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17 de janeiro de 1979
Um império no chão

Abandonado pelos Estados Unidos,
o xá anuncia que deixará o
Irã. Com a monarquia iraniana
desabando, a instabilidade ronda
uma região vital do mundo

Uma manifestação aqui, e eis que se ia uma torre. Uma frustrada tentativa de recomposição política ali, e eis que se ia um bispo. Visivelmente, nos últimos meses, à medida que se tornava mais e mais incontrolável a dinâmica da revolução iraniana, o xá Mohammed Reza Pahlevi, antes o soberano incontrastável de seu país - um dos últimos monarcas absolutos sobre a face do planeta -, ia ficando mais e mais sem peças do seu lado do tabuleiro. Restava-lhe um trunfo, porém: o ainda intocado, teimoso apoio dos Estados Unidos. Não adiantava que o regime estivesse indisfarçavelmente desmoronando no Irã, e que o xá parecesse cada vez mais sozinho em seu Palácio Niavaran. Os EUA continuavam com ele. Não adiantava que as hordas de iranianos continuassem cada dia a sair nas ruas e a exigir a cabeça de seu soberano. O presidente Jimmy Carter lamentava tudo aquilo, mas reafirmava que o xá continuava a contar com o apoio americano.

Isso até a semana passada. Pois na última quarta-feira, numa das mais dramáticas - e mais custosas - mudanças de rumo em sua política externa, nos últimos anos, os Estados Unidos vieram anunciar ao mundo que não mais estavam com o xá. Embora se soubesse que a decisão vinha sendo ruminada há alguns dias, só então ela foi assumida publicamente pelos porta-vozes da Casa Branca e do Departamento de Estado. E no dia seguinte foi ainda pior. Numa declaração à imprensa, o secretário de Estado Cyrus Vance informou que o xá Reza Pahlevi havia concordado em sair de seu país - "de férias", acrescentou. Vance disse mais. Os Estados Unidos, informou o secretário de Estado, apoiavam a decisão do xá. E faziam votos de que o governo do primeiro-ministro Shapour Bakhtiar, formado na semana anterior no Irã, na tentativa de atrair a oposição para uma forma moderada de governo, tenha êxito em sua tarefa de pacificar o país.

'FÉRIAS' - Nada mais restava ao xá. Sitiado por meses de revolta nas ruas, soçobrando sobre a destruição, o caos e o sangue derramado em seu país nos últimos tempos, ele agora recebia o xeque-mate na forma de um veto de seu principal aliado a qualquer tentativa de sobrevivência de sua parte. Na madrugada de sábado, é verdade, Pahlevi ainda continuava em seu palácio. Ainda não fora anunciado o dia exato de sua partida e continuava-se a afirmar oficialmente que sua saída seria temporária - "de férias". Mas isso eram questões de somenos. A saída podia ser no próprio fim de semana, talvez um pouco mais tarde - mas, em geral, a começar pelo próprio porta-voz oficial do Departamento de Estado, Flodding Carter, ninguém dava mais de uma semana de permanência do soberano em Teerã. Quanto à questão das "férias", também não se duvidava de que tudo seria uma mera manobra para salvar a face. Uma vez que Reza Pahlevi ponha o pé fora de Teerã, não se vê como ele possa um dia voltar ao poder ou, mesmo, ao seu país.

Outras medidas de salvar a face estavam em andamento, no fim da semana, em Teerã. Em primeiro lugar, formava-se um conselho de regência. Assim, a saída de Pahlevi se daria num quadro estritamente regular - uma vez que a Constituição iraniana prevê a nomeação de regentes para toda ocasião em que o xá se ausenta de maneira mais prolongada do país. Nem com todas essas tentativas de tornar a transição no Irã a mais suave possível - ou a menos espalhafatosa - se evitava, porém, a impressão de que o Irã estava cruzando um ponto de não-retorno em sua história. Talvez o país vivesse um momento tão importante como o foi para o Egito, por exemplo, a derrubada da monarquia do rei Faruk e sua substituição pelo regime dos oficiais nacionalistas do coronel Gamal Abdel Nasser.

