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16
de julho de 1975
Uma falência nas
estruturas
Morre o peronismo, renasce
o peronismo. Desde 1955, quando os militares argentinos depuseram
o general Juan Domingo Perón da presidência da República,
tem sido assim. Infinitas vezes o movimento foi dado como morto.
Outras tantas renasceu.
Na semana passada, no entanto, já
não havia tanta certeza de uma nova ressurreição.
Pois, numa sucessão torrencial de acontecimentos, vários
dogmas do movimento foram quebrados. A exigência de absoluta
fidelidade ao chefe, a monolítica obediência das bases
sindicais, a reverência da classe política - um a um,
os pilares peronistas foram postos por terra. E ao que se assistia
era ou bem a agonia definitiva do movimento, ou bem o ressurgimento
sob uma forma radicalmente nova, em que as bases impunham as decisões
à cúpula, a obsessão da unidade era posta de
lado - e talvez, nessa hipótese, nem fosse mais o caso de
chamá-lo peronismo.
Nem poderia o movimento ter melhor sorte,
nas mãos da frágil, indefesa María Estela Martínez
de Perón. Ainda mais que ela se viu alçada ao poder
num momento em que o país desabava vertiginosamente para
a falência econômica. Até agora, em seus doze
meses de governo, Isabelita viu minguarem incontrolavelmente os
recursos da nação, ao mesmo tempo que lhe escapava
das mãos aquilo que Perón considerava seu mais precioso
valor - el pueblo. Finalmente, na semana passada, Isabelita,
acuada em várias frentes, só não soçobrou
por uma dadivosa série de concessões. E, mesmo assim,
não era certo se o sacrifício pessoal da presidente
ainda não acabaria por se impor como último e fatal
desfecho.
SEM REMÉDIO - No ponto crucial
de uma longa e dramática crise iniciada desde que o ministro
da Economia, Celestino Rodrigo, anunciou um novo e draconiano plano
econômico -, a semana começou com a Argentina absolutamente
paralisada, por ordem de uma CGT antes incondicionalmente fiel à
liderança peronista, mas hoje revolucionada contra um governo
onde não mais reconhece os ideais do falecido caudilho. E
esta não seria a única heresia a que se assistiria
nos últimos sete dias. Além de um contundente desafio
lançado à presidente pelo Senado, praticamente toda
a nação, dos trabalhadores aos empresários,
passando pelos militares, exigia a cabeça de José
López Rega, a exótica e maquiavélica eminência
parda do governo, também conhecido como "El Palomo"
(O Pombo), ou "El Buchón" (O Papudo), ou "EI
Brujo" (O Bruxo) ao qual se atribuem as atuais desgraças
do país. Simplesmente, reinava a convicção
de que López Rega é absolutamente incompatível
com qualquer padrão de eficiência ou dignidade do governo.
Mas, na sexta-feira, embora Isabelita tenha
anunciado um novo Ministério - do qual López Rega
estava excluído -, ainda predominava a incerteza quanto ao
seu real destino. Alguns diziam que, apesar de ter perdido a pasta
do Bem-Estar Social, ele ainda conservaria seu segundo e insidioso
cargo de secretário da presidente. Outros sustentavam, talvez
apressadamente, que perderia também este posto. E, à
falta de uma palavra oficial, a crise, mais do que nunca, concentrava-se
na pessoa do assediado "Bruxo".
UM "PRIMÁRIO" - De
qualquer forma, em sua carta de renúncia, enviada protocolarmente
como a dos demais ministros, López Rega, ofereceu os dois
cargos em holocausto, "num gesto patriótico tendente
a conseguir a pacificação dos espíritos perturbados".
E, depois de ressaltar que em dois anos de trabalho conseguira "escrever
algumas poucas páginas do prólogo no livro do labor
nacional", registrou um pressentimento que não tardaria
a se materializar: "Meus detratores e a antipátria se
encarregarão de encher novelescamente um livro".
Menos de 24 horas após seu afastamento
oficial do gabinete, circulava em Buenos Aires um documento atribuído
a um enigmático Comando General de Resistencia de Oficiales
Justicialistas de la Policia Federal, e que vasculhava as mais íntimas
facetas de López Rega, desde os "antecedentes morais"
do biografado até suas atividades policiais.
