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12 de outubro de 1988
O 'não' cala
a ditadura

Num dia histórico, os chilenos vão
às urnas para derrotar o regime
do general Pinochet, que agora
tem data marcada para ir embora

No começo, eles eram poucos. Chegaram de madrugada, em não mais de uma dezena de carros. Seus gritos ainda soavam tímidos. "Ganhamos, ganhamos", ensaiavam ao som das buzinas, como se quisessem se convencer da vitória e dela convencer o destinatário da mensagem, o homem encastelado a poucas centenas de metros dali num salão do Palácio de La Moneda, o ditador que comanda o Chile há quinze anos com mão de ferro, o general-presidente Augusto Pinochet. No início da manhã ensolarada de primavera da última quinta-feira, seu número aumentou. Já eram centenas. O tom da comemoração ficou mais atrevido. "Queremos La Moneda, queremos La Moneda", gritava um grupo. "Pinochet, você já vai para o Paraguai?", provocava outro.

Os carabineiros, que a princípio aceitaram flores e até trocaram abraços com manifestantes eufóricos, logo entraram em ação. O ditador estava derrotado, mas os vícios da ditadura custam a morrer. Tocados das imediações do palácio a poder de jatos d'água e granadas de gás lacrimogêneo, porém, os manifestantes levaram sua festa para a Alameda Bernardo O'Higgins, a principal avenida de Santíago. Aí eles já eram milhares. Entre uma  escaramuça e outra com a polícia, empunhando os cartazes em que a palavra no aparece estampada em preto sobre um arco-íris, eles continuaram a comemorar o dia histórico que mudou a face do Chie.

CORDA NA MÃO - Em quinze anos de sombra, não houve meio que os adversários do general Pinochet não tivessem empregado para pôr fim à ditadura iniciada com o golpe militar de 11 de setembro de 1973, que derrubou o presidente Salvador Allende. E todos eles, até a última quarta-feira, tiveram o mesmo destino: fracasso. A partir de 1983, quando a oposição começou a se recuperar da fase mais dura da repressão, a resistência inaugurou um período de greves e manifestações que se esgotaria ao cabo de três anos diante da formidável capacidade de resistência do regime. O mesmo fim tiveram as tentativas de negociar uma transição democrática, por um motivo simples: não havia com quem negociar. Até o terrorismo, consumado no atentado de setembro de 1986, do qual Pinochet escapou ileso e mais duro ainda, se mostrou inviável. Quando a primeira, a memorável vitória chegou, foi por obra da vontade da maioria do povo chileno - e de um instrumento criado pelo próprio Pinochet (ver abaixo). Segundo as regras do jogo estabelecidas pela ditadura, os chilenos compareceram às umas na quarta-feira pela primeira vez em quinze anos para se pronunciar sobre duas alternativas: o "sim", cuja vitória permitiria a Pinochet permanecer no poder até 1997, e o "não", que abre caminho à realização de eleições diretas para presidente em dezembro de 1989. O resultado, os números mágicos do dia mais importante da história recente do país, qualquer chileno sabia de cor, em todas as minúcias. Venceu o "não", com 54,68% dos votos, contra 43,04% para o "sim".

"O regime se enforcou com a própria corda", comemorou o dirigente socialista Ricardo Nuñez. A euforia, depois de tantos anos, era mais do que compreensível. Ao convocar, realizar e respeitar o plebiscito, no entanto, o ditador escolheu a corda, marcou o dia da sua subida ao patíbulo e deixou aberto o caminho para que no seu lugar como presidente do Chile venha a sentar-se um político moderado. Uma saída, nas circunstâncias, mais do que razoável. A idéia, contudo, de ver o todo-poderoso general de corda na mão manteve a oposição chilena num clima de suspense e tensão até o fim. As pesquisas de opinião feitas na fase final da campanha davam como garantida a vitória do "não", e dentro do próprio campo governista muitos já confidenciavam sua descrença numa vitória. A pergunta que se ouvia em toda a parte, porém, nas horas finais que antecederam o plebiscito era: "O que o governo vai fazer para impedir a sua derrota?"

