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Reportagens 13 de julho de 1977Quatro horas de entrevista com Fidel Castro
"Ele só não sabe dançar e cantar", dizem de Fidel Castro, invariavelmente, seus admiradores em Cuba. E é com orgulho que revelam, com cansativa insistência, que o presidente cubano, aos 50 anos (que completará no próximo dia 13 de agosto), é capaz de nadar "como um rapaz de 20 anos", ou jogar beisebol "como os melhores astros". Há mais: poucas vezes Castro teria perdido um primeiro lugar em concursos de caça submarina - mesmo depois de sua subida ao poder, com a conseqüente escassez de horas livres para treinos. E, "com um bom fuzil na mão", continuam os entusiastas, "sabe despedaçar um abutre em pleno vôo, até a 300 metros de altura". Como se tudo isso não bastasse, os amigos de "Fifo" - como o chamam os mais chegados - garantem ainda que ele é um competente cozinheiro, capaz de preparar um prato de mariscos de vinte maneiras diferentes. Observadores mais realistas recebem com certa dose de ceticismo essa impressionante relação de virtudes. Mas, diante da figura de Castro, pode-se constatar que suas decantadas proezas atléticas talvez não sejam exageradas. Beirando os 2 metros de altura e com 100 quilos de peso, os primeiros fios brancos na ponta da barba revolta são alguns dos poucos sinais de que ele já não é mais o jovem guerrilheiro da década de 50 na Sierra Maestra. De qualquer forma, sabe-se muito pouco a respeito da vida pessoal ou da personalidade do ex-combatente que virou chefe de Estado. Não há em Cuba uma única biografia oficial de Castro e seus amigos mais chegados insistem em manter o assunto envolto em mistério. Um homem prudente em seu temor ao ridículo, o presidente cubano, segundo seus assessores, manteria uma invencível ojeriza pelo culto à personalidade. "Fidel não se esquece do exemplo de Mao", disse um deles a VEJA. "Para que saber quem era sua mulher, como se chama seu filho?", observou outro assessor. "Por que você não leva informações sobre como ele dirigiu, daqui de Havana, os combates dos cubanos em Angola? Isso tem mais importância." O próprio Castro, enfim, antes de iniciar sua entrevista a VEJA, disse que não fazia restrição a nenhum tipo de pergunta, "exceto as de cunho pessoal". No passado mais remoto é possível encontrar alguns poucos dados seguros. Filho de ricos fazendeiros da província de Oriente, Castro mudou-se para Havana aos 17 anos, para estudar Direito. E aos 20 anos casou-se com Mirta, com quem teve um único filho, "Fidelito", atualmente com 30 anos. Como viveria, hoje, o filho do presidente cubano? Aí recomeça o mistério. Segundo a versão mais corrente, o rapaz teria se formado em engenharia química na Alemanha Oriental - e hoje viveria em Havana com um nome falso, "por razões de segurança" e para evitar que "a sombra do pai acabe criando facilidades constrangedoras à sua vida". Seja como for, o casamento de Mirta e Fidel terminou em 1953. E, depois disso, não se sabe de nenhuma mulher que, oficialmente, tenha passado pela vida de Castro. Aliás, a jornalista Barbara Walthers, da Televisão ABC, dos Estados Unidos, durante urna entrevista. realizada há poucas semanas, chegou a perguntar a Castro se era verdade que ele "mantinha relações íntimas" com Célia Sánchez, de 40 anos, sua ex-companheira de guerrilha e hoje membro do Secretariado Geral do Partido Comunista Cubano. Em quatro horas de entrevista com Walthers, esse foi o único momento em que Castro pareceu perder o bom humor. "É surpreendente que uma jornalista importante como a senhora dê ouvidos a esse tipo de futricas", respondeu, com ar sério. Pergunta e resposta foram cuidadosamente retiradas da cópia da entrevista exibida em Cuba. A amizade de Castro com Gina Lollobrigida - que esteve em Cuba mais de uma vez, realizando trabalhos fotográficos para publicações européias - também chegou a acender a imaginação dos caçadores de gossips da imprensa americana, há alguns anos. Mas insinuações de que teria existido um romance entre os dois são até hoje desmentidas com veemência e mau humor em Cuba. De Lollobrigida, aparentemente, Fidel guarda apenas uma lembrança identificável: um pesado relógio de pulso, digital, de quartzo, que ela lhe deu de presente e que veio substituir os dois velhos Omegas que ele usava simultaneamente durante a guerrilha e nos primeiros anos de governo. Quanto a esse velho e insólito hábito de usar dois relógios, duas explicações são geralmente oferecidas. Os amigos de Castro dizem que ele era obsessivo com a pontualidade e "que tinha medo de que um dos dois relógios parasse". Por isso, usava dois. Os inimigos de Castro, porém, têm uma versão menos favorável ao presidente cubano. Segundo eles, um relógio seria para marcar a hora de Havana e o outro para marcar a de Moscou. Nenhuma das duas histórias é convincente. Com relação à primeira, por exemplo, não há indício visível de que a pontualidade seja o forte do presidente cubano - conforme puderam constatar todos os jornalistas estrangeiros que conseguiram entrevistá-lo. Saul Landau e Frank Mankievsky, dois americanos que estiveram em Cuba em outubro de 1974, passaram três meses enfurnados num quarto do Hotel Havana Livre à espera de que Castro os recebesse. Simon Malley, diretor da revista Afrique-Asie, que tentou pouco depois, teve mais sorte: esperou apenas um mês. E destino igual teve André Fort, correspondente em Cuba do diário francês L'Humanité, órgão oficial do Partido Comunista Francês - couberam-lhe trinta dias de espera. De resto, as longas esperas costumam ter uma compensação: entrevistas extensas, caudalosas até. Mankievsky, por exemplo, teve de editar num livro sua conversa com Castro. E Simon Malley foi obrigado a acrescentar um encarte especial à revista Afrique-Asie. A prolixidade de Castro nas entrevistas, de qualquer forma, não se compara com a voracidade verbal que ele costumava demonstrar aos cubanos nos discursos, até há alguns anos. "Enquanto você faz um discurso", disse-lhe o astronauta Yury Gagárin, ao se conhecerem, "eu dou uma volta completa na Terra." Poderia até dar várias voltas. Pronunciamentos de seis, sete, oito horas ininterruptas eram comuns na Cuba pós-Revolução. Um jornalista português relatou que há quinze anos, quando de uma visita a Cuba junto com um grupo de repórteres europeus, eles cruzaram com Fidel Castro numa rua de Havana. "Ele parou para conversar conosco", disse o português, "encostou o pé no pára-choque de um velho Cadillac - e ficou ali, sob um sol fortíssimo, falando e fumando charutos durante exatamente três horas e meia." Houve uma mudança perceptível nesse estilo. Hoje em dia, os discursos mais extensos de Castro, como o que ele pronunciou há três semanas, no encerramento de um congresso de camponeses, têm no máximo duas horas de duração. E suas preocupações políticas parecem igualmente ter amadurecido com o tempo. Em conversa com o enviado especial de VEJA, Castro parecia menos preocupado com a oposição ao regime brasileiro do que com as dificuldades de relacionamento, a nível estatal, entre os dois