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17 de dezembro de 1980
O gênio assassinado

Poeta, cantor ou revolucionário,
John Lennon fez a cabeça de uma
geração e ajudou a mudar os padrões
de comportamento no século XX

Após uma espera de três dias, Mark David Chapman, 25 anos, conseguiu finalmente, às 5 da tarde de segunda-feira, o ambicionado autógrafo do ex-beatle John Lennon. Rabiscado às pressas sobre a capa do último disco do compositor, "Double Fantasy", sem dedicatória, o autógrafo, porém, não o satisfez. Seis horas depois, às 22h45, no mesmo local, a entrada do famoso Edifício Dakota, debruçado sobre o Central Park e a rua 72, em Nova York, ele voltou a interpelá-lo. "Mr. Lennon", disse polidamente, semblante calmo, e, quando John começou a voltar o corpo para atender o chamado, Chapman, ex-guarda de segurança desempregado, sacou do casaco um revólver calibre 38, que comprara 42 dias antes no Havaí por 169 dólares, e, segurando-o firme nas duas mãos, disparou cinco tiros. Três balas atravessaram Lennon nas costas e no braço esquerdo, uma quarta alojou-se no pescoço.

Sangrando profusamente enquanto sua mulher, Yoko Ono, gritava "socorro", Lennon ainda subiu alguns degraus até a portaria do edifício, onde caiu de bruços. O porteiro, com a face coberta pelo sangue da vítima, indagou do assassino, que ele deixara ficar de cócoras diante do prédio, supondo ser mais um fã inofensivo de Lennon: "Você sabe o que fez?" E a resposta, em tom descansado, foi apenas: "Acabo de atirar em John Lennon". Depois ele se agachou para apanhar um livro que deixara cair no chão. Era "O Apanhador no Campo de Centeio", de J.D. Salinger, espécie de bíblia para a geração dos anos 60 que John Lennon ajudara a formar.

Em segundos, um carro da polícia transportava Lennon ao hospital mais próximo, o Roosevelt, e, quando o policial perguntou seu nome, ele respondeu com clareza. Mas, ao chegar à mesa de cirurgia, já estava sem pulso, os esforços para ressuscitá-lo foram vãos. Yoko, histérica, repetia: "Digam-me que não é verdade". Em frente ao sombrio Dakota, construção quase centenária, em estilo vitoriano, tão soturna e escura que serviu de cenário para o célebre "O Bebê de Rosemary", de Roman Polanski, e onde a família Lennon tinha seis apartamentos, uma multidão formou-se imediatamente e de lá não mais arredou pé.

Ao ser anunciada a morte do artista, dezenas de pessoas irromperam em pranto e desespero, cantando músicas dos Beatles, como "All You Need Is Love", "Give Peace a Chance", ou o clássico "Yesterday". Na manhã seguinte, sobressaltado, ferido, o mundo descobria que perdera o maior referencial de sua juventude. Rádios das grandes capitais, de Nova York a Tóquio, do Rio de Janeiro à Cidade do México, passaram a tocar exclusivamente músicas dos Beatles. Em Telavive, o comentarista Eli Israeli anunciou a notícia pela rádio do Exército: "Queria dizer-lhes bom dia, mas realmente não posso". Na Cidade do México, a Rádio Exitos, que desde abril de 1964 é a única do mundo a transmitir diariamente três horas e meia de programas dedicados aos Beatles, recebeu, às 9 da manhã, uma proposta de uma ouvinte: que às 10 da noite, todos os que quisessem homenagear Lennon apagassem as luzes de suas casas. Aquela hora, do topo 9 do Hotel México, um dos edifícios mais altos da cidade, era possível ver como diminuía a iluminação. Em várias cidades americanas, houve vigílias e marchas à luz de velas, e em Toronto, Canadá, 30.000 pessoas fizeram uma passeata. Até o fim da semana, três pessoas haviam-se suicidado na América do Norte, em desespero, e o presidente Jimmy Carter sintetizava a idéia de milhares ao dizer: "Seu espírito, o espírito dos Beatles - ao mesmo tempo irreverente e formal, irônico e idealista -, transformou-se no espírito de uma geração". E concluía: "Ele ajudou a criar a música e o caráter de nosso tempo". A morte de Lennon desencadeou uma onda de protestos contra a liberalidade do porte de armas em alguns Estados americanos.

