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15 de março de 1978
Direita ou
esquerda
Tome-se o restaurante Maxim’s, um lugar todo decorado de art-nouveau, ponto de pouso obrigatório do jet-set internacional - onde nunca se entra sem gravata, às sextas-feiras é obrigatório usar traje rigor, e onde a refeição mais modesta nunca ficará por menos de 600 francos por cabeça, ou cerca de 2.000 cruzeiros. Corte rápido. Agora, imagine-se o Maxim’s transformado em cantina “do povo”: um estabelecimento onde se tire ficha no caixa, apanhe-se uma bandeja, entre-se numa fila e espere-se uma funcionária verter, prato por prato, uma sopa tirada das profundezas de um grosso panelão. Imagine-se o cabaré Lido encenando óperas revolucionárias. Pessoas como Pierre Cardin e Yves Saint-Laurent sendo enviadas para campos de reeducação. Nada de discotecas, e nem de griffes, como Hermès, Lauvin, Cartier. Lojas populares no Fauborg Saint-Honoré. O realismo socialista triunfante nas letras e nas artes.
Mais de um espírito delicado pode ter se torturado, na semana passada, com visões mais ou menos caricatas de um República Popular da França. Para muitos, aquele instante “espectro do comunismo”, que ronda a Europa desde 1848 - ano de sua primeira aparição, no famoso manifesto de Karl Marx e Friedrich Engels - ameaçava finalmente, depois de um século e trinta anos de evoluções, pairar sobre o pais que inventou a palavra bourgeois, o perfume Detchma e o vinho Château Rotschild. A sorte estava lançada nas eleições que, iniciadas neste último domingo, dia 12, terão seu segundo e decisivo turno no próximo domingo, dia 19. De um lado, alinhava se a "esquerda unida” - bloco liderado por socialistas e comunistas que, embora não tão unidos, mesmo assim ameaçavam com uma razia sobre as instituições econômicas e sociais do pais. De outro, debilitado, assustado, também corroído pelos desentendimentos internos, opunha se o bloco da atual maioria - constituído principalmente pelos gaullistas e pelos republicanos do presidente Valéry Giscard d'Estaing, defensores da boa ordem capitalista vigente.
É nada menos que isso que se decide nas eleições francesas - direita contra esquerda, capitalismo contra socialismo. Deixando de lado sutilezas e meios-tons que também inevitavelmente se insinuavam no processo, o eleitor francês, ao comparecer ao posto eleitoral de sua circunscrição, não está apenas escolhendo um dos 491 nomes que vão representá-lo na Assembléia Nacional, nem se limita, como acontece na totalidade dos demais países desenvolvidos, a optar por um entre dois ou três partidos de distância ideológica relativamente curta. O eleitor está convidado a empreender uma viagem. A dizer sim ou não a uma mudança de regime, a uma reorganização básica em seu sistema social. A França é o único país do mundo onde persiste, hoje, esse tipo de confronto nas urnas.
MESMOS NÚMEROS - Não que seja novidade a polarização da política francesa em direita-esquerda. Já foi assim nas últimas eleições parlamentares, em 1973 - e, no ano seguinte, mais ou menos o mesmo tipo de confronto se repetiu nas eleições presidenciais, em que Giscard d'Estaing venceu o até hoje líder da esquerda, o socialista François Mitterrand. Grande novidade. desta vez,. é que se afigurou muito concreta, muito palpável, a possibilidade de vitória da esquerda. A tendência do eleitorado nesse sentido permaneceu inalterada durante meses a fio, antes das eleições. Na semana passada, por força da legislação, não puderam mais ser divulgados os resultados das sondagens.
Ninguém duvidava. no entanto, de que permaneciam aqueles insistentes, quase inamovíveis números que vinham sendo martelados continuamente, e com os quais encerraram seus trabalhos, na semana anterior, os dois principais institutos de opinião pública do país. Segundo o Instituto Sofres, a esquerda teria 51% dos votos, contra 45% da atual maioria - sendo os restantes 6% distribuídos entre ”ecologistas”, “feministas”, inclassificáveis diversos e indecisos. A organização Louis-Harris/France, por sua vez, indicava uma vantagem de um ponto mais para a esquerda: 52% contra 45%.
