Brasil e sociedade

Política e economia

Internacional

Ciência e tecnologia

Saúde e sexo

Artes e espetáculos

Gente e memória

Religião e História

Esporte e aventura

Educação e trabalho

Sugira uma capa

Sobre o site

Sobre VEJA

1968 - 2007 | imagens

1993 - 2007 | reportagens

1997 - 2007 | edições integrais

Edição n° 1

Edições extras

Edições especiais

Reportagens de capa
1968 - 1997



Busca detalhada


Imagens das capas
1968 - 2007



Busca detalhada


Em Dia


Acesse o site

  14 de abril de 1982
Bloqueio em alto-mar

Argentina e Inglaterra navegam
perigosamente numa estreita linha que
separa negociações possíveis de
uma guerra aberta pelas ilhas Malvinas

O inicio oficial das hostilidades está marcado para a zero hora desta segunda-feira, dia 12, nas águas geladas do extremo sul do oceano Atlântico - a partir deste preciso momento, prometeu solenemente o governo de Sua Majestade britânica na semana passada, "todo navio hostil" que for encontrado pela Marinha Real inglesa num raio de 200 milhas (ou 370 quilômetros) do arquipélago das Malvinas será afundado. Os únicos navios hostis que os ingleses podem encontrar na área são da Argentina, que dez dias atrás ocupou as Malvinas, interrompendo 149 anos de controle da Inglaterra sobre as ilhas - e, com ambas as partes deslizando para este rumo de colisão, o mundo assistia, espantado, chegarem à beira da guerra dois países separados por 13.000 quilômetros de mar, num ponto perdido no mapa-múndi, e em torno de um objetivo até então considerado incapaz de valer um tiro.

Com sua declaração da semana passada, a Inglaterra estava, na prática, anunciando o bloqueio naval das Malvinas - aparentemente, o cerne de sua estratégia para recuperar as ilhas ou, pelo menos, não entregá-las sem resistência. E, para isso, não poupou esforços no sentido de exibir à Argentina todo o esplendor de sua Armada e um incomparável espetáculo de pirotecnia naval. Tal qual a irresistível féerie do "casarnento do século" realizado no ano passado, a impecável encenação montada no porto de Portsmouth no início da semana impressionou seus aliados e intimidou os adversários. Não era para menos. Ao som do hino da Royal Navy, "O oceano só tem um dono ...", e faixas com a histórica frase de Horace Nelson antes da batalha de Trafalgar - "A Inglaterra espera que cada homem cumpra o seu dever" -, uma imponente frota de guerra, como não se via desde os gloriosos e longínquos dias em que a Grã-Bretanha comandava os mares, partia para as ilhas Malvinas com a obrigação de não voltar de mãos vazias.

Portando nomes majestosos como Invincible, Fearless, Sea King e Superb, as várias peças dessa Armada pareciam impregnadas da certeza que movia a rainha Vitória em suas campanhas do século passado: "A possibilidade de fracasso não existe". No porta-aviões Invincible, com a missão de pilotar um dos vinte helicópteros anti-submarinos, estava ninguém menos que o príncipe Andrew, de 22 anos, número 2 na sucessão do trono britânico. No bojo do navio, seguia uma parafernália de canhões, foguetes, torpedos, mísseis mar-mar Exocet capazes de atingir um alvo a 50 quilômetros com uma margem de erro de não mais de 50 centímetros - além dos temíveis caças-bombardeiros Harrier, que podem levantar vôo e aterrissar verticalmente, como se fossem helicópteros, e fazer manobras tão arrojadas como um beija-flor. Em levas sucessivas, e sempre amplamente festejadas, vindos de vários portos ingleses e da base naval de Gibraltar, na Espanha, rumaram para o sul 29 navios, entre força de guerra, força auxiliar e força de transporte. Aúltima embarcação saiu na noite de sexta-feira, e deu um fecho de ouro à batalha no campo das relações públicas: a bordo ia a banda da Royal Navy, além de 36 enfermeiras dos serviços femininos do Exército.

Mas a espetaculosa partida da frota era apenas a primeira parte do plano estratégico britânico - uma parie destinada sobretudo a ser visível e fazer o máximo de barulho possível. A cartada crucial, na verdade, estava sendo armada na sala de operações do comando da Marinha inglesa, no grande edifício do Almirantado em Whitehall. Foi lá, a 40 metros de profundidade, num local à prova de bombas nucleares e construído ao Iado da antiga sala subterrânea onde Winston Churchill passou seus anos de guerra, que o comando de operações concebeu a estratégia da "zona de guerra", que entra em vigor nesta segunda-feira e pretende dobrar a audácia argentina no Atlântico Sul. Pegando de surpresa os que acreditaram no roteiro inicial, distribuído para fins de desinformação - a Armada se deslocaria em bloco e levaria dezesseis dias para chegar às Malvinas, ou seja, no dia 21 de abril, parando obrigatoriamente na ilha da Ascensão -, o governo britânico anunciou que estava pronto para abrir fogo já a partir desta segunda-feira. Não, obviamente, com os navios que deixaram gloriosamente Portsmouth, mas, ao que tudo indica, com quatro submarinos de propulsão nuclear que já devem estar na área e se encarregarão de agir na "zona de guerra" ao redor das Malvínas, uma vasta piscina de 108.000 quilômetros quadrados. Decididos a abrir mão da arma diplomática que a Inglaterra utilizava até agora - não dar o primeiro tiro -, eles farão e bloqueio do arquipélago até a chegada da frota.

