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14 de dezembro de 1994
Triste é viver
sem Tom Jobim

Garoto de Ipanema e
cidadão do mundo, o maestro
deixa uma herança exemplar

Tom Jobim tinha um apartamento de dois quartos em frente ao Metropolitan Museum, em Nova York, mas não gostava de morar lá, por causa do frio e da poluição que fazia seus filhos viver tossindo. Morreu perto de sua casa americana, num hospital de renome internacional, o Mount Sinai, na manhã de quinta-feira passada, cinco dias depois de chegar à cidade e um depois de internado. A banalidade do episódio contrasta com a comoção que provocou pelo mundo afora. Para ter uma idéia do tamanho do seu prestígio é só folhear, ao acaso, o álbum de impressões que ele despertou. Em 1972, quando veio ao Brasil filmar Joana Francesa, a estrela Jeanne Moreau declarou que não sabia quem era Pelé, mas conhecia muitas músicas de Tom. Em 1973, quando lançou o disco Matita Perê, a psicanalista Kattrin Kemper sugeriu que todos os brasileiros, e não apenas seus pacientes, deveriam ouvi-lo. O misterioso escritor Carlos Castañeda, guru e bruxo da contracultura dos anos 60, com sua série de especulações sobre o poder, escreveu: "O gênio artístico de Tom Jobim habita hoje um homem de grande poder pessoal, que venceu seu medo fundamental de se encontrar consigo".

Tanto poder, espiritual e da ciência, não bastou para manter vivo o maestro que deu elegância e elaboração à prata da casa da cultura brasileira, a música. Tom deveria passar por uma angioplastia (a segunda em um mês). Em vez disso, submeteu-se a uma cirurgia para extirpar dois tumores na bexiga. Um deles havia sido diagnosticado no Brasil e ambos foram eliminados depois de uma operação de pouco mais de uma hora. Segundo a família de Tom, a cirurgia foi um sucesso. Mas algumas horas depois ele começou a passar mal, com dificuldades para respirar, e morreu por causa de um coágulo sanguíneo parado no seu pulmão.

Tom Jobim foi enterrado na tarde da ultima sexta-feira, no Cemitério São João Batista, no Rio de Janeiro, envolto nas bandeiras do Brasil e do Fluminense, depois que um caminhão do Corpo de Bombeiros conduziu o caixão pelo roteiro que o morto cantou em vida como nenhum outro - o Rio e suas praias, suas matas e mulheres, a Ipanema da Avenida Vieira Souto, que, a partir de segunda-feira, por decreto do prefeito César Maia, passará a se chamar Avenida Tom Jobim. Tanto o presidente do país onde nasceu e amava, Itamar Franco, quanto o do país que conquistou com sua música e ao qual diziam ter vendido sua alma, Bill Clinton, manifestaram sua tristeza. Estupefata com sua morte, nem por isso a família - a mulher, Ana Beatriz Lontra, os filhos Paulo, de 44 anos, arquiteto e músico, e Elizabeth, de 36, artista plástica, do primeiro casamento dele, com Teresa Hermanny - mencionou a hipótese de erro médico do hospital. Pelas circunstâncias da morte, porém, tanto a seguradora de Tom quando o Mount Sinai vão fazer uma investigação. "Não é um inquérito criminal", diz o advogado americano de Tom, David Grossberg. Ele conta que quando seu cliente entrou no hospital "tinha o aspecto de um super-homem, fazendo brincadeiras". E avisa: "Os médicos vão ter de explicar por que o ciclo de recuperação dele se inverteu, levando-o à morte".

Tom, que faria 68 anos em janeiro, tinha problemas circulatórios há duas décadas. Sofria de arteriosclerose (envelhecimento das artérias) e no começo deste ano quase teve gangrena nos pés. No entanto, ele jamais deixou transparecer sua preocupação com um câncer descoberto em sua bexiga há um mês. Tratava-se há quinze anos com um médico da família, o cardiologista Roberto Hugo da Costa Lins, mas recentemente decidira fazer o tratamento completo no Mount Sinai.