países. "Não posso entender essa má vontade do Brasil em relação a Cuba", dizia, vislumbrando situações a seu ver ideais: "Se as coisas fossem diferentes, Cuba poderia abrir mercados para o Brasil onde ele não consegue penetrar, como no grupo dos Não-Alinhados e no campo socialista". A paixão por genética e pelos cães (Castro é criador de pastores alemães) aguçou sua curiosidade sobre a cão de fila brasileiro - de cuja raça ele queria saber todos os detalhes, durante sua conversa preliminar com o enviado de VEJA. Como era de esperar, por sinal, Fidel Castro foi torrencial. Para começar, pediu desculpas ao repórter por tê-lo feito esperar mais de um mês - e depois, incansável perguntador, passou a bombardeá-lo com uma série de questões precisas sobre o Brasil. Quanto custa um apartamento em São Paulo? Qual a área de um imóvel do BNH? Quanto ganha um jornalista no Brasil? E um médico? A cada resposta envolvendo números, Castro fazia mentalmente a conversão para pesos cubanos - e quase sempre se admirava com o resultado obtido: "Mas tudo isso?" Seu maior espanto com relação ao Brasil, porém, prendeu-se ao preço de terras à venda em Campos do Jordão, que qualificaria de "absurdamente caro" ao deparar com um anúncio de loteamento, enquanto folheava um exemplar de VEJA. No total, o presidente cubano ficou oito horas com o enviado de VEJA e, antes de começar a entrevista propriamente dita, brindou-o com atrações variadas. Houve um momento, por exemplo, em que acionou o aparelho de vídeo-tape que tem em seu gabinete e exibiu o filme "O Exército Secreto da CIA", realizado pelo jornalista Bill Moyers para a cadeia CBS de TV - uma cópia do qual foi presenteada a Castro pelo próprio Moyers. Depois, aproveitando o impulso, ele exibiu um trecho VEJA - Altos funcionários do Departamento de Estado, em Washington, disseram a VEJA que Cuba estaria disposta até a retirar suas tropas de Angola, depois do fim do bloqueio econâmico. O senhor confirma essa informação? CASTRO - Na realidade eu não li nenhuma declaração desse tipo, talvez porque não nos cheguem todas as publicações. Mas, em todos os pronunciamentos públicos que temos feito, deixamos bem definido que a questão da nossa solidariedade com Angola, ou com outros países da África, não pode ser objeto de negociação. A verdade é que não seria moral, não seria digno, da nossa parte, renunciar à nossa solidariedade em troca de benefícios para Cuba. Uma troca de princípios? Isso não faremos nunca. Cuba nunca renunciará a um princípio de solidariedade por uma questão de interesses nacionais. VEJA - Toda uma geração de cubanos vem ouvindo, de seu próprio governo, que o grande inimigo de Cuba está a 90 milhas de distância - isto é, o inimigo são os Estados Unidos. Como o senhor crê que essa gente interpretará um possível reatamento de relações de Cuba com os Estados Unidos? CASTRO - Veja uma coisa: você está aqui há vários dias e certamente pôde perceber que, durante todo esse tempo, saíram várias notícias a respeito da mudança de atitude dos Estados Unidos em relação a nós, e de certos passos que foram dados no sentido do melhoramento das relações. Do nosso ponto de vista, não se trata de uma reaproximação com os Estados Unidos, mas de um princípio. Não somos inimigos da paz nem somos inimigos da distensão. Acreditamos sinceramente que o mundo de hoje não é o mundo do arco e da flecha, da armadura e do arcabuz. O mundo de hoje é um mundo de armas de destruição maciça, das armas nucleares, onde a tecnologia militar se desenvolveu tanto que transformou a guerra em algo praticamente impossível. Acreditamos que a história do mundo tem que ser dividida em duas partes: antes e depois da era nuclear. Me parece que quem não compreende a realidade desse mundo de hoje é um indivíduo inteiramente incapacitado para qualquer responsabilidade política. De modo que isto está na base de nossas atitudes. O mundo de hoje tem muitos problemas, grandes problemas, e se não se pode resolvê-los pela guerra, será preciso resolvê-los através da paz. VEJA - Mas e as relações com os Estados Unidos? CASTRO - Desse ponto de vista, se nós pudermos colocar um grãozinho de areia a favor da paz, nós o faremos. De maneira que, se num determinado momento, as relações entre Cuba e os Estados Unidos melhoram no campo econômico e no campo diplomático, creio que estaremos colocando o grãozinho de areia em favor da paz e da distensão no mundo. Isso não significa que nós, nem de longe, vamos renunciar aos nossos princípios marxistas-leninistas, aos nossos princípios socialistas. Como também presumo que os Estados Unidos não vão renunciar a seus princípios capitalistas pelo fato de que venham a ter relações conosco. Dentro de uma política de normalização de relações, seguramente eles conseguirão exercer alguma influência sobre nós - mas é certo que nós também exerceremos alguma influência sobre eles. Aí nós veremos qual das duas sociedades está mais preparada politicamente e, em síntese, qual delas está mais preparada para viver em paz. VEJA - Mas e os jovens? Como o senhor pensa que eles reagirão? CASTRO - Nós temos um povo que recebeu uma grande educação política. Nosso povo compreende que não há absolutamente nenhuma contradição entre seus princípios e a política de paz. Talvez os Estados Unidos, sim, tenham problemas, porque lá a gente não entende perfeitamente bem essas questões do mundo de hoje. VEJA - Por que o senhor diz que só haverá relações entre Cuba e os Estados Unidos no segundo mandato de Jimmy Carter? CASTRO - Quando digo que a reaproximação ainda vai levar tempo, é porque quero ser realista. Para que melhorem as relações com os Estados Unidos eles têm que começar por entender que nós temos nossos princípios e que não podemos ser desleais a nenhum deles. Quando se fala dos cubanos na África, ninguém se lembra da crescente ajuda civil que Cuba oferece aos países do Terceiro Mundo. Sempre se coloca ênfase na ajuda militar - uma ajuda que esses países nos pedem. Pedem assessores, técnicos, instrutores, e é um direito do nosso país oferecer essa ajuda a povos que querem ter uma vida independente. Seria absurdo, por exemplo, que nós colocássemos, como pré-requisito para ter relações com os Estados Unidos, que eles retirassem suas tropas da Turquia, da Europa Ocidental, de Okinawa, da Coréia, de Taiwan, das Filipinas e das dezenas de países onde eles têm instrutores militares e tropas. Eu me pergunto: por que eles têm que exigir que retiremos nossos técnicos ou instrutores ou até mesmo unidades militares que tenhamos em qualquer país? Foi dentro de um contexto do Direito Internacional que esses países nos pediram esse apoio militar. É engraçado: pedem-nos para retirar nossas tropas da África, como pré-condição, enquanto em nosso próprio território, na base de Guantánamo, temos milhares de soldados americanos, que estão aqui contra nossa vontade. VEJA - E se todos se retirassem de todos os lugares? CASTRO - Veja bem: eu não estou fazendo uma proposta a eles, algo do tipo "retirem-se daqui e nós nos retiraremos de tais lugares". Nada disso. O pessoal militar que