| |
15
de julho de 1987
A família aumenta
A chegada do bebê número 5.000.000.000
estabelece um marco inédito na história
da humanidade e reaviva o debate sobre
a superpopulação
A tradicional família
dos habitantes do planeta Terra, que ostenta uma linhagem de pelo
menos 6 milhões de anos – por conveniência social ou
religiosa há quem prefira apagar da árvore genealógica
seus primos mais distantes, os símios –, não tem podido,
hoje em dia, atender a todos os compromissos sociais de sua agenda.
Só de festinhas de nascimentos de bebês, ao longo do
ano de 1987, serão 220 000 – por dia. Ou, para quem tiver
fôlego, quase três por segundo. Para dar ordem a essa
intensa atividade a Organização das Nações
Unidas, o clube mais freqüentado por pelo menos 165 clãs
da orgulhosa família, decidiu comemorar simbolicamente no
último sábado, dia 11 de julho de 1987, uma data especialíssima:
a chegada do bebê que já encontra o mundo povoado por
4 999 999 999 parentes seus. Em outras palavras, do bebê que
está fazendo a população do planeta Terra pular
para a marca dos 5 bilhões de habitantes. Pelos cálculos
do Fundo das Nações Unidas para Atividades Populacionais,
seria impossível prever a data precisa em que nasceria esse
rebento ilustre da espécie humana. Mas, como a maioria dos
demógrafos estimava que a marca seria alcançada em
meados de julho deste ano, a organização mundial escolheu
ao acaso o 11 de julho para comemorar mais esse triunfo da humanidade.
Em qualquer cultura, do
ponto de vista individual e da família, o nascimento de um
bebê é motivo de celebração, orgulho
e alegria. Não há motivos para que desta vez seja
diferente, sobretudo se se olhar para a empolgante trajetória
já percorrida pelo homem. Mas também é uma
ótima oportunidade para se refletir e meditar sobre o futuro
do bebê número 5 000 000 000 e do planeta no qual ele
viverá – se é que viverá muito tempo. A julgar
pela miríade de complexas estatísticas que hoje mapeia
a nossa vida planeta, nove entre dez bebês nascidos em 1987
virão ao mundo na época, nas condições
e sobretudo no lugar errado – em onde a famí1ia humana ainda
não consegue cuidar dos filhos que já tem e um em
cada dez deles morrerá antes de completarem o seu primeiro
aniversário. Esta é apenas uma das cruas cifras do
que aguarda uma criança nascida no Terceiro Mundo.
Do lado oposto da loteria
humana, caso o bebê nasça em uma famí1ia do
chamado Primeiro Mundo, seu futuro está escrito com outras
letras: provavelmente será filho único, terá
uma expectativa de vida de 78 anos e entrará no século
XXI com folga, mas pagará em trabalho o envelhecimento acelerado
da sociedade na qual viverá. Em 1985, por exemplo, havia
nos Estados Unidos uma força de trabalho de 145 milhões
de pessoas gerando recursos para o bem-estar de 29 milhões
de aposentados – sem contar as crianças e outros que não
trabalham. Ou seja, havia cinco habitantes produzindo para cada
cidadão acima de 65 anos de idade. No ano 2035, essa relação
de apoio despencará drasticamente para dois e meio a um.
Outras facetas preocupantes da vida no século XXI também
já começam a tomar corpo. Antes de o bebê nascido
hoje completar 15 anos de idade, a água – princípio
elementar de toda a vida – terá se tornado um bem rarefeito
em vários países, devido à duplicação
do consumo; ou, se o bebê de hoje viver trinta anos, terá
presenciado a desertificação de uma área produtiva
do tamanho das regiões Centro- Oeste e Sul do Brasil.
PALAVRA FINAL –
A verdade, num resumo simples, é que não está
nascendo gente nos países e sociedades que têm todas
as condições para absorver uma população
maior – ou, até, que têm necessidade de aumentar o
número de seus habitantes. Ao mesmo tempo, está nascendo
gente demais nos países e sociedades que não têm
recursos, sequer, para cuidar com um mínimo de decência
da população que já possuem. Em outras palavras,
pratica-se o controle da natalidade, ou o planejamento familiar,
onde não é necessário praticá-lo. Pouco
ou nada se faz a esse respeito, entretanto, onde seria indispensável
fazer. No primeiro caso, o perigo é o enfraquecimento das
sociedades mais avançadas e progressistas do mundo. No segundo
caso, o perigo é a perpetuação da miséria
nas sociedades mais atrasadas.