Em Washington, sentados nas escadarias do Lincoln Memorial - dedicado ao presidente assassinado em 1865 -, centenas de manifestantes homenagearam Lennon e protestaram contra a venda de armas de fogo. Ironicamente, Nova York, onde o mataram, tem a mais severa lei do país. Uma arma sem licença custa dois anos de cadeia.

Na quarta-feira, depois de um dia inteiro numa espécie de Instituto Médico Legal, o corpo de Lennon foi transferido para uma funerária e em seguida cremado. Ao anunciarem seu testamento, em que deixa metade dos bens para a viúva, Yoko, e a outra metade para um fundo criado por ambos, seus advogados estimaram sua fortuna em apenas 30 milhões de dólares contra uma avaliação da imprensa de quase 250 milhões. Só seu rendimento anual em royalties de filmes e discos, acredita-se, montava a 12 milhões de dólares - é claro que quase totalmente ainda sobre o que produziu quando era um beatle. O conjunto de quatro rapazes nascidos e criados nos bairros pobres da cidade inglesa de Liverpool - Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr (nome artístico de Richard Starkey) - vendeu um total recorde de 250 milhões de discos até hoje, embora tenha sido desfeito em 1970, após oito anos de sucesso. Todos seus álbuns continuam em catálogo e só os ingleses compravam 300.000 por mês antes da morte de Lennon. Os quatro, por decisão da rainha Elizabeth, tornaram-se membros da Ordem do Império Britânico. Mas nenhum deles chegou a usar a condecoração.

A fortuna de Lennon, feita na sociedade da gravadora do grupo , expandira-se consideravelmente nos últimos anos graças ao talento financeiro de Yoko: ele deixa seis apartamentos do Dakota, no valor aproximado de 1,8 milhão de dólares, quatro fazendas, um rebanho de gado de raça avaliado em 66 milhões de dólares, um iate, duas propriedades no Japão e quatro na costa leste dos Estados Unidos.

Seus antigos companheiros reagiram de formas diferentes a sua morte. Ringo, que estivera com ele um mês antes em Nova York, tomou o avião imediatamente com a noiva Barbara e foi dos primeiros a visitar Yoko, saindo pelos fundos do Dakota sem qualquer declaração. George, trancado em sua propriedade de Henley-on-Thames, na Inglaterra, limitou-se a expressar "grande amor e respeito". E Paul, dado como extremamente chocado pela imprensa, que o encontrou à saída de sua casa de campo no sul da Inglaterra, foi visto mais tarde, com um jeito arrogante na televisão, deixando um estúdio de gravação em Oxford Street, depois de trabalhar a tarde inteira. "O trabalho é a melhor terapia", disse. E com o chiclete dançando na boca: "Que notícia horrível, não? É realmente chocante".

Numa carta aberta aos fãs de Lennon, Yoko convocou para o domingo uma vigília de silêncio de 10 minutos, a que todas as pessoas do mundo foram convidadas a participar. Em sua primeira entrevista após o crime, no luxuoso apartamento do 7º andar do Dakota, ela lembrou que seu marido se sentia feliz em Nova York. Três dias antes de morrer, ele dissera à BBC que se sentia livre e seguro na cidade: "Aqui posso ir ao cinema ou a restaurantes. Tenho andado pelas ruas durante sete anos. Quando saí da Inglaterra não podia sequer pisar na calçada".

Na véspera da morte, enquanto comia uma costeleta com chá no restaurante Wylies, do lado leste de Manhattan, ele confessara ao crítico John Mill, do Soho News: "Me sinto como se tivesse duas vidas para viver". E acrescentara, em tom quase profético, reiterando a tônica de "Começar de Novo", principal música do LP "Double Fantasy": "A primeira vida terminou de forma maravilhosa e a segunda está prestes a começar. Se a primeira vida foi tão boa, a segunda será melhor ainda porque estou em paz comigo mesmo".

Em paz ele morreu, ao contrário dos outros líderes da música, trágica e precocemente desaparecidos, como Jimi Hendrix, Janis Joplin e Elvis Presley. Lennon, que na vida e nas músicas percorrera com sua geração uma mesma trilha em busca de realização - do inconformismo em relação à autoridade às drogas alucinógenas, passando pelo movimento pacifista, o misticismo oriental e as terapias para a descoberta do eu -, embarcava em nova experiência. "É possível viver voltado para a família e ainda ser um artista?", perguntara em outubro numa entrevista.

