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16 de setembro de 1970
Os caminhos do Chile

Com a brutalidade das coisas inesperadas, as eleições chilenas destruíram um mito político de meio século e envolveram as capitais dos dois lados do mundo num estranho nevoeiro de perplexidade. No início da semana passada, os primeiros telegramas de congratulação dos partidos comunistas europeus chegavam a Santiago numa redação extremamente cautelosa e cética, onde a eventualidade de que Allende venha tomar posse parecia uma idéia longínqua, duvidosa. Em Moscou e Cuba, igualmente, o entusiasmo oficial pela primeira vitória de um candidato comunista em eleições livres soava mais do que moderado. Somente na quarta-feira o "Gramna", de Havana, resolveu-se afinal a festejar na primeira' página o resultado das eleições chilenas, como se tivesse levado três dias para aceitar a realidade. E, até o final da semana passada, o "Pravda" dedicava menos espaço a Allende do que às monótonas acusações de sempre contra "as manobras golpistas" da CIA.

Raras vezes as acusações do "Pravda" foram menos justificadas. Se a vitória do seu candidato confundiu os comunistas, a surpresa nos Estados Unidos foi ainda maior. De um dia para o outro, desapareceu junto a milhões de americanos a imagem de um Chile pacífico, dominado pela figura confiante de Eduardo Frei - o presidente latino-americano preferido pela Aliança para o Progresso. Em seu lugar, como por encanto, surge uma terra estranha, prestes a se aliar ao mundo comunista sob as ordens de Salvador Allende, um político desconhecido que se declara marxista-leninista e chama as pr6prias filhas "companheira" Carmen, "companheira" Isabel, "companheira" Beatriz. Durante toda a semana passada, em Washington, a mudez foi quase absoluta. Além do gelado - e previsível nas frases aparentemente otimistas - comunicado oficial da Casa Branca - "os Estados Unidos esperam que suas relações com o Chile não venham a se alterar" -, a imprensa ocidental não conseguiu mais do que opiniões pessoais e fragmentárias de funcionários governamentais. Com raras exceções, aliás, a imprensa dos Estados Unidos e Europa vinha considerando a candidatura de Salvador Allende como uma curiosidade sem maiores conseqüências. Apanha_ da de surpresa, na semana passada, a revista "L'Express", da França, não trazia uma única linha sobre o Chile e as duas colunas que publicou o "Time", nos Estados Unidos, vinham completamente ultrapassadas pelos acontecimentos - não indicavam sequer o nome do vencedor.

Incerteza - A situação chilena, na verdade, se assemelha a um gigantesco quebra-cabeça onde as peças principais foram trocadas. No lugar onde a opinião pública mundial costumava geralmente colocar Fidel Castro como modelo do comunista latino-americano, aparece subitamente Salvador Allende. Na posição ocupada por Che Guevara, como inimigo número 1 dos governos democráticos, surge agora a figura perfeitamente desconhecida de Luis Corvalán - antigo mineiro de maneiras rudes, baixo, entroncado, de poucas palavras e secretário geral do Partido Comunista Chileno. Corvalán nunca poderá criar um mito comparável ao de Guevara, mas seu papel fundamental na criação da Frente Popular - a coalizão eleitoral que levou Allende à vitória - mostra que, em termos práticos, ele é muito eficiente, Contudo, ainda em termos práticos, a situação do Chile, na semana passada, mostrou que a possibilidade do estabelecimento de um regime comunista na América Latina, vista de perto, é bem mais complexa do que em teoria.

De fato, a vitória de Allende criou no Chile um sentimento nacional de perplexidade, de dúvida quanto ao futuro. A começar pelas 320 famílias que formam a classe alta" do país. Nos bairros elegantes de Santiago, com suas casas rodeadas de parques e flanqueadas de estátuas de mármore branco, vivia-se em tensão nervosa. O clube de golfe Los Leones estava deserto e no aeroporto de Valdepenas aviões particulares eram preparados para levantar vôo a qualquer hora. Para o chileno comum, igualmente, a incerteza era o estado de espírito normal. Os jornais praticamente não traziam anúncios. Uma grande fábrica de cristais comunicou a seus funcionários que possivelmente não terá dinheiro para pagar os salários deste mês: todos os pedidos das lojas foram cancelados. Numa fábrica de objetos cromados, os proprietários não aparecem desde as eleições e os operários assumiram a administração. A maioria das lojas suspendeu suas vendas pelo crediário. E, embora seja a Semana da Pátria normalmente comemorada em todas as cidades do Chile com compras que superam de longe o movimento do Natal e Ano Novo, desta vez as lojas permaneceram vazias.

