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14 de outubro de 1970
A última fronteira
Amazônia: do mito à
descrença e à esperança
Raimundo Rodrigues Pereira
O pesado avião militar levanta-se para o sul no campo de poeira de Altamira. Em seguida vira-se desajeitadamente e aponta o nariz para nordeste, para Belém. Neste momento, a baixa altura e inclinado para o solo, meus olhos são abençoados por uma fantástica visão. Lá embaixo, o rio Xingu é uma massa líquida transparente, cobrindo enrugadas dunas de areia branca, manchas pretas de lôdo, borrões esverdeados de musgo sobre pedra ou refletindo ora o azul do céu descoberto, ora o verde compacto da mata.
Ao fim de quarenta dias de viagem pela Amazônia, ainda observo essas descobertas com uma alegria forte, angustiada e surpresa. Antes de visitá-la, a região era para mim apenas a uniformidade barrenta do Solimões-Amazonas e seus afluentes e o verde onipresente da floresta. Mas, assim como a mata é diversa e inesperada quando vista de perto, as águas do continente amazônico visitadas no mistério de todos os seus vales constituem uma surpreendente aquarela. O Tapajós tem águas verdes às vezes douradas. E praias de areia branca e fininha, "daquelas que a gente pisa e a pisada sai fazendo quim, quim, quim", exatamente como me disse um caboclo do rio. No Amazonas, o cáqui monótono dos rios de terra dissolvidos no ingênuo Solimões encontra-se com o preto das águas limpas e potáveis do rio Negro, perto de Manaus, numa divisão de domínios radical e admirável.
Durante alguns segundos procuro as razões da leve angústia com que relembro a beleza inesperada e selvagem destas últimas seis semanas. Lá embaixo, exatamente no tempo de minha viagem, quase 2.000 homens se instalaram na outrora modorrenta Altamira para ajudar a abrir a Transamazônica, extenso corte para servir à colonização e integração da selva. Com ela, essa paisagem nunca mais será exatamente a mesma. Minha inquietação talvez pudesse ser resumida em uma pergunta: de que forma avançaria o progresso?
A NATUREZA AMEAÇADA - Dentro de alguns anos, talvez no começo do século XXI, o homem poderá ver, no lugar da atual grande floresta amazônica, o extraordinário paraíso tropical onde a civilização conseguiu pela primeira vez harmonizar a natureza com o progresso. O futuro poderá ser também oposto: cinzento e absurdo. Nesta década, entretanto, para o bem ou para o mal, está sendo lançada a sorte da maior e última reserva natural do planeta.
Até agora, além do raio povoamento das margens de seus rios, o Brasil apenas arranhou os contornos de sua última fronteira. A construção e o povoamento da Belém-Brasília, no extremo oeste da hiléia, e da Brasília-Acre, ao sul, no começo da década de 60, foram apenas uma demarcação dos limites deste mundo interior. Agora, contudo, é o próprio coração selvagem da Amazônia que está sendo atacado com três golpes profundos e inéditos. A Transamazônica e a Cuiabá-Santarém farão uma cruz de quase 4.000 quilômetros de leste para oeste e de sul para norte na selva 90 por cento desconhecida. Segundo os planos do governo, 2.775 km estarão prontos até 4 de janeiro de 1972; os restantes, até o fim daquele ano. Antes disso, Manaus deverá ser ligada a Porto Velho por uma pista de asfalto primário. No próximo ano é quase certo que o primeiro caminhão chegue por terra a Manaus. Ao longo das estradas da cruz já estão planejados 23 núcleos de cidades colonizadoras a serem erguidas na selva nos próximos 450 dias - segundo contratos já assinados. Fala-se que o governo investirá, nos projetos agrícolas deste cruzeiro de civilização da selva, 1 bilhão de cruzeiros nos próximos anos. A quantia parece pouco modesta e suas origens no orçamento federal são desconhecidas. De qualquer forma, parece ser também o mínimo necessário ao gigantesco empreendimento. Com as estradas, e mesmo que os delicados mecanismos de uma colonização racional fiquem emperrados, a experiência indica que levas de imigrantes se fixarão para viver - bem ou mal - nas margens desses eixos desbravadores. Pelo vulto das verbas e das estradas, o número de pessoas se contará pelas dezenas de milhares, quase imediatamente. Alguma coisa grandiosa, entre o temerário e o inevitável, foi apressada definitivamente.
INVASORES E ESPIÕES - Por que tanta pressa em sacudir o berço esplêndido? Em parte porque "quem tem o que é seu e não toma, o bicho vem e come". O "bicho" neste caso é "o estrangeiro" - pelo menos assim pensam uma parte da opinião pública e setores dirigentes do país.
