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16 de novembro de 1977 O
país de Pérez Do outro lado da floresta
amazônica, uma raridade continental: a democracia Duas,
três ou mais vezes por semana, o presidente da República recebe a
imprensa para entrevistas que podem variar do abastecimento de água
em Caracas às nuanças da política externa. No Congresso Nacional,
os partidos políticos se engalfinham em debates que não constituem
apenas teóricos exercícios de opinião mas se norteiam pela
real possibilidade de chegada ao poder. Nas ruas, podem acontecer fatos como,
no mesmo prédio onde se aloja um hotel da cadeia Hilton, entre as butiques
de artigos típicos, casas de câmbio ou agências de turismo,
deparar-se com uma livraria especializada em mercadorias da República Popular
da China, exibindo em suas vitrinas das inevitáveis coleções
de pensamentos do presidente Mao Tsé-tung a posters realista-socialistas,
retratando o povo chinês na faina do campo ou das fábricas. Onde
estamos na República de San Marino? Na Federação Helvética?
Não. Por inverossímil que pareça, é ali do outro lado
da floresta amazônica, dentro do continente sul-americano, que viceja essa
avis rara de convivência democrática a República da
Venezuela. Numa parte do mundo dominada pelos legislativos fechados ou manietados,
a atividade política condenada à maldição total ou
parcial, a Venezuela de hoje pode oferecer espetáculos como a atual campanha
eleitoral, em que dois candidatos principais, mais um punhado de aspirantes secundários
à presidência da República, percorrem febrilmente o país,
embora se esteja ainda a um ano das eleições marcadas para novembro
de 1978. É ainda na Venezuela que
são recebidos com banal naturalidade lances que em outras partes poderiam
ser considerados um intolerável desrespeito às autoridades constituídas.
"Aqui, posso ir à esquina e gritar que o presidente é um criminoso",
reconhece um militante de esquerda. De sua parte, os copeianos, ou membros do
Copei principal partido de oposição, de inspiração
social-cristã , empenham-se atualmente em fazer crer que as iniciais
CAP, pelas quais é amplamente conhecido o presidente Carlos Andrés
Pérez, devem ser interpretadas como "cinco anos perdidos". Esta
democracia de quase vinte anos ininterrupta desde a queda do último
ditador do país, Marcos Pérez Giménez, em 1958 é
talvez a mais singular e mais fecunda característica desta Venezuela com
que os brasileiros, a partir da visita do presidente Carlos Andrés Pérez,
esta semana, tem uma oportunidade de familiarizar-se. É verdade que a planta
frágil das liberdades políticas, no caso venezuelano, tem a irrigá-Ia
o jato de 2,3 milhões de barris de petróleo por dia, responsáveis
por ingressos anuais de 7 bilhões de dólares no país. Sem
dúvida, a vida fica mais fácil e a estabilidade política
mais viável quando se é o quinto produtor de petróleo do
mundo, atrás de Estados Unidos, União Soviética, Arábia
Saudita e Irã, e o terceiro exportador, atrás de Arábia Saudita
e Irã. Atualmente, a Venezuela é
um pais de mais alta renda per capita da América Latina aproximadamente
2 400 dólares em 1975. E o fluxo de petrobolívares que passou a
inundar o país, em especial em fins de 1973, quando o preço do petróleo
iniciou a arrancada que o levaria a quintuplicar de valor, acabou gerando peculiaridades,
como a criação do Fundo Venezuelano de Investimentos um organismo
encarregado de investir no exterior os excedentes que, além de não
poder ser absorvido pela economia do país, poderiam gerar inflação.
