Brasil e sociedade

Política e economia

Internacional

Ciência e tecnologia

Saúde e sexo

Artes e espetáculos

Gente e memória

Religião e História

Esporte e aventura

Educação e trabalho

Sugira uma capa

Sobre o site

Sobre VEJA

1968 - 2007 | imagens

1993 - 2007 | reportagens

1997 - 2007 | edições integrais

Edição n° 1

Edições extras

Edições especiais

Reportagens de capa
1968 - 1997



Busca detalhada


Imagens das capas
1968 - 2007



Busca detalhada


Em Dia


Acesse o site

  16 de julho de 1975
Uma falência nas estruturas

Morre o peronismo, renasce o peronismo. Desde 1955, quando os militares argentinos depuseram o general Juan Domingo Perón da presidência da República, tem sido assim. Infinitas vezes o movimento foi dado como morto. Outras tantas renasceu.

Na semana passada, no entanto, já não havia tanta certeza de uma nova ressurreição. Pois, numa sucessão torrencial de acontecimentos, vários dogmas do movimento foram quebrados. A exigência de absoluta fidelidade ao chefe, a monolítica obediência das bases sindicais, a reverência da classe política - um a um, os pilares peronistas foram postos por terra. E ao que se assistia era ou bem a agonia definitiva do movimento, ou bem o ressurgimento sob uma forma radicalmente nova, em que as bases impunham as decisões à cúpula, a obsessão da unidade era posta de lado - e talvez, nessa hipótese, nem fosse mais o caso de chamá-lo peronismo.

Nem poderia o movimento ter melhor sorte, nas mãos da frágil, indefesa María Estela Martínez de Perón. Ainda mais que ela se viu alçada ao poder num momento em que o país desabava vertiginosamente para a falência econômica. Até agora, em seus doze meses de governo, Isabelita viu minguarem incontrolavelmente os recursos da nação, ao mesmo tempo que lhe escapava das mãos aquilo que Perón considerava seu mais precioso valor - el pueblo. Finalmente, na semana passada, Isabelita, acuada em várias frentes, só não soçobrou por uma dadivosa série de concessões. E, mesmo assim, não era certo se o sacrifício pessoal da presidente ainda não acabaria por se impor como último e fatal desfecho.

SEM REMÉDIO - No ponto crucial de uma longa e dramática crise iniciada desde que o ministro da Economia, Celestino Rodrigo, anunciou um novo e draconiano plano econômico -, a semana começou com a Argentina absolutamente paralisada, por ordem de uma CGT antes incondicionalmente fiel à liderança peronista, mas hoje revolucionada contra um governo onde não mais reconhece os ideais do falecido caudilho. E esta não seria a única heresia a que se assistiria nos últimos sete dias. Além de um contundente desafio lançado à presidente pelo Senado, praticamente toda a nação, dos trabalhadores aos empresários, passando pelos militares, exigia a cabeça de José López Rega, a exótica e maquiavélica eminência parda do governo, também conhecido como "El Palomo" (O Pombo), ou "El Buchón" (O Papudo), ou "EI Brujo" (O Bruxo) ao qual se atribuem as atuais desgraças do país. Simplesmente, reinava a convicção de que López Rega é absolutamente incompatível com qualquer padrão de eficiência ou dignidade do governo.

Mas, na sexta-feira, embora Isabelita tenha anunciado um novo Ministério - do qual López Rega estava excluído -, ainda predominava a incerteza quanto ao seu real destino. Alguns diziam que, apesar de ter perdido a pasta do Bem-Estar Social, ele ainda conservaria seu segundo e insidioso cargo de secretário da presidente. Outros sustentavam, talvez apressadamente, que perderia também este posto. E, à falta de uma palavra oficial, a crise, mais do que nunca, concentrava-se na pessoa do assediado "Bruxo".

