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14 de junho de 1995
Era uma vez
o monopólio
da Petrobrás

O governo ganha fácil
e abre caminho para
mudar a produção do
petróleo no Brasil

O povo assistiu bestializado à quebra do monopólio da Petrobrás. Por 366 votos a favor e 139 contra, a Câmara dos Deputados aprovou a emenda constitucional que dá à iniciativa privada o direito de entrar numa área que é exclusiva da estatal desde 1953. Para ser incorporada à Constituição, a emenda terá de ser aprovada mais uma vez pela Câmara e duas vezes pelo Senado. A emenda foi aprovada sem o protesto dos adversários e sem comícios de quem festeja a mudança. O país ficou em silêncio enquanto o Congresso promovia cenas de puro teatro. Para simular que estavam mobilizando massas pró-monopólio, os adversários da emenda do governo limitaram-se a arregimentar um grupo de sem-terra, que estava de folga entre uma e outra visita ao Incra, para fazer um protesto na Praça dos Três Poderes. Só não passaram inteiramente despercebidos porque forçaram a entrada no Congresso e, na confusão, três vidraças partiram-se com pontapés.

Não fosse pelo gosto da encenação, os caciques do monopólio, Luís Inácio Lula da Silva e Leonel Brizola, teriam feito mais do que posar para fotografias diante de bandeiras dizendo que o petróleo é deles. Na disputa pelas atenções, parlamentares-atores se vestiram a caráter. A petista Maria da Conceição Tavares compareceu à votação fantasiada de viúva. O deputado Roberto Campos, do PPR do Rio de Janeiro, recebeu fotógrafos em seu gabinete e fez pose para um retrato inusitado. Ele segurou um dinossauro de plástico pelo rabo, deu-lhe socos e chutes e comentou: "As estatais são assim. Têm o corpo pesado, uma cauda enorme e o cérebro mínimo".

A bancada do governo, por sua vez, também foi para o palco. à procura de uma desculpa para apoiar o Planalto, e também de arrumar uns cargos na máquina federal, uma parcela do PSDB e outra do PMDB só concordaram em apoiar a emenda depois de uma conversa com Fernando Henrique, na qual o presidente repetiu o que já havia dito diversas vezes - que o fim do monopólio não conduz, nem nas intenções, à privatização da Petrobrás. "A Petrobrás não será privatizada", repetia o líder do governo na Câmara dos Deputados, Luiz Carlos Santos, no dia da votação. Santos chegou a distribuir pelo plenário cópias de um texto de duas páginas que resumia vagos compromissos do governo para defender a Petrobrás daqui para a frente. O documento tinha como principal característica o fato de ser apócrifo. Não trazia a assinatura de Luiz Carlos Santos, nem do ministro das Minas e Energia, Raimundo Brito, e muito menos do presidente Fernando Henrique. Considerando que há menos de um mês, na greve dos petroleiros, o Planalto ignorou a assinatura de um ex-ministro e a palavra empenhada pelo então presidente Itamar Franco, não se sabe qual será o valor legal de um papelucho sem autor conhecido.
 
'O BRASIL NÃO É O PARAÍSO' - O teatro bilateral bestializou porque a votação não muda em nada o mercado de petróleo no Brasil, ao menos por enquanto. Ninguém deve esperar a construção de refinarias privadas para breve - elas já existem em excesso no mundo inteiro - nem deve imaginar que a gasolina irá baixar de preço na semana que vem. Na realidade, quem foi derrotado ainda não sabe quanto perdeu e quem ganhou ainda não faz idéia do que poderá levar. O texto aprovado tira da Petrobrás a exclusividade da pesquisa, extração, refino e transporte do petróleo. Até agora, a única atividade autorizada às empresas privadas, nacionais ou multinacionais, era abrir postos de gasolina e produzir derivados, como óleos lubrificantes e aditivos. Agora, o monopólio fica com a União, que, por meio do governo federal, poderá autorizar outras empresas a atuar em qualquer área. Depois de aprovada a emenda, um projeto de lei regulamentando a medida em detalhes terá de ser apresentado, votado e aprovado. "Antes de três anos, fica tudo como está", opina o deputado Alberto Goldman, do PMDB de São Paulo, que votou pelo fim do monopólio.

