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Reportagens 13 de setembro de 1995À espera do bebê que não vem De cada quatro casais que
Em 1979, quando completaram dois anos de casamento, os comerciantes Haroldo e Tereza de Brito e Silva, de Belo Horizonte, resolveram que havia chegado a hora de ter filhos. Depois de seis meses de tentativas frustradas, o casal procurou um médico. Eles passaram dois anos em consultas, exames e tratamentos, até que foram dispensados - apesar dos 24 meses, o médico disse que não havia nada de errado com eles, mas, alegando que desconfiava de algum problema emocional, sugeriu que procurassem um psicólogo. O casal não desistiu. Tereza começou a fazer terapia e, em outro consultório ginecológico, repetiu o tratamento e os exames de antes. Ela chegou a se submeter a três inseminações artificiais - e nada. Também fez um tratamento na tireóide, pois, disseram-lhe, ali poderia estar a origem do problema. Nada, de novo. Ao fim de nove anos de espera e angústia, Tereza foi submetida a uma técnica mais recente, conhecida como transferência de gametas para as trompas. Recebeu a garantia de que tinha 90% de chances de engravidar. Poucas semanas depois, estava menstruada. Hoje, ela e o marido têm dois filhos, um de 6 e o outro de 2 anos. Os dois foram adotados. Desde que marcaram a primeira consulta, Tereza e Haroldo deixaram o equivalente a 22 000 reais com médicos e laboratórios. "Não sei como fui capaz de suportar tantas ilusões perdidas", diz Tereza. "Os médicos dizem que podem tudo e você quer tanto uma criança que sempre acredita que da próxima vez tem de dar certo." Depois de 1978, quando nasceu Louise Brown, o primeiro bebê de proveta do mundo, a chamada medicina reprodutiva nunca mais parou de anunciar descobertas. Em 1980, apareceram as primeiras mães de aluguel e desde 1986 tornou-se possível predeterminar o sexo dos bebês. Em 1994, na Itália, uma mulher de 63 anos conseguiu dar à luz. O que pouco se estuda são os fracassos acumulados em consultórios e hospitais, o drama de casais que passam anos em exames, tratamentos e cirurgias, sem nada levar para casa além de desgaste emocional, frustração - e um rombo no orçamento. A medicina reprodutiva é uma das marcas do progresso científico de nossa época e também uma indústria próspera em que consultas podem custar até 1 000 reais e um tratamento, sem a menor garantia de bons resultados, pode sair pelo preço de um automóvel. Seus números mostram um fracasso estatístico. De cada quatro casais que resolvem pedir auxílio médico para ter um filho, apenas um consegue o bebê. Essa marca, de 75% de fracassos, é um desastre. Só para ter uma idéia, a cirurgia mais complicada que existe, o transplante de fígado, no qual o paciente vai para a mesa de cirurgia correndo risco de vida, costuma dar certo em mais de 60% dos casos e o paciente sobrevive mais de um ano. A instalação de uma ponte de safena no coração costuma funcionar em mais de 95% dos casos. As técnicas de reprodução artificial, apresentadas com a simplicidade de uma operação de amígdalas, só funcionam em 25%. "As possibilidades técnicas são maravilhosas", afirma o professor Agnaldo Pereira Cedenho, da Universidade Federal de São Paulo. "A questão é que, na prática, os índices de sucesso não chegam nem a 30%, e aí a maioria dos casos fica sem solução." Como a teoria permite a esperança, os consultórios vivem lotados, até porque a dificuldade de ter filhos atinge mais casais do que se imagina. Há uma década, estimava-se que 13% dos casais necessitavam de algum auxílio artificial. Hoje, segundo o ginecologista Dirceu Henrique Pereira, esse número chega a 18% nos grandes centros urbanos brasileiros. Não se sabe por que o problema se agravou. Os médicos apenas formulam hipóteses. Entre as explicações possíveis, encontra-se o stress da vida urbana e mesmo a degradação ambiental, com a poluição provocando danos na delicada estrutura do organismo encarregada de produzir uma criança. Outros elementos prováveis são a expansão das doenças sexualmente transmissíveis e efeitos, ainda