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15 de agosto de 1984
Brasil de ouro
e de prata

 

Esperava-se, é claro, um sábado de ouro em Los Angeles, com o vôlei e o futebol fechando gloriosamente a melhor Olimpíada que o Brasil já disputou e, numa final, o gosto da prata é sempre amargo. Não importa. A segunda e última semana dos Jogos Olímpicos de 1984 será para sempre lembrada como um dos mais belos momentos da história do esporte amador brasileiro. Nunca tantos atletas subiram ao pódio em tão poucos dias, nunca o país se comoveu de forma tão aguda com a atuação de seus representantes nos estádios e nos ginásios, e nunca houve uma colheita tão grande de medalhas - ao todo, uma de ouro, cinco de prata e duas de bronze, de longe o melhor desempenho brasileiro numa Olimpíada desde a primeira de que o Brasil participou, em 1920. Sobretudo, nunca o Brasil pressentiu com tamanha nitidez que os tempos de indigência olímpica podem estar chegando ao fim. Na segunda-feira, milhões de brasileiros condicionaram as batidas do seu coração ao ritmo das passadas de Joaquim Cruz rumo à medalha de ouro nos 800 metros. No sábado, depois de ter saboreado três medalhas de prata, na natação, no iatismo e no judô, e duas de bronze, também no judô, o país repartiu suas emoções entre o Rose Bowl, em Los Angeles, onde a seleção de futebol disputava a final contra a França, e o ginásio de Long Beach, transformado em palco do confronto entre o Brasil e os Estados Unidos, ambos em busca da medalha de ouro no vôlei.

Em Long Beach, ao fim de uma campanha que levou o vôlei brasileiro ao pódio olímpico pela primeira vez em sua história, o time armado pelo técnico Bebeto de Freitas disputou uma partida fraca e sucumbiu à equipe americana. "Só ganharíamos se jogássemos tudo, e fomos muito mal", admitiu Bebeto. "O que nos atrapalhou não foi a imensa torcida americana. O que nos atrapalhou foi o jogo dos americanos. Eles jogaram muito melhor", reconheceu. O time dos Estados Unidos realmente teve um desempenho quase impecável - e os brasileiros tiveram de adiar o sonho da medalha de ouro até Seul, em 1988. "Esta noite foi uma droga", reconheceu também Bernard. "Os brasileiros pressionaram muito pouco, ao contrário da partida de segunda-feira", disse o técnico americano Doug Beal. "E nós jogamos nosso melhor jogo." De fato, quatro dias depois de perder por 3 a 0 para o Brasil, o time de Beal voltou à quadra bem mais forte na defesa e ousado no ataque. Só poderia vencer.

No Rose Bowl, perante uma platéia recorde de mais de 100.000 pessoas, o futebol brasileiro igualmente chegou à sua primeira medalha olímpica, também de prata - nada mal para uma equipe que desembarcou desacreditada em Los Angeles. Poderia ter sido de ouro, se o adversário da partida final não fosse a seleção francesa, vitoriosa por 2 a 0. Com habilidade e agressividade que lembram os melhores tempos do futebol brasileiro, a França é hoje uma poderosa força emergente no cenário mundial. "A presença de Brasil e França na final fez justiça à escola do futebol ofensivo, que não conseguiu chegar à final da Copa da Espanha", diz o técnico Jair Picerni. "Dois anos depois, a Olimpíada mostrou que brasileiros e franceses estavam certos." E os franceses, que há dois meses ganharam o Campeonato Europeu com sua seleção principal, mais certos ainda. Para os jogadores brasileiros, de qualquer modo, a medalha de prata representou uma conquista pessoal que estaria longe de se circunscrever ao time que formaram. "A medalha de prata mostra que o futebol brasileiro está longe da decadência", diz o artilheiro do time, Gilmar. "Em Los Angeles, precisávamos no mínimo chegar à final. Conseguimos."