Não é de estranhar, com as coisas nesse pé, que não só à França interesse o processo eleitoral de 12 e 19 de março: de Washington a Moscou estão presentes suas verberações. Em Washington, mais de uma vez, o presidente Jimmy Carter afirmou que não desejava influir na decisão dos eleitores franceses, mas, numa dessas vezes, acabou por deixar escapar que esperava a vitória "dos partidos democratas” - ou seja, muitíssimo lhe agradaria que os comunistas continuassem afastados do governo. Moscou, por seu lado, desta vez não deu nenhum sinal. Não houve nenhum episódio constrangedor, como nas eleições presidenciais de 1974, quando o embaixador soviético em Paris, no calor da campanha, fez uma ostensiva visita ao então candidato Giscard d'Estaing - deixando claro que, para seu país, afinidades ideológicas à parte, só causaria dor de cabeça a vitória do esquerdista Mitterrand. Mas não seria a falta de sinal de Moscou, este ano, também um sinal? Muitos a interpretaram assim. Os soviéticos já estariam resignados à vitória da esquerda, e aguardando-se de criar qualquer possível incompatibilidade com os futuros governantes de Paris.
MOMENTO DA VIRADA - Isso seria, de todo modo, dar os resultados muito por certos. O fato é que, com todo o favoritismo da esquerda, perdura nas eleições francesas um grande imponderável: o comportamento, tanto dos eleitores como dos dirigentes partidários, no momento agudo, na hora da verdade em que se constitui o segundo turno das eleições. Pela lei francesa, só está eleito automaticamente, no primeiro turno, o candidato que obtiver, em sua respectiva circunscrição, mais de 50% dos votos. Não ocorrendo essa hipótese - o que é o caso na esmagadora maioria das 491 circunscrições do país – parte-se para o segundo turno. Neste, tem direito a participação todo candidato que, da primeira vez, tiver obtido um mínimo de 12.5% dos votos. E sai eleito quem for o mais votado,. por maioria simples.
É nesse momento da virada do primeiro para o segundo turno que se testam para valer a disciplina do eleitorado e a coerência entre os blocos. Como os dois grandes alinhamentos políticos franceses se subdividem em quatro - gaullistas e giscardistas de um lado, e socialistas e comunistas, do outro - é lógico que um sistema de alianças seja posto em prática no segundo round eleitoral, com um candidato desistindo em favor do outro ideologicamente afim, em nome do bom êxito de seu bloco. É assim que procederão os conservadores. Eles já firmaram um acordo segundo o qual, em cada circunscrição, o gaullista ou o homem de Giscard que obtiver menos votos no primeiro turno desistirá em apoio do outro no segundo. Já a esquerda - fará ela o mesmo? - Esta é uma das grandes, avassaladoras indagações que permeiam estas eleições francesas.
Até setembro do ano passado, o entendimento entre socialistas e comunistas se mostrava perfeito - e a ordem reinante em suas fileiras, bem como o desejo de mudança que se notava no eleitorado, parecia empurrar a esquerda para uma vitória inevitável. Foi aí que começaram a aparecer alguns problemas. Nesse mês de setembro, os comunistas chamaram os socialistas para uma revisão, que consideravam necessária, no Programa Comum de Esquerda - um documento firmado entre os dois partidos em 1972, ano em que se formalizou sua aliança, e no qual estão escritas as linhas gerais de governo que a frente pretende pôr em prática quando chegar ao poder. Seguiram-se incontáveis querelas entre as duas artes. A mais grave delas girou em torno do alcance que deveriam ter as nacionalizações de empresas previstas no programa - e foi neste ponto que as negociações empacaram.
