Brasil e sociedade

Política e economia

Internacional

Ciência e tecnologia

Saúde e sexo

Artes e espetáculos

Gente e memória

Religião e História

Esporte e aventura

Educação e trabalho

Sugira uma capa

Sobre o site

Sobre VEJA

1968 - 2007 | imagens

1993 - 2007 | reportagens

1997 - 2007 | edições integrais

Edição n° 1

Edições extras

Edições especiais

Reportagens de capa
1968 - 1997



Busca detalhada


Imagens das capas
1968 - 2007



Busca detalhada


Em Dia


Acesse o site

  14 de março de 1973
O gaullismo
em xeque


Como numa novela de ficção política, toda a França poderia transformar-se num novo país no espaço de uma semana. Em plena Europa ocidental, um outro Chile começaria a nascer: com a vitória da coligação esquerdista nas eleições legislativas, a França dos barões de Rothschild, do Maxim's e do Faubourg St. Honoré teria seus dias contados. Em seu lugar surgiria a terceira mais poderosa potência socialista do mundo, com 51 milhões de habitantes, armamento nuclear e indústria moderna - e, de um golpe, todo o equilíbrio europeu ficaria alterado. A Itália, possivelmente, não tardaria a seguir o mesmo caminho. O Mercado Comum e a aliança militar atlântica entrariam na pior crise de suas histórias. E os Estados Unidos se veriam dramaticamente obrigados a reformular toda a sua política européia de segurança.

Na semana passada, entre os dois turnos das eleições para renovar as 490 cadeiras do Parlamento francês, o cenário temido por muitos acabou revelando-se mais tranqüilizador. Apurados os votos da primeira etapa das eleições, os esquerdistas tinham, realmente, obtido um avanço fulminante, podendo mais do que dobrar sua representação na Câmara dos Deputados - mas não haviam conseguido chegar aos 51% necessários para criar a França socialista. O governo tinha, realmente, recuado para seu ponto eleitoral mais baixo - mas conseguia, embora através de alianças altamente incômodas, garantir a maioria suficiente para continuar no poder. E, em lugar do drama da Europa ocidental, houve apenas o drama do gaullismo, que, através do general De Gaulle, primeiro, e de Georges Pompidou, depois, vem reinando na França há quinze anos sem interrupção.

Com um sinal de mau agouro, as luzes do Ministério do Interior, na elegante Place Beauvais, na margem direita do Sena, tiveram de ser apagadas para evitar uma sobrecarga de eletricidade, justamente no momento em que começavam a fluir para os computadores do centro de apuração de votos os primeiros resultados das eleições. E na sua sala iluminada por velas, o ministro Raymond Marcellin foi um dos primeiros membros do governo a ter certeza da sombria realidade para o gaullismo: o partido governamental UDR e mais seus aliados, Republicanos Independentes e CDP, tinham obtido apenas 38% dos votos no primeiro turno, com perspectivas de perder 120 deputados - ou mesmo mais. A esquerda, unida pela primeira vez desde 1936, ganhava 42% e a chance de recuperar as cem cadeiras que perdera na hecatombe eleitoral de 1968. E, mais que tudo, o governo Pompidou se viu obrigado, para obter unia precária maioria, a aliar-se com seus arquiinimigos centristas, reagrupados no Movimento Reformador, e dispostos, naturalmente, a cobrar o mais alto preço pelo seu apoio.

SEM ORGULHO - Foram as primeira eleições na França sem De Gaulle - e o general, afastado do governo e 1969, falecido no ano seguinte, certamente teria ficado pouco orgulhoso com a atuação dos seus herdeiros. E sua viúva Yvonne, ao depositar o voto na urna de Colombey-les-Deux-Êglises, podia consolar-se apenas com sua obstinada recusa em jamais reconhecer Pompidou como herdeiro do general.

