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17 de julho de 1991
A segunda revolução

Com inflação, greves e
desemprego, a União Soviética
enterra o comunismo e se
lança em busca do capitalismo

O caminho para o socialismo soviético tem 28 degraus, para baixo. São de mármore preto e terminam numa balaustrada. Ele está no centro do salão. A mão direita semi-cerrada sobre o paletó preto. Fortemente iluminado, o rosto tem aquilo que os cariocas chamam de "uma cor". O cavanhaque é ruivo. Lênin nunca esteve tão limpo e bem vestido. Debaixo do chão da Praça vermelha, em Moscou, a cripta do chefe da Revolução Bolchevique de 1917 é o único lugar da União Soviética onde tudo continua como antes. As pessoas não falam, andam na mesmo direção e fazem tudo o que os guardas mandam.

"É impressionante. Agora posso dizer que vi Lênin. Ele deve ficar aí. Não se fica mexendo com os mortos", diz Oleg Feodorov, major-engenheiro da Aeronáutica, metido num agasalho esportivo, de mãos dadas com o filho Andrei, de 8 anos. Serguei Zalyguin, redator-chefe da revista Novy Mir, 77 anos, sem qualquer curiosidade pelo culto necrocomunista e por motivos inteiramente diversos, concorda com o major: "Deixem-no lá. É como discutir o que fazer com um monumento ao general Franco na Espanha ou a Mussolini, na Itália".

"Se nos últimos 73 anos o slogan foi ‘Avante, ao comunismo’, agora ele deve ser ‘Para trás, ao capitalismo’", diz Mikhail Izumov, um engenheiro cibernético de 58 anos que chefiou a campanha de Boris Yeltsin em Leningrado e não se incomoda com a hipótese de ficar desempregado por conta das reformas que defende. Talvez Lênin fique na Praça Vermelha, mas pouco restará da sociedade revolucionária que ele julgou ter ajudado a criar. O império soviético acabou-se e o presidente da Rússia, Boris Yeltsin, anunciou que a "experiência marxista" é uma página virada na História do seu povo. O presidente da URSS, Mikhail Gorbachev, chega esta semana a Londres, onde vai levar aos chefes de governo dos países capitalistas um pedido de reescalonamento de sua dívida externa de 65 bilhões de dólares e uma vitrine de bons negócios, quase uma liquidação.

Neste ano, o produto interno já caiu 11%, a produção industrial encolheu 6,6% e a inflação está perto dos 200%. Já ocorreram 878 greves e 418 000 trabalhadores pararam. Há 14 milhões de desempregados. O ano poderá terminar com uma contração econômica de 18%, que seria parte de um pesadelo do qual o país só acordaria depois de ter encolhido entre 35% e 40%. "Estamos à beira do caos", avisa Gorbachev. "De forma ordeira e pacífica nós vamos para a hiperinflação. Será uma híper saudável, porque vai nivelar todo mundo. Depois dela, ou o rublo se acaba, ou ficamos com duas moedas, uma boa e outra ruim", prevê Igor Blinov, chefe do laboratório política monetária da Academia Nacional de Economia. "A nossa crise monetária não se compara com a brasileira (370% ao ano). Vocês têm inflação, mas podem ir à loja e encontram mercadorias. Nós temos preços em alta sem ter o que comprar", adverte Abel Aganbeguian, diretor da academia.

Das regiões mais pobres da Sibéria aos gabinetes mais poderosos do Kremlin, dos monarquistas que se fantasiam de soldados do czar aos generais de verdade que duvidam das reformas de Mikhail Gorbachev, soviéticos ou secessionistas, todos estão de acordo com uma coisa: o que está aí não se salva e a solução é a economia de mercado, ou, como eles preferem, "o mercado".

O que é "esse mercado", eixo em torno do qual gira todo o movimento de renovação soviético? Por enquanto é aquela situação da economia na qual, segundo ensina o professor Delfim Netto, "deve-se esperar a chegada do xerife".

