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14 de dezembro de 1977
Niemeyer

O poeta do concreto
armado completa 70 anos

Oscar Niemeyer passou a vida plantando árvores de concreto. Sua profissão, arquiteto, é como outra qualquer: para um batalhão de diplomados, um grupo de brilhantes profissionais; para uma interminável e internacional procissão de seguidores e repetidores, um cadinho de autênticos inovadores. E à minoria pertence Oscar Niemeyer. Mesmo seus adversários, e ele os tem, evidentemente, reconhecem a centelha rara, o brilho incomum, sua dedicação à graça e à beleza, a obstinação com que persegue o novo e a espantosa freqüência com que o cria.

Niemeyer prova tudo isso apresentando não meia dúzia de obras, nem uma dúzia, mas dezenas e dezenas, erguidas ou ainda em maquete no Brasil, na América do Sul e do Norte, Europa, norte da África e Oriente Médio. São residências, palácios, templos, hotéis, fábricas, estádios, hospitais, parques, edifícios de escritórios e de apartamentos, colégios e universidades.

Ele só não é o brasileiro mais conhecido mundo afora porque nasceu no país do futebol. Mais exatamente no bairro carioca de Laranjeiras, a 15 de dezembro de 1907. Sua infância e adolescência nada tiveram de excepcionalmente notável, exceto talvez uma mania: "Eu tinha o hábito de desenhar no espaço". Quando a mãe viu Oscar com o dedo no ar, perguntou: "Que está fazendo, meu filho?" E ele: "Desenho".

Em 1929 matriculou-se na Escola Nacional de Belas-Artes para aprender arquitetura. E casou-se com Anita, com quem teve uma filha, Anna Maria, hoje com 45 anos, avó dos cinco bisnetos de Oscar.

E foi assim, casadinho de novo, e com um diploma de arquiteto recém-tirado na Escola Nacional de Belas-Artes, no Rio de Janeiro, que o jovem Oscar bateu um dia à porta do também arquiteto Lúcio Costa, procurando emprego. "Não tenho lugar para você no meu escritório", ouviu Niemeyer. Insistiu. Nada. Como argumento supremo, disse que nem precisava ganhar nada, queria só trabalhar. Diante de tanta obstinação, Lúcio Costa cedeu. Iniciava-se uma tabelinha que ficaria célebre.

Lúcio Costa está hoje com 75 anos. Um enorme bigode branco, jeito retraído, gestos comedidos. Um cérebro arisco num corpo de vovô. Sua amizade com Niemeyer tem mais de quarenta anos. Aliás, com Niemeyer, não. Com Oscar. Ninguém chama Niemeyer de Niemeyer. Só os estranhos.

Lúcio Costa desenhou Brasília. E o urbanista da capital mora hoje num prediozinho modesto, no final da praia do Leblon. "Fui só o jardim da infância de Oscar."

Modéstia. Com ele, é verdade, Oscar viria a fazer seu primeiro trabalho importante, o prédio do Ministério da Educação e Saúde, projetado por Le Corbusier, em 1936. Cinco arquitetos brasileiros colaboraram na realização do projeto e até mesmo promoveram modificações. Sua edificação significou, para a arquitetura, o que a Semana de 22 representou para as artes.

Lá está ele até hoje, no centro do Rio de Janeiro. Ainda impressionante na generosidade de seu espaço, criado graças ao emprego de pilotis, invenção que permitia fazer um prédio começar não do rés do chão, mas acima, deixando livre o trânsito dos caminhantes. Le Corbusier havia desenhado pilotis de 4 metros de altura. Oscar, o garoto que desenhava no ar, corrigiu o mestre e aumentou para 10. E mais: em vez de teto, um terraço-jardim. No lugar de janelas, brise-soleil, engenhosa maneira de filtrar o calor e a claridade.

Mas quem chamou o célebre mestre Le Corbusier ao Brasil? Quem ordenou que o prédio do Ministério da Educação fosse algo assim tão moderno, tão avesso à tradição nacional de palácios pesadões? O hoje senador mineiro Gustavo Capanema, que tinha como oficial de gabinete um poeta também de Minas Gerais, Carlos Drummond de Andrade, e que criou um serviço de defesa do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Um homem com sensibilidade para o futuro e para o passado.

Esfuma-se aí, na véspera dos anos 40, o Niemeyer-membro-de-uma-equipe. Quer dizer, com equipes ele haveria sempre de trabalhar - não mais como liderado, porém.

