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16 de outubro de 1968
O congresso interrompido

Os rapazes e moças enrolados em cobertores coloridos, no frio do começo da tarde de sábado passado,  não pareciam os perigosos líderes estudantis do Brasil inteiro, presos durante o 30º Congresso da ex-UNE, em Ibiúna, cidade de 5 mil habitantes a 70 quilômetros de São Paulo. Eram 920 pessoas, entre estudantes e jornalistas, cansados e sujos de lama junto a um galpão da Cooperativa Agrícola de Cotia, para onde tinham sido levados por centenas de soldados da Força Pública estadual depois de terem sido retirados na manhã de sábado do sítio no bairro de São Sebastião, a 14 quilômetros de Ibiúna, onde estava sendo realizado o Congresso. Iam sendo postos em nove ônibus, um microônibus, cinco caminhões, duas Kombis e uma Rural Willys. Um soldado pegou pelo braço um jovem magro, pálido, de olheiras fundas e óculos escuros, enrolado num cobertor de cor amarela. O rapaz, com olhar tenso de raiva contida, estava subindo num dos caminhões de presos. O soldado o reconheceu: era Luís Travassos, presidente da ex-UNE. Foi levado até o coronel Ivo Barsotti, comandante da operação anti-Congresso. O Coronel apontou novo rumo para Travassos: a Rural, em que já estava José Dirceu, ex-presidente da ex-UEE paulista. Dirceu - cabelo comprido, barba por fazer, olhar cansado -, disse a seu velho rival na disputa pela liderança na ex-UNE: "Dentro de um mês fazemos um novo Congresso". No fim da tarde úmida e chuvosa de São Paulo, horas depois, a única tentativa de resistência à prisão: de um ônibus parado diante do QG da Força Pública, na Avenida Tiradentes, o ex-presidente da ex-UME, Vladímir Palmeira, foge pela porta de emergência e corre descalço pela rua. Os soldados da Força logo o cercam; na luta, Vladimir perde a camisa. Sem camisa, Vladimir junta-se na prisão a Travassos e Dirceu, enrolados em cobertores. Os três líderes estudantis estavam com prisão preventiva decretada, finalmente executada depois de muitas vezes terem enganado a polícia.

O PREÇO DE UMA DÍVIDA - Na quinta-feira, o sitiante Miguel Góis, de Ibiúna, tinha levado ao delegado Otávio Camargo uma grave queixa: havia ido ao sítio de seu amigo Domingos Simões cobrar uma dívida por fornecimento de milho, mas dois homens armados de revólveres o haviam impedido de passar a cancela. O delegado, de 35 anos, chapéu sempre enterrado na cabeça, foi juntando os fatos: no bairro do Curral, a 6 quilômetros de Ibiúna - cidadezinha que se orgulha de constar na lista oficial de cidades turísticas de São Paulo e produz  tomates, batatas e alcachofras -, sitiantes japoneses tinham visto "muita gente jovem com jeito de cidade". A 2 quilômetros de Ibiúna, na estrada que a liga a São Paulo, um amigo do delegado, o dentista Francisco Soares havia encontrado espalhados, junto a árvores, folhetos sobre o movimento estudantil. O delegado Otávio Camargo tirou conclusões: o Congresso da ex-UNE estava sendo realizado em Ibiúna. Avisou o DOPS e, na noite de sexta para sábado, três destacamentos da Força Pública - dois dirigidos pelos delegados do DOPS paulista Paulo Buonchristiano e Orlando Rosante e o outro pelo Coronel Barsotti, comandante do 7º Batalhão da Força, de Sorocaba - cercaram as três únicas vias de acesso ao sítio de Domingos Simões. Um estudante, de sentinela, deu tiros para o ar ao ver os soldados, que dispararam metralhadoras também para o ar. Foi só: logo depois, os congressistas se renderam sem luta e a Força Pública agiu sem violência. No sítio os soldados acharam uma Lugger, duas Berettas e uma carabina, além das 920 pessoas.