No domingo passado, após uma semana de negociações frenéticas, os gaullistas marcharam para o segundo turno desorientados por divisões internas, acordos parciais e palavras de ordem contraditórias. Nada fazia lembrar o glorioso clima do “raz de marée" de 1968, quando os franceses, assustados com a explosão de anarquia do mês de maio, confiaram aos gaullistas 358 cadeiras na Câmara dos Deputados - a mais ampla maioria que o governo jamais conseguiu reunir.

Desta vez, a cruz de Lorena gaullista, absoluta nas ruas de Paris nas últimas eleições, dividia igualmente o espaço com a rosa socialista de François Mitterrand e a foice-e-martelo do líder comunista Georges Marchais. Os políticos do governo, há quinze anos seguros de sua invulnerabilidade, voltavam a monopolizar as mesas dos bares e restaurantes vizinhos à Place du Palais Bourbon, onde fica a Câmara dos Deputados, negociando dia e noite a salvação de suas cadeiras com os centristas de Jean Lecanuet e Jean-Jacques Servan Schreiber. E na mansão do ministro das Finanças Valéry Giscard d’Estaing, na aristocrática Rue de Benouville, ou no apartamento do ministro das Questões Sociais Edgar Faure, na multimilionária Avenue Foch, os almoços, jantares e vigílias eleitorais se sucederam durante toda a semana passada.

Para os estrangeiros, a situação devia ser tratada com cautela. O novo embaixador dos Estados Unidos na França, John Irwin, que deveria apresentar suas credenciais entre os dois escrutínios, preferiu adiar sua chegada. O enviado especial da Rádio Moscou, cobrindo as operações no quartel-general do PC no subúrbio de Gentilly, se contentava em descrever com entusiasmo as novas máquinas de votar, sem tomar partido contra a política do governo Pompidou. E os israelenses, sempre preocupados com a tendência pró-árabe do governo francês, decidiam entregar a seus computadores políticos a interpretação das porcentagens eleitorais.

ESTABILIDADE - Quanto aos franceses, parecia claro que estavam suficientemente cansados do gaullismo para lhe impor o pior resultado eleitoral desde que o general De Gaulle, em 1958, subiu ao poder sob os escombros da Quarta República, caótica e corrupta, na qual a duração dos governos podia ser medida em horas. A Quinta República inaugurada pelo general daria à França seu primeiro período de estabilidade desde a guerra mundial - e teria saúde suficiente para enfrentar momentos cruciais como a independência da Argélia, a rebelião de maio de 1968 e a própria aposentadoria de De Gaulle no ano seguinte, quando foi substituído na presidência por Pompidou, um ex-professor de literatura de olhar sempre irônico, sobrancelhas grossas e um cigarro de filtro perpetuamente pendurado no canto dos lábios.

Pompidou sempre pareceu ter todos os atributos necessários para agradar o complexo ser humano conhecido como o “francês médio”. Nascido em Condat, um vilarejo da isolada região central da Auvergne, ele subiu na vida e na política usando em doses certas todas as virtudes clássicas do interior da França: prudência, bom senso, realismo, a desconfiança em relação ao dramático ou grandiloqüente, a preocupação em defender "o que é nosso”. E, aos 62 anos, após ter conseguido elevar-se de um melancólico emprego como professor de província para a presidência da França, com uma magnífica passagem pelos postos de direção da melhor finança européia, Pompidou ainda conserva todas as raízes de sua sólida formação provinciana.

Na sua carreira, as coisas sempre correram sem sobressaltos. Logo após a guerra, foi admitido no círculo mais chegado ao general De Gaulle (e a partir de então iniciou sua escalada política) sem nunca ter participado da resistência contra os alemães. Posteriormente, foi conselheiro de Estado sem ter formação jurídica, diretor do Banco Rothschild sem ter estudado finanças e, em 1962, nomeado primeiro-ministro por De Gaulle sem nunca ter sido deputado. Para completar, elegeu-se presidente, em 1969, numa campanha em que praticamente não teve adversários.