A ação muda de cenário. Transfere-se da velha capital do Brasil, muito merecedora aliás naquela época do status de Cidade Maravilhosa, e avança para o interior, para dentro das montanhas de Minas Gerais. Ano: 1940. Governador do Estado: Benedito Valadares. Secretário da Agricultura: Israel Pinheiro. Prefeito de Belo Horizonte: Juscelino Kubitschek de Oliveira.

Provavelmente empurrado por sugestões dos intelectuais mineiros, da província e da corte, Oscar Niemeyer desembarcou na estação para projetar, a convite de Valadares, um cassino. Conta Oscar: "Lembro-me do jantar que Valadares ofereceu em minha homenagem. No meio de uma conversa agradável e animada, ele brincou: 'Niemeyer vai trazer o comunismo para Belo Horizonte'."

Na verdade, o que ele estava começando a trazer era o início de uma fama nacional e depois internacional chamada Pampulha. O prefeito Juscelino mostrava-se empolgadíssimo com a idéia de construir um bairro novo na cidade, muito merecedora aliás naquela época do status de Cidade Vergel. JK lhe pediu que entregasse o projeto no dia seguinte. No dia seguinte? - Oscar estranhou. E testemunhou uma das primeiras manifestações do depois famoso ritmo JK.

"E assim foi feito", conta ele. "Em uma noite, num quarto do Grande Hotel, elaborei o projeto do cassino, que Juscelino Kubitschek aprovou de manhã, recomendando-me presteza."

Ao primeiro, juntaram-se os desenhos da Casa do Baile, do late Clube e de uma igreja. A construção do conjunto desperta em Oscar, além de orgulho, ternura. "Eram minhas primeiras realizações, aquelas que marcariam de maneira decisiva minha orientação profissional. Estávamos em 1940, numa época dominada por um funcionalismo ortodoxo, incapaz de autorizar qualquer fantasia."

Lembranças de Oscar na Pampulha, aos 33 anos. "As formas frias e técnicas não me entusiasmavam muito. Ao contrário, eu me apaixonava pelas formas novas, as superfícies curvas, belas e sensuais, capazes de suscitar emoções diversas. Sentia que o cimento armado podia nos oferecer tudo. Penetrei com toda a confiança nesse mundo de formas novas, de lirismo e de liberdade criadora que Pampulha abriu à arquitetura moderna."

E o que foi dado contemplar aos conservadores olhos mineiros? Em volta de uma lagoa (que não existia, Juscelino mandou fazer), surgiu em primeiro lugar uma igrejinha absolutamente fora dos padrões vigentes. Não era monumental, como a Catedral da Boa Viagem ou a Igreja de Lourdes. Era pequena e toda em curvas. Tinha torre, mas de lado, não saindo do telhado. Enfim, uma "igreja moderna", tão moderna que o então arcebispo dom Antônio dos Santos Cabral se recusou a consagrá-la.

O mundo, porém, consagrou. Não só a atrevida igrejinha de São Francisco como também suas colegas profanas de beira de lago. As curvas da marquise da Casa do Baile, o cassino arredondado, o Iate Clube e mais os jardins de Burle Marx, a escultura de Ceschiatti, as pinturas de Portinari.

Lúcio Costa foi ver. Telegrafou: "Pampulha é uma beleza". Jean Deroche, arquiteto francês, vinte anos mais tarde confessaria ao colega: "Pampulha foi o grande entusiasmo de minha geração". Como, aqui e sempre, a unanimidade é impossível, nem tudo foram salamaleques. O argumento crítico principal da época, e até mesmo ainda agora, é o de que a obra arquitetônica tem que ser funcional - palavra que no caso significa ser, antes de tudo, prática, utilitária, serviçal. E, em segundo e último lugar, bonita, etc. "Beleza é função", rebate hoje em defesa de Niemeyer o arquiteto Edgar Graeff, que também é professor e autor de outra sintética afirmativa: "Oscar faz a arquitetura cantar".

Entra o poeta, jornalista e crítico Ferreira Gullar: "Para Oscar Niemeyer, arquitetura deve ser uma obra de imaginação e poesia. Não é fácil assumir semelhante atitude numa época marcada pelo pragmatismo e quando a própria arquitetura se submeteu aos ditames do funcionalismo. Niemeyer criou a poética do concreto armado, que é a sua contribuição principal à arquitetura de nossos dias".