A suposição de que o capital externo começará a cavucar poços em qualquer lugar é falsa. O preço do petróleo está baixo em todos os lugares, e há o risco de cair ainda mais. Em tempos assim, o melhor a fazer é não investir, deixar tudo como está e apenas importar e revender. Empresas como a Shell e a Texaco estão com excesso de oferta lá fora, numa situação em que o mais proveitoso é valer-se da abertura do mercado brasileiro não para abrir mais poços, mas para importar seus próprios produtos. "Existe muita opção de investimento na exploração de petróleo no mundo e o Brasil é mais uma delas, mas não é o paraíso", diz o empresário Omar Carneiro da Cunha, ex-presidente da Shell do Brasil e consultor da área. "O que atrai, aqui, é o mercado consumidor."
 
CONTRATO COM FIDEL - A Petrobrás já fez pesquisas em 29 pontos do território nacional. Extrai petróleo de oito. Estão sobrando 21 lugares, portanto, onde pode haver petróleo em disponibilidade - o que falta é dinheiro. A queda-de-braço, aí, é simples. Estabelecer uma forma para a Petrobrás e as multinacionais fazerem suas pesquisas em condomínio. O mais provável é que seja celebrada uma espécie de contrato de risco. Autoriza-se a exploração e, em caso bem-sucedido, a Petrobrás cobra um pedágio. Isso é o que se faz em qualquer parte do mundo. A negociação será em torno de qual parte ficará com a maior fatia. Se a fatia da Petrobrás for grande, as privadas não se interessam. Se for razoável, pode haver acerto.

A Petrobrás e as multinacionais já se têm enfrentado em outras oportunidades. A Petrobrás ganhou quase sempre. Por exemplo: passou toda a existência sem pagar imposto de renda e recebendo recursos do Tesouro sempre que necessário. Num sinal de que alguma coisa já vinha mudando, meses atrás Fernando Henrique determinou que passasse a pagar pelo menos um imposto, o de importação. A partir da posse de Fernando Collor, o governo modificou a estrutura dos preços da gasolina. Quem se beneficiou com a mudança foi o setor privado, que detém 64% do mercado de distribuição. A parte que cabia às distribuidoras no preço final era de apenas 2,3% em 1990. Chegou a 14% em 1995. A Petrobrás, antes, ficava com 43% da receita total da venda de gasolina. Agora, recebe 14%, embora arque com despesas de importação, produção e refino. Ou seja, as empresas privadas passaram a ganhar mais pelo mesmo serviço, enquanto a estatal passou a receber menos, também pelo mesmo serviço. As distribuidoras obtiveram bons aumentos de preços entre novembro de 1993 e abril de 1994. Elas foram autorizadas a reajustar preços de seus produtos, como óleos e aditivos, em 32% acima da inflação. Já os reajustes autorizados à Petrobrás subiram menos, ficando 8% abaixo.

Também de olho numa oportunidade estão os grandalhões de sempre, as empreiteiras e os bancos. "Com a quebra do monopólio, poderemos abrir para parcerias com a própria Petrobrás, outras empresas ou, eventualmente, poderemos trabalhar sozinhos", afirma Salim Taufic Schahin, sócio da empreiteira Schahin Cury, que já fatura 5,5 milhões de dólares anuais em contratos com a Petrobrás. A Odebrecht também está preparada. Através de uma de suas filiais, a Tenenge, a empreiteira comprou em 1991 uma empresa inglesa especializada em construir plataformas de petróleo e em exploração de gás. A Tenenge fatura 35 milhões de dólares em projetos do Brasil e do exterior. Já teve contrato com a estatal francesa Elf e até construiu uma plataforma em Cingapura. Há dois anos, outra empreiteira, a Andrade Gutierrez, assinou contrato com o governo cubano de Fidel Castro para procurar petróleo na ilha.

