BUSCA

Busca avançada      
FALE CONOSCO
Escreva para VEJA
Para anunciar
Abril SAC
Publicidade

Arquivo
VEJA
 
Reportagens



Busca detalhada
 
Imagens de capa



Busca detalhada




Mais reportagens
Brasil e sociedade
Política e economia
Internacional
Ciência e tecnologia
Saúde e sexo
Artes e espetáculos
Gente e memória
Religião e História
Esporte e aventura
Educação e trabalho

Revistas
1997 - 2009 | edições integrais
Edição n° 1
Edições extras
Edições especiais
  Reportagens



15 de dezembro de 1971
Um novo mapa
nasce da guerra

As cortinas de juta nas janelas estavam baixadas e, de dentro das casas, apenas as velas projetavam alguma luz sobre as calçadas desertas. Os ônibus de dois andares, à inglesa, há muito já haviam desaparecido das ruas, e na escuridão total do "black-out" o único movimento era feito, de faróis apagados, pelos jipes e caminhões mitares, camuflados com camadas de lama que cobriam toda a sua pintura. Parte da população já havia abandonado a cidade antes, em riquixás, bicicletas e a pé, ou em canoas que se perdiam no labirinto de canais, rios e riachos dos arredores. Isolada do resto do mundo, machucada severamente por sete dias de bombardeios, Dacca, a capital do Paquistão Oriental, nunca pareceu tão desolada como na noite do último sábado. Nem tão ameaçada. A poucos quilômetros de distância, as tropas indianas fechavam finalmente seu cerco, após uma semana de guerra total. E, com a chegada dos primeiros helicópteros da Índia, para o assalto final, o último baluarte paquistanês na região parecia condenado a render-se ou morrer numa luta sem esperanças.

A pressão indiana contra Dacca, no fim da semana passada, era o fato maior da guerra sem fronteiras na qual Índia e Paquistão se lançaram com todas as suas forças desde o sábado, dia 4. E da sorte da cidade poderia depender em grande parte o rumo do terceiro e mais grave conflito entre os dois países. Numa ofensiva bem sucedida, a Índia praticamente se apoderou de todo o Paquistão Oriental, e a queda de Dacca marcaria o fim efetivo da campanha na região. Na fronteira ocidental, a outra grande frente de luta, os indianos pareciam ter se recuperado dos duros reveses que sofreram até o meio da semana e equilibrado a situação militar. Mais que tudo, nenhuma porção importante de seu território se encontrava em poder do inimigo. Assim, uma vitória completa no Paquistão Oriental deixaria a Índia na posição fundamental que ela desejou ao entrar na guerra: conseguir, sem prejuízos irreparáveis na fronteira ocidental, a transformação efetiva do território oriental do Paquistão na República independente de Bangladesh - e a partir daí, discutir com o líder paquistanês Yahya Khan um cessar-fogo no qual não teria mais nada a perder.

"Não resta dúvida de que a Índia sairá vitoriosa da luta que nos foi imposta", declarava, na sexta-feira, a primeira-ministra Indira Ghandi. Para seu governo, de fato, o subcontinente se divide, desde a semana passada, em três países diferentes: Paquistão, ao ocidente, Índia, no centro, e Bangladesh, no leste. Proclamada em abril, após a Sangrenta repressão do governo paquistanês contra os autonomistas locais - que custaria 1 milhão de vidas e o êxodo de quase 10 milhões de refugiados para a Índia -, a República Popular de Bangladesh foi reconhecida oficialmente, na última segunda-feira, pelo governo indiano, e três dias depois abria sua embaixada em Nova Délhi. Aparentemente, será difícil que o mapa da região volte à sua forma antiga.

