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13 de novembro de 1996
O monstro interior

Ciúme, a "dor da alma" que todos
alguma vez sofreram, mata
e mutila em escala
patológica

Você está em casa, preparando-se para mais uma noite tranqüila, quando a pessoa amada, aquela com quem você compartilha a cama, a mesa e os sonhos, comunica que encontrou outro alguém, seu coração tem novo dono, está caindo fora. Qual a sua reação?

Pensa: 'Nossa, estou me sentindo mal à beça. Mas essas coisas acontecem, não é mesmo? Que eles sejam felizes em sua nova vida'.

Ou: 'Malditos, desgraçados, traidores. Tomara que se arruínem, morram trespassados por setas enferrujadas e torrem eternamente no fogo do inferno'.

Se você se identificou com a segunda alternativa, tudo bem. Essa pode ser considerada uma reação saudável diante da devastação emocional causada pelo ciúme e pela rejeição, dois dos sentimentos mais terríveis experimentados pela alma humana. A primeira alternativa é impossível, exceto para os candidatos à santidade em vida ou desprovidos de qualquer resquício de paixão. Existe, ainda, uma terceira opção - e dela quantos também não terão em algum momento, secretamente, cogitado? Em vez de vaticinar 'tomara que morram', reconhecer: 'quero matar', ou 'quero destruir'.

Pensa-se nessas alternativas, mas não se segue adiante. Os freios sociais, os mecanismos de autopreservação ou, simplesmente, um tremendo porre seguram o monstro, a fera interior que devora almas e clama por vingança. Para a ação destrutiva, contra si mesmo ou contra o outro, parte apenas uma ínfima minoria. Enfiar um revólver na boca e disparar, como fez Luiz Carlos Leonardo Tjurs, empresário de 29 anos, diante da noiva, a belíssima modelo e atriz Ana Paula Arósio, a quem imaginava protagonista de traições ocorridas quando os dois nem sequer estavam juntos, é coisa de um homem muito, muito ensandecido. Levar uma faca a um motel, ocultá-la sob os lençóis e, depois de uma noite de sexo, usá-la para decepar o pênis do namorado, como fez J., uma garota linda de apenas 17 anos, com João Carlos Mattos de Faria, é vendeta de mulher desprezada numa escala quase mitológica (veja as reportagens seguintes sobre os dois casos).

Os crimes de ciúme espantam e fascinam. Um lado, o racional, é só perplexidade. Como é possível que uma jovem que num dia fazia compras e planos no outro tenha matado o amante e se suicidado - como Suzana Marcolino e Paulo César Farias, há quatro meses? Por que um sujeito boa-pinta e bon vivant cometeu a suprema estupidez de fuzilar à queima-roupa a mulher por quem era apaixonado, caso de Doca Street e Ângela Diniz, havia quase vinte anos? Outro lado, o das sombras onde se moem os impulsos mais primitivos, chega mais próximo de entender os estragos decorrentes da profunda 'dor da alma', a definição dada por Sócrates ao ciúme.

A dor é imensa - e banal. Todos os ciumentos são iguais, desde Hera, a divina imortal do Olimpo, que se comportava como dona de casa suburbana na marcação cerrada sobre as escapadas do marido, Zeus, até o verdureiro que faz da esposa picadinho depois de entornar uma garrafa de cachaça. O pensador francês Roland Barthes, em Fragmentos de um Discurso Amoroso, resume os múltiplos e humilhantes penares das vítimas do monstro de olhos verdes. 'Como ciumento, sofro quatro vezes: porque sou ciumento, porque me reprovo em sê-lo, porque temo que meu ciúme magoe o outro, porque me deixo dominar por uma banalidade. Sofro por ser excluído, por ser agressivo, por ser louco e por ser comum.'

O ciúme começa de mansinho, fruto do tão humano e compreensível 'amor por uma só pessoa, junto com o receio de que não seja recíproco', segundo resumiu em 1651 o pensador inglês Thomas Hobbes, no capítulo intitulado 'Movimentos voluntários vulgarmente chamados paixões', do Leviatã. Ou, no popular, do impulso de 'cuidar do que é seu'. É ele que faz com que a mulher registre com percepção quase extra-sensorial cada milésimo de decibel a mais nas risadas do marido para aquela loira exibida, e nem adianta vir com desculpas porque a situação vai ficar pior ainda. Ou transforma o marido ignorante dos desígnios da moda num fiscal atentíssimo de barras e decotes. Está-se aí na esfera do ciúme normal, a primeira das três categorias definidas pelo psiquiatra Eduardo Ferreira Santos, que está lançando o livro Ciúme - O Medo da Perda - as outras duas são a do neurótico e a do paranóide.
 
