Arquivo VEJA |
|
Mais reportagens
Brasil e sociedade Política e economia Internacional Ciência e tecnologia Saúde e sexo Artes e espetáculos Gente e memória Religião e História Esporte e aventura Educação e trabalho Revistas
1997 - 2009 | edições integrais Edição n° 1 Edições extras Edições especiais |
Reportagens 17 de maio de 1995A turma do calote Quem são e como vivem
Domingos Gomes de Lima, 54 anos, mora com a mulher e os dois filhos menores num chalé da Academia de Tênis, hotel de Brasília freqüentado por empresários, ministros e outras autoridades do primeiro escalão do governo. Paga 1.800 reais por mês só para dormir. "Com esse dinheiro, poderia alugar um apartamento, mas não teria a mordomia da piscina, das quadras de esportes e da limpeza diária", explica. Lima anda num Santana Quantum do ano e seus filhos estudam em escolas particulares. Ele seria mais um brasileiro de classe média alta não fosse por um senão: ruralista falido, ele aparece na lista dos caloteiros do Banco do Brasil. Sua dívida é um espanto. Ele deve 67,4 milhões de reais. Está entre os maus pagadores do banco há mais de quatro anos, e isso em nada atrapalhou sua boa vida. Gomes de Lima é um personagem exemplar de um clube muito poderoso, mas pouco conhecido, no mundo dos ruralistas. São os grandes fazendeiros, milionários do campo habituados a tomar dinheiro barato do crédito rural do Banco do Brasil e a não pagar o que devem. Em números absolutos, eles são poucos, apenas 18.000 num universo de 3,5 milhões de agricultores brasileiros. Mas eles impressionam pelas dimensões de suas fazendas, seu confortável estilo de vida e, principalmente, pelo tamanho dos débitos pendurados no banco. Para se safar das dívidas, eles contam muitas vezes com o enorme poder de pressão exercido por sua bancada de deputados e senadores em Brasília. A bancada ruralista, como se sabe, é a mais organizada, poderosa e reclamona do Congresso Nacional. Atormenta a vida de sucessivos governos, boicotando votações e emperrando a pauta para conseguir dinheiro para o campo, empréstimos a juros baratos ou mesmo perdão das dívidas. Age como muitos outros grupos organizados no Parlamento, tentando defender os interesses de seus eleitores no campo. Sua atuação é importante para milhões de pequenos e médios agricultores, mas também serve como uma luva para os membros do clube do calote, este sim imbatível na hora de obter vantagens dos cofres do governo. Na semana passada, a bancada ruralista deu mais uma demonstração de força. Seus 140 parlamentares ameaçaram boicotar a votação das emendas constitucionais se o presidente Fernando Henrique Cardoso não aceitasse a decisão do Congresso que vetou a cobrança da taxa referencial, a TR, sobre os empréstimos dados à agricultura. É uma chantagem e tanto. Se não cobrar a TR, índice usado para corrigir a inflação nesses empréstimos, o Banco do Brasil leva um tombo estimado entre 1 e 2 bilhões de dólares. Mas, sem os votos da bancada, o governo dificilmente consegue passar alguma proposta no Congresso. Resultado: contra a vontade de FHC, o presidente do Senado, José Sarney, promulgou a derrubada da TR. O governo queria anular a decisão do Congresso com base num parecer do senador Bernardo Cabral, cuja investigação descobriu quatro votos rasurados no dia da votação. Sarney, velho amigo dos ruralistas, ignorou o parecer de Cabral e confirmou a votação. Uma lista dos maiores devedores inadimplentes na carteira de crédito rural do Banco do Brasil, obtida pelo deputado José Fritsch, do PT catarinense, mostra que, ao estrilar contra as dívidas no campo, os parlamentares e líderes ruralistas nem sempre estão defendendo seus milhões de eleitores produtores rurais - mas sim um