Fica-se sabendo, assim, que no ano de 1946
ele era conhecido apenas como José López, tendo acrescentado
o sobrenome Rega quando começou a publicar seus primeiros
trabalhos sobre astrologia e ocultismo. Os dois primeiros livros,
aliás - "Astrología Esotérica" e
"Preguntas en la Noche" -, foram publicados na década
de 50 pela Editora Rosa de los Pobres, cujo endereço coincidentemente,
é o mesmo que se supõe ter sido o de López
Rega em Buenos Aires: Calle Pascula Tamborina, 3761.
É o pouco que se sabe do passado
remoto do discutido ministro demissionário, além de
supostamente não ter ultrapassado o quinto ano escolar -
o que lhe valeu o qualificativo de "primário" no
Washington Post -, ser casado com Flora Fontenla da qual
vive separado, e restringir suas relações familiares
à filha única, Norma, mulher do atual presidente da
Câmara de Deputados, Raul Lastiri.
FLUIDOS DE RAMATIS - Nem mesmo a
notoriedade e o poder o tornariam mais sociável. Na verdade,
em seus dois anos e 47 dias como ministro do Bem-Estar Social, e
discutida atuação, López Rega conseguiu açambarcar
um número notável de inimigos e ver-se cercado apenas
de um exíguo círculo de amigos. Raros são os
políticos, a começar pelos mais ambiciosos, que não
temem o enclausuramento. Mas López Rega estabeleceu para
si e impôs ao governo de Isabelita uma estratégia que
conduziu ambos ao isolamento, traumatizou o peronismo e tumultuou
a nação.
Talvez, como dizem seus detratores, essa
capacidade de influir nos destinos alheios se deva "aos fluidos
de Ramatis, espírito de um planeta de civilização
em estágio avançadíssimo e reencarnado em López
Rega". Mais seguro, contudo, é constatar meramente a
força de persuasão descomunal de "Lopecito",
traduzida também pela presença de homens de sua confiança
nos postos de maior gravitação na mecânica do
poder argentino: na semana passada, quando todo o edifício
lopezreguista parecia ruir, outras estacas da mesma linhagem permaneciam
no terreno político do país, em postos ministeriais.
Com efeito, em substituição
a López Rega, à frente da pasta do Bem-Estar Social,
foi nomeado Carlos Villone, um de seus mais íntimos colaboradores.
Por outro lado, os ministros da Educação, da Economia,
do Trabalho, das Relações Exteriores, todos ligados
à direita peronista, se viram confirmados em seus cargos
por Isabelita. "Houve certa troca de nomes mas não de
cargos", sentenciou um porta-voz da União Cívica
Radical, principal partido de oposição, referindo-se
também às substituições de dois ministros
moderados - Alberto Rocamora, do Interior, e Antonio Benítez,
da Justiça - por peronistas também moderados. Na verdade,
a única posição realmente cedida pelo setor
de López Rega foi o Ministério da Defesa, ocupado
desde a semana passada pelo septuagenário Jorge Garrido,
popularmente conhecido como "única instituição
estável na Argentina", sem posição definida.
"'HAY QUE ECHAR" - É
certo, porém, que a presença lopezreguista no governo,
em pessoa ou encarnado em ministros, contribuía no final
da semana para engrossar as nuvens do impasse político argentino,
prenúncio de dias talvez mais críticos do que os vividos
na última quinzena. Neles, assistiu-se ao estranho espetáculo
de uma nação que parecia ter parado para repensar
de uma só vez todos os problemas acumulados ao longo de décadas.
Desorientada, confusa, porém pela
primeira vez em muitos anos unificada, a Argentina marchava contra
um inimigo comum - o governo. Mais exatamente, marchava contra López
Rega, a personagem que naquele momento enfeixava em suas mãos,
ocultas quanto possível, uma enorme parcela de poder dentro
do governo. Em todas as partes exigia-se o afastamento do ministro
do Bem-Estar Social e, por extensão, da vasta equipe de homens
de sua confiança que instalou agilmente em todos os escalões
oficiais. Nas ruas, nos bares, nas redações dos jornais
- onde mais se fala do que se escreve sobre o assunto -, uma idéia
obsessiva se refletia numa mesma frase: "Hay que echar a
López Rega", é preciso jogar López
Rega fora.