PAPEL-CHAVE - E o jogo do Irã, para todo o mundo, tem conseqüências pesadas. Com os formidáveis 6 milhões de barris que, em épocas normais, jorram por dia de seus campos de petróleo, o Irã representa um papel de relevância na economia mundial, especialmente para os países ocidentais. Segundo exportador mundial do produto, logo após a Arábia Saudita, e abastecedor, por exemplo, de 54% do petróleo consumido pela Holanda, ou 15% do consumido pela Itália, o Irã se projeta para muito além de suas fronteiras - e teme-se que um regime antiocidental, eventualmente instalado em Teerã, possa rever as prioridades de suas vendas. E a verdade é que pelo menos em parte essa revisão começou a ser feita. Na semana passada, reafirmando o que já anunciara ao ser instalado no governo na semana anterior, o primeiro-ministro Bakhtiar insistiu em que seu governo deixará de vender petróleo para a África do Sul e Israel - países que, atualmente, dependem em nada menos que 90% e 60%, respectivamente, dos fornecimentos iranianos.

No mesmo campo petrolífero, podem-se descortinar outras conseqüências possíveis. Um governo mais radical no Irã - do tipo, talvez, do regime militar-socialista-muçulmano do Iraque atual, ou quem sabe até do tipo do extremado coronel Muammar Khaddafi, da Líbia - certamente incluiria entre suas primeiras prioridades a reversão da política moderadora que o regime do xá tem aplicado até agora nas reuniões da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), quando se trata de atualizar o preço do produto. E há ainda os aspectos estratégicos na questão do Irã - que compartilha uma fronteira de 2 000 quilômetros com a União Soviética.

Ao Irã foi atribuído pelos Estados Unidos, desde a II Guerra Mundial, o papel-chave de defesa dos interesses do Ocidente numa região particularmente propícia às escaramuças entre as superpotências. Daí os bilhões de dólares em armas americanas que, nesta era Reza Pahlevi, tornaram o Exército iraniano um dos mais poderosos do mundo. Daí também o mandato, conferido nestes anos todos pelos EUA ao Irã, para exercer a função de uma espécie de "gendarme do golfo Pérsico" - encarregado da boa ordem numa região de onde de 15 em 15 minitos zarpa um navio levando petróleo para o Ocidente.

APROFUNDAR O IMPASSE - Além de se inscrever no quadro do jogo global entre as duas superpotências, a crise iraniana ainda tem implicações de ordem regional. O Paquistão e a Turquia, para citar dois vizinhos do Irã tradicionalmente aliados do Ocidente, atravessam atualmente uma fase de instabilidade - o primeiro governado por um vacilante governo militar, assediado pelos problemas eternos de uma das populações mais miseráveis do planeta, e o segundo às voltas com desordens de rua de inspiração direitista contra o governo social-democrata do primeiro-ministro Bulent Ecevit. Dependendo dos rumos que tomar, segundo calculavam na semana passada os estrategistas de Washington, a revolução iraniana poderia afetar esses dois países. E depois é preciso considerar ainda o próprio conflito do Oriente Médio, sobre o qual o Irã sempre exerceu uma influência moderadora - teoricamente alinhando-se com os árabes, é verdade, mas nem por isso deixando de vender petróleo e manter excelentes relações comerciais com Israel.

No que se refere ao Oriente Médio, desde o começo, sabia-se que a situação do Irã haveria de ter algum efeito. Acabaria ela por aprofundar ainda mais o impasse em que se encontram egípcios e israelenses, incapazes de implementar os acordos preliminares assinados em Camp David no ano passado? No começo da semana, poderia parecer que sim. Uma ala do Parlamento israelense pôs-se a argumentar que, com o corte dos fornecimentos de petróleo do Irã, se tornava imperioso para Israel manter os poços existentes no deserto do Sinai. Com isso, evidentemente, não haveria devolução do Sinai ao Egito e, em conseqüência, não haveria paz. Mais para o meio da semana, porém, começaram a surgir indícios soprando justamente na direção oposta - isto é, a de que a crise do Irã poderia acabar não prejudicando, mas, muito pelo contrário, até acelerando um entendimento entre Israel e Egito.