Graças à presença de fiscais da oposição em todas as mesas eleitorais, além da multidão de observadores internacionais e de jornalistas estrangeiros, estava praticamente descartada a hipótese de uma fraude como a realizada, por exemplo, pelo então presidente Ferdinand Marcos em 1986 - com resultados catastróficos para o ditador filipino, que acabou deposto na esteira da reação popular ao embuste. As especulações, alimentadas pelo clima de alta ansiedade, concentravam-se, assim, na hipótese de Pinochet "virar a mesa", sustentando-se na ocorrência de distúrbios em larga escala ou no pretexto puro e simples de algum plano subversivo comunista. Num indício de que essa possibilidade ultrapassava o plano da tradicional e, no caso, justificada paranóia oposicionista, o embaixador chileno em Washington, Hernán Errazuriz, foi chamado na segunda-feira ao Departamento de Estado pelo subsecretário John Whitehead. De público, soube-se que Whitehead comunicou ao embaixador a preocupação do governo americano com uma possível suspensão do plebiscito, ancorada em "informações de fonte segura". Em particular, a mensagem de Washington a Pinochet provavelmente foi mais direta: segure seus radicais - àquela altura, dada a derrota do regime que se configurava, o foco mais perigoso de confusão.

SÍMBOLO DA VIOLÊNCIA - Pinochet segurou. O plebiscito foi realizado num clima impressionantemente calmo. Nenhum incidente, nenhum problema, nenhuma restrição. Por todo o país, os chilenos enfrentaram com tranqüilidade uma média de 3 horas de espera nas longas filas, e a abstenção foi muito pequena: dos 7 435 913 eleitores inscritos, votaram 7 216 391. "Depois de tantos anos, por fim o povo se expressou de forma espontânea e com muito entusiasmo", exultava Carlos Briones, ministro do Interior no governo Allende. Em Santiago, o local que recebeu o maior número de eleitores, oferecendo uma imagem poderosa da nova era iniciada no Chile, foi o Estádio Nacional, no bairro de Nuñoa, um tradicional centro de votação da capital chilena - e o mais execrado símbolo da violência sanguinária da ditadura. Depois do golpe de 1973, pelo menos 7.000 pessoas foram presas no estádio, transformado em centro de interrogatórios, torturas e assassinatos. Lá, sob a complacência do embaixador Camara Couto e do Itamaraty, morreram pelo menos dois brasileiros.

"Para mim, é absolutamente claro que o 'não' ganhou. Estamos tranqüilos. Vamos analisar a situação." Pronunciadas em tom tranqüilo, estas palavras do brigadeiro Fernando Matthei, comandante da Aeronáutica e um dos quatro integrantes da junta militar, foram o primeiro reconhecimento de derrota de Pinochet. Matthei falou pouco antes da 1 hora da madrugada de quarta para quinta-feira, ao chegar ao Palácio de La Moneda para uma reunião de cúpula do governo - a reunião da derrota. Uma hora depois, viria o reconhecimento oficial. "Acatamos os resultados que todos já conhecem", afirmou pela televisão, com expressão pétrea, o ministro do Interior, Sergio Fernández, a quem Pinochet havia atribuído, há um ano, a missão de conduzir a campanha oficial para o plebiscito. No mesmo dia, Fernández e os demais ministros apresentaram seus pedidos de renúncia coletiva. Pinochet recusou. Não se sabe o que ele fez com as desculpas oficiais da Polícia Civil chilena por ter errado nos prognósticos do plebiscito, apontando a vitória do "sim". "Talvez tenha havido falha humana", tentou justificar Ramón Silva, chefe da divisão especial da polícia, para terminar jogando a culpa nos entrevistados. "Acho que as pessoas mentiram, arrastando-nos ao equívoco."

'ELE FICA' - Entre a cúpula oposicíonista, apesar dos abraços, das comemorações emocionadas, das lágrimas, o clima era de contenção. "Nós ganhamos mas ele fica", dizia uma das frases mais repetidas na semana passada, referindo-se ao fato de que pela atual Constituição outorgada pela ditadura Pinochet só precisa convocar eleições em dezembro de 1989 e entregar o poder em março do ano seguinte. É justamente a tentativa de antecipar esses prazos e de apressar a transição que explica o tom conciliador usado ao longo da campanha pelo "não", marcada todo o tempo pela preocupação de explicar que o inimigo é Pinochet, e não os militares como um todo.