UM "PRIMÁRIO" - De qualquer forma, em sua carta de renúncia, enviada protocolarmente como a dos demais ministros, López Rega, ofereceu os dois cargos em holocausto, "num gesto patriótico tendente a conseguir a pacificação dos espíritos perturbados". E, depois de ressaltar que em dois anos de trabalho conseguira "escrever algumas poucas páginas do prólogo no livro do labor nacional", registrou um pressentimento que não tardaria a se materializar: "Meus detratores e a antipátria se encarregarão de encher novelescamente um livro".

Menos de 24 horas após seu afastamento oficial do gabinete, circulava em Buenos Aires um documento atribuído a um enigmático Comando General de Resistencia de Oficiales Justicialistas de la Policia Federal, e que vasculhava as mais íntimas facetas de López Rega, desde os "antecedentes morais" do biografado até suas atividades policiais.

Fica-se sabendo, assim, que no ano de 1946 ele era conhecido apenas como José López, tendo acrescentado o sobrenome Rega quando começou a publicar seus primeiros trabalhos sobre astrologia e ocultismo. Os dois primeiros livros, aliás - "Astrología Esotérica" e "Preguntas en la Noche" -, foram publicados na década de 50 pela Editora Rosa de los Pobres, cujo endereço coincidentemente, é o mesmo que se supõe ter sido o de López Rega em Buenos Aires: Calle Pascula Tamborina, 3761.

É o pouco que se sabe do passado remoto do discutido ministro demissionário, além de supostamente não ter ultrapassado o quinto ano escolar - o que lhe valeu o qualificativo de "primário" no Washington Post -, ser casado com Flora Fontenla da qual vive separado, e restringir suas relações familiares à filha única, Norma, mulher do atual presidente da Câmara de Deputados, Raul Lastiri.

FLUIDOS DE RAMATIS - Nem mesmo a notoriedade e o poder o tornariam mais sociável. Na verdade, em seus dois anos e 47 dias como ministro do Bem-Estar Social, e discutida atuação, López Rega conseguiu açambarcar um número notável de inimigos e ver-se cercado apenas de um exíguo círculo de amigos. Raros são os políticos, a começar pelos mais ambiciosos, que não temem o enclausuramento. Mas López Rega estabeleceu para si e impôs ao governo de Isabelita uma estratégia que conduziu ambos ao isolamento, traumatizou o peronismo e tumultuou a nação.

Talvez, como dizem seus detratores, essa capacidade de influir nos destinos alheios se deva "aos fluidos de Ramatis, espírito de um planeta de civilização em estágio avançadíssimo e reencarnado em López Rega". Mais seguro, contudo, é constatar meramente a força de persuasão descomunal de "Lopecito", traduzida também pela presença de homens de sua confiança nos postos de maior gravitação na mecânica do poder argentino: na semana passada, quando todo o edifício lopezreguista parecia ruir, outras estacas da mesma linhagem permaneciam no terreno político do país, em postos ministeriais.

Com efeito, em substituição a López Rega, à frente da pasta do Bem-Estar Social, foi nomeado Carlos Villone, um de seus mais íntimos colaboradores. Por outro lado, os ministros da Educação, da Economia, do Trabalho, das Relações Exteriores, todos ligados à direita peronista, se viram confirmados em seus cargos por Isabelita. "Houve certa troca de nomes mas não de cargos", sentenciou um porta-voz da União Cívica Radical, principal partido de oposição, referindo-se também às substituições de dois ministros moderados - Alberto Rocamora, do Interior, e Antonio Benítez, da Justiça - por peronistas também moderados. Na verdade, a única posição realmente cedida pelo setor de López Rega foi o Ministério da Defesa, ocupado desde a semana passada pelo septuagenário Jorge Garrido, popularmente conhecido como "única instituição estável na Argentina", sem posição definida.

"'HAY QUE ECHAR" - É certo, porém, que a presença lopezreguista no governo, em pessoa ou encarnado em ministros, contribuía no final da semana para engrossar as nuvens do impasse político argentino, prenúncio de dias talvez mais críticos do que os vividos na última quinzena. Neles, assistiu-se ao estranho espetáculo de uma nação que parecia ter parado para repensar de uma só vez todos os problemas acumulados ao longo de décadas.