No domingo, dia 6, os portenhos mais incautos
ainda tentavam obter gêneros alimentícios nas filas
de alguns poucos armazéns abertos, para enfrentar a paralisação
oficial do país decretada pela CGT. O clima de preparação
insinuava o que seriam os dois dias seguintes. Sem dúvida,
foram impressionantes.
CERIMÔNIAS APRESSADAS - Os
6 milhões de trabalhadores argentinos iniciaram a semana
de braços cruzados, em suas casas num paro pasivo,
isto é, sem participar das habituais manifestações
activas de protesto, comícios e passeatas. Era acionada
- pela primeira vez em trinta anos num governo peronista - a mais
eficiente arma do arsenal cegetista, utilizada pela última
vez em 1972 durante o malfadado governo do general Alejandro Agustín
Lanusse - o paro general, com duração marcada de 48
horas e devendo terminar não com a volta ao trabalho, mas
com o feriado de 9 de julho, aniversário n.º 159 da
declaração de independência do país.
Nesses dois dias de sol, céu aberto
e temperatura agradável, tanto quanto os turistas que este
mês tomam Buenos Aires de assalto, a classe média portenha
se sentiu perdida. Não havia cinemas, restaurantes, espetáculos
infantis. Sem transportes coletivos, táxis ou atrações,
não restou a essa imensa camada de argentinos - em Buenos
Aires, dizem eles, "hasta los pidientes (mendigos) son
de la clase media" - se não a alternativa de ficar
em casa. E a família, as crianças, os parentes adquiriram
as dimensões de um universo limitado geograficamente a passeios
pelas vizinhanças - não funcionavam sequer os postos
de gasolina.
Mesmo os inconvenientes da morte se complicaram,
pois as empresas funerárias, funcionando apenas meio dia,
tornaram o movimento nos cemitérios uma grotesca sobreposição
de cerimônias apressadas. Todavia, enquanto o país,
mudo, parecia buscar sua própria voz, por trás do
silêncio - de resto reforçado nas rádios argentinas
pela substituição do noticiário do país
por tangos e músicas folclóricas - ocorria uma intensa
movimentação nas áreas decisivas da vida política
nacional.
REBELIÃO INAUDITA - Sob severa
pressão de todos os setores, Isabelita havia recebido no
domingo à noite o pedido de demissão coletiva de seu
Ministério, "para facilitar o encontro de saídas
à atual situação", eufemismo preferido
do governo para se referir à pior crise política que
já enfrentou.
A partir dessa solução -
a renúncia foi apresentada mas Isabelita adiou sua aceitação
-, a vida política argentina passou a girar em torno de dois
outros problemas cruciais: a CGT exigia a homologação
dos acordos salariais obtidos em negociações entre
sindicatos de trabalhadores e de empregadores, que haviam possibilitado
a obtenção de aumentos algumas vezes em torno de 150%,
anulados por decreto da presidente na semana retrasada. E, no Senado,
discutia-se febrilmente a necessidade de se eleger um presidente
para a Casa, com o que Raúl Lastiri, o estratégico
genro de López Rega e presidente da Câmara dos Deputados,
deixaria de ser o sucessor da presidente da República em
caso de vacância de poder, nos termos da Constituição.
Era essa também uma inaudita rebelião nas fileiras
peronistas, majoritárias mais duas casas do Legislativo e
instruídas expressamente por Isabelita, chefe máxima
do peronismo, a não preencherem o cargo de presidente do
Senado.
Enquanto o Poder Executivo procurava encontrar
"saídas" para a crise, os setores mais importantes
da vida nacional argentina começaram a impor "soluções".
Após incontáveis reuniões
em todos os cantos e áreas - da CGT com Lastiri, deste com
senadores, depois com a presidente, em seguida com os comandantes
das Forças Armadas, destes entre si e, por fim, com Isabelita
- algumas coisas começaram a se definir.