"As Forças Armadas não foram derrotadas, e temos certeza de que elas também vão escutar a voz do povo expressa através das urnas", apressou-se em declarar Ricardo Lagos, presidente do Partido Pela Democracia e uma das figuras de maior destaque, atualmente, da oposíção chilena. "É hora de acabar com tanto confronto e divisão da pátria", ecoou o democrata-cristão Patricio Aylwin, o principal dirigente do Comando pelo "não". Antes mesmo de o governo reconhecer sua derrota, Aylwin já lançara um apelo às Forças Armadas para "negociar os termos de uma mudança institucional que se materialize, o mais breve possível, na realização de eleições livres de um presidente da República e de um Congresso com poderes constituintes".

RODA DA HISTóRIA - Aylwin deu, dessa forma, o tom da nova campanha em que se lança a oposição a partir do resultado do plebiscito do dia 5. Se até recentemente se falava em negociações com as Forças Armadas para mudar a Constituição - um processo complicadíssimo pelas regras do jogo em vigor - e antecipar os prazos da transição, a ênfase agora é nesta segunda parte - para mudar tudo de uma vez. "É importante notar que a Constituição é o documento que garante que haverá eleições em novembro ou dezembro de 1989", diz o professor Alfred Stepan, diretor da Escola de Assuntos Internacionais e Negócios Públicos da Universidade Columbia, em Nova York, um dos mais qualificados especialistas em América Latina dos Estados Unidos. Na mesma linha de raciocínio, pode-se concluir que Pinochet, ao bancar o plebiscito e acatar o seu resultado, se transformou, num fino e irônico movimento da roda da História, no homem que pode garantir a transição - fora ou dentro dos prazos.

Se depender apenas de sua vontade, vai ser dentro. "Reconheço e aceito o veredicto majoritário expresso no dia de ontem pela cidadania. Respeitarei e farei respeitar este resultado", disse Pinochet em declaração à nação na noite de quinta-feira, envergando seu uniforme de gala de general, no tom de voz muito estridente que usa nos pronunciamentos públicos. Garantido o respeito à decisão popular, para alívio geral do país, o ditador colocou em sua mira as pretensões oposicionistas. "No recente plebiscito, não esteve em jogo o ideário nem o itinerário constitucional traçado, mas sim apenas a escolha da pessoa que deveria conduzir o país rumo à aplicação plena da Carta fundamental durante o próximo período presidencial", disparou Pinochet. O recado não poderia ser mais claro: a Constituição será ao pé da letra, o general não pretende encurtar seu mandato nem um dia sequer. No dia seguinte, sexta-feira, o jornal oposicionista La Epoca ostentava a seguinte mensagem: "Pinochet anuncia que fica".

PRAZO CERTO - "Ele tem um ano pela frente para pulverizar a oposição, enquanto nós ganhamos e estamos do mesmo jeito, sem instrumentos de poder." A avaliação é do sociólogo Juan Somavía, presidente do Instituto Latino-Americano de Estudos Transnacionais e um dos coordenadores da campanha pelo "não". Somavía tinha razão em se sentir frustrado - afinal, há quinze anos sem participar do jogo do poder, a oposição tem pressa de queimar etapas -, mas via apenas um lado da questão. Desde a última quarta-feira, as relações de força mudaram no Chile. O ditador continua encastelado no bunker subterrâneo de La Moneda, onde, juntamente com os outros três comandantes da junta, acumula as funções atribuídas nas democracias aos representantes eleitos do Executivo e do Legislativo. Mas agora ele já tem prazo certo para sair - 11 de março de 1990, quatro dias antes do presidente José Samey -, e a oposição chilena, perseguida, desprezada e injuriada tantas vezes por Pinochet, passou a falar do alto de 3,9 milhões de votos.

De seu lado, o general também faz as suas contas. Para vencer a ditadura, com uma diferença de 11% dos votos, a oposição precisou fazer uma frente ampla entre dezesseis partidos - tarefa fácil quando se trata de um simples voto contra ou a favor do regime e infinitamente mais complicada no caso de uma eleição regular, que comporta vários candidatos. "Devemos fazer um esforço muito grande para nos colocarmos de acordo em tomo de um candidato comum a todos os aliados na campanha do 'não'", aconselha o presidenciável Aylwin, já antecipando nas entrelinhas dificuldades dessa aliança.