O SÍTIO E A POLÍCIA - Domingos Simões, o dono do sítio do Congresso, 52 anos, alto e louro, conseguiu escapar sem pagar a dívida do milho nem ser preso por subversão. É corretor de imóveis; seu irmão Jerônimo Simões é sócio do ex-Governador cassado Adhemar de Barros numa fábrica de aviões. Em sua casa - três cômodos apertados ao fundo de um corredor muito sujo, ao lado de um sobrado em demolição no centro de São Paulo -, a mulher de Domingos, Neusa, nascida em Ibiúna, morena de dezenove anos, afirma: "Meu cunhado Benônimo (é assim que ela o chama) já foi comandante da Guarda Civil". Ela não sabe onde está seu marido; só sabe que no início da semana Domingos foi visitado por cinco estudantes e saiu quinta-feira dizendo que ia para um piquenique.

CHIQUEIRO E BARRACAS - O delegado Otávio Camargo, orgulhoso de seu feito - os dois mais recentes congressos da ex-UNE, em Belo Horizonte e em Valinhos, São Paulo, foram realizados sem que a polícia soubesse -, diz o que viu no sítio: "Moços e moças amontoados na casa, dormindo em camas de lona ou no chão. Como não cabiam todos na casa, muitos foram aproveitar a cobertura dos currais desocupados. Ficava porco num chiqueiro, gente no outro". Conta também o delegado que durante o início da semana os congressistas se transferiram de um sítio de Domingos Simões, no bairro do Curral, para outro sítio, também de Domingos Simões, no bairro de São Sebastião. Junto ao galpão da Cooperativa de Cotia, vendo o embarque dos presos, o Coronel Ivo Barsotti - cansado de uma noite em claro - ouvia a queixa trazida por um tenente: "Onde vamos pôr os soldados que estão aí na rua? Os caminhões estão lotados com estudantes". O Coronel respondeu secamente: "Ora, não tem lugar? Então vai tudo a pé daqui até São Paulo". Mas deu-se um jeito: apertando, empurrando, soldados e estudantes vieram juntos para São Paulo. Pelos 70 quilômetros de estrada, o comboio parou algumas vezes para não dispersar. Caboclos perguntavam: "É romaria, é excursão, é revolução?", aos estudantes que pediam pão e água.

UM ÔNIBUS DE MOÇAS - Os estudantes foram embarcados nos ônibus e caminhões em fila indiana. Num dos ônibus estavam oitenta moças. Acomodaram-se de qualquer maneira: três em cada banco, no chão, sobre o motor, algumas de pé. Desconfiadas e caladas, procuravam controlar-se, evitavam dar informações sobre o Congresso. Disseram que não houve resistência nem nervosismo quando a polícia chegou. Disseram também que a sessão de encerramento do Congresso não chegou a se instalar; estava marcada para as 7 da manhã de sábado. Durante a viagem, descontraíram-se um pouco. Conversaram com o soldado que as vigiava, na porta do ônibus; pediram para ver uma bala de fuzil e a baioneta (o soldado mostrou). Na chegada ao QG da Força Pública, tiveram sua única reação mais espontânea: foi quando Vladimir Palmeira tentou fugir. Segundo as moças, os policiais não foram violentos Segundo um assessor do Governador Sodré, todos os policiais já estavam preparados desde sexta-feira. O mesmo assessor informou que o Governador ficou contente com a prisão. O maior motivo do contentamento do Governador: metade dos presos não são estudantes. De qualquer modo, todos os 920 estão enquadrados na Lei de Segurança Nacional.

NOVE HORAS DEPOIS - Só às 5 horas da tarde, estudantes de várias faculdades reunidos no CRUSP - Conjunto Residencial da USP - tiveram a confirmação do fim do Congresso. Discutiam muito, reuniram-se improvisadamente, exigiam dos oradores palavras concretas, gritavam que já estão cansados de teorias e decisões entre líderes. Muitos dos oradores procuravam aliviar a tensão dizendo que devia ser uma onda de boatos espalhada pela comissão de segurança do Congresso ou pela polícia. A última oradora foi Catarina Meloni, líder travassista em São Paulo. Ela e Bernardino Figueiredo - presidente do Grêmio Faculdade de Filosofia da USP - são os únicos líderes estudantis em liberdade; estavam presos até a semana passada, não tiveram tempo de participar do Congresso. Catarina convocou os estudantes para movimentações a partir de segunda-feira. Entre os estudantes, já no fim da tarde, esperava-se uma repetição do congresso da ex-UEE paulista em 1966, quando todos foram presos, continuaram as discussões dentro da prisão, escolheram as chapas e Luís Travassos foi então praticamente eleito na cadeia.