Lennon vivia uma nova vida depois de ter-se recusado a prosseguir a carreira mitológica das estrelas. Fora ele, com talento poético, audácia, uma genial percepção do mundo em que vivia, quem fizera dos garotos de Liverpool o maior fenômeno da história da música popular. E fora ele quem percebera o fim da linha para si, para o grupo e, de certa forma, para a cabeça de toda sua geração.

Em 1970, ele mesmo anunciara, pouco antes da morte de Janis Joplin e Jimi Hendrix: "O sonho acabou". De fato, o fim dos 60, da era de Aquarius, dos Beatles e do próprio Lennon mostra que a revolução de costumes encerrou seu ciclo e, lentamente, foi substituída por uma restauração da velha ordem de força, severidade e competição dos anos 50. Se o sonho acabou, porém, nada fará com que ele deixe de ter acontecido. A força, a severidade e a competição, para serem restauradas, tiveram que mudar.

Os cabelos voltaram a ser curtos, mas nunca mais se usou Gumex, e tê-los compridos deixou de ser um estigma. O machismo, os preconceitos sexuais e a moralidade vitoriana recuperaram-se, mas os homossexuais jamais voltarão a ser sombras da noite. As mulheres continuam a cozinhar, é certo, mas a cozinha vai deixando de ser a cela em que a sociedade as confina.

Se alguém é responsável por isso, os rapazes que irromperam de Liverpool na cena mundial no início dos anos 60 o foram mais que ninguém. Eles mudaram a música, mudaram as atitudes de uma geração e alteraram o comportamento das que se seguiram. A partir daí, a imagem violenta tipo James Dean caiu em desuso. A delinqüência juvenil continuou como doença social mas não mais como forma de comportamento. "Tudo o que você precisa é de amor", anunciava Lennon em 1967.

Os Beatles mudaram a cabeça do mundo e revolucionaram a cultura de seu próprio tempo com uma profundidade jamais vista nos últimos séculos. E John Lennon, a cabeça do grupo, encarnou, como nenhum outro artista do século XX o conceito de modernidade. Se Pablo Picasso, monumento da inquietação estética moderna, destruiu e recriou todos os princípios das artes plásticas, mesmo assim sua obra é universalmente respeitada, mas não entendida por todos. Isso não sucedeu com os Beatles. Eles não são universais apenas porque uma música como "Yesterday" é imediatamente identificada em Bogotá ou Bancoc - isso pode ser verdade, também, em relação a "La Cumparsita" ou "La Vie en Rose". A diferença é que eles têm uma quantidade de músicas universais - no mínimo vinte - maior que qualquer outro grupo ou compositor, em qualquer época. Além disso, ao contrário dos autores de canções que são preferidos nesta ou naquela faixa de idade - há quem agrade só aos mais velhos, ou só aos jovens, ou aos adolescentes -, os Beatles transitam com força plena numa faixa que vai dos 10 aos 40 anos, ou seja, a grande maioria das pessoas vivas.

Quando Paul McCartney anunciou oficialmente o rompimento do conjunto, em 1970, John Lennon disse: "Havia uma necessidade, um desejo da juventude de exprimir-se por uma certa música. Os Beatles satisfizeram a esse desejo e continuam satisfazendo. Mas, para muita gente, representarão os bons velhos tempos. Já é assim. Nós pertencemos ao passado". John Lennon sabia que nada, nem ninguém, reuniria novamente o grupo que despretensiosamente e sem nunca ter aprendido a ler uma partitura musical revolucionou a estrutura do rock'n'roll. Em dez anos, os apelos emocionais e financeiros nunca chegaram a comover nenhum deles.

