| |
16 de setembro de 1970 Os
caminhos do Chile
Com
a brutalidade das coisas inesperadas, as eleições chilenas destruíram
um mito político de meio século e envolveram as capitais dos dois
lados do mundo num estranho nevoeiro de perplexidade. No início da semana
passada, os primeiros telegramas de congratulação dos partidos comunistas
europeus chegavam a Santiago numa redação extremamente cautelosa
e cética, onde a eventualidade de que Allende venha tomar posse parecia
uma idéia longínqua, duvidosa. Em Moscou e Cuba, igualmente, o entusiasmo
oficial pela primeira vitória de um candidato comunista em eleições
livres soava mais do que moderado. Somente na quarta-feira o "Gramna",
de Havana, resolveu-se afinal a festejar na primeira' página o resultado
das eleições chilenas, como se tivesse levado três dias para
aceitar a realidade. E, até o final da semana passada, o "Pravda"
dedicava menos espaço a Allende do que às monótonas acusações
de sempre contra "as manobras golpistas" da CIA. Raras
vezes as acusações do "Pravda" foram menos justificadas.
Se a vitória do seu candidato confundiu os comunistas, a surpresa nos Estados
Unidos foi ainda maior. De um dia para o outro, desapareceu junto a milhões
de americanos a imagem de um Chile pacífico, dominado pela figura confiante
de Eduardo Frei - o presidente latino-americano preferido pela Aliança
para o Progresso. Em seu lugar, como por encanto, surge uma terra estranha, prestes
a se aliar ao mundo comunista sob as ordens de Salvador Allende, um político
desconhecido que se declara marxista-leninista e chama as pr6prias filhas "companheira"
Carmen, "companheira" Isabel, "companheira" Beatriz. Durante
toda a semana passada, em Washington, a mudez foi quase absoluta. Além
do gelado - e previsível nas frases aparentemente otimistas - comunicado
oficial da Casa Branca - "os Estados Unidos esperam que suas relações
com o Chile não venham a se alterar" -, a imprensa ocidental não
conseguiu mais do que opiniões pessoais e fragmentárias de funcionários
governamentais. Com raras exceções, aliás, a imprensa dos
Estados Unidos e Europa vinha considerando a candidatura de Salvador Allende como
uma curiosidade sem maiores conseqüências. Apanha_ da de surpresa,
na semana passada, a revista "L'Express", da França, não
trazia uma única linha sobre o Chile e as duas colunas que publicou o "Time",
nos Estados Unidos, vinham completamente ultrapassadas pelos acontecimentos -
não indicavam sequer o nome do vencedor. Incerteza
- A situação chilena, na verdade, se assemelha a um gigantesco quebra-cabeça
onde as peças principais foram trocadas. No lugar onde a opinião
pública mundial costumava geralmente colocar Fidel Castro como modelo do
comunista latino-americano, aparece subitamente Salvador Allende. Na posição
ocupada por Che Guevara, como inimigo número 1 dos governos democráticos,
surge agora a figura perfeitamente desconhecida de Luis Corvalán - antigo
mineiro de maneiras rudes, baixo, entroncado, de poucas palavras e secretário
geral do Partido Comunista Chileno. Corvalán nunca poderá criar
um mito comparável ao de Guevara, mas seu papel fundamental na criação
da Frente Popular - a coalizão eleitoral que levou Allende à vitória
- mostra que, em termos práticos, ele é muito eficiente, Contudo,
ainda em termos práticos, a situação do Chile, na semana
passada, mostrou que a possibilidade do estabelecimento de um regime comunista
na América Latina, vista de perto, é bem mais complexa do que em
teoria. De fato, a vitória de Allende
criou no Chile um sentimento nacional de perplexidade, de dúvida quanto
ao futuro. A começar pelas 320 famílias que formam a classe alta"
do país. Nos bairros elegantes de Santiago, com suas casas rodeadas de
parques e flanqueadas de estátuas de mármore branco, vivia-se em
tensão nervosa. O clube de golfe Los Leones estava deserto e no aeroporto
de Valdepenas aviões particulares eram preparados para levantar vôo
a qualquer hora. Para o chileno comum, igualmente, a incerteza era o estado de
espírito normal. Os jornais praticamente não traziam anúncios.