Até onde chegam os perigosos
caminhos dessa União

Um casarão cinzento, antigo clube de alemães, de arquitetura antiga e fachada larga, que no primeiro dia da Revolução estava em chamas, na Praia do Flamengo, Rio de Janeiro - eis a UNE. "A UNE somos nós", uma palavra de ordem gritada por estudantes nas ruas de São Paulo e Rio, nas passeatas da semana passada, ponto alto de um processo que fez do movimento estudantil uma forte oposição ao Governo - eis a ex-UNE até sábado passado. Dona de muitas vidas, a ex-UNE, com a prisão de seus líderes durante a realização do 30º Congresso, sofreu sua maior derrota desde que se transformou num movimento contra o regime.

CHAMAS QUE NÃO MATAM - O casarão cinzento da Praia do Flamengo ruiu em chamas no mesmo dia da queda do Governo Goulart e marcou o fim de um período de vida da ex-UNE. Ao ser fechada por decreto mais tarde conhecido como Lei Suplicy, a UNE se modificou e abandonou a política vinculada ao Ministério da Educação. O Ministro que assinou a Lei 4.464, de 9 de novembro de 1964, Professor Flávio Suplicy de Lacerda, hoje reitor da Universidade do Paraná, lançou na época um desafio: "A UNE poderá continuar existindo, mas como organização civil. Se sobreviver nessas condições, terá dado prova de capacidade e autenticidade de representação, pois sobreviverá sem o estímulo de gordas e fáceis dotações federais". Essa prova de capacidade, a ex-UNE conseguiu dar. Sobreviveu sem as verbas fáceis do tempo de Goulart, quando havia deixado de ser um órgão de representação estudantil para andar ao lado do Governo, como se fosse parte integrante dele. Em todas as manifestações governistas, a presença da UNE era obrigatória, seu representante sentava à mesa de honra e discursava apoiando Goulart. José Serra, um estudante paulista, último presidente da UNE legal, esteve no comício do dia 13 de maio de 1964, na Central do Brasil, no Rio, e na assembléia dos sargentos, no dia 30, no Automóvel Clube da Guanabara. Foram essas posições que causaram dois prejuízos fundamentais à UNE: 1 - ao ser encampada pelo Governo Goulart, a UNE perdeu suas bases, os estudantes se afastaram dela, pois assumira a posição de um partido político e não era mais uma entidade de classe estudantil; 2 - a revolução que depôs Goulart não podia perdoar quem se sentava à sua mesa.

SEM PRESENTE NEM PASSADO - A Lei Suplicy conseguiu atingir a UNE no seu aspecto legal. Ela proibia aos órgãos de representação estudantil "qualquer manifestação ou propaganda de caráter político partidário" e criava um Diretório Nacional dos Estudantes para substituir a ex-UNE. Menos de três anos depois, em fevereiro de 1967, a Lei Suplicy deixava de existir, no trecho que se refere à UNE, substituído pelo Decreto-Lei 228, assinado pelo então Ministro Moniz Aragão. E a ex-UNE, liquidada legalmente, ficava em definitivo sem substituto. E também não voltava ao seu passado, aos tempos em que sua sede eram as mesas do Café Lamas, no Largo do Machado, no Rio, e seus objetivos, bem mais liberais do que hoje.

Na época da sua fundação e durante muitos anos, a União Nacional dos Estudantes foi principalmente uma entidade nacionalista: saiu às ruas pela primeira vez exigindo que o Brasil entrasse na guerra contra o Eixo nazifascista; combateu a ditadura de Vargas; ajudou a construir os grandes partidos liberais, como a ex-UDN. Carlos Lacerda, Alceu Amoroso Lima, Afonso Arinos, Milton Campos, Pedro Aleixo, Sobral Pinto, todos no Rio, Jânio Quadros e Roberto de Abreu Sodré, em São Paulo, foram nomes que estiveram ligados a campanhas estudantis como a anistia para presos políticos, a do monopólio estatal do petróleo, contra a Lei de Segurança Nacional de 1950 e pela criação do restaurante universitário. A frase "O petróleo é nosso", inspirada pelos estudantes da UNE, tornou-se um símbolo nacional. Mesmo em 1947, quando protestou publicamente contra o fechamento do Partido Comunista Brasileiro, a UNE não era de esquerda e não fazia nada mais do que continuar com uma política independente junto a um Governo que ela própria ajudara a criar.

