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Reportagens 14 de setembro de 1983Setembro quente no Rio de Janeiro Saques, greves e confrontos
Foi como se um rastilho de pólvora, aceso na tarde do último dia 3, um sábado, no habitualmente pacato subúrbio de Realengo, na Zona Norte do Rio de Janeiro, se espalhasse em diferentes direções pela cidade, gerando insegurança e, em certos casos, pânico entre a população carioca. Naquela tarde, 500 pessoas reuniram-se na favela da Vila do Vintém - um aglomerado de 9.000 barracos com 40.000 moradores - e marcharam sobre o Supermercado Guanabara. As portas de aço do estabelecimento resistiram por poucos minutos aos pontapés e pauladas da multidão que depois, silenciosamente, esvaziou as prateleiras. O saque durou até a chegada de soldados do 14º Batalhão da Polícia Militar, quase meia hora depois. Estava dada a senha para o início de uma semana negra no Rio, que deixou um saldo de 38 supermercados e padarias saqueados, 30 tentativas de roubo a outros estabelecimentos comerciais, na maior sucessão de incidentes desse tipo ocorrida nos últimos vinte anos na cidade. A esses números, por si desastrosos, juntaram-se uma greve ilegal de 1.700 lojistas do bairro de Madureira e, na sexta-feira, um princípio de rebelião no Presídio Lemos de Brito, provocado por uma outra tentativa de greve ilegal - a dos guardas penitenciários. Diante dessa cadeia de violências, o governador Leonel Brizola acreditou, de início, que poderia combater com sua velha arma - a televisão. Falou à população na noite de quarta-feira e, na manhã seguinte, como os saques prosseguissem, tomou a providência que evitara por 48 horas: colocou de prontidão os 26.500 soldados da PM e os 7.500 integrantes da Polícia Civil na área metropolitana, mas com poucos resultados. Retardatária, a engenharia política do socialismo "moreno" - nome que Brizola dá à sua experiência política - revelou-se incapaz de conjurar até mesmo os efeitos da anunciada greve dos guardas, que acabou numa tentativa de motim, com um morto. No final da semana, ainda às voltas com saques intermitentes e a progressiva ampliação da área conflagrada, a população do Rio de Janeiro afligia-se com a suspeita de que a cadeia de desordens poderia estender-se além da quente primeira semana de setembro. RADINHO DE PILHA - "Só deu tempo para baixar as grades", conta Salvador Peixoto de Souza, gerente do Supermercado Guanabara, o primeiro a ser saqueado. Avisado de que uma multidão sobraçando sacolas e bolsas seguia para o supermercado, Souza fechou as portas e chamou a polícia. Como a polícia demorasse a chegar, teve de assistir, impotente, aos roubos de garrafas de bebidas, latas de azeite, panelas de pressão e sacos de arroz e feijão. "A maioria das pessoas parecia estar embriagada", diz Carlos Panzariello, chefe do caixa do Guanabara. Do homem que aparentava ser o líder da invasão, Panzariello ouviu uma frase tranqüilizadora: "Não queremos nada de ninguém, só estamos com fome". A dispersão dos saqueadores pela polícia não encerrou o pesadelo que afligia o chefe do caixa. Um novo grupo de saqueadores retornou ao supermercado na madrugada de domingo, dia 4, forçou novamente a porta, e só esqueceu de trazer as sacolas. Com isso, os mantimentos restantes foram levados nos carrinhos do Guanabara. "Chegaram a levar até o radinho de pilha do vigia", espanta-se Panzariello. "Ele ficou tão assustado que não voltou mais para trabalhar nos dias seguintes." O resultado foi um prejuízo de 20 milhões de cruzeiros para o supermercado, não coberto por seguro, e uma queda brusca no movimento, já que os fregueses temem colidir com novas investidas dos saqueadores. No domingo, o alvo dos grupos que saíam da Vila do Vintém foi o Supermercado Chefão, em Padre Miguel, a 1 quilômetro do Guanabara, a primeira vítima. Em 15 minutos, 15 milhões de cruzeiros em mercadorias passaram pelos olhos do gerente Tadeu da Silva, 32 anos. Sem mantimentos para vender, o dono do supermercado despediu 22 funcionários. "Daqui a pouco eu vou