Agora, não pesava mais o argumento do petróleo - mesmo porque Israel, além da perspectiva de comprar o produto no México, tem garantias expressas dos Estados Unidos de que seus suprimentos não serão afetados. Mais importante era o fato de Egito e Israel serem ambos países pró-ocidentais e, portanto, sentirem-se igualmente ameaçados pela instabilidade no Irã. "Diante do perigo que correm os países árabes pró-ocidentais, o problema palestino ou o da retirada israelense da Cisjordânia, principais obstáculos, até agora, à paz entre Israel e Egito, passam para um segundo plano", raciocinou para VEJA uma fonte diplomática em Telavive.

UM NOVO EIXO - Ou seja: a crise do Irã poderia gerar o surpreendente efeito de contribuir para que se desate o nó das diferenças egípcio-israelenses. E mais: poderia servir também para que se aproximasse de Israel um de seus mais ortodoxos adversários - a Arábia Saudita. Seguindo o mesmo raciocínio dos interesses comuns entre os países pró-ocidentais, alguns analistas principalmente americanos - já chegavam a imaginar, na semana passada, a formação de um novo eixo no Oriente Médio, unindo Israel, Egito e Arábia Saudita. E iam além: especulavam que nesse bloco, costurado pelos interesses militares e comerciais comuns de seus participantes, Israel poderia entrar com a tecnologia, o Egito com a força de trabalho e a Arábia Saudita com o financiamento.

Projeções como essa podem estar distantes demais. Em todo caso, há fatos concretos a citar - inimagináveis apenas algumas semanas atrás. Com o aceleramento da degringolada do xá, a Arábia Saudita deixou de recusar a importação de produtos industriais que contivessem uma ou mais partes fabricadas em Israel. Igualmente, os sauditas hoje não mais fazem questão de saber se "elementos judeus sionistas" participam desta ou daquela companhia, antes de deixá-la operar em Riad. Enfim, há um último - este ainda mais dramático - a ilustrar as mudanças que vêm se operando na região. Na semana passada, cedendo a pressões insistentes da Arábia Saudita - país que, com o desmoronamento do regime do xá, se sente como potência isolada na região do golfo Pérsico -, os Estados Unidos resolveram apressar o cumprimento da última e volumosa encomenda de armas feita pela monarquia saudita em Washington. E enviaram à Arábía os primeiros doze de um total de sessenta aviões F- 15 Eagle, caças-bombardeiros cuja entrega só estava programada para começar em meados de 1981.

DESMONTANDO ESTAÇÕES - Há menos de nove meses, em maio do ano passado, quando a compra dos F-15 pela Arábia Saudita fora anunciada, em Israel havia se desencadeado uma tempestade de protestos. Pois bem, na semana passada, Israel não apenas ficou quieto como possivelmente terá apoiado a decisão americana. Compreende-se a estratégia americana. Ao mesmo tempo que puxavam o tapete sob os pés do xá, os Estados Unidos procuravam deixar claro que nem por isso abandonarão seus demais aliados na região, ou deixarão de manter sua influência na área. Na verdade, os americanos estavam empenhados num grande, enorme esforço - talvez a crise que mais concentrados esforços exigiu de sua diplomacia desde o fim da guerra do Vietnã, em abril de 1975. No quadro todo da operação engendrada por Washington, no entanto, a parte mais delicada era obviamente a que se realizava dentro do próprio Irã. Ali, além de retirar seu apoio ao xá, os EUA tinham tarefas mais específicas a realizar. Os americanos já começaram a desmontar, por exemplo, a meia dúzia de sofisticadas estações de radar e escuta eletrônica que mantêm no Irã, para de lá rastrear os movimentos das armas estratégicas dentro do território da União Soviética. Qualquer que seja o regime que venha a substituir o xá, raciocinou-se em Washington, deverá conter alguma coloração antiamericana, quando menos para aplacar a fúria nacionalista das massas rebeladas contra o xá. Portanto, não permitirá a continuação das estações de espionagem em território iraniano. Mas há um outro perigo, ainda maior. E se a instabilidade no Irã acabasse por propiciar algum envolvimento dos soviéticos na crise, e a captura, por eles, das estações americanas? Esse é um risco que os Estados Unidos não podem correr.

