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12 de dezembro de 1984
Nuvem de morte
dentro da
noite indiana

Em Bhopal, o maior acidente

Passavam alguns minutos da 1 hora da madrugada da última segunda-feira quando dois funcionários da filial indiana da indústria química Union Carbide, instalada em Bhopal, na paupérrima região central da Índia, puseram-se a trabalhar. Como faziam regulannente a cada seis meses, eles iniciaram a limpeza externa dos três tanques de aço inoxidável onde a empresa estocava sua produção diária de isocianato de metila - composto altamente tóxico utilizado como maténa-prima na fabricação de defensivos agrícolas e capaz de, na quantidade estocada na usina, matar tudo o que estivesse vivo em Bhopal.

Nesse instante um alarme soou, dando sinal de que a válvula de segurança de um dos tanques rompera-se. A pressão estava aumentando no tanque - e o isocianato de metila, ali mantido em forma líquida, ameaçava escapar se o tanque explodisse. Imediatamente um dispositivo automático disparou o antídoto previsto para tais casos: um sistema de aspiração que deveria transferir a substância letal para um depósito de 15 metros de altura onde uma solução neutralizaria seus efeitos danosos para a saúde, antes de liberá-la na forma de gás para a atmosfera. Mas algo de errado se passou. Os funcionários logo perceberam que a substância estava saindo depressa demais e que, apesar da transferência para o depósito neutralizador, a pressão no tanque continuava a aumentar vertiginosamente. A operação transferência falhara.

Em segundos outro alarme ecoou e os funcionários, ao contrário do que estavam acostumados a fazer nos exercícios de prevenção, não ligaram as mangueiras destinadas a esfriar o tanque. Em vez disso, fugiram. Eles sabiam que tinha acabado de se concretizar o que pode acontecer de pior com o isocianato de metila: passar do estado líquido para o estado gasoso, transformando-se num assassino silencioso e devastador. Rapidamente, uma nuvem de gás venenoso surgiu da válvula defeituosa e começou a encobrir a usina. Levada pelas brisas noturnas, em poucos minutos a massa gasosa pairava sobre o território vizinho da fábrica, ocupado pelo bairro Jayaprakash Nagar, um amontoado de quase 2.000 barracos miseráveis. Quando o sol apareceu na segunda-feira, uma área de 40 quilômetros em torno da Union Carbide transformara-se numa letal câmara de gás.

Mais de 25.000 toneladas de isocianato de metila haviam escapado para a atmosfera - e Bhopal, uma cidade histórica de 900.000 habitantes construída no século XI, inscrevera-se como palco da mais devastadora catástrofe já desencadeada por uma substância química em tempos de paz. Em menos de 48 horas, mais de 2.000 pessoas foram mortas por asfixia, a maioria enquanto dormia. Dos 50.000 feridos, quase a metade está cega, com as córneas ulceradas pelo gás, e até o final da semana passada vagava pelas ruas da cidade à procura de socorro. "O máximo que se consegue dar a eles é um copo de leite e comprimidos de aspirina", disse a VEJA, pelo telefone, madre Consuelo, uma religiosa espanhola que trabalha com a organização de madre Teresa de Calcutá e estava socorrendo as vítimas de Bhopal. "Só o cloridrato de cocaína poderia aliviar-lhes a dor."

MORTE LENTA - A aterradora paisagem de Bhopal lembra um imaginário teatro de guerra biológica e química de que até hoje nenhum exército ousou lançar mão em larga escala. "Não há sangue nas ruas, os bens materiais estão preservados, mas a dor está presente", contou a VEJA Arhok Jayanti, empregado da Bharat Heavy Electrical, um dos grupos econômicos mais poderosos da Índia. A cidade de Bhopal, de fato, dificilmente poderia encontrar um algoz pior entre as substâncias químicas. O isocianato de metila constitui um dos mais agressivos compostos fabricados pelo homem. De uma classificação de 2.500 substâncias tóxicas feitas pela Organização das Nações Unidas, ele figura com o número 2.480 - abaixo, portanto, apenas de vinte outros agentes potencialmente mortais.

Ao aspirarem o isocianato de metila em forma de gás, os habitantes de Bhopal foram submetidos a uma morte lenta e aterrorizante. Como o veneno reage ao entrar em contato com a água, o ataque químico toma-se mais duro na exata medida em que o organismo secreta líquidos para se proteger da agressão. Nos olhos, por exemplo, assim que o Iacrimejar fica mais intenso a córnea é atacada com tamanha ferocidade que chega a perder a transparência, tomando-se opaca e ocasionando a cegueira, só reversível mediante transplantes. O mesmo efeito pode ser sentido na boca, no nariz e nos pulmões. "A sensação é a de uma queimadura com fogo", diz o bioquímico Fausto Azevedo, coordenador da Divisão de Ecotoxicologia da Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental.

