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15 de julho de 1987

A família aumenta

A chegada do bebê número 5.000.000.000
estabelece um marco inédito na história
da humanidade e reaviva o debate sobre
a superpopulação

A tradicional família dos habitantes do planeta Terra, que ostenta uma linhagem de pelo menos 6 milhões de anos – por conveniência social ou religiosa há quem prefira apagar da árvore genealógica seus primos mais distantes, os símios –, não tem podido, hoje em dia, atender a todos os compromissos sociais de sua agenda. Só de festinhas de nascimentos de bebês, ao longo do ano de 1987, serão 220 000 – por dia. Ou, para quem tiver fôlego, quase três por segundo. Para dar ordem a essa intensa atividade a Organização das Nações Unidas, o clube mais freqüentado por pelo menos 165 clãs da orgulhosa família, decidiu comemorar simbolicamente no último sábado, dia 11 de julho de 1987, uma data especialíssima: a chegada do bebê que já encontra o mundo povoado por 4 999 999 999 parentes seus. Em outras palavras, do bebê que está fazendo a população do planeta Terra pular para a marca dos 5 bilhões de habitantes. Pelos cálculos do Fundo das Nações Unidas para Atividades Populacionais, seria impossível prever a data precisa em que nasceria esse rebento ilustre da espécie humana. Mas, como a maioria dos demógrafos estimava que a marca seria alcançada em meados de julho deste ano, a organização mundial escolheu ao acaso o 11 de julho para comemorar mais esse triunfo da humanidade.

Em qualquer cultura, do ponto de vista individual e da família, o nascimento de um bebê é motivo de celebração, orgulho e alegria. Não há motivos para que desta vez seja diferente, sobretudo se se olhar para a empolgante trajetória já percorrida pelo homem. Mas também é uma ótima oportunidade para se refletir e meditar sobre o futuro do bebê número 5 000 000 000 e do planeta no qual ele viverá – se é que viverá muito tempo. A julgar pela miríade de complexas estatísticas que hoje mapeia a nossa vida planeta, nove entre dez bebês nascidos em 1987 virão ao mundo na época, nas condições e sobretudo no lugar errado – em onde a famí1ia humana ainda não consegue cuidar dos filhos que já tem e um em cada dez deles morrerá antes de completarem o seu primeiro aniversário. Esta é apenas uma das cruas cifras do que aguarda uma criança nascida no Terceiro Mundo.

Do lado oposto da loteria humana, caso o bebê nasça em uma famí1ia do chamado Primeiro Mundo, seu futuro está escrito com outras letras: provavelmente será filho único, terá uma expectativa de vida de 78 anos e entrará no século XXI com folga, mas pagará em trabalho o envelhecimento acelerado da sociedade na qual viverá. Em 1985, por exemplo, havia nos Estados Unidos uma força de trabalho de 145 milhões de pessoas gerando recursos para o bem-estar de 29 milhões de aposentados – sem contar as crianças e outros que não trabalham. Ou seja, havia cinco habitantes produzindo para cada cidadão acima de 65 anos de idade. No ano 2035, essa relação de apoio despencará drasticamente para dois e meio a um. Outras facetas preocupantes da vida no século XXI também já começam a tomar corpo. Antes de o bebê nascido hoje completar 15 anos de idade, a água – princípio elementar de toda a vida – terá se tornado um bem rarefeito em vários países, devido à duplicação do consumo; ou, se o bebê de hoje viver trinta anos, terá presenciado a desertificação de uma área produtiva do tamanho das regiões Centro- Oeste e Sul do Brasil.

PALAVRA FINAL – A verdade, num resumo simples, é que não está nascendo gente nos países e sociedades que têm todas as condições para absorver uma população maior – ou, até, que têm necessidade de aumentar o número de seus habitantes. Ao mesmo tempo, está nascendo gente demais nos países e sociedades que não têm recursos, sequer, para cuidar com um mínimo de decência da população que já possuem. Em outras palavras, pratica-se o controle da natalidade, ou o planejamento familiar, onde não é necessário praticá-lo. Pouco ou nada se faz a esse respeito, entretanto, onde seria indispensável fazer. No primeiro caso, o perigo é o enfraquecimento das sociedades mais avançadas e progressistas do mundo. No segundo caso, o perigo é a perpetuação da miséria nas sociedades mais atrasadas.