SÓ COM 21% - Até hoje, continuam empacadas. Mitterrand e o líder comunista, Georges Marchais, nesses meses todos continuaram se digladiando, em variadas escaramuças - a última das quais, e mais grave, foi a recusa de Marchais de formalizar um acordo de desistência entre os dois partidos em favor do candidato mais votado. Marchais passou a fazer várias exigências em troca da aliança nas urnas com os socialistas. Continuou insistindo, por exemplo, na necessidade de revisão do Programa Comum. E a certa altura esqueceu as divergências com relação ao Programa para dizer que os comunistas apoiariam os socialistas no segundo turno, sim - mas só se obtivessem um mínimo de 21% dos votos no primeiro.
Como não houve concessão alguma da parte dos socialistas, chegou-se ao dia da eleição nesse impasse. Mas se recusarão mesmo os comunistas a apoiar os socialistas no segundo turno? Apesar das ameaças de Marchais, poucos franceses conseguem levá-las a sério. Mesmo porque a ruptura da aliança soa como algo absurdo - um suicídio eleitoral da parte dos comunistas. Caso os dois partidos se apresentem unidos ao segundo turno, calcula-se que obterão quase 260 cadeiras do total de 491 da Assembléia Nacional - isto é, a maioria absoluta. Caso seus candidatos continuem se apresentando isolados, no segundo turno, contra os gaullistas e republicanos unidos, então a vitória poderá se transformar em derrota acachapante: cerca de 190 cadeiras para a esquerda, contra 300 de seus adversários
É esse cálculo que faz duvidar de que não haja, da parte de Marchais, um recuo de última hora. Considerava-se em Paris bem provável que já nesta segunda-feira, embalado pelos bons resultados que se consideravam certos no primeiro turno, o líder comunista viria a público para anunciar a desistência de seus candidatos nas circunscrições onde os socialistas tiverem maiores chances. Então, só faltará um detalhe para colocar a esquerda definitivamente no poder: a fidelidade das bases, ao transferir seus votos comunistas para os socialistas, e vice versa. Em tese, essa transferência tem se manifestado efetiva nas últimas eleições - 70% a 80% do eleitorado de esquerda obedece à ordem da direção dos partidos e vota no candidato unificado.
VELHA SABEDORIA - Nunca se sabe, porém. Nesse momento crucial, um eleitor socialista moderado, por exemplo, pode se ver convidado a optar entre um partidário de Giscard de tendências centristas, ligeiramente reformista até, e um comunista. Que fará ele? O primeiro ministro Raymond Barre, um economista transformado em político incansável nesta campanha - cuja imagem de competência e sobriedade é reforçada pelo dístico “Barre-Confiança" espalhado nestes dias por todas as cidades da França -, acredita que uma virada miraculosa em favor das forças conservadoras ainda possa acontecer no segundo turno. “Quando o francês está sozinho na cabina eleitoral”, diz ele, ”aquela velha sabedoria de camponês reaparece.”
Pode ser. Mas pode ser também que a mesma “velha sabedoria de camponês" esteja hoje apontada para o lado inverso do que pretende o primeiro-ministro. Praticamente todos os observadores constatam atualmente uma sólida vontade de mudar da parte do eleitorado francês. Talvez, simplesmente, tenha chegado a hora. Mesmo que não assuma o poder, inevitavelmente, um governo radical de esquerda, talvez já tenha pelo menos soado a hora do regime que há vinte anos, desde a volta do general Charles de Gaulle à Presidência, continua praticamente inalterado na França. Pode-se até mesmo lançar argumentos cabalísticos em favor dessa tese. 1958 foi o ano da volta de De Gaulle e da instalação do regime apelidado de V República. 1968 foi o ano da grande convulsão de maio - que, se não mudou nada substancialmente, revelou a fermentação existente por baixo da superfície calma da França gaullista. Agora, outros dez anos passados, 1978 seria o ano de uma nova ruptura.