Uma grande fábrica de cristais comunicou a seus funcionários que
possivelmente não terá dinheiro para pagar os salários deste
mês: todos os pedidos das lojas foram cancelados. Numa fábrica de
objetos cromados, os proprietários não aparecem desde as eleições
e os operários assumiram a administração. A maioria das lojas
suspendeu suas vendas pelo crediário. E, embora seja a Semana da Pátria
normalmente comemorada em todas as cidades do Chile com compras que superam de
longe o movimento do Natal e Ano Novo, desta vez as lojas permaneceram vazias.
Passaportes - Era mais do que suficiente
para justificar o pânico, e o pânico veio. Já na terça-feira,
48 horas depois de conhecidos os resultados eleitorais, os gerentes dos bancos
de Santiago olhavam com desconfiança as longas filas de clientes que se
formavam em frente ao caixa. Pressionadas por telefonemas nervosos, as autoridades
monetárias emitiam às pressas mais dinheiro para cobrir as retiradas
maciças. Na quarta-feira, calculava-se o total dos cheques descontados
em mais de 400 milhões de escudos, cerca de 140 milhões de cruzeiros.
Antes disso, as trocas de escudos por dó1ares no câmbio oficial já
estavam paralisadas, enquanto no câmbio negro o valor da moeda chilena caia
pela metade. Pela metade, igualmente, caíam as ações da Balsa
de Santiago, onde praticamente não existiam mais ordens de compra. Agências
de passagens e repartições oficiais, pelo contrário, estavam
sobrecarregadas com milhares de passaportes acumulados. Pessoas que nunca pensaram
em viajar resolveram subitamente providenciar a documentação para
qualquer emergência. E até mesmo a Fundação Desal (estudos
econômicos e sociais) anunciou sua mudança de Santiago para Caracas.
Numa tentativa de acalmar a população, Allende apareceu numa cadeia
de televisão afirmando que "O programa da Unidade Popular não
ameaça nenhuma pessoa no seu direito de viajar ao estrangeiro". Também
não estariam ameaçados em seus direitos, segundo Allende, os proprietários
de automóveis, casas ou "quaisquer bens adquiridos honestamente".
E, com o ingênuo propósito de colaborar nesse processo de tranqüilização,
o "Pravda" publicou na quinta-feira passada uma insólita demonstração
de amizade pelos comerciantes chilenos - vítimas, na opinião dos
editorialistas soviéticos, de uma "sinistra manobra das forças
de direita". Para os esquerdistas,
seriam as mesmas forças de direita que estariam incentivando o pânico
desses dias em Santiago. Segundo o próprio Allende, estariam sendo feitas
cadeias telefônicas para aconselhar a população a não
comprar nada e retirar o dinheiro dos bancos, ou a comprar 1 dólar por
40 escudos, quando o câmbio oficial é 16. Allende chegou mesmo a
entrevistar-se com o presidente Frei, pedindo providências e conseguiu colocar
um elemento de seu "staff" financeiro trabalhando junto ao Ministério
da Fazenda, para acompanhar diretamente o plano de tranqüilização.
Em cartório - A incerteza da população,
de certa forma, acompanha os arranjos e os acertos parlamentares destinados a
confirmar ou não a eleição de Allende. Como ele não
obteve a maioria absoluta dos votos popu1ares, sua vitória só será
aceita legalmente a partir do momento em que o Congresso a aprovar - se é
que o fará - no dia 24 de outubro. No início da semana passada,
a aprovação do candidato comunista parecia assegurada. Com 83 congressistas
da Frente Popular que certamente votarão a seu favor e mais a maioria provável
dos 74 democratas-cristãos, Allende poderia suplantar facilmente os 43
deputados e senadores do Partido Nacional que votariam em favor do candidato colocado
em segundo lugar - Jorge Alessandri. Além disso, o próprio Alessandri
havia registrado em cartório, no dia, 24 de julho, uma carta dirigida ao
senador Julio Durán, na qual se comprometia a renunciar à sua indicação
para a presidência do Chile caso não obtivesse o primeiro lugar na
votação popular. "Para reforçar a paz e a concórdia
entre os chilenos", dizia Alessandri no documento, "aceito que o candidato
vencedor seja automaticamente ratificado." Como
se não bastasse a maioria da Frente Popular no Congresso e a renúncia
antecipada de Alessandri, o caminho de Allende em direção à
presidência. parecia ainda facilitado pela atitude de adesão quase
imediata da Democracia-Cristã. De fato, o primeiro comunicado oficial dos
democratas-cristãos já anunciava a disposição do partido
em negociar seu apoio parlamentar ao presidente comunista. E, para que não
ficassem dúvidas, terminava afirmando que de nenhuma forma seus deputados
votariam em Alessandri - decisão que então fechava qualquer possibilidade
de barganha. Com certa melancolia, alguns observadores ligaram a pressa que levou
Radomiro Tomic à casa de Allende no dia seguinte ao das eleições
a uma reveladora passagem de um dos discursos biográficos de Fidel Castro.