MUDANDO DE FACE - Retraçar sua estratégia na região, retirar seu equipamento mais precioso do Irã. E ainda havia mais a fazer, para os Estados Unidos, na semana passada: dar força a uma alternativa ao xá que garantisse um mínimo de sobrevivência para seus interesses no Irã. Que espécie de governo os americanos gostariam de ver instalado em Teerã? Por enquanto, as fichas de Washington estão lançadas no próprio governo do primeiro-ministro Bakhtiar.

Na semana passada, ao precisar, numa entrevista, o programa de seu governo, Bakhtiar anunciou o desmantelamento de toda a estrutura da ditadura que o xá mantinha sobre o país - inclusive a dissolução da Savak, a polícia política do império.

De qualquer forma, Bakhtiar é um moderado - um social-democrata formado na França. Tanto melhor, quando se sabe que uma das alternativas possíveis, muito mais difícil de digerir, para os Estados Unidos, é a formação de um governo inspirado no fundamentalismo muçulmano, principal catalisador das massas iranianas sublevadas e que tem seu porta-bandeira máximo no ayatollah (dignitário religioso) Ruhollah Khomeini, exilado na França.

O grau de envolvimento dos Estados Unidos na tentativa de consolidação do governo de Bakhtiar pode ser medido pela missão de que foi incumbido na semana passada um general de quatro estrelas da Força Aérea americana, Robert Huyser, retirado de seu posto habitual de subcomandante das forças americanas na Europa e despachado para Teerã. Huyser, em Teerã, até o final da semana estava empenhado em conversações com militares iranianos, em busca de seu apoio para a saída do xá e para o governo de Bakhtiar. E considerava-se um êxito seu que, no final da semana, tivessem diminuído os rumores de um possível golpe pró-xá da parte dos altos oficiais iranianos.

Bakhtiar chegou a dizer que, se os militares dessem o golpe, poderiam considerar riscado qualquer apoio futuro dos Estados Unidos, inclusive no que se refere ao fornecimento de munições e peças de reposição do equipamento militar. Para os EUA, não interessam os militares ou o xá. Eles estão convencidos de que para eles não haveria futuro. Interessa um governo que, como talvez o de Bakhtiar, possa dialogar com a oposição e desmobilizar a revolta da população.

Bakhtiar o conseguirá? É incerto. De um lado, ele tem a prevenção dos militares e, do outro, a pouca disposição da oposição em juntar-se a um líder que, embora tenha saído dos seus quadros, foi nomeado para o cargo pelo xá. Mesmo assim, a gestão dos americanos junto aos militares no fim da semana parecia ter melhorado suas chances desse lado, e o anúncio de que o xá deixaria o país melhorava suas possibilidades junto à oposição. Enquanto isso, o Irã ia mudando de face. Na sexta-feira, o ayatollah Khomeini anunciava sua intenção de voltar ao país assim que o xá se retirasse. Era, indisfarçavelmente, um império que desabava.


Caindo das alturas

A vertiginosa queda do xá, do poder absoluto
à solidão de um regime em ruínas

Naquela manhã, dezenas de milhares de manifestantes invadiam as ruas de Teerã. Lojas eram saqueadas. Populares queimavam retratos do xá Mohammed Reza Pahlevi. Espalhadas por praças e jardins, as estátuas do monarca eram abatidas de seus pedestais. E o túmulo de Reza Khan, pai do xá e fundador da dinastia Pahlevi, chegou a ser profanado. Assim, quando pouco mais tarde um avião bimotor Beechcraft pousou de repente no aeroporto de Bagdá, capital do vizinho Iraque, não havia razão para muita surpresa. Dentro do aparelho, entre umas poucas valises e pastas de documentos, havia quatro pessoas: dois oficiais iranianos, o próprio xá e a princesa Soraya Esfandiari, a então mulher do soberano.