Quanto mais se mergulha
na projeção da epopéia humana, de fato, maior
é o número de desafios à vista: onde as economias
já sacrificadas das nações pobres encontrarão
recursos para educar, prover assistência social e trabalho
para a continuação acelerada da espécie humana?
Considerando-se que o bebê de hoje ainda estará na
puberdade quando a população mundial der o salto do
próximo bilhão – previsto para o ano de 1999 – e nem
sequer terá completado 25 anos quando formos 7 bilhões
de habitantes, trata-se de desafios realmente espetaculares. Eles
vão colocar em jogo, sem dúvida, a extraordinária
capacidade de o homem domar adversidades e derrubar fronteiras do
saber.
Olhada sob o prisma do
tempo, a humanidade constitui apenas uma janela pequena, uma brecha
ínfima de tempo na História. O celebrado antropólogo
Richard Leakey costuma comparar a aventura cósmica que resultou
no homem com um livro que contenha 1 000 páginas. Cada página
cobriria cerca de 4,5 milhões de anos. Assim, em cerca de
250 páginas, as iniciais, estaria contada a História
do mundo desde o "Big Bang" - a explosão primordial ocorrida
15 bilhões de anos atrás, que espalhou matéria
por todo o universo e definiu as leis da física que governam
o mundo – até o resfriamento do sistema solar e de como se
criaram condições propícias de vida na Terra.
A era dos dinossauros, de 225 milhões a 70 milhões
de anos atrás, viria descrita em trinta páginas. A
linhagem Homo, situada no inimaginável tempo de 4 milhões
de anos atrás, só apareceria no fim da penúltima
das 1 000 páginas desse livro. E todo o extraordinário
desabrochar da humanidade de 60 000 anos atrás, incluindo-se
aí o gosto pela estética fixado nas pinturas das cavernas,
a constituição da família e a habilidade para
construir ferramentas, caberia na última linha do livro.
Finalmente, a aventura humana desde o advento da agricultura, pelos
idos do ano 5 000 a.C., passando pela excitação intelectual
da Renascença até as viagens espaciais e a supercondutividade
– bem, tudo isso estaria condensado na palavra final do hipotético
livro.
EPOPÉIA –
Insignificante no tempo, a humanidade tira sua desforra mostrando
uma capacidade criativa inebriante. O simples fato de 5 bilhões
de pessoas conseguirem viver simultaneamente no planeta Terra, umas
ao lado das outras, já representa um notável triunfo
da engenhosidade do homem sobre todas as forças adversas
que encontrou ao longo de sua trajetória – a começar
pela hostilidade de seus próprios semelhantes. Afinal, o
ser humano é o único animal que ataca e mata sem ser
movido pela fome ou pelo medo. Para podermos ser 5 bilhões,
hoje, muitas montanhas foram removidas pelo homem. Só no
ramo da medicina, os saltos foram grandiosos, sempre no sentido
de salvar ou prolongar a vida – até a popularização
da pílula anticoncepcional nos anos 60 e a revolução
cultural que instituiu em seguida.
Entre a "Peste" dos anos
500 d.C. – que matou um em cada dois habitantes da Europa - e a
epidemia de Aids, que mobiliza todos os recursos da ciência
deste final de século, sucederam-se marcos de genialidade
humana. Da dissecação pioneira de cadáveres
empreendida por Leonardo da Vinci no século XV à inoculação
de um soro antivaríola, ainda em 1796, os mistérios
da vida começaram a ser desvendados. No século XIX,
as vitórias em favor da vida pareciam não ter fim:
primeira transfusão de sangue, produção de
leite em pó, comprovação da existência
de micróbios, produção do primeiro analgésico,
anestesia geral. Finalmente, com o século XX, o próprio
domínio sobre a morte pareceu mais próximo com a identificação
das vitaminas, a descoberta da penicilina, o uso da quimioterapia,
a era dos transplantes, a geração dos bebês
de proveta.
RITMO OFEGANTE – Todo
esse extraordinário caminhar da humanidade se fez, até
recentemente, com uma taxa de crescimento populacional próxima
de zero. De fato, até alcançar a marca de 1 bilhão
de habitantes, em 1830, o mundo percorreu pelo menos 7 000 anos
de história organizada – ou seja, a partir do momento em
que o homem se fixou em comunidades capazes de explorar o solo.