Bloqueio - Para criar esta situação de fato, a Índia teve de agir com rapidez na semana passada. E a campanha no leste, a frente estrategicamente mais importante, foi conduzida com um máximo de força. A Marinha indiana, en dois dias, se apossou completamente da baía de Bangladesh - e bloqueou toda a costa do Paquistão Oriental, impedindo a chegada de reforços por mar e bombardeando diariamente os portos, Sua aviação fez um trabalho igualmente rápido: na quinta-feira não havia mais nenhum avião paquistanês em condições de operar na região. 0 exército, finalmente, avançou por três grandes setores: Jessore, a oeste, Sylhet, ao norte, e Comilla, a leste. Na sua progressão, foi empurrando os paquistaneses para a costa e fechando o cerco em torno de Dacca, com o objetivo de tomar a capital pelo estrangulamento.

A conquista de Jessore, na madrugada da terça-feira, foi mais simples do que se pensava. Praça-forte e centro de comunicações aéreas montado pelos ingleses durante a Segunda Guerra Mundial, Jessore havia sido por alguns dias, oito meses atrás, a "capital" do Mukti Bahini, a organização guerrilheira dos separatistas bengaleses. Uma rede de casamatas, anéis de arame farpado e campos minados, defendidos por 6.000 soldados paquistaneses, prometia ali uma das mais duras batalhas da guerra. Mas, depois de tomarem o aeroporto e vencerem a resistência num posto avançado fortemente defendido, os indianos tiveram caminho praticamente livre: os paquistaneses se retiraram para o sul e a cidade foi ocupada sem combates de rua.

No dia seguinte Jessore estava em festa. Nos tetos de ônibus que circulavam pela cidade, os bengaleses dançavam e cantavam. Os gritos de "Joe Bangla!", viva Bangladesh, vinham de toda parte, em meio a um mar de bandeiras bengalesas verde, ouro e branca. Os soldados indianos, que ao passarem com seus tanques faziam tremer as paredes das filas de casebres que formam a maioria das ruas da cidade, recebiam abraços e flores. E os guerrilheiros do Mukti Bahini, com modernos fuzis automáticos pendurados nos ombros, eram festejados como heróis - muitos deles, desde abril no maquis, só agora voltavam a ver seus parentes.

Ritual - A administração de Jessore foi entregue aos guerrilheiros pelo Exército indiano - um pesadelo longamente temido pelos soldados paquistaneses dispersos nos pântanos que circundam a cidade e pelos "razakars", os colaboracionistas que davam informações às tropas do Paquistão. Alguns deles, na semana passada, já eram encontrados à beira dos caminhos, mortos de acôrdo com o ritual bengalês - desmembramento progressivo de braços e pernas. Para muitos guerrilheiros, era urna vingança normal. Segundo os moradores de Jessore, estupros, roubos e assassinatos foram cometidos pelos soldados paquistaneses até pouco antes do ataque indiano. No próprio dia da retirada ainda houve fuzilamento sumário de civis e, logo na saída da cidade, foi encontrado o cadáver mutilado de um morador que transmitira informações aos indianos: seu braço esquerdo fora decepado e seu peito, uma informe massa vermelha, raspado em carne viva.

Pouco aléri, em Jingergacha, as tropas indianas, indiferentes ao acerto de contas, trabalhavam na construção de uma ponte sôbre o rio Kabathani - uma operação que tiveram de repetir dezenas de vezes ao longo da semana passada, pois os soldados paquistaneses quase invariavelmente destruíam as pontes em sua retirada através de todo o território. Auxiliados por centenas de bengaleses, postados em fileiras às margens do rio e enterrados até o joelho na lama, os indianos lançavam à água suas pontes infláveis, suportadas por pilares de alumínio. Em quatro horas de trabalho, os primeiros veículos já podiam fazer a travessia - e sair em perseguição aos paquistaneses.