MINORIA PRIVILEGIADA - Os estudantes universitários no Brasil são 213 mil, o que vem a ser 2,1 por mil habitantes do País. Os estudantes são realmente uma minoria privilegiada dentro dos 45,68% da população brasileira entre cinco e 24 anos (segundo o censo de 1960). Menos de 2% da nossa população entre dezenove e 25 anos está na Universidade, contra índices como este: 16% da juventude francesa e 46% da juventude americana. São uma minoria privilegiada e a educação no Brasil é um grande desafio. E o desafio começa no ensino primário, onde de 60% a 70% dos matriculados no primeiro ano são reprovados ou abandonam os estudos. Em 1955 houve 3.157.000 matrículas no primário - apenas 123.647 estudantes concluíram o curso médio, ao final de 1965.

Para se ter um retrato de quem é o estudante universitário no Brasil, foi feito um trabalho pelo Centro Brasileiro de Pesquisas Educacionais, em 1965, no qual se verifica que os pais dos universitários têm, na maioria, atividades remuneradas de nível alto e médio; que a maioria tem irmãos que estudaram; que a maioria das mães não trabalha; que em grande número fizeram o curso médio em escolas pagas; que apenas 8,52% deles têm pais operários; que a idade média dos primeiranistas é 22,11 anos (a idade média ideal é considerada entre dezessete e dezenove anos); que 44,12% deles trabalham; que 62,49% têm ajuda financeira da família; e que 27,75% das famílias têm carro.

ILEGALIDADE QUE MUDA - "Os partidos" - na análise de um estudante - "antes de 1964 não tinham nenhuma organização, nenhum objetivo definido e nenhuma solução clara para o problema brasileiro: desmoronaram. E o fato é que o movimento estudantil se tornou a vanguarda de todo movimento progressista no Brasil. Nós temos acesso à cultura e ainda por cima pertencemos à classe dominante. Se um estudante é preso, o País inteiro fala dele através de jornais e de um intercâmbio de protestos interfaculdades. Quem não é estudante pode ser preso e espancado que ninguém fala dele." A ex-UNE na ilegalidade passou dois anos mergulhada em auto-crítica para chegar a conclusões bem parecidas. Também nesse tempo procurou reorganizar-se sem as verbas de que falava o Ministro Flávio Suplicy de Laceda e sem o engajamento político com qualquer agremiação partidária.

"Antes de 1964" - dizia José Roberto Arantes, ex-vice presidente da UNE -, "havia um certo sentido na participação nos órgãos de direção. A posição era reformista: tentava-se consertar a sociedade brasileira; hoje os estudantes querem transformar a sociedade brasileira". As agitações estudantis só voltaram ao cenário brasileiro, modificadas em formas e objetivos, depois de 1966. E foram num crescendo de organização até o 29º Congresso da ex-UNE, realizado também em São Paulo, num convento próximo à cidade de Valinhos.

Nesse Congresso a autocrítica dos líde. res da ex-UNE foi levada à massa dos estudantes. Na sua carta política, a entidade comentava: "Temos uma longa luta pela frente e só agora o movimento estudantil começa a se libertar de fato dos seus vícios de origem, da ideologia das classes dominantes que o alimentou. Antes de abril, o movimento estudantil esteve preso a uma das facções dominantes que disputava o poder. Seguindo as correntes reformistas, a UNE depositava suas esperanças de transformação social do País nas mãos da burguesia nacional progressista. Todas as grandes mobilizações dos estudantes foram canalizadas para o apoio a tais setores progressistas. Por mais violentas que fossem as palavras dos seus dirigentes, o movimento estudantil, na prática, deu mais importância aos contatos de cúpula do que à aproximação direta com as áreas populares".