'À BATALHA' - Os militares argentinos responderam à altura, prometendo também enfrentar os ingleses assim que forem avistados no limite das 200 milhas das águas territoriais malvinenses. "Se houver o bloqueio, vamos à batalha", prometeu o general Leopoldo Galtieri. Para tanto, os céus de Comodoro Rivadavia, pequena cidade da Patagônia varrida por ventos de até 160 quilômetros horários, transformou-se desde a semana passada numa praça de guerra. Os céus dessa região inóspita e de características desérticas foram cobertos por exercícios de caças franceses Mirage, dos Skyhawks americanos que equipam o único porta-aviões do país, o 25 de Mayo, e de helicópteros e aviões menores.

No solo, mecânicos agitavam-se nos hangares na manutenção desses aparelhos, que constituem o principal trunfo argentino - pela sua superioridade numérica - contra os ingleses. No pátio do aeroporto, caminhões, jipes, canhões, blindados e tanques de óleo diesel eram despachados rumo às ilhas Malvinas. Junto com Bahia Blanca, ao norte, e Río Gallego, no extremo sul, Comodoro Rivadavia forma um tripé fundamental na logística argentina em caso de conflito armado com a Inglaterra.

Em Buenos Aires, enquanto isso, a inflamada guerra nacionalista chegava a seu apogeu. Nos cinemas, antes de cada sessão, tocou-se o hino nacional. Nas estações de metrô, marchas militares. No hipódromo, quinta-feira, disputou-se o Gran Premio Malvinas Argentinas, enquanto a Secretaria de Informação Pública determinava a proibição da minissérie "O Mercador de Veneza", de William Shakespeare, produzido pela BBC.

Todos, à sua maneira, se preparavam para a inevitabilidade de um confronto que, segundo estrategistas americanos, favorece em 55% os ingleses, por sua experiência e maior capacidade ele fogo, contra 45% dos argentinos, cujos trunfos maiores são a proximidade do campo de batalha e a superioridade aérea. "Se considerarmos essa aventura nas ilhas FalkIand um filme colossal, a expedição de Suez, em 1956, foi um mero curta-metragem", diagnosticou o general da reserva Edward Ferguson, em Londres.

MESES A FIO - O grande problema para os ingleses não é fazer o bloqueio e, sim, mantê-lo de forma efetiva - pois o cordão umbilical que liga a frota despachada para as Malvinas é extenso demais (13.000 quilômetros, entre o arquipélago e a Inglaterra) para assegurar naturalmente seu fluxo de abastecimento. Brasil e Uruguai, que ficam no caminho, não pemitiriam que esse abastecimento se fizesse em seus portos. Assim, para evitar que tanto os porta-aviões quanto os destróieres ingleses parem de operar por falta de combustível, em plena guerra e em mar hostil, os estrategistas de Londres montaram um complexo e oneroso sistema de suprimento. Inicialmente, quase soterraram com suprimentos a ilha de Ascensão - na verdade, pouco mais que um rochedo no meio do Atlântico, a 6.500 quilômetros do teatro de operações - reduzindo pela metade a longa distância que separa a eventual frente de combate das bases na Inglaterra. Depois, atrelaram à força-tarefa um número não divulgado de navios-tanques e requisitaram, pelo menos teoricamente, 1.000 navios da sua Marinha Mercante.

Esse esquema - acoplado à hipótese de ser solicitada a assistência de navios-tanques da Marinha dos Estados Unidos - resolveria a questão do abastecimento em pleno mar durante algumas semanas. Mas certas medidas adotadas pelo Ministério da Defesa britânico sugerem que os ingleses não excluem a possibilidade de, se necessário, permanecerem no Atlântico Sul durante meses a fio. Uma segunda leva de embarcações está sendo preparada para entrar em operação a partir de agosto - embora até lá eles esperem estar com a crise solucionada. Sabe-se que pelo menos um porta-aviões, o Illustrious, e um navio de assalto, o Intrepide, fariam parte desse novo comboio, indispensável para revezar os navios enviados na semana passada. Com a proximidade do inverno polar, numa região de águas particularmente revoltas e infestadas de icebergs, o desempenho dos navios e de suas tripulações seria inevitavelmente afetado, e, se não forem substituídos, farão a Inglaterra perder sua maior vantagem atual - a superioridade naval.

COMPROMISSO - A descida da frota inglesa, que por mais problemas que tenha possui um poder de fogo capaz de causar os piores estragos, levou Buenos Aires a buscar frases que levantassem o moral de suas forças. "Melhor que ter navios de ferro com homens de madeira, é ter navios de madeira com homens de ferro", jactou-se o contra-almirante argentino Jorge Alberto Fraga, na semana passada. Sabendo que é devastadora uma comparação entre as forças navais inglesas e argentinas, os militares de Buenos Aires induziam a população a nutrir-se de lemas patrióticos. "As Malvinas foram, são e serão argentinas", repetiam. Outro achado foi anunciar que a população argentina deveria transformar-se em "27 milhões de soldados". Para tanto, políticos, sindicalistas e personalidades de vários matizes, que há anos hostilizam o regime, deram as mãos aos militares na tarde da última quarta-feira - e, solidários, testemunharam a posse do general Mario Benjamín Menéndez, de 50 anos, como novo governador das ilhas Malvinas. Lá estavam, por exemplo, do introdutor das operações de ponte de safena, o cirurgião Renê Favorollo, a Saul Ubaldini, secretário geral da proscrita Confederação Geral dos Trabalhadores - preso até o dia da ocupação das Malvinas e liberado no dia seguinte à invasão, com outros 170 líderes sindicais.