Quanto mais se mergulha na projeção da epopéia humana, de fato, maior é o número de desafios à vista: onde as economias já sacrificadas das nações pobres encontrarão recursos para educar, prover assistência social e trabalho para a continuação acelerada da espécie humana? Considerando-se que o bebê de hoje ainda estará na puberdade quando a população mundial der o salto do próximo bilhão – previsto para o ano de 1999 – e nem sequer terá completado 25 anos quando formos 7 bilhões de habitantes, trata-se de desafios realmente espetaculares. Eles vão colocar em jogo, sem dúvida, a extraordinária capacidade de o homem domar adversidades e derrubar fronteiras do saber.

Olhada sob o prisma do tempo, a humanidade constitui apenas uma janela pequena, uma brecha ínfima de tempo na História. O celebrado antropólogo Richard Leakey costuma comparar a aventura cósmica que resultou no homem com um livro que contenha 1 000 páginas. Cada página cobriria cerca de 4,5 milhões de anos. Assim, em cerca de 250 páginas, as iniciais, estaria contada a História do mundo desde o "Big Bang" - a explosão primordial ocorrida 15 bilhões de anos atrás, que espalhou matéria por todo o universo e definiu as leis da física que governam o mundo – até o resfriamento do sistema solar e de como se criaram condições propícias de vida na Terra. A era dos dinossauros, de 225 milhões a 70 milhões de anos atrás, viria descrita em trinta páginas. A linhagem Homo, situada no inimaginável tempo de 4 milhões de anos atrás, só apareceria no fim da penúltima das 1 000 páginas desse livro. E todo o extraordinário desabrochar da humanidade de 60 000 anos atrás, incluindo-se aí o gosto pela estética fixado nas pinturas das cavernas, a constituição da família e a habilidade para construir ferramentas, caberia na última linha do livro. Finalmente, a aventura humana desde o advento da agricultura, pelos idos do ano 5 000 a.C., passando pela excitação intelectual da Renascença até as viagens espaciais e a supercondutividade – bem, tudo isso estaria condensado na palavra final do hipotético livro.

EPOPÉIA – Insignificante no tempo, a humanidade tira sua desforra mostrando uma capacidade criativa inebriante. O simples fato de 5 bilhões de pessoas conseguirem viver simultaneamente no planeta Terra, umas ao lado das outras, já representa um notável triunfo da engenhosidade do homem sobre todas as forças adversas que encontrou ao longo de sua trajetória – a começar pela hostilidade de seus próprios semelhantes. Afinal, o ser humano é o único animal que ataca e mata sem ser movido pela fome ou pelo medo. Para podermos ser 5 bilhões, hoje, muitas montanhas foram removidas pelo homem. Só no ramo da medicina, os saltos foram grandiosos, sempre no sentido de salvar ou prolongar a vida – até a popularização da pílula anticoncepcional nos anos 60 e a revolução cultural que instituiu em seguida.

Entre a "Peste" dos anos 500 d.C. – que matou um em cada dois habitantes da Europa - e a epidemia de Aids, que mobiliza todos os recursos da ciência deste final de século, sucederam-se marcos de genialidade humana. Da dissecação pioneira de cadáveres empreendida por Leonardo da Vinci no século XV à inoculação de um soro antivaríola, ainda em 1796, os mistérios da vida começaram a ser desvendados. No século XIX, as vitórias em favor da vida pareciam não ter fim: primeira transfusão de sangue, produção de leite em pó, comprovação da existência de micróbios, produção do primeiro analgésico, anestesia geral. Finalmente, com o século XX, o próprio domínio sobre a morte pareceu mais próximo com a identificação das vitaminas, a descoberta da penicilina, o uso da quimioterapia, a era dos transplantes, a geração dos bebês de proveta.