À luz da psiquiatria clássica, o ciúme 'normal' é um mecanismo de defesa, pelo qual a pessoa se protege de uma angústia maior. Descendo mais fundo, pode ser também a projeção de um desejo de infidelidade, ou até uma atração homossexual pelo rival real ou imaginário - entra aí Otelo, o general mouro de Shakespeare, comparando a beleza de Cássio, a quem imagina amante da pura Desdêmona, a seus próprios e toscos traços. A corrente moderninha dos chamados psicólogos evolucionários identifica um substrato biológico para o ciúme. Os machos precisam garantir a transmissão de seu patrimônio genético, como, por exemplo, no sofrimento de Bentinho quando detecta no filho os traços de Escobar, o amante da Capitu de olhos de ressaca, no romance de Machado de Assis. Já as fêmeas necessitam do parceiro como provedor, pelo menos enquanto as crias são dependentes.

A etapa seguinte, do ciúme neurótico, é interpretada pela psicanálise como um conflito edipiano mal resolvido. O adulto teme constantemente reviver a situação da criança que cobiça o amor da mãe, ou do pai, mas descobre ser apenas um terceiro, o vértice fraco e alijado do triângulo. Como dói esse medo. O próprio Sigmund Freud, o pai da psicanálise e autor da frase 'quando amo, sou exclusivista', sucumbia a ataques de ciúme de fazer corar o mais inseguro dos adolescentes. Freud achava que Martha Bernays, sua futura esposa, devia tratar os primos apenas pelo sobrenome e nunca, jamais, demonstrar qualquer espécie de predileção por alguns amigos que, como artistas, levavam vantagem injusta sobre ele, um simples cientista em começo de carreira. Exigia, até, que Martha abandonasse a tudo e a todos, inclusive a própria mãe e o irmão. 'Certamente tenho uma tendência à tirania', reconheceu ele, subestimando os próprios exageros.
 

Segundo Peter Gay, biógrafo contemporâneo de Freud, 'seus acessos intermitentes chegavam por vezes às raias do patológico' - o terceiro e mais maligno patamar do ciúme, aquele em que a pessoa tem certeza de ser traída, mesmo que as evidências mostrem o contrário. 'O ciúme patológico é sempre imaginário', diz o psiquiatra Ferreira-Santos. Esse delírio encaixa-se na categoria médica da esquizofrenia paranóide e pode ajudar a entender as referências obsessivas ao 'amante mais velho', atribuído por Luiz Tjurs à noiva, Ana Paula Arósio. Quando explode em violência, o traído imaginário deixa um rastro de perplexidade. No dia 10 de dezembro do ano passado, o dentista fluminense Luiz Valente de Medeiros foi à casa da ex-mulher, Maria Márcia Passos Chaves, e passou a manhã jogando videogame com o casal de filhos adolescentes. Declinou, gentilmente, do convite de ficar para almoçar, dizendo que tinha um compromisso. Às 13h30 voltou e, sem uma palavra, fuzilou Márcia com quatro tiros, apesar dos gritos das crianças implorando que parasse. Recarregou o revólver, como quem quisesse matar-se, mas foi embora, largando a arma no corredor. 'Ele era muito ciumento. Depois que se separaram, encasquetou que os filhos não eram dele', conta um amigo da família.

'A pessoa fica escrava do sentimento, prisioneira de um pensamento doentio. O fato de a mulher usar batom já é motivo para desconfianças injustificáveis', analisa o psiquiatra forense Guido Palomba. Com mais de meio século de experiência no ramo, em defesa de pelo menos 100 homens que mataram suas mulheres, e de mais de trinta mulheres assassinas dos maridos, o advogado criminalista Waldir Troncoso Peres diagnostica a mistura explosiva que leva aos crimes do ciúme: 'Egoísmo, amor próprio ferido, impulso sexual frustrado e, predominantemente, sentimento de inferioridade'. Quem já não sentiu, em alguma medida, isso tudo? E por que a imensa maioria engole e processa esses sentimentos negativos, enquanto alguns poucos matam e morrem por causa deles? Troncoso Peres puxa a brasa para a sardinha dos clientes. 'Cada um tem um limite de sofrimento que é absolutamente particular. Certas pessoas sofrem uma imensa ebulição interior', diz ele. 'Um dia, o comando ético que as detém é rompido. Então, cometem o crime. Ninguém é culpado de crime algum. A vida é a artesã de todas as diabruras do homem sobre a Terra.'