Estas cenas, tão familiares a quem observa o Irã de hoje, ocorreram há 25 anos - uma espécie de trailer dos acontecimentos deste início de 1979. No dia seguinte, 17 de agosto de 1953, a notícia estava em todos os jornais: um golpe de estado, conduzido pelo então primeiro-ministro Mohamed Hedayat, conhecido como Mossadegh, obrigara o xá do Irã, com 34 anos, a fugir para o exílio. De Bagdá, ainda com expressões tensas e roupas amassadas, o casal real seguiria para Roma, onde seria recepcionado por uma multidão de paparazzi. Nada mais natural: o xá quase só chamava atenção, à essa época, por ser um playboy internacional, colecionador de cavalos de raça, carros esporte e companhias femininas. Ninguém poderia imaginá-lo, então, como o monarca absolutista e empreendedor em que iria se transformar no começo da década de 70. E nada indicava que o Irã, então uma relíquia decadente da antiga civilização persa, poderia ascender, com o boom petrolífero, ao clube das nações milionárias do planeta.

'SEM ESFORÇO' - Daquela vez, porém, o exílio acabaria não se consumando. Estava-se no auge da guerra fria. E o Irã, embora pobre e desacreditado, já representava um peão importante na disputa leste-oeste, uma posição avançada no flanco sudoeste da União Soviética. Mossadegh, um nacionalista de 74 anos que havia estatizado a produção de petróleo, não parecia confiável para os Estados Unidos. Entrou em cena, então, a CIA americana e generais fiéis ao xá conseguiram reverter a situação em seu favor. Mossadegh foi preso, as manifestações de rua foram reprimidas. E, cinco dias depois de sua partida, Reza Pahlevi estava de volta em Teerã para reassumir o trono - "sem qualquer esforço", como ele admitiria anos mais tarde.

Nestes 25 anos, mudaram Reza Pahlevi e o mundo. Em 1953, o xá desembarcara em Roma com pouco mais de 1 000 dólares no bolso, e tivera que aceitar, para as primeiras despesas, um empréstimo de seu amigo Enrico Mattei, então o poderoso presidente da ENI, a empresa petrolífera estatal italiana. Hoje, não há o menor problema nesta área: calcula-se que só nos Estados Unidos o xá teria depósitos de até 2 bilhões de dólares, além de contas bancárias na Suíça e um total ainda superior em imóveis e ações. Em compensação, Pahlevi não pode mais contar com os préstimos decisivos de seus amigos americanos. E o fato de saber que desta vez está liquidado certamente contribui para que agora a amargura seja maior. "Ele perdeu peso e está fisicamente abatido", confidenciou um diplomata que esteve com o xá recentemente. "Nosso encontro foi penoso, nenhum de nós ousava mencionar a crise política."

SILÊNCIOS - Acuado até o fim da semana passada em seu Palácio Niavaran, de onde assistia impotente ao desmoronamento do seu regime, Reza Pahlevi, aos 59 anos, tem mergulhado em longos períodos de depressão - nos quais alterna gestos nervosos e longos silêncios, cortados por suspiros. Quando um correspondente da revista americana Time perguntou-lhe recentemente qual teria sido seu erro mais grave, o xá permaneceu quieto por um longo instante. Depois desabafou, como se falasse para si mesmo: "Ter nascido". A experiência vivida 25 anos atrás parecia rondar seus pensamentos nas últimas semanas, enquanto nas ruas, longe do palácio, multidões de iranianos reclamavam novamente a saída do monarca do país. "Será que tudo não poderia ainda reentrar nos eixos?", perguntou-lhe, em outra ocasião, um jornalista inglês. "Não sei", confessou o xá. "Como poderia saber? Não é a primeira vez. Também não foi fácil em 1953."