RITMO OFEGANTE – Todo esse extraordinário caminhar da humanidade se fez, até recentemente, com uma taxa de crescimento populacional próxima de zero. De fato, até alcançar a marca de 1 bilhão de habitantes, em 1830, o mundo percorreu pelo menos 7 000 anos de história organizada – ou seja, a partir do momento em que o homem se fixou em comunidades capazes de explorar o solo. O bilhão seguinte já pôde ser comemorado menos de 100 anos depois, em 1927, e o terceiro bilhão de seres humanos materializou-se na Terra apenas trinta anos mais tarde. A partir daí, o ritmo passou a ser francamente frenético, com um novo bilhão adicional de habitantes – o equivalente a uma China inteira – a cada doze anos, em média. Segundo os demógrafos, uma desaceleração global e efetiva dessa corrida reprodutora só começará a ocorrer após o oitavo bilhão, por volta do ano 2022, e a população mundial só se estabilizará dentro de um século – com a família humana, então, duas vezes maior do que a de hoje. Em outras palavras, estamos apenas no meio do caminho, num mundo fadado a ter 10 bilhões de habitantes.

Olhando-se esses números cabe a pergunta: eles significam progresso, como se sustentava orgulhosamente algumas décadas atrás, quando as nações mediam sua pujança pelo número de habitantes que tinham, ou problemas, como em geral se sustenta hoje, quando a preocupação maior das sociedades é com a quantidade de seus recursos? Ambos. Foi graças ao triunfo da ciência e da tecnologia que o homem conseguiu, neste século, domar a sua curva demográfica. Seja para baixo, como desejaram os países industrializados, ou para cima, como ocorreu no Terceiro Mundo. O bloco dos subdesenvolvidos conseguiu fazer despencar a curva de mortalidade infantil em 60% ao longo dos últimos trinta anos estender a expectativa de vida de seus habitantes em vinte anos (de 40 para 60) no mesmo período. Resultado: dentro de uma geração, a população conjunta só da Asia e da África vai chegar a pelo menos 6 bilhões de pessoas – um bocado de gente a mais do que a que habita o planeta todo atualmente.

O bloco das nações ricas e industrializadas, por sua vez, alcançou a sua maturidade social-demográfica, com cada família ou cada mulher decidindo livremente se quer ter filhos ou não, e quantos quer ter. Resultado: a taxa de fertilidade da mulher ocidental se situa, hoje, em 1,8 – inferior, portanto, aos 2,1 filhos por mulher necessários para manter uma população estável por um longo período de tempo. A soma das duas curvas, projetadas no século XXI, resultaria num mundo consideravelmente diferente do que conhecemos. Os países industrializados, que representavam 22% da população mundial nos anos 50, hoje não passam de 15% e até o ano 2030 terão minguado sua participação numérica na espécie humana para apenas 9% da população do planeta.

TEMPO – A História está repleta de exemplos de entidades políticas minúsculas – como a Grécia antiga, a Florença renascentista ou a Grã-Bretanha do século XVII – que irradiaram poder, cultura, sabedoria ou força, moldando o mundo à sua volta. "A influência de valores jamais dependeu dos números", argumenta o sociólogo americano Andrew Cherlin, da Johns Hopkins University. Atualmente, depende ainda menos: o mundo não terá suas riquezas bem distribuídas quando a África, que em 1950 tinha metade da população da Europa, for três vezes mais populosa, no ano 2050, do que o Velho Continente.

De fato, no mundo de hoje, grandes massas humanas deixaram de ser sinônimo inevitável de riqueza nacional. Um dos mitos que o relatório de 1987 sobre populações, divulgado pela ONU, pretende derrubar é justamente o de associar altas densidades demográficas com um acervo maior de recursos ou de engenhosidade humana. Na primeira metade do século passado, quando se festejou o primeiro bilhão de pessoas na Terra e o mundo começava a rodar em torno da Revolução Industrial, as fábricas européias necessitavam de todos os braços que traziam dos campos, enquanto as plantações no Novo Mundo continuavam a consumir levas e mais levas de navios negreiros. Naqueles tempos em que a humanidade chegou a 1 bilhão, menos de 10% da população vivia nas cidades. Hoje, 2 bilhões de homens, mulheres e crianças (40% da população mundial) se concentram em áreas urbanas e estima-se que na virada do século existam no mundo 46 megacidades com 5 ou mais milhões de habitantes em seus perímetros.