Pode-se aceitar essa tese. A vitória da esquerda seria mesmo inevitável. Mas, ainda aqui, não terminam as complicações do jogo que se faz na França - pelo contrário, agora é que se acumulam com mais força. Para começar, há uma questão constitucional para a qual não há resposta. Giscard d'Estaing ainda tem mais três anos de Presidência na França. Ao mesmo tempo, havendo maioria de esquerda na Assembléia Nacional, deverá ser nomeado um primeiro-ministro de esquerda - Mitterrand, provavelmente. Como conciliar as orientações e as políticas dos dois centros de poder? A Constituição é ambígua a esse respeito - a única resposta só virá na prática.
CENÁRIOS - Outra questão: que tipo de governo de esquerda se pode prever para a França? Um governo decididamente socializante, do tipo das democracias populares? Um governo de tranqüila coloração social-democrata, tipo Suécia. Inglaterra ou Alemanha? Um novo tipo de socialismo, totalmente desconhecido - onde o distributivismo e o equalitarismo social convivessem com as liberdades formais, como pretende Mitterrand? E quais seriam as chances de sobrevivência de cada um desses regimes? Pode-se arriscar alguns cenários:
1) A revista ultradireitista Minute publicou na semana passada uma extensa previsão do que poderá ser o primeiro dia de governo das esquerdas vitoriosas. Às 9 horas da manhã, segundo Minute, haveria uma reunião de gabinete sem a presença de Giscard d'Estaing - simplesmente enxotado das decisões pelos novos dirigentes. Às 9h45, seria proibida a saída do país de qualquer cidadão com mais de 500 francos no bolso e seriam sustadas as remessas de capital das empresas. Ao mesmo tempo, o Ministério das Relações Exteriores estaria proclamando a ruptura dos laços ainda existentes entre a França e a Organização do Tratado do Atlântico Norte. À tarde, viria a "reorganização do Exército”. Na avenida de Champs-Elysées, uma imensa passeata esquerdista seria acompanhada por atos de vandalismo. À noite, a Confederação Geral do Trabalho decretaria "a mobilização permanente das massas” em defesa das "conquistas revolucionárias” - e se seguiria o caos completo no país. Esta tese poderia ser chamada de “catastrofista”, ou, mais simplesmente, de "modelo Pinochet“.
No fim do caminho, não se vislumbraria nada, a não ser sangue e desgraça.
2) Uma segunda hipótese é que se instale um regime genuinamente socialista na França - e dê certo. O novo governo consegue impor-se com sobriedade e disciplina - e começa a deitar efeitos duradouros sobre a sociedade francesa. Nesse caso, o que sobraria de alarma viria a contagiar mais outras partes do mundo do que propriamente a França. Washington manifestaria inquietação, assim como Moscou - o Kremlin, preocupado, sobretudo, com os efeitos que um socialismo independente, e mais humano, poderia verter sobre o manso cordão de democracias populares situado às suas fronteiras. Na Itália, os comunistas, passariam a pressionar por maiores doses de poder. E a Alemanha. sobretudo, entraria em estado de pânico.
Prensado entre sistemas socialistas a leste e a oeste, o regime de Bonn poderia, como primeiro passo, desenvolver armamentos nucleares. Outra possibilidade, esta bem mais concreta, é de represálias econômicas da parte de investidores alemães contra a França socialista. Nas ultimas semanas, circulou com insistência o rumor de que empresas alemãs com participação acionária nas empresas francesas a serem nacionalizadas pela esquerda poderiam, em represália, se apossar das subsidiárias na Alemanha dos conglomerados franceses nacionalizados. Um porta voz do Westdeutsche Landesbank, um banco de Düsseldorf com interesse nas empresas francesas capituladas como nacionalizáveis no programa das esquerdas, consultado a respeito, respondeu na semana passada: Não podemos desmentir esses rumores”.
