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16 de agosto de 1978
A herança de
Paulo VI

A serena morte do sumo-sacerdote
da Igreja, seu longo funeral, a
abertura de sua sucessão, seu reinado
e as esperanças do mundo católico

"Na verdadeira terra, humilde", como pedia em seu testamento aberto na sexta-feira da semana passada, foi sepultado Giovanni Battista Montini, papa Paulo VI, no início da noite do último sábado. Sobre o peito, apenas o rosário entre as mãos cruzadas e um crucifixo de madeira. Os mesmos gentiluomini que o transportaram na sede gestatória - o trono das aparições em público durante seus quinze anos de pontificado conduziram o esquife de Paulo VI até a cripta da Basílica de São Pedro. Ali, dentro de uma tríplice urna de cipreste, chumbo e nogueira, ao lado de Marcelino I, papa do quarto século, estará para sempre o 260º pastor espiritual de todos os católicos do mundo. "Nada de monumento para mim", prescreveu ainda o testamento papal, um manuscrito de treze laudas redigidas em três momentos, entre 1965, quando escreveu com letra serena a primeira parte, e 14 de julho de 1973. Nesta data, apenas um acréscimo curtíssimo: "Desejo que meus funerais sejam simplíssimos. Não desejo túmulos especiais nem monumentos. Apenas beneficências e rezas". Uma segunda parte das disposições testamentárias, escrita em setembro de 1972, reiterava o desejo de um enterro comum. E, de fato, as pompas por Paulo VI limitaram-se à inevitável aglomeração de fiéis para a missa campal na praça de São Pedro enquanto o coro da Capela Sistina entoava o "Benedictus" e o "Magnificat".

A morte, esperada por Paulo VI desde a redação da primeira parte de seu testamento e afinal chegada na noite do domingo, dia 6, parecia uma companheira mais constante e próxima nos últimos anos. Em 1976, numa de suas bênçãos públicas, o papa adoentado e com 79 anos (completaria 81 em setembro próximo) surpreenderia os fiéis presentes ao dizer que avistava já "o portal do além". Mais recentemente, e sem qualquer metáfora, repetiria que não estava longe, para ele, "o fim dos dias terrenos". Em tom ainda mais dramático, ele se despediria do Vaticano, no mês passado, para o seu palacio de verão em Castelgandolfo, dizendo: "Partimos, mas não sabemos se retornaremos, e como retornaremos".

LUCIDEZ - Em Castelgandolfo, seu último encontro oficial ocorreria três dias antes da morte, quando recebeu o novo presidente da Itália, o socialista - e marxista - Sandro Pertini. Desse encontro, que resultou na última fotografia de Paulo VI em vida, acredita-se na Cúria Romaria que pudesse surgir o início de uma renegociação da concordata assinada entre Vaticano e Itália quarenta anos atrás. Mas o estado de saúde do papa se agravaria logo em seguida e, no sábado, dia 5, seus médicos diagnosticavam um aceleramento do processo de artrose que lhe atacava há muito a perna direita. Pela primeira vez, desde que foi eleito, em 1963, Paulo VI não apareceria à janela, na manhã do domingo, para a bênção. Com febre alta, pressão arterial alterada, àquela hora o papa receberia a bênção do enfermo (antiga extrema-unção), oficiada pelo cardeal e secretário de Estado Jean Villot. Pelo final da tarde, uma insuficiência ventricular e, após quatro horas de crise suportada sem perda de lucidez, a morte.

Mais uma vez, a secular máquina do Vaticano começaria a funcionar para o enterro de um papa e a eleição de seu sucessor. Como em Castelgandolfo, também na Basílica de São Pedro, a partir da quarta-feira passada, o corpo de Paulo VI ficou exposto à visitação dos fiéis. Assumindo os poderes de um verdadeiro pontífice interino - por ser o camerlengo dos cardeais e o decano do conclave que se reunirá no final do mês para a eleição do sucessor -, o cardeal Villot comandou reuniões diarias no Palácio Apostólico. Como presidente da congregação geral de cardeais, cabe a ele, nesse período de sede vacante, tratar dos funerais, do conclave e da administração rotineira da Igreja.

IMPREVISTOS - Em alguns momentos, porém, transpareceram problemas. O corpo diplomático só recebeu a comunicação oficial da morte na quarta-feira, quando muitos governos já enviavam telegramas de condolências. A estufa que produz os sinais de fumaça preta e branca durante as votações da Capela Sistina foi procurada insisientemente, nos porões do Vaticano, antes de ser localizada. Demorou-se a achar, também, o Anel do Pescador e o timbre pessoal do papa, que, pela tradição, devem ser destruídos publicamente, o que acabou acontecendo na quarta-feira. De outro lado, como puderam observar os jornalistas estrangeiros que afluíram a Roma (400, até a noite de sexta-feira passada), a cidade do papa reagia apaticamente à perda de seu bispo (é este, a rigor, o cargo primeiro de um papa). Talvez porque os nativos prefiram fugir de férias nestes dias tórridos de agosto europeu, os fiéis em oração na praça de São Pedro eram, na maioria, turistas ou peregrinos estrangeiros. Só no sábado, para a missa campal e os funerais, aumentaria a presença dos romanos.