Aos que reclamam, por outro lado, uma arquitetura mais simples, "despojada", mais ligada ao povo, responde o próprio Oscar:

"A arquitetura representa o progresso técnico e social da época em que é realizada. Falar de arquitetura social num país capitalista é, como dizia Engels, uma atitude paternalista que se pretende revolucionária. Não acredito que a burguesia tenha interesse em resolver o problema da classe operária. O importante é mudar a sociedade".

Se a ano de 1942 significou, através da conclusão da Pampulha, o início da glória de Oscar Niemeyer, também marcou o começo da contrapartida: os ônus da fama, as críticas nos jornais, os comentários de colegas, a discussão teórica - o preço a pagar por se aventurar tão perigosamente no espaço. E o debate continua.

Nos doze anos seguintes, Niemeyer assinou uma numerosa e variada quantidade de projetos: antecipando um volume obras que viria a ser o maior da história da arquitetura. Em seu trabalho, o eixo Rio-Belo Horizonte tornou-se triângulo com São Paulo. Os mineiros foram os mais aquinhoados: em Belo Horizonte, o conjunto JK, o colégio estadual, escola Júlia Kubitschek, o Edifício Niemeyer da Praça da Liberdade, o clube Libanês, além de diversas residências. No Rio, criou casas e ainda o prédio do Banco Boavista, Hospital Sul-América e projetos que ficaram na maquete, como o Centro de Lazer da Lagoa, o Yatch Club, hotéis Gávea e Quitandinha Petrópolis. Sem falar na própria casa do arquiteto em Canoas, ainda hoje extraordinariamente moderna. São Paulo, finalmente, recebeu o sinuoso e soturno Edifício Copan, bem no centro da cidade, a fábrica Duchen e o atualmente muito maltratado Parque do Ibirapuera. Obra, aliás, que mais irrita que conforta seu criador. Diz ele que "fizeram tudo errado, deixaram de fazer" e pinga um aborrecido ponto final no assunto.

Fazendo ponte rodoviária entre as três capitais (ele odiava e ainda odeia andar de avião), numa bela manhã de setembro de 1956 Oscar Niemeyer recebe no Rio a visita de Juscelino Kubitschek, presidente da República.

"Ele desceu do carro diante da minha porta, na estrada da Gávea, convidou-me para acompanhá-lo de volta à cidade e durante o trajeto me falou de Brasília. A partir desse dia, passei a viver em função de Brasília. E, em agosto de 1958, senti necessidade de me estabelecer na área escolhida para a nova capital do país. Éramos uns quinze amigos e sentimos de imediato o choque: a maior parte de nós havia deixado uma cidade moderna para cair naquele deserto imenso."

Conta o arquiteto Sabino Barroso, hoje diretor da Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira, remanescente do "grupo de Brasília", amigo e discípulo de Niemeyer:

"Como Oscar dorme apenas quatro horas por dia, trabalha como um animal. Em Brasília, depois de doze, catorze horas de trabalho duro, pegava o cavaquinho e tocava sem parar a única música que sabe: 'Amélia'. Eu ficava no pandeiro, caindo de sono. Quando ameaçava parar, ele dizia: 'Vamos lá, Sabino, toca aí'."

O "ritmo JK" era mais que vertiginoso, mesmo porque a nova capital precisava ser inaugurada a 21 de abril de 1960. O Palácio da Alvorada, por exemplo, foi construido em doze meses. Tudo era muito difícil, tudo ficava muito longe (levava-se de dois a cinco dias entre Brasília e Belo Horizonte). Lembra Niemeyer:

"À noite, nos reuníamos para conversar e fazer batucada, explosão que a solidão motivava. Íamos também à Cidade Livre, cuja atmosfera de faroeste nos fascinava. Mas, na hora de deitar, quando todos se retiravam, eu me sentia enormemente só e angustiado".

Na manhã seguinte estava de pé como todos, pois cumprir os prazos era a meta comum, "sob a inspiração e o exemplo de um homem, o presidente Juscelino" - cujo entusiasmo o arquiteto lembra no livro "Niemeyer", um grosso e bem-ilustrado volume publicado apenas em francês e italiano: "Durante três anos liderou esse projeto, lutando com todas as suas forças contra a oposição mais exacerbada, encorajando reuniões, ordenando e forjando os meios necessários à realização do grande sonho, combatendo cotidianamente e sem trégua todos os obstáculos".