punhadinho de grandes proprietários. Dos 331.000 agricultores que tiveram acesso ao crédito rural do Banco do Brasil na safra passada, 95% pagam suas dívidas em dia. Restam os 18.000 caloteiros, que representam 5% do total, cujos papagaios somam 3,3 bilhões de reais. E, entre esses, 100 grandes tubarões são responsáveis por 25% do total do calote. "Foi criada uma indústria da inadimplência no Brasil", diz o presidente do Banco do Brasil, Paulo César Ximenes. "A maior parte da dívida está concentrada na mão de meia dúzia de grandes proprietários." JURO BARATO - Quem acompanha a barulheira dos ruralistas em Brasília imagina que o governo os esteja espoliando através de juros extorsivos ou que a agricultura nacional está ameaçada. Isso nem sempre é verdade. Os empréstimos do crédito rural são uma das formas de financiamento mais baratas do país. Além da TR, os ruralistas pagam apenas 11% de juros ao ano - menos que os cobrados na compra da casa própria, menos que no cheque especial ou nas compras pelo crediário. "A atuação do Congresso, com anistia aqui, perdão ali e prorrogações de prazo das dívidas dos ruralistas, ocasionou duas coisas", diz Ximenes. "Primeiro, afastou os bancos privados do crédito rural. Depois, desenvolveu uma mentalidade de que se a dívida for grande, e com muitos inadimplentes, vai acontecer alguma coisa com a qual eles se beneficiarão." Tome-se, novamente, o caso de Domingos Lima, da Academia de Tênis de Brasília. Os seus 67,4 milhões de reais são o maior papagaio rural do Brasil. A dívida está em seu nome e de mais três empresas de sua propriedade. São débitos antigos, contraídos a partir de 1987, e o BB já moveu mais de vinte processos para receber o dinheiro. Lima não paga e coloca toda a culpa no banco. "O Banco do Brasil não pode funcionar como um agiota", diz. "Hoje, dizem que minha dívida é de 67 milhões de reais. Mas em 1990 ela estava calculada em 15 milhões de dólares. Aceito pagar 10 milhões." Lima interessou-se pela agricultura há pouco tempo. Até 1979, era reitor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Nesse ano, mudou para Brasília, onde pouco depois assumiu uma diretoria do Serpro, o Serviço Federal de Processamento de Dados, a convite do então presidente da entidade, José Dion de Melo Teles. Ficou lá até 1985. Descobriu então a mamata do dinheiro barato do crédito rural e começou a comprar terras. Lima também se envolveu num grosso escândalo. Em 1986, a CPI que investigava o sistema bancário e financeiro revelou que Dion de Melo Teles e os diretores que ele nomeara para o Serpro, Domingos Lima entre eles, recebiam favores de bancos privados nos quais investiam as verbas do Serpro. Os bancos davam empréstimos a juros baixos aos diretores e, em troca, recebiam os depósitos do Serpro. FORTUNA RÁPIDA - Com uma mãozinha dos bancos privados e outra do Banco do Brasil, em dez anos o ex-reitor Lima virou um agrorricaço. Em 1990, seu patrimônio era calculado em 50 milhões de dólares e incluía 120.000 hectares, 27 fazendas, 7.400 cabeças de gado, 100 máquinas e 500 empregados. Lima diz que ganhou terras na Bahia de "um amigo" chamado José Raul, que não quis aparecer como sócio formal nos empreendimentos agrícolas. As ações movidas pelo Banco do Brasil obrigaram-no a se desfazer de boa parte da fortuna. "Em abril de 1991, mudaram a superintendência do Banco e começaram a executar as dívidas", queixa-se Lima. Atualmente, ele vive de duas aposentadorias que recebe da Universidade Federal do Rio Grande do Norte - como reitor e administrador - e do arrendamento de quatro fazendas de gado, todas penhoradas ao banco. Sua renda ultrapassa os 8.000 reais mensais. Lima não representa todo o universo ruralista. Mas ajuda a entender