No fértil terreno das possibilidades não é difícil justificar mesmo os mais soturnos temores. Se 20 megatons destroem vinte cidades americanas, para onde irão os gringos remanescentes ameaçados pela radiação? Se a explosão demográfica obrigar dois homens a viverem em cada metro quadrado, para onde irão os terceiros que aparecerem? Para a Amazônia, é óbvio, que pode não ter mais de três habitantes por quilômetro quadrado no ano 2000 (hoje tem menos de 0,5). Embora esta resposta seja de um óbvio discutível, a discussão é pouco útil por situar-se no movediço terreno dos condicionais. Na prática, o que está acontecendo?
Segundo estimativas de um dos diretores da Sudam - Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia, órgão federal encar regado da coordenação das atividades da região -, a participação estrangeira nos novos projetos industriais ali não é muito diferente da em outras áreas do país. O total de empreendimentos nacionais é bem maior que o de estrangeiros.
Há algumas diferenças em relação ao sul e nordeste: os maiores empreendimentos são de grupos estrangeiros ou têm razoável participação destes; a conclusão anterior faz com que a relação (capital estrangeiro / capital nacional) seja alta, embora menor que 1.
Os maiores investimentos estrangeiros na Amazônia exploram suas riquezas naturais para exportação. O grupo da Icomi - Indústria e Comércio de Minérios -, da qual a americana Bethlehem and Steel tem
49% das ações, controla toda a atividade econômica de destaque no Amapá: a exportação de manganês, uma fábrica de compensados de madeira, uma companhia de pesquisas e desenvolvimento e a única estrada de ferro da Amazônia econômicamente ativa. A United States Steel, também americana (49% das ações), explora junto com a companhia estatal brasileira Vale do Rio Doce (51 % das ações) as duas incríveis jazidas da serra dos Carajás, cada uma delas com mais minério que o das reservas do quadrilátero ferrífero de Minas. O King's Ranch, organização do Texas, vai instalar-se no Pará com o maior projeto de pecuária nacional. O maior projeto madeireiro da região é da firma Jari Comércio e Indústria, da americana National Bolk Carriers, que tem uma área de mais de 1,2 milhão de hectares entre o Pará e o Amapá. O maior projeto industrial que está sendo estudado para a Zona Franca de Manaus é o de uma fábrica de produtos eletrônicos de um grupo paulista - Pereira Lopes - associado à americana Westinghouse (com 20% das ações).
A ação de nenhum desses grupos tem os toques de mistério folhetinesco com que comumente se veste o mito da ação dos estrangeiros na Amazônia. Todas elas se instalaram completamente dentro das leis do país e foram consideradas bem-vindas pelas autoridades. A Sudam ainda concede ao capital estrangeiro mais facilidades que a Sudene. Esta limita a quantidade de incentivos fiscais que um desses grupos pode receber a 50% do valor do projeto. A Sudam, embora se prepare para adotar a mesma posição, ainda financia até 75%.
Outra distinção entre o norte e as outras regiões é a extensão das propriedades estrangeiras. A área da Jari equivale a uma faixa do Rio a São Paulo, com mais de 30 km de largura. É um dos maiores latifúndios do país. Na Amazônia, 20% das terras registradas estão na mão de 76 pessoas ou firmas e um latifúndio de 200.000 hectares (100 por 20 km) pode ser considerado modesto.
Enquanto as firmas estrangeiras estão solidamente apoiadas nas leis, os padres desfrutam uma maldição especial. A imagem mais divulgada dos missionários estrangeiros na Amazônia os apresenta com uma Bíblia na mão e contadores Geiger sob a batina.
O mito é alimentado por sua longa e maciça presença na área e por alguns fatos mal explicados. Dos duzentos padres e bispos católicos da Amazônia, 90% são estrangeiros - italianos (40%), holandeses, americanos, alemães e outros. Até há pouco, eles eram responsáveis por toda assistência médica, parte da educação e até da administração do interior da Amazônia. Até hoje, a Amazônia ocidental (a oeste do grande rio) é dividida mais em prelazias (quinze) do que em regiões administrativas. Os prelados ainda são em muitos lugares mais populares e importantes que os prefeitos, seus colégios e conventos são ainda os maiores edifícios das cidades do interior.
O Serviço Nacional de Informações (SNI) tem visitado regularmente as prelazias, empurrado pelos rumores de espionagem. "Agora já desconfio das pessoas de mais de 35 anos que vêm pedir abrigo em meu convento e se declaram estudantes", diz Joaquim Lange, bispo de Tefé, holandês naturalizado, cuja prelazia "é oito vezes maior que meu país natal". Os policiais examinam os livros e em todos os casos divulgados deram-se por satisfeitos. Não há um caso de padre católico preso ou mesmo acusado de espionagem pela polícia.