O fantasma do exílio, para Reza Pahlevi, não se limita apenas à sua própria experiência de 1953. Inclui a lembrança do pai, Reza Khan, também forçado a deixar o país nos idos de 1941. E a perspectiva de abandonar o poder terá sido certamente mais dura, para o atual xá, já que até semanas atrás sua palavra era lei absoluta, tanto nas grandes questões de Estado como nos assuntos mais corriqueiros da administração. Tome-se, por exemplo, um episódio ocorrido durante a visita do presidente americano Richard Nixon ao Irã, em 1972. Durante um banquete oferecido a Nixon no palácio real, o xá perguntou aos jornalistas se estavam satisfeitos com a viagem. Um deles queixou-se então de que não havia tempo para comprarem souvenirs. O xá sorriu, virou-se para um de seus assessores e ditou uma ordem: "Providencie para que as lojas permaneçam abertas à noite". Para espanto dos americanos, o comércio reabriu as portas.

USURPADOR - Nem sempre, contudo, fora assim. O jovem de 22 anos que ingleses e soviéticos colocaram no trono iraniano em 1941 - quando depuseram o velho Reza Khan, culpado de alimentar simpatias pelas potências do Eixo - revelava profundo desinteresse pelas coisas do Estado. Em contraste com o pai, um huno de 1,98 metro de altura que fora soldado de uma brigada de cossacos, Mohammed Reza Pahlevi tinha constituição franzina e temperamento introvertido. Para os estrangeiros, sua única qualidade parecia ser o francês escorreito, adquirido na infância em uma das mais caras escolas da Suíça, a exclusiva Le Rosey.

A verdade é que o xá Mohammed Reza Pahlevi, auto-intitulado "Rei dos Reis", "Luz dos Arianos", não tem sequer uma gota de sangue azul. Em termos estritos, é filho de um usurpador - o esperto Reza Khan, ele próprio filho de camponeses, que tinha ingressado na vida militar apenas para garantir um prato de comida todos os dias. Apesar de analfabeto, Reza Khan conseguiu galgar a hierarquia do Exército e, em 1925, simplesmente apoderou-se do trono, derrocando a dinastia reinante, os Qajar. Reza Khan governou durante dezesseis anos e empreendeu um programa de modernização do país - como o filho, mais tarde, também ele queria reviver a glória do império persa. Mas acabou cometendo vários equívocos, o último dos quais foi a aproximação com a Alemanha nazista. Em conseqüência, durante a II Guerra Mundial, ingleses e russos, que ao longo dos séculos haviam se revezado na dominação do Irã, voltaram a ocupar o país militarmente. O objetivo era substituir Reza Khan por um governo republicano simpático aos aliados.

ÓCULOS E BOINA - O soberano teve, no entanto, um último golpe de audácia. Antes de partir para o exílio na África do Sul, onde morreria em 1944, abdicou em favor do filho. Em seguida, alguns de seus oficiais, driblando os agentes secretos das forças de ocupação, conseguiram introduzir o príncipe herdeiro no Parlamento, em segredo, para que prestasse juramento como novo xá. Reza Pahlevi penetrara no palácio disfarçado, usando boina e óculos de sol, agachado no piso de um velho automóvel. Diante do fato consumado, Inglaterra, Estados Unidos e União Soviética resolveram aceitar o novo governante - ou, mais precisamente, ignorá-lo. Dois anos depois, quando os chefes de governo destes três países Winston Churchill, Franklin Delano Roosevelt e Joseph Stálin - reuniram-se em Teerã para uma reunião de cúpula, os dois primeiros sequer se deram ao trabalho de prestar uma visita protocolar ao anfitrião da conferência. Pura e simplesmente convocaram o xá a comparecer às suas embaixadas.