Dentro do corpo, o isocianato de metila segue seu curso de destruição. Ao penetrar nos pulmões faz entupir os alvéolos, impedindo a passagem do oxigênio para a corrente sanguínea. As vítimas de Bhopal, assim, morreram com a sensação de que estavam se afogando. O pior é que de nada adianta dar oxigênio extra à vítima, pois os alvéolos mantêm-se bloqueados. Rewnath Choure, o ministro da Saúde do Estado de Madhya Pradesli - onde fica a cidade de Bhopal -, encomendou como bem de primeira necessidade ao governo central em Nova Délhi milhares de dilatadores de traquéia. "Pelo menos é preciso manter respirando os que estão em situação mais grave", disse. Para esses o fato de respirar não significa que vão viver. O isocianato tem a capacidade de dissolver algumas enzimas do organismo, principalmente a colinesterase, substância importante no processo de contração muscular. Sem essa substância, ocorrem convulsões involuntárias, torpor, confusão mental e a vítima entra em coma. Sabe-se que, a longo prazo, o composto tóxico está associado ao surgimento da agranulocitose, que diminui a capacidade da pessoa de enfrentar infecções. "Passada a crise muita gente ainda vai morrer em Bhopal", diz o farmacologista José Elias Murad, 60 anos, diretor da Faculdade de Ciências Médicas de Belo Horizonte.

'CHUVA DE VENENO' - Assim que a nuvem venenosa dissipou-se no ar, o verdadeiro horror da tragédia emergiu das ruas da cidade. "Deitei no domingo com meus quatro filhos e quando acordei estava cega, com os olhos queimando e senti que as crianças não se mexiam mais na cama", disse Anirita Sobti, de 40 anos, uma das primeiras a dar entrada no Hospital Hamida, um dos quatro de Bhopal. Ali, como em todos os outros, as mesas da administração foram transformadas em leitos e os feridos espalham-se pelos corredores e até pelas calçadas em volta do prédio. Como Anirita, a maioria das vítimas morava no bairro de sapé, zinco e barro de Jayaprakash Nagar, onde há 90% de analfabetos e os moradores nem sequer conseguem ler a enorme placa da Union Carbide postada bem à frente de seus barracos. "Disseram que foi uma chuva de veneno mas não sei como foi parar lá em casa", disse Anirita.

Raj Gujral, um camponês de 60 anos, teve sorte melhor que os filhos de Anirita. Como centenas de outros, ele estava dormindo na estação de Bhopal, à espera de o dia amanhecer para ir vender suas frutas na cidade - uma cena clássica em todas as paradas ferroviárias da índia. "Não ouvi nenhuma explosão, nenhum relâmpago, nada", conta Gujral. "De repente, as pessoas que estavam dormindo a meu lado começaram a acordar e agitar-se. Depois, passaram a gritar e vomitar. Percebi que meus olhos queimavam, como se tivesse passado pimenta neles, e minha língua começou a ficar grossa." Gujral lembra que apanhou uma das laranjas de sua cesta e, ao chupá-Ia, sentiu-se um pouco melhor. Quando quis levantar-se, porém, suas pernas não obedeceram e pouco depois perdeu os sentidos. "Até agora não sei o que aconteceu", concluiu ele após ter sido atendido num dos hospitais. "Não estou vendo nada do lado esquerdo. Minhas pernas continuam fracas. E, na confusão, perdi toda a minha mercadoria."

Entre milhares de carcaças de búfalos, vacas e cabritos mortos pelo gás, as equipes de socorro guiavam correntes de cegos de mãos dadas até os hospitais e cemitérios onde iam enterrar seus mortos. "Perdi meu filho de 3 anos, que era tudo para mim", dizia Somnath Singh, enquanto enterrava o filho numa cova rasa. A menos de 50 metros dali, Somnath vira chegar uma ambulância ao Hospital Escola Gandhi com trinta corpos de crianças inanimadas. Dentro, uma equipe de enfermeiras e médicos passava glicose nos tubos de oxigênio e tentava forçar as crianças, em vão, a respirar. "Elas estão aterrorizadas". comentou uma enfermeira.