não totalmente estudados, do uso da pílula anticoncepcional. Muitas mulheres deixam para ter filhos mais tarde, quando se firmarem na carreira profissional - e, nessa idade, nem sempre seu organismo está tão fértil como antes. Desde que nasceu o primeiro bebê de proveta brasileiro, em 1984, já surgiram 55 clínicas médicas especializadas no país, número espantoso, considerando-se não só o caráter recente das descobertas e técnicas empregadas mas também a incerteza quanto aos resultados que podem ser obtidos. Existem clínicas que oferecem seus serviços em folhetos de propaganda, com fotografias coloridas que lembram anúncio de um spa e não um tratamento médico muito delicado. O responsável pelo primeiro bebê de proveta no Brasil, o médico Milton Nakamura, já é uma potência sul-americana. Inaugurou recentemente um hospital-dia com dez leitos e um consultório no Paraguai. O próprio Nakamura, que cobra 1 000 reais pela consulta, acusa: "Hoje há uma inundação de equipes que oferecem esses tratamentos. Algumas delas sem condições adequadas em equipamentos e mesmo em conhecimento médico". Embora a infertilidade seja puro problema médico, nenhuma pessoa que deseja ter filhos e se descobre incapacitada irá encarar essa situação com a mesma naturalidade do cidadão que vai ao oculista e recebe a notícia de que precisará usar óculos. Muitas vezes, a infertilidade representa um poço sem comparação. "Preciso de um filho para me sentir uma mulher completa", diz Vanda Alves Gilbeaux, de 27 anos, executiva que, em dois meses de tratamento, já gastou a fortuna de 10 000 reais. Homens e mulheres sofrem, cada um à sua maneira. As meninas crescem brincando de boneca, para a qual preparam comidinhas, arrumam o banho e contam histórias. Os meninos não passam a infância se preparando para a paternidade, mas, na adolescência, são ensinados a associar vigor sexual à fertilidade. Fica difícil, na idade adulta, conviver com uma surpresa tão desagradável. As mulheres choram, os homens envergonham-se. Por se sentirem incapazes de gerar filhos, os casais muitas vezes brigam, têm problemas com o orgasmo e até enfrentam situações de impotência. "A ansiedade, o medo e a insegurança estão quase sempre presentes", diz a psicóloga Cilly de Almeida Pereira de Carvalho. "O casal foge do contato social e sente-se mal em companhia de grávidas e de crianças." "Cheguei a chorar muito por causa disso", conta Mônica. Na torcida por um neto, os pais de Mônica compraram um carrinho de bebê, que até hoje, dois anos depois, continua no apartamento do casal - como uma promessa e uma tristeza. Os dois evitam festas com crianças, pois observar a algazarra dos filhos alheios chega a deixá-los ainda mais infelizes e até irritados. "Chegamos a inventar viagens, compromissos, apenas para não comparecer. Era difícil ver nossos amigos com filhos e pensar que não conseguíamos ter um", diz Mônica. "No início, os amigos faziam piadas e nós levávamos na brincadeira. Depois, isso começou a irritar. Cheguei a ser grosso com muita gente", reconhece Francisco. Planejar bebês é discutir como fazê-los, mas é doloroso tratar de um assunto tão íntimo com um estranho de avental branco, não importa que seja um médico de ar bonachão, com uma conversa muito simpática. Na montagem do diagnóstico, suas perguntas arranham, sua curiosidade incomoda, suas sugestões parecem intromissão. E isso pode ser apenas o começo. Muitos casais passaram pelo constrangimento de manter relações sexuais e ter de correr para o consultório, com a equipe médica esperando - pois se pretendia fazer um exame logo depois da ejaculação. A professora paulista Regina Célia Silva passou três anos querendo um filho. Sua experiência mais marcante foi o sexo a distância. Enquanto o marido, Alfredo Fischer, extraía sêmen numa clínica de andrologia, Regina recebia uma punção no ovário para coletar óvulos em uma sala de cirurgia situada a cinco quadras do local onde se encontrava o pretenso pai da criança. "Eu pensava que aquilo era uma espécie de sexo virtual, só que, em vez de prazer, o que existia