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12 de agosto de 1987
Ilha da felicidade
Com o pé no governo e a mão no bolso
do contribuinte, os marajás formam uma
casta em que alguns chegam a faturar
700 000 cruzados por mês
Nos anos 40, antes de a Índia conquistar
sua independência, popularizou-se no Brasil a expressão
"marajá", que designava aqueles príncipes
riquíssimos que passeavam em poltronas de prata no alto dos
elefantes, moravam em palácios cravejados de pedras preciosas
e dispunham de um séquito de escravos à sua volta.
Do jeito que vão as coisas, dentro de poucos anos poderá
ocorrer uma mudança surpreendente. Na Índia, onde
essa nobreza milionária é uma espécie em extinção,
as pessoas acabarão descobrindo que o verdadeiro país
dos marajás é o Brasil atual. "Esse caso já
se transformou numa tragédia nacional", afirma o governador
Fernando Collor de Melo, de Alagoas. "Estamos chegando ao limite
da explosão", diz o senador Roberto Campos (PDS-MT).
"Oprimido, o contribuinte já não agüenta
mais sustentar as contas do marajaísmo."
Num país onde se conhecem melhor
os marajás de filmes como Simbad, o Marujo do que os príncipes
que dominavam a Índia antes da II Guerra Mundial, o produto
nacional acumula um conjunto de peculiaridades -- antigas e modernas.
Sobrevive na carcaça de um mamute, esse gigantesco ancestral
dos elefantes, a máquina do governo. Só usa turbante
no Carnaval, nem sempre ostenta a riqueza que possui -- e faz o
possível para manter os números de seus contracheques
em segredo. A maior semelhança entre os marajás do
Oriente e aqueles que se aninham na administração
pública, porém, está no meio ambiente que freqüentam.
A Índia, que lentamente caminha para transformá-los
em figuras de museu e atração turística de
festas folclóricas, é um lugar onde o salário
mínimo está fixado em 340 dólares -- sete vezes
mais do que no Brasil, onde os marajás florescem. Em regiões
miseráveis como o Território de Roraima, onde boa
parte da população sobrevive da caça e da pesca,
foram localizados dez marajás abrigados na máquina
do governo que, todos os meses, sugam 450 000 cruzados do bolso
dos contribuintes -- em Mato Grosso, cerca de meia dúzia
já alcança os 500 000 cruzados mensais. "No quadro
de penúria do país, os marajás até ofendem
os brios de uma pessoa", afirma o deputado José de Arimatéia
(PMDB-MT). Na realidade, eles são muito mais o símbolo
de uma administração pública anacrônica
do que demônios mal-intencionados na busca insaciável
de luxo e riqueza.
Elite de Vadios -- Embora o salário
gordo seja o sinal mais reluzente de sua condição,
a verdade é que nem todos são milionários.
Nessa família, em que a carteira de trabalho é sempre
assinada pelo Estado e o posto público um arranjo do chefe
político, há uma imensa maioria de pessoas que ganha
pouco mas não trabalha e uma pequena elite de vadios que
fatura alto - para não fazer nada. As anomalias cultivadas
pela administração pública resultam na formação
de duas linhagens de aproveitadores: aqueles que ganham muito e
trabalham pouco e aqueles que aceitam ganhar moderadamente desde
que não tenham que fazer nada. Pagando a conta, ficam o contribuinte
e dezenas de milhares de funcionários que trabalham, são
malvistos e mal pagos. Às voltas com uma contabilidade no
vermelho desde sua posse, o governador Orestes Quércia, de
São Paulo, dispõe de uma lista em que se registram
os 1 000 maiores vencimentos pagos pelo Estado -- desses, dez altos
funcionários estão na faixa dos 700 000 cruzados mensais,
100 recebem entre 400 000 e 700 000 e os demais entre 200 000 e
400 000 cruzados. Num detalhe que acentua o clima de fantasia no
qual são tocados os negócios públicos, o salário
número 2 do Estado pertence a um figurão do governo
que te cadeira cativa no Palácio dos Bandeirantes e que,
numa segunda ironia, tem a missão de vigiar os interesses
dos contribuintes -- é o secretário Paulo Salvador
Frontini, 50 anos, procurador aposentado, titular de uma pasta intitulada
Defesa do Consumidor. "Não ganho tanto assim",
defende-se Frontini, que, convidado a exibir os contracheques de
seus vencimentos, preferiu mantê-los guardados no bolso. Frontini
embolsa algo em torno de 700 000 cruzados para defender pelo menos
um consumidor: ele próprio.
Mas, se a lista em poder do governador
Orestes Quércia contém surpresas, como os vencimentos
do ex-promotor Hélio Bicudo, figurão do PT, que ali
consta com um rendimento total de 360 000 cruzados por mês,
ou vinte vezes o ordenado de um metalúrgico onde sua legenda
costuma buscar votos, a maioria dos marajás impressiona pela
rotina mansa -- mais do que pelos salários polpudos. Ex-sapateiro,
Arthur Cavalcanti Aguiar, 53 anos, dispõe de dois empregos
em Belo Horizonte, onde mora, e a cada trinta dias recebe 105 000
cruzados. Num deles, é vice-presidente da Prodabel, empresa
de processamento de dados da prefeitura da capital mineira -- no
outro, despacha na ante-sala do gabinete do prefeito Sérgio
Ferrara, do PMDB. Na Prodabel, seus vencimentos são de 90
000 cruzados mensais, e Cavalcanti Aguiar aparece tão pouco
na empresa que até costuma dizer que não trabalha
ali. Na prefeitura, tem direito a uma retirada mensal de 15 000
cruzados. Ali, pode ser visto diariamente -- oferece cafezinho e
água gelada a quem espera uma audiência com Ferrara.
