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Reportagens 13 de julho de 1994A trombada do fim do mundo Um cometa vai chocar-se
Uma data para o fim do mundo: sábado que vem, dia 16, às 16h50, hora de Brasília. O fenômeno ocorrerá no planeta Júpiter, que por sorte não é habitado. Nesse dia, o pedaço de um cometa do tamanho do Monte Everest vai chocar-se com Júpiter, o maior vizinho da Terra entre os nove planetas do sistema solar. O cataclismo estará apenas no começo. Durante os seis dias seguintes, como cuspidos por uma metralhadora, outros vinte fragmentos do cometa vão-se precipitar a intervalos regulares sobre o planeta. Quando tudo cessar, às 5 horas da manhã do dia 22 de julho, Júpiter terá sofrido um impacto que seria suficiente para destruir a Terra várias vezes. Imagine a explosão de um arsenal nuclear 10.000 vezes maior do que o acumulado na Terra. Pois será mais ou menos assim. Varrida por ondas sísmicas e vulcões, a face do planeta se enrugará como uma bola de sorvete comprimida. Uma nuvem de poeira poderá elevar-se a milhares de quilômetros de altura, criando em Júpiter anéis como os de Saturno. Dentro de alguns anos, quando um astrônomo focar seu telescópio em Júpiter, verá ali uma nova paisagem, fruto da grande explosão. Observado da Terra, o espetáculo terá pouco a oferecer. As colisões devem ocorrer na face oculta de Júpiter. Mas será possível ver os efeitos dos choques, dez minutos depois, quando a rotação do planeta expuser o ponto de impacto às lentes dos telescópios. Além disso, quem usar uma luneta potente na hora das explosões poderá observar um clarão entre as quatro maiores das dezesseis luas do planeta, que vão refletir os raios da colisão. Poucas vezes se viu tanta excitação entre os astrônomos e cientistas do mundo inteiro. Há vários meses não se fala em outra coisa nos mais importantes centros de pesquisa astronômica, cujos telescópios e radares estarão apontados para Júpiter nesta semana. Desde a invenção do telescópio por Galileu Galilei, há 400 anos, nada de parecido foi observado nas vizinhanças da Terra. As chances de uma colisão assim se repetir dentro do sistema solar são de uma a cada 100 milhões de anos. Há outra razão para tanto interesse. E se, em vez de Júpiter, o alvo fosse a Terra? As chances de que algo semelhante acontecesse aqui são muito pequenas, mas a hipótese não é de todo descartável. Ao contrário do que sugerem as noites calmas de céu estrelado, o universo está vivo, em grande movimento, e é regido por forças poderosas - como a que vai abater-se sobre Júpiter nesta semana. O impacto do cometa será muito semelhante ao do asteróide gigante que atingiu a Terra há mais de 60 milhões de anos e extinguiu 70% dos seres vivos do planeta, incluindo os dinossauros. Foi o fim do mundo, como descrito no Velho Testamento. Ao menos para os dinossauros e todas as outras espécies que pereceram. Em tese, nada impede que um fenômeno assim possa repetir-se. Nesse caso, muitas das atuais formas de vida do planeta, incluindo a humana, desapareceriam. Assim, se o cometa estivesse endereçado à Terra, isso faria dos próximos dias uma semana de despedida e medo (veja quadro à pág. 48). "Observar o que vai ocorrer em Júpiter é vital porque nos dá uma idéia do perigo que nos ameaça", diz Augusto Daminalli, professor do Instituto de Astronomia e Geofísica da Universidade de São Paulo (IAG). "Ele serve para mostrar como a vida é frágil num universo tão grande e desconhecido." A hipótese de um impacto desses na Terra fica mais assustadora quando se sabe como o cometa Shoemaker-Levy 9 foi descoberto. Até dezesseis meses atrás, nada se sabia sobre ele. De repente, um cientista percebeu aquela bola gigantesca tomando forma nos confins do sistema solar e, com alguns cálculos, descobriu que ela iria causar um estrago sideral em