Passaportes - Era mais do que suficiente para justificar o pânico, e o pânico veio. Já na terça-feira, 48 horas depois de conhecidos os resultados eleitorais, os gerentes dos bancos de Santiago olhavam com desconfiança as longas filas de clientes que se formavam em frente ao caixa. Pressionadas por telefonemas nervosos, as autoridades monetárias emitiam às pressas mais dinheiro para cobrir as retiradas maciças. Na quarta-feira, calculava-se o total dos cheques descontados em mais de 400 milhões de escudos, cerca de 140 milhões de cruzeiros. Antes disso, as trocas de escudos por dó1ares no câmbio oficial já estavam paralisadas, enquanto no câmbio negro o valor da moeda chilena caia pela metade. Pela metade, igualmente, caíam as ações da Balsa de Santiago, onde praticamente não existiam mais ordens de compra. Agências de passagens e repartições oficiais, pelo contrário, estavam sobrecarregadas com milhares de passaportes acumulados. Pessoas que nunca pensaram em viajar resolveram subitamente providenciar a documentação para qualquer emergência. E até mesmo a Fundação Desal (estudos econômicos e sociais) anunciou sua mudança de Santiago para Caracas. Numa tentativa de acalmar a população, Allende apareceu numa cadeia de televisão afirmando que "O programa da Unidade Popular não ameaça nenhuma pessoa no seu direito de viajar ao estrangeiro". Também não estariam ameaçados em seus direitos, segundo Allende, os proprietários de automóveis, casas ou "quaisquer bens adquiridos honestamente". E, com o ingênuo propósito de colaborar nesse processo de tranqüilização, o "Pravda" publicou na quinta-feira passada uma insólita demonstração de amizade pelos comerciantes chilenos - vítimas, na opinião dos editorialistas soviéticos, de uma "sinistra manobra das forças de direita".

Para os esquerdistas, seriam as mesmas forças de direita que estariam incentivando o pânico desses dias em Santiago. Segundo o próprio Allende, estariam sendo feitas cadeias telefônicas para aconselhar a população a não comprar nada e retirar o dinheiro dos bancos, ou a comprar 1 dólar por 40 escudos, quando o câmbio oficial é 16. Allende chegou mesmo a entrevistar-se com o presidente Frei, pedindo providências e conseguiu colocar um elemento de seu "staff" financeiro trabalhando junto ao Ministério da Fazenda, para acompanhar diretamente o plano de tranqüilização.

Em cartório - A incerteza da população, de certa forma, acompanha os arranjos e os acertos parlamentares destinados a confirmar ou não a eleição de Allende. Como ele não obteve a maioria absoluta dos votos popu1ares, sua vitória só será aceita legalmente a partir do momento em que o Congresso a aprovar - se é que o fará - no dia 24 de outubro. No início da semana passada, a aprovação do candidato comunista parecia assegurada. Com 83 congressistas da Frente Popular que certamente votarão a seu favor e mais a maioria provável dos 74 democratas-cristãos, Allende poderia suplantar facilmente os 43 deputados e senadores do Partido Nacional que votariam em favor do candidato colocado em segundo lugar - Jorge Alessandri. Além disso, o próprio Alessandri havia registrado em cartório, no dia, 24 de julho, uma carta dirigida ao senador Julio Durán, na qual se comprometia a renunciar à sua indicação para a presidência do Chile caso não obtivesse o primeiro lugar na votação popular. "Para reforçar a paz e a concórdia entre os chilenos", dizia Alessandri no documento, "aceito que o candidato vencedor seja automaticamente ratificado."