temos em alguns países está ali em virtude de acordos com aqueles governos - e para nós esses acordos são sagrados. Isso depende apenas da vontade de Cuba e desses países, não é algo que se possa discutir com terceiros. Agora eu vou lhe dizer sinceramente: nós preferimos mandar médicos que mandar soldados. Porque entendemos que o médico é muito mais construtivo - não que o soldado não o seja. Em determinadas circunstâncias, por exemplo, é o soldado que salva a independência. Mas, se prevalecesse o princípio de respeito à soberania dos países, os soldados não fariam falta. Não precisaríamos sequer de exércitos! Os Estados Unidos não entendem muito bem essas coisas, porque têm uma visão unilateral dos problemas, não entendem corretamente a igualdade entre as nações, os governos e os povos. De modo que as dificuldades partem deles, não de nós. VEJA - E quando houver relações, não importa em que ano será, como ficará a situação dos cubanos residentes nos Estados Unidos que queiram, por exemplo, visitar seus familiares em Cuba? Isso será permitido? CASTRO - Bem, eu entendo que, essa geração de cubanos que nasceu lá, ou que foi para lá muito jovem, eu imagino que eles não pensem exatamente igual a seus pais. Claro que receberam a influência da sociedade em que vivem - e alguns pais tiveram que lamentar certamente que seus filhos tenham sido criados nessa sociedade. Muitos já devem estar pensando como americanos e talvez nem se lembrem de Cuba. E há muitos que têm um pensamento mais progressista do que o de seus pais. De modo que, enquanto as relações não se tenham normalizado, é difícil que existam as condições para abrir as portas de Cuba a esse intercâmbio de visitas. Penso que, quando houver relações, se criarão as condições para que se possa viabilizar alguma forma de intercâmbio dessa índole. Disso nós não temos medo: nem de visitas nem de turistas. Não criaremos obstáculos a quem, de boa fé, queira visitar Cuba, visitar sua família, ver a Cuba de hoje. Mas aí, sim, você compreenderá que existem pré-requisitos: que existam relações normais, que não existam mais campanhas de terrorismo, de contra-revolução, de sabotagem, agentes da CIA. Agentes da CIA não estamos dispostos a receber nunca. Invasores? Não queremos receber nunca. VEJA - O recente acordo pesqueiro assinado entre Cuba e os Estados Unidos parece ser muito benéfico a seu país e, portanto, um gesto de boa vontade do governo americano para com os cubanos. Nesse lento jogo de xadrez, qual será a próxima peça a ser movida por Cuba? CASTRO - Não há dúvida de que o atual governo dos Estados Unidos tem uma posição diferente da dos governos anteriores. Eisenhower e seu vice Nixon, Kennedy, Johnson, Nixon como presidente e Ford estavam comprometidos com uma política de hostilidade a Cuba. Este é o primeiro governo dos Estados Unidos, nos últimos dezoito anos, que não está comprometido com aquela política. E efetivamente este governo tem tido gestos que nós apreciamos. Imediatamente depois da posse de Carter, foram suspensos os vôos de espionagem sobre nosso país, um fato que se produzia com muita freqüência - um negócio sumamente irritante. O governo dos Estados Unidos, além disso, suspendeu a proibição que impedia os cidadãos de seu país de viajarem a Cuba. Com isso se restituiu ao cidadão americano um direito, o de ir aonde quiser. Por outro lado, há manifestações expressando a disposição de trabalhar, de buscar, de estudar as possibilidades de melhoria nas relações com Cuba. Para dizer a verdade, nenhum dos governos anteriores dos Estados Unidos tinha falado nesses termos. VEJA - Isso foi uma surpresa para o senhor? CASTRO - Mesmo antes da posse de Carter, nós já havíamos apreciado algumas declarações de membros da equipe do novo presidente, ou dele próprio, como a disposição para discutir com o governo do Panamá e encontrar uma solução para o problema do canal. E há, também, matizes que diferem este governo dos anteriores com relação ao apartheid e sobre os problemas da África Austral. Sinceramente, segundo nosso julgamento, os governos de Ford e Nixon eram aliados desses governos racistas - e eu nunca poderia dizer o mesmo do governo de Carter. Mas é preciso esclarecer que as posições do atual governo não são ridicalmente opostas às dos anteriores, apenas matizadamente opostas. Você fala concretamente da questão da pesca, como se fosse um acordo benéfico a Cuba. Veja, nosso país vem pescando historicamente nesses mares a que se refere o acordo. E extraía desses mares - que eram internacionais - alimento para nosso povo. Num determinado momento os Estados Unidos, unilateralmente, ampliaram suas águas de "preferência econômica", e não as jurisdicionais, e as transformaram em "zona econômica" exclusiva dos americanos. Nós acatamos essa determinação, mas mostrando sempre a disposição para discutir. Porque tínhamos duas atitudes a tomar: seguir pescando ali ou discutir. E nós tivemos uma atitude construtiva. Agora, se o acordo é benéfico, isso nós ainda não sabemos. Simplesmente porque não sabemos que quantidade de peixepoderemos capturar nessas águas. Eu diria que mais benéfica para nós era a situação anterior, quando aquelas águas eram internacionais. VEJA - Mas, mesmo que o acordo não seja tecnicamente benéfico a Cuba, parece evidente que ele reflete um gesto porítico dos Estados Unidos. Cuba retribuirá isso de alguma maneira? CASTRO - Estou de acordo com você. Reflete um gesto dos Estados Unidos. Eles são um país grande, poderoso, e se declaram essas águas como preferenciais, têm a possibilidade, com sua frota e suas armas, de impedir que qualquer outro país pesque ali. Os governos anteriores nos trataram de maneira discriminatória, com um espírito de força imperial e prepotente. O fato de o atual governo ter levado em conta nossos direitos históricos nos parece um gesto positivo. VEJA - Sim, mas a partir daí Cuba dará algum passo rumo à distensão? CASTRO - A cada gesto deles, nós temos retribuído com outro gesto. Para responder à suspensão dos vôos de espionagem não podíamos fazer nada, já que nossos aviões não violavam o espaço aéreo americano. Mas à autorização para que americanos visitassem Cuba respondemos dando permissão para que os turistas entrem aqui. Ao acordo pesqueiro respondemos discutindo com eles e aceitando o princípio estabelecido. A partir do acordo pesqueiro e das visitas de turistas, foi proposta a criação de um "escritório de interesses" americano em Cuba e um semelhante, cubano nos Estados Unidos. Foram eles que propuseram essa idéia, e nós concordamos. VEJA - E os presos americanos que Cuba libertou - isso pode ser interpretado como parte dessa política de aproximação? CASTRO - Sim. Nós colocamos em liberdade um certo número de cidadãos americanos que estavam presos aqui por diversos delitos. Você me pergunta pelos próximos passos e eu lhe digo: me parece que os próximos passos agora correspondem a eles. Porque aí entra uma situação muito especial. Nós passamos quinze anos sob um férreo bloqueio econômico, que nós consideramos como um ato agressivo e hostil ao nosso país. Esta