Júpiter. Se o cometa estivesse dirigido para a Terra, os homens teriam sido avisados de sua morte coletiva com um ano e meio de antecedência. É curioso imaginar como os assuntos corriqueiros do mundo - e até mesmo os grandes assuntos - teriam se desenvolvido sob o peso de uma sentença de morte tão brutal. Os poderosos de todo o mundo manteriam suas agendas de reuniões? Os iugoslavos teriam insistido em se matar? O Brasil teria continuado a tecer programas antiinflação? Provavelmente não, nada disso teria sido levado à frente. Aspirações individuais ou coletivas se revelariam fúteis, incompreensíveis de um momento para o outro. Planos de vida se tornariam banais. As pessoas, é possível imaginar, se recolheriam para dentro de si mesmas e para o interior de seus núcleos familiares mais próximos, e ficariam esperando. Isso se a Terra fosse o alvo. Júpiter está situado a 628 milhões de quilômetros da Terra. Para quem está acostumado às distâncias na escala terrestre, pode parecer muito. Não é. Na escala astronômica, em que as distâncias se contam em bilhões e trilhões de quilômetros, ela é mínima. Numa comparação relativa, pode-se dizer que, no sistema solar, Terra e Júpiter estão separados um do outro por uma distância equivalente ao percurso entre as cidades de Curitiba e São Paulo no mapa do Brasil. Numa escala mais ampla, galáctica, estão tão juntos como dois jogadores de futebol, em comparação com todo o resto dos habitantes de um país. Há sempre uma bola batendo em alguém, dentro ou fora do campo. Desta vez, vai bater em Júpiter. A SEMENTE DA VIDA - Os cometas são personagens de um curioso dilema que envolve a criação da vida na Terra. Hoje já se sabe que a vida não surgiu em um ambiente calmo e tranqüilo como o do Jardim do Éden, descrito no livro do Gênese. Ao contrário, a semente primitiva brotou num ambiente hostil, numa época em que a Terra era devastada por erupções vulcânicas e um pesado bombardeio de corpos celestes, muitos deles bem maiores que o objeto que vai espatifar-se contra Júpiter na semana que vem (veja quadro à pág. 52). E como essa semente teria chegado à Terra? Hoje também já se sabe que os cometas, corpos errantes do sistema solar, são compostos basicamente de água, gases e (eventualmente) material orgânico que vão recolhendo por onde passam - como se fossem lixeiros espaciais. Numa das trombadas ocorridas na Terra ainda em formação, um cometa pode ter depositado aqui o material orgânico que, submetido a complexas reações químicas, deu origem à primeira e mais primitiva forma de vida. O dilema da criação consiste no fato de que as mesmas forças poderosas que contribuíram para a origem da vida também sempre foram sua maior ameaça. Os cientistas acreditam que, no princípio, essas forças eram tão devastadoras e caóticas que a vida pode ter começado e acabado várias vezes, antes de "pegar" e colonizar o planeta. "Isso pode ter acontecido a intervalos regulares num período entre 10 milhões e 100 milhões de anos depois que a Terra se formou", diz o paleontólogo americano James William Schopf, da Universidade da Califórnia. Schopf, que há um mês participou de um encontro de cientistas na Universidade de São Paulo, detectou no ano passado evidências de vida com 3,5 bilhões de anos em rochas da Austrália - uma das descobertas mais sensacionais dos últimos tempos nesse campo. A existência desse fóssil prova que a vida é mais antiga e teve uma evolução muito mais rápida do que se imaginava antes. COMETA BIZARRO - O agente da catástrofe em Júpiter é um dos membros mais bizarros do sistema solar. Foi descoberto por três caçadores de cometas do Observatório de Monte Palomar, na Califórnia, em 24 de março do ano passado. Foi uma noite difícil para o trabalho do casal de astrônomos Eugene e Carolyn Shoemaker. Havia muitas nuvens no céu e eles já