Reza Pahlevi chefiava um governo sem poder. E o Irã estava à beira da bancarrota, com as famosas jóias do império - hoje a principal atração turística do país - empenhadas para garantir o rial, a moeda nacional. O jovem soberano, por sua vez, era visto com mais freqüência nas estações de esqui européias do que nas poeirentas vilas do interior do Irã. Até que em 1949, ocorreu um atentado contra o xá - fato que, segundo várias opiniões, marca o momento em que Reza Pahlevi começa efetivamente a assumir o poder.

CINCO TIROS - O atentado foi realizado durante uma cerimônia oficial na Universidade de Teerã, e até hoje seus motivos permanecem obscuros. Disfarçado de fotógrafo de imprensa, um jovem de nome Fakhr Arai disparou cinco tiros contra o xá, à queima-roupa, antes de ser morto. Reza Pahlevi escapou - e o episódio teria servido para reforçar sua crença, alimentada por sonhos e visões de infância, de que gozaria de uma proteção divina especial. O xá sempre acreditou em visões - ele é dotado de um formidável lado místico em sua personalidade. Mais importante, porém, é que o atentado possibilitou o primeiro de uma série de golpes depois desfechados pelo xá contra a constituição iraniana. Rapidamente emendada, ela passou a conceder ao monarca, por exemplo, o direito de dissolver o Parlamento. Uma nova lei de imprensa foi posta em vigor e, segundo ela, toda e qualquer crítica ao xá ou a seus familiares ficava sujeita a penas de um a três anos de prisão. Suspeitando de que o atentado fora organizado por membros do Tudeli, o partido comunista iraniano, Pahlevi comandou pessoalmente a repressão aos comunistas - e mais de 200 pessoas foram presas em uma única noite.

Mas também há quem considere 1960 como o marco decisivo da escalada política do xá. Foi neste ano que ele recebeu o herdeiro tão longamente esperado - desde que se casara pela primeira vez, em 1939, por imposição do pai, com a princesa Fawzia, filha do rei Fuad, do Egito. Fawzia não fora capaz de gerar um filho homem e o casal se separara. E o mesmo destino tivera o segundo casamento do monarca, desta vez com uma legendária figura dos anos 50, Soraya Esfandiari - cujos vãos esforços para superar a esterilidade haviam sido alçados à condição de prioridade número um do Estado iraniano. No começo de 1960, Pahlevi finalmente casou-se com sua mulher atual, a imperatriz Farah Diba, então estudante de arquitetura em Paris e dezenove anos mais jovem que ele. O filho, príncipe Reza Cyrus Pahlevi, veio ainda naquele ano e, para comemorar o acontecimento, o pai anunciou uma redução de 20% nos impostos, anistiou 98 prisioneiros políticos e decretou dois dias de feriado.

VISIONÁRIO - Seus sonhos de grandeza, ao mesmo tempo, começaram a ganhar impulso. Dois anos depois, o xá lançava seu projeto de "Grande Civilização" - "uma revolução social para a salvação do país", segundo suas próprias palavras. O projeto, também chamado "Revolução Branca", incluía a reforma agrária, a extensão do direito de voto às mulheres e, no tom grandiloqüente cada vez mais ao agrado do xá, "o ingresso do Irã no rol dos povos progressistas e das sociedades modernas". Estavam lançadas as raízes da empreitada de modernização que geraria profundas contradições políticas e, a longo prazo, desencadearia a atual crise.

À medida que consolidava seu controle sobre o país, o xá assumia a linguagem de um visionário. Como os de seu pai, que fora fascinado pela tecnologia ocidental e orgulhava-se das ferrovias por ele contruídas no Irã, os planos de Reza Pahlevi eram de uma ambição sem limites. Ele sonhava com um Irã dotado de usinas nucleares, complexos industriais, aeroportos avançados. Ele acreditava que seu país poderia tornar-se uma das cinco potências mundiais até 1983 - uma espécie de Japão do Oriente Médio. Mas todos estes projetos poderiam passar despercebidos para o resto do mundo não fosse a decisão dos países produtores de petróleo de triplicar os preços do produto, em 1973. Dono de imensas jazidas, quarto produtor mundial e segundo exportador do produto, o Irã começaria então a ser abençoado pelo jorro incontrolável dos petrodólares - muito mais do que sua precária estrutura econômica, administrativa e social era capaz de absorver. O xá tinha em mãos os meios para pôr em prática seus planos de desenvolvimento. E também o poder para eliminar qualquer oposição que se pusesse em seu caminho.