MORTE NO MINARETE - À noite, as dezenas de piras de cremação, segundo a tradição hindu, davam um colorido avermelhado ao horizonte da cidade. Já a pequena comunidade adepta da religião parsi em Bhopal não queimou nem sepultou seus mortos - os oitenta parsis que o gás venenoso matou foram expostos em cima de colunas de pedras para que os abutres, animais sagrados para a seita, os devorassem. No cemitério, enfim, foram sepultadas as vítimas de credo muçulmano - a maioria da população de Bhopal. Um dos únicos a merecer uma cova individual foi o muezim, ou principal sacerdote, de Bhopal, Ahmed Hafez, de 62 anos. Na segunda-feira, desafiando a nuvem tóxica, ele subiu como faz todos os dias ao minarete da mesquita Taj-Ul-Masjid para entoar o secular canto matinal em glória a Alá - e tombou vítima do isocianato de metila lá mesmo, com a voz estrangulada pelo gás.

Dois dias depois que os primeiros mortos foram cremados e enterrados, as autoridades médicas de Bhopal foram surpreendidas por outra leva de mortos e feridos chegando aos hospitais. Passado o perigo do gás, policiais foram às vizinhanças da fábrica da Union Carbide e lá encontraram barracos com famílias inteiras mortas. Acredita-se que essas pessoas tenham perecido dormindo, sem esboçar qualquer reação. Um sobrevivente que ajudava os policiais a arrombar as casas, Shakur Khan, 25 anos, perdeu toda a família e, na noite do vazamento, salvou-se por não dormir em casa. "Não espero nada do governo, só o fechamento da fábrica", dizia Khan. Ele encontrou duas crianças ainda vivas e as levou aos hospitais de emergência instalados em tendas nas proximidades de Bhopal.

"Ninguém sabe quantos vão chegar vivos ao dia de amanhã ou quantos vão durar uma semana", dizia o médico H.H. Travedi, da Escola Superior de Medicina de Madhya Pradesh. As injeções de cortisona e os tubos de oxigênio vinham surtindo efeito, mas apenas sobre os feridos menos graves. Além disso, não havia medicamento suficiente para permitir o trabalho dos médicos que se aglomeraram em Bhopal, vindos de todas as partes da Índia. Hamida Begum, cega pelo isocianato de metila, contava aos médicos que seu marido morrera e pedia a eles, desesperadamente, que salvassem seu filho de 6 anos. "Nós corremos, corremos muito para escapar do gás."

REAÇÃO EM CADEIA - Um ferido merecia atenção especial dos médicos e da polícia: Shakeel Ahmed, empregado graduado da Union Carbide na Índia e também vitimado pela substância que sua empresa produzia. Para o governo, ele talvez possa esclarecer melhor as causas da tragédia. Até sexta-feira passada, o Escritório Central de Investigação da Índia mantinha Shakeel sob forte vigilância, mas seu precário estado de saúde não permitiu ainda que seja ouvido. "Só ele pode dizer se houve negligência e de quem foi a negligência", disse o oficial Girish Tiwari, superintendente de polícia de Bhopal, que não deixou claro se Shakeel é um dos técnicos que fugiram quando o vazamento saiu de controle. "Há suspeitas de que os funcionários que limpavam o tanque misturaram alguma substância ao isocianato, ocasionando uma reação química em cadeia", acredita Girish.

Caso se confirme a má conduta de Shakeel, o pesadelo de Bhopal ilustra a trajetória percorrida rumo ao desastre na maioria dos acidentes industriais ocorridos nos últimos anos. Cada vez mais, hoje em dia, morre-se pela ação de substâncias criadas sem o fito de matar - ao contrário, com o objetivo de estender a um número cada vez maior de pessoas os benefícios da tecnologia. E, na maioria das vezes, é a falha humana na manipulação de tais produtos que rompe a frágil fronteira existente entre sua utilidade e seu imenso potencial de perigo, fazendo derramar sobre o progresso todo o preço altíssimo dos seus subprodutos danosos. O vazamento de dioxina de uma fábrica em Seveso, na Itália, em 1976, ocorreu depois da quebra de um duto mal reparado. O acidente nuclear de Three Mile Island, na Pensilvânia, foi atribuído pelas autoridades a um defeito de fabricação de alguns encanamentos. Só nos Estados Unidos ocorrem nos gasodutos cerca de 100 explosões, matando, em média, vinte pessoas todos os anos. Milhões de toneladas de combustíveis circulam diariamente por condutos que se espalham por todo o planeta - e, pelos volumes em jogo, os acidentes tornam-se potencialmente cada vez mais graves. Centenas de pessoas morreram em Cubatão e no México este ano em acidentes com tubulações de derivados de petróleo incendiadas.