Na verdade, no decorrer da semana, a campanha indiana acabou se transformando numa gigantesca caçada através do Paquistão Oriental. Com exceção de Jessore, e das cidades de Dinajpur e Rangpur, ao norte, onde os combates foram descritos como particularmente violentos, as posições eram quase sempre conquistadas pelos indianos sem confronto direto e maior: os paquistaneses, em geral, evitavam o choque aberto e se retiravam em direção à Dacca ou certos pontos da costa. O reagrupamento junto ao mar não preocupava o comando indiano: uma operaçao como a retirada de Dunquerque na Segunda Guerra, imagem evocada com insistência no fim da semana, parecia excluída, uma vez que a baía de Bangladesh estava inteiramente à mercê da Marinha indiana. A eventual concentração de até cinqüenta mil paquistaneses junto à Dacca, entretanto, era uma inquietação maior.

Nos rios - Sem nenhum avião - e tendo derrubado apenas um Mig-21 indiano -, os paquistaneses, no território oriental, não tinham cobertura para suas deslocações e estavam sempre expostos ao fogo aéreo indiano. Interceptá-los, entretanto, era uma tarefa formidável: em frotas de sampanas, canoas e barcaças, os paquistaneses se diluíam pelas centenas de cursos de água que formam a intrincada malha fluvial do delta do rio Ganges. Em Calcutá, no grande mapa instalado na sala do general Jagjit Singh Aurora, comandante da frente oriental, o ziguezague das setas indicava a tática indiana: cortar as vias fluviais ao máximo, para impedir o reagrupamento dos paquistaneses em Dacca. Marcial, severo em seu turbante, o general Aurora não criticava o inimigo: diante da superioridade indiana, os paquistaneses não tinham muitas alternativas. Mesmo Comilla, considerada inexpugnável, foi tomada quase sem luta pelos indianos, e pouco após a saída dos paquistaneses o general Aurora era carregado nos ombros da população da cidade.

Reduzidos ao porto de Chittatong - violentamente bombardeado pelos indianos - e a Dacca, os paquistaneses se viam, no fim da semana, sem perspectivas de saída. Na capital poeirenta de um milhão de habitantes, triste com suas casas baixas e sua coloração geral amarelada, a resistência era duvidosa. Durante a semana a população ainda acompanhava excitada o espetáculo dos combates aéreos sobre a cidade, e disputava os jornais precariamente impressos. Mas desde que não houve mais aviões disponíveis e o cerco se apertou, o estado de espírito foi se tornando sembrio. As rações alimentares foram severamente cortadas, o gás e a gasolina suspensos e o uso de eletricidade proibido. No hotel Intercontinental, o melhor lugar da cidade, o cozinheiro escocês só dispunha de arroz, legumes e algum peixe. Os estoques de cerveja e Coca-Cola tinham se esgotado há muito tempo, e os quartos eram divididos até por seis pessoas. A rádio Dacca foi silenciada por foguetes na sexta-feira e todas as telecomunicações com o exterior ficaram cortadas.

Mais que tudo, entretanto, o moral era baixo. Os oficiais, no fim da semana, estavam deprimidos e se sentiam abandonados. Todos os documentos secretos teriam sido destruídos pelas autoridades militares. O próprio comandante do Exército paquistanês oriental, general A. K. Niazi - acusado inveridicarnente de ter fugido de Dacca com sua família e amigos em três aviões -, tinha sua entrada barrada no hotel Intercontinental, decretado zona internacional pela Cruz Vermelha, por estar armado. E muitos soldados começavam a trocar suas fardas por roupas civis e misturar-se com a população na fuga pelos rios e riachos.

Equilíbrio - A 1.600 quilômetros de distância, na fronteira ocidental, a situação era diferente. Ali, nas cruciais regiões do Punjab e Caxemira, os paquistaneses haviam obtido importantes vitórias nos três primeiros dias da semana. Sua ofensiva maior havia levado à conquista de Chhamb, colocando-os em boa situação para interromper as comunicações de Nova Délhi com Shrinagar, a capital da parte indiana da Caxemira. Mais abaixo, suas tropas penetraram em diversos pontos do território indiano e ao sul, ao longo do deserto de Thar, no Rajasthan, os indianos continham com dificuldade seus ataques.