Menos pacíficas foram as relações com Israel Pinheiro, superintendente da Novacap, órgão responsável pela construção de Brasília. O mais irritante de seus defeitos, segundo Niemeyer: "Seu espírito personalista, que o impedia de discutir tranqüilamente um problema, e suas maneiras rudes de senhor de escravos. Sua intransigência, por outro lado, lhe foi provavelmente muito útil na realização da tarefa, pois assim evitava discussões e consultas que, embora necessárias à unidade do conjunto, poderiam talvez ter prejudicado o ritmo de trabalho exigido em Brasília. Nossas idéias divergiam muito, mas nos respeitávamos mutuamente".

No Rio, na retaguarda, ficava o calculista que tornava concretos os desenhos que Niemeyer antes fazia no ar: o poeta Joaquim Cardozo, hoje muito doente, vivendo sob a proteção de seu velho amigo. Havia também Lúcio Costa, o autor do plano piloto da capital, o primeiro chefe de Niemeyer. O urbanista que abriu espaço para o arquiteto. Lúcio foi quem determinou que o centro de Brasílía seria a praça dos Três Poderes e que no centro desta praça se erguesse o palácio onde trabalhariam os representantes do povo, o Poder Legislativo. E Oscar Niemeyer construiu o mais alto dos edifícios da cidade.

Lá estavam, Oscar e Lúcio, realizando o sonho de qualquer arquiteto, qualquer urbanista - a fantasia do século: construir uma cidade, construir uma capital. E Niemeyer aproveitou a imensidão daquele espaço e delirantemente passou a criar. Como ele próprio diz, num livrinho ainda inédito, chamado "A Forma na Arquitetura". "Foi em Brasília que minha arquitetura se fez mais livre e mais rigorosa. Livre, no sentido da forma plástica. Rigorosa, pela preocupação de mantê-la em perímetros regulares e definidos. Procurei caracterizar a nova capital com as suas próprias estruturas, afinando os apoios com o objetivo de tornar os palácios mais leves, como que simplesmente tocando o chão, dando às colunas formas variadas, separando-as dos edifícios, criando assim pontos de vista inesperados que suas formas em curvas multiplicavam. E integrei minha arquitetura na técnica mais avançada, fazendo-a, quando o tema permitia, um exemplo do progresso e do apuro do concreto armado."

E o espaço de Brasília encheu-se desse espírito. Le Corbusier, o mestre - falecido em 1965 - que costumava ser comparado a um urso pela robustez de sua arquitetura, extasiou-se diante da obra de quem, pelo contrário, mais sugeria uma borboleta. E confidenciou a Italo Campofiorito, também arquiteto e velho amigo de Niemeyer: "Cada uma das decisões dele é válida porque é um ato de vontade e liberdade total". Jayme Zette, da equipe de urbanistas de Lúcio Costa, também acompanhou essa visita. E recorda: "Estávamos de automóvel e ao passarmos pela praça dos Três Poderes, Le Corbusier pediu para parar. E, deslumbrado, começou a gritar: 'Bravo, Oscar, bravo!' Oscar, tímido, ficou procurando um cantinho para se esconder. Foi muito emocionante".

Enquanto isso, para muitos, Brasília era uma obra faraônica. Um lamentável desperdício de dinheiro, dinheiro do povo. Uma cidade gelada, feita para o automóvel. Geradora das miseráveis cidades-satélites. O economista Eugênio Gudin, dos que mais combateram Brasília, ainda hoje não se conformou. "Fui e sou contra. Ainda considero que sua construção foi um absurdo." Sobre o arquiteto, Gudin escusou-se de falar: "Não entendo de arte moderna".

Aos palácios viriam com o tempo se juntar outros projetos - a arrojadíssima catedral, semi-enterrada no solo; o Itamaraty, ou Palácio dos Arcos, cujas altas colunas brotam da água; o Teatro Nacional, até hoje inacabado, mas já com seu provocador arcabouço integrado à capital. Athos Bulcão é o autor dos relevos externos do teatro, que estão de tal forma incorporados ao prédio que se pode pensar terem sido ambos idealizados por uma só cabeça. Explica Bulcão: "As vezes penso que meu trabalho equivale ao do compositor que faz a música de úm filme". Athos é um grande admirador de seu velho amigo Niemeyer. "Admiro nele, além da genialidade que caracteriza sua obra tão extensa e pródiga de invenção, a coragem, o espírito de luta e a coerência com que defende seus ideais de justiça, além da lealdade com os amigos".

