Arquivo VEJA |
|
Mais reportagens
Brasil e sociedade Política e economia Internacional Ciência e tecnologia Saúde e sexo Artes e espetáculos Gente e memória Religião e História Esporte e aventura Educação e trabalho Revistas
1997 - 2009 | edições integrais Edição n° 1 Edições extras Edições especiais |
Reportagens 15 de janeiro de 1986Um drama em dois atos O ministro Funaro inicia em Nova
No início da noite da última sexta-feira, numa suíte de hotel em Nova York, o ministro Dilson Funaro tomou. um após outro, dezessete comprimidos de dois medicamentos - e recomeçou concretamente, com esta salva maciça de disparos químicos, a combater dentro de seu organismo o câncer que o aflige há mais de três anos, parecia estar sob controle e, conforme veio a público apenas na semana passada, reapareceu pouco antes do Natal. O ministro da Fazenda, que embarcara para os Estados Unidos na quarta-feira, tinha se consultado no Memorial Sloan-Kettering Cancer Center com o médico David Strauss, que já o examinara no período mais crítico de sua doença, e dele recebeu a confirmação do diagnóstico dado pela equipe brasileira à qual está entregue. Havia de fato um tumor maligno num dos três gânglios que extirpara em São Paulo entre o Natal e o Ano Novo, mas a moléstia, segundo o exame ratificado por Strauss, ainda pode ser enfrentada com chances positivas nesse seu ressurgimento. Funaro saiu do Memorial Hospital com os dois frascos dos remédios que terá que tomar daqui para a frente e iniciou o tratamento no mesmo dia. Tomou catorze comprimidos de Leukeran e três de Prednisone, anticancerígenos com 28 e 60 miligramas cada, e saiu para jantar com sua esposa, Ana Maria, e o casal Fernão Bracher, presidente do Banco Central. "Tomando dezessete comprimidos num único dia, meu medo maior é morrer afogado", disse ele no Helmsley Palace, o soberbo hotel de Manhattan no qual se hospedou. O ministro repetiu a mesma dose pesada no sábado. No domingo e nesta segunda-feira, dia para o qual programou a sua chegada de volta a Brasília, tomaria apenas três comprimidos de Prednisone. A cada duas semanas, de acordo com prescrição feita em Nova York por Strauss, ele deverá repetir esse esquema - dois dias de medicação intensa seguidos por outros dois com doses menores. Decorridos dois meses, Funaro se submeterá a outra bateria de exames. Se não surgir nenhuma notícia ruim, continuará o tratamento, que poderá prolongar-se por um ano. Ao menor sinal de perigo, porém, ele terá de subir para outro degrau na medicação, submetendo-se à quimioterapia por via intravenosa. O receituário, assim como as possíveis conseqüências do tratamento, foi relatado ao presidente José Sarney na primeira ligação telefônica feita por Funaro logo após sair do Memorial Hospital. A expectativa era grande no Palácio do Planalto. Afinal, a notícia da recidiva do câncer do ministro da Fazenda, divulgada na última terça-feira pela Folha de S. Paulo, explodira com o efeito de um furacão - derrubou os preços das açoes nas bolsas de valores, requentou a especulação do dólar no câmbio negro, quase paralisou os negócios no mercado financeiro e levantou perguntas inevitáveis sobre a sorte da atual política económica, caso Funaro tivesse de abandonar o seu posto. No fim da tarde daquele dia, o ministro decidiu, enfim, compartilhar com o público a má nova que recebera em dezembro de seus médicos. Encaminhou-se até o auditório do Ministério da Fazenda, onde era aguardado por uma multidão de repórteres e cinegrafistas de televisões, e foi direto ao ponto. "Senhores", disse, "a notícia é verdadeira. Eu estou com câncer." 