"Nunca poderei esquecer os visitantes que recebi nos primeiros dias que se
seguiram à vitória", dizia Fidel. "Logo na primeira manhã
vieram os sobrinhos do cardeal e toda a família de Pepin Rivero, do 'Jornal
da Marinha'. Em seguida, banqueiros, comerciantes, diretores de indústrias.
E eu me perguntava: 'O que eles estão querendo? Na verdade eu sabia muito
bem, mas pensava: 'Quanto mais eles pensarem. que podem confiar em mim, tanto
maior será a surpresa que terão'." Novas
eleições - Desde quarta-feira, no entanto, a política chilena
mostrou não ser tão ingênua quanto aparentava. Reaparecendo
subitamente no centro dos acontecimentos, Jorge Alessandri veio tumultuar as previsões
comunistas. "No caso de ser eleito pelo Congresso", declarou ele, "renunciarei
ao cargo, o que determinará a convocação de novas eleições.
Esclareço desde já, categoricamente, que por motivo nenhum participaria
dessa nova eleição." O objetivo da manobra é claro.
Com Alessandri eleito pelo Congresso e imediatamente afastado por vontade própria,
o atual presidente Frei poderia disputar as novas eleições populares
jogando todo o peso do seu prestígio pessoal contra Allende. (No Chile,
as leis permitem a reeleição desde que não seja imediata.)
Esse esquema tem, sem dúvida, o defeito de ser muito complicado para que
seu funcionamento seja realmente seguro. Mas, mesmo que não venha a ser
executado, conserva uma certa utilidade. No futuro, sempre se poderá lembrar
que Allende não teve luta direta com um candidato verdadeiramente representativo
- o que tem a vantagem de justificar antecipadamente um golpe de estado. Durante
toda a semana passada, com efeito, tornou-se claro que uma grande parte da população
considera o golpe de estado como a única solução política
aceitável para o Chile de hoje. Nada seria mais agradável para os
adversários Allende, na verdade, do que vê-lo repetir a farsa histórica
do brigadeiro Marmaduke Grove. Em julho de 1932, Marmaduke tomou o poder, proclamou
um "estado operário" e governou treze dias antes de ser despachado
para a ilha da Páscoa onde, juntamente com as famosas e inexplicáveis
estátuas de pedra, se transformou num dos mais fascinantes mistérios
do passado chileno. As perspectivas de uma intervenção militar,
entretanto, parecem barradas, à primeira vista, pela tradição
de normalidade democrática do país. De fato, a cada seis nos, desde
1932, um novo presidente entra com pontualidade suíça no Palácio
de La Moneda, em Santiago. Os militares chilenos consideram-se apenas profissionais
e, nos últimos quarenta anos, têm demonstrado um certo orgulho em
manter-se afastados da política, apesar de sua força evidente. De
fato, somando-se Exército, Marinha e Aeronáutica, as Forças
Armadas chilenas têm, cerca de 60.000 soldados regulares - o que, proporcionalmente
à população, lhes dá o terceiro lugar na América
Latina, abaixo apenas de Cuba e Paraguai, países altamente militarizados.
Golpe de Praga - Naturalmente, há
exceções. Uma delas é o general Roberto Viaux Marambio, que
ganhou notoriedade em outubro do ano passado ao comandar o motim do Regimento
Tacna. Afastado de suas funções, Viaux entrou francamente na política,
afirmando por mais de uma vez que, "em caso de uma séria crise, aceitaria
a responsabilidade de governar o país". Na quarta-feira passa, a ex-senadora
e atual presidente do mando feminino do Partido Nacional (que lançou Alessandri)
afirmou entre aplausos de suas colegas que "Viaux era a única solução
contra Allende". Na eventualidade de uma intervenção militar,
tudo indica que o remédio do golpe deva ser aplicado antes que Allende
tome posse. Pois, uma vez no governo, poderia ser mais difícil derrubá-lo:
os comunistas no poder têm demonstrado não só habilidade para
evitar golpes, como também uma grande disposição para eliminar
o Congresso e afastar os partidos da coligação que os levou ao poder.