política, eu sei, não provém da atual administração dos Estados Unidos. mas de anteriores. De toda forma, penso que é um dever elementar, uma obrigação moral dos Estados Unidos suprimir o bloqueio econômico contra nosso país - gesto com o qual indiscutivelmente melhorariam sua imagem no mundo. Não podemos fazer gestos de boa vontade aí, porque não temos um bloqueio econômico contra os Estados Unidos. Mas que não venham com suspensão parcial do bloqueio, porque isso não significa nada para nós. VEJA - O fim do bloqueio seria pré-condição para o reatamento? CASTRO - O bloqueio é um fato injusto, arbitrário, que viola a liberdade do comércio tão defendida pelos próprios americanos. Eu me lembro de quando os países árabes estabeleceram um embargo petrolífero contra os Estados Unidos. Eles protestaram e se queixaram amargamente ante a opinião pública mundial. Eu me pergunto: com que moral eles podem condenar o embargo petrolífero, se há mais de quinze anos eles mantiveram Cuba sob um bloqueio não parcial, como o do petróleo, mas total? Então eu insisto: o próximo passo é deles. E repito uma vez mais: o fim do embargo tem que ser total. VEJA - Mas por quê? A supressão parcial não seria um avanço? CASTRO - Não. Se suprimem o embargo apenas para poderem vender e nós só podermos comprar, não compraremos absolutamente nada dos Estados Unidos. Isso criaria uma situação irritante, que a nosso povo soaria como algo indigno e discriminatório. Só a supressão total do embargo criaria condições para que se pudesse falar de uma melhoria das relações entre Estados Unidos e Cuba. VEJA - O senhor fala da "nova administração americana". mas nunca se refere ao presidente Carter, que é quem a inspira. E o senhor disse há poucos dias que "não se pode comparar Carter a Nixon". O que significa isso? CASTRO - Eu penso que Nixon era um farsante, um indivíduo sem ética de qualquer natureza. E não penso o mesmo de Carter. Acredito que ele tenha uma ética baseada essencialmente em sua formação religiosa. E por seus pronunciamentos, ele me dá a impressão de ser um homem sincero. Isso não significa que eu não possa estar equivocado. Por exemplo: não estou seguro de que compreenda os problemas do mundo atual, especialmente os do mundo subdesenvolvido. Não estou seguro de que ele compreenda que há milhões e milhões de pessoas que estão passando fome no mundo atual, em conseqüência do subdesenvolvimento e do intercâmbio desigual. Também não estou seguro de que ele compreenda que a questão mais importante no que se refere aos direitos humanos é o estado de miséria, de fome, de desnutrição e de enfermidades de que padecem milhões e milhões de pessoas no mundo subdesenvolvido. E não estou absolutamente seguro de que Carter compreenda a importância que existe no fato de se reduzir os gastos militares, evitar a corrida armamentista e avançar por um caminho de paz. Isso é vital para todos os países, porque enquanto as grandes potências se sentam sobre montanhas de armas, o mundo se transforma numa montanha de problemas. Não estou certo, assim, de que Carter compreenda todos esses problemas. Mas isso, sim, estou convencido de que ele não é um Nixon, de que não é um farsante, de que tem uma ética pessoal. VEJA - E do embaixador americano na ONU, Andrew Young, que pensa o senhor? Como interpretou suas declarações no sentido de que "a presença cubana na África é um fator de estabilidade política"? CASTRO - Eu penso que Young quis dizer que a política de Cuba na África não é uma política negativa. E creio que ele tem razão. Um homem como Young pode entender perfeitamente que nós não fomos à África lutar pelo apartheid, mas contra o apartheid. Não fomos lutar a favor, mas contra a discriminação racial. Nossos soldados foram os primeiros soldados de um país não africano a enfrentar os soldados racistas e fascistas da África do Sul, como fizeram na guerra de Angola. Andrew Young pode compreender perfeitamente que nós não vamos à África defender, mas combater o colonialismo. E que não fomos nem vamos à África em busca de fontes de matérias-primas, ou mercados, ou inversões. O que eu entendo, portanto, dessas declarações, é que ele percebe, de certo modo, que nossa política africana não está inspirada em egoísmos nacionais nem em interesses econômicos, mas em princípios de solidariedade. Por outro lado, com todos os governos com os quais temos relações, temos sido muito escrupulosos, muito respeitosos e muito leais. Nenhum dos governos amigos da África poderá dizer jamais que nós deixamos de cumprir algo com que nos houvéramos comprometido, ou que tenhamos violado um só princípio de sua soberania. Voltando a Young, eu digo que sua declaração é justa. E ele disse umas tantas outras coísas com as quais simpatizo e estou de acordo - e eu sei que essas declarações já lhe criaram algumas dificuldades internas nos Estados Unidos. Mas quando ele diz que o regime da África do Sul é ilegítimo, do meu ponto de vista disse uma grande verdade. E quando disse também que a Inglaterra havia sido a mãe do racismo, do meu ponto de vista - e com todo o meu respeito pelo povo inglês - digo que é verdade. Não estou de acordo com todos os pronunciamentos de Young, mas simpatizo com alguns deles. E sobretudo simpatizo com sua valentia para tornar públicas suas idéias. VEJA - O senhor tem notícias de como o desempenho de Young tem repercutido entre os africanos? CASTRO - Eu creio que ele é um homem que, na ONU, não tira prestígio, mas dá prestígio aos Estados Unidos. Seu país não perde com isso. Os Estados Unidos já tiveram outros homens nesse cargo que nem de longe puderam significar um avanço para a política internacional. Eu sei, por exemplo, que Young é observado com muito interesse pelos africanos. Claro, não vamos querer que Young pense como nós, ou como o governo de Angola, ou como os homens dos movimentos de libertação de Zimbabwe, da Namíbia e da África do Sul. Mas ele fez pronunciamentos que mereceram o reconhecimento e o respeito da gente honesta do mundo. Ainda que essa gente não esteja de acordo com tudo o que ele diz. VEJA - Que pensa o senhor da política de direitos humanos defendida pelo presidente Jimmy Carter? CASTRO - Bem, eu já lhe disse: ninguém pode estar contra o conceito de direitos humanos. Mas responda-me: qual é a situação mais trágica e mais dramática do mundo atual? É a fome, a miséria, as doenças, a desnutrição, o subdesenvolvimento. E quem são os culpados por essa situação? O colonialismo, o capitalismo - inverta a ordem, o capitalismo vem em primeiro lugar - e o imperialismo. Dentro de suas próprias fronteiras, o capitalismo significou o vício, o jogo, a prostituição, a discriminação do negro, o extermínio do índio, como ocorreu nos Estados Unidos, a conquista de territórios, como também ocorreu com os Estados Unidos em relação ao México. Restou ainda esse espírito de raça superior, que é uma das mais repugnantes violações dos direitos humanos. Repito: você pode conceber algo mais degradante que a prostituição? Além disso, há o desemprego e, essencialmente, a exploração do homem pelo