Essa revolução, porém, não foi sempre consagradora, sobretudo porque eles foram repelidos por tudo o que havia de estabelecido, até na contracultura que eles mesmos ajudaram a fundar. Richard Goldstein, guru pop do avançado jornal Village Voice, de Nova York, chamou o disco "Sargeant Pepper's..." de "fraudulento". A revista Newsweek colocou-os na capa para chamá-los de "aborrecidos" e o magnata Henry Luce, criador do império Time-Life, recusou-se a dar-lhes o título de Homens do Ano em 1965 porque "não os conhecia direito". Quando, ricos e reconhecidos, decidiram separar-se, nenhum deles continuou igual ao que era quando estavam juntos. E John, o mais sincero e irreverente, anunciou em "God" (1970):

Não acredito em reis (...)
Não acredito em I Ching (...)
Não acredito em mágicos (...)
Não acredito nos Beatles (...)

Descobriu-se, passados o choque e o inconformismo iniciais, que Paul, George, Ringo e John pouco tinham em comum, além de seu desejo de serem os maiores ("De vez em quando parávamos um pouco e um de nós dizia: 'Onde vamos parar, rapazes?' E respondíamos em coro: 'O mais alto possível, o mais alto possível'", contou Lennon certa vez). Como Beatles, eles experimentaram o máximo de poder permitido aos artistas. Onde chegaram eram recebidos como chefes de Estado, na Inglaterra compararam-se às maiores personalidades do país, quando foram condecorados pela rainha, e em seu incontável público provocaram emoções distintas - da euforia à reverência. "O pessoal das galerias dá o compasso batendo palmas e a turma das cadeiras caras pode sacudir as jóias", disse, agressivo, John em Londres.

Em todos os discos - foram treze LPs e dezenas de compactos - deixaram a marca de um estilo que inaugurou um novo tipo de produção musical. Amplificaram as vozes e os instrumentos, distorcendo, diminuindo ou aumentando exageradamente as diversas fontes sonoras. Usavam o ritmo entre o tempo de valsa (3/4) e o rock batido (4/4), diretamente saído do jazz. Cada música - e os exemplos mais flagrantes são "A Day in the Life", "Lucy in the Sky With Diamonds" e todo o LP "Sargeant Pepper's..." - ultrapassava a idéia de uma canção de dramaturgia sonora, construída com fragmentos de diálogo ("Revolution Number Nine"), montagens, superposições de gravações diversas e inclusive manipulações eletroacústicas (isto é, trabalhar em estúdio os sons do dia-a-dia). Foi um projeto comum realizado por quatro ingleses que queriam vencer na vida. Mas, embora Paul, George e Ringo jamais tenham admitido publicamente, John era seu líder. Poucos artistas provocaram tantas mudanças no comportamento universal como ele. Não houve mudanças nas quais ele não estivesse ou que não abordasse em suas canções. Contra a violência: "Imagine todo mundo vivendo a vida em paz" ("Imagine"). Aceitando a droga: "Dei uma tragada, alguém falou e eu entrei num sonho ("A Day in the Life", 1967). Feminismo: "Eu era cruel com minha mulher. Batia nela e a afastava das coisas que ela amava. Homem, eu era um canalha, mas estou mudando meu tipo. Faço o melhor que posso" ("Getting Better", 1967).

Habitualmente, as pessoas vão à política para chegar ao poder e, de lá, mudar o comportamento alheio. John Lennon, à frente dos Beatles, mudou o comportamento da sociedade sem sair do lado de sua guitarra: "Não gostaria de entrar na política. A política é um grande jogo, mas não é o jogo". O moleque das ruas de Liverpool, filho de uma prostituta e de um marinheiro, passou a vida buscando amores perdidos: Mãe, você me teve, mas eu nunca te tive / Eu queria você, mas você não me quis (...) Pai, você me deixou, mas eu nunca te deixei ("Mother", 1970).

Esse garoto, juntando-se aos três amigos, levou oito anos para ir do primeiro conjunto das noites de Liverpool ao Palácio de Buckingham. Lá, diante da rainha, confessou que teve muita vontade de rir. Afinal, "nós havíamos puxado fumo no banheiro do Palácio". No mesmo ano, Lennon escrevia um livro de contos irônicos, "A Spaniard in the Works", no qual num de seus desenhos, ironizava as pessoas que morriam, mostrando um cidadão que entrava num caixão com a inscrição "Este lado para cima". Morte e galhofa muitas vezes associavam-se em suas reflexões. Chegou a anunciar que todas as pessoas sérias, como Martin Luther King e John Kennedy, eram assassinadas, mas que isso não sucederia aos Beatles porque eles eram "galhofeiros".