O bilhão seguinte já pôde ser comemorado menos
de 100 anos depois, em 1927, e o terceiro bilhão de seres
humanos materializou-se na Terra apenas trinta anos mais tarde.
A partir daí, o ritmo passou a ser francamente frenético,
com um novo bilhão adicional de habitantes – o equivalente
a uma China inteira – a cada doze anos, em média. Segundo
os demógrafos, uma desaceleração global e efetiva
dessa corrida reprodutora só começará a ocorrer
após o oitavo bilhão, por volta do ano 2022, e a população
mundial só se estabilizará dentro de um século
– com a família humana, então, duas vezes maior do
que a de hoje. Em outras palavras, estamos apenas no meio do caminho,
num mundo fadado a ter 10 bilhões de habitantes.
Olhando-se esses números
cabe a pergunta: eles significam progresso, como se sustentava orgulhosamente
algumas décadas atrás, quando as nações
mediam sua pujança pelo número de habitantes que tinham,
ou problemas, como em geral se sustenta hoje, quando a preocupação
maior das sociedades é com a quantidade de seus recursos?
Ambos. Foi graças ao triunfo da ciência e da tecnologia
que o homem conseguiu, neste século, domar a sua curva demográfica.
Seja para baixo, como desejaram os países industrializados,
ou para cima, como ocorreu no Terceiro Mundo. O bloco dos subdesenvolvidos
conseguiu fazer despencar a curva de mortalidade infantil em 60%
ao longo dos últimos trinta anos estender a expectativa de
vida de seus habitantes em vinte anos (de 40 para 60) no mesmo período.
Resultado: dentro de uma geração, a população
conjunta só da Asia e da África vai chegar a pelo
menos 6 bilhões de pessoas – um bocado de gente a mais do
que a que habita o planeta todo atualmente.
O bloco das nações
ricas e industrializadas, por sua vez, alcançou a sua maturidade
social-demográfica, com cada família ou cada mulher
decidindo livremente se quer ter filhos ou não, e quantos
quer ter. Resultado: a taxa de fertilidade da mulher ocidental se
situa, hoje, em 1,8 – inferior, portanto, aos 2,1 filhos por mulher
necessários para manter uma população estável
por um longo período de tempo. A soma das duas curvas, projetadas
no século XXI, resultaria num mundo consideravelmente diferente
do que conhecemos. Os países industrializados, que representavam
22% da população mundial nos anos 50, hoje não
passam de 15% e até o ano 2030 terão minguado sua
participação numérica na espécie humana
para apenas 9% da população do planeta.
TEMPO – A História
está repleta de exemplos de entidades políticas minúsculas
– como a Grécia antiga, a Florença renascentista ou
a Grã-Bretanha do século XVII – que irradiaram poder,
cultura, sabedoria ou força, moldando o mundo à sua
volta. "A influência de valores jamais dependeu dos números",
argumenta o sociólogo americano Andrew Cherlin, da Johns
Hopkins University. Atualmente, depende ainda menos: o mundo não
terá suas riquezas bem distribuídas quando a África,
que em 1950 tinha metade da população da Europa, for
três vezes mais populosa, no ano 2050, do que o Velho Continente.
De fato, no mundo de hoje,
grandes massas humanas deixaram de ser sinônimo inevitável
de riqueza nacional. Um dos mitos que o relatório de 1987
sobre populações, divulgado pela ONU, pretende derrubar
é justamente o de associar altas densidades demográficas
com um acervo maior de recursos ou de engenhosidade humana. Na primeira
metade do século passado, quando se festejou o primeiro bilhão
de pessoas na Terra e o mundo começava a rodar em torno da
Revolução Industrial, as fábricas européias
necessitavam de todos os braços que traziam dos campos, enquanto
as plantações no Novo Mundo continuavam a consumir
levas e mais levas de navios negreiros. Naqueles tempos em que a
humanidade chegou a 1 bilhão, menos de 10% da população
vivia nas cidades. Hoje, 2 bilhões de homens, mulheres e
crianças (40% da população mundial) se concentram
em áreas urbanas e estima-se que na virada do século
existam no mundo 46 megacidades com 5 ou mais milhões de
habitantes em seus perímetros.