Essa mesma artesã, no entanto, pode tecer seus fios para o lado oposto. A literatura e a arte, que se alimentam vitalmente na fonte do ciúme - sem ele, não existiria Otelo, nem Carmen, nem Traviata, nem o romantismo todo -, reservam-nos preciosas vias de escape. Foi George Sand, o pseudônimo masculino usado pela francesa Amandine Dudevant, quem trouxe à tona, no século passado, a idéia do ciúme como um condenável sentimento de posse, conceito depois embasado ideologicamente pelo nascente pensamento socialista e retomado na revolução sexual dos anos 60. No Brasil, Jorge Amado abrandou o coração do turco Nacib e deixou-o abrir as portas à adúltera Gabriela. Mais apaixonado ainda, o Jó Joaquim de Guimarães Rosa, no conto Desenredo, também surpreende em flagrante delito a contumaz Vilíria. 'De amor não a matou, que não era para truz de tigre ou leão. Expulsou-a apenas.' Depois, dedicou-se a remendar a reputação da traidora aos olhos da população da aldeia. 'Retomaram-se, e conviveram, convolados, o verdadeiro e melhor de sua útil vida.'

 

 

Amor de perdição

Vítima de um ciúme obsessivo,
o noivo de Ana Paula Arósio se mata
diante dela com um tiro na boca

Faltavam quarenta dias para o casamento da modelo e atriz Ana Paula Arósio, 21 anos, com o empresário Luiz Carlos Leonardo Tjurs, 29. Apaixonada, ela escolhia peças finas para o enxoval e pensava no vestido de noiva, branco, com véu e grinalda, exatamente como sonhava. Uma bala de revólver calibre 38 pôs fim à história de amor, transformada num pesadelo de ciúme patológico. Ana Paula, cujos olhos azuis resplandecentes e o sorriso perfeito lhe valeram a fama de o rosto mais bonito do país e fotos de capa de mais de 250 revistas, aqui e no exterior, namorava Luiz havia apenas seis meses. Nas últimas semanas, o encantamento inicial já cedia a uma realidade dolorosa. Obcecado, Luiz começou a espalhar para os amigos que Ana o traía e chegava a enumerar os supostos rivais. Nada, porém, poderia antecipar a cena de horror vivida no domingo 3, quando ele encerrou o namoro da maneira mais drástica possível: com um tiro na boca, disparado diante da noiva estarrecida.

O mergulho no inferno começou na sexta-feira. Às 9 da noite, depois de um dia inteiro de gravações da novela Os Ossos do Barão, ela foi ao apartamento do namorado. Não teve uma boa recepção. 'Ele perguntava tudo sobre as cenas que eu havia gravado e com quem eu tinha trabalhado', contou Ana, na sexta-feira passada, em seu depoimento no inquérito policial que investiga o suicídio. 'Ele parecia dopado e dizia que os amigos telefonavam para contar que eu o traía.' O casal discutiu durante três horas. Enfurecido, Luiz arremessou uma garrafa de vinho na parede, quebrando o espelho da sala. À meia-noite, quando Ana decidiu ir embora, o namorado insistiu em segui-la de carro até a casa dos pais, para ter certeza de que ela não iria a nenhum outro lugar.

No sábado, Luiz ligou e, com voz pastosa, pediu a Ana Paula que fosse ao seu apartamento à noite. Lá, limitou-se a entregar um bilhete em que se dizia decepcionado 'com um mundo podre, um mundo que não é meu', e acusava a namorada de traí-lo com o empresário Luiz Simonsen, 30 anos, e com o apresentador de TV Serginho Groisman, 46. O fato de ter contado que se havia iniciado sexualmente com um namorado por quem fora apaixonada passou a ser esgrimido contra ela. Aos olhos do namorado enlouquecido de ciúme, a bem-comportada Ana Paula transformava-se numa oportunista, que passava de mão em mão à procura de um partido melhor. 'Quebrou-se o cristal, quebrou-se o sonho, quebrou-se a confiança', anunciava.