Como se não bastasse a maioria da Frente Popular no Congresso e a renúncia antecipada de Alessandri, o caminho de Allende em direção à presidência. parecia ainda facilitado pela atitude de adesão quase imediata da Democracia-Cristã. De fato, o primeiro comunicado oficial dos democratas-cristãos já anunciava a disposição do partido em negociar seu apoio parlamentar ao presidente comunista. E, para que não ficassem dúvidas, terminava afirmando que de nenhuma forma seus deputados votariam em Alessandri - decisão que então fechava qualquer possibilidade de barganha. Com certa melancolia, alguns observadores ligaram a pressa que levou Radomiro Tomic à casa de Allende no dia seguinte ao das eleições a uma reveladora passagem de um dos discursos biográficos de Fidel Castro. "Nunca poderei esquecer os visitantes que recebi nos primeiros dias que se seguiram à vitória", dizia Fidel. "Logo na primeira manhã vieram os sobrinhos do cardeal e toda a família de Pepin Rivero, do 'Jornal da Marinha'. Em seguida, banqueiros, comerciantes, diretores de indústrias. E eu me perguntava: 'O que eles estão querendo? Na verdade eu sabia muito bem, mas pensava: 'Quanto mais eles pensarem. que podem confiar em mim, tanto maior será a surpresa que terão'."

Novas eleições - Desde quarta-feira, no entanto, a política chilena mostrou não ser tão ingênua quanto aparentava. Reaparecendo subitamente no centro dos acontecimentos, Jorge Alessandri veio tumultuar as previsões comunistas. "No caso de ser eleito pelo Congresso", declarou ele, "renunciarei ao cargo, o que determinará a convocação de novas eleições. Esclareço desde já, categoricamente, que por motivo nenhum participaria dessa nova eleição." O objetivo da manobra é claro. Com Alessandri eleito pelo Congresso e imediatamente afastado por vontade própria, o atual presidente Frei poderia disputar as novas eleições populares jogando todo o peso do seu prestígio pessoal contra Allende. (No Chile, as leis permitem a reeleição desde que não seja imediata.) Esse esquema tem, sem dúvida, o defeito de ser muito complicado para que seu funcionamento seja realmente seguro. Mas, mesmo que não venha a ser executado, conserva uma certa utilidade. No futuro, sempre se poderá lembrar que Allende não teve luta direta com um candidato verdadeiramente representativo - o que tem a vantagem de justificar antecipadamente um golpe de estado.

Durante toda a semana passada, com efeito, tornou-se claro que uma grande parte da população considera o golpe de estado como a única solução política aceitável para o Chile de hoje. Nada seria mais agradável para os adversários Allende, na verdade, do que vê-lo repetir a farsa histórica do brigadeiro Marmaduke Grove. Em julho de 1932, Marmaduke tomou o poder, proclamou um "estado operário" e governou treze dias antes de ser despachado para a ilha da Páscoa onde, juntamente com as famosas e inexplicáveis estátuas de pedra, se transformou num dos mais fascinantes mistérios do passado chileno. As perspectivas de uma intervenção militar, entretanto, parecem barradas, à primeira vista, pela tradição de normalidade democrática do país. De fato, a cada seis nos, desde 1932, um novo presidente entra com pontualidade suíça no Palácio de La Moneda, em Santiago. Os militares chilenos consideram-se apenas profissionais e, nos últimos quarenta anos, têm demonstrado um certo orgulho em manter-se afastados da política, apesar de sua força evidente. De fato, somando-se Exército, Marinha e Aeronáutica, as Forças Armadas chilenas têm, cerca de 60.000 soldados regulares - o que, proporcionalmente à população, lhes dá o terceiro lugar na América Latina, abaixo apenas de Cuba e Paraguai, países altamente militarizados.

Golpe de Praga - Naturalmente, há exceções. Uma delas é o general Roberto Viaux Marambio, que ganhou notoriedade em outubro do ano passado ao comandar o motim do Regimento Tacna. Afastado de suas funções, Viaux entrou francamente na política, afirmando por mais de uma vez que, "em caso de uma séria crise, aceitaria a responsabilidade de governar o país". Na quarta-feira passa, a ex-senadora e atual presidente do mando feminino do Partido Nacional (que lançou Alessandri) afirmou entre aplausos de suas colegas que "Viaux era a única solução contra Allende". Na eventualidade de uma intervenção militar, tudo indica que o remédio do golpe deva ser aplicado antes que Allende tome posse. Pois, uma vez no governo, poderia ser mais difícil derrubá-lo: os comunistas no poder têm demonstrado não só habilidade para evitar golpes, como também uma grande disposição para eliminar o Congresso e afastar os partidos da coligação que os levou ao poder.