Desorientada, confusa, porém pela primeira vez em muitos anos unificada, a Argentina marchava contra um inimigo comum - o governo. Mais exatamente, marchava contra López Rega, a personagem que naquele momento enfeixava em suas mãos, ocultas quanto possível, uma enorme parcela de poder dentro do governo. Em todas as partes exigia-se o afastamento do ministro do Bem-Estar Social e, por extensão, da vasta equipe de homens de sua confiança que instalou agilmente em todos os escalões oficiais. Nas ruas, nos bares, nas redações dos jornais - onde mais se fala do que se escreve sobre o assunto -, uma idéia obsessiva se refletia numa mesma frase: "Hay que echar a López Rega", é preciso jogar López Rega fora.

No domingo, dia 6, os portenhos mais incautos ainda tentavam obter gêneros alimentícios nas filas de alguns poucos armazéns abertos, para enfrentar a paralisação oficial do país decretada pela CGT. O clima de preparação insinuava o que seriam os dois dias seguintes. Sem dúvida, foram impressionantes.

CERIMÔNIAS APRESSADAS - Os 6 milhões de trabalhadores argentinos iniciaram a semana de braços cruzados, em suas casas num paro pasivo, isto é, sem participar das habituais manifestações activas de protesto, comícios e passeatas. Era acionada - pela primeira vez em trinta anos num governo peronista - a mais eficiente arma do arsenal cegetista, utilizada pela última vez em 1972 durante o malfadado governo do general Alejandro Agustín Lanusse - o paro general, com duração marcada de 48 horas e devendo terminar não com a volta ao trabalho, mas com o feriado de 9 de julho, aniversário n.º 159 da declaração de independência do país.

Nesses dois dias de sol, céu aberto e temperatura agradável, tanto quanto os turistas que este mês tomam Buenos Aires de assalto, a classe média portenha se sentiu perdida. Não havia cinemas, restaurantes, espetáculos infantis. Sem transportes coletivos, táxis ou atrações, não restou a essa imensa camada de argentinos - em Buenos Aires, dizem eles, "hasta los pidientes (mendigos) son de la clase media" - se não a alternativa de ficar em casa. E a família, as crianças, os parentes adquiriram as dimensões de um universo limitado geograficamente a passeios pelas vizinhanças - não funcionavam sequer os postos de gasolina.

Mesmo os inconvenientes da morte se complicaram, pois as empresas funerárias, funcionando apenas meio dia, tornaram o movimento nos cemitérios uma grotesca sobreposição de cerimônias apressadas. Todavia, enquanto o país, mudo, parecia buscar sua própria voz, por trás do silêncio - de resto reforçado nas rádios argentinas pela substituição do noticiário do país por tangos e músicas folclóricas - ocorria uma intensa movimentação nas áreas decisivas da vida política nacional.

REBELIÃO INAUDITA - Sob severa pressão de todos os setores, Isabelita havia recebido no domingo à noite o pedido de demissão coletiva de seu Ministério, "para facilitar o encontro de saídas à atual situação", eufemismo preferido do governo para se referir à pior crise política que já enfrentou.

A partir dessa solução - a renúncia foi apresentada mas Isabelita adiou sua aceitação -, a vida política argentina passou a girar em torno de dois outros problemas cruciais: a CGT exigia a homologação dos acordos salariais obtidos em negociações entre sindicatos de trabalhadores e de empregadores, que haviam possibilitado a obtenção de aumentos algumas vezes em torno de 150%, anulados por decreto da presidente na semana retrasada. E, no Senado, discutia-se febrilmente a necessidade de se eleger um presidente para a Casa, com o que Raúl Lastiri, o estratégico genro de López Rega e presidente da Câmara dos Deputados, deixaria de ser o sucessor da presidente da República em caso de vacância de poder, nos termos da Constituição. Era essa também uma inaudita rebelião nas fileiras peronistas, majoritárias mais duas casas do Legislativo e instruídas expressamente por Isabelita, chefe máxima do peronismo, a não preencherem o cargo de presidente do Senado.