homem. Penso, portanto, que ninguém, de um país capitalista, tem autoridade para falar de direitos humanos. VEJA - Mas isso significa que o senhor, então, não concorda com a política do presidente Carter? CASTRO - Uma política conseqüente de defesa dos direitos humanos teria que colocar em primeiro lugar o fim da corrida armamentista, o estabelecimento de um clima de paz no mundo, a resolução dos problemas de milhões e milhões de pessoas que vivem no subdesenvolvimento. Essa seria a questão número um. Se o presidente Carter, quando fala de direitos humanos, quer dizer que os Estados Unidos não vão continuar promovendo regimes fascistas no mundo, ao estilo do Chile, então nos alegramos. Porque os Estados Unidos, nos últimos trinta anos, foram o padrinho e o pai de quantos regimes reacionários corrompidos, sangrentos, fascistas e repressivos existam no mundo. VEJA - O subsecretário de Estado, Terence Todman, depois de passar alguns dias em Cuba, declarou, em visita ao Brasil, que há 15.000 presos políticos aqui. O que o senhor tem a dizer a esse respeito? CASTRO - Olhe, em Cuba há presos políticos. Inclusive há alguns milhares. Não vou lhe dizer que há três presos. Deve haver uns 2.000 ou 3.000 presos políticos. Em certo momento houve em Cuba uns 15.000 presos políticos. Ou mais - posso lhe dizer que houve um pouco mais de 15.000. Isso foi nos dias da invasão de Girón. Que íamos fazer? Bom, tivemos que metê-los na cadeia. A cada mês ocorriam dezenas de desembarques clandestinos de armas em Cuba. Os Estados Unidos, com todo o seu poder militar e seu poder econômio, a CIA, com todo o seu poder técnico e científico, lutavam abertamente contra nós. Organizaram ataques piratas, organizaram dezenas de movimentos contra-revolucionários em nosso país, apoiando-se na influência que tinham tido antes e nos contatos que tinham tido com os dominadores da nossa pátria. Foi nessa época que tivemos 15.000 presos políticos. Tivemos que prendê-los, e tivemos que submeter alguns a penas severas, longas. Isso é verdade, sirri. Agora, o que nunca ocorreu em nosso país foram as torturas. Você nunca soube de alguém que tivesse denunciado torturas aqui. Nunca houve um só caso de tortura aqui. Por quê? Porque desde nossa luta nas montanhas contra Fulgêncio Batista inculcamos em nossos combatentes uma consciência de ódio à tortura. VEJA - E que díz o senhor do tratamento dado aos inimigos depois que os rebeldes chegaram no poder? CASTRO - Quando triunfou nossa revolução, aqueles que haviam assassinado milhares de nossos compatriotas, e os que haviam torturado dezenas de milhares de cubanos, esses nós julgamos segundo as leis revolucionárias, em tribunais revolucionários. E os maiores criminosos, os responsáveis pelos casos mais graves de torturas e maus-tratos, foram condenados e fuzilados. Nunca negamos isso. Dissemos ao povo que não queriamos vingança, que não queríamos gente arrastada pelas ruas nem edifícios saqueados. Queríamos ordem. Mas tinha que haver Justiça. Depois surgiram os presos originários da luta aberta entre Estados Unidos e Cuba. Bom, e por que estão presos? Você quer prova melhor que o caso da praia Girón? Você quer caso de crime maior do que invadir seu próprio país enviado por uma potência estrangeira? Que fizemos? Bom, entre eles havia velhos criminosos que haviam escapado das primeiras refregas. Esses receberam o peso das leis revolucionárias. Mas que fizemos com a grande maioria dos presos em Girón? Nós os colocamos em liberdade. Imaginamos uma fórmula - isso fomos nós que inventamos, não foram os Estados Unidos - para dar um destino a toda essa gente. Não queríamos deixá-los indefinidamente presos. Estabelecemos, então, que estávamos dispostos a colocá-los em liberdade se os Estados Unidos pagassem uma indenização, coisa que acabaram aceitando. O que eu posso assegurar é que em nosso país nunca, em dezoito anos, nunca um preso foi torturado. Não há exceção a essa regra. Neste país não há um único caso de preso político que tenha desaparecido. Não importa o que diga a comissão de urna instituição tão pestilenta, corrompida e anacrônica como a OEA - são mentiras repugnantes, próprias e lógicas desse escritório de colônia americana que é a OEA. VEJA - Quais são as perspectivas de se libertar os americanos presos em Cuba por crimes políticos? CASTRO - Por que isso teria de ser de uma forma unilateral? Coisas da nossa soberania somos nós que decidimos. Mas se os americanos quiserem, posso propor-lhes um acordo: se soltarem um número de negros americanos, que tiveram que delinqüir por desemprego, por fome, por falta de escolas, nós colocaremos em liberdade um número igual de presos contra-revolucionários. VEJA - Até o final dos anos 60, Cuba participava dos movimentos revolucionários do mundo. Hoje Cuba ajuda com tropas governos constituídos. Conio foi que se deu essa mudança? CASTRO - Nós sempre tivemos um princípio, desde o triunfo da revolução até agora: este é um país que está disposto a viver de acordo com as normas internacionais. Você deve saber que ao bloqueio imperialista contra Cuba se somaram praticamente todos os governos da América Latina - com a única e honrosa exceção do México. Essa gente se sentia no direito de promover o bloqueio e a contra-revolução em Cuba. Nós nos considerávamos com inteira liberdade, portanto, para apoiar os movimentos revolucionários nesses países. Nossa política é a seguinte: aos Estados que estejam dispostos a respeitar as leis internacionais e a soberania de nosso país, aplicaremos os mesmos princípios - o México é uma demonstração disso. Apesar de termos governos diferentes, o México não pode dizer que estivemos a apoiar movimentos revolucionários dentro de seu território. VEJA - E nos demais países? CASTRO - Bem, aqueles que se associaram aos Estados Unidos nas agressões, no bloqueio e na contra-revolução a Cuba nos deram a liberdade de apoiar movimentos revolucionários. VEJA - E essa norma ainda está em vigor? CASTRO - Todos os países que abandonaram a política de bloqueio, de subversão e de promoção de contra-revolução contra Cuba, e inclusive os que restabeleceram relações normais e respeitosas com Cuba, receberam de nós a mesma política de respeito, independentemente do sistema político e social. Quanto aos outros países da América Latina que não respeitam as leis internacionais e a nossa soberania, e continuam aliados ao bloqueio imperialista e às agressões a Cuba, não nos sentimos com nenhuma obrigação especial em relação a eles. VEJA - Mas, enfim, houve uma mudança nessa política? CASTRO - Não é que não sinipatizemos com os movimentos revolucionários. Simpatizamos, sim. Agora, se surge um movimento revolucionário num país que tem relações conosco, ou que respeite nossa soberania e nosso país, por maior que seja nossa simpatia pelos movimentos revolucionários, nós nos absteremos de qualquer apoio a esse movimento. Essa foi, é e continua sendo a nossa política. Não mudamos nada. VEJA - E a tese da "exportação ela revolução"? Que fim levou? CASTRO - Creio que em todas as relações internacionais é preciso haver normas