Uma empreiteira já marcou presença no teatro da quarta-feira passada, ao menos nos gritos. O deputado Marcelo Deda (PT-SE) denunciou seu colega Procópio Lima Netto (PFL-RJ), relator da emenda, por ter recebido para sua campanha doação de 40 000 reais de uma empresa interessada na quebra do monopólio, a Companhia de Petróleo Ipiranga. "Foram contribuições com bônus. Tudo dentro da lei", respondeu ele, mas não adiantou. Os petistas, em clima de muita animação, gritavam: "Ipiranga! Ipiranga!" O plenário quase veio abaixo com as gargalhadas que o deputado Miro Teixeira, do PDT do Rio, provocou ao iniciar seu discurso: "E, agora, cantemos todos: Ouviram da Ipiranga às margens plácidas..." O problema é que o discurso de monge da bancada do PT durou pouco. Na campanha eleitoral do ano passado, seus candidatos receberam belos cheques da Odebrecht, igualmente interessada em petróleo. Lembrando disso, a bancada do governo, mais numerosa, abafou os gritos petistas gritando: "Odebrecht! Odebrecht!"

Com a quebra do monopólio, o governo Fernando Henrique Cardoso teve uma vitória significativa, que mostra a força política do Planalto e abre a possibilidade de encarar mudanças mais complicadas, na Previdência e na ordem tributária. A maioria dos parlamentares considera que a votação do fim do monopólio deixou clara sua opção política pelo mercado. A aprovação custou 1 bilhão de dólares ao governo. Para garantir o voto da bancada de 140 deputados ruralistas, sem os quais a emenda se transformaria num bujão vazio, o Planalto se comprometeu a adiar por até dois anos a cobrança de 1,8 bilhão dos 5 bilhões de dólares que grandes fazendeiros devem ao Banco do Brasil. O acordo foi rascunhado antes da votação e celebrado por Fernando Henrique no Palácio do Planalto, um dia depois da aprovação da emenda. Sempre ágil, a mão invisível agiu também em outra área: a da troca de votos por cargos. Encarregado de controlar pedidos de emprego num microcomputador, o ex-deputado paulista José Abrão passou a semana telefonando para parlamentares, informando que suas indicações seriam atendidas. O governo entrou mesmo na fase das nomeações e apenas um deputado conseguiu dez empregos na semana passada. Embora fartas, nem todas foram publicadas no Diário Oficial. "Pega mal o governo nomear 300 pessoas na véspera das votações", explica o líder do PTB, Nelson Trad. "Agora e ao longo do mês o governo nomeia", acrescenta.

O motor do século
e do capitalismo

   
Em 130 anos, o petróleo ergueu
fortunas, moveu nações e povos
e moldou a civilização atual

André Petry

Imagine se todos os poços de petróleo do mundo secassem amanhã. As pessoas não teriam como voltar para casa de ônibus ou de automóvel. Os geradores de energia elétrica entrariam em colapso e as cidades ficariam às escuras. Nas regiões mais frias da Terra, o frio provocaria uma mortandade por falta de calefação. Fábricas e indústrias parariam as máquinas. No campo, tratores e ceifadeiras esvaziariam seus tanques e o espectro da fome rondaria o mundo. Aviões não levantariam vôo. Navios ficariam nos portos. Faltariam remédio, borracha e tecidos sintéticos. E também gás de cozinha, sabão em pó, detergente. Faltariam tinta, acrílico, solvente. Plásticos e assemelhados - do saquinho de leite aos tubos de PVC - sumiriam do mapa. "Seria o colapso da civilização tal qual a conhecemos hoje", afirma um dos maiores especialistas no tema, Daniel Yergin, presiden-te do Cambridge Energy Research Associates e autor do livro Petróleo - Uma História de Ganância, Dinheiro e Poder.