A posse de Menéndez foi um gesto talvez audacioso demais, pois implica um sólido compromisso da Argentina em não mais armar sua bandeira do arquipélago. Mesmo que venha a negociar uma saída mais ou menos honrosa para a ratoeira na qual se meteu, o general Leopoldo Galtieri não podia, sob pena de ser expulso com humilhação da Casa Rosada, abandonar o barco antes da hora. Afinal, centenas de jovens argentinos faziam fila nos postos de recrutamento voluntário, na semana passada, convencidos de que serão heróis da pátria. "Quando os ingleses chegarem, calaremos a boca deles", exultava confiante o jovem porteiro de um hotel de Buenos Aires, na fila de alistamento. "Eles são um bando de piratas."

Enquanto encolhia o prazo para as duas partes sentarem numa mesa de negociações, a Argentina preparava como podia sua recepção à superfrota inglesa. Nas Malvinas, procedeu-se a uma febril instalação de equipamentos pesados, minas, barragens de artilharia pesada e antiaérea, obstáculos nas praias, ninhos de metralhadoras. Forças de elite do Exército desembarcaram para substituir os fuzileiros navais que tomaram o arquipéIago no dia 1º. Também reservistas da classe de 1962 foram reconvocados pelas Forças Armadas e, diante da quase inevitabilidade de um cerco naval britânico às ilhas, restava à Argentina apostar seus cartuchos no único cenário que lhe seria favorável: a hipótese de uma tentativa de invasão inglesa do arquipélago, ao invés do bloqueio. Os manuais de guerra ensinam que quem está em terra leva vartagem sobre o inimigo que vem do mar.

EM SEGREDO - No caso das Malvinas, esses problemas não são poucos. Cerca de 90% dos 1.800 habitantes das ilhas que os ingleses pretendem libertar moram na capital das Malvinas - Port Stariley, agora Puerto de Ias Malvinas - e a cidade não poderá ser destruída por bombardeios britânicos. "Esta população representa o grande trunfo nas mãos dos argentinos, que os transformaram em reféns", dizia já na década de 70 o contra-almirante Roger Villar, ex-comandante dos serviços de informações da Marinha inglesa. A invasão em outros pontos da ilha também apresenta dificuldades.

A Argentina, esperançosamente, sustenta que para cada um dos 5.000 homens que para lá despachou inicialmente serão necessários cinco ingleses, ou 25.000 homens. Na sede do Almirantado, em Londres, porém, essa cifra não parecia preocupar ninguém. Embora sem divulgar o número exato de homens despachados para o Atlântico Sul - esse era, até o final da semana, o segredo militar mais bem guardado -, um oficial oferecia à imprensa, junto com chá e biscoitos, uma avaliação desapaixonada. "Nossos cálculos são de que nossa força-tarefa deverá, ou poderá, enfrentar entre 15.000 e 20.000 homens nas ilhas Falkland. Resultado: estamos enviando à zona de operações homens em número suficiente para enfrentar uma força como a dos argentinos", disse ele.

Na análise do porta-voz britânico, isso não significa necessariamente que a Inglaterra esteja enviando para as Malvinas um número de homens comparável. De fato, existe uma diferença entre o sistema de defesa britânico e o argentino. A Argentina conta, na maioria, com recrutas, cumprindo seu serviço militar obrigatório. Na Inglaterra, os militares são todos voluntános, do último alistado ao primeiro oficial, e são todos profissionais. Para os britânicos, esta é uma vantagem considerável - à qual adicionam o superior poderio de seu equipamento.

CALCANHAR - A peça-chave inglesa para uma tentativa de retomada das ilhas seria o navio de assalto Fearless, cuja popa pode ser inundada para operações de desembarque, e que leva a bordo pelo menos 500 soldados da infantaria da Marinha e um séquito de embarcações menores. Armado com dezesseis mísseis e transportando tanques, caminhões, canhões e helicópteros, o Fearless entraria em ação logo depois que homens-rãs e uma unidade de elite do ultra-secreto Esquadrão Especial Naval - que opera a partir do submarino Superb - estabelecessem uma cabeça-de-ponte na ilha. O assalto, naturalmente, deverá ser anfíbio, contando com a participação dos vinte helicópteros Sea King e dezesseis caças Harrier, de decolagem vertical, aquartelados nos dois porta-aviões. A captura da pista de pouso de Port Stanley está entre as prioridades número 1 de um eventual assalto para permitir a aterrissagem dos pesados aviões de transporte Hércules C-130, capazes de carregar tropas numerosas.