Se a oposição se dividir, Pinochet tem chances de fazer um sucessor civil mais a seu gosto, escolhido entre partidos de direita que o apoiaram, como a Renovação Nacional, liderada pelo ex-ministro do Interior Sergio Onofre Jarpa, ou a Avançada Nacional, fundada por agentes da polícia política, com seus símbolos fascistas, como braçadeiras e a saudação com o braço erguido à altura do ombro. Afinal Pinochet perdeu o plebiscito mas teve expressivos 3,1 milhões de votos. "Não há no Chile força política maior do que a que apoiou o presidente Pinochet no plebiscito. A imensa maioria dos chilenos está com o presidente, pois o resto dos votos tem que ser divido por dezesseis", argumentou Femández, o ministro do Interior.

O raciocínio é torto - o voto majoritário não se dividiu entre os dezesseis partidos de oposição, e sim se uniu para aplicar um derrota na ditadura - mas Pinochet demonstrou de fato que a sua força política não pode ser menosprezada. Mais de 40% chilenos tiveram motivos suficientes para votar em Pinochet, uma proporção superior aos 36,3% de votos obtidos por Allende na eleição presidencial de setembro de 1970. "Esse país sofreu dois traumas", analisa Liliana Manh, ex-diretora do Serviço de Turismo no início do regime militar, protegida de Pinochet e uma das mais famosas "convertidas", como são conhecidas as personalidades ligadas à ditadura que se passaram para a oposição. "Houve o trauma das violações dos direitos humanos cometidas pelo regime militar. Mas é preciso não esquecer que antes houve o trauma da Unidade Popular", acrescenta, lembrando as expropriações, as ocupações de fábricas e a radicalização ideológica que marearam a última fase do governo de Salvador Allende.

RETRATO SORRIDENTE - "Se o 'não' ganhar, virá o comunismo e outra vez não vamos ter o que comer, como na época de Allende", temia Carmen Vega, uma costureira de 37 anos moradora de Peñalolen, um bairro operário de Santiago. Carmen expressou o seu receio durante o comício de encerramento da campanha pelo "sim", no dia 2, quando 200.000 pessoas saíram às ruas para manifestar apoio ao general. Ao longo de todo o dia, uma portentosa caravana de automóveis ficou rodando pela cidade, aos gritos de "Viva Chile e Pinochet". A presença dos manifestantes foi mais maciça no Barrio Alto, a parte de Santiago onde vive a população de maior poder aquisitivo, mas havia muita gente, também, do lado pobre da cidade - afinal, se só os ricos gostassem de Pinochet, um dos mitos destruídos no plebiscito, o Chile poderia ostentar um padrão de vida de fazer inveja a muito país desenvolvido. "Ninguém me pagou para vir aqui, eu vim porque quis", dizia no meio da manifestação uma mulher de aparência humilde, exibindo uma pequena bolsa com algumas moedas. "Tenho só 60 pesos para tomar o ônibus de volta para casa." No vestido, ela ostentava um broche com o retrato sorridente do ditador.

O Chile de Pinochet não pode ser procurado apenas no país próspero, de feição quase européia, que navega nas águas do atual boom econômico, o do milagre, onde quem tem recursos pode escolher entre os Volvo importados da Suécia, os Peugeot franceses, os japoneses Subam e Daihatsu e até o Lada, fabricado na União Soviética, país com qual o regime de Pinochet não mantém relações diplomáticas. As conquistas da economia - inflação de 16% ao ano, recorde nas exportações, aumento de 5,7% do PIB e até uma redução da dívida externa - foram exaustivamente explorados durante a campanha do governo para o plebiscito. Se o bom desempenho da economia, porém, garantisse a vitória nas urnas, Pinochet a esta altura estaria comemorando a sua eternização no poder e não amargando a derrota. Nesse sentido, a pancada do "não" teve sobre os focos neogolpistas que se espalham pela América Latina, passando por Brasília e Buenos Aires, onde se venera a tese de que ditatura traz apoio popular, um impacto do mesmo tamanho do golpe desfechado sobre as esquerdas do continente - via o mesmo Pinochet - em 1973.