até que ponto chega a mamata do crédito rural no Brasil. Seu caso mostra que aventureiros sem nenhuma experiência agrícola conseguem abrir o cofre da maior instituição de crédito oficial do país, que concede empréstimos sem as garantias exigidas pelos bancos privados. Entre os ruralistas, há aqueles que usaram o dinheiro do BB para engordar o patrimônio. Outros investiram na produção, mas deram o passo maior que a perna e quebraram. Um traço em comum entre os inadimplentes é que eles esperneiam contra o governo, mas, em geral, mantêm uma relação promíscua com o poder. Financiam campanhas eleitorais, contam com uma bancada fiel no Congresso e são amigos de muita gente graúda do Executivo. No dia 9 de abril, por exemplo, quando o presidente Fernando Henrique Cardoso tentava encontrar uma saída para o impasse criado pelo Congresso na questão da TR, onde andava o ministro José Eduardo Vieira, da Agricultura? Estava no sul do Piauí - visitando a fazenda de um caloteiro do Banco do Brasil. Em companhia do governador Francisco Morais, o "Mão Santa", e de deputados ruralistas, Andrade Vieira assistiu ao início da colheita da soja na fazenda do empresário Carlos Elyseu Mardegan, dono da Agropecuária Saponga. Mardegan aparece na lista dos inadimplentes do BB com uma dívida de 6 milhões de reais. O ministro subiu numa colheitadeira e ouviu discursos dos produtores rurais contra o governo, entre eles o próprio Mardegan. "Estamos sendo tratados como cachorros sarnentos", disse o fazendeiro devedor. PIANISTA DE CABARÉ - A entrada de Mardegan no mundo dos ruralistas tem uma história curiosa. Formado em administração de empresas pela Fundação Getúlio Vargas e também com o curso de economia, não conseguiu emprego e foi trabalhar como pianista de cabaré em São Paulo. Numa noite, conheceu um grande fazendeiro que o apresentou aos gerentes do Banco do Brasil em Mato Grosso e o auxiliou a comprar terras na região. Com ajuda do crédito rural, Mardegan foi um dos pioneiros no cultivo de soja em Mato Grosso. Há três anos, comprou duas fazendas nos cerrados no Piauí. A maior, de 28.000 hectares, pertencia a Júlio Campos, ex-governador de Mato Grosso, a quem atribui a responsabilidade pela dívida atual com o banco. "Quando comprei, ele já não pagava o que devia", garante. Seu patrimônio é estimado em 5 milhões de reais. Ele diz haver um complô entre petistas e banqueiros infiltrados no governo para desestruturar a agricultura. "Não conheço nenhum país onde um banqueiro é ministro da Agricultura. É o mesmo que colocar uma raposa num galinheiro", afirma Mardegan - dias depois de receber em sua fazenda o banqueiro José Eduardo, ministro e dono do Bamerindus. O gaúcho Érico Ribeiro, 59 anos, maior plantador individual de arroz do planeta, com 5 milhões de sacas por ano, aparece na lista do BB com uma dívida total de 32 milhões de reais, em nome de suas empresas. Ribeiro também esteve próximo do poder. Em 1992, o então presidente Fernando Collor foi a uma de suas fazendas, no Rio Grande do Sul, para o início simbólico da colheita de arroz. Nesse ano, Ribeiro foi candidato derrotado à prefeitura de Pelotas. Nas últimas eleições, como candidato a vice-governador pelo PPR, bancou boa parte dos custos da campanha da legenda, além de emprestar seus aviões. Seu patrimônio é de engasgar com o chimarrão. Em sociedade com a sua irmã, Laura, possui 43.000 hectares no Rio Grande do Sul, além de outros 50.000 em Mato Grosso em sociedade com Armando Conde, do BCN. Arrenda mais 40.000 hectares de outros proprietários para plantar. No Uruguai, é sócio desde 1991 de uma empresa agrícola dona de 6.500 hectares. Ribeiro também possui um frigorífico, empresas, transportadoras, imobiliárias e mais de