Como esses aparelhos encontram-se no momento a cerca de 6.500 quilômetros de distância, na ilha da Ascensão, e sua autonomia é de apenas 8.300 quilómetros, é mais provável que os ingleses tentem primeiro recapturar a ilha Geórgia do Sul, e lá construir às pressas, como os americanos fizeram na guerra do Vietnã, uma pista de pouso com estruturas metálicas. Com uma base de operações tão próxima, a 1.300 quilómetros de distância do objetivo central, a frota britânica já teria onde colocar um firme calcanhar na área. De acordo com analistas em guerra aérea e naval, seria essa opção mais fácil e inteligente. Em primeiro lugar, porque a ilha Geórgia do Sul está situada fora do alcance dos quase 200 aviões argentinos concentrados nas bases terrestes do litoral. Em segundo lugar, porque causaria sérios danos ao moral dos militares argentinos, sem correr grandes riscos. A partir daí, a Inglaterra teria duas alternativas: aguardar o resultado das negociações com um pedaço de sua honra reconquistada ou preparar a etapa seguinte - a difícil tomada das Malvinas -, caso a guerra persista.

RISCO EM CASA - A Argentina aposta muito mais nos problemas de apoio logístico da Armada inglesa que em suas próprias virtudes navais. As últimas batalhas argentinas datam de 112 anos, na guerra contra o Paraguai, quando teve como sócios o Brasil e o Uruguai. Seu adestramento mais concreto ocorre anualmente dentro do quadro da Operação Unitas, em conjunto com as forças navais do Brasil, Estados Unidos e Uruguai, mas desenvolvida essencialmente ao treino de combate submarino.

O mais temível dos riscos corridos pelo governo Galtieri, no fundo, não está no mar, mas em terra, e não tem na Inglaterra, mas dentro de casa, na política intema argentina, a sua fonte. Qualquer solução da guerra pelas Malvinas que resulte em algo próximo a uma derrota militar ou humilhação diplomática para os argentinos poderá ferir mortalmente o atual regime de Buenos Aires - ou, pelo menos, seu presidente. Sabidamente, as ditaduras militares resistem a tudo, menos a perder guerras, como ensinava, há quarenta anos, o italiano Benito Mussolini. Além disso, governos militares, como o de Galtieri, assentam-se num raciocínio segundo o qual o país atravessa uma situação tão delicada que só as Forças Armadas, por sua retidão, competência pessoal e dedicação, podem enfrentar. Para isso, segue o argumento, não podem ser atrapalhadas por liberdades públicas, partidos políticos ou parlamento.

Essa retórica salvacionista desaba quando os militares são batidos numa operaçao essencialmente militar - pois, se não têm competência para tratar dos assuntos específicos de sua própria profissão, nada têm que se meter em áreas como a economia, a política e a adminístração pública. Paira hoje sobre a Casa Rosada, assim, o fantasma que assombrou os coronéis da Grécia em 1974. Derrotados pela Turquia numa aventura militar sobre a ilha de Chipre, os militares liderados pelo coronel George Papadopoulos passaram pela humilhação de telefonar para um hotel de Paris, onde vivia exilado o dirigente conservador Constantin Karamarilis, pediram-lhe que viesse a Atenas, a fim de assumir o poder, e foram trancafiados pelo novo governo na cadeia - onde permanecem até hoje. Seria prematuro dizer que Galtieri e o regime militar, que há seis anos domina na Argentina, estão pedindo água com a aproximação da frota britânica, mas não deixa de ser singular a sugestão feita na semana passada pelo "duro" ministro do Interior, general Alfredo Saint Jean - imediatamente desmentida por ele mesmo - de um possível "governo de união nacional".

PESADELO - No flanco interno, a Argentina tem outro grande inimigo: a falência econômica. A mera possibilidade de um conflito armado provocou uma sangria de 10 trilhões de pesos nos depósitos bancários, cerca de 1 bilhão de dólares. Sem condições de suportar economicamente uma guerra - só na operação inicial para ocupar as Malvinas foram gastos 50 milhões de dólares, segundo um informe reservado das Forças Armadas -, o governo Galtieri já está estudando a hipótese da criação de um "imposto patriótico", que captaria recursos dos bancos e financeiras. A obtenção de suporte econômico no extenor é outro problema de monta. Já devendo cerca de 32 bilhões de dólares, a Argentina não deverá esperar gestos amigos dos credores europeus e americanos. Nesta situação em que cada centavo faz falta, a Argentina ainda teve de conformar-se, na semana passada, com o bloqueio dos 5,8 bilhões de dólares que tinha em reserva na Inglaterra.

Há pesados problemas, também, para o governo britânico de Margaret Thatcher, igualmente mergulhado num longo pesadelo de dificuldades sociais e econômicas. Desde a II Guerra Mundial, o antigo Império britânico, que englobava 58 colônias, inclusive a portentosa Índia, colheu miseravelmente a pouco mais de uma dúzia de pontos espalhados pelo mundo. A perda definitiva, "por distração", de um ponto estratégico como as Malvinas seria de difícil digestão para a classe política do país. Notícias de que os serviços secretos ingleses e americanos, além do próprio ex-govemador do arquipélago, Rex Hunt, haviam prevenido inutilmente a chancelaria de Londres sobre a iminência de urna invasão argentina ajudaram, na semana passada, a derrubar de seu cargo o experiente lorde Carrington, ministro das Relações Exteriores e candidato ao Prêmio Nobel da Paz de 1981 por sua brilhante condução nas negociações de paz na Rodésia.