ENERGIA - Durante sua ascensão, Pompidou evitou cuidadosamente qualquer deslize para o grandioso. “Agora virei uma espécie de diretor geral ou coisa parecida”, disse ele a um amigo quando assumiu a chefia do formidável holding dos Rothschild. E, na sua vida particular, parecia estar permanentemente à vontade, circulando em Paris e St.-Tropez com a sua elegante e mundana esposa Claude, cercado pela alegre “bande à Pompom”, heterogêneo grupo de artistas, aristocratas e intelectuais diversos - aos quais podiam se agregar, eventualmente, figuras como o guarda-costas de Alain Delon, pessoa que tinha o péssimo hábito de levar uma câmara Polaroid para as festas íntimas que organizava, e que acabou sendo definitivamente acalmado com uma bala na cabeça, em 1969.

De qualquer forma, na grave constelação que girava em torno do general De Gaulle, Pompidou provou ser a estrela de maior fulgor. Seu grande momento veio na crise de maio de 1968 - num momento em que os mais ilustres gaullistas se perdiam na própria perplexidade, Pompidou, numa explosão de energia, assumiu diretamente quatro ministérios, negociou com sindicatos e estudantes, chefiou a polícia e a economia, e mostrou ser o único político francês capaz de administrar uma calamidade nacional. Quando logo depois vieram as eleições, com uma estonteante maioria para o governo, era ele quem aparecia como o poderoso arquiteto da vitória. E, no ano seguinte, sua eleição para a presidência, por um período de sete anos, não poderia ter vindo de forma mais natural,

REVERSO - Nos seus quase quatro anos como presidente, Pompidou poderia sustentar que as coisas nunca andaram tão bem. Com um crescimento anual de 6% em sua economia, a França se tornou sob Pompidou o país do Mercado Comum com a maior taxa de expansão. “Todos os observadores estrangeiros reconhecem e escrevem que a situação da França é excepcional", insistia ele no seu discurso de fim de ano. De fato, as cifras são alentadoras. A renda média de 6.000 francos mensais por família de quatro pessoas está entre as mais altas do mundo. Até 1980 ela deverá superar a da Alemanha, em 1985 será equivalente a duas vezes a renda per capita inglesa e nos anos seguintes poderá ser igual à americana. A computação do número de automóveis, telefones, escolas e itens de conforto doméstico, de um lado, cruzada com as taxas de criminalidade, consumo de tóxicos, mortalidade infantil e doenças, de outro, fazem de Paris a capital européia daquilo que se começa a chamar "felicidade nacional bruta".

Toda essa pujança, entretanto, não foi suficiente para que a maioria dos franceses se sentisse satisfeita com o governo Pompidou. Em primeiro lugar, há o reverso do quadro econômico. Quase um terço dos trabalhadores franceses, sustenta a esquerda, ganha menos de 800 francos por mês (cerca de 180 dólares). Com 44 horas semanais de serviço, o francês trabalha mais que qualquer outro europeu. Cerca de 15% da população, segundo o governo, vive em condições de “superpovoamento acentuado" (só nos subúrbios de Paris, há 50.000 famílias nesta situação), enquanto, na capital, 175.000 moradias estão desocupadas, por causa do alto preço dos aluguéis. A distância média de casa para o trabalho passou, em vinte anos, de 8 para 15 quilômetros, e um em cada seis assalariados tem de tomar pelo menos três conduções para ir diariamente ao serviço.

Por outro lado, os franceses parecem ter desenvolvido nos últimos anos uma crescente aversão pela burocracia, que, mais que em qualquer outra época, dá a impressão de estar empenhada em infernizar a vida diária dos cidadãos, diante da soberana indiferença dos ministros e do próprio presidente. A subsistência, em 1973, de regulamentos que chegam a cronometrar o trabalho de limpeza das “concierges” nos prédios parisienses (“um minuto e meio por metro quadrado para os primeiros 40 metros, e 30 segundos por metro quadrado para o restante da superfície” ) chega a ser particularmente odiosa para muitos franceses. E uma casta de funcionários freqüentemente insensíveis, às vezes arrogantes, acaba fazendo com que a irritação popular recaia, à falta de outro alvo. sobre a figurado presidente.