Para a maioria dos cidadãos "o mercado" significa a oportunidade de vender ou comprar 1 quilo de carne por 50 rublos. É verdade que o preço da tabela socialista é 20, mas por esse preço ou não há carne, ou há apenas osso. Ou, ainda, trabalhar numa cooperativa a um salário de 1 000 rublos ao mês, contra os 300 que a sociedade do futuro paga a um cirurgião. (O presidente da Lituânia, Vitautas Landsberguis, que tem horror ao socialismo, ganha 800 rublos, 200 a menos que um garçon do primeiro restaurante privado de Vilna, sua capital.)

Para a Pepsi Cola, "mercado" é comprar vodca com os rublos ganhos na venda de refrigerantes e trocá-los por dólares. Para o Mc’Donalds, economia livre é comprar alguns produtos agrícolas a preços de tabela socialista, vender um Big Mac (idêntico ao da Avenida Paulista) por 9,45 rublos (30 centavos de dólar) e convertê-los em moeda forte da maneira mais lucrativa possível. Os planos dos vinte Macs em Moscou ficaram para o futuro do capitalismo. Com os preços triplicados em relação à sua festa de inauguração, sua fila, como a do Mausoléu de Lênin, passou de quatro horas para quinze minutos.

Para os encarregados dos pagamentos externos soviéticos, o "mercado" foi a oportunidade de se conseguir 1 bilhão de dólares anuais através da venda à poderosa empresa sul-africana De Beers de cinco anos da produção de diamantes brutos das duas principais minas soviéticas. Acredita-se que a De Beers tenha pago 90 dólares o quilate. Metade do que o mercado paga pelas pedras angolanas. Para os cientistas de Leningrado, o "mercado" será uma oportunidade de melhorar o restaurante do palácio do grão-príncipe VIadimir, irmão do czar Alexandre. Para um comerciante da cidade, o "mercado" permitirá que opere o restaurante dos cientistas, cobrando as refeições em dólares aos turistas. Quem comer em moeda forte pagará seus 50 dólares por um almoço. Os cientistas continuarão pagando em rublos, por cinco. Se por acaso o rublo acabar, será discutida outra forma de incentivo ao progresso da ciência. Milton Friedman não sabe, mas, antes de morrer, o comunismo inventou o almoço grátis. Para a empresa petrolífera americana Chevron e para o secretário de Estado James Baker, o "mercado" será a conquista, por 25 anos, da concessão da província petrolífera de Tenghiz, no Cazaquistão. Em abril passado Baker encontrou-se secretamente com o presidente Nursultan Nazarbayev, um líder de idéias privatistas e mão forte. (Nazarbayev ainda é membro do PC, mas isso não tem a menor importância numa economia realmente livre.)

O "mercado" só existirá quando os soviéticos descobrirem o que fazer com aqueles papéis que eles chamam de rublos e obrigam a sociedade a manipular. Trata-se de uma ficção monetária que tanto pode valer 3 centavos de dólar quanto 1 dólar e 60 centavos. Se for para medir salários, alguém poderá ouvir que um motorista de ônibus ganha perto de 1 000 dólares por mês (quando 1 rublo vale 1,6 dólar) e compra 1 quilo de cerejas por 50 centavos (quando 1 rublo vale 3 centavos de dólar - seu valor provável no mundo dos números reais). Ou, como sucede com mais freqüência, que o mesmo motorista ganha 15 dólares por mês e se quiser comprar uma televisão japonesa terá que juntar dez meses de salário.

Nesse mundo do "mercado", o presidente Mikhail Gorbachev concordou em fazer parte do conselho do Clube dos Homens de Negócios de Moscou, enquanto os homens de negócios alugam quadras de tênis no estádio do Dínamo, em cujo terreno mandou passar nas armas boa parte da plutocracia russa. "As ações da URSS S.A. ainda não foram compradas pelas empresas americanas, japonesas e alemãs. Não houve ainda um negócio parecido com a entrada da Volkswagen na fábrica de automóveis checos Skoda. Paraíso de um tipo de rapinagem escandinava e de investimentos coreanos, a economia russa orgulha-se de uma abertura que criou mais de 1 000 companhias de capitais mistos. Aí estão desde grandes exportadoras até negócios mais antigos, como os das empresas Intersex Sovexporescort (isso mesmo, exportação de acompanhantes soviéticas).