PERSONALIDADES - Imprevistos de natureza mais delicada também se registraram, como o esquecimento de convites para os cardeais com mais de 80 anos, entre eles o brasileiro Carlos Carmelo de Vasconcelos Mota. Pela norma baixada por Paulo VI, esses cardeais não participam do conclave mas podem participar da congregação geral. Cientes de seu direito, os italianos Alfredo Cittaviani, ex-prefeito do antigo Santo Ofício, e Pietro Parente apresentaram um protesto formal. Para contornar o que teria sido o primeiro problema do governo da Igreja após Paulo VI, o cardeal Villot definiu a primeira reunião da congregação como "prévia" e "informal" - por isso, oficialmente, a ausência de convites para alguns dos que teriam acesso a ela.

Já entre os cardeais-eleitores, observava-se que a emoção pela perda de seu Sumo Pontífice não eliminava a consciência de que, agora, têm de cuidar da escolha de um sucessor. Embora externando tristeza pela morte de Paulo VI, muitos deles desembarcaram em Roma inteiramente ao alcance de perguntas sobre as listas de papabili. Dos seis brasileiros com acesso ao conclave, o grupo mais numeroso chegou a Roma na sexta-feira - Paulo Evaristo Arns, de São Paulo, Eugênio Sales, do Rio de Janeiro, Avelar Brandão Vilela, de Salvador. Com eles, viajou o ministro Nascimento e Silva, da Previdência Social, nomeado representante do governo brasileiro aos funerais de Paulo VI. A presença de personalidades estrangeiras, aliás, representa um problema particular para as autoridades italianas - e um problema especialmente complicado quando se trata de alvos notórios de atentados, como o senador americano Ted Kennedy e Imelda Marcos, mulher do ditador das Filipinas. Para sua garantia, foram destacados 4.000 homens dos carabinieri e da polícia civil.

Providências de toda ordem, assim, acumulam-se neste espaço vazio que vai entre o fim de um papado e o início de outro. A orientar os responsáveis, no entanto, existe a experiência de Paulo VI, que conviveu por trinta anos com as sutilezas da diplomacia e da administração do Vaticano e da Igreja. Sempre por escrito, ele deixou instruções detalhadas que atingem até os pormenores mais remotos, como o de se pagar um salário extra aos 3.000 funcionários vaticanos quando morre o papa e mais um quando da coroação do sucessor. O trabalho, em tais ocasiões, é dobrado, além de muito diferente da rotina, exigindo portanto uma remuneração adequada. Há que preparar, por exemplo, as fichas de votação, em quantidade que cresce conforme a duração indefinida do conclave. E tais fichas, estipulou Paulo VI, devem ter formato que permita dobrá-las várias vezes até se reduzirem a 1 polegada.

CONCLAVE - Com esse requinte, Paulo VI quis assegurar o absoluto anonimato do voto, pois fichas desiguais, dobradas de modos vários, poderiam levar à descoberta de quem votou em quem. Além do anonimato, o sigilo sobre tudo o que ocorre durante a eleição de um papa deverá ser resguardado por uma bateria de predisposições, que inclui juramentos solenes e até complexos equipamentos eletrônicos. De certo modo, as precauções dos dias de hoje procuram reproduzir o que, segundo a crença católica, se verificou por ocasião do primeiro dos conclaves. Ali, no alvorecer do cristianismo, Jesus exprimia a vontade da Santíssima Trindade (Pai, Filho e Espírito Santo), ao designar o apóstolo Pedro como o chefe de sua igreja.

Paulo VI, entretanto, não ficou apenas nas determinações de ordem prática. Além de seu exemplo, durante o papado, e das encíclicas, deixou por escrito, no testamento, a orientação de que seu sucessor prossiga no trabalho ecumênico de aproximação com os fiéis de outras religiões. Ensinou até mesmo o segredo para se trilhar com segurança esse caminho: "Com muita compreensão, com muita paciência, com grande amor".
 
Neste último conselho, Paulo VI procurou assegurar, também, que seu sucessor não se desvie da rota que o chefe dos católicos precisa seguir, o que sem dúvida vale como um perfil sucinto do próximo papa. Como está no testamento, o Sumo Pontífice nunca deverá "perder de vista a verdadeira doutrina católica".


 
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