CORRUPÇÃO - Foi numa crônica infeliz de escândalos, entretanto, que o regime viu seu apoio ir se dissolvendo progressivamente. Desde o início de 1970 uma escalada de fraudes, escroquerias e peculato passou praticamente a fazer parte da vida cotidiana da França. Em janeiro daquele ano, para provar a desídia da rádio e televisão estatais, um repórter de um jornal de direita instalou-se numa sala vaga no andar da diretoria - e, durante oito dias, deu ordens pelo telefone, convidou os amigos e tocou piano nos estúdios, sem ser incomodado por nenhum responsável. O caso provocou apenas riso. Mas os parisienses já não acharam tanta graça ao descobrir, também pela imprensa, que o novo matadouro de La Villete, obra gigantesca que custara 1 bilhão de francos, teria de ser abandonado depois de pronto por ser operacionalmente inviável.

Ao mesmo tempo, multiplicava-se em proporção geométrica a modalidade mais popular de negociata, envolvendo sociedades de administração imobiliária. Teoricamente, essas sociedades devem captar recursos de investidores e aplicá-los no mercado imobiliário, devolvendo juros retumbantes ao aplicador. Na prática, muitas vezes, o dinheiro ia diretamente para o bolso dos diretores - entre eles, os deputados gaullistas André Rives-Henrv e André Rolland. Semana após semana, a avalancha rolava encosta abaixo. Philipre Dechartre, secretário de Estado encarregado do desenvolvimento da ilha de Ré, exigiu 5 milhões de francos para aprovar a planta de um projeto habitacional. O ministro da Agricultura Jacques Chirac, conhecido a partir de então como “Chateau-Chirac”, comprou por preço ínfimo um castelo em ruínas logo depois tombado pelo patrimônio nacional, que se encarregou das despesas do reconstrução. O secretário geral da UDR, René Tomasini, pôs à venda o catálogo de clientes da TV francesa.

Na escalada se misturam o deputado gaullista Edouard Charret, que dava cobertura ao proxenetismo em Lyon, e o irmão do ex-tesoureiro nacional da UDR, Jean-Claude Ribes, que se envolveu numa gigantesca operação de notas frias. O clímax, enfim, foi atingido em outubro do ano passado, quando Gabriel Aranda, funcionário do Ministério de Obras Públicas, entregou à imprensa 136 fotocópias comprometedoras que havia colecionado nas horas vagas. Os franceses ficaram sabendo, nessa ocasião, de interessantes detalhes sobre como são feitas certas concorrências públicas para construção de estradas e pontes.

SACRIFÍCIO - Para tornar as coisas ainda piores, o presidente Pompidou resolveu mandar para o sacrifício maior um homem que não esteve envolvido em nenhum desses casos - o primeiro-ministro Jacques Chaban-Delmas. Em novembro de 1971, um jornal parisiense capturou as quatro últimas declarações de renda de Chaban e demonstrou que durante todo esse período ele não havia pago um centavo de imposto. O primeiro-ministro tinha apenas se aproveitado com habilidade das deduções e incentivos fiscais, mas acabou pagando por tudo: em julho do ano passado foi substituído em seu posto por Pierre Messmer.

Tudo isso acabou corroendo o prestígio de Pompidou - ao mesmo tempo que o presidente via sua própria saúde se desgastar. Em dois anos, sua fisionomia mudou. E segundo alguns médicos de Paris, os cafés da manhã copiosos e as refeições robustas não bastam para explicar o súbito inchamento de seu rosto - a causa seria um tratamento com cortisona, devido a um reumatismo na perna. Oficialmente, os males recentes de Pompidou têm sido sumariamente apresentados como gripe, mas parece claro que sua saúde já não é a mesma. Pouco antes das eleições, deveria passar três dias de descanso em Auron, no Mediterrâneo. Acabou ficando dez. E, duas semanas atrás, pela primeira vez por razões de saúde, faltou à reunião ministerial das quartas-feiras.