"As reformas políticas são uma coisa, e as econômicas, outra. Kruschev resolve abrir o Kremlin e, pronto, no dia seguinte os cidadãos estão passeando por seus jardins. Quando você resolve fazer uma mudança parecida na economia, tem que esperar. Projetos não adiantam nada. Se adiantassem, pelas projeções dos planos de alimentação, os russos já teriam morrido de tanto comer", ensina o historiador Roy Medvedev, com a autoridade de quem desafiou o Kremlin denunciando o stalinismo e hoje atravessa suas muralhas para sentar-se nas cadeiras que tem no Congresso e no comitê central do Partido Comunista.

É lá, na fortaleza de muralhas vermelhas, dentro da qual jamais se deu sepultura a um bolchevique (ficaram todos na rua ou grudados do lado de fora da parede), que uma jovem parece posar para um fotógrafo na praça das catedrais. Ela está de frente para a Upsensky (assinada por um arquiteto bolonhês) e de costas para a do Arcanjo Miguel (arquiteto veneziano). Chama-se Elena, não está posando para fotógrafo nenhum, diz que trabalha numa empresa de turismo e oferece o telefone. É conhecida num bar próximo. Elas entraram no Kremlin.

Mikhail e Boris

Unidos pela origem - a máquina do PC - e separados
pela ambição, Gorbachev e Yeltsin travam uma
grande briga nos bastidores da perestroika

Foram feitos um para o outro. "Se Gorbachev não tivesse um YeItsin, teria inventado um", diz Boris. "O que seria dele se eu não estivesse aqui?", diz Mikhail. A popularidade de um é subproduto da impopularidade do outro.

Na quarta-feira da semana passada, Boris YeItsin teve o seu grande dia. Coroado presidente da Rússia sob as bênçãos do patriarca Alexis II, ao som de dezessete trombetas e de um coral que cantava A Vida pelo Czar, anunciou ao mundo: "A grande Rússia está se erguendo dos joelhos". Por inveja, insegurança ou simples descortesia, Mikhail Gorbachev ignorou a pompa imperial da cerimônia e fez um discurso recheado de gracinhas. Numa delas, depois de dizer que "todo o mundo acompanha com interesse o que estamos fazendo aqui", Mikhail parou, voltou-se para a audiência e perguntou: "E o que é que nós estamos fazendo aqui?"

Esta semana será a vez de Gorbachev. Estará em Londres, apresentando às potências econômicas capitalistas um supermercado de oportunidades para grandes negócios. Se lhe derem um ponto de apoio, promete alavancar a União Soviética.

Num país onde as disputas políticas cristalizam-se em competições pessoais que só se resolvem com o desaparecimento do derrotado, já houve partidas melhores. Lênin contra Kerensky, o liberal astucioso, porém covarde, que em 1917 teve coragem para depor o czar, mas preferiu fugir do Palácio de Inverno vestido de soldado sérvio a canhonear os bolcheviques. Stalin e Trotsky fizeram uma parada bonita, decidida na audácia e ofuscada pelas posteriores malfeitorias do vencedor.

Mikhail e Boris parecem um prelúdio, como se a música séria viesse depois, com outros cantores. São falsos como as notas de 7 cruzeiros, mentem como general de Riocentro, correm de suas origens como desesperados e não sabem para aonde vão. Boris acha que deve estar sempre cinco passos à frente de Mikhail, mas quando ele pára falta-lhe coragem para esticar a dianteira. "A política econômica de Gorbachev é uma contradição em termos, Ele toma as decisôes econômicas com base em raciocínios políticos, mas falta à sua conduta política qualquer vestígio de lógica econômica", observa Igor Kolosnitsyn, da Academia Nacional de Economia. Segundo o sueco Anders Aslund, diretor do Instituto de Estocolmo para a Economia Soviética, a pré-condição para qualquer melhoria dos indicadores da URSS é "o afastamento de Gorbachev e do primeiro-ministro Valentin Pavlov". Para Aslund, a política econômica do presidente soviético não é socialista nem reformista, mas simplesmente irresponsável.