Na verdade, sua desatenção para o que ocorria no longínquo paralelo 52 apenas refletiu a postura atual do Ministério da Defesa britânico, que prefere desempenhar um papel privilegiado na área nuclear da Europa e na segurança das vias marítimas do Atlântico Norte. Ultimamente, até mesmo os problemas de manutenção da ordem interna na Irlanda do Norte tinham prioridade sobre as missões de proteção dos interesses britânicos mundo afora. Agora, toda cautela é pouca. Surpreendidos pelo golpe de força da Argentina nas Malvinas, os ingleses não querem nem ouvir falar de negociações com a bandeira argentina hasteada nas Malvinas - uma humilhação tão grande quanto seria, para a Argentina, sua devolução.

Qualquer perda significativa na crise fará Thatcher ser empurrada para fora da residência oficial de Downing Street - por meio de eleições, é claro. Como dizia o deputado conservador Neville Trotter, na semana passada, para a eventualidade de uma humilhação suplementar de Londres, "o povo inglês perderia toda e qualquer confiança em seu governo, e todo esse show de força que estamos mostrando ao mundo passará à História como a maior palhaçada de todos os tempos". Trotter advertia ainda para uma ameaça mais grave, a longo prazo: "China e Espanha teriam precedentes para simplesmente instalar-se novamente em Hong Kong e Gibraltar. Se estamos dispostos a isso, então é o caso de chamar imediatamente de volta a Armada, sem perder mais dinheiro inutilmente".

MAIS PRAZO - Na prática, o improvável retorno da Armada Real estava nas mãos carregadas do general Alexander Haig, secretário de Estado americano, o escolhido para mediar a crise depois que Argentina e Inglaterra vetaram o nome do vice-presidente dos EUA, George Bush. Seria esse o primeiro teste de seus talentos de negociador e, se for esperto, terá seguido o conselho de outro hábil negociador americano, o ex-vice-secretário de Estado Warren Christopher, responsável pelo desatamento do nó com o Irã no caso dos 52 reféns americanos: "A primeira coisa a fazer é conseguir uma extensão do prazo a partir do qual os dois lados prometem que vão atirar".

Depois de passar seis horas em Londres trancafiado com Thatcher e seus assessores, na última quinta-feira, Haig disse apenas que ficara "altamente impressionado pela firme determinação do governo britânico". Antes de seguir para a Argentina, entretanto, tratou de fazer vir do Sri Lanka o polivalente Vernon Walters, que já foi de tudo - de vice-diretor da CIA a embaixador itinerante, mas, sobretudo, amigo e confidente de presidentes americanos. A presença de Walters, profundo conhecedor das artes e artimanhas da política argentina, na comitiva de paz americana parecia indicar que o governo dos Estados Unidos está seriamente preocupado com a evolução da crise interna da Argentina. Em sua escala de duas horas no aeroporto do Recife, sexta-feira à tarde, a caminho de Buenos Aires, Alexander Haig confidenciou ao governador de Pernambuco, Marco Maciel, sua impressão de que os ingleses vão mesmo atirar, e que haverá muitos cacos quebrados para juntar na Casa Rosada.

A fórmula de se evitar o pior todos conhecem: a Inglaterra abriria mão da soberania sobre as ilhas Malvinas, exigindo apenas tempo - uma geração ou duas -para que os kelpers, seus habitantes, se habituem à idéia de ser governados pela Argentina. Essa saída seria semelhante à que vigora em Hong Kong, onde a Inglaterra arrendou parte da colônia da China por um período de 99 anos, e deverá devolvê-la a Pequim em 1997. Uma hipótese mais bizantina seria uma espécie de condomínio, segundo o qual Inglaterra e Argentina dividiriam entre si benefícios e responsabilidades da soberania e administração.

Mesmo no que se refere ao impasse militar, poderia haver um arranjo: embora o governo inglês exija a retirada das tropas argentinas antes de começar a negociar, isso poderia ser conseguido sem necessariamente deixar o governo Galtieri em dificuldades internas intoleráveis. Se o início das negociações for marcado para daqui a três ou seis meses, por exemplo, as tropas argentinas poderiam retirar-se gradualmente, mantendo na ilha um esqueleto de autoridade argentina. Mas, para isso, seria necessário que ambos os governos, sem dissensões intemas, estivessem seriamente decididos a negociar. A julgar pela eletricidade que reinava em Buenos Aires no final da semana, a questão era outra. Não apenas a homilia da Páscoa, rezada pelo arcebispo da capital, exaltava a tomada das Malvinas como um momento histórico e feliz para o povo, como também irrompiam rumores sobre a iminente queda de Galtieri, em favor do general Alfredo Saint Jean. Em outras palavras, uma tarefa hercúlea para Alexander Haig e Vemon Walters.

O efeito Malvinas

Embora plantada numa zona de interesse
estratégico menor, a crise desata mudanças

Pela primeira vez em muitos anos, não era no Oriente Médio, Sudeste Asiático ou continente africano que o mundo pegava fogo. Desta vez, a temperatura subiu no extremo sul do Atlântico, colocando como inimigos dois aliados do Ocidente - a Argentina e a Inglaterra. Para outros países, entre eles o Brasil, o saldo de perdas e ganhos seria aproximadamente o seguinte:

A crise das Malvinas deixa em posição difícil os Estados Unidos - aliados tanto da Inglaterra como da Argentina. O governo de Ronald Reagan apostou que a ameaça maior eram os russos, mas o perigo de uma guerra acabou vindo de dois amigos, devido a um anacrônico contencioso no qual não cabem considerações ideológicas. Os argentinos desconfiam de um mediador como os EUA, que têm vínculos políticos profundos com a Inglaterra. Um alto funcionário da chancelaria argentina diz que há "indícios seguros do favoritismo inglês" - o mais óbvio seria o fato de Washington ter apoiado a resolução da ONU que pediu a retirada das tropas invasoras das Malvinas. "Com esse tipo de amigo nem precisamos de inimigos", queixou-se. Já os ingleses empenham todo o peso de sua velha associação com Washington para exigir que os mediadores americanos sejam duros com os argentinos.