A fórmula empregada pelos comunistas
no golpe de Praga ganha subitamente uma nova atualidade diante da situação
chilena. Primeiramente, é necessário encontrar uma conspiração
"reacionária", e Allende - que vem fazendo denúncias semanais
desde que começou sua campanha - não teria dificuldades em encontrá-la.
Em seguida à descoberta da conspiração, o governo promove
o expurgo dos elementos indesejáveis e, para evitar demonstrações
populares de descontentamento, chama os quadros do partido e organiza suas próprias
manifestações de apoio. Em fevereiro de 1948, em Praga, o ministro
do Interior, Nosek, afastou oito homens do serviço de segurança,
acusando-os de uma misteriosa conspiração na Eslováquia.
Houve um início de reação dos estudantes e do gabinete, e,
dias mais tarde, 200.000 operários do Partido Comunista desfilavam pelas
ruas da capital .e o presidente Benes renunciava. Jan Masarik, ministro das Relações
Exteriores, ainda insistiu em conservar seu posto, apesar de não pertencer
ao Partido Comunista. Pouco tempo depois, seu cadáver era encontrado em
frente ao prédio onde trabalhava. A versão oficial é que
ele optara pelo suicídio, jogando-se da janela do seu gabinete. Naturalmente,
é sempre complicado convencer os políticos indesejáveis de
que devem saltar pela janela, mas, no Chile, Allende dispõe de admiradores
capazes de obter resultados equivalentes. Ninguém ignora, na verdade, que
o clandestino MIR - Movimiento de Izquierda Revolucionaria - tem relações
mais ou menos estreitas com o Partido Socialista de Salvador Allende. (Em abril
passado, uma patrulha do Exército encontrou perto da cidade de Valdivia
um acampamento de guerrilheiros. Dos seis rapazes presos, cinco confessaram a
sua condição de membros ativos do Partido Socialista.) Com os partidos
e o governo nas mãos, Allende poderia repetir em 1970, no Chile, o que
aconteceu em 1948, em Praga. Talvez o futuro venha a frustrar providencialmente
essa repetição, mas, em todo caso, é justamente dela que
toda a oposição liberal tem medo em Santiago. Decretos-leis
- Há naturalmente a hipótese contrária: cumprindo a palavra
que deu durante a campanha, Allende pode se tornar um presidente constitucional
- seja por convicções próprias, seja por não conseguir
fazer de outra maneira. Mesmo nesse caso, entretanto, a força que ele ganharia
ao assumir a presidência seria suficiente para que o Chile sofresse uma
modificação radical. Em todos os países latino-americanos
há uma tendência crescente para que os congressos adotem com algumas
discussões, mas sem emendas importantes, os projetos de lei presidenciais,
hesitem na tomada de iniciativas hostis e aceitem sem grande reação
as invasões do Executivo na sua área de competência. Casos
de congressos fortes não passam na maioria das vezes de episódios
históricos ou de experiências exóticas, como a do Haiti, que
foi várias vezes' parlamentarista durante suas 23 efêmeras constituições.
O Chile, até poucos anos atrás, era exatamente uma exceção
à regra. Os presidentes Aguirre Cerda e Juan Antonio Rios, que governaram
entre 1938 e 19 no comando de uma Frente Popular das Esquerdas, não conseguiram
que o Congresso aprovasse uma parte mínima de seus programas. A reforma
constitucional que transferiu poderes do Congresso para o presidente foi feita
apenas e dezembro do ano passado pelo presidente Frei, e só passa a vigorar
no próximo dia 4 de novembro, data marcada para a transferência de
poder. Se Allende for o contemplado, ele governará com poderes maiores
do que qualquer outro presidente chileno do passado. Entre outras coisas, poderá
alterar a divisão política ou administrativa do país, reduzir
impostos de qualquer classe, criar serviços públicos. Além
disso, em casos excepcionais, poderá governar apenas através decretos-leis.