MORRER COM PERÓN - Na terça-feira
pela manhã, rechaçada no Legislativo a exposição
do plano econômico de Celestino Rodrigo - que, semidesfalecido
após uma sessão plenária de mais de vinte horas
teve de sair amparado por um auxiliar em direção ao
automóvel -, anunciou-se o acatamento das paritarias (acordos
de trabalho) pelo governo.
Dessa forma, após uma paralisação
da produção que, incluindo o feriado de quarta-feira,
causaria ao país prejuízos calculados em mais de 800
milhões de dólares (cerca 6,5 bilhões de cruzeiros),
ficava o dito pelo não dito. Foi, naquele dia, a primeira
derrota do governo. Foi, ao mesmo tempo, a sobreposição
da liderança sindical a Isabelita dentro do peronismo. Numa
nova instância do dogma da verticalidad que orienta
o movimento, este passou a ter no líder das "62 Organizações
Peronistas" e secretário geral da poderosa União
Operária Metalúrgica, Lorenzo Miguel, seu chefe de
fato.
"Sou peronista", declarou o habitualmente
calado líder sindical a Antonio Rodríguez Villar,
correspondente de VEJA em Buenos Aires, na semana passada, "e
nunca fui outra coisa." Solicitado a se definir politicamente,
acrescentou: "Cresci com Perón e morrerei com ele, como
todos os operários argentinos. Por isso jamais poderemos
ser comunistas. Somos cristãos e argentinos, e nosso movimento
é humanista e nacional". Aos 46 anos, Lorenzo Miguel,
que há 22 mora no mesmo apartamento modesto da Calle Murguiondo,
com sua mulher e dois filhos adotados, deverá, a partir de
agora, ditar os alinhamentos políticos do sindicalismo argentino.
INDEPENDÊNCIA - O anúncio
da suspensão do paro general no início da tarde
de terça-feira teve o sentido de uma proclamação
de vitória dos argentinos descontentes. Para Isabelita, não
seria a única derrota. Algumas horas mais tarde, o Senado,
caixa de ressonância tradicional do peronismo, levantou sua
voz e elegeu o professor e jurista Halo Argentino Luder, 59 anos
e grande conhecedor do teatro de García Lorca, como seu presidente
provisório, por 50 votos contra apenas 4.
A eleição do presidente do
Senado teve as dimensões de um choque. Uma hora antes dificilmente
se encontraria em Buenos Aires quem acreditasse na possibilidade
de o Senado dar um grito de independência.
Ao improvisar seu discurso de agradecimento,
Luder, titular também do alto posto de procurador do Partido
Justicialista, fez um discurso de 8 minutos perfeitamente equilibrado,
que em apenas uma expressão sintetizava a maior necessidade
da nação argentina naquele momento: a concórdia
nacional. Seu pronunciamento, do qual o nome de Isabelita esteve
notoriamente ausente, teve o significado de um plano de governo.
De fato, Luder falou não como um presidente do Senado - mas
da República.
Com este resultado, faltava apenas um passo
- dado na tarde do mesmo dia - para o restabelecimento do equilíbrio
entre os poderes Legislativo e Executivo. Os senadores aprovaram
por unanimidade seu própria projeto de lei de acefalia, em
substituição a outro, do governo, que incluía,
entre os possíveis sucessores da presidente em caso de vacância
da poder*, senadores, deputados federais, juízes da Suprema
Corte, governadores de província e, sobretudo, ministros
de Estado. O projeto aprovado, entretanto, eliminou a eligibilidade
dos ministros - isto é, bloqueou todas as possibilidades
do gabinete. Em última instância, de López Rega.