RESSURREIÇÃO - No flanco aberto pelas falhas gaullistas veio se infiltrar o indestrutível François Mitterrand, que aos 57 anos verdadeiramente ressurgiu da morte. Há cinco anos, na crise de maio, ninguém apostaria um centavo no seu futuro político. No auge da rebelião, o líder socialista declarou dramaticamente que estava "pronto para assumir minhas responsabilidades” - isto é, para assumir a presidência, no meio do caos. Mas como ninguém aparecesse para lhe oferecer as responsabilidades, Mitterrand acabou, no dia seguinte, vagando entre os bandos que circulavam pelo Quartier Latin - até que, perseguido por alguns revolucionários especialmente mal-humorados, teve de se refugiar no quarto de um "concierge". Para completar o desastre, seu partido seria miseravelmente dizimado nas eleições que se seguiram - dos 116 deputados que tinha, ficou com apenas 57.

A essa altura, Mitterrand talvez pudesse ter mais sucesso numa das muitas profissões que os estudos astrológicos de uma revista de direita lhe indicavam: coveiro, agente secreto, grafólogo, lixeiro ou espeleólogo. Mas Mitterrand, filho de um chefe de estação, três vezes fugitivo de campos de concentração alemães e ministro de Estado pela primeira vez aos 31 anos de idade, não acreditava que estivesse acabado para a política. Pelo contrário, começou a construir a partir do zero, o que acabaria sendo a sua mais bem sucedida obra política: a atual união entre socialistas e comunistas, que finalmente pôs em xeque quinze anos de domínio gaullista.

Num trabalho de paciência extraordinária, Mitterrand começou quietas viagens ao interior, em busca dos restos do prestígio que tivera em 1965 - quando, como desafiante do general De Gaulle, conseguira obter 44% dos votos. Na sua cruzada, o líder socialista sentou-se em centenas de bares e restaurantes de toda a França, falou até a exaustão com os mais teimosos chefetes políticos de remotos vilarejos, mostrou-se numa infinidade de cinemas, salões paroquiais, terrenos de malha. Com sua oratória fácil e irônica, e uma habilidade política que muitos julgavam esgotada, conseguiu, ao fim de três anos de trabalho diário, reunir prestígio suficiente para conquistar o cargo de secretário geral do Partido Socialista em junho de 1971, por uma diferença mínima de votos.

ALIANÇA - A partir daí, Mitterrand iria iniciar a segunda parte de seu plano político - a aliança com o Partido Comunista e sua eficiente máquina de 450.000 filiados, 20.000 células diversas. o virtual controle da maior central sindical francesa - a CGT, com 1,5 milhão de membros - e vastos recursos financeiros. As negociações, como sempre ocorrera no passado, deveriam ser notavelmente cansativas. Mas Mitterrand, temperado por três anos de deserto, não se assustava com conversas de cinco ou mais horas. A seu favor, ele tinha a boa disposição do secretário-geral do PC. Georges Marchais, 53 anos. Torneiro mecânico, funcionário exemplar do partido e extremamente realista, Marchais sempre defendeu a união das esquerdas - única forma, a seu ver, de o PC chegar algum dia ao poder.

Um ano após o início das negociações o acordo foi afinal atingido: no fim do último mês de junho socialistas e comunistas assinavam seu programa comum, documento que, apesar de um indigesto prefácio de Marchais, transformou-se em best-seller nas últimas semanas, com 1,3 milhão de exemplares vendidos. O programa, naturalmente, salienta as concordâncias entre os dois partidos e trata vagamente dos problemas mais difíceis como, por exemplo, o Mercado Comum. E questões como a da aliança atlântica já causaram divisões antes mesmo de o programa ter tido chance de ser posto em prática. Enquanto Mitterrand assegura que os 500.000 soldados da França (a mais numerosa força da Europa), seus bombardeiros Mirage e seu pequeno arsenal de mísseis nucleares continuam vinculados ao Ocidente, o PC insiste que esse ponto não faz parte do acordo.