uma dezena de pequenos aviões. Esse império faturou 200 milhões de reais no ano passado. O rei do arroz não é um novo-rico exibicionista, mas vive bem, muito bem. Ele e a irmã Laura andam em diversos carros importados das marcas Audi, BMW e Ford e moram em casas confortáveis. Ribeiro admite que é devedor do Banco do Brasil, mas alega que já repactuou suas dívidas. "Não sou caloteiro", repete. Ele diz ter arroz estocado desde 1992 em quantidade suficiente para pagar o empréstimo. "O governo tem obrigação de comprá-lo se quiser receber", afirma Ribeiro. O problema é que o empresário quer vender o produto por 20 reais a saca de 50 quilos - que ele alega ser o custo de produção -, enquanto o governo hoje pode importar arroz do Vietnã e pagar apenas 6 reais a saca. "Tudo isso é culpa do governo, que deveria comprar o nosso arroz em vez de importar", esbraveja Ribeiro. CHORADEIRA - Essa é uma choradeira bastante comum entre os ruralistas. Eles dizem que a agricultura é uma atividade de risco e o governo tem o dever de ajudá-los com subsídios, preços mínimos e juros baixos. A agricultura, como todas as demais atividades produtivas, foi flagelada pelo desvario econômico reinante no país na última década. Até hoje não há uma política sólida e confiável para o campo. Os produtores de arroz do Rio Grande do Sul, por exemplo, vivem dias agitados. Alegam que o preço de seu produto está abaixo dos custos e os financiamentos estão de doer. Dizem que são obrigados a concorrer com os produtores do Mercosul, que pagam juros menores em seus financiamentos. Acenam ao desemprego no campo, à inadimplência geral e à queda na produção. O protesto pode até ser procedente, mas não serve como desculpa para o calote de uma minoria abastada de ruralistas. Ao contrário do que se imagina, os fazendeiros que vivem do crédito rural não representam a maioria da agricultura. Só um quinto dos 82 milhões de toneladas de grãos colhidos na última safra foi financiado com crédito agrícola. E a grande maioria dos produtores que fizeram empréstimos pagou tudo em dia. Enquanto isso, outros 3 milhões de agricultores simplesmente não têm acesso ao crédito rural do governo. Essas são as verdadeiras vítimas da política agrícola brasileira - e não os barões do campo atolados em dívidas. Ex-governador do Rio Grande do Norte e senador pelo PSDB, o usineiro Geraldo Melo tem no Banco do Brasil uma dívida vencida de 21 milhões de reais em nome de sua empresa, a Companhia Açucareira Vale do Ceará-Mirim. É outro que responsabiliza o banco pelas suas dificuldades. "Entrei rico no governo e saí pobre", jura o tucano. No último ano do seu mandato, já devedor do Banco do Brasil, Geraldo Melo construiu um campo de pouso com 2 quilômetros nas terras das suas fazendas no município de Ceará-Mirim. Alegou que a pista serviria para o Aeroclube de Natal, em funcionamento no Centro de Treinamento da Aeronáutica. A idéia era trazer o aeroclube para dentro do terreno. Depois de cinco anos, não cumpriu sua promessa de doar a pista para o aeroclube, porque toda a sua propriedade foi oferecida como garantia ao Banco do Brasil. Melo é dono de um avião Aero Commander, estacionado em um dos hangares do governo do Estado. Não tem voado porque as taxas junto ao DAC estão atrasadas. Para não pagar sua dívida com o BB, o ex-governador alega que a sua usina enfrentou problemas com a seca nordestina e com os planos econômicos. "Com a seca de 1993, tive redução de 10 milhões de dólares na receita", afirma. "Isso desarrumou minhas finanças." Ele diz estar propondo uma ação amigável para pagamento dos débitos e não pretende entrar em processo litigioso com o BB. "Como senador e integrante da bancada tucana, não votei pela derrubada da