Preocupada, Ana Paula foi visitar o namorado no domingo bem cedo, antes da gravação da novela. Chegou ao apartamento às 7 da manhã. Encontrou Luiz deitado na cama, transtornado, com dificuldades para se manter de pé. Discutiram, discutiram e discutiram. A empregada Maria das Graças Pinheiro ouviu tanta gritaria que, com medo, fechou a porta do seu quarto. A briga continuava. Luiz sentou-se na cama, com um revólver na mão. Começou a pôr as balas no tambor. 'Me mata', pediu, estendendo a arma. Ela balbuciou: 'Não'. A tortura foi num crescendo. Trancando-se com Ana Paula no banheiro, Luiz aninhou o revólver no cinto e começou a escrever um bilhete em que dizia: 'Eu, Luiz Tjurs, gozando plenamente das minhas faculdades mentais, decidi, por vários motivos, que não tenho razões para continuar vivendo...' Em pânico, Ana tentou aproximar-se para roubar a arma. Quando percebeu, Luiz empurrou-a para trás, abriu a porta e foi cambaleando para o quarto. Enfiou o revólver na boca e disparou.

'Quando cheguei ao prédio, ela não conseguia falar coisa com coisa, estava em estado de choque', diz Marco Aurélio Garcia, amigo e conselheiro de Ana Paula, localizado pelo pastor Hesley, do templo evangélico onde o casamento seria celebrado, e a primeira pessoa a quem a modelo telefonou. A cena encontrada por Marco: Luiz estendido no chão do quarto com uma bala na cabeça. Sobre o criado-mudo, caixas com comprimidos de Lexotan, um calmante, e Rohypnol, um hipnótico, medicamentos de venda controlada que podem ajudar a explicar por que uma situação já patológica se pode ter agravado a um limite insuportável. Tomados indiscriminadamente, ou associados a bebidas alcoólicas, os remédios - especialmente o Rohypnol, proibido nos Estados Unidos - desencadeiam graves efeitos colaterais. 'Esse medicamento rebaixa o nível de consciência e seu usuário pode perder a capacidade de comparar e avaliar situações', explica o psiquiatra Eduardo Ferreira-Santos. 'Ele pode entrar num estado em que não distingue a realidade da fantasia. É como se sonhasse, ou tivesse pesadelos, acordado.'
 
Com ou sem remédios, Luiz Tjurs, um rapaz bonito, com aspirações artísticas, já vinha dando sinais de confusão entre o real e o imaginário. Inseguro, alucinadamente ciumento, ele se desequilibrou progressivamente ao se apaixonar por uma das modelos mais cobiçadas do país, fanática por trabalho e com uma agenda tão lotada que precisou trancar matrícula na Faculdade de Letras da USP. Ana Paula acordava todos os dias às 5h30, participava das gravações de Os Ossos do Barão, no SBT, fazia ginástica e tinha aulas de inglês, canto e interpretação. No que sobrava de tempo, viajava para fazer fotos e gravar comerciais. Para quem alimenta um enorme sentimento de posse e fantasias de traição, não pode haver coisa pior. 'Ele sempre foi ciumento e possessivo, queria todas as atenções para ele, mas nunca imaginei que pudesse chegar a esse ponto', conta a modelo e atriz Gisele Fraga, que há seis anos teve um romance com o rapaz.

As fantasias se aceleraram nas últimas semanas. Luiz Tjurs falava sobre o suposto amante de Ana Paula a todos os amigos. 'Ele estava paranóico de ciúme, inventou uma história e passou a acreditar nela', diz o empresário Júlio Pignatari, dono da boate Base e amigo de Tjurs, que freqüentava a mesma igreja evangélica. Serginho Groisman, colega de Ana Paula no SBT, onde apresenta o Programa Livre, ficou impressionado com os bilhetes do suicida. 'Nunca namoramos, somos amigos, e não a vejo há mais de três meses', diz. A família do empresário Luiz Simonsen admite que ele namorou Ana Paula em 1992, durante cerca de seis meses. 'Mas nunca mais se viram desde então', diz um parente.