A julgar pelo comportamento
da humanidade até agora, as profecias de hecatombe demográfica
expostas por Thomas Malthus no início do século XIX
valem tão pouco quanto as formuladas por Herman Khan nos
anos 70. Malthus previra que o crescimento da espécie humana
seria geométrico e que, da mesma forma como as plantas lutam
por um mínimo de terra e luz, os seres humanos acabariam
mendigando um mínimo de recursos para sobreviver. Só
que o animal humano é diferente de uma planta ou de um bicho,
Ele se mostrou mais esperto que as demais espécies e alterou
seu comportamento na medida de suas necessidades - inclusive seu
comportamento de reprodução. É certo que a
população mundial, fisicamente, continua crescendo
- e que, embora os percentuais de crescimento possam diminuir, os
números absolutos permanecem altos. Afinal, qualquer crescimento
de 1%, sobre uma base de 5 bilhões, significa 50 milhões
de pessoas a mais num único ano. Mas é certo, também,
que o fim da corrida demográfica, dentro de uma perspectiva
histórica, já se tomou um fato inevitável.
Na verdade, a grande dúvida deste final de século
não é se as mudanças necessárias chegarão
às regiões mais críticas do planeta, mas se
chegarão a tempo.
TRANSIÇÃO
– De um modo geral, o padrão seguido pela Europa no início
do século XX está começando a ser copiado no
Terceiro Mundo. Numa primeira fase, a mudança para um ambiente
urbano favoreceu a queda de mortalidade infantil na Europa (com
um conseqüente salto demográfico –, uma vez que várias
cidades do início do século, com seus sistemas de
esgotos e água potável, proporcionavam melhores condições
de saúde para as crianças. Só numa segunda
fase, por opção de famílias com dificuldades
de alimentar e educar proles grandes, é que começou
a cair a taxa de natalidade. Entre uma fase e a outra ocorreu então
o que os especialistas passaram a chamar de transição
demográfica" – a população deu um último
suspiro de crescimento.
No Terceiro Mundo, uma
curva semelhante começou a ser ensaiada a partir da década
em que se comemoraram os 3 bilhões de habitantes na Terra,
em 1960, só que o período de "transição
demográfica", considerando-se a enormidade das massas humanas
envolvidas no processo, resultou num espasmo de crescimento anual
de quase 3% – o suficiente para duplicar a sua população
em apenas 25 anos. Ademais, os avanços se fizeram de forma
irregular, criando um novo divisor geopolítico, além
do tradicional "desenvolvido/subdesenvolvido". Hoje em dia, há
regiões de baixo crescimento demográfico e regiões
de alto crescimento. Um fosso alarmante separa esses dois mundos,
e o Brasil retrata com eloqüência essa terceira era da
evolução da humanidade.
Teoricamente, não
há limites naturais para o planeta sustentar bem mais do
que 5 bilhões de inquilinos – mas teorias não enchem
a barriga de ninguém, da mesma forma que não resolve
problema algum, hoje, saber que a população mundial
vai parar de crescer no ano 2087. Na prática, a grande famí1ia
humana assiste a mais fome do que em qualquer outra época
de sua memorável e acidentada jornada. Basta lembrar que,
a cada ano, 40 milhões de seres humanos simplesmente morrem
de fome – comparada aos 55 milhões de mortos da II Guerra
Mundial, considerada a maior hecatombe dos tempos modernos, a cifra
se toma ainda mais eloqüente. Outros 730 milhões não
ingerem um número suficiente de calorias para poder enfrentar
uma vida economicamente ativa. Trata-se, no mínimo, do retrato
perverso de uma sociedade que se pretende avançada. Para
um filipino ou um nordestino brasileiro subnutrido, de pouco adianta
saber que existe um excedente de produtos agrícolas no planeta
Terra. Segundo cálculos da FAO, organismo da ONU que lida
com problemas de fome abastecimento, o estoque de grãos no
mundo de hoje chega à astronômica quantia de 453 milhões
de toneladas, pelo menos oito vezes tudo o que o Brasil produziu
na sua última supersafra - o suficiente para alimentar toda
a legião de famintos da Terra por um período de dois
anos. Mas da mesma forma que o nó da questão do crescimento
demográfico não é quanto se cresce demais,
mas onde, também a solução do problema de alimentação
não é quanto plantar mais, mas onde.