Na cerimônia de entrega das medalhas em Long Beach, Bernard e William tinham lágrimas nos olhos e os demais jogadores receberam seu prêmio cabisbaixos e carrancudos - uma medalha de prata olímpica é sempre um grande feito, mas eles queriam o primeiro lugar. Ainda assim, Bernard balançou no pódio uma bandeira brasileira, e a verdade é que o país, se tem todos os motivos para lamentar os tropeços finais do vôlei e do futebol, pode orgulhar-se do seu desempenho global na Olimpíada de Los Angeles. Foram, afinal, sete medalhas numa única semana. Somadas à medalha de prata conquistada pelo nadador Ricardo Prado, na semana anterior, na prova dos 400 metros medley, elas configuravam oito triunfos olímpicos - uma façanha extraordinária para uma nação que, nos 64 anos de sua história olímpica, havia alcançado um total de 22 medalhas. Naturalmente, o Brasil continua a uma quilométrica distância de potências esportivas como os Estados Unidos, que arrebataram até sábado 164 medalhas, 77 das quais de ouro, ou mesmo da Romênia, com um total de cinqüenta medalhas em Los Angeles. Em contrapartida, o país virtualmente equiparou-se a nações como a Iugoslávia, superou concorrentes como a Espanha ou o México e bateu por ampla margem a América do Sul, ficando com o 17º lugar num total de 141 países participantes. Mais que tudo, em Los Angeles o Brasil fez um claro salto de qualidade - na verdade, mudou de patamar na escala olímpica, deixando o anonimato de onde só saía por atuações excepcionais como as de Adhemar Ferreira da Silva na década de 50, ou do iatismo nos Jogos de Moscou, em 1980, para emergir como um país que pode efetivamente disputar medalhas.

Para os brasileiros, apesar da frustração das finais no sábado, foram certamente valorizadas as medalhas de prata no futebol e no vôlei, primeiras que os esportes coletivos do país conquistam numa Olimpíada. Mas o fato é que nenhuma outra medalha teve o peso do ouro conquistado por Joaquim Cruz, o único primeiro lugar da equipe olímpica nacional em Los Angeles. Na prova dos 800 metros, não faltava nmguém na pista. Ali estavam todos os gigantes da especialidade, a começar pelos ingleses Sebastian Coe e Steve Ovett. Terminada a prova, o corredor brasileiro deixara evidente que não era apenas o melhor em Los Angeles. Nos 800 metros, Joaquim Cruz é o melhor do mundo.

A festa brasileira no atletismo só não foi maior porque a segunda medalha de ouro que o Brasil imaginava abocanhar sábado na modalidade - a dos 1.500 metros rasos - perdera dramaticamente o brilho devido à desistência de Cruz, considerado por adversários e torcedores como o favorito da prova. Quando o painel eletrônico do Coliseum se iluminou com o nome dos participantes das duas séries de semifinais, na véspera, e as iniciais DNS (did not start) vieram acopladas ao número 93 do atleta brasileiro, significando que ele não correria a prova, ouviu-se um grande murmúrio no estádio. Vencedor fácil dos 800 metros, quatro dias antes, Joaquim Cruz se tomara uma das grandes atrações desta corrida, e ninguém suspeitava que logo ele pudesse não estar em forma olímpica.

"Foi uma decisão difícil, que tomei sozinho, contra a vontade do Luís (Luís Alberto de Oliveira, seu técnico). Discutimos como nunca", admitiu Cruz mais tarde. "Na noite da minha final dos 800 metros, me alimentei mal, quase não dormi - às seis e meia da manhã fui acordado pelo telefonema do 'tio' Figueiredo - e eu já estava enfraquecido por ter corrido quatro vezes em quatro dias. Quando vi, tinha pegado uma tremenda gripe." Na verdade, a gripe já rondava o quarto de Joaquim Cruz há vários dias no corpo do corredor brasileiro José João da Silva, removido tardiamente para uma saleta à parte. "Fui ao médico da Nike, fiz acupuntura, massagens, dormi uma noite no Holiday Inn de Santa Mônica, para ver se descansava melhor, mas foi impossível recuperar a forma", contou Cruz. Para ele, correr e chegar em último, extenuado, não interessava. Joaquim embarca nesta quarta-feira para a Europa, onde participará de uma série de quatro competições internacionais, e quer se resguardar para bater recordes este ano. "Não vejo a hora de sair daqui", dizia ele na manhã de sábado, indócil por ainda estar na vila olímpica de Los Angeles.