Os missionários protestantes têm tido menos sorte ou mais atividade e figurado oficialmente como suspeitos. Um grupo de Goiás - onde tem hospital para combater a doença de pele "fogo selvagem" - foi chamado à presença do secretário da Saúde do Amazonas para justificar acusações de usar métodos de esterilização em massa entre as caboclas. Um deles confessou-se partidário dos métodos mas garantiu que sua organização pensava de modo diferente. As acusações deram em nada.
O pastor de Guajará-Mirim, polonês de barba vermelha, foi acusado de ter índios escravos. Não tinha. Tinha bens extraordinários mas legais: um museu fantástico com animais, uma sede luxuosa. E exercia um duvidoso grau de medicina.
OS PROJETOS EM CRISE - Mesmo sendo a "ocupação" pelos capitais estrangeiros pacífica e bem recebida oficialmente e com a ação de possíveis missionários "espiões" limitada a ações mesquinhas, a suposta cobiça internacional tem sido utilizada como elemento - praticamente publicitário - de certas campanhas. O lema da Operação Rondon é "integrar para não entregar". Outros grandes projetos federais feitos depois de 1964 insistiram também na necessidade estratégica de ocupação da área. O presidente Castelo Branco criou a Sudam e a Zona Franca de Manaus. Da Operacão Rondon, no governo Costa e Silva, surgiram os campi avançados na Amazônia, espécie de extensões de universidades do sul.
Atualmente, todos esses projetos federais enfrentam problemas mais ou menos sérios. A década de 70 pode ser a da Sudam, como a de 60 foi a da Sudene - Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste. O governo federal pretende expandir os incentivos fiscais para o norte a um ritmo quase duas vezes superior ao do nordeste. Mas, para isso, a Sudam terá de resolver sua crise atual, que em grande parte não depende dela. Teoricamente, ela deveria coordenar a ação de todos os órgãos federais e estaduais na Amazônia. Mas os planos para a região têm sido feitos por várias cabeças e com preocupações diferentes. A Sudam tinha definido doze regiões prioritárias na Amazônia. O governo do Amazonas definiu sete pólos de desenvolvimento. Os pólos, cidades onde seriam feitos serviços de infra-estrutura, deveriam evitar o êxodo para as capitais. Mas a criação da Zona Franca transformou Manaus num irresistivel pólo de atração. Costa e Silva, quando esteve em Manaus, criou quatro setores prioritários que não cabiam exatamente nem nos doze da Sudam, nem se harmonizavam com os sete pólos do Amazonas. A Transamazônica e a Cuiabá-Santarém, por sua vez, também correm por conta própria nessa selva de prioridades. Em torno das duas estradas - que não atingem nenhum dos pólos - se concentrarão agora os esforços do governo federal. Vinte de 47 hospitais pré-montados que o Amazonas havia comprado para seus pólos e subpólos serão desviados para esse novo projeto do governo.
Com essa prolixidade planificadora, um dos objetivos da Sudam. - o de coordenação do planejamento - tornou-se irrealizável. O segundo - distribuição de incentivos fiscais - vem sendo feito a contento. 454 projetos, que criarão 20.000 empregos diretos e 200.000 indiretos nos próximos dez anos, foram aprovados. Entretanto, muitas das indústrias já instaladas estão com grandes dívidas no Banco da Amazônia e algumas delas sem possibilidades de pagá-las. Um técnico ligado à cúpula do Centro das Indústrias do Pará e de várias empresas de Belém resume a evolução dessa crise: "Nosso desenvolvimento foi muito diferente do das indústrias do nordeste. Para lá foram principalmente firmas do sul que instalaram subsidiárias para atender a um bom mercado de 30 milhões de pessoas. Mas aqui não havia mercado que justificasse a vinda desses grupos, praticamente só a zona de Belém e Bragança merecia esse nome. Fora do setor de exportação, principalmente na mineração, pesca e madeira, nós mesmos tivemos de iniciar o desenvolvimento industrial". A iniciativa foi recebida sem muito entusiasmo no mercado de capitais. "Como não éramos filiais do sul, não recebemos com facilidade os incentivos fiscais, o imposto de renda que era dado ao nordeste pelas próprias matrizes do sul. Para manter nossos projetos já aprovados em andamento, emprestamos dinheiro do Banco de Amazônia S.A."