A angioplastia não é uma cirurgia, mas um procedimento rápido de desobstrução das artérias. Envolve algum risco e seu principal problema é que, em 30% dos casos, a obstrução volta depois de seis meses. Especialistas dizem ser prudente esperar três meses para ter certeza de que a angioplastia deu certo. Portanto, se a cirurgia de extração do tumor na bexiga foi marcada para um mês depois da angioplastia, é porque havia urgência - mas de modo algum uma emergência, já que Tom não estava passando mal. É possível que ele tenha priorizado a cirurgia na bexiga com medo de que o câncer se alastrasse. Seu urologista no Rio, Paulo Roberto Rodrigues, foi quem diagnosticou o tumor. "Tom ficou muito aflito", conta. Portanto, quando viajou a Nova York já era para tratar disso, e não para fazer uma angioplastia. Esta só foi feita porque os médicos americanos descobriram o grau de obstrução coronariana de Tom e decidiram começar logo a desobstrução, para só depois operar a bexiga. Rodrigues diz não saber que tipo de operação foi feita nos Estados Unidos, mas sabe muito bem quem era o paciente. "Qualquer coisa que tenha sido feita foi negociada antes com os médicos", diz. "Ele era o tipo do doente que discute tudo, quer saber das vantagens e dos riscos."

Tom não mudara radicalmente seus hábitos por causa das doenças. Seguia comendo o seu franguinho "atropelado", como batizou o grelhado da dieta, e tomava vinho Valpolicella Bola com seu amigo Alberico Campana, dono da churrascaria Plataforma. "Há quinze anos tentava convencê-lo a seguir uma dieta séria", conta o médico Roberto Hugo. "Ele fazia, emagrecia, mas voltava tudo de novo." Tom tentou mudar do uísque para a cerveja e, depois, para o vinho, mas não conseguiu deixar de tomar pelo menos uma dose de scotch por noite. Além disso, ia traçando seus charutos.

Os cuidados médicos não pareciam tranqüilizá-lo. Foi três vezes ao Lar de Frei Luís, um centro espírita kardecista em Jacarepaguá, no Rio. Na primeira consulta, no dia 23 de novembro, ele chegou ao centro à noite, acompanhado da mulher e da irmã Helena. Esperou, junto com quase 300 pessoas, a sua hora de entrar na "sala 1", onde trabalha o mestre Gilberto, que incorpora o espírito do médico alemão Frederick von Stein. Por coincidência ou alguma gentileza da casa, ouvia-se Sabiá num toca-fitas. Disse que estava ali porque tinha um câncer na bexiga e não mencionou os problemas cardíacos. Foi só.

Na segunda consulta submeteu-se a uma série de rezas e ouviu a leitura de textos de Alan Kardec. Em seguida, o médium aplicou um "tratamento espiritual": com as mãos em cima do paciente, passou para ele "energias positivas". "Temos vários casos de pessoas que ficaram curadas, mas Tom só teve uma melhoria na força interior. Ficou mais confiante", diz o médico Luiz Augusto Queirós, diretor do Lar de Frei Luiz. Segundo ele, o espírito do doutor Frederick aconselhou Tom a adiar a cirurgia para a retirada do tumor, mas Tom, depois de consultar a família, decidiu submeter-se à operação porque não estava obtendo resultados imediatos no centro.

Antonio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim, filho de pai advogado e descendente de um médico que tratava particularmente o imperador Pedro II, deveria ter nascido na Zona Sul do Rio, onde passou quase toda sua vida. Já na época, no entanto, os aluguéis andavam caros por lá e o futuro Tom foi nascer numa casa mais em conta na Rua Conde do Bonfim, na Tijuca, Zona Norte. As imagens mais antigas de suas lembranças, porém, são ipanemenses, e elas se fundem com outras, sonoras: as dunas de areias imensas e brancas, arraias-jamanta de 1 tonelada passando pelo mar, os tios, a mãe e a avó cantando e tocando violão.