AMEAÇAS –
Alguns cenários de calamidade recentemente pintados por estudiosos
da evolução da espécie têm chamado a
atenção. Segundo o professor alemão Hoimar
Ditfurth, autor de um livro sobre explosão demográfica,
nós já não estaríamos mais vivendo apenas
dos "juros" do planeta Terra, e sim começando a gastar o
"capital". Ele parte da constatação de que a humanidade
é alimentada através de apenas quatro sistemas biológicos
naturais: os oceanos e as águas interiores (peixes), as matas
(madeira), os pastos (gado) e as terras agrícolas se que
os quatro estão sendo submetidos a uma gradual destruição.
"Estamos começando a matar os nossos netos", adverte Ditfurth.
Sem dúvida, a voz
mais sombria a se levantar recentemente foi a do demógrafo
americano Ben Wattenberg, do American Enterprise Institute, autor
de um livro altamente polêmico sobre a ameaça que o
desequilíbrio demográfico moderno representa para
as sociedades democráticas e desenvolvidas. A serem corretas
as projeções de Wattenberg para o século XXI,
o mundo moderno não se reproduzirá com a rapidez necessária
para uma tranqüila troca de gerações. O mesmo
avanço científico e tecnológico que ajudou
o homem e sua extraordinária caminhada através da
História até aqui, estaria, agora, mostrando a sua
faceta estéril. Em outras palavras, onde há modernidade
– na forma de avançadas técnicas contraceptivas, maior
poder aquisitivo, melhor educação, ampliação
do espaço urbano, substituição do trabalho
braçal pelo computador, entre outros – cai a produção
de bebês, fazendo assim estacionar o mundo desenvolvido. Como,
em contrapartida, a explosão demográfica nos países
do Terceiro Mundo não conseguirá ser revertida a médio
prazo, todo um conjunto de conquistas econômicas, culturais
e ideológicas do Ocidente estaria ameaçado. Escondida
nesse cenário viceja, fatalmente, uma constatação
racial que num piscar de olhos pode se tornar racista: a de que
a própria cor da tradicional família cristã-ocidental-desenvolvida
receberá pigmentação alienígena, cujas
conseqüências ninguém ainda mediu.
Qualquer que seja o cálculo,
porém, é de se prever que uma migração
mais acentuada rumo ao norte se ponha em marcha até o final
do século. "Todas as condições estão
reunidas para que, através das pressões econômicas,
as migrações asiáticas e africanas aumentem
substancialmente na Europa", diz o economista e demógrafo
francês Jacques Lesoume. Para Lesoume, a assimilação
pacífica dos imigrantes só será possível
se ela se produzir lentamente. "Caso contrário, a confrontação
que predispõe ao ódio racial não pode ser descartada",
conclui.
Como tanto os profetas
do apocalipse quanto os mensageiros de uma evolução
mais serena da humanidade se guerreiam à base de projeções
e estatísticas de longuíssimo prazo, cabe jogar um
pouco de ceticismo sobre toda essa numerologia. O americano Martin
O'Connell, chefe do setor de estudos de fertilidade do Departamento
de Censo dos EUA, considera as projeções de taxas
de fertilidade até o ano 2040 "tão seguras quanto
as previsões sobre os índices da Bolsa no século
XXI". De fato, mesmo previsões bem mais modestas se revelaram
falaciosas no passado. Em 1968, por exemplo, em seu livro À
Bomba Populacional, o demógrafo Paul Ehrlich previu a
morte de "centenas de milhões" de famintos para os anos
70, devido à superpopulação do mundo. Muitos
morreram e muitos continuam morrendo, mas a escala, felizmente,
é outra. Embora o ritmo de crescimento demográfico
no Terceiro Mundo ainda seja calamitoso, varias nações
asiáticas e latino-americanas, entre elas o Brasil, estão
começando a domar seu índice de crescimento.
APUROS – Como alguém
que engorda ao longo de uma década e só nota que está
obeso quando suas roupas já não comportam sua silhueta,
muitos países que agora começam a atacar de frente
o crescimento populacional desenfreado estão perdendo a corrida
em que se engajaram. "A dinâmica do crescimento populacional
é muito complexa", diz Abraham Mole, da FAO, entidade das
Nações Unidas para a agricultura. "Ela não
pode ser vista apenas como uma tirania de números." Mole
tem razão. Apesar de ser 34 vezes menor que o Brasil, por
exemplo, a Alemanha Ocidental tem quase a metade da população
brasileira – deveria, portanto, estar explodindo em problemas. Não
está, obviamente, e as autoridades alemãs acreditam
que é preciso aumentar, e muito, o ritmo de crescimento populacional.