3) Enfim, pode-se imaginar que as esquerdas ganhem as eleições mas nenhum governo revolucionário surja em seguida. Logo depois de conhecidos os resultados, viria uma ruptura entre socialistas e comunistas. Ou, então, depois de alguns meses de tentativas, a comissão chegaria a um impasse - e os comunistas se retirariam do gabinete. Uma nova maioria poderia ser então tentada, ligando socialista e, quem sabe, Giscard d’Estaing ou outras formações centristas. Nesse caso, a França acomodaria suas diferenças ideológicas num tipo de regime social-democrata, onde o distributivismo tarifário corrigiria as desigualdades mais flagrantes.
Não são poucos os que se empenham nessa direção. Entre eles estaria o próprio Giscard d’Estaing, ansioso por uma nova composição de forças, que estabilizasse a sociedade francesa - e também Jimmy Carter. Quando Carter esteve em Paris, em janeiro, fez uma visita de cortesia a Mitterrand - e elogiou o papel do líder socialista na política francesa, que descreveu como “benéfico”. Mas Carter deixou de atender a um convite para visitar o prefeito de Paris, Jacques Chirac - hoje líder do Rassemblement pour Ia République, Reunião pela República (RPR), o partido gaullista. Simbolicamente, o presidente americano isolou a direita gaullista, de um lado, e evidentemente os comunistas, de outro, para dar suas bênçãos ao que poderia ser uma coligação de centro-esquerda na França.
'TEREMOS SANTIAGO' - Por este último cenário, a França estaria menos nos passos de Lênin, depois da vitória da esquerda, do que por exemplo do inglês Clement Atlee - o primeiro-ministro trabalhista do pós-guerra que promoveu uma série de nacionalizações em seu país e criou o weIfare state hoje vigente na Inglaterra. Mas seria isso viável, teria perspectivas essa hipótese tão tranqüila, tão de acordo com os interesses das potências ocidentais? Muitos acreditam que não. O pensador conservador Raymond Aron, por exemplo, acredita que o Partido Socialista francês seja “radicalmente diferente” dos partidos social-democratas da Europa do norte. Os socialistas franceses teriam um compromisso mais profundo com as transformações. Mesmo que os moderados do partido concordassem em algum tipo de composição com as forças centristas, por outro lado, isso não seria conseguido senão às custas de urna sangria considerável nas hostes socialistas, que sem dúvida seriam abandonadas por parte dos militantes mais à esquerda.
Não há muito que disfarçar, assim, a confrontação direita-esquerda presente às atuais eleições francesas. Pode-se nuançá-Ia, pode-se imaginar alternativas - mas, em essência, ela permanecerá como o substrato da decisão nas urnas. E o peso dessa decisão transpareceu, ao longo de toda a campanha, na palavra dos líderes políticos. “O socialismo ainda não triunfou em parte alguma”, disse a certa altura, por exemplo. Mitterrand. “Aqui ou ali ele aparece em forma de esboço, às vezes de caricatura. Mas, apesar de seus erros e fracassos, ele oferece a única via de liberação e realização aberta aos homens de nosso tempo”. Por sua vez, o atual ministro da Justiça de Giscard d'Estaing, Alain Peyrefítte, responde: “ Eles prometem o eldorado. Teremos Santiago”.
NAPOLEÃO, DE GAULLE - Ao longo da campanha, não houve preocupação alguma em racionar as declarações bombásticas ou os argumentos mais dramáticos. O primeiro-ministro Barre, que, por necessidade de preservar no olimpo presidencial a imagem de Giscard d’Estaing, saiu no comando das forças giscardianas, não hesitou em outorgar-se o papel de único porta-voz do que é “sensato” e “razoável". Já o líder Jacques Chirac, que não pode se equiparar a Barre no terreno da economia ou da vida prática em geral, apelou para os tons messiânicos. Chirac fez centenas de viagens, apertou milhares de mãos, disparou na frente com vários quilômetros de vantagem, no campeonato de saúde e disposição entre os candidatos. Uma de suas frases: “Vocês são os filhos e as filhas dos homens que através da história lutaram para nos dar o direito à liberdade. O chamado que eu lanço é apenas um eco do eterno chamado das nações que se recusam a morrer”.