A fórmula empregada pelos comunistas no golpe de Praga ganha subitamente uma nova atualidade diante da situação chilena. Primeiramente, é necessário encontrar uma conspiração "reacionária", e Allende - que vem fazendo denúncias semanais desde que começou sua campanha - não teria dificuldades em encontrá-la. Em seguida à descoberta da conspiração, o governo promove o expurgo dos elementos indesejáveis e, para evitar demonstrações populares de descontentamento, chama os quadros do partido e organiza suas próprias manifestações de apoio. Em fevereiro de 1948, em Praga, o ministro do Interior, Nosek, afastou oito homens do serviço de segurança, acusando-os de uma misteriosa conspiração na Eslováquia. Houve um início de reação dos estudantes e do gabinete, e, dias mais tarde, 200.000 operários do Partido Comunista desfilavam pelas ruas da capital .e o presidente Benes renunciava. Jan Masarik, ministro das Relações Exteriores, ainda insistiu em conservar seu posto, apesar de não pertencer ao Partido Comunista. Pouco tempo depois, seu cadáver era encontrado em frente ao prédio onde trabalhava. A versão oficial é que ele optara pelo suicídio, jogando-se da janela do seu gabinete.

Naturalmente, é sempre complicado convencer os políticos indesejáveis de que devem saltar pela janela, mas, no Chile, Allende dispõe de admiradores capazes de obter resultados equivalentes. Ninguém ignora, na verdade, que o clandestino MIR - Movimiento de Izquierda Revolucionaria - tem relações mais ou menos estreitas com o Partido Socialista de Salvador Allende. (Em abril passado, uma patrulha do Exército encontrou perto da cidade de Valdivia um acampamento de guerrilheiros. Dos seis rapazes presos, cinco confessaram a sua condição de membros ativos do Partido Socialista.) Com os partidos e o governo nas mãos, Allende poderia repetir em 1970, no Chile, o que aconteceu em 1948, em Praga. Talvez o futuro venha a frustrar providencialmente essa repetição, mas, em todo caso, é justamente dela que toda a oposição liberal tem medo em Santiago.

Decretos-leis - Há naturalmente a hipótese contrária: cumprindo a palavra que deu durante a campanha, Allende pode se tornar um presidente constitucional - seja por convicções próprias, seja por não conseguir fazer de outra maneira. Mesmo nesse caso, entretanto, a força que ele ganharia ao assumir a presidência seria suficiente para que o Chile sofresse uma modificação radical. Em todos os países latino-americanos há uma tendência crescente para que os congressos adotem com algumas discussões, mas sem emendas importantes, os projetos de lei presidenciais, hesitem na tomada de iniciativas hostis e aceitem sem grande reação as invasões do Executivo na sua área de competência. Casos de congressos fortes não passam na maioria das vezes de episódios históricos ou de experiências exóticas, como a do Haiti, que foi várias vezes' parlamentarista durante suas 23 efêmeras constituições. O Chile, até poucos anos atrás, era exatamente uma exceção à regra. Os presidentes Aguirre Cerda e Juan Antonio Rios, que governaram entre 1938 e 19 no comando de uma Frente Popular das Esquerdas, não conseguiram que o Congresso aprovasse uma parte mínima de seus programas. A reforma constitucional que transferiu poderes do Congresso para o presidente foi feita apenas e dezembro do ano passado pelo presidente Frei, e só passa a vigorar no próximo dia 4 de novembro, data marcada para a transferência de poder. Se Allende for o contemplado, ele governará com poderes maiores do que qualquer outro presidente chileno do passado. Entre outras coisas, poderá alterar a divisão política ou administrativa do país, reduzir impostos de qualquer classe, criar serviços públicos. Além disso, em casos excepcionais, poderá governar apenas através decretos-leis.