SEM FORÇAS - Ao ministro
do Bem-Estar Social já não restava muito apoio, além
do de Isabelita - ela própria amparada nele e em sua aparente
determinação de não echarlo, como exigia
a nação. Ao longo de todo esse processo, habilmente,
os militares argentinos mantiveram prudente distância, embora
haja notícias de abordagens diretas. Na terça-feira,
por exemplo, as Forças Armadas teriam entregue à presidente
um volumoso relatório sobre atividades excusas que estariam
ocorrendo em esferas governamentais. E na noite de quinta-feira
revelou a VEJA um general que, consultados a respeito da permanência
de López Rega, já não como ministro mas apenas
como secretário, os comandantes das três Armas foram
unânimes: "Señora, consideramos que Usted debe
desprenderse". E Isabelita se desprendeu.
Antes de assumir a realidade que se impunha,
contudo, a presidente relutou - e não a assumiu por completo.
Primeiramente, até aceitar a renúncia de seu discutido
auxiliar, ela permitiu que a Argentina atravessasse uma semana de
intranqüilidade e sombrias previsões. A seu modo, também
ela vivia essa intranqüilidade ou o tormento de se decidir
com urgência enquanto ganhava tempo. Na quarta-feira, único
dia em que foi vista publicamente, durante o Te Deum realizado na
catedral de Buenos Aires por ocasião da data nacional argentina,
Isabelita, ao descer do automóvel em companhia de López
Rega, com a faixa presidencial atravessando sua capa bege, o bastão
do poder nas mãos, era, apesar de tanto aparato, a imagem
de uma mulher já quase sem forças.
O ESTOPIM - Pouco pareciam animá-la
os vivas recebidos de umas 1.000 pessoas postadas diante da catedral,
e convocadas supostamente pelo setor feminino do justicialismo.
Com sorriso que revelava acima de tudo amargura, ela se dirigiu
a Casa Rosada para só reaparecer ao meio-dia de sexta-feira
- não mais pessoalmente, mas como uma referência no
comunicado da secretaria de Imprensa do governo. A presidente aceitava
finalmente a renúncia de todo o Ministério, incluindo
López Rega. Contudo, mantinha tanto o chanceler Alberto Vignes,
amigo incondicional da ministro do Bem-Estar Social, quanto o autor
do plano econômico que desencadeou a fúria dos trabalhadores.
Numa semana em que supostamente nada mais
poderia conseguir surpreender a Argentina, essa decisão eletrizou
o país. Ela veio acompanhada de outro anúncio grave:
a partir desta segunda-feira as tarifas de telefones e correios
serão elevadas, respectivamente, em 150% e 200%. Era um dado
normal na impiedosa situação econômico-financeira
da Argentina: nos últimos trinta dias, a inflação
foi igual a um terço da registrada nos últimos doze
meses - 21 %, superando o recorde mensal de janeiro de 1959 (19%).
E, segundo analistas econômicos descomprometidos, este índice
inflacionário poderá subir a 40% ao mês ou,
ainda, acelerar o ritmo e totalizar, até o final do ano,
talvez 700%.
Com uma dívida externa de 12 bilhões
de dólares, dos quais um terço deve ser saldado nos
próximos sessenta dias, sem perspectivas de refinanciamento,
a Argentina está presa a problemas certamente mais dramáticos
que a presença ou ausência de López Rega no
governo. Na verdade, o intrigante ex-ministro foi apenas - o que
não é pouco - o estopim para uma mudança talvez
radical mas difusa. O essencial, do qual Juan Domingo Perón
foi poupado pela morte e que agora ameaça arrastar sua viúva,
é que a crise argentina extravasa em todos os lados as fronteiras
do regime peronista tradicional. Trata-se, fundamentalmente, da
possível falência das estruturas nacionais.
* O presidente do Senado exerce apenas
provisoriamente o poder, devendo convocar o Congresso para eleger
o chefe de Estado definitivo num prazo de 48 horas.
As andanças de José López
Rega no Brasil
Há quase seis meses, no dia 23
de janeiro último, um conhecido argentino, detentor de alto
posto em seu país, desembarcava no Aeroporto Salgado Filho,
em Porto Alegre, para uma visita de caráter particular ao
Brasil. O avião em que viajou trazia as insígnias
da Força Aérea Argentina. Acompanhavam-no quatro nutridos
guarda-costas, todos armados. E durante sua permanência no
Rio Grande do Sul a ilustre personagem acabou envolvendo-se numa
série de peripécias - sendo, inclusive, detida. Mesmo
assim, por algum inexplicado motivo, o fato passou despercebido
para a imprensa na ocasião. Tratava-se de José López
Rega, já na época ministro do Bem-Estar Social e figura
número um do gabinete argentino.