No momento, o ativo do Fundo é de 24,8 bilhões de bolívares,
ou 576 milhões de dólares, guardados basicamente em bancos da Europa
e dos EUA. O petróleo não
explica tudo, porém. Também o Irã tem petróleo
e nem por isso deixa de ser uma das ditaduras mais primitivas do planeta. Como
explicar, então, a sobrevivência da democracia na Venezuela? "Acontece
que nosso povo tem um profundo amor pela liberdade", disse a VEJA uma das
personalidades atualmente mais discutidas no país, Renny Ottolina, conhecidíssimo
apresentador de rádio e TV, convertido em candidato independente à
presidência da República sob uma confusa plataforma antiestablishment
que ele rotula de "humanismo pragmático" e que em certos círculos
é encarada como perigosa no sentido de que se destina a capitalizar ressentimentos
e vagas inquietudes. Mas o povo chileno, por exemplo, também não
é amante da liberdade? "O que sucede é que nós, tropicais,
somos mais veementes", retruca Ottolina. "Por uma questão de
clima". À parte as respostas
francamente sem cabimento, como a do animador de TV autoconvertido em messias
populista, arriscam-se outras explicações. "A razão
de nossa democracia são as lutas travadas por nosso povo", diz o octogenário
patriarca Juan Pablo Pérez Alfonso, veneranda figura nacional que, em 1960,
quando ministro das Minas no governo Rómulo Betancourt, foi o principal
articulador da unidade entre os países vendedores de petróleo e,
desde então, ganhou o apelido de "pai da OPEP". Não que
Pérez Alfonso esteja satisfeito com o atual estado de coisas. Em seu bucólico
retiro de Los Chorros, um subúrbio de Caracas, ele surpreendeu o enviado
de VEJA com afirmações como a de que "o petróleo destruiu
a Venezuela", pois gerou um dinheiro obtido tão facilmente como "um
tesouro, uma loteria não com o trabalho". Quanto à democracia,
porém, o torturado "pai da OPEP", um veterano adeco como
são chamados os militantes da Ação Democrática, o
partido atualmente no poder , reconhece que foi uma conquista suada do povo
venezuelano. E realmente foi. Tradição
democrática por tradição democrática, a Venezuela
tem menos, por exemplo, que o Brasil: até 1958, com exceção
de um efêmero período entre 1945 e 1948, a história independente
do país é uma sucessão rigorosa de tiranias caudilhescas.
Ao raiar a atual democracia, porém, a 23 de janeiro de 1958 dia
da fuga de Pérez Jiménez para o exterior , não estava
ocorrendo um acontecimento tão fortuito como pode ser o descobrimento de
um poço de petróleo. Ao contrário, a ditadura caíra
por obra de milhares de venezuelanos. E o movimento que a derrubou fora forjado
na perseguição, no exílio ou no cárcere às
vezes no sangue. Os dois mais importantes
candidatos atuais à presidência, por exemplo Luis Piñerua
Ordaz e Luis Herrera Campins, o primeiro da AD e o segundo do Copei , foram
contemporâneos no soturno Cárcere Modelo de Caracas, na década
de 50. Também o presidente Pérez conheceu a prisão e o exílio
uma característica comum a praticamente toda a classe dirigente
da Venezuela de hoje. Quando surgiu a democracia no país, com ela emergiram
dois fortes partidos de centro a AD e o Copei e um forte consenso
no sentido de que era capital preservar o regime de liberdades públicas
e eleições populares. Não
que a democracia venezuelana seja sem falhas, nem que lhe faltem críticos
no país. "Esta é uma democracia carente de sentido social e
de toda sorte de participação", disse a VEJA o senador Pompeyo
Marques, do Movimento aI Socialismo (MAS), partido de esquerda que, embora ainda
longe dos dois grandes, emergiu das últimas eleições, em
1973, como a terceira força do país. A desigual distribuição
de renda e de outros benefícios é notória. Dos
12,5 milhões de venezuelanos, 3 milhões são analfabetos.
Ao mesmo tempo, a própria capital, Caracas, de 2,5 milhões de habitantes,
é o produto acabado de uma riqueza que chegou vertiginosamente mas não
para todos. A cidade, encrustada num vale, é um cipoal de arranha-céus,
vias expressas e elevadas. Nas ruas, estimulado por uma gasolina a preço
de sonho de 15 a 35 cêntimos de bolívar o litro, conforme
a octanagem, ou de 60 centavos a 1,40 cruzeiro , arrasta-se um tráfego
capaz de fazer Rio de Janeiro ou São Paulo, por exemplo, parecer um modelo
de funcionalidade. Ao lado desses signos de afluência, porém, de
qualquer parte da cidade é possível divisar os ranchitos, aglomerados
nos barrios que crescem incontroladamente nas vertentes das montanhas as
favelas locais. Há outras críticas
à democracia venezuelana. Paulatinamente, o governo foi limitando o direito
de greve a ponto de, entre mais de 100 movimentos que espocaram no ano passado,
apenas um ter sido considerado legal. A polícia, de seu lado, nem sempre
se mostra comedida na repressão às manifestações populares.