O problema alemão demonstra que a questão populacional
só faz sentido se projetada no futuro. A se manter a atual
taxa negativa de crescimento naquele país europeu (-0,2)
a Alemanha estará quase desabitada de alemães a longo
prazo. Pela mesma ótica, um país como o Brasil, que,
diante de sua generosa extensão territorial, parece ter ainda
muito espaço de sobra, está, na verdade, em apuros
se não der chance a sua população de controlar
o crescimento. E que o Brasil engorda, e suas "roupas" permanecem
estáveis – e até 2050, mantido o ritmo atual de inchaço,
o país terá 600 milhões de habitantes, quase
a população da Índia de hoje.
A experiência da
ONU com programas populacionais nas mais diferentes latitudes do
globo mostra que um leque enorme de fatores pode afetar o crescimento
populacional. É sabido, por exemplo, que a saúde da
mulher e sua valorização social são fatores
fundamentais. Não apenas pelo avanço que tal situação
representa por si só mas também pelo fato de que mulheres
saudáveis, educadas e com opções reais na sociedade
tendem a adiar o casamento em favor de uma carreira profissional
bem-sucedida. Além disso, mulheres nessa situação
tendem a ter um número menor de filhos quando se casam.
OPÇÃO
– O exemplo feminino aponta para outra lição fundamental.
A opção por uma família menor somente será
exercida se isso fizer sentido prático para as pessoas. Em
países onde os direitos humanos são desrespeitados
ou as condições culturais próprias são
atropeladas por programas impositivos, formulados em pânico
ou por cultores de idéias fixas a respeito do problema, o
resultado tem sido o fracasso. "O fundamental é reduzir o
divórcio entre os interesses de cada indivíduo e aqueles
que são do interesse geral do povo", diz o historiador francês
Olivier Faron, que trabalha para o Centro de Documentação
Francês. Faron lembra que isso só se consegue quando
há uma planificação maior de modernização
do país e nela está incluída uma política
populacional bem-feita. Como corolário dessa perspectiva
surge também o fato de que o planejamento familiar nada tem
a ver com o estéril debate entre esquerda e direita. Países
de distintas orientações políticas confrontados
com o problema do planejamento familiar foram obrigados a reagir,
fossem suas economias de organização coletiva ou baseadas
na livre iniciativa.
O caso da China é
exemplar. Naquele país, o governo se viu na contingência
de lançar mão de recursos impositivos para conter
a explosão demográfica. Cerca de 40 milhões
de casais foram esterilizados, 40 milhões de abortos efetuados
em cinco anos e 100 milhões de mulheres passaram a usar dispositivos
intra-uterinos de contracepção (DIUs). Ainda assim,
estatísticas recentes surgidas de um censo nacional alarmaram
os chineses. "Houve uma ressurgência forte do problema", disse
na semana passada o jornal China Daily, órgão
oficial do governo. "Mais de 40% das mulheres do campo tiveram três
ou mais filhos nos últimos anos."
Toda a saga da humanidade,
em seu esforço rumo a novas descobertas, foi motivada pela
necessidade de se ampliar o leque de opções oferecido
pela natureza ao homem. Quando conseguiu fazer suas primeiras ferramentas,
o homem ganhou o direito de optar pelo tipo de animal que desejava
caçar – não tendo mais de se limitar apenas àquele
que estivesse ao alcance de suas mãos. O fogo o libertou
do frio excessivo e permitiu-lhe optar por viver nas cavernas. A
agricultura deu-lhe a possibilidade de optar por uma vida sem migrações
permanentes em busca de alimento. Com as caravelas, a civilização
pôde optar por desenvolver-se nos trópicos – e assim
por diante. A opção que a ciência colocou ao
alcance da humanidade nessa altura do caminhar humano é inédita.
Pela primeira vez na História, a humanidade pode optar por
diminuir o número de seus semelhantes no planeta. Pela primeira
vez, também, se pode escolher algo que contraria o instinto
de preservação da espécie, que manda crescer
e multiplicar à vontade. Essa nova opção pode
simbolizar tudo o que a inteligência humana logrou até
os dias atuais - uma vitória incessante sobre a tirania da
natureza.
| |