A julgar pelo comportamento da humanidade até agora, as profecias de hecatombe demográfica expostas por Thomas Malthus no início do século XIX valem tão pouco quanto as formuladas por Herman Khan nos anos 70. Malthus previra que o crescimento da espécie humana seria geométrico e que, da mesma forma como as plantas lutam por um mínimo de terra e luz, os seres humanos acabariam mendigando um mínimo de recursos para sobreviver. Só que o animal humano é diferente de uma planta ou de um bicho, Ele se mostrou mais esperto que as demais espécies e alterou seu comportamento na medida de suas necessidades - inclusive seu comportamento de reprodução. É certo que a população mundial, fisicamente, continua crescendo - e que, embora os percentuais de crescimento possam diminuir, os números absolutos permanecem altos. Afinal, qualquer crescimento de 1%, sobre uma base de 5 bilhões, significa 50 milhões de pessoas a mais num único ano. Mas é certo, também, que o fim da corrida demográfica, dentro de uma perspectiva histórica, já se tomou um fato inevitável. Na verdade, a grande dúvida deste final de século não é se as mudanças necessárias chegarão às regiões mais críticas do planeta, mas se chegarão a tempo.

TRANSIÇÃO – De um modo geral, o padrão seguido pela Europa no início do século XX está começando a ser copiado no Terceiro Mundo. Numa primeira fase, a mudança para um ambiente urbano favoreceu a queda de mortalidade infantil na Europa (com um conseqüente salto demográfico –, uma vez que várias cidades do início do século, com seus sistemas de esgotos e água potável, proporcionavam melhores condições de saúde para as crianças. Só numa segunda fase, por opção de famílias com dificuldades de alimentar e educar proles grandes, é que começou a cair a taxa de natalidade. Entre uma fase e a outra ocorreu então o que os especialistas passaram a chamar de transição demográfica" – a população deu um último suspiro de crescimento.

No Terceiro Mundo, uma curva semelhante começou a ser ensaiada a partir da década em que se comemoraram os 3 bilhões de habitantes na Terra, em 1960, só que o período de "transição demográfica", considerando-se a enormidade das massas humanas envolvidas no processo, resultou num espasmo de crescimento anual de quase 3% – o suficiente para duplicar a sua população em apenas 25 anos. Ademais, os avanços se fizeram de forma irregular, criando um novo divisor geopolítico, além do tradicional "desenvolvido/subdesenvolvido". Hoje em dia, há regiões de baixo crescimento demográfico e regiões de alto crescimento. Um fosso alarmante separa esses dois mundos, e o Brasil retrata com eloqüência essa terceira era da evolução da humanidade.

Teoricamente, não há limites naturais para o planeta sustentar bem mais do que 5 bilhões de inquilinos – mas teorias não enchem a barriga de ninguém, da mesma forma que não resolve problema algum, hoje, saber que a população mundial vai parar de crescer no ano 2087. Na prática, a grande famí1ia humana assiste a mais fome do que em qualquer outra época de sua memorável e acidentada jornada. Basta lembrar que, a cada ano, 40 milhões de seres humanos simplesmente morrem de fome – comparada aos 55 milhões de mortos da II Guerra Mundial, considerada a maior hecatombe dos tempos modernos, a cifra se toma ainda mais eloqüente. Outros 730 milhões não ingerem um número suficiente de calorias para poder enfrentar uma vida economicamente ativa. Trata-se, no mínimo, do retrato perverso de uma sociedade que se pretende avançada. Para um filipino ou um nordestino brasileiro subnutrido, de pouco adianta saber que existe um excedente de produtos agrícolas no planeta Terra. Segundo cálculos da FAO, organismo da ONU que lida com problemas de fome abastecimento, o estoque de grãos no mundo de hoje chega à astronômica quantia de 453 milhões de toneladas, pelo menos oito vezes tudo o que o Brasil produziu na sua última supersafra - o suficiente para alimentar toda a legião de famintos da Terra por um período de dois anos. Mas da mesma forma que o nó da questão do crescimento demográfico não é quanto se cresce demais, mas onde, também a solução do problema de alimentação não é quanto plantar mais, mas onde.