Três pacotes de papel para máquinas xerox embarcadas na tarde de sexta-feira, no Recife, a bordo do avião do secretário de Estado americano Alexander Haig por um assessor do govemador Marco Maciel, de Pernarribuco, são tudo o que o Brasil deu para conjurar a crise das Malvinas. O presidente João Figueiredo, amigo pessoal do presidente argentino Leopoldo Galtieri, manteve seu governo fora da briga e o Itamaraty adotou uma posição de absoluto silêncio, limitando-se a uma nota oficial tão elegante quanto inócua. Para o Brasil, a crise só pode ter conseqüências depois do fim da questão com a Inglaterra, e não durante. Enquanto houver conflito, o Brasil exercitará até a exaustão sua neutralidade. Depois dele, porém, terá de lidar com duas hipóteses: uma Argentina fraca pela derrota ou forte pela vitória. No caso do debilitamento, o próprio general Vemon Walters, da comitíva de Haig, advertia que surge um quadro de instabilidade política que seria prejudicial ao Brasil. No caso do fortalecimento, o Itamaraty poderia ver nuvens a longo prazo, pois, se a vitória abrir o caminho para outra aventura militar no canal de Beagle, contra o Chile, o passo seguinte poderá ser a retomada da esquecida questão entre os dois países pelas águas do rio Paraná, envolvendo a usina hidrelétrica de Itaipu, alvo freqüente dos campeões da xenofobia argentina, como o almirante Isaac Rojas.

A crise tirou a África do Sul do ostracismo. Sem a presença militar inglesa no extremo sul do Atlântico, cresceriam as chances da África do Sul - tratada com calculada hostilidade por sua política de racismo oficial - em persuadir o Ocidente de que é um país-chave para deter o avanço soviético no Atlântico. Em primeiro lugar, a crise mostra que ela é uma aliada do Ocidente muito mais estável que a incerta Argentina. Além disso, dispõe da melhor estrutura militar da África, com 90.000 homens altamente treinados e equipados - sem contar a ultra-sofisticada base naval de Simonstown, encravada no cabo da Boa Esperança. A base pode rastrear o movimento de qualquer navio no sul dos oceanos Atlântico e Índico, que ali confluem. Por ironia, a Inglaterra poderia, na atual crise, estar usando Simonstown, que fica a cerca de 7.500 quilômetros das Malvinas. Mas, para não desagradar aos países negros da África, nern ela e nem os Estados Unidos utilizam a base - uma posição que agora pode começar a ser revista, com ganhos políticos para os sul-africanos.

Em princípio, a URSS nada tem a ver com o caso - afinal, Argentina e Inglaterra estão fora de sua área de preocupações estratégicas. O fato, porém, é que Moscou pendeu para o lado argentino, apesar da existência em Buenos Aires de um dos regimes mais anticomunistas do mundo. O interesse russo está em solidificar sua posição na Argentina, fortuitamente adquirida em 1980 por meio de um próspero comércio. Na época, em represália à invasão do Afeganistão, os EUA decretaram um embargo à venda de cereais para a URSS. Mas a Argentina furou o boicote - e hoje os russos compram ali 75% da produção exportável de grãos. Na semana passada, uma missão soviética visitou a Argentina e teve regalias, como um avião presidencial à disposição e os elogios de um ministro militar. "Hoje, nossos maiores inimigos ideológicos são nossos maiores amigos políticos", disse ele.

Oficialmente, o Chile apóia a reivindicação argentina de soberania sobre as Malvinas. Na prática, porém, só tem a lucrar se a Argentina for derrotada pelos ingleses. Apesar de os dois países latino-americanos terem sólidas afinidades ideológicas - ambos são governados por ferozes ditaduras militares de direita - um velho contencioso fronteiriço vem envenenando há anos suas relações: a disputa em torno da soberania marítima na região do canal de Beagle. Em 1978, quase foram à guerra por causa disso. Se a Argentina ficar com as Malvinas, aumentará seu punch militar na região, que dista pouco mais de 500 quilômetros de Beagle, onde a temperatura militar nunca andou baixa desde 1978. Ainda no mês passado, a força naval chilena, composta basicamente de três submarinos, três cruzadores, meia dúzia de destróieres e cinco fragatas, realizou manobras junto com a Força Aérea nas proximidades de Beagle.

O poder muda de mão

Chegam os argentinos - e nas Malvinas trocam-se
sinais de trânsito, nomes e direitos individuais

Para o atônito público britânico, foram cenas que golpearam fundo a alma nacional. A divulgação, na semana passada, das fotos da ocupação das ilhas Malvinas por força da Argentina tiveram na Inglaterra o efeito de uma bomba atingindo os britânicos tão fortemente quanto as cenas de humilhação dos reféns no Irã haviam abalado os amencanos, pouco mais de dois anos atrás. Dos detalhes da operação a opinião pública já tomara conhecimento no fim de semana anterior, mas foi a visão das imagens de seus soldados rendidos, com os braços para o alto ou sentados no chão como prisioneiros, que mais sacudiu o orgulho britânico.