Enquanto o Poder Executivo procurava encontrar "saídas" para a crise, os setores mais importantes da vida nacional argentina começaram a impor "soluções".

Após incontáveis reuniões em todos os cantos e áreas - da CGT com Lastiri, deste com senadores, depois com a presidente, em seguida com os comandantes das Forças Armadas, destes entre si e, por fim, com Isabelita - algumas coisas começaram a se definir.

MORRER COM PERÓN - Na terça-feira pela manhã, rechaçada no Legislativo a exposição do plano econômico de Celestino Rodrigo - que, semidesfalecido após uma sessão plenária de mais de vinte horas teve de sair amparado por um auxiliar em direção ao automóvel -, anunciou-se o acatamento das paritarias (acordos de trabalho) pelo governo.

Dessa forma, após uma paralisação da produção que, incluindo o feriado de quarta-feira, causaria ao país prejuízos calculados em mais de 800 milhões de dólares (cerca 6,5 bilhões de cruzeiros), ficava o dito pelo não dito. Foi, naquele dia, a primeira derrota do governo. Foi, ao mesmo tempo, a sobreposição da liderança sindical a Isabelita dentro do peronismo. Numa nova instância do dogma da verticalidad que orienta o movimento, este passou a ter no líder das "62 Organizações Peronistas" e secretário geral da poderosa União Operária Metalúrgica, Lorenzo Miguel, seu chefe de fato.

"Sou peronista", declarou o habitualmente calado líder sindical a Antonio Rodríguez Villar, correspondente de VEJA em Buenos Aires, na semana passada, "e nunca fui outra coisa." Solicitado a se definir politicamente, acrescentou: "Cresci com Perón e morrerei com ele, como todos os operários argentinos. Por isso jamais poderemos ser comunistas. Somos cristãos e argentinos, e nosso movimento é humanista e nacional". Aos 46 anos, Lorenzo Miguel, que há 22 mora no mesmo apartamento modesto da Calle Murguiondo, com sua mulher e dois filhos adotados, deverá, a partir de agora, ditar os alinhamentos políticos do sindicalismo argentino.

INDEPENDÊNCIA - O anúncio da suspensão do paro general no início da tarde de terça-feira teve o sentido de uma proclamação de vitória dos argentinos descontentes. Para Isabelita, não seria a única derrota. Algumas horas mais tarde, o Senado, caixa de ressonância tradicional do peronismo, levantou sua voz e elegeu o professor e jurista Halo Argentino Luder, 59 anos e grande conhecedor do teatro de García Lorca, como seu presidente provisório, por 50 votos contra apenas 4.

A eleição do presidente do Senado teve as dimensões de um choque. Uma hora antes dificilmente se encontraria em Buenos Aires quem acreditasse na possibilidade de o Senado dar um grito de independência.

Ao improvisar seu discurso de agradecimento, Luder, titular também do alto posto de procurador do Partido Justicialista, fez um discurso de 8 minutos perfeitamente equilibrado, que em apenas uma expressão sintetizava a maior necessidade da nação argentina naquele momento: a concórdia nacional. Seu pronunciamento, do qual o nome de Isabelita esteve notoriamente ausente, teve o significado de um plano de governo. De fato, Luder falou não como um presidente do Senado - mas da República.

Com este resultado, faltava apenas um passo - dado na tarde do mesmo dia - para o restabelecimento do equilíbrio entre os poderes Legislativo e Executivo. Os senadores aprovaram por unanimidade seu própria projeto de lei de acefalia, em substituição a outro, do governo, que incluía, entre os possíveis sucessores da presidente em caso de vacância da poder*, senadores, deputados federais, juízes da Suprema Corte, governadores de província e, sobretudo, ministros de Estado. O projeto aprovado, entretanto, eliminou a eligibilidade dos ministros - isto é, bloqueou todas as possibilidades do gabinete. Em última instância, de López Rega.