estavam decididos a voltar para casa quando seu colega de equipe, o astrônomo amador David Levy, decidiu vasculhar um canto escuro no céu, nas proximidades de Júpiter. Pelo telescópio, não via absolutamente nada, além do brilho das estrelas distantes. Ainda assim, Levy acionou o botão da câmara fotográfica acoplada ao telescópio e deixou o filme exposto por alguns minutos, de modo que pudesse captar o menor traço de luz existente naquela direção. No dia seguinte, ao examinar as fotografias com um aparelho especial, Carolyn levou um susto. No filme, apareciam minúsculos pontos brilhantes, enfileirados um atrás do outro, como num colar de pérolas perdido na vastidão do cosmo. "Venham ver que coisa estranha", gritou para os dois companheiros. "Parece um cometa", opinou Eugene. Faltava confirmar a suspeita. A notícia foi passada ao astrônomo Brian Marsden, em Massachusetts, chefe da União Astronômica Internacional e responsável pela catalogação de descobertas. Ele identificou finalmente o objeto. Era mesmo um cometa. O nome do novo corpo celeste foi tirado do sobrenome dos descobridores: Shoemaker e Levy. Acrescentou-se o número 9, já que era o nono cometa identificado pela equipe. Shoemaker-Levy 9. Mais tarde se descobriu a razão de sua forma incomum. Na passagem anterior por Júpiter, ele se aproximou demais do planeta e foi estilhaçado pela sua força gravitacional, muito mais poderosa que a da Terra. O cometa original tinha cerca de 10 quilômetros de diâmetro, quase o mesmo tamanho do cometa Halley, que passou perto da Terra em 1986. Hoje, seus 21 pedaços viajam em fila. No próximo sábado, ao se aproximar de Júpiter, o primeiro da ponta estará a 3,5 milhões de quilômetros do retardatário do fim da fila. O maior deles tem cerca de 4 quilômetros de diâmetro, umas dez vezes o tamanho do Pão de Açúcar, no Rio de Janeiro. O menor, cerca de 1 quilômetro. TÚNEL DE FOGO - Em simulações feitas por computador nos últimos meses, os cientistas já têm uma idéia bastante precisa do que vai ocorrer em Júpiter a partir de sábado. O primeiro fragmento vai atingir o planeta a 216.000 quilômetros por hora, velocidade 232 vezes maior que a de um Boeing - o suficiente para cobrir a distância entre Rio de Janeiro e São Paulo em apenas seis segundos. Ao penetrar na atmosfera, o invasor deixará atrás de si um túnel de fogo com um diâmetro equivalente ao do Estado de Minas Gerais. Dentro desse túnel, a temperatura subirá a 50.000 graus centígrados, suficiente para evaporar aço instantaneamente. Depois de alguns segundos, freado pela camada de gases que encobre o planeta, o cometa vai explodir numa labareda - um raio cósmico acompanhado de um trovão escandalosamente alto. A onda de choque resultante da explosão fará Júpiter ribombar como um sino martelado por um badalo. "Durante alguns segundos Júpiter será o lugar mais barulhento do sistema solar", diz o astrofísico Zdenek Sekanina, do Laboratório de Propulsão a Jato de Pasadena, nos Estados Unidos. Se um observador pudesse pairar sobre as nuvens do planeta, veria nesse instante um cogumelo atômico elevar-se até 3.000 quilômetros acima da atmosfera. A partir do ponto de impacto, ondas concêntricas - como as provocadas por um pedregulho numa lagoa - vão-se espraiar por todo o planeta durante meses, provocando reações sísmicas descomunais. O maior dos pedaços, denominado Fragmento Q pelos astrônomos, com cerca de 4 quilômetros de diâmetro, vai-se estatelar sobre Júpiter no dia 20, uma data histórica para os vizinhos habitantes do planeta Terra. Nesse dia, 25 anos atrás, o homem fez sua primeira caminhada na superfície da Lua. "O impacto produzido por ele será um show espetacular para um observador que esteja no lugar certo e no momento correto", diz Zdenek Sekanina. Esse é o problema. Como a explosão se dará na face oculta de