era dor, máquinas e médicos", lembra a professora. Foram anos de injeções diárias de hormônios para estimular a ovulação. Seus ovários incharam até atingir o tamanho de duas bolas de tênis, quando suas dimensões normais equivalem às de bolinhas de pingue-pongue. Um dia, ela e Alfredo se renderam à evidência e adotaram Gabriel, hoje com 11 meses. "A vontade de ter um filho é tão forte que os candidatos a pai e mãe se tornam presas fáceis de charlatães", diz Marcelo Zugaibi, professor de ginecologia e obstetrícia da USP. Nesse reino do imponderável, às vezes acontecem erros estúpidos de diagnóstico. A economista carioca Vera Areas, 40 anos, passou dezessete anos tentando engravidar. Depois de gastar 20 000 reais com sete médicos, receber diagnósticos desencontrados, tentar dois bebês de proveta e duas inseminações artificiais, ela já tinha quase desistido de ser mãe. Calejada por tantas frustrações, Vera chegou a se tornar conselheira de mulheres mais jovens que enfrentavam o mesmo problema. Mas foi com um tratamento simples - exame e medicação custando hoje apenas 32 reais - e uma orientação correta que ela engravidou. Não precisou de nenhuma técnica artificial para produzir Júlia, hoje com 8 meses e meio. No início do ano passado, ela fez um teste que acusou excesso de prolactina - hormônio que também regula a produção de óvulos - no sangue. "Estava cinco vezes maior que a taxa considerada normal." O tratamento foi um remédio para regular a produção de prolactina e uma temporada com o marido no sítio do casal, em Petrópolis. Em abril de 1994 ela estava grávida. O que Vera teve foi sorte. "Fui a um médico novo e ele resolveu começar do zero. Um simples exame de sangue, e tudo se resolveu." Embora os resultados sejam inferiores à badalação que se produziu em torno da medicina reprodutiva, o fato é que, se não fossem as novas técnicas médicas, muitos casais que conseguiram ter seus bebês teriam sido privados dessa alegria. "É doloroso ser excluída da chance que toda menina já ao nascer tem de ser mãe", diz a representante comercial em São Paulo Deborah Satyro, de 35 anos, enfim grávida depois de tentar por cinco anos contornar as seqüelas de uma infecção nas trompas. "A maior emoção da vida é sentir dentro do peito outro coração batendo além do seu." O casal baiano Angela Peroba e Luciano Filgueiras, ambos de 37 anos, passou cinco anos esperando um bebê. Angela tomou gotinhas diárias de florais de Bach, usou cristais, fez aromaterapia e empreendeu uma caminhada de 50 quilômetros pela praia, durante uma noite de lua cheia, quando, diz a lenda, o satélite está em seu poder máximo de influenciar a fecundidade. Há um ano e meio, Angela levou os cristais e um duende para a clínica onde se submeteu a um tratamento hormonal. Nasceu Luana, hoje com 8 meses. "O que valeu foi o tratamento convencional", diz a mãe. "Mas o esoterismo serenou meu metabolismo." Os números da medicina reprodutiva lembram que é necessário conviver com os limites do progresso científico. Os tratamentos não dão errado porque os médicos são incompetentes ou inescrupulosos. Acontece é que nem as mais recentes pesquisas científicas conseguem explicar por que uma técnica é capaz de funcionar perfeitamente para uma pessoa e se mostrar completamente inútil em outra. Não se trata, aí, de um atraso da medicina brasileira em comparação com a de outros países. Uma reportagem recente da revista Newsweek mostra que, nos Estados Unidos, o balanço é o mesmo que se verifica no Brasil. Também ali, apenas um em cada quatro casais consegue ter um bebê com o auxílio das modernas tecnologias. Mas a angústia, a sucessão de exames e a conta que se paga no fim de cada tratamento deixam claro que também há, em muitos casos, uma questão de mau comportamento por parte dos médicos. "A vaidade dos médicos, o sentimento de onipotência que eles acalentam em relação aos seus pacientes geram distorções terríveis", acusa Thomaz Gollop. "É como se eles dissessem: 'Deus não te deu um filho, mas eu dou'", afirma. |
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