Já entrava na adolescência quando a mãe abriu uma escola, o Colégio Brasileiro de Almeida (que não existe mais), e comprou um piano para as aulas de música. Tom tocava um pouco do violão e foi na garagem da casa, onde ficava o velho Beckstein, que começou a "catar milho" no piano, sem saber direito que utilidade teria aquilo. "Eu já estava com 13 anos", lembrou recentemente, com certa tristeza. "Se tivesse começado antes, seria um músico muito melhor."

Cresceu atleta, louro e queimado de sol. "Nós éramos os garotos de Copacabana e Tom Jobim o garoto de Ipanema - aliás, um gatão", escreveu o letrista Ronaldo Bôscoli no seu livro de memórias Eles e Eu, publicado postumamente no mês passado. "Mergulhava, nadava, pegava jacaré com tábua e sem tábua etc." Mas mesmo naquele Rio idílico, paraíso sem serpentes, os moços de família precisavam ganhar a vida. Tom já namorava Teresa Hermanny e queria casar. "Minha mãe achava que se eu fosse músico iria morrer bêbado e tuberculoso numa calçada", lembrou. Foi estudar arquitetura e não passou do 1º ano. Casado, precisava pagar o aluguel. Os inferninhos do Rio ganhavam um profissional.

Estes lugares se chamavam Mocambo, Clube da Chave, Acapulco, Farolito ou Vogue, mas Tom geralmente amanhecia no Far-West, comendo um bife com ovo. Eram ambientes malsãos. Num deles um tiro passou rente ao seu copo de uísque no balcão e alojou-se na parede. Naqueles anos (e até 1975, quando "não deu mais") fumava quatro maços de cigarro por dia. Tocava de tudo, de tango a bolero e fox-trote, e de dia dava expediente no estúdio da gravadora Continental. Ali usava o que aprendeu com o maestro Radamés Gnatalli, fazendo arranjos para cantores de vozeirões impressionantes, como Dalva de Oliveira e Vicente Celestino, e também para os de estilo bem mais cool, como Dick Farney e Elisete Cardoso.

Mas precisou subir aos poucos na escala social da música. Foi parceiro de Alcides Fernandes, marido de sua lavadeira, em cinco músicas que ninguém quis gravar. Das primeiras gravadas, Pensando em Você (letra e música) e Incerteza (letra de Newton Mendonça, de quem seria parceiro por muitos anos), não existem vestígios. Tom não tinha o disco de 78 rotações nem sabia de quem pudesse ter um. Data talvez daí a insistência do futuro maestro em escrever suas partituras. "Bach, Mozart, Beethoven, qualquer compositor, grande ou pequeno, não existiria se não houvesse escritura musical", dizia.

Tom já era uma celebridade, mas só nos bastidores. Gostava disso. No fim da vida horrorizava-se ao lembrar que chegou a enfrentar platéias de até 30.000 pessoas, como num festival da canção no Maracanãzinho. Preferia um ambiente menor e mais suave. Em apenas dois anos, porém, entre 1956 e 1958, deixou de ser famoso atrás da cortina para se tornar celebridade pública. As músicas que compôs para Orfeu da Conceição (entre elas alguns futuros clássicos, como A Felicidade e Se Todos Fossem Iguais a Você), de Vinicius de Morais, e para um disco de Elisete Cardoso, Canção do Amor Demais, no qual se ouvia o violão de João Gilberto no acompanhamento de Chega de Saudade, apontavam o caminho para um movimento que se tramava em boates e apartamentos da Zona Sul: a bossa nova.