ficar desempregado", prevê Silva. "O proprietário não vai demorar para acabar de vez com o negócio." PAUS E PEDRAS - Brizola começou a semana aparentando indiferença aos saques - ele se limitou a deixar que a máquina policial do Estado fizesse o que achasse melhor. A máquina achou melhor não fazer nada. Na Vila do Vintém a polícia não entrou sequer para fazer averiguações, embora na região todos soubessem que os bandos de saqueadores partiam de lá. Ainda na noite de domingo, Alonço José dos Santos, 56 anos, diretor da Associação Pró-Melhoramentos da Vila do Vintém, estava sentado na calçada em frente à sua casa quando viu passar um amigo com seis pacotes de macarrão. "Os moradores da Vila são honestos até no saque", pensou. "Podendo roubar carne ou mercadorias caras, este aí foi sair só com seis pacotinhos de macarrão." Por três dias as multidões de famintos, desempregados, crianças e arruaceiros concentraram sua ação em Padre Miguel e Realengo, vizinhos da Vila do Vintém. Depois, os lances de ousadia se espalharam por quase todos os subúrbios que margeiam os trilhos da Rede Ferroviária Federal, que cortam ao meio a densa zona suburbana do Rio. No feriado de 7 de Setembro, a Vila Kennedy, bairro formado há vinte anos por populações faveladas da Zona Sul removidas à força para o subúrbio, virou uma verdadeira praça de guerra. Na praça central da vila, distante 25 quilômetros do centro da cidade, mais de 1.000 pessoas enfrentaram 150 soldados de dois batalhões de choque da Polícia Militar. Dois supermercados atacados na madrugada daquele dia ficaram sob a proteção da polícia desde a alvorada. A exibição de força não foi suficiente para atemorizar os saqueadores. Rechaçada a primeira investida, a multidão voltou à carga, atirando pedras e paus nos soldados, que revidaram com bombas de gás lacrimogêneo e tiros para o ar. MÃE IMPETUOSA - "Estamos com fome" e "Joga pedra na Geni" eram os gritos de guerra dos saqueadores, insuflados principalmente por Zelinha Conceição Sobrinho, 19 anos. Ela participou ativamente do tumulto, xingando os policiais, jogando pedras e organizando os ataques, protegida pela barreira humana que a separava da PM. No final, acabou presa. "Não me arrependo de nada", disse ao ser detida. "Estou desempregada, ninguém resolve a minha situação e, quando votei no Brizola, esperava que as coisas mudassem", argumentou. "Como o voto não muda nada, o jeito é agitar. É a única maneira de mostrar às autoridades, que estão ficando ricas às custas da nossa paciência, que o Brasil pode explodir." Zelinha confessa que foi procurada várias vezes em sua casa por "cinco caras que sabem das coisas" - e eles teriam aberto seus olhos para "o que está errado". A mãe de Zelinha, Adelina, 45 anos, também mostrou-se impetuosa ao saber que a filha fora presa. Atravessou o cordão policial e, num discurso candente, ofendeu os soldados e exortou os curiosos a seguirem o exemplo da filha. Mãe de seis filhos, Adelina Sobrinho trabaha doze horas por dia como empregada doméstica e ganha 42.000 cruzeiros por mês. "Esses supermercados do bairro exploram a gente", gritou. "Precisamos percorrer 25 quilômetros para conseguir comida mais barata no centro. Os gerentes dos três supermercados já foram procurados pela população, que pediu para eles pararem com essa loucura. Como eles não ligaram e nos ofenderam, eis aí o resultado." RISCOS MAIORES - Toda a arruaça promovida por Zelinha e sua mãe, contemplada por centenas de testemunhas, não provocou qualquer embaraço legal para a dupla. Zelinha prestou um curto depoimento na delegacia de Vila Kennedy, foi libertada em seguida e, até a noite de sexta-feira passada, não fora indiciada em nenhum processo. Do outro lado do beco da crise econômica, onde fumega o caldeirão da revolta, está o cidiadão português Antônio Serrano, 56 anos, dono do Supermercado Vila-Poti, um dos três saqueados em Vila Kennedy e denunciado por Adelina Sobrinho. Ele reconhece que seus preços são superiores aos dos supermercados do centro da cidade, mas alega não ter