Ao final da semana, entretanto, a promissora ofensiva tinha regredido. Os indianos conseguiram limpar a fronteira no deserto e, uma vez com o domínio da iniciativa, passaram mesmo a apoderar-se de áreas em território paquistanês. Em Chhamb e em toda a zona fronteiriça da Caxemira, os paquistaneses, embora infligindo severas perdas aos indianos, não conseguiram ir adiante no seu avanço inicial - depois de baterem em retirada, as tropas de Nova Délhi se fixaram nas novas posições e chegaram mesmo a recuperar importantes áreas ocupadas pelo inimigo. Ao fim de uma semana de combate, os dois exércitos pareciam postados um frente ao outro em ambas as margens do rio Munnawar Tawi, num equilíbrio de situação.

Os paquistaneses, de qualquer forma, deixaram escapar a oportunidade de se implantar mais fundamente na Caxemira, por não terem lançado um ataque aéreo total na região desde o primeiro dia da guerra aberta. A aviação e os aeroportos indianos poderiam ser golpeados de maneira a perder uma grande parte de seu poder operacional. E as posições fortificadas da Índia, bem como suas linhas de suprimento, ficariam dramaticamente avariadas. Em vez disso, o Paquistão preferiu fazer ataques esparsos, dando à Índia chances de se recuperar e, eventualmente, até inverter a situação em seu favor.

Em chamas - Com efeito, a Índia pôde realizar bombardeios intensos em Rawalpindi, Syalkot e Lahore. Em Muzaffarabad, na parte paquistanesa da Caxemira, um hospital militar estava lotado com feridos civis. "0 país que prega a não-agressão", dizia na semana passada o médico-diretor, "ataca cidades e aldeias onde não há nenhuma atividade militar." A parte pior nos ataques indianos ao Paquistão Ocidental, entretanto, coube indiscutivelmente a Karachi, ex-capital e maior cidade do país, com seus 3 milhões de habitantes. Desde o início da guerra, a Marinha da Índia bombardeou selvagemente o grande porto, afundou navios paquistaneses, avariou navios mercantes estrangeiros e impôs um bloqueio de fato à cidade. Em chamas, o porto ficou em grande parte destruído. O enorme complexo petrolífero de Karachi foi virtualmente inutilizado. E, em bombardeios aéreos, os indianos acabaram atingindo bairros civis, com mais de uma centena de mortos, e pondo a pique um cargueiro inglês.

Com o controle dos mares, a Índia pouco teve a temer contra seus grandes portos de Bombaim e Madras. 0 primeiro, atacado pela aviação paquistanesa, pôde ser defendido pela artilharia antiaérea e caças indianos. O segundo não foi incomodado durante toda a semana. Assim, essa primeira fase da guerra se encerrou com um balanço nitidamente favorável a Nova Délhi. 0 Paquistão teve pelo menos 1.000 mortos, cerca de 70 aviões destruídos (25% de sua força) e 160 tanques inutilizados. As baixas da Índia - cerca de 700 mortos, 30 aviões e 130 tanques destruídos - foram pequenas para o seu potencial. Mas foi no front político, com a implantação da nação bengalesa, que a Índia conquistou sua vitória principal. E, junto com ela, novos problemas também.

Nova nação - Quando, em abril último, debaixo de um arvoredo no Paquistão Oriental, a poucas centenas de metros da fronteira com a Índia, a República de Bangladesh foi proclamada, seus líderes certamente não pensavam que em tão pouco tempo seu país pudesse chegar tão perto da realidade. Durante os últimos oito meses, seu "governo no exílio" não era mais que um grupo de cinco homens instalados numa casa de três andares cercada por árvores e muros, no número 9 de Circus Avenue, em Calcutá. Seu verdadeiro chefe, o xeque Mujibur Rahman, estava - e continua - na prisão de Lyallpur, no Paquistão Ocidental, por alta traição. E, como capital, tinham a fictícia cidade de "Mujibnagar", em homenagem ao líder - o nome aparecia junto com a data em seus despachos e correspondência, para que se criasse a sensação de que operavam a partir de algum lugar em Bangladesh.