Muitas vezes, porém, os riscos driblam todas as salvaguardas e instalam-se no lado bem-sucedido das técnicas, à espera de um momento para se manifestarem. É o caso, por exemplo, de produtos como o asbesto, que há anos é utilizado em prédios públicos nos Estados Unidos para aquecer o ambiente e diminuir os custos de calefação. Descobriu-se este ano que o asbesto desprende partículas que se instalam no pulmão e causam doenças graves. Pela extensão e gravidade, o desastre de Bhopal é o melhor exemplo. A fábrica da Union Carbide provocou a morte de mais de 2.000 indianos. Mas é justamente graças aos defensivos agrícolas produzidos com substâncias venenosas como o isocianato de metila, em boa parte, que a Índia minorou consideravelmente seu eterno problerna da fome, realizando uma verdadeira revolução verde nos campos. Ainda hoje, os ratos devoram 20% da safra indiana de grãos. Sem os pesticidas quírnicos, é de se prever que as colheitas seriam reduzidas de maneira muito mais drástica. Para equilibrar-se nessa realidade do mundo moderno, as empresas fiam-se, principalmente, nas estatísticas e, assim, decidem que porcentagem de risco é mais aceitável. Construída há sete anos, sem os dispositivos de segurança computadorizados que equipam outras subsidiárias da empresa no mundo, entre elas a do Brasil, a Union Carbide indiana lançou sobre o nome da companhia a pior das legendas: a da desconfança.

"Esperávamos crescer 15% este ano mas agora tudo parece incerto", disse o presidente da multinacional, Warren Anderson, pouco antes de embarcar para a Índia na quarta-feira. No final da semana, suas incertezas aumentaram. A unidade da Union Carbide na cidade alemã de Mildstedt foi vítima de um atentado. Dois homens jogaram bombas caseiras nas instalações, que explodiram sem causar danos, e picharam as palavras "porcos" e "envenenadores" nos muros. O próprio Anderson chegou a permanecer preso durante algumas horas em Bhopal por ordem de um juiz da cidade, enquanto o governo indiano, dono de 49% das ações da subsidiária, decidia fechar a fábrica no país. Além disso, as ações penais por danos começaram a ser propostas. Na tarde de sexta-feira, a firma de advocacia Tobin and Thompson, de Miami, pediu 15 bilhões de dólares para um cliente seu, cidadão americano nascido na Índia que teve parentes entre as vítimas do acidente. Ato contínuo à catástrofe, as ações da Union Carbide despencaram 4 pontos na Bolsa de Nova York, ocasionando perdas imediatas de 300 milhões de dólares.

INDIGNAÇÃO - "Temos condições de arcar com todas as despesas advindas do acidente em Bhopal e não nos esconderemos atrás de falências judiciais", assegurou Jackson D. Browning, diretor da Union Carbide, um dos gigantes transnacionais da indústria química, com fábricas em 37 países e um patrimônio que chega a 10 bilhões de dólares. De acordo com a empresa, a lei indiana, a exemplo da dos Estados Unidos, leva em conta para efeito de cálculo das indenizações o montante que a vítima poderia ganhar ao longo de toda a existência. Como a maioria dos mortos em Bhopal era muito pobre, a Union Carbide estima que as indenizações chegarão a no máximo 200 milhões de dólares. De toda forma, a empresa sentiu o golpe. Em sua sede em Danbury, no Estado americano de Connecticut, acionou quarenta especialistas para responder às 250 perguntas diárias da imprensa sobre suas responsabilidades no acidente. E, até que se esclareçam as causas do vazamento na subsidiária asiática, manterá fechada a usina de Institute, West Virginia, onde também se fabricava o isocianato de metila. Mais: na tarde de quinta-feira, a Union Carbide decidiu destruir todos os estoques do composto em seu poder em todas as partes do mundo onde mantém subsidiárias.

Se serviram para aplacar um pouco as investidas hostis contra a companhia, as providências tomadas pela Union Carbide não tiveram a força de impedir que uma onda de indignação atingisse os moradores de todas as cidades que convivem com indústrias químicas potencialmente perigosas. A gigantesca Bayer AIgemeine Gemeinschaft da Alemanha, que também fabrica o isocianato de metiIa, foi atacada no Parlamento por deputados do Partido Verde que exigiram seu fechamento. A empresa, no entanto, manteve-se firme na decisão de continuar fabricando o composto. Em Antuérpia, na Bélgica, e em Dormagen, às margens do Rio Reno, a apenas 80 quilômetros de Bonn, onde estão localizadas as unidades da Bayer que fabricam o isocianato de metila, houve manifestações públicas.