A emenda foi pior que o estado anterior. O BASA não é banco de investimento. "Financia a curto prazo e juros altos, dezoito meses e juros de 24% ao ano. Depois de implantadas, as indústrias estavam sem capital. Voltaram então ao BASA. Endividaram-se mais. Nesta semana, durante a presença do presidente Medici em Belém, representantes do Centro das Indústrias do Pará estarão pedindo - em termos quase patéticos - providências rápidas e profundas. Dizem que "sentem faltar a base e fugirem os horizontes do principal centro de desenvolvimento da Amazônia (Belém)".
Parte do esvaziamento de Belém foi deliberada. Com a criação da Zona Franca em Manaus pretendia-se forçar os industriais a mergulharem mais para o interior da Amazônia, dando-lhes incentivos adicionais (isenção de taxas de importação) para que abandonassem a relativa comodidade da infra-estrutura de Belém. A ZF realmente mudou a fisionomia de Manaus. Transformada numa espécie de Hong Kong, atraiu compradores e candidatos a emprego. Sua população neste Censo poderá chegar a 350.000 pessoas, um acréscimo de 70.000 em relação às previsões. Os preços, principalmente os aluguéis, subiram bem acima dos níveis do Rio e de São Paulo. Surgiram mais de 1.000 firmas comerciais da criação da ZE em 1966, até 1968, embora o desemprego se mantivesse em torno de 28%. Mas o clima de otimismo e os resultados comerciais não se transferiram com facilidade para o ramo industrial, como pretendia a estratégia da ZF. Más previsões fizeram com que um Distrito Industrial - com a infra-estrutura que Manaus não tem - demorasse a ser instalado para atender as indústrias. E um Distrito Agrícola fosse demarcado às pressas antes de pesquisa para saber o que a área poderia produzir.
Os dois outros grandes projetos federais na Amazônia - Rondon e campus avançado -, depois de um período de grande entusiasmo, também esperam reformulações.
OS MELHORES GOVERNOS - Enquanto os quatro grandes projetos federais na Amazônia vivem seus problemas, os governos estaduais posteriores à Revolução são elogiados até por amplos setores da oposição. Embora as liberdades democráticas tenham sido restringidas pela Revolução, na verdade, na Amazônia, elas tinham escasso sentido há
muito tempo. As eleições eram apenas oportunidades para os mais hábeis e mais poderosos manifestarem sua presteza na manipulação das urnas. Os eleitores das margens dos rios sempre foram conduzidos em barcas de
rumos pouco democráticos e chegavam sempre "de cabresto" para votar.
A nomeação do historiador-escritor-conferencista-defensor da Amazônia Artur César Ferreira Reis por Castelo Branco para o primeiro governo do Amazonas foi saudada com entusiasmo pelos liberais. De fato abriu uma época de renovação administrativa no Estado, cujos sinais ainda são nítidos. A idade média dos secretários do Estado fica em torno dos trinta e poucos anos. A nova expectativa na administração estancou parcialmente o êxodo dos jovens técnicos amazonenses. Artur Reis dedicou-se a combater a corrupção e fez um governo politicamente liberal. Seu exemplo prosperou, o coronel Alacid Nunes, que em 1964 foi chefe de IPM na Universidade do Pará, governou sem que seus adversários o acusassem de grandes perseguições políticas. Nesses dois Estados foi a época dos maiores serviços de infra-estrutura recebidos pelo interior: as primeiras centrais elétricas, os primeiros postos de telecomunicações, os primeiros hospitais.
Parte do sucesso destas administrações resulta de uma das suas qualidades negativas: a marginalização dos opositores. Os programas ficaram facilitados porque não havia deputados brigando para levar as benfeitorias apenas para onde lhes rendessem votos.
No campo da liderança política, numa época de escasaos líderes, a Revolução lançou alguns nomes nacionais através da Amazônia. Três praticamente dominaram as grandes ações na região depois de 1964: Jarbas Passarinho, Haroldo Voloso e Rodrigo Otávio Jordão Ramos. O ministro da Educação, conhecido no interior do Pará apenas como "ministro", é quem manobra os cordéis da política local junto ao governo federal.
O general Rodrigo Otávio, "R. O", como é chamado nos círculos dirigentes do norte, tem uma fama restrita aos organismos e pessoas que decidem as coisas e uma capacidade reconhecida de influir nas providências federais para a Amazônia. De hábitos austeros, é conhecido por sua obstinação em levantar cedo aos domingos para examinar doentes, plantões e malfeitos nos órgãos sob seu comando. E também como um dos mais fortes representantes da "ala nacionalista" do Exército, uma denominação que no Brasil ainda não tem sentido muito preciso, mas para certos efeitos pode significar apenas "ala amazônica". No mês passado, sua visita a Manaus, para instalar o agrupamento de engenharia militar, responsável pela construção da Cuiabá-Santarém, foi considerada uma reunião dos elementos do Exército que defendem intransigentemente a Amazônia. Com R.O. estavam os generais Afonso de Albuquerque Lima (seu "irmão de sangue", segundo o próprio A.L.), Artur Candal da Fonseca, Euler Bentes Monteiro.