Ainda na semana retrasada, dois estudantes foram mortos em Los Magallanes, um
bairro pobre de Caracas, quando participavam de uma demonstração
contra a falta de água na cidade, devido a um acidente numa das represas
que a abastecem. Em contraste com essas manchas, no entanto, o regime venezuelano
pode ostentar sinais de tolerância e nobreza raros em qualquer parte do
mundo quanto mais na América Latina. O
mais eloqüente deles é a anistia geral que se concedeu, em 1969, ao
início do governo copeiano de Rafael Caldera, aos veteranos das guerrilhas
que, no começo da década de 60, a uma certa altura deram a impressão
de que transformariam a Venezuela numa nova Cuba. Hoje, são muitos os ex-guerrilheiros
convertidos à paz da vida partidária. Há no Congresso venezuelano
dois senadores e pelo menos meia dúzia de deputados oriundos da atividade
guerrilheira. Igualmente, entre os quatro candidatos presidenciais que a esquerda,
dividida como sempre, apresenta às eleições do próximo
ano, há um veterano das lutas nas montanhas Américo Martín,
candidato do Movimiento de Izquierda Revolucionaria (MIR). "Não
tenho nada de que me arrepender em meu passado sob o ponto de vista moral",
disse Martín a VEJA. "Mas me arrependo do ponto de vista político."
Hoje, Martín e seu MIR se declaram firmes partidários da via parlamentar
de atuação política. A mesma espécie de conversão
caracteriza o MAS e o próprio Partido Comunista Venezuelano outras
duas agremiações de passado guerrilheiro. E, de um modo geral, a
Venezuela, que conheceu não só uma forte guerrilha rural como também
foi palco pioneiro, no continente, da violência urbana dos seqüestros
e assaltos, pode hoje ser considerada uma ilha de paz na América Latina.
É verdade que, em semanas recentes, foi detectado um foco de guerrilha
na província de Anzoateguí, no oriente do país. Mesmo os
generais encarregados de coibi-Ia, Rafael Canache e Rafael Medina Hinds, reconhecem
porém que se trata de "ações insignificantes e isoladas",
talvez até com intuitos antes meramente bandoleiros que políticos.
O novo foco guerrilheiro algo
inédito no país desde os turbulentos anos 60 chegou a merecer
algum destaque na imprensa. A reação do governo, porém, foi
marcadamente serena se comparada a outros países da América Latina.
Em nenhum momento se cogitou, nem remotamente, da possibilidade de suspensão
de garantias ou de qualquer outra ameaça à democracia venezuelana
o que, de resto, soaria francamente absurdo à sensibilidade da nação.
"A verdade é que, de todos os guerrilheiros por mim indultados, não
há registro de um único sequer que tenha reincidido em práticas
violentas", afirmou recentemente, não sem orgulho, o ex-presidente
Rafael Caldera. Não se pode deixar
de reconhecer que a tolerância e a falta de histerismo deram resultado:
hoje, o extremismo é algo residual na vida política venezuelana.