outra saída. "Não tenho seguro, que nenhuma companhia me aceitou", esclarece, "e corro riscos maiores numa região como esta." Serrano teve um prejuízo de 850.000 cruzeiros com o saque de quarta-feira passada. Logo após o roubo, junto com o filho Vítor, 26 anos, Serrano lacrou três das quatro portas do estabelecimento e avisou que só ocorreria um novo saque "sobre meu cadáver". Revólver na mão, prometia usar "a linguagem do chumbo". Serrano queixa-se "do medo e da inoperância da polícia", e lamenta ter desembolsado 45 milhões de cruzeiros para comprar o supermercado, há cinco meses. Escaldado pela Revolução dos Cravos, que testemunhou em 1974, seu diagnóstico para o Brasil é sombrio. "Perdi minha fábrica de conservas em Portugal. Parece que agora tenho uma nova revolução pela frente. Como não agüento mais fugir, só sairei dela morto, pois nesta selva não espero ninguém que me ajude." QUESTÃO CENTRAL - Caminhando na corda bamba esticada por Zelinha e Serrano, segurando as pontas opostas, Brizola não usou da sua autoridade, outorgada por 1,7 milhão de votos nas eleições de novembro, para garantir o quesito número 1 do código destinado a evitar que o equilibrio se rompesse: a manutenção da ordem pública. Nervoso, o governador gravou um pronunciamento de 4 minutos para a televisão, transmitido em cadeia para todo o Estado na noite de terça-feira, Nele, garantiu que o policiamento seria intensificado e que a ordem seria mantida. No dia seguinte, o policiamento continuou o mesmo e os saques aumentaram. Brizola, então, convocou uma entrevista coletiva e começou a apontar os culpados. "Tudo começou em Madureira", declarou, referindo-se aos comerciantes que fecharam suas portas no bairro, durante a tarde de segunda-feira, em protesto contra a invasão de camelôs na região, que teriam provocado a demissão de 3.000 funcionários das lojas nos últimos três meses, em função da concorrência e da queda do movimento. Afinal, os camelôs, instalados em barracas, não pagam impostos e, portanto, vendem a preços mais baixos que os do comércio. Na sexta-feira, o governador insinuou que os saques seriam organizados pela extrema direita, sem apontar qualquer fato concreto capaz de comprovar sua tese. É possível especular-se ao infinito sobre que forças, maquiavélicas, reais ou sonhadas, estariam articulando a maré de saques no Rio de Janeiro. É inegável, porém, que tais elucubrações não bastam para proteger a população e os comerciantes, que pagam impostos e reivindicam um mínimo de tranqüilidade para trabalhar em paz. Ao eleger sucessivos bodes expiatórios para a confusão que se estabeleceu na cidade, Brizola deixou de lado a questão central: se uma multidão está na rua disposta a saquear, não basta colocar soldados nas portas de mercearias, supermercados e padarias - é preciso dispersá-la. Isto não aconteceu, por exemplo, em Vila Kennedy, onde a PM, na quarta-feira, não afugentou os saqúeadores. Quando a PM se retirou do local, a multidão voltou a tentar entrar nos supermercados. VOTO DOS FAVELADOS - "Passado o perigo do saque, nossa missão já não inclui o afastamento da multidão, desde que ela esteja a uma distância em que a segurança da casa comercial permaneça a salvo", explica o capitão Costa, que comandou a PM em Vila Kennedy. "A instrução que temos é de permanecer no local, esperando que o tempo, a chuva ou mesmo o cansaço dissolva a aglomeração." O capitão também comenta que, na época em que o coronel Nilton Cerqueira comandava a Polícia Militar, durante o governo Chagas Freitas, tudo era diferente. "Ele mandaria dispersar para valer", diz o capitão. Raciocínio semelhante é feito por um general do Estado-Maior do Exército. "Se o comando das ações estivesse com um coronel do Exército, certamente haveria maior controle da situação", diz o general. "Mas isso poderia gerar problemas com o governador, que não quis reprimir com firmeza os assaltos para não perder o voto dos favelados no Rio, porque ele acredita em eleições diretas para a Presidência." Em Brasilia, os acontecimentos no