'EU TIRO DE LETRA' - Era a reabertura, agora diante dos olhos de todo o país, do intenso drama pessoal vivido por Funaro desde outubro de 1982, quando soube que sofria de câncer linfático - uma das formas mais vorazes da doença, mas, ao mesmo tempo, uma das que se combatem com maior grau de êxito. Durante sua entrevista o ministro estava emocionado, mas não se esquivou de nenhuma pergunta sobre o reaparecimento da moléstia - embora, segundo seus assessores, só pretendesse falar disso ao público após encontrar-se com o diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional, Jacques de Larosière, numa reunião marcada para dois dias depois nos Estados Unidos, quando seria discutida a renovação das dívidas de curto prazo do Brasil, que vencem no próximo dia 17. Antecipada a notícia, ele a confirmou. "Essa eu tiro de letra", disse o ministro Funaro. Naturalmente, ninguém pode dar tal garantia - mas os prognósticos iniciais, neste segundo ato do drama, encorajam Funaro, sobretudo depois das explicações que recebeu do doutor Strauss durante sua consulta no Memorial Hospital. Ele já chegara a Nova York no início da tarde de sexta-feira satisfeito com os resultados de seu giro no dia anterior por Washington. Funaro temia que a notícia de seu câncer atrapalhasse suas negociações com De Larosière. O temor era infundado: De Larosière comunicou-lhe que o FMI dará sinal verde para a renegociação da dívida extena de curto prazo. O ministro ficou ainda mais animado quando Strauss - um clínico de apenas 41 anos, alemão naturalizado americano e que já cruzou várias vezes o Brasil fazendo conferências - contou-lhe que o câncer que carrega nos gânglios linfáticos, neste seu segundo ataque, é mais brando do que se poderia temer. No estágio em que se encontra a doença, detectada pela médica Therezinha Verrastro, 56 anos, chefe do Departamento de Hematologia do Hospital Brigadeiro, em São Paulo, Funaro tem condiçoes de se recuperar sem grandes traumas e continuar a trabalhar. A medicação que lhe foi prescrita por Strauss na semana passada adequou-se a esse perfil menos dramático de tratamento. Nos nove meses subsequentes ao início de sua luta contra o câncer, em 1982, ele mal podia sentar-se após cada sessão de quimioterapia, vomitava seguidamente e perdeu todos os pêlos do corpo, o que o levou a utilizar uma peruca. Se a virulência do tratamento quimioterápíco pudesse ser dividida de acordo com uma escala de 1 a 5 em termos de agressão ao organismo, o linfoma de Funaro naquela ocasião, segundo Strauss, foi combatido com o grau 5. Hoje, seu tratamento aloja-se no nível mínimo de intensidade. SAIR DO TÚNEL - "Reincidências são normalmente mais difíceis de tratar, mas elas também podem ser medicadas com sucesso", declarou Strauss. em Nova York, a Flavia Sekles, de VEJA. "A forma do tratamento depende da extensão da reincidência e de até onde se quer estancá-la para evitar que volte mais uma vez." Strauss não recomenda terapias feitas à base de drogas pesadas. "Só se deve recorrer a um tratamento muito tóxico e letal quando há a esperança de o paciente sair do túnel, chegando a uma forma de não reincidência durável", argumenta. Dificilmente, nos cânceres linfáticos, se pode assegurar a real natureza de uma segunda manifestação - ou seja, se ela é um tumor reincidente ou se é um càncer totalmente novo. De qualquer forma, numa postura comum aos médicos americanos, Strauss evita usar a expressão "curado" para pacientes de câncer. Também não discute se o câncer linfático - um tumor da rede de vasos por onde circulam as defesas imunológicas do organismo - é melhor ou pior que outros tipos da doença. "São todos ruins, embora para alguns pacientes com linfoma as perspectivas sejam bem melhores do que para as vítimas de outras formas de câncer", explica. Isso se deve ao fato de que o linfoma, de um modo geral, oferece a possibilidade de ser combatido com um golpe rijo e decisivo de tratamento quimioterápico. Numa comparação simples, o câncer linfático está