Júpiter, pouco se poderá ver da Terra, mesmo com telescópios potentes, como o Hubble. Mas haverá um observador privilegiado, a sonda Galileu. Lançada pela Nasa, em outubro de 1989, com a missão de observar de perto a atmosfera de Júpiter, ela ainda está a caminho do planeta. Na semana passada, faltavam 150 milhões de quilômetros para chegar ao destino. Ainda assim, estará num bom ângulo de observação. O problema é que essa é uma nave temperamental, com problemas mecânicos. Ela só consegue tirar uma foto a cada 2,3 segundos e talvez não possa flagrar o momento exato da primeira colisão, a mais forte delas. Além disso, por problemas de comunicação com a Nasa, essas fotos podem demorar meses para ser enviadas para a Terra. Colisões são ocorrências relativamente comuns no cosmo. Só agora, com o desenvolvimento dos meios de observação, o homem começa a ver essas trombadas. Júpiter é o maior planeta do sistema solar. Detém cerca de 70% de toda a matéria que gira em torno do Sol - sua massa é 2,5 vezes maior que a de todos os demais planetas, somados. Trezentas e dezoito vezes maior que a Terra, ele também gira 2,5 vezes mais rápido em torno de si mesmo. Seus dias e noites se alternam a cada nove horas e cinqüenta minutos, em vez de 24 horas, como na Terra. Em compensação, leva doze anos para completar uma volta em torno do Sol, arrastando junto dezesseis luas. Júpiter é também um dos mundos mais primitivos do sistema solar. Não tem uma crosta, como a Terra. Sua superfície, quase tão fluida quanto a água, é encoberta por espessa camada de nuvens de hidrogênio, hélio e amônia que se eleva a milhares de quilômetros. Abaixo dessas nuvens, a pressão atmosférica é tão grande que o hidrogênio se transforma de gás em líquido e depois, perto do núcleo, fica em estado metálico. Lá, a temperatura é estimada em 20.000 graus centígrados. A superfície é assolada por furacões e tempestades. Uma delas, conhecida como Grande Mancha Vermelha, é duas vezes maior que a Terra e perambula pelo planeta há pelo menos 300 anos. Uma das hipóteses levantadas pelos cientistas nas últimas semanas é que do choque com o cometa possa resultar uma nova mancha como essa na superfície de Júpiter. É possível também que, depois de alguns meses, a poeira e os gases resultantes das explosões dêem a Júpiter anéis gasosos semelhantes aos que enfeitam o seu vizinho Saturno. QUEDA-DE-BRAÇO - O fim do cometa Shoemaker-Levy 9 é resultado de uma queda-de-braço entre o Sol e seu maior planeta, o próprio Júpiter. Até trinta anos atrás, o Shoemaker-Levy tinha uma órbita ao redor do Sol, como uma infinidade de outros cometas. Numa de suas passagens, em 1966, foi atraído por Júpiter e pulou para sua órbita. O campo magnético de Júpiter, milhares de vezes mais forte que o da Terra, se estende por mais de 10 milhões de quilômetros. Nessa imensidão, o cometa passou a circular. A cada dois anos, completava uma volta em torno de Júpiter. Depois, mergulhava novamente para os fundos do sistema solar, até quase se perder no vazio, para outra jornada de dois anos. Era regular como um relógio. Até que o Sol, do qual Júpiter roubara o cometa, voltou a interferir. A atração solar perturbou a trajetória do cometa num certo momento - e o gatilho se armou. Neste ano, em vez de contornar Júpiter, Shoemaker-Levy 9 vai chocar-se contra ele. A força gravitacional da Terra não é tão grande como a de Júpiter, mas a possibilidade de ela também se expor a um choque cósmico não é mera especulação. Nos últimos 100 anos, o planeta já levou vários sustos, sem que seus habitantes sequer tomassem conhecimento do perigo. Em 1937, o asteróide Hermes, com 1.400 quilômetros de diâmetro, raspou a Terra, passando a uma distância duas vezes e meia a que separa o planeta da Lua. Em 1908, um objeto estimado em 100 quilos e 50 metros de diâmetro, que