O petróleo enraizou-se na vida do homem de tal forma que é impossível concebê-la sem o ouro negro. O homem descobriu o fogo, a roda, a vela, os aquedutos, os moinhos de vento, a máquina a vapor. Há quase um milênio, descobriu-se o carvão, que até o início deste século reinaria absoluto no mundo como fonte de energia. Mas nenhum combustível provocou mudanças tão profundas na vida da humanidade como o petróleo. E é tido como louco quem sugerir que outro venha a ter o mesmo impacto. Em 1859, um maquinista aposentado, Edwin Drake, fez jorrar a primeira gota de petróleo, na pequena Titusville, no Estado da Pensilvânia. Desde então, a cidade nunca mais foi a mesma. Acontece o mesmo com o mundo. Nascia, ali, nas entranhas da terra, o motor do capitalismo. A saga do petróleo, esse líquido sujo, viscoso e que às vezes exala um cheiro de ovo podre, desenhou o século XX. Ergueu as maiores fortunas do planeta, fez a glória de uns e a desgraça de outros, esteve no meio de guerras e revoluções e acabou alterando o destino de nações e povos.
 
NO FUNDO DO MAR - O petróleo teve uma história de altos e baixos. No início, dele se queria apenas o querosene, que inaugurou a "luz da era", abastecendo lampiões da Europa e dos EUA. Encantava com sua luz clara e forte e erguia a maior fortuna americana, do lendário John D. Rockefeller, primeiro magnata do petróleo e talvez o homem mais odiado nos EUA pela voracidade com que abocanhou o negócio e a crueldade com que aniquilava concorrentes. Com o advento da lâmpada incandescente, o querosene desabou. Por alguns instantes, pareceu que a indústria petrolífera chegara ao fim. Salvou-se quando surgiu o automóvel. A gasolina, que até então era jogada nos rios por falta de comprador, ganhou um mercado e o petróleo ocupou um trono, numa associação de gigantes. Hoje, a indústria automobilística é a maior do mundo. A do petróleo vem logo abaixo. Movimentam mais de 1 trilhão de dólares por ano.

A existência do petróleo é uma dádiva complexíssima da natureza. Para formá-lo, é preciso uma massa de material orgânico - um esqueleto de dinossauro ou de peixes e crustáceos que nadaram em águas onde hoje há terra. O material, que se forma numa rocha, precisa "caminhar" em direção a outra rocha, que contenha um "recipiente", onde ficará depositado. Se isso não ocorrer sob pressão e temperatura adequadas, não haverá petróleo. A natureza leva 100 milhões de anos fazendo esse trabalho. Para o homem, achar essa obra também foi um caminho complexo e cheio de esforços heróicos. Na Rússia do século passado, os homens cavavam o solo com as mãos em busca do líquido. Na Pensilvânia, famílias inteiras se armavam de pás, picaretas e mesmo barras de ferro para perfurar a terra. Hoje, basta uma torre de aço, compressores para injetar ou tirar ar de dentro dos poços e motores para as brocas. Em média, perfuram-se oito poços até que um valha a pena explorar. Essa operação custa menos de 1 milhão de dólares, ocupa vinte trabalhadores e jorra a primeira gota em menos de quinze dias. Ainda assim, nunca há certeza.

Só que são poucas gotas para tanto petróleo que se necessita no mundo. Por essa razão, foi-se atrás do petróleo nos oceanos. As plataformas, estruturas de ferro e aço de  até 40 000 toneladas, do tamanho do Maracanã, são instaladas em alto-mar. Algumas são tão altas quanto um edifício de dezesseis andares, da água até a ponta da torre. Existem as que flutuam e as que ficam fixas no solo do mar. Ali, convive-se com ventos fortes e ondas gigantescas. No Mar do Norte, reserva da Inglaterra e da Noruega, as ondas chegam a mais de 20 metros. Os poços são perfurados por sondas de 2 quilômetros de comprimento - equivalente a um edifício hipotético de mais de 600 andares. O problema é instalar, no fundo do mar, uma broca com uma ponta de diamante industrial. Até 300 metros embaixo d'água, a operação é feita por mergulhadores, protegidos por escafandros. Abaixo disso, a tarefa é feita por robôs.
 