TR. Agora, dever a bancos não é imoralidade ou crime." NA JUSTIÇA - Todos os devedores dizem que suas dívidas são muito menores que os valores cobrados pelo banco. Por isso, quase todos os débitos que aparecem na lista de inadimplência do Banco do Brasil estão na Justiça. Não são casos resolvidos, portanto. A dívida cresce porque, ao tomar dinheiro emprestado do Banco do Brasil, o agricultor assina um contrato que prevê multas e juros mais pesados se ele não pagar o que deve. Depois do vencimento do papagaio, em vez dos 11% mais TR, o devedor passa a pagar 2,5% ao mês de juros, além da TR. Pelo atraso no pagamento, o banco também cobra multa de 10% sobre o valor total do empréstimo. Isso faz com que uma dívida de 1 milhão de reais quase dobre de valor ao final de um ano. Um caso típico é o do barão mineiro do café Sérgio Meirelles, de 63 anos. Sua pendenga com o banco vem desde 1986, quando tomou emprestados 300.000 reais do crédito rural para replantar um cafezal destruído pelas geadas. Hoje, deve 1,5 milhão de reais, ainda assim uma parte ínfima de seu patrimônio pessoal, estimado em 20 milhões de reais. Em momento algum, Meirelles nega a dívida. Discorda é dos juros e multas. "Até quero pagar o que devo, mas de forma que não fique ruim para mim", afirma. Segundo os documentos do Banco do Brasil anexados ao processo na Justiça, Meirelles contraiu catorze empréstimos diferentes, que em valores de novembro de 1990 equivaliam a cerca de 640.000 dólares. Meirelles atrasou o pagamento alegando quebra da safra e a dívida saltou para 858.000 dólares, segundo o processo do fórum. Pouco depois, o banco concordou em perdoar a multa e parte dos juros desde que o cafeicultor pagasse tudo de uma vez só. Meirelles aceitou, mas, outra vez, deixou de pagar alegando dificuldades financeiras. O departamento jurídico do BB moveu uma ação de execução, exigindo a liquidação das fazendas dadas em garantia por Meirelles. O fazendeiro agiu rápido e entrou com uma ação de embargo à execução por discordar do montante da dívida. A briga continua até hoje e promete ir longe. MUITO BARULHO - Para os ruralistas inadimplentes, qualquer impasse com o governo é uma boa oportunidade de obter vantagens. É nessa hora que eles acionam sua poderosa bancada no Congresso, fazem muito barulho, choram e não pagam. Se o banco entrar na Justiça, melhor, pois o processo se arrastará nos tribunais durante um bom tempo - o período necessário, quem sabe, para um novo perdão. É o que se vê hoje com a questão da TR. Essa é uma briga antiga. Em maio de 1994, ao sancionar a lei que criou a URV, o presidente Itamar Franco vetou um parágrafo, introduzido pelos deputados ruralistas, no qual se previa que os empréstimos contraídos pelos agricultores seriam corrigidos de acordo com a variação dos preços mínimos de seus produtos, em vez da TR. Ao estabelecer um preço mínimo, o governo assegura ao agricultor que, na época da safra, seu produto será comprado por esse valor, mesmo que o preço no mercado esteja abaixo disso. Itamar vetou o parágrafo porque o Banco do Brasil usa recursos da poupança agrícola para financiar a safra. Como remunera os investidores da poupança pela TR, tem de receber o dinheiro que empresta também pela TR. Caso contrário fica no vermelho. A derrubada do veto presidencial, promulgada na semana passada por Sarney, é apenas mais um dos muitos presentes recebidos pelos ruralistas nos últimos anos. Criado em 1965, o crédito rural não teve correção monetária até 1979. Nessa época de vacas gordas, muita gente ficou rica tomando dinheiro do financiamento agrícola e aplicando a juros no mercado financeiro. Depois do Plano Cruzado, os agricultores se rebelaram contra o pagamento da correção