Mesmo que pareça exagerado ou de mau gosto, por que não recorrer à história e aos tons melodramáticos? A França é a terra da Revolução - mas também de Napoleão Bonaparte. É a terra das convulsões externas, como a da Argélia, ou internas, como o maio de 1968 - mas é também a pátria de De Gaulle, o homem providencial que, num ou noutro caso, ressurgiu para restabelecer a ordem - a sua ordem. Chirac bem gostaria de encarnar ele próprio esse papel de salvador da “nação que se recusa a morrer”. Talvez não tenha estatura para isso. Já que se fala em história, então, que tal algum nome para desenterrar do passado - Pierre Mendès-France, por exemplo?
Na semana passada, por mais anacrônico que pareça, falou-se exaustivamente de Mendès-France. Um ex-primeiro-ministro da defunta IV República, o caótico regime que vigorou na França entre o fim da II Guerra e 1958, ele é o mais visível dos “pais da pátria” de plantão, homem com a vantagem de ser respeitado à direita e à esquerda - e foi retirado da aposentadoria em que vivia aos 71 anos para aparecer na televisão e dar entrevistas conciliatórias à imprensa. Especulou-se que Mendès-France poderia vir a ser “o primeiro-ministro do impasse'”, após as eleições, conciliando socialistas e centristas - o que, para os adversários da frente de esquerda, teria a inestimável vantagem de afastar os comunistas do Ministério.
POLÍTICA E MODA - Outro eco do passado presente de forma esmagadora na França nesses dias é a invocação do governo de Léon Blum - primeiro-ministro da experiência de governo de Frente Popular vivida pelo pais entre 1936 e 1938. Blum foi lembrado tanto para provar que as greves, a inflação e a insegurança rondam os governos de esquerda como para deixar claro que as grandes inovações só podem vir de governos populares - como foi o caso da instituição, revolucionária para a época, das férias pagas, durante seu governo. Mas não foram só Blum e Mendès-France que povoaram esses dias de campanha.
Houve de tudo, mediu-se de tudo - até a semiótica esteve presente. Um computador estava sempre a postos, quando os principais candidatos se apresentavam na televisão, para apurar a freqüência das palavras que pronunciavam. Soube-se assim que a palavra mais usada por Chirac, em sua apresentação no programa “Cartas na Mesa", foi “política”(46 vezes), seguida de “partido” (36).
Já Barre, no mesmo programa, uma semana depois, pronunciou primeiro as palavras “franceses”, “francesas” (55 vezes), e depois foi mais insistente com a palavra “franco”, ou “francos”, a moeda francesa (40 vezes).
O que isso prova, além do fato já amplamente sabido de que um é sobretudo um político e o outro um tecnocrata? Evidentemente, nada, mas não é isso que interessa. Interessa é o jogo pelo jogo. Nesse sentido, outra contribuição importante foi dada pela revista Le Point, ao revelar, em sua seção de moda, que havia quatro tipos básicos de roupas usadas pelos políticos, a demonstrar, cada um deles, o papel encarnado por quem as veste. Assim, Barre e Mitterrand prefeririam as roupas que compõem o tipo do “pai” - ternos nem sempre na moda, calças às vezes curtas ou longas demais, mas dando um aspecto geral de extrema confiabilidade. Já Giscard d'Estaing preferiria o gênero “descontraído", ou “moderno”, vagamente aparentado ao estilo inaugurado nos Estados Unidos por John Kennedy. Com roupas mais rústicas, Chirac e Marchais prefeririam apresentar-se como “franceses médios". Enfim, os blusões e as camisas esporte, que são marca registrada dos ecologistas e da extrema esquerda, comporiam o estilo "romântico”.