Aliviados, muitos dos seus adversários dos 1.500 metros alteraram às pressas suas próprias táticas de corrida e puderam competir entre si com mais tranqüilidade. À frente deles colocou-se o inglês Sebastian Coe, um superastro cujas pernas estão seguradas em 5 milhões de dólares no Lloyd's de Londres, e que a exemplo do que já acontecera em 1980, em Moscou, se redimiu nos 1.500 de seu insucesso nos 800 metros. Superado apenas por Joaquim Cruz na prova dos 800 metros, da qual saiu com medalha de prata, Coe dominou completamente os 1.500 metros, chegando quase 1 segundo à frente do segundo colocado, o também inglês Steve Cram, e estabelecendo um novo recorde olímpico com o tempo de 3min32s53. O recorde anterior, de Kip Keino, do Quênia, era de 1968. O terceiro inglês inscrito na prova, o recordista mundial Steve Ovett, tropeçou outra vez em sua penosa caminhada pelas pistas de Los Angeles. Com a saúde abalada por problemas respiratórios, em péssima forma, Ovett correu 200 metros e abandonou a competição quando ela mal começara.

Para o castigado atletismo brasileiro esta Olimpíada teve o sabor de revanche contra o descaso nacional. "Quando o João do Pulo se acidentou", lembra o corredor José Luís Barbosa, um dos vinte integrantes da equipe, "todo mundo pensou logo que o atletismo tinha acabado, e foi em cima do Ricardo Prado. Coitado." De fato, poucos perceberam que havia um talento nato escondido na delegação brasileira, ofuscado pelas fortes passadas de Joaquim Cruz. Ele fez verdadeiros milagres nos XXIII Jogos Olímpicos de Los Angeles. Este talento, João Batista Eugênio da Silva, um paraibano de 20 anos que sempre pensa nos pais e nos nove irmãos quando corre, ultrapassou com valentia as três etapas dos 200 metros rasos - nas eliminatórias, fez 20s70, na semifinal cravou 20s61, e na final Corréu em 20s30 - para surpreender a todos chegando em quarto lugar, 20 décimos de segundo à frente do campeão mundial, o italiano Pietro Mennea. João Eugênio não tremeu nem se intimidou em correr com o monstro sagrado Carl Lewis, que nesta prova levou sua terceira medalha de ouro. "Esse garoto é excepcional", elogiava, com conhecimento de causa, o meio-fundista Agberto Guimarães, que na Olimpíada de Moscou também conseguira um extraordinário quarto lugar nos 400 metros rasos. "Quero só ver quem vai investir nele desde já para a Olimpíada de 1988."

Houve ainda uma surpresa de última hora no atletismo brasileiro, já na tarde de sábado, pouco antes de todas as atenções nacionais se voltarem para a quadra de vôlei de Long Beach e o estádio de Rose Bowl, palco da final de futebol. No revezamento masculino 4 x 100, os corredores cariocas Arnaldo de Oliveira Silva, de 20 anos, e Nélson Rocha dos Santos, de 32, junto com os paulistas Katsuhiko Nakaya, 27 anos, e Paulo Roberto Correia, de 24, conseguiram chegar até as finais. O quarteto brasileiro fechou a prova em último lugar mas, a essa altura, já tinha garantido sua entrada para os registros desta Olimpíada como a oitava melhor equipe de revezamento do mundo. O 4 x 100 do Brasil, que já havia baixado o recorde sul-americano para 38s94 em abril último, não conseguiu repetir esse tempo em Los Angeles. Mas, numa Olimpíada, o que menos conta são os tempos. Mais importante é chegar à frente dos adversários - e a equipe brasileira deixou muitos para trás antes de chegar à final.