Rio de Janeiro e a postura de Brizola não foram motivo somente de preocupações, mas de uma verdadeira mobilização. Assim, agentes do Centro de Informações do Exército (Ciex), do Centro de Informações da Aeronáutica (Cisa), do Centro de Informações da Marinha (Cenimar) e do Serviço Nacinal de Informações (SNI) acompanharam a situação in loco. O Cenimar chegou a pedir um reforço de mais dez homens na sexta-feira, totalizando 70 agentes. Mesmo com esse respeitável aparato de coleta de informações, ninguém no Palácio do Planalto veio a público para apontar supostos responsáveis da direita, da esquerda, do centro ou de qualquer outro canto do tabuleiro político. E nada impede que com o tempo, apesar dos esforços de Brizola para atirar a culpa na direita, e da esperança de Brasília de colocá-la nas costas da esquerda, se descubra que os saques ocorreram pelo singelo motivo de que no Rio há pessoas sem dinheiro para comprar comida. LISTA DE JUSTIFICATIVAS - Apesar das reiteradas manifestações dos ministros Ibrahim Abi-Ackel, da Justiça, e Rubem Ludwig, do Gabinete Militar, que se juntavam a Carlos ÁtiIa, porta-voz da Presidência, para afirmar que confiavam em Brizola para evitar uma maior radicalização no Rio, suspeita-se no Palácio do Planalto de que o governador do PDT terminará por abdicar da prudência. Segundo esse raciocínio palaciano, Brizola não terá como atender aos reclamos da população, e apelará para um novo bode expiatório, o governo federal. Por enquanto, porém, Brizola não aponta para esse caminho - tanto assim que, na sexta-feira passada, ele telefonou ao ministro Leitão de Abreu, chefe do Gabinete Civil, solicitando uma audiência com o presidente Figueiredo nesta semana. O presidente teria concordado com o encontro, mas ainda não foi marcada a data. "A situação já está amainando", disse o governador a Leitão de Abreu. De viva voz, Brizola poderá desfilar ante o presidente sua extensa lista de justificativas para os saques. Nela figura a hipótese, levantada na sexta-feira, de que o conflito no Oriente Médio teve repercussões cariocas. "Jamil Haddad (prefeito do Rio) é de origem árabe, e o presidente da Associação Comercial de Madureira (Renato Gertzenstein) é judeu. Os saques também são resultado dessa irresponsabilidade, que foi um mau exemplo e ajudou a preparar o ambiente para essas articulações", diz Brizola. A teoria etnoconspiratória de Brizola cai-lhe sobre a cabeça quando se sabe que ele acaba de levar para sua equipe um técnico de origem judaica - o ex-prefeito de Curitiba, Jaime Lerner. E mais: um de seus opositores na campanha eleitoral, o ex-deputado Miro Teixeira, é filho de uma imigrante palestina. Na essência, conviria a Brizola colocar no Oriente Médio as desordens que tem em casa. Da mesma forma, não há relação de causa e efeito entre a greve ilegal dos comerciantes de Madureira - que não sofreu qualquer tipo de resposta policial do governo, nem mesmo a abertura de um inquérito - e os saques da semana. Além disso, as pilhagens começaram no sábado, dia 3, e o locaute dos lojistas ocorreu dois dias depois, na segunda-feira passada. "Com medo de um eventual quebra-quebra, ou mesmo de uma reação dos camelôs, Brizola não viu os problemas do pequeno comerciante", ataca Ruy Barreto, presidente da Associação Comercial do Rio de Janeiro. O prefeito Haddad limitou-se a anunciar que "talvez façamos uma fiscalização mais profunda, em conjunto com a Secretaria da Fazenda" sobre os comerciantes do bairro. ANÁLISE ABRANGENTE - Com sua declaração, o prefeito do Rio insinua que as fiscalizações "mais" ou "menos" profundas, e não o singelo cumprimento da lei, podem ser a resposta do governo. "No tempo do Chagas Freitas, a fiscalização era corrupta e deficiente, mas ainda existia", revida Ruy Barreto. "Agora, com Brizola, ela nem sequer existe." Haddad também anunciou que 14.000 camelôs receberão licenças da Secretaria Municipal da Fazenda. Mas ainda irão restar 56.000 vendedores ambulantes em situação irregular, que serão fiscalizados por uma equipe de 700 