'ITALIANO DE MAU HUMOR' – Algumas conclusões da revista são de que o veludo côtelé é de esquerda, a alpaca de centro, o couro revolucionário e a flanela burguesa. E aqui se depara, embora em uma de suas manifestações secundárias, com um tema inescapável quando se fala no processo político francês: por que seria a França tão ideologizada? Como compreender que um país tão rico e desenvolvido coloque nas urnas opções tão dramáticas como a escolha pura e simples entre capitalismo e socialismo?
As explicações às vezes resvalam para o terreno do caráter nacional. "O francês é um italiano de mau humor”, dizia Jean Cocteau. Já Raymond Barre prefere comentar com ironia essa inclinação nacional. Segundo Barre, os franceses que preferem votar pela esquerda por causa de uma crise que ele acredita ser mundial e momentânea “lembram um homem que resolve se suicidar porque um dia acordou irritado”.
Nestes últimos vinte anos, a França mudou mais do que em todo o século XIX - o que torna ainda mais intrigante seu desejo de transformações radicais. Em 1958, quando se iniciou, com De Gaulle, o sistema que até hoje perdura, a Inglaterra, com uma produção anual de 53 bilhões de dólares em bens e serviço, ainda era, apesar de toda a sua decadência relativa, o país mais rico da Europa. A França vinha em segundo lugar, com 48 bilhões, e a Alemanha, logo atrás, ainda se recuperava da guerra. Hoje, a Alemanha, que é um fenômeno à parte, assumiu o primeiro posto, mas a França, com um produto bruto de 368 bilhões de dólares (128 bilhões em 1958), ultrapassou de longe a Inglaterra. Os franceses abriram suas fronteiras e aceitaram a concorrência. Nesses vinte anos, o valor de suas exportações foi multiplicado por sete e, enquanto seu Exército passava da era colonial para a era atômica, a tecnologia nuclear civil tornou-se em vários casos a principal concorrente da americana.
QUEIJOS E REVOLUÇÃO - O mais importante, talvez, é a revolução que atingiu a vida diária dos franceses. O francês de hoje come, trabalha e se veste de maneira inteiramente diversa do que há vinte anos - e melhor do que nunca. Naquela época, mais de 40% da população morava longe das cidades; hoje, essa proporção caiu para 24%. Construíram-se cerca de 7,6 milhões de habitações novas. Vinte anos atrás, apenas 20% das famílias possuíam ao mesmo tempo televisão, geladeira e máquina de lavar. Hoje, são 64%. O número de alunos no secundário foi multiplicado por trinta e o dos universitários por cinco. A sociedade se tornou mais moderna, mais flexível e mais justa. O divórcio foi facilitado, o aborto já não é um crime, a mortalidade infantil caiu pela metade.
Nessas condições, é possível que a secular insatisfação dos franceses, talvez o traço mais marcante do caráter nacional, esteja por trás da polarização extrema de sua política. Se os franceses, mais do que qualquer outro povo no mundo, cultivam o vinho, o queijo e outros prazeres dos sentidos, foram eles também que inventaram a revolução na era moderna. A França é o país não só de 1789, mas das reverberações de 1848 e 1870 As idéias de justiça, de fraternidade ou igualdade têm uma convivência mais do que centenária com a história francesa. Por outro lado, a incoercível tendência que os franceses sempre manifestaram, desde as guerras de religião, de se dividirem em dois campos opostos - contra ou a favor do ensino público, de Dreyfus, da resistência conta os alemães, da libertação da Argélia - contribuiu para radicalizar o debate.