Como diriam as sensibilidades antiquadas que a bossa nova combatia, foi um deus-nos-acuda. Num texto famoso em que historia o parto do novo movimento, o crítico J. Ramos Tinhorão lapidou: "Filha de aventuras secretas de apartamento com a música americana - que é, inegavelmente, sua mãe -, a bossa nova, no que se refere à paternidade, vive até hoje o drama de tantas crianças de Copacabana, o bairro em que nasceu: não sabe quem é o pai". Depois houve o show de apresentação da bossa nova, no Carnegie Hall de Nova York, descrito como "consagrador" ou "desastroso", dependendo da quantidade de interesses realizados e contrariados. A bossa nova veio e se foi, e Tom, que vinha de antes, ficou. "Oitenta por cento do meu trabalho não tem nada a ver com bossa nova. Posso dizer que dediquei minha vida ao samba de preto", diria Tom muitos anos depois, no conforto de uma carreira internacional luminosa. Na semana passada, seu mais ilustre parceiro, Frank Sinatra, que um dia localizou Tom tomando chope no bar Veloso (hoje Garota de Ipanema) e pelo telefone o convidou para gravarem juntos, comentou: "Minhas experiências musicais com ele foram tão recompensadoras e criativas quanto as horas e horas que passamos juntos, conversando e meditando pela noite. O mundo perdeu um dos seus músicos mais talentosos e eu perdi um amigo maravilhoso". Tinhorão foi mais econômico. "Meus pêsames", resumiu ele, quando perguntado.

O Tom que passou seus últimos dias ao lado de Ana Lontra e seus dois filhos menores, João Francisco, de 15 anos, e Maria Luiza, de 7, numa casa projetada pelo filho Paulo, não guardou rancores. "Esqueço tudo", dizia. Mas, quando quisesse, poderia lembrar. O que escreveram sobre ele está registrado num documento chamado "Quarenta anos de Tom na imprensa" (1952-1992), feito sob encomenda, e suas medalhas, troféus e partituras estavam arrumados e classificados. Mais do que todos os troféus, a homenagem que Tom mais apreciou foi a feita pela escola de samba Estação Primeira de Mangueira, que o escolheu como enredo em 1992.

São papéis e troféus que ajudam a avaliar a real importância do artista Tom Jobim para o Brasil, terra em que se plantando tudo dá e já deu ótimos pintores, mas nenhum Picasso; grandes escritores, mas nenhum Borges; um par de bons compositores clássicos, mas nenhum Beethoven. Talvez porque este não seja um país de pintores, como a Espanha, escritores, como a Argentina, ou músicos sinfônicos, como a Alemanha. Este é o país da música popular. Foi aqui que nasceram Noel Rosa, Pixinguinha, Ernesto Nazareth, Chico Buarque. E Tom Jobim, o maior compositor popular de um país de compositores populares. Por isso, ele transcende a linguagem na qual se inscreve, a música. Ele é o grande artista brasileiro. É o Borges, o Picasso, o Beethoven daqui. Nossa suprema vingança. Na música popular, a Espanha, a Argentina, a Alemanha não tiveram um Tom Jobim.

Ele era um mestre em dizer coisas usando as diferentes formas da canção, assim como Picasso escolhia o suporte mais adequado - a pintura, a escultura, o ready-made - para cada uma de suas idéias artísticas. Para falar do doce balanço de uma garota a caminho do mar, um samba com uma batida igualmente rebolante - aquela mesma que engendrou a bossa nova. Nessa característica, Tom lembra outro virtuose da canção, Cole Porter. Na introdução de Night and Day, Porter utiliza a repetição obsessiva de uma nota, simulando um relógio, para enfatizar a idéia da letra, de que o amante apaixonado pensará na amada as 24 horas do dia. Tom Jobim, no entanto, ia além desse mero virtuosismo formal. Suas melhores canções são verdadeiros mergulhos na tradição da música brasileira ou internacional. Dessa imersão, ele vem sempre à tona renovando o gênero sobre o qual se debruçou.

A singela Luiza, popularizada por ser tema de novela das 8 na TV Globo, é, em última análise, uma valsa brasileira, à qual o gênio de Tom Jobim adicionou toda a sua inventividade. A começar pelo acompanhamento. Uma valsa de Dilermando Reis tem algo em torno de sete ou oito acordes. Luiza tem 31. Quando, em vez de musas, exalta a natureza, recorre a seus arranjos exuberantes, amazônicos, soltando seu lado Villa-Lobos, como em Passarim ou Boto. É capaz também de brincadeiras virtuosísticas como Chansong, na qual mistura o suingue das songs de Porter e Gershwin com a maneira de cantar dos chansonniers franceses.