Italo Campofiorito, outro remanescente do grupo de Brasília, salienta a elegância do amigo: "Nesses anos de amizade, nunca houve uma descida de tom. Oscar, como diz Lúcio Costa, é o homem brasileiro antigo: bem-educado. Detesta coisas quadradinhas. Até os que o detestam se mostram respeitosos na sua frente".

Curiosamente, Lúcio Costa admite hoje não ter percebido centelha alguma durante os três anos que Niemeyer estagiou em seu escritório. Agora, demonstrando uma admiração que transparece até mesmo nos momentos em que vislumbra uma ou outra sombra de possíveis divergências, Lúcio usa para qualificar Oscar e sua obra termos como "limpidez e correção de personalidade", "graça", "charme", "integridade", "ser singular". Mas, descontadas as louvações, que divergências teriam? De maneira clara é impossível saber. A hipótese é rejeitada por ambas as partes. Ao longo da conversa sutil e elegante de Lúcio Costa pode-se, no entanto, pressentir tênuas camadas de finas palavras que poderiam estar encobrindo, quem sabe, alguma restrição: "Os arquitetos estão por aqui de leveza. É possível que queiram o brutalismo".

Sem qualquer adversativa (em relação a Oscar, ele não usa poréns), uma frase como essa logo será neutralizada por outra, quase decorada: "A atuação e a obra fabulosa de Oscar Niemeyer merecem todo o nosso respeito e admiração". Os amigos - quase sempre comuns aos dois - não gostam de espicaçar o terna e só admitem especular em termos teóricos. "Apesar de toda a 'brasilidade' da obra de Oscar", aventurou um deles, "ele estaria mais distante de uma posição estética terceiro-mundista que Lúcio, este talvez mais preocupado, por exemplo, com soluções e materiais que se adeqüem melhor à nossa realidade econômica e social". A autocorreção vem logo em seguida: "Talvez não seja nem isso. Oscar dialoga com o século, Lúcio procura dialogar com seu país".

Lúcio Costa vê algumas coisas em comum entre Oscar e o ex-presidente Kubitschek. "A grandeza, a audácia de realização, índole, temperamento e até mesmo o gosto pela corte. Como JK, Oscar vive cercado por sua corte."

Não é o único a apontar a evidência: Oscar não ama estar só. Mas se irrita com a palavra "corte". Na verdade, sempre há gente no escritório que mantém, há mais de vinte anos, no Posto 6 de Copacabana. Toma-se o elevador, desce-se no 9º andar, sobe-se uma escadinha tortuosa e eis o apartamento que Niemeyer transformou em local de trabalho. No terraço, numa casinha, fica "Ivo", o manso buldogue do dono da casa, "premiadíssimo", como atesta Alfredo Ceschiatti, o escultor de Pampulha e de Brasília. São quatro salas interligadas, mesas de trabalho de vários tamanhos, papéis, um ou dois quadros na parede, um enorme e enferrujado ventilador, livros de arquitetura, de poesia, poltronas e banquetas criadas por Oscar Niemeyer.

Sem nunca alterar o tom de voz, sempre mansa, pausada, Oscar recebe pessoas, dá ordens aos dois empregados, atende os dois telefones que tocam demais, fala com imenso prazer e sem falsa modéstia do trabalho. Tem fotos, em branco e preto e coloridas, de todas as suas obras. Se precisa de um papel ou livro, sabe exatamente onde está. Tem um sorriso aberto, bonito, mas não é dado a gargalhadas. Um homem elegante, perspicaz, malicioso, esperto, amigo de pintores, escritores, poetas, um profissional que dá continuamente a impressão de estar muito satisfeito com o que fez e disposto a fazer mais. Escreve com clareza e precisão. Além do livro franco-italiano "Niemeyer", é autor de "Minha Experiência em Brasília" e "Quase Memórias: Viagens - Tempos de Entusiasmo e Revolta - 1961-1966".

Tempos de entusiasmo e de revolta? Sim, pois, inaugurada Brasília, muita luta se travou em defesa da obediência às diretrizes do plano piloto. Niemeyer diz ter a reclamar de Jânio Quadros, a quem JK passou a presidência, em 1961. Em sua rapidíssima passagem pelo poder, Jânio só teve tempo de de mandar construir o pombal da praça dos Três Poderes. João Goulart, "cuja posição política nos entusiasmava", só conheceu em Paris, já no exílio. "Dele, guardo uma impressão de simpatia e simplicidade difícil de igualar."

