultor é um empresário que investe, aceita riscos, acompanha as cotações do mercado, discute juros e tem a mesma agressividade que os empresários das cidades, seja ele pequeno, médio ou grande.


 
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