para outros cânceres como uma aranha venenosa está para um cachorro bravo. É terrivelmente letal mas pode ser liquidada com um único pisão, enquanto as mordidas de um cachorro, embora não mortais, não podem ser interrompidas com apenas um pontapé. Funaro espera que com o nível de quimioterapia que está recebendo agora consiga dar o pisão decisivo no linfoma. "Não sou de me abater nem de achar que não há nada a ser feito", afirma o ministro da Fazenda, tido como um paciente disciplinado e devotado aos conselhos dos médicos que o atendem. A médica paulista Therezinha Verrastro, que trata de Funaro desde o começo de tudo, constata a aplicação de seu paciente. "Tenho recebido do senhor ministro lições de vida e de força de vontade que brotam ao longo de cada fase difícil do tratamento", diz ela. Foi Therezinha quem lhe deu em dezembro último a notícia de que, após todo o empenho demonstrado por ele desde o final de 1982, na luta contra o câncer, o mal voltara a viver em seu organismo. Funaro percebeu a reincidência da moléstia, segundo seu filho mais velho, Dilson Suplicy Funaro, de 28 anos, na semana anterior ao Natal. "Ele notou um gânglio volumoso no seu ombro esquerdo quando estava em Montevidéu", conta Dilsinho. Quando voltou, o ministro procurou imediatamente a clínica de sua médica - já desconfiado de que estava para iniciar um novo calvário. 'A DOENÇA VOLTOU' - A recidiva surpreendeu Funaro. Seu câncer, nos últimos dois anos, fora considerado sob controle e ele vinha se submetendo a uma série de exames periódicos para acompanhar possíveis evoluções da doença. Os exames de sangue que havia feito no início do mês passado constavam dessa programação de controle - e, segundo Dilsinho, nada acusaram de anormal. Apesar disso, o ministro já vinha se queixando há mais tempo de algumas indisposições a seus assessores que formam a linha de frente da sua administração no Ministério da Fazenda - os economistas Luiz Gonzaga Belluzzo e João Manoel Cardoso de Mello e o jornalista Roberto Müller. "Ele comentava regularmente conosco que estavam aparecendo alguns gânglios", revela Belluzzo. O gânglio que viu surgir em Montevidéu, um pouco maior que uma ervilha, fez Funaro procurar a doutora Therezinha no regresso de sua viagem. Em São Paulo, no sábado 21 de dezembro, acompanhado da mulher e do filho Dilsinho, o ministro voltou ao Hospital Sírio-Libanés - o mesmo local onde durante nove meses, a partir de novembro de 1982, passava cerca de 2 horas por mês recebendo as drogas fortíssimas que combatiam o linfoma e, ao mesmo tempo, castigavam duramente seu organismo. Desta vez, ele submeteu-se a uma tomografia - um exame em que o corpo é radiografado em fatias, detectando qualquer crescimento anormal de um órgão. No dia seguinte, de posse dos resultados, a doutora Therezinha não tinha mais dúvidas sobre a volta da doença. Com um envelope pardo em suas mãos no qual constavam as imagens tomográficas, ela recebeu o ministro da Fazenda em seu consultório - uma pequena sala com uma mesa, duas cadeiras e uma cama de exames, num sobrado de dois andares no bairro de Pinheiros - e anunciou o que encontrara: "Senhor ministro, a doença voltou". Dilsinho, que chegava à sala, viu seu pai ouvir a sentença calado durante alguns segundos. Em seguida perguntou: "Tem tratamento? Se tiver, então vamos tratar". A resposta de Therezinha reacendeu a sua chama de confiança. "Eu garanti que sua vida poderia continuar sendo levada da mesma forma que antes da notícia, pois o tratamento seria mais brando do que da primeira vez", diz ela. Ali mesmo marcaram uma biópsia para o dia seguinte ao Natal, uma quinta-feira. Funaro convocou seus filhos, deu a notícia e informou o presidente José Sarney. Combinou com sua família que ninguém mais deveria saber de tal fato, inclusive os