AMEAÇAS – Alguns cenários de calamidade recentemente pintados por estudiosos da evolução da espécie têm chamado a atenção. Segundo o professor alemão Hoimar Ditfurth, autor de um livro sobre explosão demográfica, nós já não estaríamos mais vivendo apenas dos "juros" do planeta Terra, e sim começando a gastar o "capital". Ele parte da constatação de que a humanidade é alimentada através de apenas quatro sistemas biológicos naturais: os oceanos e as águas interiores (peixes), as matas (madeira), os pastos (gado) e as terras agrícolas se que os quatro estão sendo submetidos a uma gradual destruição. "Estamos começando a matar os nossos netos", adverte Ditfurth.

Sem dúvida, a voz mais sombria a se levantar recentemente foi a do demógrafo americano Ben Wattenberg, do American Enterprise Institute, autor de um livro altamente polêmico sobre a ameaça que o desequilíbrio demográfico moderno representa para as sociedades democráticas e desenvolvidas. A serem corretas as projeções de Wattenberg para o século XXI, o mundo moderno não se reproduzirá com a rapidez necessária para uma tranqüila troca de gerações. O mesmo avanço científico e tecnológico que ajudou o homem e sua extraordinária caminhada através da História até aqui, estaria, agora, mostrando a sua faceta estéril. Em outras palavras, onde há modernidade – na forma de avançadas técnicas contraceptivas, maior poder aquisitivo, melhor educação, ampliação do espaço urbano, substituição do trabalho braçal pelo computador, entre outros – cai a produção de bebês, fazendo assim estacionar o mundo desenvolvido. Como, em contrapartida, a explosão demográfica nos países do Terceiro Mundo não conseguirá ser revertida a médio prazo, todo um conjunto de conquistas econômicas, culturais e ideológicas do Ocidente estaria ameaçado. Escondida nesse cenário viceja, fatalmente, uma constatação racial que num piscar de olhos pode se tornar racista: a de que a própria cor da tradicional família cristã-ocidental-desenvolvida receberá pigmentação alienígena, cujas conseqüências ninguém ainda mediu.

Qualquer que seja o cálculo, porém, é de se prever que uma migração mais acentuada rumo ao norte se ponha em marcha até o final do século. "Todas as condições estão reunidas para que, através das pressões econômicas, as migrações asiáticas e africanas aumentem substancialmente na Europa", diz o economista e demógrafo francês Jacques Lesoume. Para Lesoume, a assimilação pacífica dos imigrantes só será possível se ela se produzir lentamente. "Caso contrário, a confrontação que predispõe ao ódio racial não pode ser descartada", conclui.

Como tanto os profetas do apocalipse quanto os mensageiros de uma evolução mais serena da humanidade se guerreiam à base de projeções e estatísticas de longuíssimo prazo, cabe jogar um pouco de ceticismo sobre toda essa numerologia. O americano Martin O'Connell, chefe do setor de estudos de fertilidade do Departamento de Censo dos EUA, considera as projeções de taxas de fertilidade até o ano 2040 "tão seguras quanto as previsões sobre os índices da Bolsa no século XXI". De fato, mesmo previsões bem mais modestas se revelaram falaciosas no passado. Em 1968, por exemplo, em seu livro À Bomba Populacional, o demógrafo Paul Ehrlich previu a morte de "centenas de milhões" de famintos para os anos 70, devido à superpopulação do mundo. Muitos morreram e muitos continuam morrendo, mas a escala, felizmente, é outra. Embora o ritmo de crescimento demográfico no Terceiro Mundo ainda seja calamitoso, varias nações asiáticas e latino-americanas, entre elas o Brasil, estão começando a domar seu índice de crescimento.