Assembléia do Povo - Por ironia, democratas-cristãos e conservadores passaram quase cinco anos lutando para que essas modificações fossem aprova pelo Congresso. As forças de esquerda, que não pareciam ter muita fé na vitória do seu candidato, lutaram durante os mesmos cinco anos do lado oposto. A CUT - Central Única dos Trabalhadores - chegou a mobilizar suas bases em protesto contra "as leis antipopulares dos gorilas de direita, em conluio com o PDC, os grandes empresários e os monopólios estrangeiros". Agora, com a possível passagem das esquerdas para o governo, suas idéias sobre necessidade de preservar os direitos do Congresso também estão invertidas. Allende já anunciou, inclusive, que pretende substituir o atual Parlamento uma nebulosa "Assembléia do Povo", que deverá alterar as atribuições do presidente da República, dos ministros do Estado e do Poder Judiciário.

Será da Assembléia do Povo, exatamente, que virão as leis para a execução do programa socialista de Allende. Em política interna, esse programa inclui desde a concessão de serviços médicos e dentários gratuitos a todos os chilenos até a desapropriação de todas as indústrias de base e estratégicas - classificação que por sua vez engloba desde transporte ferroviário, aéreo e marítimo até as fábricas de papel. (Entre as maiores produtoras de papel está a Industria Papelera, da qual Jorge Alessandri é diretor e cujas ações caíram 60% na semana passada.) É verdade que uma boa parte da economia chilena (petróleo, eletricidade, açúcar e uma parte do cobre) já está nas mãos do governo chileno.

Mas o menos que se pode dizer dessa súbita estatização é que ela ameaça fazer com que o Chile - a exemplo do império austro-húngaro - se afogue num dilúvio de papéis. Para realizar uma exportação de aço à Argentina, lembrou certa vez o próprio presidente Frei, é necessário um jogo de documentos com 91 assinaturas. Numa operação normal em que se fazem partidas de 1.500 a 2.000 toneladas por navio, são necessários, portanto, vinte jogos de documentos, o que exige 1.800 assinaturas.

Precaução - O programa de Allende pretende também tocar num ponto delicado: a polícia chilena. "A polícia deve ser reorganizada", diz ele, "para que cumpra exclusivamente seu papel de defender a população das atividades anti-sociais." Com efeito, o Corpo de Carabineiros do Chile tem sido muitas vezes acusado de pretender transformar-se em organização militar. Seus bem treinados efetivos de 30.000 homens dispõem agora de carros blindados, helicópteros e outros equipamentos de guerra - o que faz as esquerdas olharem com mais desconfiança para os carabineiros que para os militares. A precaução de Allende quanto à polícia: não é menor que seu cuidado quanto aos meios de comunicação. "Rádio, televisão, editoras, jornais, cinema são fundamentais para ajudar a formação de uma nova cultura e de um homem novo", diz o programa comunista. "Por isso, deverá ser imprimida a eles uma orientação educativa, liberando-os de seu caráter comercial." A possível intervenção na imprensa chilena tem, desde já, um objetivo certo: o grande jornal conservador, "El Mercurio", propriedade do "clã Edwards". A família Edwards é um dos mais fortes grupos econômicos do Chile, possuindo vinte empresas e controlando 41 outras: bancos, terras, companhias (ie navegação, fábricas, ações. "El Mercurio", além disso, é o líder de uma cadeia que engloba seis outros jornais na capital e interior, a Radio Corporación (a mais potente do país) e um moderno parque gráfico. Com a posse de Allende, os jornais e rádios dos Edwards passarão para o controle de uma cooperativa de empregados - isso se seus proprietários não resolverem antecipar-se ao governo, formando desde já a cooperativa.

Confisco - Do ponto de vista da política internacional, a desapropriação de companhias estrangeiras não parece destinada a criar problemas insolúveis. Na semana passada, em Washington, um porta-voz do First National City Bank comentava com resignação antecipada: "Tudo o que podemos fazer é operar de acordo com a vontade e a paciência do governo local. Vamos respirando devagar, pondo um pé na frente do outro". Do ponto de vista da própria economia chilena, no entanto, o efeito das desapropriações pode ser extremamente importante, sobretudo no, caso do cobre. Ainda hoje o cobre é responsável por 80% das divisas chilenas e qualquer alteração violenta que possa comprometer o preço de venda ou secar as fontes internacionais de financiamento da produção tem um reflexo imediato na vida do país.