Na semana passada não havia mais necessidade de cultivar esses mitos. Uma capital verdadeira poderia ser instalada no território "liberado" do Paquistão Oriental. A República Popular de Bangladesh fora reconhecida diplomáticamente pela Índia e Butão - e não é descabido pensar que a Rússia e os países do leste europeu dêem o mesmo passo no futuro, bem como a Inglaterra e a França. E, ocorrendo a liquidacão definitiva do poder e presença paquistaneses no território, nada mais os vai separar da efetiva formação do país. Nada mais, por outro lado, poderá impedir que mergulhem imediatamente numa avalancha de problemas. E os primeiros deverão ser justamente com o aliado essencial de hoje, a Índia.

De fato, o fator principal que moveu Nova Délhi à guerra contra o Paquistão foi a presença em seu território dos 10 milhões de refugiados bengaleses - que, em 1.500 campos sustentados pela Índia, absorveram 16% do orçamento total deste ano, comprometeram os estoques de gêneros penosamente construídos com dois bons anos de colheita e criaram problemas sociais tão insuportáveis, que Nova Délhi se arriscou a uma guerra para livrar-se deles. Todos os refugiado, com a independência, deveriam voltar Bangladesh, concordam os líderes indianos e bengaleses. Mas 80% deles são de religião hindu, como os indianos, e muitos poderão querer ficar, após terem se perguntado, ao longo dos últimos meses, por que razão nunca tinham pensado em mudar de país. As mesmas tropas índianas que hoje "libertam" Bangladesh, assim poderiam voltar amanhã empurrando à baioneta os refugiados.

Sobram os problemas políticos. Com Mujibur na prisão, não há nenhum líder carismático no governo. Nem o presidente Syed Nazrul nem seu primeiro-ministro Tajuddin Ahmed parecem capazes com o chefe prisioneiro, de evitar um rápida desagregação de suas bases de poder e o início de lutas pelo controle de governo - especialmente com os guerrilheiros, que não têm nenhum membro no Gabinete e não demonstram simpatia pelos homens que viveram em Calcutá durante a luta contra os paquistaneses.

Bancarrota - Segundo os planos do governo de Nova Délhi, a criação pela armas da República Popular de Bangladesh precisava ser complementada, de qualquer forma e rapidamente, por um fato diplomático consumado. Assim, na tarde de sexta-feira, o chanceler indiano Sardar Swaran Singh declarou, a caminho de Nova York, que seu país solicitaria a participação de representantes do novo Estado nos debates da ONU. De fato, a presença de um delegado bengalês no plenário atapetado de azul poderia fazer o fôro mundial ver mais diretamente a nova realidade. Mas dificilmente agiria sobre a ONU como a alavanca necessária para tirar a organização de sua incapacidade em solucionar o conflito.

Durante toda a semana passada, os 132 membros das Nações Unidas - e seu clube mais exclusivo, o Conselho de Segurança - viveram mais uma vez a bancarrota da organização. Reunidos às pressas no sábado anterior, quando os clarões da guerra já iluminavam o subcontinente indo-paquistanês, os quinze magos do Conselho tiveram de suspender suas agitadas sessões dois dias mais tarde, devido a um total impasse: a proposta de "cessar-fogo, retirada de tropas e envio de observadores", a União Soviética, pela voz sonora de seu embaixador Jacob Malik, respondia com um veto. Era a 107ª vez que Moscou usava dessa prerrogativa como membro permanente do "tribunal supremo". Sua utilização nesse momento tão crítico, entretanto, veio apenas reavivar as grandes derrotas anteriores da ONU na sua batalha oficial pela paz.