Essa habilidade não é fruto do acaso ou de uma intuição prodigiosa, como no caso de Noel ou Pixinguinha, mas de estudo e muito trabalho - e é exatamente isso que diferencia Tom da maior parte dos compositores brasileiros. Ele estudou piano com Lúcia Branco, uma das melhores professoras do Rio em sua época, a mesma que deu aula para concertistas como Arthur Moreira Lima. Lapidou seus conhecimentos de música clássica com o alemão Hans-Joachim Koellreutter, o mestre de nove entre dez compositores eruditos brasileiros dos anos 50 para cá. Por isso, Tom era um dos poucos em sua profissão capazes de escrever seus próprios arranjos. Começou sua carreira, por assim dizer, já pronto, aos 29 anos. Para fazer a trilha de Orfeu pensou-se primeiro em convidar o pianista Vadico, parceiro de Noel Rosa. Tom foi escolhido devido a problemas de saúde do autor da melodia de Feitio de Oração, mas o fato parece ter simbolizado também uma passagem de bastão dentro da música brasileira. De Noel e Vadico para Tom e Vinicius. Dois músicos com formação clássica, um diplomata que era bom poeta e um estudante de medicina (Noel) que era um gênio com as palavras. Os quatro sabendo, acima de tudo, que a grande riqueza do país não estava na música clássica, na diplomacia ou na medicina, mas na cultura popular. Duas parcerias capazes de produzir composições sofisticadíssimas e, ao mesmo tempo, acessíveis a todos. Tom Jobim é o autor das músicas de trinta acordes e dezenas de dissonâncias que todo mundo assobia.

O letrista Tom Jobim é autor de um punhado de obras-primas da música brasileira, como águas de Março, Triste, Fotografia e outras que encantam pela simplicidade e criatividade de seus versos. Era também especialista em homenagear mulheres, reais ou imaginárias, com suas músicas. Entre as reais destacam-se Teresa da Praia, feita em homenagem a sua mulher Teresa, letra em parceria com Billy Blanco, e Lígia, homenagem à esposa do escritor Fernando Sabino. Segundo Luiz Tatit, professor de Lingüística da USP e maior estudioso do país na área da canção popular, a melhor medida da excelência das letras de Tom Jobim é o joãogilbertômetro. "João Gilberto adora alterar a prosódia de músicas em que a letra, a seu ver, não combina com a melodia, e ele nunca faz isso com as músicas de Tom Jobim, que são irretocáveis", diz o professor.

Já nas melodias de Tom Jobim, João Gilberto dava palpite. Tom contou num especial para a televisão que mudou a última nota de Desafinado - em que o cantor entoava mesmo uma nota fora do acorde, concretizando o efeito sugerido no título - por sugestão de João, que não queria passar pelo vexame de desafinar, mesmo que fosse por licença poética. Só João Gilberto mesmo poderia dar palpite, porque Tom Jobim é o melhor melodista brasileiro desde Pixinguinha. Suas melodias não são redondas como as do compositor de Carinhoso. "Elas possuem intervalos melódicos complicados, cheios de saltos", aponta Augusto de Campos em seu livro O Balanço da Bossa. Tom combinava essa ousadia criativa com uma fluência de Pixinguinha. Por mais complicadas que fossem, suas músicas nunca soavam desagradáveis ao ouvido.

Muito se disse que sua música era inspirada no cool jazz e no bebop americano. É outra meia verdade. Tom ouvia jazz no rádio nos anos 50 como todo mundo, mas não era seu tipo de música predileta. Preferia os standards da orquestra de Glenn Miller às experimentações de Charlie Parker. Suas influências, segundo ele próprio, eram Debussy, Villa-Lobos, Stravinsky e Chopin. Não é difícil comprovar que Tom, dessa vez, estava dizendo a verdade. Uma de suas composições mais famosas, Insensatez, é incrivelmente parecida com o Prelúdio em Mi Menor, Opus 28, de Chopin, a ponto de ser possível tocar uma música com o acompanhamento da outra. O próprio Tom gostava de dizer que a inspiração para Samba de uma Nota Só não era o famoso ostinato de Night and Day, mas outro prelúdio de Chopin, o em Ré Bemol, conhecido como Prelúdio da Gota d'água. Seus acordes sobrepostos vêm de Debussy, que, assim como Chopin, brincava com acordes dissonantes numa época em que o jazz nem sonhava existir.