SETE IRMÃS - Capaz de jorrar dinheiro e refinar poder, os poços de petróleo enlouqueceram empresários e governantes e também fizeram os povos sonhar. Aristóteles Onassis, durante anos um dos homens mais ricos do mundo, ergueu seu império de armador transportando petróleo. Até os anos 70, as grandes multinacionais tinham quase todo o mundo a seus pés e podiam explorar petróleo em qualquer lugar. Era a época da hegemonia das chamadas "sete irmãs", a designação ferina que Enrico Mattei, presidente da estatal italiana do petróleo, a ENI, inventou para as sete maiores empresas do setor, cinco delas americanas, das quais apenas seis sobrevivem - uma delas, a Gulf, foi levada num arrastão financeiro nos anos 80. Dos anos 70 em diante, o mundo assistiu ao surgimento da Opep, o cartel dos maiores produtores do mundo, e aos dois choques no preço do barril, em 1973 e em 1979. Com um produto tão valioso nas mãos, os governos nacionalizaram as reservas, expulsando as empresas privadas. Ainda hoje, mesmo com a abertura do mercado do petróleo da China à Venezuela, as estatais são donas de 83% das reservas. Mas a esmagadora maioria dos países emprega como modelo de exploração o sistema misto que o Brasil passou a adotar desde a semana passada. Têm estatais, mas são abertos ao capital privado.

Hoje, o mundo do petróleo nada tem a ver com as águias desbravadoras do império americano. A Opep também pertence aos arquivos da História. O petróleo tem outro ritmo, outra paisagem e outras personalidades. O preço da gasolina pode subir num país ou noutro, mas no mercado internacional está estável e baixo há muito tempo. Descontada a inflação do período, o barril de petróleo, hoje, é mais barato do que em 1973. Também sugiram novas tecnologias que aumentam seu aproveitamento e podem buscá-lo nas profundezas do mar. Novas e imensas reservas, como a do Mar do Norte, foram descobertas e forram o cofre de recém-chegados ao mercado. O petróleo, hoje, é vendido como uma mercadoria qualquer e tem seus preços fixados em bolsas mercantis.
 
GOLPES E GUERRAS - Mas é evidente que não se trata de um produto como a soja ou mesmo o ouro. Isso porque a cada safra a soja pode ser colhida e plantada de novo. Já o petróleo é finito - as chamadas reservas conhecidas, dado que aponta apenas uma parcela do petróleo que se acredita existir embaixo da terra, são suficientes para sustentar o mundo pelos próximos 43 anos. O ouro é fonte de riqueza, mas não move máquinas ou leva as pessoas para casa nem serve para esquentar comida. Bênção da natureza, não basta ter tecnologia para descobrir o petróleo nem capital para comercializá-lo. O dado da geologia é que alguns países o possuem, outros, não. O dado político é que os grandes consumidores de petróleo são os países desenvolvidos, mas quem possui a imensa maioria das reservas são os países pobres do Oriente Médio e da América Latina. Por essa razão, os negócios em torno do petróleo não são nem nunca foram iguais aos outros. Tanto do lado dos consumidores como dos produtores o petróleo sempre esteve no meio da política e dos interesses de cada nação. De tal modo que em país nenhum do mundo, nem nos Estados Unidos, o mais aberto de todos, pode-se explorar petróleo como se planta soja. É necessário, antes, ter uma autorização do governo.

O petróleo nunca andou sozinho no mundo. Atrás dele há grandes companhias, consumidores, governos, diplomatas, agentes secretos e, em casos extremos, canhões. Assim é que já ocorreram guerras do petróleo, e só se fala em guerra do automóvel por retórica comercial. Entre o ditador iraquiano Saddam Hussein e o líder sérvio Radovan Karadzic, fica difícil apontar quem é o estadista mais perigoso. Mas é fácil entender por que, sob a liderança do homem do petróleo George Bush, presidente americano, o Ocidente se uniu na Guerra do Golfo e agora, na Bósnia, não se anima a entrar em campo nem quando os sérvios tomaram soldados da ONU como reféns. Também não é difícil entender por que o Japão, segundo maior consumidor e quase zero em reservas, desembolsou 11 bilhões de dólares para pagar a conta da Guerra do Golfo.