Mas também se pode arriscar explicações mais concretas. Mais da metade dos franceses que comparecem às urnas nestas eleições tinham menos de 21 anos em 1958, eram crianças ou nem tinham nascido. Para esses, a comparação com o passado representa um mero exercício estatístico. Além disso, o eleitorado é sensível aos efeitos da crise que, desde o aumento dos preços do petróleo, invadiu o Ocidente. Se a França em alguns aspectos ficou mais protegida que outros países - a inflação não chega a 10% -, em outros foi atingida duramente: os desempregados hoje sobem a mais de 1 milhão. Ao mesmo tempo, há o sentimento de que a repartição da riqueza foi injusta. A França é um dos países desenvolvidos que apresentam maior desproporção entre os salários mais altos e mais baixos. Se a vida com um salário mínimo de 1.750 francos (6.300 cruzeiros) está longe de ser miserável, ainda assim é uma vida sem fantasias, uma vida dura. O francês em geral já não executa hoje trabalhos não especializados. Em compensação, o país tem uma massa de 2 milhões de imigrantes estrangeiros - um exército de deserdados que cria tensões e desequilíbrios de um tipo novo.
DOIS TEMAS - Contra esse pano de fundo, o que oferece a esquerda? A rigor, com Marchais e Mitterrand num impasse e as negociações sobre o Programa Comum interrompidas, não se pode responder com precisão a essa pergunta. É de se presumir, no entanto, que os pontos essenciais do Programa estejam em vigor - esses mesmos pontos que, desde 1972, fornecem os temas mais candentes para o debate político no país, e em torno dos quais girou toda a campanha atual. Dois temas básicos - a distribuição da renda e as nacionalizações - formam a espinha dorsal do Programa Comum de Esquerda, um texto que virou best-seller na França e já vendeu 1.8 milhão de exemplares desde a sua publicação, há seis anos:
DISTRIBUIÇÃO DA RENDA: Imediatamente após a tomada do poder pelas esquerdas, o salário mínimo seria elevado dos 1.750 francos atuais para 2.400 francos, ou seja, de 6.300 para 8.640 cruzeiros. Não seria esta a única medida distributiva. Paralelamente, haveria aumentos da ordem de 25% a 30% em vários benefícios da previdência social, como o auxílio às pessoas idosas, às famílias numerosas e aos desempregados.
As novas despesas seriam financiadas por um aumento dos impostos pagos pelas grandes empresas. Seria instituído, além disso. um imposto progressivo sobre as grandes fortunas. Supõem os economistas de esquerda que o país poderia agüentar as transformações sem maiores traumas. A carga tributária sobre as empresas seria compensada pelo aumento do consumo e conseqüente reativação da economia que se prevêem como conseqüência dos salários mais altos.
NACIONALIZAÇÕES: No setor financeiro, segundo o Programa Comum, passariam para o controle do Estado a totalidade dos bancos de negócios e os principais holdings financeiros, bancos de depósitos, estabelecimentos financeiros de vendas a crédito e companhias de seguros. No setor industrial, seriam nacionalizados os nove grandes grupos que dominam a extração dos recursos do subsolo, as armas, a indústria espacial e aeronáutica, o setor eletrônico e o químico: Dassault, Roussel-Uclaf, Rhône-Poulene, ITT-France, Thompson-Brandt, Honeywell BuIl, Pechiney-Ugine-Kuhlmann, Saint-Goban-Pont-à-Mousson e Compagnie Gjénérale d'Electricité. Foi esta questão das empresas industriais que fez socialistas e comunistas entrarem em desacordo em suas negociações em setembro. Basicamente, os socialistas favorecem a nacionalização apenas das empresas holding, enquanto os comunistas pretendem estendê-Ia para as subsidiárias.
Nem é preciso dizer que uma parte dos franceses considera esse programa a salvação do país e outra parte nada menos do que um passaporte para a catástrofe. Segundo Raymond Barre, por exemplo, o "pacote” de reformas da esquerda não passaria de urna ”bacanal de ilusões”. É isso e mais toda uma concepção de vida que os franceses terão decidido, na próxima segunda-feira, conhecidos os resultados do segundo turno eleitoral. E é para esse confronto crucial, onde se jogam questões agudíssimas para o dia-a-dia de cada um que todo o mundo tem seus olhos voltados. É claro que já se assistiu a disputas semelhantes - no Chile, por exemplo. Mas o Chile é um país em desenvolvimento e, como dizem os economistas, periférico Agora, o jogo é mais alto. É na França. |
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