Ainda no mesmo dia, na sala do Conselho de Segurança e de seus painéis alusivos à paz, o debate sobre o conflito foi transferido para o plenário movimentado da Assembléia Geral, em cumprimento de uma quase esquecida norma introduzida 21 anos atrás pelo falecido Dean Acheson. Segundo essa resolução - batizada de "União para a Paz" e aplicada com pouco sucesso nas crises de Suez e da Hungria (1956), do Líbano (1958), Congo (1960) e Oriente Médio (1967) -, uma sessão de emergência da Assembléia é convocada através do voto de nove membros do Conselho quando um veto bloquear uma questão que afete a paz.

Desalento - O delegado argentino, Carlos Ortiz de Rosas - desde o início dos debates o grande defensor da Carta das Nações Unidas -, mostrou-se radiante: "Lá (no plenário), graças a Deus, não há veto". Mas também não há resoluções de obrigatoriedade, apenas recomendações. E, como ficou demonstrado 48 horas após a aprovação, por 104 votos contra 11, da proposta argentina de cessar-fogo e retirada das tropas, esse fato se revela, muitas vezes, ainda mais desalentador: a Índia, como qualquer Estado soberano, pode ignorar as recomendações da Assembléia, sem a menor violação da Carta das Nações Unidas.

O general Yahya Khan, por seu lado, pensando em abreviar suas derrotas no campo de batalha, comprometeu-se por escrito a acatar a proposta argentina. Ainda na sexta-feira, para reforçar essa posição, chegava a Nova York um debatedor de categoria: Zulfikar Ali Bhutto, veterano líder político de simpatias chinesas, recém-nomeado vice-primeiro-ministro - além de chanceler do Paquistão. Deveria enfrentar, na reunião do fim da semana do Conselho de Segurança, a ofensiva verbal de Jacob Malik. Desta vez, contudo, é possível que a União Soviética não faça uso de seu direito de veto, a uma resolução pacificadora: atingido o objetivo número um das linhas de frente indianas - vitória no Paquistão Oriental -, a "ameaça" de um cessar-fogo que imobilize o Exército de Indira Gandhi dentro de suas próprias fronteiras deixaria de ser temida em Moscou e Nova Délhi.

Sem limites - Na realidade, os soviéticos parecem mais preocupados - ou, pelo menos, ocupados - com uma segunda dimensão da guerra indo-paquistanesa: seu próprio conflito com os chineses. Depois de uma tentativa de normalização esboçada em fins de 1969 com as negociações de Pequim, a brusca degradação de agora pode alterar sensivelmente as perspectivas de relações entre os dois países. Os resultados de dois anos de normalização persistem: restabelecimento de embaixadores, cessação de incidentes fronteiriços e de manifestações de hostilidade, leve incremento do comércio bilateral. Mas a polêmica ideológica havia continuado e agora, com o apoio de Moscou à Índia e de Pequim ao Paquistão, tende a crescer sem limites visíveis.

A tribuna recentemente conquistada por Mao Tsé-tung na ONU fez com que as acusações recíprocas, entre a China e a URSS, transbordassem dos editoriais do "Diário do Povo" e "Pravda", vazassem os microfones das rádios de Moscou e Pequim e desaguassem nas margens do East River.

Mister Malik - Na semana passada, foi a vez de o embaixador chinês Huang Hua digladiar-se publicamente com o infalível representante soviético Jacob Malik. Quando o enérgico e robusto delegado de Moscou tratou seu adversário de "bobo da corte a serviço dos imperialistas", Huang Hua respondeu com o maior dos insultos: dirigiu-se a Malik como "mister", ao invés de "camarada".