Neste século, as fronteiras do Oriente Médio foram esquartejadas de acordo com os campos de petróleo das grandes companhias. Ali, as multinacionais colocaram governantes que agiam como marionetes de turbante e até se promoveram golpes de Estado. Em 1953, o governo americano armou um golpe militar no Irã, apenas para derrubar um primeiro-ministro que resolvera nacionalizar suas reservas e, a partir de então, cobrar mais por seu produto. A CIA reinstalou a dinastia Pahlevi em Teerã, de onde seria expulsa 25 anos depois, por Khomeini. Deposto, o xá Reza Pahlevi não conseguiu visto para entrar nos Estados Unidos nem depois que o governo americano foi informado de que necessitava tratar-se de um câncer. Após muitas negociações, o xá foi internado com nome falso num hospital de Nova York. Mesmo nessa situação, a Casa Branca deixava claro que, entre um velho aliado e o petróleo, sua preferência era pelo petróleo.
 
'O SENHOR?' - Por prometer, também, a prosperidade a nações premiadas por grandes reservas, é natural que, ali, o combustível se transformasse numa avalanche popular. Esses países também necessitam do combustível do capitalismo para alavancar o seu desenvolvimento. Em 1938, os mexicanos festejaram nas ruas a nacionalização das reservas. O presidente, general Lazaro Cárdenas, tinha sido desafiado pelas empresas estrangeiras dentro do seu gabinete no palácio. Forçadas por uma sentença da Justiça a pagar melhores salários a seus petroleiros em greve, os empresários foram ao presidente dizer que não iriam cumprir a sentença. Ali, quiseram saber quem, naquele país, os forçaria a tal. "Eu, o presidente da República", respondeu o general Cárdenas. "O senhor?", devolveu um dos empresários, em tom de galhofa. O general levantou-se e disse: "Senhores, não temos mais nada a conversar". Feito isso, Cárdenas assinou o decreto que nacionalizou o petróleo mexicano. Até hoje o México é o único país do mundo que mantém um monopólio estatal total e o dia da nacionalização, 18 de março, é feriado nacional. No Brasil, a campanha do "Petróleo é nosso" foi mais forte do que a vontade do governo ou dos parlamentares. Em 1951, Getúlio despachou ao Congresso uma lei prevendo apenas a criação da Petrobrás. Depois de quase dois anos de discussão, até os parlamentares da banda de música da UDN quiseram ficar de bem com o povão e concordaram com a idéia de, junto com a Petrobrás, estabelecer o monopólio estatal.

Jóia da economia, troféu da política internacional, o petróleo jamais garantiu, por si só, o progresso integrado de um país. Conseguiu enriquecer a aristocracia árabe, e permitiu que os beduínos substituíssem os camelos pelas caminhonetes importadas. Também colocou um punhado de milionários mexicanos e venezuelanos na lista dos homens mais ricos do mundo. Sem o petróleo, é certo, essas nações estariam, ainda, num estágio até mais atrasado do desenvolvimento. Mas é certo, também, que a simples posse de uma matéria-prima preciosa não afasta todos os obstáculos à prosperidade. Em poucos momentos da história humana se assistiu a um processo tão gigantesco de redistribuição de renda entre nações como nos choques do petróleo. Em 1973, por exemplo, o choque do petróleo jogou 67 bilhões de dólares nos cofres dos países da Opep. Analisando esse processo na Venezuela, que detém 6,5% das reservas mundiais, o economista Celso Furtado faz uma comparação apropriada. Diz que foi como se, naquela época, começasse a chover ouro nesses países. O próprio Furtado, no entanto, explica por que os resultados ficaram muito abaixo do que se poderia imaginar. O país não soube aproveitar os lucros com o petróleo, não se preocupou em tornar sua economia mais produtiva e menos dependente de uma única atividade, deixando a agricultura na idade da pedra e mantendo-se um país refém de tecnologia estrangeira. "Caracas constitui um espetáculo de cabal irracionalidade", anotou Furtado, que se encontrava na Venezuela na época.
 