UMA OPOSIÇÃO NAS RUAS - Essa mudança total de política da ex-UNE se refletiu em tudo que aconteceu de 1967 para cá. É uma ex-UNE diferente, essa que teve o seu 30º Congresso interrompido e seus líderes presos. Organizou-se de faculdade em faculdade, para colocar sempre  contingentes pequenos, ou grandes, nas ruas, protestando contra o Governo. Denunciou o diálogo a certa altura proposto como mediação entre o movimento estudantil e o Governo Costa e Silva. Só concordaria em realizá-lo se os estudantes presos fossem soltos e encerrada tóda repressão. Mas sabia evidentemente que isso era impossível.

Nitidamente de esquerda, sem entretanto estar filiada a nenhum grupo e não aceitando a tutela de nenhum partido, a ex-UNE esteve sistematicamente contra o Governo e conseguiu capitalizar graves episódios, como a morte do estudante Edson Luís, em março, na Guanabara, e a invasão da Universidade de Brasília, em agosto. A ex-UNE engloba diversas tendências, que vão da esquerda cristã (a Ação Popular, que chegou a dominá-la, logo depois da Revolução) aos grupos marxistas-leninistas, maoístas, pró-castristas e, recentemente, os althusserianos, que defendem as idéias do filósofo frances Louis Althusser (que representa a revisão do marxismo). É impossível hoje definir uma tendência homogênea dentro da ex-UNE. O velho Partido Comunista Brasileiro, que defende a revolução por meios pacíficos, hoje se confunde com as várias facções marxistas que surgiram depois da Revolução, e sua expressão no meio estudantil é quase nula. Novas correntes se formaram, chamadas dissidências, e na própria organização da esquerda católica também se verificaram cisões.

O RETRATO DA OPOSIÇÃO - O movimento estudantil despertou novamente a atenção do Governo depois da morte do estudante Edson Luís, na Guanabara. Não só pela morte do secundarista, mas também porque os estudantes levaram para as ruas as deficiências do ensino superior no Brasil.

O Governo Costa e Silva preocupou-se com o problema estudantil quando, em dezembro do ano passado, pelo Decreto 62.024, criou a Comissão Especial para o Ensino Superior, dirigida pelo então Coronel Carlos Meira Matos. Durante 89 dias essa Comissão estudou e recolheu todos os dados do problema universitário brasileiro. A Comissão ficou mais famosa quando o hoje General Meira Matos entregou ao Presidente Costa e Silva e ao Ministro da Educação Tarso Dutra um relatório de trezentas páginas com a análise do problema: o "Relatório Meira Matos".

Em sintese, o relatório alinhava como pontos críticos: falta de liderança estudantil democrática, consciente de seu papel e pronta a defendê-lo; ausência de fiscalização de verbas e de esforços na obtenção de novas fontes de financiamento; má remuneração dos professores (o que provoca várias deturpações no exercício profissional); ausência de orientação para atender à maior demanda anual de vagas em todos os níveis de ensino; implantação desordenada da reforma universitária, sem objetividade e sem visão na redução dos currículos.

Mesmo apontando todas estas falhas, e mesmo com a criação de um grupo de trabalho que elaborou uma reforma universitária, o Governo não se livrou da oposição do movimento estudantil.

MAIS UMA VIDA? - Embora sofrendo algumas baixas temporárias - como a prisão de Vladimir Palmeira no início de agosto passado -, no todo, a ex-UNE continuou em ascensão. E a repressão às manifestações estudantis emprestou involuntariamente muita divulgação ao movimento. O próprio Vladimir Palmeira, que há dois anos não passava de um líder menor, se tornou uma figura de projeção nacional. Outros líderes também se projetaram e todos, com as suas teses e divergências, foram para o 30º Congresso.

A ex-UNE, que já estava numa encruzilhada de idéias quanto ao seu verdadeiro papel, hoje tem outros problemas. Ela se debatia em torno de duas teses principais: deveria o movimento estudantil voltar-se para os problemas da Universidade e, através desses problemas, denunciar o sistema e as estruturas, ou deveria acompanhar uma política de denúncia constante a todos os atos atentatórios dos "inimigos do povo, da ditadura e do imperialismo"? A primeira posição, defendida por Vladimir Palmeira e por seu candidato à presidência, José Dirceu, era chamada de "luta reivindicatória". A segunda, de Luís Travassos, o então presidente da ex-UNE, e de seu candidato, Jean Marc Van der Weig, era chamada de "luta política".

Hoje, com seus líderes presos, a ex-UNE passa a ser "ex" de uma vez por todas?


 
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