Significativamente, nestes XXIII Jogos Olímpicos, as provas de atletismo só registraram uma única quebra de recorde mundial, justamente na prova de revezamento que, no sábado, coroou a epopéia de Carl Lewis - ele ganhou, ali, sua quarta medalha de ouro nestas Olimpíadas, enfim repetindo, como havia prometido, o histórico feito do americano Jesse Owens nos Jogos de 1936. Não havia mais qualquer dúvida: Lewis, 24 anos, cabelo break, medalhas de ouro nos 100 e 200 metros rasos, no salto em distância e no revezamento 4 x 100, é o mais perfeito atleta em atividade no planeta. Esse genial americano voou pelas pistas com tal esplendor que, além de reduzir a figuras quase decorativas todos os concorrentes, imprimiu às competições de Los Angeles sua indelével marca pessoal. Se os Jogos de 1976, em Montreal, foram a Olimpíada de Nadia Comaneci, os Jogos de 1984 serão eternamente lembrados como a Olimpíada de Carl Lewis.

Quem apostou tudo nas promessas mais reluzentes do atletismo mundial, contudo, perdeu o fôlego na tarde de sexta-feira, quando nada mais parecia seguir o figurino na ensolarada pista de tartan do Coliseum. Travava-se ali o esperado duelo de gigantes em que a estrelíssima heroína americana, a "garota de ouro" Mary Decker, recordista americana dos 800, dos 1.500, da milha, dos 3.000, 5.000 e 10.000 metros, tentaria se impor à ameaçadora estreante sul-africana Zola Budd, de 17 anos, que pisava no Coliseum descalça e com mínima experiência em competições internacionais. Para chegar até ali, Zola havia se submetido a um processo-relâmpago de adoção da nacionalidade britânica (os atletas sul-africanos estão banidos de competições esportivas devido a um boicote mundial contra a política racista daquele país) e a uma carga quase insuportável de rejeição por parte de seu país de adoção. Mary, por seu lado, pisava na pista quase por milagre, após uma heróica carreira pontuada de percalços de saúde. Finalmente, as duas se encontravam pela primeira vez - só que ambas perderam. Na altura da quarta volta, quando a corrida se aproximava de sua crítica metade, Zola Budd, que começava a liderar a prova, deu um passo em falso e seu calcanhar esquerdo chocou-se com a perna direita de Mary Decker, que vinha logo atrás, prensada e sem espaço. Numa fração de segundo, tudo desabou: primeiro foi Mary, que se estatelou no chão levando consigo a etiqueta de número 151 da atleta Zola, arrancada das costas da adversária num último esforço desesperado para não cair. Em seguida, ruiu o equilíbrio psicológico da adolescente sul-africana, que não resistiu à desconcertante vaia de quase 100.000 espectadores inconformados com a queda da idolatrada Mary.

Certamente muitos anos passarão sem que se obtenha unanimidade em torno do que realmente aconteceu - se, como acusa abertamente Mary, Zola tem responsabilidade total pelo acidente, ou se, como decidiu a Federação Internacional de Atletismo Amador, Zola é inocente e não deve ser desclassificada, podendo ficar com seu discretíssimo sétimo lugar. A tragédia pessoal das duas corredoras eclipsou de tal forma tudo o que se seguiu na pista do Coliseum que poucos notaram a identidade da efetiva campeã olímpica da prova, a extraordinária corredora romena Maricica Puica, que cravou o melhor tempo dos 3.000 metros deste ano, 8min35s96. Tudo indica que, com ou sem acidente de percurso, Maricica tinha tudo para ser a vencedora. Mas quem garante? A beleza, emoção, singularidade e desespero de uma Olimpíada estão justamente no fato de que o atleta precisa estar apto a superar a si mesmo e a seus adversários numa data e numa hora que só existem uma vez a cada quatro anos. E até a próxima Olimpíada, em Seul, Mary Decker e Zola Budd talvez já sejam nomes do passado.


 
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