AUTOCOROAÇÃO - A onipresente polícia política, Savak, passou a receber verbas cada vez mais generosas e equipamentos sofisticados. E a antiga obsessão do xá com a segurança pôde ser finalmente saciada: só em 1977 cerca de 10 bilhões de dólares foram destinados à compra de armamentos. "Você sabe quanto custa um Phantom?", perguntou o xá a um jornalista europeu há dois anos. E não esperou resposta: "Pois eu lhe digo: custa tanto quanto um hospital. Eu preferiria contruir hospitais. Mas, se não tivesse com que defendê-los, viria talvez o dia em que não haveria hospitais, apenas ruínas. Por isso, eu compro Phantons". Uma lógica mais ou menos parecida era usada para explicar o caráter despótico do regime. "Gostaria de ser um monarca constitucional", arriscou o xá em outra ocasião. "Mas como poderia? Este é um país muito atrasado. Eu faço o que faço porque não existe no Irã quem possa fazê-lo em meu lugar."

Reza Pahlevi, sem dúvida, havia se convencido de que era um predestinado "dedicado a realizações que foram decididas por um ser superior a mim", como afirmou em uma entrevista. Em 1967, ele convidou governantes de todo o mundo para participarem, em Persépolis, antiga capital do império, de uma cerimônia em que, ao mesmo tempo, comemorou 2 500 anos de monarquia em seu país e, à moda de Napoleão, autocoroou-se "imperador". Na ocasião, o xá brindou seus convidados internacionais com um discurso de tom messiânico diante do túmulo de Ciro, o Grande. "Descanse em paz Ciro, nós estamos alertas e continuaremos tua obra."

A própria cerimônia de coroação, aliás, beirou as raias da megalomania. Orçada em mais de 100 milhões de dólares, a festa foi inspirada na coroação da rainha Elizabeth, da Inglaterra - com a diferença de que Reza Pahlevi fez questão de coroar-se a si mesmo. Todos os preparativos foram feitos em Paris, de onde aviões especialmente fretados trouxeram para o Irã de perucas a garrafas de champanha. Para evitar incidentes, ao mesmo tempo, a Savak tratava de tirar de circulação todos os potenciais sabotadores dos festejos - o que levou às prisões pelo menos 2 500 pessoas.

'NINGUÉM PODE' - Reza Pahlevi, já naquela época, se distanciara radicalmente de seus súditos e de seu país. Por problemas de segurança, suas aparições públicas foram sendo reduzidas ao mínimo indispensável, até serem canceladas de vez. Nos últimos anos, oculto da população, ele só se deslocava de helicóptero entre o palácio e seus postos de montaria - a equitação sempre foi uma de suas práticas constantes. E só passava tropas em revista em rodovias distantes, diante de pequenas platéias rigorosamente selecionadas. Assim distanciado, é compreensível que o xá não tenha percebido a tempestade que se aproximava. Ele achava que o Irã estava acostumado ao despotismo, regra em seus 2 500 anos de história. Achava que estava criando um Estado modelo, superior às democracias ocidentais que qualificava de "antiquadas e decadentes". E, seis meses atrás, ainda se acreditava inabalável. "Ninguém pode me derrubar", afirmou na época em uma entrevista. "Tenho o apoio de 700 000 soldados e da maioria do povo. Onde quer que eu vá há fantásticas manifestações de apoio. Tenho o poder e a oposição não pode se comparar em força com o governo." Pobre xá. Seu tombo, hoje, assume características ainda mais patéticas quando se conhece a altura de que ele despencou.


 
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