monetária e tiveram parte de suas dívidas anistiada pelo então ministro da Fazenda, Bresser Pereira. O mesmo ocorreu no Plano Collor. Em 1992, também conseguiram rolar parte de suas dívidas com o argumento de que os juros estavam muito altos. Os planos econômicos fracassados antes do Real contribuíram para turvar a situação do crédito agrícola. Cada plano teve sua própria regra de correção monetária. Desde então, cada lado faz os seus cálculos e a coisa sempre vai parar na Justiça. Os ruralistas podem até ter razão nos malefícios dos planos econômicos. Mas todos os brasileiros foram vítimas dos solavancos da política econômica tupiniquim, e não apenas os agricultores. Muitos cidadãos que tiveram as suas economias confiscadas pelo Plano Collor não encontraram outra saída senão quebrar. Os fazendeiros, não. Deram um jeitinho. Entre os que estão pendurados na lista da inadimplência do Banco do Brasil, não há nenhum com dificuldades materiais. Enquanto isso, o cidadão comum que deixar de pagar uma prestação no comércio entra imediatamente na lista negra do serviço de proteção ao crédito e não consegue mais trocar um cheque no botequim da esquina. PREJUÍZO - Tome-se o caso da família Matsubara, do Paraná. Em nome de Takeo Matsubara há uma dívida de 2,238 milhões de reais já computada como prejuízo pelo Banco do Brasil. Prejuízo, nesse caso, significa que o banco já perdeu as esperanças de ser pago. Os Matsubara admitem o débito mas, como todos os demais devedores, contestam o valor cobrado pelo banco. "Vamos pagá-la, mas precisamos renegociá-la, reduzi-la e parcelá-la", diz Sueo Matsubara, 55 anos, um dos membros da família. Sueo ficou surpreso quando soube que o BB classificou a dívida da família como prejuízo. "Então quer dizer que nós não precisamos pagar mais?", perguntou, em tom de brincadeira. "Mas a dívida só chega a 20% do nosso patrimônio." Há setenta anos estabelecidos no Paraná, os Matsubara fizeram fortuna com a agricultura. Junto com outra família de imigrantes japoneses, os Maeda, foram os reis do algodão no norte do Estado. Chegaram a ter doze fazendas. Desde o final da década passada, pararam de plantar e começaram a diversificar seus negócios. Suas terras no Paraná, cerca de 10.000 hectares, estão hoje arrendadas para a lavoura de cana-de-açúcar. "Não plantamos mais nada porque hoje ninguém ganha dinheiro com a agricultura", diz Sueo, que ficou rico com a agricultura. Em 1986, a família comprou da Volkswagen, por 30 milhões de dólares, a Fazenda Vale do Rio Cristalino, em Santana do Araguaia, sul do Pará. Tem 139.000 hectares, onde pastam 40.000 cabeças de gado. Os Matsubara também são donos de uma indústria de salgadinhos no norte do Paraná, a Crispy, inaugurada no ano passado, na qual investiram 5 milhões de dólares. Têm duas revendas de carros importados em Londrina, uma da marca Mazda e outra da Kia, e mantêm ainda o time de futebol do Matsubara, que disputa a principal divisão do futebol paranaense. O time custa aos Matsubara 100.000 reais por mês. A família ainda se dá ao luxo de custear a carreira de piloto de Fórmula 3 de Norio Matsubara, 26 anos, filho de Sueo. Com tanto dinheiro, por que os Matsubara não pagam o que devem ao Bando do Brasil? "Somos clientes do BB há quatro décadas e só deixamos de pagar nos últimos anos", responde Sueo. "Sabemos que o banco não vai nos tomar os bens de uma hora para a outra." Sueo tem razão. A bola-de-neve do calote rural só atingiu o tamanho que tem hoje porque o Banco do Brasil foi relapso na cobrança de seus credores. O índice de inadimplência do BB, de 22%, é onze vezes maior que a média nos bancos privados. Durante três décadas, o banco foi uma mãe dadivosa para os inadimplentes do campo. Gerentes