parentes mais próximos. Na ceia do Natal, passado em São Paulo na residência de sua sogra, Filomena Matarazzo Suplicy, nos Jardins, o ministro não mencionou a volta do câncer, e o assunto não foi levantado. "Eu conversei muito com ele, mas o Dilson não me disse nada sobre a doença", lembra o deputado do PT Eduardo Matarazzo Suplicy, irmão da mulher de Funaro, Ana Maria, que estava presente à ceia de Natal na casa de sua mãe. O silêncio continuou a ser preservado após a biópsia, para a qual o ministro teve de passar a noite do dia 26 para o dia 27 de dezembro no Hospital Sírio-Libanês, cuja direção montou um esquema especial a fim de que ninguém notasse sua presença. Na biópsia foram extraídos três gânglios de Funaro e o exame de seu tecido confirmou o que a tomografia já havia revelado. De qualquer forma, achou-se prudente que a equipe do médico anicricano David Strauss também desse um parecer - e, assim, outro filho de Funaro, Marcos de 24 anos, foi encarregado de levar a Nova York, no domingo antes do réveillon, uma amostra do gânglio canceroso. A família do ministro gostara da lembrança de Strauss, que dias antes do Natal enviara uma carta cumprimentando Funaro pela passagem do ano e se colocando à sua disposição para o que fosse necessário. Segundo Dilsinho, Strauss nada sabia até então da recidiva do linfoma - e a partir do momento em que ficou a par da situação preparou-se para receber o ministro em Nova York. Na última sexta-feira, no Memorial Hospital, ele o atendeu prontamente, abrindo espaço a fórceps numa agenda concorrida, ocupada apenas por cinco a quinze pacientes particulares por semana. O resto de seu tempo Strauss dedica a pacientes do Memorial Hospital e a pesquisas médicas. 'BELO PRESENTE' - O diagnóstico do médico americano trouxe de volta as amargas lembranças do tratamento anterior. "Realmente, aquele período foi muito duro, pois eu enfrentava o desconhecido", recorda Funaro. Ele soube do mal quatro dias antes de completar 41 anos - e a primeira pessoa para quem deu a notícia foi o seu sócio na indústria de brinquedos Trol, Gabriel Ferreira de Paula, 51 anos. "Que belo presente de aniversário", desabafou. "Acabo de receber dos meus médicos a informação de que eu tenho um tipo de câncer." Vieram dias difíceis a partir desse amargo momento. "No começo, sempre ficava uma dúvida no meu íntimo de que meu pai poderia morrer", diz Dilsinho. As sessões de quimioterapia, no final de 1982 e durante 1983, foram especialmente dramáticas. Funaro tomava as drogas aos sábados para que os efeitos se manifestassem durante o fim de semana - e, assim, pudesse estar em seu escritório da Trol na segunda. "Ele me dizia que se ficasse na cama em dias de semana e deixasse de trabalhar, estaria liquidado", testemunha Gabriel de Paula. Esses fins de semana nos quais as drogas vergastavam cruelmente o organismo de Funaro foram dramáticos para a família. "Meu pai dormia, acordava, vomitava e dormia novamente até acordar para vomitar de novo", conta Dilsinho. Num dos momentos mais difíceis e quando tudo era incerto, sua mulher, Ana Maria, recorreu a um médico homeopata, Stanilaw Franco, que não forneceu um quadro animador. Contra sua vontade, Funaro também foi levado a uma espiritualista conhecida por "dona Filhinha", que o mandou trocar a quimioterapia por medicamentos à base de ervas, caso quisesse sobreviver. Ele recusou estas orientações e continuou com o tratamento da doutora Therezinha. "Ele sobreviveu graças à sua imensa força interior", afirma o deputado Suplicy. Hoje, com a reincidência do câncer que julgava ter derrotado dois anos atrás, ressurgiram velhos fantasmas, os quais, segundo amigos íntimos, rondavam seus pensamentos ainda em 1984. Desde que fora secretário da Fazenda de São Paulo, no govemo Abreu Sodré, no fim da década de 