recíprocas. Somos partidários do respeito e da coexistência pacífica entre Estados de diferentes regimes sociais. E todos os países que estejam dispostos a viver de acordo com essas normas serão respeitados por nós. Falou-se muito da tal "exportação da revolução". Na realidade, as revoluções não podem ser exportadas. Uma coisa é a solidariedade internacional, e outra é a exportação de revoluções. Só o povo de cada país pode fazer a revolucão. É corno se você comprasse um avião e depois não soubesse manejá-lo. Para fazer uma revolução é preciso ser revolucionário, é preciso ter experiência - e isso não se pode importar. VEJA - Bem, e a ajuda a governos de esquerda? O que diz o senhor, por exemplo, a respeito das tropas cubanas na Etiópia? CASTRO - A verdade é que nós concordamos em dar uma importante ajuda civil à Etiópia. Decidimos mandar para lá mais de 140 médicos e um total de 300 pessoas para trabalhos sanitários. A Etiópia é um país que tem mais de 35 milhões de habitantes e apenas 125 médicos. E, por essa via, estamos dispostos a continuar ajudando a revolução etíope. Não sei se no Brasil o povo sabe qual é o estado sanitário da Etiópia: por um lado, apenas 125 médicos, e, por outro, 150.000 leprosos. 450.000 tuberculosos, 7 milhões de palúdicos e 14 milhões de pessoas com diferentes graus de doenças na vista, provocadas pelo tracoma. Uma entre cada três crianças morre antes dos 5 anos, e uma entre cada cinco morre no primeiro ano de vida. Ora, se foi isso o que deixaram o colonialismo e o feudalismo ali, a Etiópia então tem pleno e absoluto direito de fazer sua. revolução. VEJA - Mas e a ajuda militar? E as tropas cubanas? CASTRO - Nós temos dado apoio político à Etiópia também. Temos divulgado internacionalmente a justeza da revolução etíope e o direito do povo etíope de mudar essa situação feudal. Temos também relações diplomáticas estreitas com eles. Quanto a essa outra questão, o que posso lhe dizer é que nós temos o direito de oferecer-lhes também ajuda militar. Tem gente que nos pergunta como você: Cuba tem tropas lá? Como não temos, respondemos sempre: "Não temos tropa". E nos perguntam se temos instrutores militares. E como não temos instrutores militares como tais, também negamos. Temos ali apenas pessoal diplomático. O que eu posso lhe assegurar é que nossos diplomatas são politicamente muito bem preparados e, em algumas ocasiões, bem preparados militarmente também. Agora, se o governo etíope nos pedir, temos possibilidade e liberdade para mandar tropas para lá. E, para fazer isso, não temos que dar satisfação a ninguém. VEJA - O senhor já desinentiu a participação cubana no movimento dos rebeldes de Shaha, no Zaire. Mas o general Nathanael N'Bumba, chefe dos rebeldes, não pediu ajuda a Cuba? E se pedisse, Cuba daria? CASTRO - Durante a guerra de Angola nós tivemos oportunidade de conhecer os zairenses de origem katanguesa, que estavam imigrados em território angolano. Quando o Zaire, apoiando a FNLA, invadiu Angola, isso contríbuiu para aproximar os katangueses do MPLA. Eles trabalharam, lutaram, algumas vezes batalharam junto com nossas tropas. Mas, quando acabou a guerra, praticamente terminaram também os nossos contatos com os katangueses, por duas razões. Em primeiro lugar porque nós não somos donos de Angola - não podíamos usar o território angolano para treinar, armar ou ajudar os katangueses. Em segundo lugar, nos acreditávamos que, uma vez terminada a guerra, Angola necessitava de paz - sobretudo com seus vizinhos da África negra, independentemente dos regimes vigentes. Paz com Zâmbia e paz com Zaire. VEJA - Paz com o Zaire? CASTRO - O governo do Zaire eu conheço bem. É um governo colonialista, sanguinário, ladrão. Um dos homens mais ricos do mundo é Mobutu. São incalculáveis as contas que ele tem em bancos da Suíça e da Europa. São centenas de milhões de dólares que esse homem roubou do Zaire, hoje um instrumento do imperialismo e do neocolonialismo na África. A meu juízo, o governo de Mobutu é um dos mais desprestigiados e dos mais corrompidos do mundo inteiro. Mas, apesar desse meu juízo, nós acreditávamos que o que mais convinha a Angola era a paz com o Zaire. Para reconstruir o país. Se esse era o nosso critério, nós não podíamos apoiar ou estimular ações que comprometessem a paz angolana. Essa era, portanto, nossa posição política em relação ao problema do Zaire. Agora, os katangueses estão lá, na fronteira, e querem regressar à sua pátria. Durante uma época eles foram secessionistas, hoje não são mais. Hoje eles têm uma posição nacional, preocupam-se por uma mudança dentro de todo o Zaire, têm uma proposta de unidade nacional. E lutam não para tomar Katanga, ou Shaba, mas para derrubar o governo de Mobutu. VEJA - Mas eles chegaram a pedir ajuda a Cuba? CASTRO - Eu imagino - e isto é apenas unia suposição - que eles devem ter pedido ajuda a todo mundo a que tiveram acesso. Mas dar ou não dar ajuda em armas e em treinamento é algo que se determina pela posição política, que, por sua vez, é determinada pela situação internacional concreta em um dado momento. Se nós, considerando justa e revolucionária a proposta dos katangueses, estivéssemos dando-lhes armas e treinamento, isso teria entrado em choque com nossa premissa de que Angola precisava de paz. E se num certo momento vocé se encontra diante de duas opções justas, uma delas tem que prevalecer. Nesse caso, a necessidade de paz em Angola prevaleceu. Não nego os direitos dos katangueses de voltar a seu país e fazer a revolução nem ignoro a justeza de sua causa, mas a paz angolana era mais importante. Então aí está a resposta à sua pergunta: por isso é que nós não poderíamos atender a nenhum pedido que tivesse sido feito pelos katangueses. Está claro? VEJA - Quantos homens Cuba perdeu em Angola? CASTRO - Olhe, nós estamos lutando na África há muito tempo. Ajudamos o movimento de libertação da Guiné-Bissau, de Angola e muitos outros no continente. Mas, por norma, nós não damos informação sobre o número de baixas. Isso é um segredo nosso que, creio, a História um dia se encarregará de divulgar. O que eu posso lhe dizer é que, em termos gerais, as baixas não foram muitas. Dada a magnitude da luta e os resultados obtidos, as perdas foram mínimas. VEJA - Por que a imprensa cubana informou tão pouco sobre a participação de Cuba na guerra de Angola? Por exemplo: Gabriel García Márquez, que é seu amigo e velho amigo de Cuba, escreveu a "Operação Carlota", contando a campanha cubana em Angola - e nem isso foi publicado aqui. CASTRO - Qualquer dia a gente publica a reportagem de García Márquez. Mas aí há muitos fatores determinantes. Primeiro que isso foi uma operação militar, que tinha que ser preservada. Especialmente sendo, como foi, uma operação difícil, a 10.000 quilômetros de distância. Nós não temos frotas aéreas. Tivemos que utilizar o mar como rota principal, uma luta durante muitos meses. Tivemos que enfrentar tropas regulares do Zaire e da África do Sul e VEJA - Mas foi só o segredo militar que limitou a divulgação da guerra pela imprensa cubana? CASTRO - Não, havia