Estava errado na morte, mas acertara na vida e foi precisamente pelo humor que o conjunto carregava consigo que surgiu o fenômeno. Anos de agressividade foram abalados precisamente pela capacidade do grupo de ensinar ao mundo que havia uma força impensada em pequenos gestos aparentemente tolos como o cabelo comprido, o sorriso inesperado e a proclamada alegria de viver. "Faça o amor, não faça a guerra", foi o slogan dessa geração.

Morto, Lennon desencadeou uma verdadeira sessão de nostalgia da era de Aquarius. Os mais populares cantores de todo o mundo viram suas vendas reduzidas de um dia para o outro. O disco de Lennon, em poucas horas, atravessou paradas de sucessos. Em Nova York houve lojas com filas para comprá-lo. Na Inglaterra, os operários da gravadora HMV fizeram horas extras ao longo da semana prensando novos milhares de discos do beatle. Velhos filmes foram apanhados nos arquivos e, no Brasil, na noite de quinta-feira, a TV Bandeirantes de São Paulo parecia ter voltado no tempo com uma retrospectiva das músicas de Lennon.

Mesmo assim, num sinal de novos tempos, e nem por isso melhores, o advogado de Mark Chapman, Herbert Adlerberg, que continua recluso num hospital de Nova York, anunciou ao juiz que preside o inquérito que prefere deixar o caso. Por quê? Porque a era de Aquarius terminou e se Chapman matou Lennon porque o admirava, centenas de outros admiradores avisaram ao advogado que pretendiam matá-lo. Afinal, Lennon e Yoko Ono só conseguiram ficar nos Estados Unidos, onde estavam ameaçados de expulsão por consumo de droga, porque um movimento nacional resultou num manifesto assinado por 60.000 pessoas contra a deportação do casal. A elas Lennon dedicou "Double Fantasy".

Vivia longe dos concertos, pensava sobretudo na educação do filho, perseguido pelo abandono em que deixou Julian, hoje com 17 anos, depois de suas brigas com a primeira mulher. Não mudara suas idéias, simplesmente mudara de comportamento. Recusava-se, ao deixar os Beatles, a viver como uma estrela fria do espetáculo: "Não quero ser um herói morto, não quero ser um Cristo. Pensavam que os Beatles fossem desencadear uma revolução da juventude. Não. Contentam-se em levar uma bandeira. Um enorme exército avança hoje com sua cavalaria e infantaria. Eu também levo uma bandeira e posso até passá-la para outras pessoas".

Por onze anos, Lennon, sempre ao lado de Yoko, carregou sua bandeira de paz. Gravaram juntos, protestaram juntos e, pela primeira vez em cinco anos, resolveram lançar um disco. Reapareceram do isolamento em que viviam no West Side de Nova York, deram entrevistas e, neste fim de ano, reapareceria o velho John Lennon. No entanto, se já não havia um enorme exército avançando, havia Mark Chapman.

Afinal, na história do "Submarino Amarelo", um dos filmes de grande sucesso dos Beatles, o mundo parecia estar em perigo ameaçado pelos "azulões", monstros de dedos duros que comiam aranhas e "filé de morcego", ajudados por espécimes que "amassavam gente inocente com imensas maçãs ácidas" ou "cortavam com a boca que tinham na barriga as cabeças das flores". Nessa história, o mundo só não se perdeu porque um sábio resolveu ir a Liverpool buscar os quatro rapazes, embarcados num submarino amarelo.

Não havia previsão que permitisse a vitória da tripulação do submarino mas, para espanto do Azulão-mor, os Beatles tinham uma primeira linha de defesa: a música. Bombardearam os adversários com uma poderosa frase: "Tudo o que você precisa é de amor". Derrotaram o mal e regressaram, festejados, ao mundo que haviam salvo. Ao fim da aventura, contudo, Paul, George, Ringo e John não davam a batalha por terminada e insistiam no valor de suas armas com um recado:

Psssst!
Temos um comunicado muito sério!
Novos azulões, cada vez mais azuis foram vistos
Na vizinhança de sua casa, amigo.
Gostaríamos de sugerir que você... comece a cantar!

Mark Chapman, o azulão que passara a noite agachado na porta do Edifício Dakota, não deu a Lennon tempo para cantar.


 
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