Atualmente, o general Rodrigo Otávio propõe para a Amazônia a criação de um novo Exército (o quinto), de um ministério, a redivisão administrativa da área - com a criação de mais Estados e territórios - e a expropriação de terras a 10 km, de cada lado de todas as rodovias federais na Amazônia, como uma extensão do que já está previsto para a Transamazônica e a Cuiabá-Santarém. De seus vários projetos, apenas o do Ministério da Amazônia é muito criticado. Ele deveria servir para coordenar a ação dos vários organismos na área, Mas são essas exatamente as funções da Sudam.
A terceira figura amazônica com recente fama nacional foi um misto de aventureiro, herói e mártir. Haroldo Veloso (1920-1970) morreu no Rio de um enfarte mas viveu agitadamente. Deputado federal pela Arena, pouco antes tentara reconduzir pela força um seu amigo do MDB ao cargo de prefeito de Santarém. Avançou com quinhentos populares contra a sede da Prefeitura ocupada e foi baleado na virilha pela Polícia Federal, enquanto três de seus acompanhantes eram mortos. A estréia de Veloso na grande política nacional quase quinze anos antes fora igualmente pouco monótona. Com um grupo de oficiais da Aeronáutica e aviões, internou-se pelos lados de Aragarças e Jacareacanga em protesto contra a eleição de Juscelino Kubitschek.
Embora nunca tivesse perdido o posto pela coragem física, Veloso, no fim da carreira, parecia um homem mais maduro, em busca de uma ideologia. No começo fora acusado de fascista. No fim dedicara-se à pesquisa da ação dos estrangeiros na Amazônia.
Morto o herói, o mito está nascendo. A rodovia Cuiabá-Santarém deverá chamar-se Haroldo Veloso. Em Santarém ajudará o MDB a eleger os políticos da área.
DECEPÇÃO E ESPERANÇA - Mas quaisquer que sejam os resultados das escaramuças políticas pela reestruturação, administração e liderança política da Amazônia, o final da batalha pela sua colonização será jogado diretamente entre a terra e os colonos. Os poderes da terra amazônica até recentemente eram tão fantásticos quanto as mulheres guerreiras que aturdiram os sonhos dos primeiros espanhóis a visitarem o rio-mar. Mas os mitos ajudaram os primeiros colonizadores. Cedo se descobriu que a floresta, na sua maior parte, era fragilmente apoiada numa fina camada de solo assentada sobre uma planície de argila. Sem a capa florestal, esse tapete de adubos ficava exposto ao sol de 25 a 35 graus dos trópicos. E a drenagem de seis meses de chuvas contínuas acabava lavando os elementos férteis já então queimados. Também a fauna perdeu as amazonas, gárgulas e hipogrifos, do descobrimento e ficou perto do decepcionante. Nada dos grandes mamíferos, elefantes, girafas, leões. Os bichos mais notáveis em termos internacionais ganharam projeção pelo ridículo: são os grandes e grotescos desdentados como o tamanduá, a preguiça e o tatu. Com exceção da queixada e do caititu, que formam magotes vorazes e respeitáveis, os únicos grandes bandos além das aves e insetos são récuas desprezíveis de guarás, quatis, gambás, cutias, preás e caxinguelês.
Com a derrubada dos mitos, feita também de forma não científica, surgiu o descrédito pela região. Nesse jogo de contradições, só agora surge uma síntese preliminar e honesta sobre as possibilidades da Amazônia. Segundo Alfonso Wisniewski, 50, paranaense, diretor e antigo funcionário do IPEAN (Instituto de Pesquisas e Experimentação Agronômica do Norte), realmente mais de 80% dos solos são fracos. Neles só se pode fazer agricultura com técnicos especiais, sob pena de transformá-los em desertos. "Mas existem manchas de terras de fertilidade alta e média. Embora em termos percentuais sejam poucas, em números absolutos representam área considerável." As áreas de terras roxas (boas) já pesquisadas pelo IPEAN somadas constituem uma área igual à das terras férteis do Paraná e São Paulo. "Nelas", diz Wisniewski, "um agricultor pode obter excelentes resultados se tiver, por exemplo, o cuidado de organizar uma plantação de gêneros alimentícios e outra de árvores de valor econômico, entre o cacau, dendê, pimenta-do-reino, café e outras."