60, ele se preparava para algum dia assumir um posto maior na esfera federal. O câncer, conta um de seus amigos mais próximos, matara suas esperanças. "Quem vai querer um ministro que pode voltar a ter câncer a qualquer momento?", indaga um familiar de Funaro. Perturbava-o também o fato de que era cada vez menos procurado para externar suas opiniões, além do tratamento distante que encontrava de outros empresários ao comparecer a algumas solenidades. Começou a recear, em meados de 1984, que estivesse sendo esquecido - e marginalizado em alguns ambientes. EM SIGILO - Foi com surpresa, assim, que recebeu o convite do então presidente eleito Tancredo Neves para assumir a presidência do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, o BNDES. Ele nunca entendeu por que Tancredo o convocara, apesar de saber que acabara de sair de um duro tratamento contra um câncer. Seu desempenho à frente do BNDES conduziu-o à sucessão de Francisco Dornelles no Ministério da Fazenda, no final de agosto passado, levado pelas mãos de seu amigo pessoal José Sarney. "Eu estabeleci com o presidente o compromisso de que o manteria sempre a par de meu quadro clínico", contou Funaro a VEJA na semana passada. Segundo ele, a sua primeira providência, nesta segunda manifestação do câncer, foi avisar Sarney. A outra foi tentar manter o fato em sigilo até que passassem as negociações para a renovação das dívidas de curto prazo do país, no próximo dia 17. Na última segunda-feira, o chefe de gabinete do ministro, Roberto Müller, descobriu que a Folha de S. Paulo já sabia da reincidência do câncer e que iria publicar a notícia no dia seguinte. Müller telefonou para a direção do jornal, recebeu a confirmação de que o fato seria divulgado e informou Funaro, que se magoou com o episódio. "A notícia foi mal-intencionada, grosseira e tinha o propósito de nos prejudicar", diz o economista Luiz Gonzaga Belluzzo, chefe da Assessoria Econômica do Ministério da Fazenda. Resta o fato essencial de que a notícia era verdadeira - e, nesse caso, não havia nenhuma razão para o jornal deixar de publicá-la. O câncer de Funaro, do qual o país só veio a saber no momento em que soube graças à indiscrição de alguém com conhecimento dos fatos, reintroduziu entre os políticos a questão de saber até onde vão os limites da pnvacidade de um homem público quanto à situação de sua saúde. "O problema é complicado", diz o chefe do Gabinete Civil da Presidência da República no governo passado, professor João Leitão de Abreu. Uma doença, segundo ele, pode afetar o desempenho de um homem público, sem, no entanto, impossibilitar o seu exercício na função. "O presidente João Figueiredo, por exemplo, sofria muito, operou-se das coronárias, teve o problema na coluna, mas manteve-se equilibrado, em condições de enfrentar os problemas", argumenta Leitão de Abreu. Tal opinião não tem o endosso de seu colega de ministério na gestão Figueiredo Jarbas Passarinho, segundo o qual o exame de saúde de quem vai assumir uma alta função pública deve ser tão impotante quanto a sua declaração de bens. "Quando uma pessoa qualquer presta um concurso público ou se candidata a uma vaga numa empresa privada, tem de se submeter a um exame de saude", raciocina Passarinho. "É legítimo exigir-se o mesmo de alguém que vai assumir um ministério ou função de direção superior no governo." Na vida real, é uma velha praxe dos homens públicos, brasileiros ou não, esconder até onde podem seus problemas mais graves de saúde, por saberem que a divulgação de uma doença vem inevitavelmente acompanhada da ameaça de serem enfraquecidos na posição que ocupam. A história recente do país está repleta de exemplos. Petrônio Portella sobreviveu vinte anos após padecer de um câncer - e veio a morrer de um enfarte que tentou ocultar quando era