Na realidade, as acusações de Pequim contra Moscou, no atual debate sobre a guerra entre indianos e paquistaneses, são bem mais profundas do que deixam entrever essas tiradas destinadas ao grande público. O governo de Mao Tsé-tung parece temer seriamente que o subcontinente indo-paquistanês e o oceano Índico fiquem paulatinamente sob controle soviético. O tratado de aliança da URSS com a Índia, válido até 1991, e o desmembramento do Paquistão, obtido através de terceiros, seriam os dois grandes lances dessa jogada de expansão da influência soviética na região.

Terra prometida - Diante do duelo público dos dois colossos comunistas, o embaixador americano na ONU, George Bush, sorria discretamente, no fim da semana passada. Talvez quisesse dissipar o mal-estar provocado nos meios oficiais de Washington e em outras capitais ocidentais por sua entrevista concedida à CBS, acusando, claramente, a Índia de agressor.

Não resta dúvida de que, para o presidente Richard Nixon, às vésperas de uma viagem à China e outra à União Soviética, o mais conveniente seria manter-se "absolutamente neutro" no conflito, conforme seu próprio desejo. Na prática, contudo, a política da administração atual tem mantido as tradicionais preferencias de Washington pelo governo de lslamabad.

"0 Paquistão representa para nós americanos uma nova terra prometida", já afirmava o cônsul-geral dos Estados Unidos em Lahore, dezesseis anos atrás. Na realidade, êsse súbito interesse foi uma espécie de contra-ofensiva americana à política de neutralidade e liderança no Terceiro Mundo, inaugurada por Nehru na Índia. Numa decisão que o ex-embaixador dos EUA na Índia, John Kenneth Galbraith, qualifica de "categoricamente má", Washington passou a se responsabilizar diretamente pela militarização do Paquistão, em troca de uma sólida aliança anticomunista e outros favores - como a instalação de uma base para os aviões de espionagem U-2, utilizada em 1960 por Francis Gary Powers.

A aproximação, a partir de 1962, do regime de Islamabad com Pequim - construída essencialmente sobre uma política comum de defesa contra a Índia e URSS - não alterou a política de Washington com relação a seu aliado militar. Dessa forma, o presidente Nixon e Mao Tsé-tung vêem-se hoje na inconfortável situacão de aliados de um mesmo país contra um mesmo inimigo: a União Soviética.

Oito vezes - Menos de três dias após o desencadeamento das hostilidades abertas no subcontinente, o secretário de Estado, William Rogers, convocara o embaixador indiano ao Departamento de Estado para comunicar-lhe a suspensão de mais de 86 milhões de dólares de ajuda econômica americana. Não obstante a intenção de Washington em permanecer neutro na guerra que envolve mais de 650 milhões de asiáticos, a decisão americana constitui, sem dúvida, uma sanção à Índia: os créditos concedidos ao Paquistão para a importação de produtos dos EUA não haviam sido suspensos. "Queremos ter a garantia de que não concederemos a curto prazo à economia indiana facilidades para a sustentação de seu esforço militar", disse o porta-voz do Departamento de Estado, Charles Bray.

Os severos protestos de alguns senadores democratas não provocaram grandes ecos. O chefe de Estado americano, comenta-se em Washington, parece decidido a não deixar nas mãos da China Popular a exclusividade de um apoio público ao Paquistão. Contudo, na terçafeira passada, a Casa Branca convocou inesperadamente a imprensa para uma reunião inusitada: um porta-voz não identificado, que proibiu qualquer citação direta de suas palavras, revelou que Islamabad estava na iminência de conceder a autonomia política ao Paquistão Oriental exatamente quando irrompeu a guerra com a Índia. O estado avançado das negociações nesse sentido - inclusive a determinação do general Yahya Khan de negociar com representantes do Bangla Desh - tirava toda a justificativa da Índia para recorrer à ação armada.