O país não experimentava um choque comparável desde sua última operação militar estrangeira - a funesta crise de Suez, em 1956. Na ocasião, a ocupação do canal de Suez por Inglaterra, França e Israel não foi endossada pelo presidente Dwight Eisenhower, dos Estados Unidos, e por imposição americana os ingleses tiveram que bater em retirada. Ali ficou claro quem, afinal, dava as ordens entre os aliados ocidentais - e tomou-se evidente que o antigo império onde o Sol nunca se punha passara a ser uma potência de segunda categoria.

Desta vez, o cenário foi menos grandioso, o que talvez tivesse tomado as coisas piores. "Testemunhei o humilhante espetáculo dos corajosos fuzileiros navais sendo desarmados, revistados, com as mãos na cabeça e obrigados, sob a mira de fuzis, a ficar de rosto no chão", disse Kenneth Clarke, um dos quatro jornalistas ingleses expulsos das ilhas tão logo chegaram os argentinos. Enquanto os fuzileiros que defendiam a sede do governo das ilhas eram aprisionados pelos invasores, a poucos metros dali, defronte à igreja de St. Mary, já tremulava a bandeira azul e branca da Argentina.

NOVOS SENHORES - Para o mundo extenor, a ocupação argentina das ilhas ficou definitivamente materializada por um pequeno e corriqueiro detalhe do dia-a-dia: as cartas enviadas pelos habitantes do arquipélago a amigos e parentes mundo afora começaram a chegar aos seus destinatários, ostentando selos militares argentinos e o conclusivo carimbo "As Malvinas são argentirias", em lugar dos valiosos selos locais, verdadeiras raridades filatélicas pela sua escassez.

Esse foi apenas mais um sinal das dramáticas mudanças que os novos senhores argentinos já impuseram aos kelpers - os naturais das ilhas, de ascendência britânica, cujo nome deriva de alga, kelp em inglês, abundante na região. Sua capital, de 800 habitantes, perdeu o velho nome de Port Stanley nas primeiras horas da invasão, tornou-se Puerto Rivera e, na quarta-feira, adquiriu o nome que os argentinos pretendem definitivo de Puerto de Ias Malvinas. O novo batismo coincidiu com a posse do novo govemador das agora Malvinas, o general-de-brigada Mario Berijamín Menéndez.

Não era certamente esse o desfecho que os habitantes da ilha esperavam apenas oito dias antes, quando invadiram o escritório local da Lade, urna companhia estatal de aviação argentina. Os manifestantes, então, cobriram as paredes do escritório com inscrições hostis, em represália ao pequeno incidente que desencadeou o pretexto para a crise - a permanência nas ilhas de um grupo de catadores de sucata argentino que havia desembarcado nas Geórgias do Sul sem autorização das autoridades inglesas. Com o desembarque militar dos adversários, os kelpers viram quão frágil era o seu controle das ilhas - mas, mesmo durante a invasão, ainda ocorreria ao dono dos títulos de governador-geral das Ilhas FalkIand e Alto Comissário para a Antártida, Rex Masterman Hunt, um inglês de 55 anos, atos de ousadia pouco compatíveis com a gravidade dos acontecimentos, segundo revela sua própria versão dos fatos, prestada na semana passada, já em Londres.

CHAPÉU DE PLUMAS - Se os argies - como os ingleses chamam os argentinos - não tivessem atacado pela retaguarda os 79 fuzileiros postados nas praias, no aeroporto, nas praias e junto à casa do governador, a captura das ilhas seria bem mais dura, sustentou Hunt. Na sua opinião, os 6.450 disparos de armas leves, doze foguetes e duas granadas de fósforo britânicos teriam feito mais vítimas fatais além da única oficialmente admitida pelo governo argentino e das quinze alegadas pelos britânicos. Os fuzileiros britânicos, em flagrante inferioridade, teriam ainda derrubado um helicóptero e feito submergir definitivamente um veículo anfíbio com dez soldados argentinos.

Finalmente convencido da inutilidade da resistência, depois de três horas de combates, Rex Hunt depôs os fuzis e armou-se de toda fleuma possível para dirigir-se ao comandante argentino da operação, almirante Carlos Busser. Como carro oficial, adaptou um táxi vermelho com uma bandeira britânica apressadamente instalada no teto. Além disso, não deixou de envergar seu traje cerimonial com espada e chapéu de plumas e, como sinal de cessar-fogo, lançou mão de uma bandeira branca atada à ponta do seu guarda-chuva.

Uma vez na frente do almirante Busser, Hunt recusou-se terminantemente a apertar a mão estendida - o oficial, disse ele, era "um invasor do território británico". Em resposta ao almirante, que considerou "indigno de um cavalheiro não trocar um aperto de mão", Hunt retrucou: "Não é civilizado invadir nosso país". E, imperturbável, teria intimado o comandante argentino a retirar-se imediatamente com seus homens. A resposta do almirante Busser foi dar a Hunt e seus fuzileiros um prazo até as 4 horas da tarde para arrumar suas coisas e serem levados embora do arquipélago - eles foram enviados ao Uruguai, de onde seguiram mais tarde para Londres. Essa não era uma situação nova para o experiente governador. Em 1975, como funcionário da embaixada britânica, ele abandonou às pressas Saigon, cidade que, como Port Stanley, mudaria de nome no dia seguinte à sua saída.