Com pesquisa e paciência, os resultados podem ser admiráveis. Três exemplos que a Amazônia já está dando para seus futuros colonizadores:
O francês: A 60 km de Belém, o francês Roland Hughneau dirige há três anos, para a Sudam, uma plantação de dendê atualmente com 800 hectares, 280 funcionários com salários superiores ao mínimo, mais assistência médica e escolar. Atualmente está pronto para a construção de uma fábrica de óleo que aproveita a produção de dendê e para ampliação da plantação para 1.500 hectares e mais quinhentos trabalhadores. Hughneau, 33, do Instituto de Pesquisas de Óleos de Paris, já plantou dendê na Colômbia e no Congo. Sua mulher, também francesa, depois de Saigon, da Colômbia e da África, acha a floresta tropical brasileira, em termos de doenças e clima, a melhor que conheceu. O dendé tem alto preço no mercado e quatro anos seriam suficientes para Hughneau criar novas perspectivas para alguns milhares de colonos em núcleos ao longo da Transamazônica.
O Japonês: Nas boas terras de Altamira, a 5 km da cidade, Issao Kitagawa, 56, e sua mulher, depois de quinze anos no Brasil e sete no vale do Xingu, organizaram, sem qualquer apoio oficial, uma plantação que revoluciona os hábitos dessa cidade da Transamazônica. Em apenas 4 hectares empregam vinte pessoas a salários superiores aos níveis do campo de São Paulo (6 cruzeiros por dia, mais refeições), faturam 12.500 cruzeiros por mês e abastecem 95% do mercado de Altamira. Fornecem - em termos amazônicos - "produtos exóticos": tomate, repolho, berinjela, alface, cenoura, vagem e o imaginável. Seus resultados são um produto de técnica e determinação. Tomates são enxertados em pés de jurubeba, pimenta é plantada em solo coberto com gravetos. Se o governo poderia multiplicar sua experiêricia pela região? Na sua fala atrapalhada ele responde algo assim: claro, se plantar e fizer experiência em larga escala saberá com mais rapidez e certeza do que eu o que é melhor para enfrentar este sol e esta chuva.
O americano-brasileiro: Em Belterra, cortada pela Cuiabá-Santarém, no vale do Tapajós, e em Fordlândia, cortada pela Transamazônica, mais ao sul, estão prontos para serem colhidos os frutos de 42 anos de experiência em plantio de seringueiras, plantadas inicialmente por empregados do pai do capitalismo moderno, Henry Ford. Dos 12 milhões de hectares iniciais restam 400.000 árvores no corte, já todas além da idade econômica de exploração. Fordlândia agora se dedica mais à pecuária (1.500 cabeças de gado de raça contra 4 t/mês de borracha). Mas em Belterra, depois de décadas de decadência, poderia renascer o cultivo da seringueira. O administrador de Belterra, o agrônomo Natalino Penner, 41, diz que agora já é possível aconselhar o plantio da borracha e dizer como fazer. Até este resultado, houve um longo caminho de derrotas. Os americanos primeiro plantaram a seringueira nativa. Aí, os fungos amantes da seringueira nativa, que levavam horas para ir de uma a outra na selva natural, tiveram uma festa encontrando-as enfileiradas. Os persistentes americanos trouxeram então o tronco de seringueiras do Oriente e o enxertaram nas nacionais. Aí, a copa das árvores - que na Ásia não agradava aos bichinhos orientais - revelou-se um prato apetitosíssimo para os locais. Então, os incansáveis americanos enxertaram uma copa nativa na árvore já com pé nativo e corpo alienígena. Aí, elas ficaram disformes, finas no pé, largas no meio, grossa na cabeça, ou vice-versa, mas deram borracha. Então, os americanos foram embora (1946). E Belterra chegou às mãos do Ministério da Agricultura. Penner, agora, tem novo entusiasmo: descobriu o casamento ideal para as seringueiras e obteve uma árvore uniforme e produtiva. Se sua experiência poderia ser aplicada na Transamazônica? Claro! Ele espera os técnicos do ministério para discutir isso.