APUROS – Como alguém que engorda ao longo de uma década e só nota que está obeso quando suas roupas já não comportam sua silhueta, muitos países que agora começam a atacar de frente o crescimento populacional desenfreado estão perdendo a corrida em que se engajaram. "A dinâmica do crescimento populacional é muito complexa", diz Abraham Mole, da FAO, entidade das Nações Unidas para a agricultura. "Ela não pode ser vista apenas como uma tirania de números." Mole tem razão. Apesar de ser 34 vezes menor que o Brasil, por exemplo, a Alemanha Ocidental tem quase a metade da população brasileira – deveria, portanto, estar explodindo em problemas. Não está, obviamente, e as autoridades alemãs acreditam que é preciso aumentar, e muito, o ritmo de crescimento populacional. O problema alemão demonstra que a questão populacional só faz sentido se projetada no futuro. A se manter a atual taxa negativa de crescimento naquele país europeu (-0,2) a Alemanha estará quase desabitada de alemães a longo prazo. Pela mesma ótica, um país como o Brasil, que, diante de sua generosa extensão territorial, parece ter ainda muito espaço de sobra, está, na verdade, em apuros se não der chance a sua população de controlar o crescimento. E que o Brasil engorda, e suas "roupas" permanecem estáveis – e até 2050, mantido o ritmo atual de inchaço, o país terá 600 milhões de habitantes, quase a população da Índia de hoje.

A experiência da ONU com programas populacionais nas mais diferentes latitudes do globo mostra que um leque enorme de fatores pode afetar o crescimento populacional. É sabido, por exemplo, que a saúde da mulher e sua valorização social são fatores fundamentais. Não apenas pelo avanço que tal situação representa por si só mas também pelo fato de que mulheres saudáveis, educadas e com opções reais na sociedade tendem a adiar o casamento em favor de uma carreira profissional bem-sucedida. Além disso, mulheres nessa situação tendem a ter um número menor de filhos quando se casam.

OPÇÃO – O exemplo feminino aponta para outra lição fundamental. A opção por uma família menor somente será exercida se isso fizer sentido prático para as pessoas. Em países onde os direitos humanos são desrespeitados ou as condições culturais próprias são atropeladas por programas impositivos, formulados em pânico ou por cultores de idéias fixas a respeito do problema, o resultado tem sido o fracasso. "O fundamental é reduzir o divórcio entre os interesses de cada indivíduo e aqueles que são do interesse geral do povo", diz o historiador francês Olivier Faron, que trabalha para o Centro de Documentação Francês. Faron lembra que isso só se consegue quando há uma planificação maior de modernização do país e nela está incluída uma política populacional bem-feita. Como corolário dessa perspectiva surge também o fato de que o planejamento familiar nada tem a ver com o estéril debate entre esquerda e direita. Países de distintas orientações políticas confrontados com o problema do planejamento familiar foram obrigados a reagir, fossem suas economias de organização coletiva ou baseadas na livre iniciativa.

O caso da China é exemplar. Naquele país, o governo se viu na contingência de lançar mão de recursos impositivos para conter a explosão demográfica. Cerca de 40 milhões de casais foram esterilizados, 40 milhões de abortos efetuados em cinco anos e 100 milhões de mulheres passaram a usar dispositivos intra-uterinos de contracepção (DIUs). Ainda assim, estatísticas recentes surgidas de um censo nacional alarmaram os chineses. "Houve uma ressurgência forte do problema", disse na semana passada o jornal China Daily, órgão oficial do governo. "Mais de 40% das mulheres do campo tiveram três ou mais filhos nos últimos anos."

Toda a saga da humanidade, em seu esforço rumo a novas descobertas, foi motivada pela necessidade de se ampliar o leque de opções oferecido pela natureza ao homem. Quando conseguiu fazer suas primeiras ferramentas, o homem ganhou o direito de optar pelo tipo de animal que desejava caçar – não tendo mais de se limitar apenas àquele que estivesse ao alcance de suas mãos. O fogo o libertou do frio excessivo e permitiu-lhe optar por viver nas cavernas. A agricultura deu-lhe a possibilidade de optar por uma vida sem migrações permanentes em busca de alimento. Com as caravelas, a civilização pôde optar por desenvolver-se nos trópicos – e assim por diante. A opção que a ciência colocou ao alcance da humanidade nessa altura do caminhar humano é inédita. Pela primeira vez na História, a humanidade pode optar por diminuir o número de seus semelhantes no planeta. Pela primeira vez, também, se pode escolher algo que contraria o instinto de preservação da espécie, que manda crescer e multiplicar à vontade. Essa nova opção pode simbolizar tudo o que a inteligência humana logrou até os dias atuais - uma vitória incessante sobre a tirania da natureza.

 
   
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