ministro da Justiça do presidente João Figueiredo. Tancredo Neves foi o último grande caso do gènero: fez tudo para ocultar, no inicio do ano passado, as dores que sentia. Será sempre difícil, na verdade, estabelecer o critério segundo o qual uma doença pode impedir ou prejudicar o exercício de uma função pública. O presidente Juscelino Kubitschek, por exemplo, escondeu um enfarte atrás de uma gripe que nunca existiu - mas seu deslize não causou dano aos interesses do Estado, tanto é que só hoje se veio a saber do episódio. Em compensação, o país sofreu com a dor de Figueiredo. O deputado Amaral Netto, líder do PDS na Câmara, sustenta a tese de que nenhum ocupante de uma função de relevo no cenário nacional tem autoridade para definir, por sua própria vontade, se tem ou não condições para permanecer no cargo quando sofre de uma doença grave. "Só uma junta médica pode emitir um veredito nesses casos", argumenta o deputado. Amaral Netto achou errada a decisão de Funaro de viajar para Washington, a fim de assumir compromissos com o FMI em nome do governo, enquanto mal sabia qual seria o seu tratamento. MEIA-VOLTA - Seja qual for o critério invocado para medir a extensão da gravidade do câncer que acometeu Funaro, a conclusão será a de que, embora se trate de uma moléstia em sua forma mais branda, o caso é delicado e as eventuais sequelas da medicação a que começou a se submeter em Nova York não podem ser desprezadas. Comparando-se com o câncer que ele sofreu em 1982, por exemplo, chega-se a um resultado mais favorável ao ministro. Naquela época, quando os médicos perceberam que a doença tomava seu organismo, células cancerosas já haviam saltado do sistema linfático para alguns ossos e o sangue. A doença atingira o temido Estágio IV, do qual somente um em cada quatro doentes retorna. Funaro deu meia-volta. Agora, a doença foi surpreendida ainda no Estágio I, levemente inclinada para o Estágio II. Havia apenas um gânglio doente. As estatísticas apontam que oito em cada dez pacientes nessa fase conseguem livrar-se da doença, com a ajuda de drogas, por pelo menos três anos. Sete deles chegam ao quinto ano sem sintomas e, para algumas correntes médicas, estão curados. Ou seja, as chances de voltarem a ter câncer são as mesmas de uma pessoa que nunca sofreu a moléstia. "Medicina não é matemática, mas o senhor ministro tem mais pontos somados a seu favor do que contra", diz a médica Therezinha. No lado a favor da balança pesa o fato de tratar-se de um tumor isolado e já extirpado. Além disso. o câncer linfático costuma ser naturalmente brando. O câncer do esôfago, por exemplo, mata 93% de suas vítimas. Por outro lado, o ministro já esteve doente e, a se fiar numa regra rudimentar da medicina, seu organismo estaria agora com a capacidade reduzida para reagir bem ao tratamento com as mesmas drogas que o aliviaram há três anos. "Se você destrói um formigueiro com formicida e algumas formigas sobrevivem, logo elas formarão um novo formigueiro muito mais resistente", diz o médico cancerologista Sergio Luiz Faria, 33 anos, do Centro de Oncologia de Campinas. CÂNCER DIFUSO - A médica de Funaro discorda. Segundo ela, o câncer linfático tem ótima resposta à quimioterapia. Ao microscópio, o tumor extraído do ministro também mostrou um rosto entre o amigável e o hostil. Seu linfoma foi classificado como linfocítico - ou seja, pouco diferenciado e difuso, pois as células organizam-se no tumor numa forma mal-ordenada. De um lado isso faz o tumor mais voraz em sua ânsia destruidora das células vizinhas. De outro, o torna mais suscetível de ser tratado. No prato dos malefícios que a natureza arquitetou contra o ministro, pode ser colocada também a constatação de que o câncer linfático de Funaro não é a chamada doença de Hodgkin, a mais comum das moléstias