homens. Ou seja, haverá um fiscal para cada oitenta camelôs. Na última semana, porém, Brizola mostrava-se disposto a reprimir os camelôs sem crachás. A oposição ao governo do Rio se dividiu ao buscar interpretações para os saques e tumultos. "A situação revelou a incompetência e a falta de autoridade de Leonel Brizola", avalia Sandra Cavalcanti, candidata do PTB nas eleições para governador. "Achar que se vai resolver o problema do desemprego transformando metade da população em camelôs mostra uma falta de visão administrativa do governador." Sandra Cavalcanti também lamentou que o socialismo "moreno" não esteja se saindo bem na administração do Estado. "Quando perdi as eleições, torci para tudo dar certo", afirma. "Não sou de querer ver o circo pegar fogo, mas o Brizola me decepcionou muito." Para outro derrotado na disputa pelo governo do Rio de Janeiro, o ex-deputado Miro Teixeira, é necessário uma análise mais abrangente das explosões na Zona Norte. "A repressão policial pode interromper os saques, mas não vai elimíná-los", acredita. "Sem mercado de trabalho, as pessoas se desesperam e mostram o erro das políticas impostas autoritariamente." Para Miro, só uma política de pleno emprego e promoção social, "capaz de garantir sem paternalismo a sobrevivência das pessoas, vai solucionar a crise". O pensamento de Joãozinho Trinta, da escola de samba Beija-Flor de Nilópolis, é semelhante, com a diferença de que ele propõe alternativas em pequena escala. "Os saques são resultado da grave crise nacional", diz. "Por isso que estamos organizando mutirões em Nilópolis, incentivando as pessoas a plantarem hortas em suas casas. Dessa maneira, evitamos os saques." TIRO NA CABEÇA - Nesse pântano de crise e revolta, sempre aparecem os aproveitadores. Marcelino Meireles, por exemplo, foi preso com uma garrafa de álcool, um pano molhado e uma caixa de fósforos atrás de uma filial das Casas da Banha, na Zona Norte. O coquetel Molotov, segundo seu depoimento na Delegacia de Bangu, foi-lhe entregue por uma moça morena, vestida com um abrigo esportivo, que o instruiu para incendiar os cilindros de oxigênio do supermercado. Meireles foi um dos seis presos em flagrante durante os saques da semana passada, e a polícia o considerou um "desajustado". Situação igualmente estranha ocorreu no subúrbio de Irajá. Passada a meia-noite de quarta-feira, um grupo tentou arrombar um supermercado. "Isto é coisa da extrema-direita", opina João Passos, presidente da Associação Pró-Melhoramentos da Vila do Vintém. Se Brizola concorda com a afirmação de Passos de que organizações direitistas fomentaram os saques, ele então deveria ter-se esfoçado ao máximo para coibir os assaltos, tentando deter os provocadores para exibi-los à opinião pública. Vidas estiveram em perigo na sexta-feira, na Penitenciária Lemos de Brito, onde uma tentativa de motim e fuga dos 900 detentos terminou com a morte de um deles, o assaltante Raimundo Nona. Os 250 guardas do presídio pretendiam deflagrar uma greve naquele dia, mas nem puderem iniciar o movimento. Os detentos agiram antes, abrindo fogo contra as guaritas. Dado o alarma, helicópteros da Secretaria da Segurança sobrevoaram o presídio, e foram alvejados, também sem sucesso. Na confusão, que durou três horas, a Falange Vermelha e a Falange do Jacaré, dois grupos rivais de bandidos que agem dentro e fora das prisões cariocas, partiram para um acerto de contas. Assim, Célío Tavares da Fonseca disparou um tiro de revólver na cabeça de Raimundo Nona. Novamente faltou agilidade ao governo do Estado, pois a paralisação dos 250 guardas vinha sendo planejada há dias. "Não temos condições de trabalhar", diz um dos guardas que organizou a greve fracassada. "Somos nós que garantimos a segurança nas penitenciárias e não temos segurança alguma." O socialismo "moreno" viveu, na semana que passou, uma série de paradoxos: comerciantes que não queriam vender, consumidores que não queriam pagar e guardas que pediam maior segurança. |
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