O VERDADEIRO JR EWING - Os dois choques do petróleo também tiveram outro efeito. Tornaram economicamente viável a exploração em áreas cujo investimento também exigia somas maiores. Juntas, Noruega e Inglaterra, que antes não produziam nada, racharam ao meio o Mar do Norte, descobriram reservas enormes e, hoje, são auto-suficientes. Na Noruega, o petróleo responde por 20% da receita total do governo. Nos países desenvolvidos, continua a ser a principal fonte de energia, mas, a cada ano que passa, perde lugar para o gás natural, o carvão e mesmo a energia nuclear, que alimenta a maioria das fábricas, trens e residências da França. Mesmo assim, no mundo, o consumo de petróleo aumentou 45%, e, em dez anos, subirá mais 20%.

Nos bons tempos, o petróleo chegou a levar 100 bilhões de dólares por ano para a Arábia Saudita. Hoje, não chega a levar um terço dessa quantia. Mesmo em seus piores momentos, a guerra do Iraque (segunda maior reserva de petróleo do mundo) contra o Irã (quarta maior reserva) não fez disparar os preços internacionais. Já em plena Guerra do Golfo, ali no coração do ouro negro, o preço até caiu, depois de agitar as principais bolsas do mundo. Quem define o preço do petróleo não são os países produtores nem os governos, mas a Bolsa de Futuros de Nova York e seus investidores, muitos deles anônimos. Nesse ambiente, J.R. Ewing, o vilão do seriado Dallas, não é pura ficção.

A imprensa americana tem como certo que o seriado da TV foi inspirado, ao menos em parte, num empresário da vida real, com nome e endereço conhecidos - um especulador chamado T. Boone Pickens, lendário por sua ousadia para entrar em grandes negócios, por sua astúcia para ludibriar concorrentes e esperteza para forrar o próprio bolso. Em 1985, numa sucessão de lances para comprar uma empresa, Pickens foi capaz de levantar 300 milhões de dólares com a compra e venda de ações - operação que lhe garantiu uma bonificação de 18 milhões de dólares e fez dele o mais bem pago executivo dos Estados Unidos naquele ano. Entre as peripécias que Pickens celebrizou no meio, encontra-se o uso de contas secretas para comprar ações sem que os concorrentes percebessem e também negócios em companhia de uma quadrilha de especuladores com papéis de segunda linha nos Estados Unidos, cujos integrantes foram parar na cadeia.

Com o preço baixo, as perfurações se mostram cada vez mais custosas e não é fácil nem barato encontrar uma oportunidade compensadora. Ainda que se empregue a melhor tecnologia, as pesquisas continuam sendo investimento caro e de alto risco. Em 1983, no Alasca, um grupo de investidores torrou 2 bilhões de dólares para procurar petróleo em alto-mar. Suas ações dispararam enquanto os técnicos da empresa asseguravam que ali seriam encontradas reservas capazes de promover uma mudança radical no mercado. Encerrados os trabalhos, só se encontrou água salgada.

A energia está em muitos lugares. Está até nos músculos de um bebê, que começa a levantar a cabeça no berço. Há energia no vento, na água, no ar, na luz do sol. Mas é preciso empreender uma epopéia para transformar açúcar, fogo ou carvão em energia. É uma luta do homem desde que desceu da árvore e começou a andar sobre duas pernas. Não acabou nem vai acabar. Ninguém acha que o petróleo será um bem inútil dentro das próximas décadas. Mas, incansável, o homem quer descobrir já o que poderá ser o seu sucessor. Apostando no gás natural, muito menos poluidor do meio ambiente, como combustível do futuro, cientistas e técnicos já estão tentando resolver um problema sério - como transportar o gás de forma que não seja através de gasodutos. Já se aperfeiçoa a tecnologia do congelamento. Congela-se o gás, coloca-se a massa sólida dentro de um navio, leva-se até o porto de destino e, lá, faz-se com que volte ao seu estado gasoso. Só o homem, que foi capaz de contar a História do planeta numa época em que ele nem existia, é capaz de façanhas dessa grandeza. Isso porque, no fundo, a energia do homem é que é fonte inesgotável.


 
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