SEM FORÇAS - Ao ministro do Bem-Estar Social já não restava muito apoio, além do de Isabelita - ela própria amparada nele e em sua aparente determinação de não echarlo, como exigia a nação. Ao longo de todo esse processo, habilmente, os militares argentinos mantiveram prudente distância, embora haja notícias de abordagens diretas. Na terça-feira, por exemplo, as Forças Armadas teriam entregue à presidente um volumoso relatório sobre atividades excusas que estariam ocorrendo em esferas governamentais. E na noite de quinta-feira revelou a VEJA um general que, consultados a respeito da permanência de López Rega, já não como ministro mas apenas como secretário, os comandantes das três Armas foram unânimes: "Señora, consideramos que Usted debe desprenderse". E Isabelita se desprendeu.

Antes de assumir a realidade que se impunha, contudo, a presidente relutou - e não a assumiu por completo. Primeiramente, até aceitar a renúncia de seu discutido auxiliar, ela permitiu que a Argentina atravessasse uma semana de intranqüilidade e sombrias previsões. A seu modo, também ela vivia essa intranqüilidade ou o tormento de se decidir com urgência enquanto ganhava tempo. Na quarta-feira, único dia em que foi vista publicamente, durante o Te Deum realizado na catedral de Buenos Aires por ocasião da data nacional argentina, Isabelita, ao descer do automóvel em companhia de López Rega, com a faixa presidencial atravessando sua capa bege, o bastão do poder nas mãos, era, apesar de tanto aparato, a imagem de uma mulher já quase sem forças.

O ESTOPIM - Pouco pareciam animá-la os vivas recebidos de umas 1.000 pessoas postadas diante da catedral, e convocadas supostamente pelo setor feminino do justicialismo. Com sorriso que revelava acima de tudo amargura, ela se dirigiu a Casa Rosada para só reaparecer ao meio-dia de sexta-feira - não mais pessoalmente, mas como uma referência no comunicado da secretaria de Imprensa do governo. A presidente aceitava finalmente a renúncia de todo o Ministério, incluindo López Rega. Contudo, mantinha tanto o chanceler Alberto Vignes, amigo incondicional da ministro do Bem-Estar Social, quanto o autor do plano econômico que desencadeou a fúria dos trabalhadores.

Numa semana em que supostamente nada mais poderia conseguir surpreender a Argentina, essa decisão eletrizou o país. Ela veio acompanhada de outro anúncio grave: a partir desta segunda-feira as tarifas de telefones e correios serão elevadas, respectivamente, em 150% e 200%. Era um dado normal na impiedosa situação econômico-financeira da Argentina: nos últimos trinta dias, a inflação foi igual a um terço da registrada nos últimos doze meses - 21 %, superando o recorde mensal de janeiro de 1959 (19%). E, segundo analistas econômicos descomprometidos, este índice inflacionário poderá subir a 40% ao mês ou, ainda, acelerar o ritmo e totalizar, até o final do ano, talvez 700%.

Com uma dívida externa de 12 bilhões de dólares, dos quais um terço deve ser saldado nos próximos sessenta dias, sem perspectivas de refinanciamento, a Argentina está presa a problemas certamente mais dramáticos que a presença ou ausência de López Rega no governo. Na verdade, o intrigante ex-ministro foi apenas - o que não é pouco - o estopim para uma mudança talvez radical mas difusa. O essencial, do qual Juan Domingo Perón foi poupado pela morte e que agora ameaça arrastar sua viúva, é que a crise argentina extravasa em todos os lados as fronteiras do regime peronista tradicional. Trata-se, fundamentalmente, da possível falência das estruturas nacionais.

* O presidente do Senado exerce apenas provisoriamente o poder, devendo convocar o Congresso para eleger o chefe de Estado definitivo num prazo de 48 horas.

 

As andanças de José López Rega no Brasil

Há quase seis meses, no dia 23 de janeiro último, um conhecido argentino, detentor de alto posto em seu país, desembarcava no Aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre, para uma visita de caráter particular ao Brasil. O avião em que viajou trazia as insígnias da Força Aérea Argentina. Acompanhavam-no quatro nutridos guarda-costas, todos armados. E durante sua permanência no Rio Grande do Sul a ilustre personagem acabou envolvendo-se numa série de peripécias - sendo, inclusive, detida. Mesmo assim, por algum inexplicado motivo, o fato passou despercebido para a imprensa na ocasião. Tratava-se de José López Rega, já na época ministro do Bem-Estar Social e figura número um do gabinete argentino.