Escreve Oscar: "Mas em 1964 tudo ajudou. A Universidade de Brasília, que Darcy Ribeiro carinhosamente criou, foi invadida pelas forças militares. A liberdade foi esquecida, o direito do homem anulado e os mais intrépidos e revoltados, perseguidos como criminosos. (...) Mas foi no governo de Medici que a situação se deteriorou. (...) Brasília se tornou para mim irrespirável, conduzida pela burrice exemplar do coronel Prates da Silveira. E tive que viajar durante vários anos, sempre voltando ao Brasil a declarar quando possível a revolta em que vivia diante de tanta miséria e desacerto".

Tempos dificeis para Oscar Niemeyer. Passado o furor que acionou a construção da capital, sobrevieram períodos de penosa burocracia, discussões inúteis e divergências estéreis. Em 1964 Niemeyer foi a Israel e durante seis meses, trancado num hotel de Telavive, projetou uma outra cidade, em outro deserto, o de Negev. Ao voltar ao Brasil, recebeu intimação para depor na polícia política. Não era a primeira vez nem seria a última. Motivo: "ligações de Oscar com o Partido Comunista".

O mundo, porém; parecia mais interessado no trabalho de Oscar que em suas posições políticas. Assim, em 1965, inaugurou-se no Museu de Artes Decorativas do Louvre, em Paris, uma exposição de fotos de maquetes de obras de Oscar Niemeyer. O arquiteto Ruy Ohtake, de São Paulo, lembra o período em que a arquitetura mais moderna do país esteve a serviço do poder. "Até 1964, o governo encarava a arquitetura como forma cultural de expressão, ou seja, a arquitetura era antes de tudo representativa de nossa cultura. Hoje, o governo incentiva apenas tecnicismo, abandonou completamente os aspectos sócio-culturais de uma obra. O exemplo do programa do Banco Nacional da Habitação é bastante ilustrativo. O que existe é uma visão extremamente imediatista de coisas. Só os números interessam." Ohtake vê uma curiosa semelhança entre a obra de Niemeyer e a música popular: "Suas formas curvas, livres, são uma expressão fiel da liberdade que o brasileiro traz dentro de si e que aparece em outras formas de arte, como a nossa música".

O grande desafio de Oscar Niemeyer com as autoridades de Brasília aconteceria ainda em 1965, quando começou a transmitir seu projeto para o aeroporto da capital. Um estudo que ele realizou com desvelo especial - afinal, seria a porta de entrada da "Capital do Futuro". O prefeito Plínio Catanhede e o superintendente da Novacap, José Luís Pinto Coelho, aprovaram o projeto - o primeiro até deu parabéns à cidade, pela TV. Um dia, no entanto, o arquiteto soube que militares do Rio e de Brasília combatiam seu trabalho. Nenhuma razão de ordem técnica era alegada: o visado era o autor.

Em 1965 e 1967 o "caso do aeroporto" provocou debates acesos na imprensa. Intelectuais, estudantes e arquitetos realizaram manifestações de apoio a Niemeyer, tudo em vão. Embora também chovessem afirmações oficiais de que a recusa não se calcava na política, os jornalistas ouviam de um oficial em Brasília: "Lugar de arquiteto marxista é em Moscou". Não é bem assim: os soviéticos consideram "decadente" a arquitetura moderna. Tanto que não existe obra de Niemeyer nos países do leste europeu.

Por ordens militares, elaborou-se em pouco tempo um outro projeto, que, submetido à aprovação da Prefeitura do Distrito Federal, foi recusado como sendo indigno de Brasília por Lúcio Costa, que fazia parte da comissão de aprovação. Nem por isso deixou de ser construído. E está arquivada no Tribunal Federal de Recursos a ação popular movida por Oscar Niemeyer e mais dezesseis arquitetos.