malignas do sistema linfático e a que regride com maior facilidade. O tratamento exclusivamente com drogas prescrito pelo especialista americano Strauss a Funaro também fornece indícios de que a doença não o ameaça tanto quanto na época de sua aparição original. Segundo a norma do Memorial Hospital de Nova York, só pacientes no melhor estágio da moléstia, o que ocorre com apenas 10% a 15% deles, podem ser tratados com sucesso através do uso exclusivo da quimioterapia. Estágios mais avançados exigem uma planilha também mais alentada de quimioterápicos combinados. São drogas que atacam todas as fases da multiplicação celular e, em conseqüência, atingem mais fortemente também as células sadias. Numa situação dessas, seriam acrescentadas sessões de radioterapia ao tratamento. Funaro, na primeira rodada do câncer, sofria de febres intermitentes de 38 graus. Tinha suores noturnos e chegou a perder 10% de seu peso em menos de seis meses. A atual recaída não trouxe nenhum desses dolorosos contrapesos. "Tudo indica, até agora, que o câncer está isolado. Os órgãos internos estão perfeitos, todas as análises de sangue e da medula óssea indicam normalidade", diz a doutora Therezinha. Quando se trata de descrever a evolução de uma doença como a do ministro, na verdade, todo prognóstico deve vir acompanhado de expressões como "tudo indica" e "é provável". Alguns médicos brasileiros têm anotado a volta de tipos de câncer linfático sempre associada a distúrbios maiores. "Os linfomas não-Hodgkin, quando voltam, podem liberar células tumorais que invadem o sangue, transformam-se em leucemia ou atacam outros órgãos como o fígado e o baço", diz o cancerologista Faria. QUADRO DELICADO - Justamente para mapear o comportamento das células doentes que porventura tenham escapado do crivo da quimioterapia, Funaro será submetido semanalmente a um exame de sangue, que vigiará se as células cancerosas estão tomando o lugar dos glóbulos vermelhos - num princípio de leucemia. A cada mês comparecerá para ser radiografado e entrar num aparelho de tomografia, com que os médicos tentarão saber se outros gânglios estão crescendo anormalmente no organismo. Além disso, os exames visam aferir como o organismo está reagindo à quimioterapia, uma agressão nada desprezível. As drogas que Funaro passou a tomar na última sexta-feira são imunodepressoras, ou seja, diminuem a capacidade do organismo para combater infecções. Com um quadro como esse, delicado e instável, o ministro da Fazenda trafegará durante seu tratamento por uma ponte estreita, que poderá conduzi-lo de volta a uma vida de normalidade. Enquanto durar esse trajeto, porém, a economia viverá um clima de tensão permanente e as dúvidas não desaparecerão sozinhas. Pelo menos um interlocutor já discutiu com o presidente José Sarney a conveniência de considerar a hipótese de um nome para o lugar de Funaro, em caso de necessidade. Sarney abalou-se com a recaída de seu ministro. "Que coisa terrível", disse a um assessor. "O ano está começando muito mal. O Castello, agora o Funaro..." Ele se referia ao jornalista Carlos Castello Branco, do Jornal do Brasil, que está seguindo para os Estados Unidos por sua recomendação para se tratar de um câncer no céu da boca. O tratamento de Funaro, segundo um importante funcionário do Planalto, será acompanhado de perto pela assessoria do presidente. Há dias, Sarney sugeriu a Funaro que reduzisse sua jornada de trabalho, mas ele repeliu a idéia. O presidente voltará à carga argumentando que o ministro tem de evitar qualquer possibilidade de contribuir para um agravamento de sua saúde - algo que só viria a agravar, também, a instabilidade que este segundo ato do drama abriu na economia do país. |
VEJA | Veja São Paulo | Veja Rio | Expediente | Fale conosco | Anuncie | Newsletter | ![]() |
|