PAPEL LEGíTIMO - Da mesma maneira, o Chile anti-Pinochet não está apenas nessa parcela da população derrotada há quinze anos - mesmo porque mais de 40% dos eleitores chilenos votaram, na semana passada, pela primeira vez em suas vidas. Para uma grande parte dos chilenos, os anos de esperança e turbulência do governo Allende são um fato da História, não da experiência pessoal, uma memória distante, evocada nos grandes murais com a fisionomia do presidente deposto que voltaram a ilustrar os muros de Santiago. Essa memória foi reavivada nos episódios carregados de emoção que marcaram o retomo dos últimos exilados, permitido por Pinochet às vésperas do plebiscito, e nenhum deles foi mais emocionante do que a volta de Hortensia, a viúva de Allende, no dia 24 de setembro.

Ao longo de vários quilômetros da estrada que liga o Aeroporto de Pudahuel a Santiago, dezenas de milhares de pessoas saudavam Hortensia com flores, palmas e cartazes. "Minha mãe voltou pela porta da frente, como sempre disse que faria", disse Isabel Allende, sua filha mais nova.

Hortensia cumpriu um programa previsível. Esteve no túmulo do marido, em Viña del Mar, onde até hoje não foi gravado o nome do presidente que se suicidou durante o golpe, visitou o líder socialista Clodomyro Almeyda na prisão, somou forças à campanha contra Pinochet. Em poucos dias, estava incorporada ao papel que lhe compete por direito - o de principal guardiã da memória de seu marido, instalada por quanto tempo lhe aprouver em seu próprio país -, não ao de viúva obrigada a viver no exílio.

PORTA DA FRENTE - O Chile vai assim reencontrando o caminho da normalidade. Não é fácil. As lembranças são amargas e as balas dos carabineiros continuam a fazer vítimas - três mortos na repressão às manifestações da semana passada, que na sexta-feira reuniram mais de 500.000 pessoas na grande festa da vitória no Parque O'Higgins. Mas agora a abertura está nas ruas. Pode ser lenta e gradual, como quer o general Pinochet. Pode queimar etapas, como reivindica a oposição. Os dois lados saíram da experiência do plebiscito com algum conhecimento a mais. A oposição constatou que podia derrotar o demônio Pinochet segundo as regras do jogo estabelecidas pelo próprio. O regime talvez tenha aprendido que não precisa acreditar em sua própria propaganda, cristalizada nos folhetos distribuídos nas escolas durante a campanha onde o "sim" era representado por uma paisagem idílica e o "não" por uma sinistra coleção de monstros.

Nem o caos se instalou no país a partir da vitória do "não" nem Pinochet virou a mesa. Assim, o próprio ditador encerrou a semana passada com algum lucro. Num continente onde qualquer governante deve sempre ter em mente alguma reviravolta que o leve a sair do palácio descalço - como o presidente peruano Femando Belaúnde Terry, deposto num golpe militar em 1968 -,  pela porta dos fundos - como João Figueiredo, em 1985 -, ou morto - como Allende, em 1973 -, Pinochet já garantiu que sai vivo - e de sapato. Poderá sair até pela porta da frente.


Um golpe contra
si mesmo, quinze
anos depois

Perguntado por um jornalista, há alguns anos, sobre a possibilidade de articular sua própria sucessão na presidência do Chile, o general Augusto Pinochet reagiu: "O senhor quer que eu seja espectador do meu próprio funeral. Eu me retiro no dia em que meu país estiver tranqüilo." Pinochet não havia mudado de idéia quando decidiu submeter-se ao plebiscito de quarta-feira passada. Foi apenas uma procura de legitimação, feita por um ditador no auge de seu poder, e que malogrou. Nem as oposições se dividiram, como os militares esperavam, nem o general conseguiu provar ter razões para a desmesurada segurança demonstrada em 1980, quando marcou o plebiscito com um simples risco de giz num quadro-negro.