FRUTOS DO ELDORADO - Outras possibilidades da colonização do norte são ainda mais extraordinárias. A Amazônia é o pomar de alguns dos mais exóticos frutos da terra. Segundo muitos técnicos, sua industrialização - como a de todo produto regional - é a única via clara para o sucesso e a riqueza. Experimentar sorvetes, refrescos, caldos e compotas amazônicas é uma viagem pelos campos do sabor. O açaí, fruto de uma palmeira franzina, bem preparado é um caldo tinto e grosso, com o paladar de um abacate envolvido por algum mistério. O bacuri em compota lembra o doce da casca de laranja grossa que a mãe da gente fazia quando éramos crianças, nham, nham, nham. O sorvete de cupuaçu, de um ouriço marrom-escuro, lembra aquele limão que é comido, é claro, pelos pecadores saídos do purgatório. E sem falar nos óbvios maracujá, caju e guaraná há ainda a gravícola, um abacatão espinhento da família da fruta-de-conde, o araçá, um goiabão cítrico, e outros além do cutiti, sem seu pecaminoso gosto - ah, quem não comeu! - de esmalte.
E por que não fazendas de tartarugas, iaçás, muçuãs, jabutis e outros infelizes cascudos cujos gostos fazem admiráveis variam em torno do da deliciosa carne de pescoço? Por que não, hein, slursh, slursh? Quem defende a criação de tartarugas é o diretor do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, dr. Paulo Carvalho: "Ela põe mais de trezentos ovos por ano e em seis ou dez suas crias atingem tamanho econômico. A porca só pode ter doze filhotes por ano e quem pode comer muito porco neste calor dos trópicos?"
Sem exigir plantio ou criação, outros campos da Amazônia oferecem mais que promessas assombrosas: apresentam resultados assombrosos. As minas de ferro da serra dos Carajás, as de manganês do Amapá, a cassiterita (estanho) de Rondônia, o alumínio do Pará quase certamente são apenas os primeiros sinais do subsolo. Por enquanto, o governo fez o levantamento aéreo de 1,2 dos 5 milhões de quilômetros quadrados da Amazônia legal. A partir de 1966, o apetite das firmas pelo subsolo amazônico subiu de cinqüenta pedidos de prospecção por ano a mais de 250 atuais. Possíveis descobertas sugerem um novo Eldorado. O tenente Pinheiro Lopes, chefe da Fundação de Amparo ao Garimpo, em Santarém, que assiste 6.000 garimpeiros numa área que produz 16 t de ouro em pó por ano, fala de um futuro incrível: "Estou certo de que as lâminas dos tratores do Exército levantarão pedras de ouro do solo durante a construção da Cuiabá-Santarém". A lógica de seu raciocínio: os setenta garimpos atuais se situam no Tapajós ou em afluentes que na maioria têm nascentes na serra do Cachimbo, por onde passará a estrada. Se desce ouro em pó no rio, em algum lugar acima devem estar os filões. Até agora, os índios têm mantido os garimpeiros longe das fraldas da serra. Que acontecerá quando o Exército der cobertura à invasão da serra?
Infelizmente, nem todas as prodigiosas riquezas da Amazônia serão levantadas do chão por tratores descuidados, com o ouro previsto pelo tenente Pinheiro. Para sair do subsolo, do húmus, do rio ou do meio da mata exigirão grandes investimentos e pesquisa. Por que, por exemplo, se planta o dendê na Amazônia se ele vem de uma palmeira africana e o Brasil tem o maior número de espécies oleaginosas do mundo? Porque das 1.500 espécies de árvores catalogadas da Amazônia nem vinte foram ainda definidas, mesmo precariamente. A situação atual dos principais institutos de pesquisa da Amazônia não estimula o otimismo. O IPEAN, teoricamente uma das vigas de apoio para a agricultura das próprias margens da Transamazônica, tinha setenta técnicos. Mas os salários baixos reduziram o quadro para trinta. As verbas do INPA têm crescido em ritmo menor que a inflação. E o INPA mantém a única reserva ativa na pesquisa de madeiras da Amazônia (reserva Ducke, um técnico, doze braçais) e tem trabalhos notáveis, como a pesquisa do morototó, árvore para celulose de papel que em quatro anos supera o crescimento de seis anos do eucalipto.
A falta de verbas para a pesquisa pode ter graves conseqüências para o futuro da natureza amazônica. Pesquisa e preservação do ambiente estão muito ligadas. As leis brasileiras de proteção à fauna e à flora são das melhores do mundo. Mas sua aplicação prática, pelo menos na Amazônia, vinha sendo das piores.
A proteção da floresta parece mais fácil. A floresta não é homogênea e o madeireiro não derruba toda a mata para apanhar um mogno aqui, outro acolá. Mesmo assim, as serrarias - que agora receberam mais dois anos de prazo do governo para exportar madeira em bruto - são os símbolos do progresso das pequenas cidades do interior. Num sentido mais amplo, elas são também o símbolo da destruição amazônica: não fazem reflorestamento e em pouco tempo comeriam seu próprio futuro. Mas ainda há muito tempo para modificar a tendência. Técnicos e pesquisadores apresentam uma proposta: por que o Exército não ocupa alguns desses núcleos a serem construidos à margem das estradas e passa a auxiliar a defesa da natureza amazônica?