A divulgação do bilhete causou comoção no viperino mundo das passarelas, onde Ana Paula, estrela com cachê que chega a 50 000 reais por comercial e a 10 000 por foto publicitária, ainda tem fama de menininha mimada. Num ambiente em que não é estranho trocar de namorado uma vez por semana, ela destoava pela timidez e discrição. Até o ano passado ainda era acompanhada em todo e qualquer compromisso por sua mãe, Claudete. Sai pouco e não usa roupas provocantes. Entre discos de Pink Floyd e U2, ouve muita música clássica - sua ópera preferida é La Bohème, de Puccini. Seu perfil parecia casar maravilhosamente com o do introspectivo Luiz, um rapaz tímido que não gostava de badalar e preferia ficar em casa dedilhando seu piano de cauda. Em 1989, como vocalista do grupo Loui, ele chegou a lançar um disco independente, chamado Sombras e Virtudes. Vendeu menos de 1 000 cópias.

Luiz Tjurs era o herdeiro de uma família marcada pela tragédia. Seu bisavô, um imigrante russo, morreu louco, internado num manicômio. Sua avó também terminou os dias em um hospício. Em menos de um século, a família foi da pobreza à fortuna e à bancarrota com a rede de hotéis Horsa, que na década de 60 chegou a ser a maior do país, mas em 1993 abriu falência com um passivo de 25 milhões de dólares. Para Luiz Tjurs, restou um apartamento reformado que ocupa um quinto da cobertura dúplex que pertencera a seu pai. Além de uma revendedora de carros importados, ele tinha uma produtora de vídeo.

Amigos e parentes dedicaram os últimos dias a recordar os 'recados' do suicida, acreditando que sua morte poderia ter sido evitada - uma tortura que, além de desnecessária, é inútil. Ana Paula, ainda chocada com a visão do namorado morto, passou dois dias sedada. Ao acordar, delirava pedindo para experimentar o vestido de noiva. Obrigada por lei a prestar depoimento no inquérito que investiga as circunstâncias do suicídio, fez declarações com o olhar perdido e o rosto inchado de tanto chorar. Nilton Travesso, diretor do núcleo de dramaturgia do SBT, foi visitá-la e combinou com sua mãe que Ana Paula voltaria a trabalhar ainda nesta semana.

 

A dor maior dos que ficam

 Quando uma pessoa decide tirar a própria vida - e, no Brasil, são dezesseis casos por dia -, lega aos sobreviventes uma dor irremediável e uma dúvida aflitiva: por quê? Procurar as razões, o primeiro impulso de um parente angustiado, pode ser uma batalha perdida. 'É inútil pensar que algo poderia ser feito. Se o suicida pudesse falar sobre seus problemas, não escolheria a morte', diz a psicanalista Angelina Harari. Há três anos, o jovem Mark Miyakoshi, de 18 anos, atirou-se da janela de seu apartamento, no Rio, ao saber da morte de uma amiga por quem era apaixonado. Sua mãe, Suzana Miyakoshi, desistiu de entender a tragédia. Arrasada pela dor maior que uma pessoa pode sentir, converteu-se ao espiritismo para poder perdoar o filho. 'Ninguém é culpado pela opção do suicida. A morte é uma decisão só dele', consola-se.

Depois da tragédia, os envolvidos costumam se culpar por não ter entendido os pedidos de ajuda. É outra armadilha. 'Por mais que o suicida receba apoio, nem sempre reconhece esse esforço', diz o psiquiatra Roosevelt Cassorla, da Unicamp. Na fantasia do suicida, seu espectro rondará eternamente os culpados por sua infelicidade. Mas os inocentes também pagam. O carioca Luciano Bandeira Morand tinha 14 anos quando seu pai deu um tiro na têmpora direita. Quatro anos depois, sua mãe morreu, vítima de uma doença rara. Órfão, ele teve de trabalhar para sustentar a casa e os estudos. Até hoje, não entende o gesto do pai. 'Por um lado, foi um ato de coragem. Por outro, deixar as besteiras que a gente fez para os outros resolverem é uma forma de fuga', avalia.
 'Com seu sacrifício', diz Cassorla, 'o suicida acusa os seus de coisas terríveis, mas não necessariamente reais'. As acusações podem ser muito difíceis de entender. Em 1990, o empresário Luís Flávio Maximino Rocha, marido da cantora Sula Miranda, deu um tiro na testa depois de uma crise de ciúme. 'Sempre que discutíamos ele ameaçava ir embora, mas nos abraçávamos e fazíamos as pazes', lembra Sula. 'Aquela vez, ele desceu para a sala e ouvi um tiro. Vivíamos numa lua-de-mel constante. Ele não deixou nem um bilhete, e nunca entendi o porquê. Só sei que perdi o amor da minha vida.'

hehe

 
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