Depois do golpe contra o presidente Salvador Allende, em 1973, Pinochet havia encarregado uma comissão de juristas, encabeçada por Enrique Ortúzar, de elaborar um projeto de Constituição. Só sete anos mais tarde, voltou a Ortúzar com uma série de emendas à nova Carta. Numa delas, Pinochet reservava-se um mandato de dezesseis anos. Em didática e contundente exposição, auxiliado por gráficos desenhados num quadro-negro durante uma reunião da junta militar e membros do governo, Ortúzar demonstrou que tão longo mandato só provocaria a reação popular contra Pinochet e a própria Constituição, que seria levada a plebiscito. O ditador não hesitou. Levantou-se, foi ao quadro-negro e traçou uma linha horizontal. "Muito bem, oito anos", disse ele, para em seguida traçar outra linha. "E outros oito anos. Dois mandatos. No meio, um plebiscito de ratificação." Estava pronta a armadilha que Pinochet preparou para si mesmo.

ÚLTIMO GOLPISTA - O apetite pelo poder revelou-se aos poucos no doce calor de seu usufruto. Logo após o golpe, o general chegou a mencionar um plano de rotatividade na presidência entre os membros da junta. "Não sou um homem ambicioso, não gostaria de parecer um usurpador do poder", afirmou. "Estou convencido de que ele só subiu no carro golpista no último momento", escreveu em seu diário o general Carlos Pratts, antecessor de Pinochet no comando do Exército durante o governo Allende, assassinado por agentes da ditadura em 1974, num atentado em Buenos Aires. Mais tarde, Pinochet passou a se atribuir o papel de cérebro do golpe, incentivando inclusive a divulgação de um relatório do serviço de informações sobre a crise interna chilena, encomendado por ele em janeiro de 1972, quando era comandante da guarnição de Santiago. O relatório semeou e fez germinar a idéia do golpe. Em contrapartida, as fotos em que aparece ao lado do presidente cubano Fidel Castro, ainda durante o governo Allende, sumiram de circulação no Chile.

De golpista hesitante, Pinochet se transformou em ditador cada vez mais confiante, que nunca temeu atacar inimigos e antigos aliados com a mesma mão de ferro. "Não confio em ninguém", declarou certa vez. Entretanto, o general, hoje com 72 anos, soube garantir apoio nos meios militares através da firmeza no comando e de sucessivas promoções de oficiais mais jovens. Atualmente, os mais velhos generais chilenos têm no mínimo dezoito anos a menos que ele.

PÉROLA NA GRAVATA - Em casa, Pinochet afirma-se numa intensa e obediente relação com a mulher, Lucía Hiriat, rompida apenas uma vez, quando uma jovem beldade equatoriana conseguiu desafiar a fidelidade obstinada do oficial que ainda respondia pelo apelido de criança, "Tito". Chega-se a atribuir a Lucía a ascensão de Pinochet aos altos escalões do Exército e do poder, depois de uma série de desempenhos medíocres na escola e na Academia Militar. Ele próprio contou: "Uma noite minha mulher me levou ao quarto onde dormiam meus netos e me disse que eles seriam escravos se eu não fosse capaz de tomar uma decisão." Teria sido esse o estopim para que o general chamasse a si o papel de paladino contra o comunismo - uma de suas obsessões e de seu ídolo maior, o falecido ator americano John Wayne - e desfechasse o golpe contra Allende.

Pinochet sempre cercou-se de mulheres - sua mãe primeiro, depois Lucía, as netas e até uma "mentalista", a italiana Eugenia Pirzio Birolli, a quem atribui poderes sobrenaturais, premiada com a prefeitura da cidade de Puerto Cisnes. Como católico que se proclama fervoroso, Pinochet tem por padroeira Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, cuja imagem diz ter divisado nas marcas de balas deixadas pelas metralhadoras que atingiram seu carro no atentado que sofreu em setembro de 1986. Outro de seus traços característicos é a vaidade - talvez a explicação para o apego ao poder, do qual nunca tirou vantagens financeiras. Nos comícios pré-plebiscito, quando levou ao máximo seu namoro com o populismo, ele comparecia cuidadosamente vestido com sua indumentária de civil, que inclui um anacrônico alfinete de pérola espetado em gravatas de crochê que adornam camisas listradas. No entanto, nem a vaidade nem a superstição o ajudaram. Obcecado pelo número 5, Pinochet quis que o plebiscito fosse no dia 5. Em vão.


 
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