YeItsin acha pouco tudo o que Gorbachev faz, defende uma Rússia com mais trabalho e avisa ao povo que serão necessários sacrifícios. Na campanha eleitoral, porém, não deixou barato: diminuiu a jornada de trabalho semanal de 41 para quarenta horas, recalculou o salário mínimo e aumentou os aposentados (2 milhões de eleitores em Moscou). Faz tudo isso e proclama: "Precisamos destruir o sistema". O grande demagogo marca consultas em policlínicas populares e doa os direitos de sua autobiografia - dinheiro suficiente para comprar 25 bons apartamentos em Moscou - a um clube de pára-quedistas militares. "Seria otimismo dizer que ele tem um programa econômico", adverte Kolosnitsyn. "Durante o tempo em que esteve no partido, YeItsin militou na ala mais ortodoxa", acusa Elena Kalinina, do comitê central do Partido Comunista. "É o representante do neobolchevismo e está criando o mesmo esquema de antes, só que dessa vez o faz fora do partido. É um populista, mas quanto mais histórias inventa mais gente acredita no que diz", acrescenta.

Boris inventa muitas histórias, mas Mikhail também faz das suas. Em janeiro passado, ele disse ao mundo que não tinha nada a ver com a tomada da torre de televisão de ViIna, a capital da Lituânia, uma operação militar que resultou na morte de treze pessoas. Os fatos: cinco dias antes do ataque, ele se recusara a dar à primeira-ministra da Lituânia a garantia de que não atacaria. Horas depois desse encontro desembarcou em ViIna uma divisão de pára-quedistas. No dia 10 de janeiro, numa carta ao presidente Vitautas Landsberguis, Gorbachev ameaçou soltar a tropa. Passaram-se três dias e a promessa foi cumprida. No momento em que os tanques estavam subindo a colina do morro onde fica a antena de TV, Landsberguis telefonou para o Kremlin, mas o presidente soviético não veio ao aparelho. Como até hoje os soldados ocupam a TV lituana sem que Gorbachev os tenha mandado sair, é certo, pelo menos, que ele os quer lá.

"Prefere-se vê-lo como um refém dos militares a olhá-lo como o homem que concebeu a violência na Lituânia", diz Jeri Laber, diretora-executiva do Helsinki Watch, respeitada organização de defesa dos direitos humanos. Como dizia Andrei Gromiko, seu antecessor na presidência, o último dos grandes dinossauros dos anos 50: "Camaradas, esse homem tem um belo sorriso, mas seus dentes são de aço".

Dentes e nervos, para desespero de Boris. Em seis anos de poder degolou três safras de conservadores e uma de liberais. Demitiu um primeiro-ministro pelo telefone da limusine e um ministro da Defesa por incompetência. Lançou a União Soviética num processo de transformação que alterou o mapa político da Europa e garantiu-lhe o Prêmio Nobel da Paz. Ao mesmo tempo, tomou-se o mais impopular dos governantes russos. "Gorbachev está fazendo as mudanças mais ambiciosas já vistas na História Moderna. Nenhum presidente americano que conseguisse resultados semelhantes seria considerado um fracasso", diz na Universidade de Princeton o liberal Stephen Cohen.

"Como Kerensky, ele tenta desesperadamente evitar o colapso do governo provocado por seus próprios atos, criando sempre novas instituições para preencher vazios. Gorbachev emasculou o Partido Comunista, entregando-o aos conservadores", rebate Richard Pipes, da Universidade de Harvard, ex-assessor do presidente Ronald Reagan para assuntos soviéticos e autor da mais bem documentada narrativa anticomunista da Revolução Russa.