O menino que desenhava no ar tivera o vôo cortado. Mas, só no Brasil, pois de toda parte vinham convites para trabalhar. E lá se foi para outras terras. Maquetes e mais maquetes teimavam em nascer: hotel na ilha da Madeira, mesquita e Centro Cívico em Argel, Argélia - este último um admirável conjunto de edificações. E, obra da especial dileção de Niemeyer, o prédio da Editora Mondadori, em Milão (1968/1975). Mais: a Universidade Argelina de Constatine e a sede parisiense da Renault, a Bolsa do Trabalho de Bobigny, França, a Casa da Cultura do Havre, o Centro de Negócios de Miami, a Tour de la Defense e a sede do Partido Comunista Francês, em Paris, os alojamentos de estudantes de Oxford, na Inglaterra, e o Ministério das Relações Exteriores de Argel.

Alguns desses projetos ficaram em maquete, como o aeroporto de Brasília - mas por motivos bem diversos, claro. Outros tomaram forma e em diversos países assinalam a provocadora presença da moderna arquitetura brasileira. Também no exterior eriçaram-se os funcionalistas, reclamando que os projetos eram muito bonitos mas pouco práticos. Afirmaram, ainda, que ele tinha mais de escultor que de arquiteto.

Oscar Niemeyer tem uma resposta para os críticos em seu livrinho inédito: "Um grande equívoco acompanha os que se interessam pela arquitetura: aceitam com entusiasmo nos antigos períodos o que hoje, condicionados pelo funcionalismo, recusam na arquitetura contemporânea. E isso como se a função não constituísse um problema invariável e permanente, como a beleza, a proporção e a fantasia. Quando uma forma cria beleza, ela tem uma função, e das mais importantes na arquitetura".

Manfredo Tafuri, professor de História da Arquitetura da Universidade de Veneza, na Itália, observa, porém: "O prédio da Editora Mondadori em Milão procura provocar impacto no observador. Ao mesmo tempo não se compreende o porque. Isto é: o impacto permanece como um ponto de interrogação, sem estar sustentado pela poética surrealista. Em certo sentido eu considero Niemcyer um tradutor do surrealismo em arquitetura - só que com grande atraso".

Mas por que a Editora Mondadori escolheu Niemeyer? Responde o professor italiano: "Pela mesma razão que o Partido Comunista Francês pediu a ele para fazer sua sede em Paris. Os trabalhos de Niemeyer são ótimas formas publicitárias".

Já Villanova Artigas, arquiteto paulista, acha que o colega "sabe representar perfeitamente o que é o nosso povo e a nossa cultura". E faz questão de frisar: "Tenho orgulho em ser um dos maiores admiradores que ele tem". De Paris, complementa André Biro, especialista em arquitetura prospectiva (cidades do futuro): "A obra de Niemeyer, como toda obra profundamente pessoal, não pertence ao passado nem ao futuro, mas atravessa o tempo". Já o americano James Fitch, professor de História da Arquitetura da Universidade de Colúmbia, da geração de Niemeyer (tem 68 anos), visitou a sede do PCF em Paris e considerou-a "extremamente requintada" em termos estéticos, mas observou: "À luz da crise energética, as construções com muito vidro, exigindo ar condicionado no calor, deverão ser repensadas".

Não há de ser agora, aos 70 anos, que Oscar deixará de desafiar a rigidez de um certo racionalismo com o sensualismo das formas que cria. É claro também que o fato de se tornar septuagenário pouco ou mesmo nada afetará sua disposição de tocar outros projetos, como o Centro Musical do Rio de Janeiro ou o Museu do Homem, em Belo Horizonte.

É possível que nessas duas novas obras surjam invenções que aumentem ainda mais o repertório de descobertas que revolucionaram a linguagem arquitetônica. Soluções que se tornaram clássicas, como as colunas do Palácio da Alvorada ("o monumento arquitetural mais importante desde as colunas gregas", sentenciou André Malraux), os pilotis em "V" do Ibirapuera, o teto de forma fluida da Casa do Baile da Pampulha, o perfil em curvas e retas do telhado da residência de Oswald de Andrade e as fachadas inclinadas da casa de Prudente de Moraes, neto, entre outras.

"Suas obras são formas nunca vistas, que subitamente se revelam diante de nós como se caídas de um outro espaço. Têm também a marca de nossa época, quando a fantasia humana rompe os limites terrestres para penetrar os espaços estelares", escreveu o poeta Ferreira Gullar.

Talvez tudo isso explique uma surpreendente carta que recentemente Oscar Niemeyer recebeu. Vinha dos EUA e pedia-lhe o projeto de uma casa. Estava assinada por Stanley Kubrick, o diretor de "2001, uma Odisséia no Espaço".


 
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