Assembléia do Povo - Por ironia,
democratas-cristãos e conservadores passaram quase cinco anos lutando para
que essas modificações fossem aprova pelo Congresso. As forças
de esquerda, que não pareciam ter muita fé na vitória do
seu candidato, lutaram durante os mesmos cinco anos do lado oposto. A CUT - Central
Única dos Trabalhadores - chegou a mobilizar suas bases em protesto contra
"as leis antipopulares dos gorilas de direita, em conluio com o PDC, os grandes
empresários e os monopólios estrangeiros". Agora, com a possível
passagem das esquerdas para o governo, suas idéias sobre necessidade de
preservar os direitos do Congresso também estão invertidas. Allende
já anunciou, inclusive, que pretende substituir o atual Parlamento uma
nebulosa "Assembléia do Povo", que deverá alterar as atribuições
do presidente da República, dos ministros do Estado e do Poder Judiciário.
Será da Assembléia do Povo,
exatamente, que virão as leis para a execução do programa
socialista de Allende. Em política interna, esse programa inclui desde
a concessão de serviços médicos e dentários gratuitos
a todos os chilenos até a desapropriação de todas as indústrias
de base e estratégicas - classificação que por sua vez engloba
desde transporte ferroviário, aéreo e marítimo até
as fábricas de papel. (Entre as maiores produtoras de papel está
a Industria Papelera, da qual Jorge Alessandri é diretor e cujas ações
caíram 60% na semana passada.) É verdade que uma boa parte da economia
chilena (petróleo, eletricidade, açúcar e uma parte do cobre)
já está nas mãos do governo chileno. Mas
o menos que se pode dizer dessa súbita estatização é
que ela ameaça fazer com que o Chile - a exemplo do império austro-húngaro
- se afogue num dilúvio de papéis. Para realizar uma exportação
de aço à Argentina, lembrou certa vez o próprio presidente
Frei, é necessário um jogo de documentos com 91 assinaturas. Numa
operação normal em que se fazem partidas de 1.500 a 2.000 toneladas
por navio, são necessários, portanto, vinte jogos de documentos,
o que exige 1.800 assinaturas. Precaução
- O programa de Allende pretende também tocar num ponto delicado: a polícia
chilena. "A polícia deve ser reorganizada", diz ele, "para
que cumpra exclusivamente seu papel de defender a população das
atividades anti-sociais." Com efeito, o Corpo de Carabineiros do Chile tem
sido muitas vezes acusado de pretender transformar-se em organização
militar. Seus bem treinados efetivos de 30.000 homens dispõem agora de
carros blindados, helicópteros e outros equipamentos de guerra - o que
faz as esquerdas olharem com mais desconfiança para os carabineiros que
para os militares. A precaução de Allende quanto à polícia:
não é menor que seu cuidado quanto aos meios de comunicação.
"Rádio, televisão, editoras, jornais, cinema são fundamentais
para ajudar a formação de uma nova cultura e de um homem novo",
diz o programa comunista. "Por isso, deverá ser imprimida a eles uma
orientação educativa, liberando-os de seu caráter comercial."
A possível intervenção na imprensa chilena tem, desde já,
um objetivo certo: o grande jornal conservador, "El Mercurio", propriedade
do "clã Edwards". A família Edwards é um dos mais
fortes grupos econômicos do Chile, possuindo vinte empresas e controlando
41 outras: bancos, terras, companhias (ie navegação, fábricas,
ações. "El Mercurio", além disso, é o líder
de uma cadeia que engloba seis outros jornais na capital e interior, a Radio Corporación
(a mais potente do país) e um moderno parque gráfico. Com a posse
de Allende, os jornais e rádios dos Edwards passarão para o controle
de uma cooperativa de empregados - isso se seus proprietários não
resolverem antecipar-se ao governo, formando desde já a cooperativa. Confisco
- Do ponto de vista da política internacional, a desapropriação
de companhias estrangeiras não parece destinada a criar problemas insolúveis.