Mas este não foi o único contato de López Rega com o Brasil. Durante longo tempo, possivelmente no começo da década de 60, ele residiu em Uruguaiana - onde por um certo período ganhou a vida lendo a mão dos conhecidos. Depois, várias vezes fez visitas a Porto Alegre, hospedando-se invariavelmente na casa de um velho amigo, Cláudio Ferreira, brasileiro naturalizado argentino, atualmente presidente da Câmara de Comércio Brasil-Argentina. E, no mês passado, López Rega passou uma semana no Rio. Mas é sua visita de janeiro - conhecida na semana passada pela inconfidência do motorista que o serviu, Osmar Luís Rostirolla - a mais salpicada de elementos intrigantes.

TERRAS - López Rega viajou sob nome falso, mas revelou estranho comportamento para quem desejava passar despercebido. Distribuiu sempre generosas gorjetas, de até 100 cruzeiros, aos porteiros do Hotel Hermon, onde ficou hospedado. Um de seus guarda-costas carregava dinheiro, com absoluta naturalidade, num saco plástico. E, numa atitude definitivamente insensata dentro dos propósitos iniciais de anonimato, a certa altura o ministro argentino passou a distribuir retratos autografados a servidores e admiradores em geral. O próprio motorista Rostirolla mereceu uma foto onde se lê: "Como recuerdo afetuoso al amigo Osmar, deseando para él y familia felicidad".

O motorista, aliás, caiu decididamente na estima do visitante. Além do autógrafo, Rostirolla ganhou ainda 5.000 cruzeiros de gorjetas e uma oferta de emprego em Buenos Aires. Quanto a esta última gentileza, o motorista delicadamente agradeceu e recusou. "Não faz mal, quando eu vier para Porto Alegre, te emprego como meu motorista", teria respondido López Rega.

Realmente, o famoso argentino parece abrigar sérios planos de morar no Brasil. E essa conclusão é corroborada não só pela confidência a Rostirolla, mas também por outro indício, mais forte: a compra de terras em Santa Catarina. De acordo com a transação número 31.318, assentada no Livro de Registro de Vendas de Imóveis a Estrangeiros do cartório de Sombrio - município do litoral catarinense -, López Rega comprou, em setembro do ano passado, uma gleba de 385.000 metros quadrados na localidade, pagando a quantia de 250.000 cruzeiros. Durante sua visita de janeiro, o argentino não deixou de dar uma escapada à região, passando alguns dias hospedado em Torres, de onde excursionou até o local de suas terras.

UMBANDA - Os negócios de López Rega no Brasil apresentam certos aspectos nebulosos. Segundo algumas informações, ele não teria preenchido todos os requisitos exigidos pelo INCRA, motivo pelo qual teria sido aberto um inquérito nesse órgão para apurar suas operações, De qualquer forma, este não foi o único lado obscuro de sua passagem pelo Brasil. Muito mais inquietante foi o episódio de sua detenção, ordenada quando ele se encontrava hospedado no São Paulo Palace Hotel, em Torres. Mas não há detalhes maiores além das informações de que teria sido acusado de falsário - e de que para sua pronta liberação teria interferido inclusive o então governador gaúcho Euclides Triches.

Seja como for, as atividades de López Rega no Brasil, na semana passada, começavam a aflorar. A ponto de ter sido divulgada uma foto do argentino até mesmo num terreiro de umbanda de Porto Alegre, o Templo do Sol Urabatan e Oxum, dirigido pelo babalorixá Vílson Ávila. López Rega, segundo revelou Àvila a VEJA, freqüentou o terreiro entre 1960 e 1966. E, como bom cultor da astrologia, teosofia, espiritismo e ciências afins, não recusou os passes do babalorixá.

 
     
voltar
 
  VEJA on-line | Em Dia