das agências com uma carteira de crédito rural gorducha eram tratados como nababos nas pequenas cidades do interior. "É claro que o banco é culpado, pois não tinha uma postura agressiva de emprestar e recuperar o seu dinheiro", concorda o atual diretor de crédito rural do BB, Ricardo Conceição, cujo objetivo é reduzir o índice de inadimplência para 2% até o final de 1996. "O banco não vai mais ser um pai", promete Conceição. É ver para crer. Já há, no entanto, sinais de mudança no BB. O gerente em Barreiras, Francisco Romeiro, tornou-se um especialista em inadimplência. A cidade, a 883 quilômetros de Salvador, é rica na produção de soja - quase 1 milhão de toneladas em 1994. Além do grão, Barreiras é rica em fazendeiros caloteiros - contribui com 33 nomes na lista do BB. "A agricultura aqui é viável, financiada ou não. Os agricultores é que estão mal-acostumados, com uma margem de lucro muito elevada. Muitos fizeram fortuna em apenas uma ou duas safras. Agora que as margens apertaram, dizem que estão mal", afirma Romeiro. CHEQUE CONFISCADO - Mas os fazendeiros não estão, realmente, mal? Um telefonema atendido por Romeiro no mesmo instante em que conversava com VEJA, duas semanas atrás, ajuda a responder. Era um plantador de soja que pegou financiamento para a safra e, depois de vendê-la, queria comprar um carro zero. Deu até um cheque para isso. Mas "esqueceu" de pagar o financiamento do Banco do Brasil - afinal, pagar para quê? O cheque, cruzado, foi bater nas mãos do gerente do BB, que, imediatamente, o confiscou para pagamento do débito. No mesmo dia, Romeiro passou a manhã ouvindo os choramingos de um agricultor que vendeu a safra assim que colheu, comprou uma fazenda nova e também "esqueceu" de pagar o financiamento. "Esse, vamos ter de levar para cobrança judicial", diz. Cheio da nota, choramingão quando pede dinheiro e turrão até a morte quando é cobrado, o gaúcho Helmut Rieger, fazendeiro em Barreiras, tem uma fábrica de massa de tomate capaz de processar 10% da produção nacional. Alimenta a fábrica com seus 45.000 hectares de terra. Tudo isso acionado por uma hidrelétrica particular de 10 megawatts. No mês passado, os fazendeiros de Barreiras foram visitados por uma comissão de parlamentares, ciceroneados pelo secretário da Agricultura da Bahia. Rieger convidou-os para conhecer suas propriedades, levou-os para passear e mostrou as mudas que importa dos Estados Unidos. Lembrou que gera muitos empregos e arrecadação de impostos. Disse que trabalhava "no setor produtivo, em vez de especular no mercado financeiro". Reclamou do Ministério da Fazenda, que acaba de zerar a alíquota de importação da massa de tomate. No final, pediu "uma intervenção política" para negociar uma dívida atrasada de 4,5 milhões de reais junto ao Banco do Brasil. Rieger esqueceu de mencionar alguns detalhes de seus negócios. Em 1993, ele foi acusado de manter 700 trabalhadores rurais em regime de semi-escravidão na lavoura de tomate. Intimado pela Delegacia Regional de Trabalho a iniciar os funcionários nos direitos trabalhistas do século XX, Rieger optou por uma modernização sumária - demitiu os 700 e comprou uma máquina colheitadeira. Além dos 4,5 milhões de reais do crédito rural, tem outra dívida, de 3,5 milhões de reais, com a carteira de crédito geral do Banco do Brasil. Tem ainda um papagaio vencido de 6,3 milhões de reais no Banco do Nordeste do Brasil, BNB, que está em cobrança judicial, e outras pendengas com credores da região. Rieger justifica suas dívidas com uma história complicada. Diz que em 1992 adquiriu a indústria de tomate, através de um financiamento do Banco do Brasil. Teria sido enganado pela fornecedora dos equipamentos, Sasib Agrícola, que recebeu