Três companhias apenas - a Chile Copper (filial da Anaconda), a Cerra Corporation e a Kennecott Copper - são responsáveis pelo segundo lugar que o Chile ocupa entre os produtores mundiais, com 850.000 toneladas anuais. Durante o governo Frei, as três se comprometeram a vender ao governo chileno 51 % de suas ações. Por essa transação, a Anaconda, que é a maior delas, deveria receber a quantia de 700 milhões de cruzeiros, pagáveis em doze anos.

Com a possível ascensão de Salvador Allende, no entanto, a validade desse contrato se torna altamente problemática. Allende nunca especificou se pretende pagar alguma coisa pelas companhias que seriam desapropriadas no seu governo, mas tudo indica que sua idéia é simplesmente a de confiscá-las. É essa, pelo menos, a interpretação dos acionistas americanos: na semana passada, as cotações da Anaconda e da Kennecott Copper sofreram uma baixa acentuada na Bolsa de Valores de Nova York.

Saldo desanimador - Caso o confisco realmente se concretize nos próximos meses, as minas poderão continuar em regime normal de funcionamento. Seus técnicos atualmente são americanos, mas, na Europa ou mesmo nos Estados Unidos, outros especialistas poderão ser contratados. A questão das vendas também pode ser solucionada. Desde 1967 foi organizado em Paris o Conselho Internacional dos Países Exportadores de Cobre. Além do Chile, fazem parte o Peru, Zâmbia e a Conga Kinshasa, todos eles países não-alinhados que lançam por conta própria o seu produto no mercado internacional. Com a produção e as vendas em marcha, faltaria apenas resolver o problema do financiamento. Mas o problema do financiamento é justamente o mais complicado. Com efeito, é difícil imaginar os Estados Unidos ou as organizações financeiras acidentais emprestando dinheiro para que o governo de Salvador Allende desenvolva ou mesma mantenha o ritmo atual da exportação do cobre. Antes ainda de tomar posse, Allende considerava "indispensável revisar, denunciar e anular as tratados ou convênios que limitem nossa soberania e, concretamente, os tratados de assistência recíproca, os pactos de ajuda mútua e outros pactos que a Chile subscreveu com os Estados Unidos". Restaria, é claro, o recurso de se aliar economicamente com a União Soviética. Mas, nesse caso, falta ainda saber se Moscou também se mostraria interessada. Refazendo o balancete de seus dez anos de amizade com Cuba - a um preço médio de 1 milhão de dólares (Cr$ 4,6 milhões) por dia -, os russos não encontrariam um saldo muito animador. Coma base estratégica, a ilha perdeu boa parte do seu valor com o aperfeiçoamento dos mísseis intercontinentais; economicamente, foi e continua a ser um desastre; e, do ponto de vista político, ainda representa uma fonte inesgotável de novas teorias revolucionárias que se espalham pela América Latina em choque com a doutrina dos partidos comunistas ortodoxos.

Considerando tudo isso, os soviéticos devem hesitar antes da conclusão de um novo pacto de amizade com os países latino-americanos. Para os chilenos, no entanto, o mais urgente parece ser o estabelecimento de um tratado de paz com a Argentina. Uma velha pendência em torno da fronteira comum entre os dois países no extremo sul do continente vem mantendo há anos um estado de agressividade mal disfarçada entre Santiago e Buenos Aires. Com a ascensão de Allende, a questão territorial poderá assumir rapidamente as dimensões de um primeiro afrontamento político entre os militares argentinos e os comunistas chilenos, numa espécie de ensaio geral do conflito de políticas que a semana passada veio trazer para a América Latina. Em Santiago, a sorte está lançada. O Chile, que durante as últimas quatro décadas constituiu a exceção política do continente, ameaça agora transformar-se no foco da nova violência, confirmando talvez a expressão desencantada de Simón Bolívar: "Esta América é um caos".

 
   
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