Além disso, segundo o informante, Washington teria assumido o papel de intermediário ativo no assunto desde a visita em julho último, ao Paquistão e Índia, do assessor presidencial para Assuntos de Seguranca, Henry Kissinger. Oito vezes os EUA teriam estabelecido contatos diretos com os representantes do Bangia Desh em Calcutá. A Índia, finalmente, teria se impacientado no compasso de espera de uma solução já iminente, e violado a barreira da paz. Pelo menos é essa a conclusão que se poderia tirar das surpreendentes revelações da Casa Branca, acolhidas pela imprensa americana como a justificativa oficial do governo para sua posicão favorável ao Paquistão.

Espiões - Em Nova Délhi, no entanto, a primeira-ministra Indira Gandhi parecia mais ansiosa com a chegada, no fim de semana, de Vasily Kuznetsov, primeiro-vice-ministro das Relações Exteriores da URSS, do que com as críticas americanas. Poucas horas antes do anúncio dessa visita, o Kremlin, por intermédio da agência noticiosa Tass, desmentia uma informação procedente do Paquistão segundo a qual navios de guerra da Índia estavam operando com tripulação soviética. O desmentido, inusitado, despertou curiosidade - num momento em que se especula sobre a intensidade do envolvimento russo na índia.

O governo de lslamabad, de qualquer forma, parece suspeitar todos os países de ajudar ou orientar militarmente a Índia. Ainda na quarta-feira, espiões paquistaneses, operando no aeroporto londrino de Heathrow, afirmavam que os aviões da Air Índia recebiam carregamentos diários de toneladas de peças para bombardeiros, tanques e equipamentos de radar ingleses, além de recolherem na capital britânica foguetes soviéticos e tchecos.

Oportunismo - No Paquistão, mesmo nas cidades mais distantes das frentes de luta, o clima é de grande tensão política e militar. Na reformulação política tentada pelo presidente Yahy Khan, Zulfikar Bhutto joga uma cartada decisiva para as suas ambições; Até agora, ele tem cultivado a imagem de um homem que deseja um governo e uma solução civis para a crise interna. Chamado ao governo, apesar de suas notórias diferenças com o regime militar, pode-se apresentar como uma espécie de salvador, inspirado pelo patriotismo. Seu oportunismo político, contudo, será dificilmente esquecido. Foi ele quem chamou o ex-presidente Ayub Khan (que hoje leva uma vida de setuagenário apossentado, no seu país) de "De Gaulle da Ásia", para logo depois acusá-lo de "agente da CIA".

Excluindo-se a emergência de Bhutto com vistas a um governo paquistanês de após-guerra, as especulações ainda são raras. Há rumores sobre a formação de um ativo núcleo de jovens oficiais, liderados pelo general Gus Hassan, ainda desconhecido na política - mas talvez por pouco tempo.

Em Rawalpindi e Karachi, as ilusõe sobre a sorte da guerra dissipavam-se rapidamente no fim de semana e a oficialidade paquistanesa era o retrato da amargura. Na tarde de quinta-feira, jornalistas estrangeiros presenciaram uma inesperada crise nervosa de um porta voz do Exército, um coronel. Irritado com as insistentes perguntas sobre a baixas nas fileiras paquistanesas, perdeu o controle e respondeu: "Não há baixas. Não acredito que ninguém tombado numa jehad, a guerra santa dos muçulmanos, morra realmente. Quem dá sua vida numa jehad não morre nunca".

Para os 55 milhões de paquistaneses ocidentais, a provável perda de seu território oriental - e a conseqüente "desvalorização" política e econômica do país - parece insuportável. As alianças militares tão vangloriadas pelo general Yahya Khan começam a ser vistas com profunda desconfiança. Talvez pressentindo o ressentimento, o cônsul-geral da China em Karachi, Mao Chiu-jui, declarou na sexta-feira que o presidente Mao e o primeiro-ministro Chu En-Lai anunciariam em breve os passos que Pequim pretende dar para prestar ajuda a Islamabad. Mas a própria guerra, então, talvez já pareça inútil aos paquistaneses.

 


 
  VEJA | Veja São Paulo | Veja Rio | Expediente | Fale conosco | Anuncie | Newsletter |