Mas este não foi o único
contato de López Rega com o Brasil. Durante longo tempo,
possivelmente no começo da década de 60, ele residiu
em Uruguaiana - onde por um certo período ganhou a vida lendo
a mão dos conhecidos. Depois, várias vezes fez visitas
a Porto Alegre, hospedando-se invariavelmente na casa de um velho
amigo, Cláudio Ferreira, brasileiro naturalizado argentino,
atualmente presidente da Câmara de Comércio Brasil-Argentina.
E, no mês passado, López Rega passou uma semana no
Rio. Mas é sua visita de janeiro - conhecida na semana passada
pela inconfidência do motorista que o serviu, Osmar Luís
Rostirolla - a mais salpicada de elementos intrigantes.
TERRAS - López Rega viajou
sob nome falso, mas revelou estranho comportamento para quem desejava
passar despercebido. Distribuiu sempre generosas gorjetas, de até
100 cruzeiros, aos porteiros do Hotel Hermon, onde ficou hospedado.
Um de seus guarda-costas carregava dinheiro, com absoluta naturalidade,
num saco plástico. E, numa atitude definitivamente insensata
dentro dos propósitos iniciais de anonimato, a certa altura
o ministro argentino passou a distribuir retratos autografados a
servidores e admiradores em geral. O próprio motorista Rostirolla
mereceu uma foto onde se lê: "Como recuerdo afetuoso
al amigo Osmar, deseando para él y familia felicidad".
O motorista, aliás, caiu decididamente
na estima do visitante. Além do autógrafo, Rostirolla
ganhou ainda 5.000 cruzeiros de gorjetas e uma oferta de emprego
em Buenos Aires. Quanto a esta última gentileza, o motorista
delicadamente agradeceu e recusou. "Não faz mal, quando
eu vier para Porto Alegre, te emprego como meu motorista",
teria respondido López Rega.
Realmente, o famoso argentino parece
abrigar sérios planos de morar no Brasil. E essa conclusão
é corroborada não só pela confidência
a Rostirolla, mas também por outro indício, mais forte:
a compra de terras em Santa Catarina. De acordo com a transação
número 31.318, assentada no Livro de Registro de Vendas de
Imóveis a Estrangeiros do cartório de Sombrio - município
do litoral catarinense -, López Rega comprou, em setembro
do ano passado, uma gleba de 385.000 metros quadrados na localidade,
pagando a quantia de 250.000 cruzeiros. Durante sua visita de janeiro,
o argentino não deixou de dar uma escapada à região,
passando alguns dias hospedado em Torres, de onde excursionou até
o local de suas terras.
UMBANDA - Os negócios
de López Rega no Brasil apresentam certos aspectos nebulosos.
Segundo algumas informações, ele não teria
preenchido todos os requisitos exigidos pelo INCRA, motivo pelo
qual teria sido aberto um inquérito nesse órgão
para apurar suas operações, De qualquer forma, este
não foi o único lado obscuro de sua passagem pelo
Brasil. Muito mais inquietante foi o episódio de sua detenção,
ordenada quando ele se encontrava hospedado no São Paulo
Palace Hotel, em Torres. Mas não há detalhes maiores
além das informações de que teria sido acusado
de falsário - e de que para sua pronta liberação
teria interferido inclusive o então governador gaúcho
Euclides Triches.
Seja como for, as atividades de López
Rega no Brasil, na semana passada, começavam a aflorar. A
ponto de ter sido divulgada uma foto do argentino até mesmo
num terreiro de umbanda de Porto Alegre, o Templo do Sol Urabatan
e Oxum, dirigido pelo babalorixá Vílson Ávila.
López Rega, segundo revelou Àvila a VEJA, freqüentou
o terreiro entre 1960 e 1966. E, como bom cultor da astrologia,
teosofia, espiritismo e ciências afins, não recusou
os passes do babalorixá.
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