MUDANÇA DE MÃO - Consolidada a ocupação, o general Menéndez dissipou toda dúvida quanto à implantação do modelo argentino nas quase 200 ilhas que compõem os 12.173 quilômetros quadrados da paisagem austera e chuvosa do arquipélago, onde neva cinqüenta dias por ano e não existe nenhuma árvore nativa. Menéndez assegurou aos ilhéus "a proteção que a nossa Constituição consagra" - uma amarga piada para eles. Vinda do representante de uma furiosa ditadura militar para súditos de um multissecular regime de garantias individuais, a promessa soou na prática como uma ameaça.

Não houve apenas a troca de uma democracia plena para uma ditadura total. De cidadãos vivendo em sua terra, os ilhéus viram-se de uma hora para outra trocando de condição - agora, são "cidadãos estrangeiros habitantes da República Argentina". Isso os obrigará, entre outros transtornos, a receber documentos de identidade - uma intragável violência para os britânicos, que sempre resistiram, na metrópole, à introdução desse tipo de papel, considerado uma ameaça à privacidade. No que aparentemente considerou um gesto de magnanimidade, porém, Menéndez prometeu não impor na ilha o "estado de emergência" em vigor no continente.

Os kelpers, acostumados à vida pacata nessa desolada ilha onde os pubs fecham às 22 horas e existem apenas dez aparelhos telefônicos, esperam que essa nova ordem seja temporária - e enquanto aguardam a frota que partiu da Inglaterra com a missão de libertá-los, têm reagido com animosidade ao decálogo penal decretado pelos militares, que prevê a prisão entre 7 e 180 dias para crimes como andar alcoolizado, desrespeitar símbolos pátrios argentinos e prejudicar os serviços públicos. Um motorista quase atropelou um cinegrafista da TV argentina. Detido, alegou simplesmente que o repórter "estava onde não deveria estar" - e foi solto. Menéndez ordenou também a inclusão do ensino do castelhano nas escolas da ilha principal, a antiga East FalkIand, para o que já começou a contratação de professores bilíngües. Nos modestos 18 quilômetros de estradas pavimentadas locais, a mudança não foi menor: tanques obrigavam os motoristas - que nunca se defrontaram sequer com guardas armados - a alterarem o tradicional sistema inglês de mão à esquerda. A moeda local, que tinha paridade com a libra, perdeu seu sólido lastro para ficar atada ao peso argentino - uma das moedas mais desmoralizadas do mundo.

PETRÓLEO E HONRA - Não será esta, certamente, a única mudança na vida econômica dos kelpers, caso a Argentina consiga, de alguma maneira, manter seu domínio sobre as ilhas. Na semana passada, multidões de argentinos faziam fila defronte ao Ministério da Defesa, em Buenos Aires, para alistar-se como voluntários a viver e trabalhar nas Malvinas. O governo ainda não divulgara seus "planos de colonização", e prometeu respeitar as propriedades inglesas. Mas é certo que o impacto principal se fará sentir sobre a Falkland Islands Company, uma secular empresa britânica proprietária de quase a metade das terras e metade dos 650.000 carneiros do arquipélago.

A lã das ilhas, monopolizada pela empresa, é reputada como a mais branca do mundo - mas não tem, naturalmente, qualquer papel no atual conflito. A plataforma continental da região é que encerraria jazidas petrolíferas superiores às do Mar do Norte. Tais jazidas, no entanto, ainda não passaram de uma potencialidade sugerida sobretudo pela semelhança geológica da área com a província petrolífera do Mar do Norte, detectada por um estudo realizado em 1976 pela Jebco Exploration, empresa britânica especializada na prospecção de petróleo. Os testes sísmicos realizados em seguida permanecem envoltos em mistério. Um analista da Westem Geophysical, empresa americana que fez os testes, revelou na semana passada não se lembrar de nada "que excitasse as companhias petrolíferas". Como são justamente dados desse tipo de que dispõe a empresa estatal de petróleo argentina, a Yacimientos Petrolíferos Fiscales, levantou-se a suspeita de que o governo argentino pode estar superestimando as potencialidades das Malvinas, com o propósito de frisar a importância do território capturado por suas tropas.

De qualquer modo, para os britânicos, no momento, uma concreta questão de soberania se sobrepõe a um ainda não comprovado manancial de petróleo - e, da entusiasmada multidão que saudou com bandeirinhas a partida da Royal Navy para o Atlântico Sul, até os deputados que, no Parlamento, exigiam que a honra nacional fosse lavada, todos pareciam confiar nas previsões do ex-governador Rex Hunt. Em Londres, ainda indignado com o confisco pelos argentinos dos registros de uma comissão encarregada de preparar os festejos pelos 150 anos de domínio britânico sobre o arquipélago, a serem completados no próximo dia 3 de janeiro, Hunt sentenciou: "Espero estar lá de volta, para presidir as comemorações".

 
     
voltar
 
  VEJA on-line | Em Dia