Duas outras gigantes do setor químico, a Du Pont e a Dow Chemical, anunciaram preparativos para rever todos os procedimentos de segurança ora em utilização em suas fábricas. "A tragédia indiana nos levou a um exame geral de nossos sistemas", reconheceu Don Gagliardi, gerente da Dow. "É preciso certeza de que estamos fazendo tudo da melhor forma possível", afirmou Ron Keel, gerente de informação da American Cyanamid, que anunciou um plano de melhoria das normas de segurança da empresa.

À ESPREITA - As ondas de choque da tragédia indiana chegaram à subsidiária brasileira da Union Carbide, em São Paulo, ainda potentes. Na terça-feira, o presidente da empresa no Brasil, Paulo Figueiredo, esclareceu que a Union Carbide e outras duas indústrias, a Elanco, de Cosinópolis, no interior de São Paulo, e a FMC, em Uberaba, Minas Gerais, limitam-se a processar o isocianato de metiIa, que não é fabricado no Brasil. Essas empresas transformarri a substância importada do exterior num pesticida de baixa toxicidade e de características biodegradáveís, os chamados carbamatos. "Foi justamente por isso que começamos a fabricar pesticidas a partir daquele composto", disse Figueiredo. No pátio da empresa encontram-se hoje 3,6 toneladas de isocianato de metila à espera de ser processadas. Baseada nos índices de acidentes de trabalho da Union Carbide, a população de Cubatão está a salvo. Há 1.309 dias não acontece um único acidente na empresa. Trata-se de um desempenho formidável no setor. Os carbamatos são os sucedâneos do DDT, banido pela Organização Mundial de Saúde (OMS) na década de 60, por ter efeito residual no organismo. Enquanto não chegou a ordem da Union Carbide americana para a destruição do estoque, sua subsidiária brasileira continuou fabricando pesticidas a partir de carbamatos.

No porto de Santos, um carregamento trazido pelo navio Lloyd Pacific, procedente de Nova York - 240 tambores de 200 litros -, foi conduzido à fábrica da Union Carbide em Cubatão, a 15 quilômetros de distância, depois de uma permanência de uma semana no cais. O vazamento de Bhopal complicou também a vida da Elanco Química S.A. Na quinta-feira, o navio Zeus, da Companhia de Navegação Netumar, fundeou na Baía de Guanabara com 68 tambores de isocianato a bordo. Como aconteceu em dezenove carregamentos anteriores, a carga deveria ser embarcada em caminhões especiais da Multi Modal Transportes Ltda., do Rio de Janeiro, e levada para Resende, onde a Cyanamid Química do Brasil processaria o composto - resultando daí uma outra substância que serve de matéria-prima para a Elanco. Na noite de quinta-feira, porém, o governador Leonel Brizola assinou um decreto proibindo transporte, estocagem e processamento da substância em território do Rio de Janeiro.

"Riscos existem em qualquer operação de transporte mas nesse caso eles sejam quase nulos", diz José Fabiano de Andrade, diretor comercial da Multi Modal Transportes. "Nossas próprias exigências de segurança ultrapassam as normas do governo." Depois de testadas com aparelhos chamados "explosímetros", que acusam os menores vazamentos, as car gas são embarcadas em caminhões acondicionadas em containers vedados. O roteiro é comunicado ao órgão de fiscalização ambiental e o comboio, precedido de um carro com batedores credenciados pelo Departamento Nacional de Estradas de Rodagern. "Além disso um caminhão do Corpo de Bombeiros segue atrás para qualquer eventualida", garante Fabiano Andrade, que nunca registrou um acidente com o produto. É de esperar que empresas ligadas à manipulação de toxinas atuem com margens de segurança extremas. E, efetivamente, os riscos são, em geral, cercados por todos os lados. Em episódios como o vazamento de dioxina em Seveso, na Itália, a poluição com mercúrio da Baía de Minamata, no Japão, e a catástrofe da Índia pode se colher evidências de que, embora trabalhando pelo progresso, as substâncias tóxicas e perigosas estão sempre à espreita, aguardando uma negligência, para espalhar morte e destruição.


 
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