Nas questões mais práticas, entretanto, as posições são bem claras e afinadas. A esquerda unida quer a nacionalização de nove grandes conglomerados industriais (Dassault, Rhóne-Poulenc, Saint-GobainPoint-à-Mousson, Pechiney-Ugine-Kuhlman, Honeywell-Bull, ITT-France, Thompson Brandt, Roussel-Uclaf e Génerale d'Eléctricité), de todos os bancos e sistema financeiro e das companhias de seguro. O salário mínimo, prevê o programa, deve ser de mil francos mensais. A aposentadoria é estipulada aos sessenta anos, e a semana de trabalho reduzida para quarenta horas.

BARGANHA - Embora François Mitterrand tenha ocupado o centro do palco como líder da esquerda unificada - Marchais, com seu riso truculento e fisionomia de pouco charme , preferiu aparecer menos -, os comunistas, surpreendentemente, tiveram mais votos que os socialistas no primeiro turno das eleições. Foi um contratempo para Mitterrand, mas, até o fim da semana passada, o tradicional temor socialista de uma coligação dominada pelo PC não parecia ser motivo suficiente para trazer cisões.

Já no campo do governo, a barganha se revelara extremamente pesada. Basicamente, o apoio dos centristas ao gaullismo podia ser negociado em dois níveis: desistência de seus candidatos em favor dos candidatos do governo no segundo turno, ou composição na Câmara para assegurar maioria sobre os esquerdistas. Nessa última hipótese, os dois líderes do centro tinham uma pesada lista de reivindicações. Jean Lecanuet, para colocar seus deputados à disposição do governo na Câmara, quer modificações incômodas na política européia e, também, uma aproximação maior da França com Israel, em detrimento dos árabes. Jean-Jacques Servan-Schreiber, por sua vez, exige o abandono do projeto do avião supersônico Concorde (que já consumiu, sem perspectivas imediatas de retorno, cerca de 1,5 bilhão de dólares) e a diminuição em 25% das despesas militares.

Lecanuet e Servan-Schreiber, além disso, pareciam bem situados para reivindicar postos ministeriais. É provável que, passadas as eleições, abram-se algumas ricas vagas no ministério - o primeiro-ministro Pierre Messmer, o ministro do Exterior Maurrice Schumann, o ministro da Defesa Michel Debré e talvez o ministro do Interior Raymond Marcellin, quatro dos mais duros gaullistas da França, poderiam deixar seus postos, indicava-se na semana passada.

Ao longe dela, Lecanuet iria se revelar um parceiro mais dócil, anunciando desde logo que estava disposto a cooperar com o gaullismo para deter o avanço da coligação esquerdista. Servan-Schreiber, entretanto, conseguiu criar no último momento um clima de pânico entre os amigos de Georges Pompidou ao declarar inesperadamente na noite de sexta-feira que a manutenção do governo era "um risco maior” para a França do que o comunismo. Aparentemente, um desacordo de última hora com os gaullistas o havia levado a esse rompimento. Aparentemente, também, renegociações durante a madrugada recolocaram as coisas no lugar. Na noite de sábado, após um dramático e imprevisto discurso do presidente Pompidou pela televisão, solicitando votos - pela lei eleitoral, a campanha estava encerrada desde a manhã -, Servan-Schreiber voltava atrás, anunciando que o discurso havia sido "mais do que razoável".

O gaullismo chegava à votação de domingo, desta forma, exausto com a campanha, com os adversários e com os aliados. Mais que tudo, parecia certo que o gaullismo glorioso de outras eleições não tem mais espaço para se firmar na França de hoje. As eleições legislativas mostraram que no próximo grande embate político do país - as eleições presidenciais de 1976 - os nomes mais evidentes não vêm das fileiras organizadas pelo general De Gaulle. O candidato da esquerda, logicamente, deverá ser o prestigiado Mitterrand. E, para enfrentá-lo, o melhor combatente parece ser o ministro Giscard d'Estaing, líder dos Republicanos Independentes e aliado firme dos gaullistas - mas, de maneira nenhuma, um homem que o general poderia endossar. “Giscard ainda vai me trair um dia”, dizia o general De Gaulle. “Esperemos, apenas, que ele o faça direito.”

 
     
voltar
 
  VEJA on-line | Em Dia