O país é dominado esmagadoramente pela AD e pelo Copei, beneficiados,
nas eleições de 1973, com nada menos que 85% dos votos. A Ação
Democrática, em especial um partido de tendência socialista
, tem se mostrado uma campeã nas urnas. Dos quatro presidentes que
o país já teve nesta fase democrática, três pertenciam
a seus quadros Rómulo Betancourt, o primeiro, até hoje a
figura mais respeitada do partido, seu sucessor Raúl Leone e Carlos Andrés
Pérez. O império Adeco foi quebrado apenas pelo interregno de Rafael
Caldera. Ao voltar ao poder, porém, em 1973, a AD o fez de forma espetacular
não só Pérez arrastou para sua candidatura mais de
2 milhões de votos, ou 55% do eleitorado, como o partido fez 102 dos 200
deputados e 27 dos 47 senadores. É
evidente que também o sistema venezuelano de domínio AD-Copei é
capaz de suscitar críticas. "Este é um país da América
do Sul banhado pelo Caribe, onde se faz política como na Alemanha Ocidental",
diz um observador, lembrando a semelhança do processo venezuelano com o
da República de Bonn, onde também se assiste a uma polarização
entre social-democratas e social-cristãos. Por sua vez, outro candidato
presidencial o deputado José Vicente Rangel, do MAS, partido que
se esforça por transformar-se numa terceira alternativa declarou
a VEJA, a respeito da AD e do Copei: "São dois partidos bons para
ganhar eleições mas maus para governar". São
freqüentes, na Venezuela, as queixas de que os dois grandes partidos seriam
pouco diferentes ideologicamente e, além disso, mais preocupados com a
preservação de suas próprias máquinas e sua influência
que com destinos da nação. A palavra final sobre a questão,
porém, talvez seja a do observador que, embora severo crítico do
sistema, admite: "AD e Copei são dois partidos maus mas que preservam
contra o pior". Típico dessas
grandezas e fraquezas da vida venezuelana, assim como de toda uma geração
que se forjou quando a Venezuela era tiranizada e pobre, e ao amadurecer deparou-se
com um país rico e democrático, é o visitante desta semana,
Carlos Andrés Pérez. Quando ele nasceu a 27 de outubro de 1922,
a Venezuela produzia 6 124 barris de petróleo diários. Não
mais de dois meses depois, em dezembro daquele ano, a descoberta de novas jazidas
na região de Maracaibo faria a produção subir abruptamente
para 100 000 barris mas ainda assim estava longe das cifras astronômicas
de depois da II Guerra Mundial. Décimo primeiro dos doze filhos de um fazendeiro
de café de Tachira, província andina de onde tradicionalmente desciam
no passado os caudilhos militares para impor sua vontade a Caracas, Pérez
começou ainda antes dos 20 anos sua militância política, participando
da Fundação da Ação Democrática (Funca), agrupamento
surgido durante o período de governo do general Isaias Medina Angarita,
um bem-intencionado ditador que tolerava a formação dos partidos.
Foi por essa época que se deu algo
decisivo na vida de Pérez ganhou a amizade e a confiança
de Rómulo Betancourt. Aos 23 anos, ele se tornaria secretário particular
do chefe da AD e continuou próximo do mestre mesmo durante o período
de travessia do deserto, em que se constituíram, para os adecos e demais
democratas, os dez anos da tenebrosa ditadura de 1948 a 1958, primeiro sob a condução
de uma junta de três membros, depois por Pérez Jiménez sozinho.
Nessa fase, o atual presidente atuou alguns meses na clandestinidade dentro do
país, foi preso duas vezes perfazendo um total de mais de um ano
no cárcere e passou no exílio o resto do tempo, em Cuba,
Panamá, Colômbia e Costa Rica. Em
1958, com a queda de Pérez Jiménez, Carlos Andrés Pérez,
como tantos outros, passaria, da noite para o dia, da condição de
fora da lei para membro do governo. Ele foi escolhido ministro do Interior de
Rómulo Betancourt. Nessa qualidade, como grão-vizir das polícias
da Venezuela, ganharia uma tarefa delicada a enfrentar: o combate às guerrilhas
que, inspiradas no modelo cubano, logo se disseminariam pelo território
venezuelano. Pérez foi duro e implacável no combate aos guerrilheiros.