Outros órgãos já começam também a inverter processos dramáticos. Embora o muçuã - cascudo entre o Jabuti e o caranguejo, de consumo proibido atualmente - seja servido e conste do menu de qualquer restaurante de Belém, a Superintendência do Desenvolvimento da Pesca já conseguiu fazer com que populações de tartarugas começassem a crescer novamente, protegendo alguns tabuleiros onde elas põem seus ovos. Mas é necessária ainda uma mudança nos próprios dirigentes. A casa de alguns deles até há pouco era o melhor lugar para se comer uma boa tartaruga proibida.
CONVITE À VIAGEM - Em Manaus, Santarém e Altamira se pode ver o caos e o entusiasmo da nova Amazônia que saiu do mito para a desesperança e agora para o otimismo. Bons e maus aventureiros, com planos entre louváveis e escusos, estão se chegando à região. Não é a primeira vez. Itaituba, no extremo oeste paraense da Transamazônica, já recebeu com exclusividade os principais cantores de ópera de Milão durante o fastígio da borracha, no século passado. Em épocas mais recentes, Nilçon Barroso Pinheiro, o grande garimpeiro do Tapajós, o homem que - contam os amigos - quebrou o maior número de corações na área, descia o rio com quilos de ouro e fretava Caravelles em Santarém para, com os amigos, ir fechar as boates do Rio ou São Paulo em festas inimagináveis. Hoje, com 35 anos, é prefeito de Juruti (PA). Em Porto Velho, anos atrás, garimpeiros fechavam cabarés e levavam as mulheres para procurar pepitas de cassiterita que haviam enterrado nos igarapés.
Agora, o garimpo está legalmente restrito a firmas organizadas. Embora os tempos da aventura estejam sendo empurrados mais para o interior e os técnicos e burocratas estejam chegando aos maiores núcleos, mesmo ali eles sofrem certa metamorfose. Habituam-se à sesta de uma hora ou mais entre o almoço e o segundo expediente, aprendem que a gravata e o paletó ali têm utilidade ainda mais escassa e comportam-se, mesmo no serviço, em geral, de forma diferente. Recentemente. numa das regiões administrativas da Amazônia, um governador, um major, um tenente e um secretário de obras discutiam - de uma forma que dificilmente se veria no sul - o destino de uma ponte incomum. O tenente havia mandado aterrar duas cabeças de ponte de cada lado do rio, colocara uma balsa entre elas e fizera uma ponte flutuante - a primeira sobre aquele feito de água, que separava a importante cidade em duas partes, unidas apenas por balsas e canoas. O governador ponderava que a ligação era proibida por um tratado xis, pois interrompia a navegação entre o Brasil e o país ípsilon. O secretário reclamava que a ponte - como era de todo fora de discussão - não obedecia a padrões técnicos. O major do comando da unidade que viera para mediar o caso apaziguava os ânimos. E o tenente, como subordinado, ouvia. Depois de ouvir duas horas, "e como estava na hora do almoço e eu já não agüentava mais de conversa mole e fome, me levantei e disse: 'Governador, o que o secretário quer não é uma ponte, é uma pinguela. Se eu fosse o senhor o mandava à...'" Mandou e se retirou. A ponte ficou no lugar.
Mais do que por essa possível falta de ortodoxia no comportamento social, a Amazônia atrai pela grandiosidade dos projetos que o homem pode realizar. "Em que lugar eu poderia fazer um estádio, uma igreja, um quartel, um mercado, um centro de pesquisas?", diz o arquiteto Severiano Porto, 40, mineiro, autor de belos projetos em Manaus, considerados os primeiros passos certos na direção de uma arquitetura amazônica.
O engenheiro Devir Credídio, loiro e simpático, que dirige a frente de trabalho de uma empreiteira perto de Rio Branco (AC), comenta sua viagem de recém-formado para a Amazônia com o mesmo entusiasmo: "Nunca aprendi tanto na minha vida. Aqui a gente faz coisas de que não se julgava mais capaz. A falta de recursos nos obriga a desencantar em nós mesmos habilidades adormecidas". "Quando eu ouvia falar da conquista da
Amazônia me sentia como um velho marinheiro no porto de Palos vendo as caravelas de Colombo partirem. Pensei comigo: 'Eu também sou marinheiro'. E vim."
Esses depoimentos soam como um convite; quem for marinheiro saiba que os ventos sopram para o norte.
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