o dinheiro do banco mas lhe entregou máquinas usadas, em vez de zero-quilômetro. "A fábrica nunca funcionou com mais de 50% da capacidade, por isso não pude pagar as dívidas", diz. Rieger entrou com um processo contra a Sasib exigindo uma indústria nova. "O Banco do Brasil tinha de entender a situação e suspender o pagamento do financiamento à Sasib", reclama. "Se o banco não tivesse pago, eu teria colhido a safra e negociado o problema com a indústria." Como sempre, também nesse caso o Banco do Brasil levou a fama. Ameaçado de levar prejuízo com os ruralistas, o Banco do Brasil trata de cobrar dívidas em outras frentes. Na semana passada, dois advogados do banco, acompanhados de oficiais de Justiça, penhoraram obras de arte, tapetes persas e outros bens em dois apartamentos da família do empresário Antonio Mayrink Veiga, ambos em endereço nobre da Zona Sul do Rio de Janeiro, com vista para o Pão de Açúcar. Casado com Carmen Mayrink Veiga, uma das estrelas mais fulgurantes da grã-finagem carioca, "Tony", como é mais conhecido, deve ao BB cerca de 4 milhões de dólares. São empréstimos feitos por uma de suas empresas, a SFB Sistemas, que representava no Brasil a inglesa Ferranti, fabricante de equipamentos para embarcações militares. A empresa inglesa faliu, as encomendas no Brasil escassearam e os Mayrink Veiga vivem às voltas com problemas de caixa. "Tem gente que deve ao banco há noventa anos e não acontece nada", queixa-se Tony. "Eu devo há noventa dias e o banco me executa. E ainda chama a imprensa para acompanhar. É uma perseguição."
Ser devedor do Banco do Brasil nem sempre é sinônimo de caloteiro. Nove entre dez clientes rurais do banco pagam suas dívidas em dia. Os bons pagadores também reclamam da política do governo para a agricultura, atacam a TR, mas dão um jeito de honrar os seus compromissos e ainda obter lucros. Há bons exemplos dessa natureza mesmo entre os arrozeiros, os que mais têm esperneado contra a cobrança de juros no campo. Segundo dados do BB, só um terço dos seus clientes produtores de arroz está inadimplente. Os outros pagam tudo certinho. Harold Pinto Guedes da Luz, 59 anos, é um deles. Grande produtor de arroz e dono de 4.000 cabeças de gado, Luz emprega 75 pessoas e fatura 2 milhões de reais por ano. Dono de um automóvel BMW, ele é cliente do Banco do Brasil há cerca de vinte anos e garante que nunca atrasou seus compromissos. Atualmente, está pagando em dia um empréstimo de 400.000 reais contraído em 1994. Qual o segredo para não ser inadimplente? "Sempre tive os pés no chão e nunca caí no canto de sereia dos gerentes do BB", responde Luz. "Por isso, nunca peguei mais dinheiro do que podia pagar." Apesar de criticar a política do governo para a agricultura, não é um chorão como os demais arrozeiros. "Não é fácil, mas plantar arroz dá lucro, sim senhor", garante. A inadimplência entre os pequenos e médios produtores é pequena. "Há 25 anos pego financiamento no Banco do Brasil e sempre pago em dia", diz Pedro Dellamaggiora dos Santos, 64 anos, dono de 170 hectares na região de Londrina, no norte do Paraná. Formado em contabilidade e administração, Santos largou o escritório em 1970 e passou a se dedicar integralmente ao campo. Planta soja e milho, além de criar porcos e algumas cabeças de gado. Em setembro do ano passado, pegou um empréstimo de 25.000 reais. Quitou tudo no final de abril. Preferiu pagar o banco a trocar o Voyage 86, como planejava antes da safra. "A colheita não foi das melhores e os preços estão ruins", diz Santos. "Então, prefiro ficar com a ficha limpa no banco e deixar para trocar o carro no ano que vem." |
VEJA | Veja São Paulo | Veja Rio | Expediente | Fale conosco | Anuncie | Newsletter | ![]() |
|