fatores, digamos, políticos. Nós não queríamos ressaltar o esforço cubano, não queriamos magnificá-lo, entende? Não poderia parecer que aquela era uma luta nossa, simplesmente porque era fundamentalmente uma luta dos angolanos. Por consideração com os angolanos e por modéstia revolucionária, não queríamos que pudesse parecer que estávamos ressaltando o nosso papel. Nós temos o cuidado, em nossas relações com o povo angolano e com o povo da África em geral, de evitar esse tipo de coisa. Primeiro, é importante que saibam que nossa colaboração é desinteressada. E segundo, que sempre vejam que nossa posição é modesta. E, de mais a mais, não éramos nós que tínhamos que ficar aí a dar informações sobre a guerra - esse era um papel dos angolanos. Mesmo hoje nós não nos sentimos no direito de ficar aí fazendo análises daquela luta. Claro, depois vão surgir dados, papéis e documentos que a História se encarregará de divulgar, mas esses fatos ainda estão muito frescos, são muito recentes, e não seria correto da parte de Cuba estar fazendo análises históricas. VEJA - O senhor disse há poucos dias que os chineses estariam boicotando a reaproximação Cuba-Estados Unidos. Mas, logo depois, um telegrama da CASTRO - Eu já falei demais disso, não queria me aborrecer ainda mais falando de novo - e nem aborrecer seus leitores, que já devem estar cansados de toda essa história. Mas vamos lá. A China vem seguindo uma política de traição ao movimento revolucionário mundial e de total colaboração com o imperialismo. Nós sabemos que os chineses aconselharam aos americanos não devolver-nos a base naval de Guantánamo, e da mesma forma eles se opõem ao fim do bloqueio econômico. Isto é muito lógico para quem acompanha as posições chinesas internacionais. Eles não se cansam de caluniar Cuba, dizendo que somos "uma base soviética no Caribe". Como você sabe, eles têm magníficas relações com o governo do general Augusto Pinochet, no Chile, e com regimes similares na América Latina. Então não temos que nos surpreender quando, em suas conversações secretas com o governo americano, os chineses os aconselham a nunca devolver Guantánamo a Cuba. Nós sabemos disso como sabemos também de algumas outras coisinhas. Os chineses acreditam que a revolução cubana, seguindo o exemplo chinês, possa romper seus vínculos com o campo socialista e com o movimento revolucionário mundial para aliar-se ao imperialismo. Pensam que nós somos capazes de fazer as piruetas que eles fazem, que somos capazes de incorrer em uma traição semelhante à deles. Eles não entendem que se as relações entre os Estados Unidos e Cuba se desenvolvem de um momento para outro, têm que ser feitas sobre princípios. E isso não significará, em nenhum sentido, que nós vamos nos converter em aliados dos Estados Unidos em política internacional, que é o que têm feito os chineses. É porque têm esperança de fortalecer o campo imperialista que eles dizem que vêem com bons olhos a melhoria das relações com os Estados Unidos. Se Cuba se vendesse aos Estados Unidos, os chineses estariam de acordo com a devolução da base de Guantánamo, esteja certo disso. VEJA - Como o senhor vê o chamado "eurocomunismo"? CASTRO - Eu prefiro não comentar esse tema. Acho melhor deixar aos europeus a responsabilidade de desenvolver seus pontos de vista e resolver seus problemas. Eu também não posso falar de tudo, não é? VEJA - O senhor acredita que a atual crise de preços do açúcar no mercado internacional poderia ser um fator de reaproximação dos dois maiores exportadores - isto é, Brasil e Cuba? CASTRO - Bom, Cuba e Brasil têm interesses comuns em outros terrenos, como países do Terceiro Mundo. Eu já lhe dei, há pouco, minha opinião sobre a necessidade de paz para o mundo. A necessidade de um esforço de toda a humanidade na luta contra o subdesenvolvimento, a fome, a miséria. Quer dizer: há terrenos em que, apesar das diferenças entre os regimes sociais, nós todos temos obrigações e tarefas comuns. Mas isso não depende só de nós. Durante muitos anos, o Brasil foi um aliado dos Estados Unidos em sua política de bloqueio contra Cuba. E, de fato, o Brasil ainda mantém uma política semelhante à dos Estados Unidos com relação a Cuba, não mantém nenhum tipo de relação econômica e comercial conosco... Então nós podemos dizer que estamos bloqueados pelos Estados Unidos e pelo Brasil, não? Bem... Que cesse o bloqueio econômico do Brasil a nosso país e esta poderá ser a base de uma melhoria das relações estatais. Eu disse estatais. Isso pode acontecer independentemente do regime social. Claro que temos coisas comuns. Eu acho que os países produtores têm que fazer alguma coisa para defender o preço do açúcar, nisso estamos de acordo. Os preços atuais não cobrem nem os custos de produção. E no caso dos países açucareiros não petrolíferos, o açúcar é a conta de pagar seus gastos com petróleo. Há quem esteja pior do que nós, porque Cuba tem magníficas relações de intercâmbio com a União Soviética, que nos paga pelo açúcar um preço excelente, que hoje é várias vezes superior ao mercado mundial. Além disso, nos abastecem de combustível, de equipamentos, de matérias-primas, alimentos, máquinas. E eu creio que é sábio, é correto, é útil ao povo brasileiro, ao povo cubano, dominicano, filipino, peruano, enfim, aos países subdesenvolvidos produtores de açúcar, pensar seriamente em que tipo de esforço se poderá fazer com vistas a coordenar uma política que defenda uma fonte de divisas tão importante como essa. VEJA - Os jornais brasileiros têm publicado, nos últimos meses, manifestações de empresários interessados em negociar com Cuba, ainda que não haja relações diplomáticas. Como dirigente cubano, como o senhor vê essa perspectiva? CASTRO - Me parece uma atitude positiva. E, ademais, me parece a única saída inteligente que podem adotar industriais de um país como o Brasil, que aspira a converter-se em uma potência industrial, que aspira a um desenvolvimento adequado de sua economia. Eu posso lhe repetir a posição que adoto para com os Estados Unidos. Nós não bloqueamos o Brasil nem temos aqui nenhuma proibição de vender ou de comprar do Brasil. Portanto, nesse sentido corresponde também ao Brasil dar os passos pertinentes. VEJA - Que diria o senhor de algumas mudanças ocorridas na política externa do Brasil nos últimos anos? CASTRO - Eu entendo perfeitamente a política brasileira de desenvolver relações comerciais com o campo socialista. É uma política inteligente, pois sabemos que os países socialistas constituem um imenso mercado. E penso que todas as burguesias industriais inteligentes, em vez de desenvolver uma política de bloqueio e isolacionismo, tratam de conquistar esses mercados. Simplesmente os industriais brasileiros fazem o que têm que fazer. Creio que são motivos semelhantes que levam o Brasil a desenvolver suas relações com a África, igualmente em busca de mercados - isso do ponto de vista dos interesses dos industriais. Pode ser também que existam aiguns elementos sentimentais nisso. Como antiga colônia portuguesa, pode ser que o Brasil tenha querido desenvolver boas relações