Na semana passada, em Washington, um porta-voz do First National City Bank comentava
com resignação antecipada: "Tudo o que podemos fazer é
operar de acordo com a vontade e a paciência do governo local. Vamos respirando
devagar, pondo um pé na frente do outro". Do ponto de vista da própria
economia chilena, no entanto, o efeito das desapropriações pode
ser extremamente importante, sobretudo no, caso do cobre. Ainda hoje o cobre é
responsável por 80% das divisas chilenas e qualquer alteração
violenta que possa comprometer o preço de venda ou secar as fontes internacionais
de financiamento da produção tem um reflexo imediato na vida do
país. Três companhias apenas
- a Chile Copper (filial da Anaconda), a Cerra Corporation e a Kennecott Copper
- são responsáveis pelo segundo lugar que o Chile ocupa entre os
produtores mundiais, com 850.000 toneladas anuais. Durante o governo Frei, as
três se comprometeram a vender ao governo chileno 51 % de suas ações.
Por essa transação, a Anaconda, que é a maior delas, deveria
receber a quantia de 700 milhões de cruzeiros, pagáveis em doze
anos. Com a possível ascensão
de Salvador Allende, no entanto, a validade desse contrato se torna altamente
problemática. Allende nunca especificou se pretende pagar alguma coisa
pelas companhias que seriam desapropriadas no seu governo, mas tudo indica que
sua idéia é simplesmente a de confiscá-las. É essa,
pelo menos, a interpretação dos acionistas americanos: na semana
passada, as cotações da Anaconda e da Kennecott Copper sofreram
uma baixa acentuada na Bolsa de Valores de Nova York. Saldo
desanimador - Caso o confisco realmente se concretize nos próximos meses,
as minas poderão continuar em regime normal de funcionamento. Seus técnicos
atualmente são americanos, mas, na Europa ou mesmo nos Estados Unidos,
outros especialistas poderão ser contratados. A questão das vendas
também pode ser solucionada. Desde 1967 foi organizado em Paris o Conselho
Internacional dos Países Exportadores de Cobre. Além do Chile, fazem
parte o Peru, Zâmbia e a Conga Kinshasa, todos eles países não-alinhados
que lançam por conta própria o seu produto no mercado internacional.
Com a produção e as vendas em marcha, faltaria apenas resolver o
problema do financiamento. Mas o problema do financiamento é justamente
o mais complicado. Com efeito, é difícil imaginar os Estados Unidos
ou as organizações financeiras acidentais emprestando dinheiro para
que o governo de Salvador Allende desenvolva ou mesma mantenha o ritmo atual da
exportação do cobre. Antes ainda de tomar posse, Allende considerava
"indispensável revisar, denunciar e anular as tratados ou convênios
que limitem nossa soberania e, concretamente, os tratados de assistência
recíproca, os pactos de ajuda mútua e outros pactos que a Chile
subscreveu com os Estados Unidos". Restaria, é claro, o recurso de
se aliar economicamente com a União Soviética. Mas, nesse caso,
falta ainda saber se Moscou também se mostraria interessada. Refazendo
o balancete de seus dez anos de amizade com Cuba - a um preço médio
de 1 milhão de dólares (Cr$ 4,6 milhões) por dia -, os russos
não encontrariam um saldo muito animador. Coma base estratégica,
a ilha perdeu boa parte do seu valor com o aperfeiçoamento dos mísseis
intercontinentais; economicamente, foi e continua a ser um desastre; e, do ponto
de vista político, ainda representa uma fonte inesgotável de novas
teorias revolucionárias que se espalham pela América Latina em choque
com a doutrina dos partidos comunistas ortodoxos. Considerando
tudo isso, os soviéticos devem hesitar antes da conclusão de um
novo pacto de amizade com os países latino-americanos. Para os chilenos,
no entanto, o mais urgente parece ser o estabelecimento de um tratado de paz com
a Argentina. Uma velha pendência em torno da fronteira comum entre os dois
países no extremo sul do continente vem mantendo há anos um estado
de agressividade mal disfarçada entre Santiago e Buenos Aires. Com a ascensão
de Allende, a questão territorial poderá assumir rapidamente as
dimensões de um primeiro afrontamento político entre os militares
argentinos e os comunistas chilenos, numa espécie de ensaio geral do conflito
de políticas que a semana passada veio trazer para a América Latina.
Em Santiago, a sorte está lançada. O Chile, que durante as últimas
quatro décadas constituiu a exceção política do continente,
ameaça agora transformar-se no foco da nova violência, confirmando
talvez a expressão desencantada de Simón Bolívar: "Esta
América é um caos". | |