"Ele é, de fato, um homem muito contraditório", argumenta Roy Medvedev, um historiador que as reformas de Gorbachev catapultaram do ostracismo dos dissidentes para uma cadeira no Congresso e outra no comitê central do Partido Comunista. "A cada momento a sua cabeça está de um jeito diferente. Ele foi secretário regional de Stavropol no tempo de Brejnev. Não subiu por suas opiniões, mas por sua energia e ambição", ensina Medvedev.

Diga-se a verdade. Subiu na vida trabalhando duro, mas também porque os lagos e florestas de Stavropol tinham deliciosas mordomias. Algo como a atração que as praias baianas exercem e os empreiteiros acalentam sobre os burocratas de Brasília. À beira de um dos lagos de Stavropol tramou-se em 1964 a queda de Nikita Kruschev, mas nessa época Gorbachev, já com chapelão e capa preta, era apenas um protegido do cacique local. Passavam férias nas montanhas do Cáucaso o primeiro-ministro Alexei Kossiguin, o sacerdote da ideologia Mikhail Suslov e o chefe da KGB, Yuri Andropov.

Hoje há uma vida heróica de Mikhail Gorbachev para consumo da perestroika. Sua mãe era cristã e escondia os santos atrás dos retratos de Lênin e Stalin. Verdade, mas ele só contou isso em 1984. Seu avô paterno Andrei passou nove anos no Gulag. Verdade, mas até 1990, quando essa história foi revelada, o avô de plantão era o materno, presidente de uma fazenda coletiva. Em 1978, no esplendor do brejnevato, ele assinou um memorando dizendo que "é necessária a habilidade de um gladiador para vencer as barreiras burocráticas que aparecem, até para quem quer resolver questões menores". Verdade, mas ele mandou esse memorando a um amigo que o protegia. Sua principal colaboração ao período que ele próprio batizou de "estagnação" relaciona-se com a fantasia agroindustrial de Ipatovo, na qual teria sido inventado um novo processo de colheita. Como sucedeu nas famosas agrovilas da Transamazônica durante a ditadura brasileira, a experiência deu duas belas safras e nunca mais se voltou a falar no assunto. O "método Ipatovo", como foi conhecido, levou Gorbachev à primeira página do Pravda e serviu para fortalecer as mais desastrosas teorias centralizadoras da agricultura soviética.

Aos 47 anos, com seu russo de caipira (pior que o português do ex-govemador Orestes Quércia) Gorbachev baixou em Moscou em 1978 para cuidar da agricultura. A safra do ano, com a qual ele nada teve a ver, foi de 237 milhões de toneladas de grão. No ano seguinte baixou para 180 milhões e lá ficou até o ano passado, quando chegou a 235 milhões. Sete anos depois de chegar ao centro, Gorbachev tornou-se secretário-geral do Partido Comunista, senhor de todas as Rússias. Enquanto viveu, Andropov o ajudou. Depois, sua ascensão significou o esgotamento do plantel de velhos senis que o brejnevato empalhara.

Em junho de 1985, o secretário-geral mudou de casa. Saiu da dacha de dois andares em que vivia e foi para um palacete nas Colinas de Lênin, o Morumbi moscovita. Deixou para trás dois salões, sete quartos, biblioteca, jardim-de-invemo, bilhar, cinema, cozinha e frigorífico. Seu substituto na mordomia, o secretário para a Indústria da Construção, diz que ficou "deprimido" ao ver tanto luxo. Mesmo assim, morou vários anos na mansão. Seu nome: Boris YeItsin.