com outras também ex-colônias de Portugal. Pode ser até que se tenha pensado que o Brasil poderia se tornar um bom substituto de Portugal nessas antigas colônias. Bom, mas aí eu já estou entrando no campo das especulações. Do ponto de vista objetivo, nos pareceu um fato positivo o reconhecimento de Angola por parte do governo brasileiro. Eu soube também que o Brasil está desenvolvendo boas relações comerciais com Angola, está exportando alguns produtos da indústria mecânica, transportes. Quando eu estive em Luanda me recordo de que passei junto a um supermercado, Pão de Açúcar, que é propriedade de uma empresa brasileira. Esse foi um passo positivo tanto para o Brasil como para Angola. E nós, que nos sacrificamos com nosso sangue na luta, pela libertação de Angola, ficamos felizes com tudo o que possa representar um benefício para o povo angolano. VEJA - Há mais de vinte anos o senhor, em sua autodefesa intitulada "A História me Absolverá", já falava em utilização de energia nuclear para resolver os problemas energéticos de Cuba. Hoje, quando esse passou a ser um problema universal, como o senhor vê a pofitica de não proliferação nuclear defendida pelo presidente Jimmy Carter? CASTRO - Você agora está me colocando um tema meio complexo... Bem, é sabido, por cálculos matemáticos e científicos, que o petróleo está se esgotando num ritmo acelerado. Um dos problemas mais sérios que o mundo enfrentará no futuro é o energético. Inclusive eu penso que as tecnologias substitutivas da geração de energia elétrica através do carvão e do petróleo estão atrasadas com relação ao esgotamento, sobretudo do petróleo. O carvão ainda vai durar um pouco mais. O mundo se vê, portanto, diante de um dos mais sérios desafios que se poderá imaginar, porque sem energia não há desenvolvimento. Tenho meditado, tenho pensado sobre as diferentes e possíveis fontes de energia e me parece que a energia que, no essencial, vai substituir o petróleo será a energia nuclear. Não vejo possibilidades em nenhuma das outras fontes de que se tem falado. Mas a tecnologia da energia nuclear ainda não está suficientemente desenvolvida, e o custo alto das inversões e os perigos da contaminação ainda não foram resolvidos. Nessa questão, o grande fantasma que atemoriza a humanidade é o fato de a energia nuclear, embora importante fonte de solução de problemas econômicos, ser também matéria-prima para a produção de armas de destruição maciça. É crescente o número de países que já possuem tecnologia para a produção de armas nucleares. Eu li inclusive que alguns cientistas, por mero prazer, ou tentando advertir para o perigo que representa a abundância dessa matéria-prima, já elaboraram o desenho de armas nucleares artesanais caseiras. E há quem se preocupe, com razão, com o risco de que algum dia as armas nucleares possam estar nas mãos de indivíduos. Qualquer um que tenha uma idéia do que isso significa teria razões de sobra para preocupar-se com os problemas políticos que derivariam de uma situação dessa natureza. Eu não gostaria de estender-me muito, mas penso que o homem, nem social nem internacionalmente, no que se refere às suas relações e à sua capacidade de resolver seus problemas internacionais, ficou muito atrás desse incrível frankenstein que ele mesmo criou. Há uma infinidade de focos de tensão no mundo, no âmbito internacional. E que implicações pode ter nesses problemas a proliferação das armas nucleares? Eu creio, então, que toda a preocupação de qualquer homem com esse problema é justa. Agora, como encontrar um critério, como chegar a um consenso internacional sobre esse problema? Penso que a base de tudo isso é que se consiga um clima de distensão e de paz no mundo - essa seria a primeira tarefa. Uma vez conseguido tal clima de paz, é indispensável, primeiro, que se suprimam as provas nucleares, no espaço, no fundo dos mares, e as subterrâneas. E, como objetivo final, o desaparecimento de todas as armas nucleares. Porque enquanto um grupo de países possuir o monopólio dessas armas, não vejo como impedir que outros países aspirem a possuir as mesmas armas. Não vejo, portanto, nenhuma solução lógica para esse problema que não seja a eliminação de todas as armas nucleares. VEJA - Isso significa que o senhor apóia a política de Jimmy Carter? CASTRO - Essas são as minhas opiniões sobre a questão. E se Carter está disposto a lutar por esse clima de paz e pela eliminação de todas as armas nucleares, e que não reste nenhum país com o monopólio das armas nucleares, eu estou de acordo com essa política. VEJA - A propósito, como vão os planos de instalação de usinas nucleares em Cuba? CASTRO - Ah, os nossos são planos modestos, não são ambiciosos como os de vocês, brasileiros... Eu sempre achei que era uma coisa inteligente o desenvolvimento da energia hidráulica. Eu creio que essa tem sido uma política sábia, que o Brasil historicamente tem seguido. País não petrolífero - até agora, pelo menos -, o Brasil tem desenvolvido ao máximo sua energia hidráulica. Mas também me parece correto que o Brasil se preocupe pelo desenvolvimento de outras formas de energia, que lhe permitam satisfazer as necessidades e o nível de vida, no futuro, de uma população crescente. Como estamos aqui nesta entrevista falando do ponto de vista teórico, não vou incluir os aspectos sociais e políticos da questão. Penso que qualquer comunidade humana, para seu desenvolvimento e seu bem-estar, necessita dispor de importantes fontes de energia. Nós temos aqui uma situação similar, mas com algumas desvantagens. Não possuímos fontes importantes de energia hidráulica, nossos rios são pequenos, nossa ilha é estreita e comprida. Também não temos petróleo nem temos carvão, e por isso nós vamos depender, no futuro, fundamentalmente, da energia nuclear. Anteriormente não poderíamos nem sequer pensar em uma unidade de energia nuclear - nosso sistema elétrico era muito pequeno. Mas para 1980 teremos ao redor de 3.000 megawatts. Com isso poderemos começar a introduzir as primeiras unidades movidas a energia nuclear de 500 megawatts. Entre 1983 e 1984 deverá entrar em funcionamento nossa primeira unidade, e a segunda por volta de 1985. E, no futitro, todas as novas unidades de energia elétrica terão como fonte a energia nuclear. É a notícia que eu lhe posso dar. Até agora não pensamos em fabricar nenhuma bomba atômica. VEJA - Se o senhor pudesse voltar ao dia de janeiro de 1959, quando triunfou a revolução cubana, que coisas faria de novo? E o que deixaria de fazer? CASTRO - Cometi erros que não voltaria a cometer. Não vou enumerá-los porque seria muito extenso. Trataria de repetir os acertos, claro. Outro dia, num discurso, eu dizia que se tivesse o privilégio de viver de novo minha vida, talvez fizesse muitas coisas diferentes das que fiz. Mas lutaria com a mesma paixão pelas mesmas coisas por que lutei até hoje. Quer dizer, o objetivo seria o mesmo, a estratégia, na essência, seria a mesma e os erros eu deixaria de lado. Mas os erros foram fundamentalmente táticos, não estratégicos. |
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