poderia ser um cometa ou um asteróide, se desintegrou sobre a região de Tunguska, na Sibéria, a uma altura estimada em 10 quilômetros. O resultado foi 2.000 vezes mais devastador que a explosão de uma bomba atômica como a que destruiu Hiroshima, em 1945. A explosão foi registrada pelos sismógrafos no mundo inteiro e ouvida a centenas de quilômetros de distância. Na região em que ela ocorreu, 2.150 quilômetros quadrados de florestas ao redor da explosão ficaram calcinados, não restou um ser vivo e até hoje não se localizou um único detrito do objeto que teria explodido. Se, em vez da deserta Sibéria, o fenômeno tivesse ocorrido na região de Paris, poderia ter matado uma grande parte da população da França. PERIGO REAL - O perigo de que isso se repita é tão real que no ano passado cientistas do mundo inteiro se reuniram na Sicília para discutir o que fazer no caso de uma ameaça dessa natureza. As conclusões não foram nada alentadoras. Teoricamente, segundo eles, seria possível mudar a rota de um objeto de 100 metros de diâmetro usando uma bomba atômica, desde que ele pudesse ser interceptado a uma distância de 150 milhões de quilômetros da Terra, quando ainda estivesse entre Marte e Júpiter. Mas para que isso acontecesse seria preciso, em primeiro lugar, acertar o cometa com um foguete a essa distância. Depois, seria preciso conhecer com antecedência sua trajetória. O problema é que alguns cometas levam milhares de anos para completar uma órbita em torno do Sol e são completamente desconhecidos pelos astrônomos. Esses são os mais perigosos. Riscando o céu a velocidades superiores a 200.000 quilômetros por hora, os cometas aparecem de repente, sem aviso prévio. Só se tornam visíveis alguns meses, já dentro do sistema solar. Foi o que ocorreu no ano passado. Se, em vez de Júpiter, o Shoemaker-Levy 9 estivesse a caminho da Terra, não haveria nada a fazer. "Seria impossível interceptá-lo", diz Ray Newburn, do Laboratório de Propulsão a Jato de Pasadena. "O que nos conforta é que nos últimos 1.000 anos não se ouviu falar de um único ser humano morto por um meteorito ou pelos efeitos dele." Nesta semana, por sorte, em vez de se preocupar com uma catástrofe no seu próprio mundo, a humanidade tem a chance de observá-la no quintal do vizinho. SEGREDOS DO COSMO - A astronomia é uma das ciências mais antigas da civilização. Há milhares de anos os cientistas tentam desvendar os segredos do cosmo para responder a algumas questões filosóficas básicas: como tudo começou? De onde viemos? Para onde vamos? Estamos sozinhos no universo? A percepção que as pessoas costumam ter do universo aberto e distante fica sempre ofuscada pela atenção que dispensam ao perímetro de suas salas e escritórios. Vê-se o dia clarear, vê-se o céu escurecer. De vez em quando, observa-se uma lua cheia por alguns minutos. É só isso. Poucos sabem e nem mesmo esses se lembram com freqüência de que há 400 bilhões de estrelas apenas na Via Láctea, a galáxia onde está situado o sistema solar. Além da Via Láctea, existem outros trilhões de galáxias no universo, e é bastante improvável, estatisticamente falando, que a vida tenha surgido num único planeta azul perdido na imensidão cósmica. Existem talvez uns 10 bilhões de trilhões de planetas no universo. Muitos certamente com as mesmas condições favoráveis à vida que a Terra. O ser humano intui que seja assim, mas dá pouca ou nenhuma atenção ao que acontece tão longe. A explosão desta semana em Júpiter é um bom pretexto para alguma reflexão nesse terreno. Na imensidão estelar, os corpos celestes se entrechocam a todo momento, produzindo jatos descomunais de energia. Nesse ambiente, conforme acreditam alguns astrônomos, é possível e até provável que a vida se crie e desapareça com uma freqüência muito maior do que se imagina. Afinal, a vida iniciou-se