Ganhou então a reputação de falcão um homem
talvez até sem compaixão no trato com o inimigo. Qual
seria o verdadeiro Pérez? O frio chefe de polícia dessa época
ou o piedoso chefe de Estado que, nos últimos anos, ainda antes de Jimmy
Carter, já desfraldava no mundo a bandeira dos direitos humanos? Não
é despropósito arriscar que as duas facetas talvez se integrem e
se mesclem em sua personalidade. O Pérez severo, rigoroso até consigo
mesmo, revela-se em hábitos como o de acordar todo dia às 5 horas
da manhã, fazer ginástica nos aparelhos que mandou instalar numa
das salas do palácio do governo e não se permitir folgas nos fins
de semana. Há momentos, porém, em que esse homem de aparência
maciça, casado há 29 anos com uma prima Blanca, ou "Blanquita"
e pai de seis filhos, é capaz de reunir os amigos para conversas
longas e sem direção. Pérez tem reputação de
bem-humorado, não é abstêmio e gosta de contar anedotas em
que ele próprio é a personagem. O
presidente venezuelano é, também, um homem dado a refletir sobre
sua própria condição de condutor de outros homens. Uma vez,
ele contou ao historiador inglês Hugh Thomas, autor de "A Guerra Civil
Espanhola", que a principal lição que extraíra da leitura
desse livro era a de que um chefe de Estado precisa decidir não
importando em certas circunstâncias se a decisão é boa ou
má. No julgamento de Pérez, o último e malogrado presidente
da República espanhola, Manoel Azaña, pecou por não ter decidido.
Caso o tivesse feito, poderia ter evitado a catástrofe espanhola. Ao lado
do Pérez enérgico ou complacente, pombo ou falcão, é
preciso reconhecer, de qualquer forma, o político habilíssimo. Durante
o governo Raúl Leone, ele foi líder da bancada da AD na Câmara
dos Deputados. Depois, ao longo do governo Caldera, assenhoreou-se da secretaria
geral da AD, recuperou o partido da derrota eleitoral e dali saltou para a mais
esmagadora vitória nas urnas de toda a história venezuelana. O
governo Pérez já tem um feito capital para legar à história
do país a nacionalização do petróleo, anunciada
logo nos primeiros meses da administração e tornada efetiva em 1.°
de janeiro do ano passado. No mais, o Quinto Plano Nacional, elaborado por Pérez
para o período 1976/1980, prevê gigantescos investimentos do governo
em setores como o aço, o alumínio, hidrelétricas e agricultura,
bem como saúde e educação. Há investimentos peculiares
de um país que, como a Venezuela, atravessa uma alucinante fase de transição.
No setor da educação, por exemplo, o governo mantém um Projeto
Marechal de Ayacucho, pelo qual 15 000 jovens venezuelanos foram enviados ao exterior
com bolsas de estudo em nível de graduação, pós-graduação
e técnico. Ao mesmo tempo, Pérez tem se mostrado extraordinariamente
atuante na política externa. O presidente venezuelano tem dado lições
a Carter sobre a necessidade de maior justiça no comércio mundial
e a colegas latino-americanos, como o argentino Jorge Rafael Videla, sobre as
excelências da democracia. Como disse um articulista inglês, "ninguém
poderá acusar Carlos Andrés Pérez de não ter tentado
modificar o mundo". Se é bom
ou mau tudo o que tem sido feito na atual administração venezuelana,
trata-se naturalmente de matéria aberta a amplas discussões. Um
dos problemas mais prementes é a falta de resultados obtidos até
agora nos grandes investimentos agrícolas, o que obriga o país a
continuar importando enormes quantidades de alimentos. "CAP Zero em
Agricultura" é o título de um livro lançado nesses dias
pelos adversários do Copei. Há ainda críticas mais gerais,
que questionam toda a aplicação do dinheiro que entra no país.
"Há uma corrente que sustenta
que a atual geração de venezuelanos é incapaz de administrar
o petróleo e que portanto deveríamos tapar todos os poços",
ironizou, em declarações a VEJA, o ministro de Coordenação
e Planejamento, Lorenzo Azpurua Marturet. No fundo, no fundo, Pérez e a
Venezuela não são nem piores nem melhores que as circunstâncias
lhes permitem. O que se deve admirar sobretudo, nesse país até há
pouco sufocado pelas penúrias da tirania e do extremo subdesenvolvimento,
é o fato de estar dando um gigantesco passo em sua história
sem sacrificar as liberdades básicas de seus cidadãos. | |