Tom Jobim era filiado à maior sociedade arrecadadora de direitos autorais dos Estados Unidos, a BMI, a mesma à qual são filiados os Beatles e que recolhe direitos de execução no mundo todo, excetuando-se a América Latina. Já se disse que Tom Jobim era o músico mais executado no mundo depois dos Beatles. Há um certo exagero nisso. Ele já foi o segundo artista da BMI. Hoje não é mais, mas mantém um bom desempenho. Os Beatles têm cerca de uma dúzia de músicas com mais de 1 milhão de execuções em todos os tempos. Tom Jobim tem sete: Garota de Ipanema, entre as dez mais, com 4,2 milhões de execuções, Meditação, Wave, Corcovado, Desafinado, Insensatez e Samba de uma Nota Só. "Garota de Ipanema já esteve em segundo lugar, mas caiu nos últimos quatro anos", diz Pat Baird, executiva da BMI. Tom Jobim não é um megassucesso, como roqueiros do top de Madonna e Michael Jackson. É um artista de vendagem pequena, porém constante e espalhada por vários lugares do mundo, talvez porque suas canções nunca agridam. Suas músicas, tão suaves quanto revolucionárias, podem ser ouvidas tanto numa sala de concertos quanto num bar em Londres, num restaurante na Grécia, no elevador ou no carro a caminho do trabalho.

Num certo sentido, Tom Jobim sucedeu Carmen Miranda como embaixador do Brasil no Hemisfério Norte. Os dois Brasis, o de Carmen e o de Tom, eram, diga-se de passagem, países completamente díspares. Com Tom e seus amigos da bossa nova como embaixadores, o Brasil deixava de ser uma república de balangandãs para virar um lugar, acima de tudo, elegante. Saíam os chapéus de fruteira e entravam as blusas de gola rulê no estilo sartriano, com cigarro no canto da boca. O Brasil continuava sendo uma praia latina, mas essa latinidade tinha o charme das canções suaves, em lugar dos boleros derramados. Mesmo assim, quando foi convidado para tocar com Sinatra, não deixaram que Tom Jobim usasse o piano, o seu instrumento. Afinal, na ótica dos americanos, um latin lover só podia tocar violão.

No Brasil, país que homenageia em suas composições, Tom era um vendedor mediano de discos. Nos anos 80, seu recorde ficou com Passarim (1987), que vendeu 136.000 cópias. Tom Jobim, de 1985, chegou quase lá: 135.800. Antonio Brasileiro, o último lançamento, apresentando convidados ilustres como Dorival Caymmi e Sting, está nas 65.000 cópias depois de um mês nas lojas. Tom começou a ficar parecido fisicamente com Villa-Lobos quando trocou o cigarro pelo charuto. Desde o disco Urubu, de 1976, seus arranjos começaram a ficar mais complexos, cheios de efeitos orquestrais, lembrando o compositor das Bachianas. Parecia que Tom queria fazer o mesmo que George Gershwin nos Estados Unidos. Depois de se tornar o maior compositor de canções de seu país, Gershwin quis ser eterno e virar compositor erudito. Fracassou, a não ser por uma ópera, Porgy and Bess, que, ironia do destino, ficou mais conhecida pelos cantores de jazz que reinterpretaram suas árias com uma roupagem popular. Tom tinha planos de escrever música clássica. Chegou a projetar um concerto para violão. Não concretizou nenhum desses projetos. Ainda bem. Não precisava disso para permanecer. Tom fica na história não como um Beethoven de segunda, mas como um Tom Jobim de primeira, o número 1 na especialidade a que se dedicou: seduzir e fascinar as platéias com excelente música popular, essa arte da banalidade que umas poucas vezes atinge o nível do sublime.


 
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