Ele chegou à dacha dos sete quartos (todos com televisão) por um caminho diverso. Enquanto um subiu ao telhado da casa pelos galhos do partido, o outro foi pela chaminé da produção. O que foi de fato a vida de Boris não importa, pois o melhor é o que ele diz que ela foi. Gorbachev foi batizado em segredo? Boris informa que foi batizado em público por um padre bêbado que o deixou no fundo da pia e depois comentou: "Se sobreviveste a isto, és um forte". Gorbachev foi um vida-certinha e aos 17 anos ganhou a Ordem da Bandeira Vermelha do Trabalho? YeItsin foi um boêmio, vagou pela Rússia no teto de um trem, perdeu a roupa jogando cartas com soldados e, antes que o jogassem do alto do vagão, recuperou peça por peça. O quarto 324 do dormitório da faculdade de Direito, onde vivia Mikhail, ganhou o prêmio de arrumação e limpeza? Boris fez sua tese de mestrado projetando uma antena de emissora de televisão, sem jamais ter visto uma.

Os dois se conheceram em meados dos anos 70, quando Gorbachev era o dono de Stavropol e Yeltsin o senhor de SverdIovsk (ex e futura Ekaterinburg), a terceira região industrial do país fechada aos estrangeiros. Combinavam trocas de mercadorias abaixo da mesa dos planejadores de Moscou. Boris mandava minérios e recebia frangos e carne. (Esse sistema, estimulado pela independência dada às empresas, é hoje um principais fatores de desorganização da economia soviética. Faltam peixe e caviar no Volga porque os diretores das empresas preferem vendê-los a quem paga melhor. Faltam 16 milhões de dormentes para o conserto de linhas ferroviárias

porque os madeireiros torraram seus estoques por moeda forte.) Tocador de obras, Yeltsin gostaria de ficar famoso pela construção de uma estrada de quase 500 quilômetros por um método que lhe permitiu construir um edifício de cinco andares num dia. Muito provavelmente a principal obra de engenharia civil da carreira de Boris YeItsin venha a ser a demolição, numa só noite, da casa do engenheiro Ipatiev, em Sverdlovsk. No seu porão foram massacrados o czar Nicolau II, sua mulher, o príncipe herdeiro, suas quatro irmãs (tinham oito quilos de pedras preciosas escondidos nos corpetes), o médico da família e três criados. Em julho de 1918 Moscou temia que os russos brancos resgatassem o czar. Em 1982 Moscou temeu que a casa de lpatiev se transformasse num centro de saudades da monarquia e ordenou a YeItsin que ele a tirasse do mapa. A cidade foi dormir e na manhã seguinte no terreno onde estivera a casa havia uma quadra asfaltada.

Roy Medvedev rememora: "Minha primeira conversa com YeItsin foi estranha. Ele ainda não era famoso. Procurou-me como historiador e perguntou quem tinha sido SverdIov e por que as pessoas falavam tão mal dele. Eu não podia acreditar no que ouvia. Ele não sabia direito quem era Sverdlov. Ele havia sido o primeiro-secretário do partido na cidade que levava o nome do bolchevique. Não sabia História".

Mais: não prestava sequer atenção à vizinhança da Praça Vermelha. Sverdiov, o primeiro grande burocrata, secretário do comitê central e factotum de Lênin, pode ser considerado o patrono do Terror Vermelho. É quase certo que seu chefe tenha dado a ordem, mas quem mandou o telegrama puxando o gatilho em cima da família real foi o Jacob SverdIov. Vivendo em Moscou, YeItsin nunca prestou atenção na praça em frente à entrada do Hotel Metropol, a meio caminho entre a KGB e a Praça Vermelha. Nela há uma grande estátua do bolchevique, com topetão e pasta. Para uma figura de passado policialesco, nada mais próprio para sua pracinha do que se transformar em ponto de encontro dos surdos-mudos.

Boris é uma daquelas pessoas que vagam entre a condição de ignorante e a de autodidata intuitivo. Sabe algumas coisas, mas comporta-se como se não soubesse nada. Mikhail, informam seus amigos, é um homem mais refinado. Aos 18 anos foi ator e fez o príncipe Zvezdich na peça Masquerade, de Lermontov. Tudo bem, mas aos 22 não sabia o significado da palavra balé. Ele sabe algumas coisas, mas finge que sabe tudo.


 
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