na Terra através de reações elétricas e químicas produzidas por grande agitação. Há dois anos, com dados obtidos pelo satélite Cobe, explorador de radiação cósmica, o cientista George Smoot e sua equipe da Universidade da Califórnia conseguiram comprovar pela primeira vez a teoria do Big Bang - Grande Explosão, em inglês. Tudo que existe - a Terra, as estrelas e as galáxias - teve origem num único e minúsculo bloco de matéria compacta. Tão compacta que a mente humana é incapaz de imaginar por absoluta falta de comparações. Em determinado momento, há 15 bilhões de anos, esse ponto explodiu para formar o universo inteiro. A descoberta foi um salto extraordinário no estudo do cosmo, mas gerou um segundo problema, mais complicado que o primeiro. Por essa teoria, a dispersão inicial dos átomos teria sido absolutamente uniforme. Quer dizer que o universo primordial nasceu liso, com uma face muito suave, sem caroços. O estranho é que não tenha permanecido assim indefinidamente. Em algum momento depois da explosão, alguma força, um dedo invisível, teria dado o primeiro empurrão para que um átomo começasse a se chocar com outro e assim sucessivamente durante bilhões de anos, até formar os planetas, as estrelas e as galáxias. Que força foi essa? Se a matéria era absolutamente uniforme, que perturbações fizeram com que ela começasse a se aglutinar? "Esse é hoje o grande desafio dos cientistas", diz o astrofísico Augusto Daminalli, do Instituto de Astronomia e Geofísica da Universidade de São Paulo. ANDARILHOS - Os cometas são antiqüíssimos andarilhos que perambulam entre as estrelas e os planetas, com ou sem órbitas fixas. Chocam-se entre si, mudam de rota e, às vezes, são tragados e pulverizados por outros corpos celestes. Os menores têm apenas 750 metros de diâmetro. Os maiores, 300 quilômetros. Edmund Halley, descobridor do mais famoso deles, que leva seu nome, foi também o primeiro a levantar a possibilidade de que os cometas pudessem chocar-se com os planetas. Como eles são muito frágeis, sua rota é facilmente alterada pela gravidade dos planetas. "Se fosse possível aproximar-se de um deles, daria para parti-lo com as mãos, como uma bola de neve", diz o astrônomo Antonio Mário Magalhães, do Instituto Astronômico e Geofísico da Universidade de São Paulo. O que os torna ameaçadores não é a composição nem a densidade do material que carregam, mas a velocidade com que viajam. Nessas condições, a liberação de energia num impacto é gigantesca. Por isso o efeito da colisão dos fragmentos do cometa Shoemaker-Levy 9, pequenos diante das colossais dimensões de Júpiter, será tão devastador. De tanto observar as crateras cavadas por choques celestes na superfície da Terra, da Lua e de outros corpos do sistema solar, os cientistas acreditam ter chegado a uma estatística bastante precisa a respeito das possibilidades de uma colisão. Há pelo menos 2.000 asteróides, dos mais diversos tamanhos, em órbitas próximas da Terra. A chance de um deles, de até 100 metros de diâmetro, precipitar-se sobre o planeta é de uma a cada 10.000 anos. O cálculo para asteróides de 1 quilômetro de diâmetro é de uma chance a cada milhão de anos. Impactos de grandes proporções, como o que vai ocorrer em Júpiter, que envolvem objetos com até 10 quilômetros de diâmetro, só acontecem a cada 100 milhões de anos. Assim, o fim do mundo já pode ser marcado teoricamente no calendário. O último fim do mundo, aquele que destruiu os dinossauros, ocorreu há mais de 60 milhões de anos. Do ponto de vista estatístico, faltariam portanto menos de 40 milhões de anos para outra ocorrência do mesmo tipo. Dá para voltar ao perímetro do próprio quarto de dormir, apagar a luz e descansar em paz. Merecido descanso, longe dos movimentos espasmódicos do universo. |
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