"Recebo os convidados e vejo se vale a pena incomodar o prefeito",
explica Cavalcanti Aguiar, referindo-se a sua jornada de trabalho.
Quando o Estado paga 105 000 cruzados a um servente de café,
há algo de errado na sua máquina.
Direito de Ladrões -- No
entanto, a recente onda de horror aos marajás, deixando de
lado a doença estrutural da administração pública,
pode levar a erros. Como, por exemplo, confundir um salário
alto -- e adequado -- com marajanato. Assim, o mais alto vencimento
da Câmara dos Deputados, em Brasília, não pertence
a nenhum constituinte, mas a Paulo Afonso Martins de Oliveira, há
trinta anos na casa. Vista de longe, sua retirada mensal causa alvoroço:
307 000 cruzados, dinheiro bom tanto em Calcutá como em Manhattan.
Visto de perto, no entanto, Paulo Afonso é o exemplo acabado
do funcionário bem-sucedido. Há várias décadas
que o Congresso muda de dono e de legenda majoritária, mas
todas as lideranças sabem que, no dia em que Paulo Afonso
sair de seu lugar, a casa pára de funcionar -- porque não
há ninguém, em Brasília ou fora dali, capaz
de mover-se pelas normas, regimentos e outras regras indecifráveis
que mantêm a rotina da Câmara. "Quem resolve tudo
por aqui é o Paulo Afonso", afirma Lula, presidente
do PT -- referindo-se a uma autoridade capaz de zelar tanto pelas
máquinas xerox dos gabinetes onde os deputados preparam seus
discursos como pela distribuição de passagens aéreas.
"O problema do marajá é
esse", afirma o deputado estadual Waldir Trigo, do PMDB paulista.
"Muitos deles são tão competentes que, se um
partido não contar com pelo menos um em sua assessoria, acaba
sendo passado para trás nos debates em plenário. Há
casos de políticos que não sabem sequer colocar uma
questão de ordem." Na raiz dos grandes marajás,
aqueles que ganham uma fortuna mensal e nem sequer comparecem ao
local de trabalho, no entanto, há um adubo envenenado. Na
Índia do século XIX, os marajás eram um produto
da sociedade local e, desse modo, eram capazes até de fazer
oposição aos governantes de plantão, como ocorreu
com a dinastia de Jaipur, uma das mais ricas entre as 600 famílias
nobres daquele país -- e que hoje sobrevive graças
a transformação de seus palácios em hotéis
de turismo. No Brasil, os marajás são bastardos do
Estado, não sobrevivem à distância de nenhum
governo e, do ponto de vista da moral e dos costumes do país,
chegam a ser um caso de polícia. "São ladrões
com direito adquirido", define o advogado Antonio Roberto Sandoval
Filho.
"Os marajás são fruto
do processo de impunidade que se estabeleceu no país"
, afirma o deputado Alceni Guerra (PFL-PR). "Com todos os seus
casuísmos, a ditadura permitiu que eles surgissem por todas
as partes." O raciocínio, sem dúvida, é
correto -- mesmo porque o regime de 1964 deu origem aos lendários
coronéis da reserva, que engordam as folhas das estatais
com seus altos salários. Dois anos depois da posse do presidente
José Sarney no Planalto, no entanto, os entulhos do regime
finado já se tomaram uma questão anacrônica.
A grande tragédia, no caso dos marajás, chama-se PMDB
e, mais precisamente, Ulysses Guimarães. Ao longo de vinte
anos, a locomotiva da oposição animou a opinião
pública com uma promessa de austeridade na condução
dos negócios do governo, mas, desde que desembarcou em Brasília,
mudou de rumo. Ulysses ganhou uma casa no lago, e o contribuinte,
escandalizado com os altos salários que são tungados
de seu bolso, perdeu Ulysses, a voz mais poderosa que já
houve, neste país, na denúncia da corrupção
e da mordomia.
"Vamos acabar com tudo isso",
prometia o Ulysses oposicionista de apenas três anos atrás,
no calor dos comícios por eleições diretas
para presidente -- capazes de reunir a maior audiência que
os políticos jamais tiveram na História do país.
Hoje situacionista, Ulysses comanda uma legenda que não desempregou
os marajás antigos -- e ainda abriu vagas para os recém-chegados.
No Ministério da Previdência Social, por exemplo, o
titular da pasta, ministro Raphael de Almeida Magalhães,
assinou a compra de 328 apartamentos de luxo, em Brasília,
onde irão morar os marajás do órgão
que cuida da saúde pública e das aposentadorias do
país -- no qual o assalariado é submetido a um tratamento
de barnabé. Nos governos estaduais, onde o PMDB chefia 22
dos 23 palácios disponíveis, o quadro é dramático,
também.
Austeridade e Bonança --
"A cada dia que passa, o PMDB joga fora uma de suas promessas
de palanque", afirma o deputado Arnaldo Faria de Sá
(PTB-SP). "Dentro de um mês, já não sobrará
nenhuma." Eleito com um discurso em que anunciava a mudança,
o governador Waldir Pires, da Bahia, mantém um marajá
a poucos metros de sua mesa de trabalho. É o secretário
Raymundo Vasconcelos, da Administração. Todos os dias,
Vasconcelos cuida da folha de pagamentos do Estado, da qual já
demitiu 5 700 pessoas, e também estuda novas medidas de austeridade.
Ao fim de cada mês, no entanto, o secretário recolhe
sua própria bonança, formada por uma aposentadoria,
paga pelo Tribunal de Contas do Estado, e pelo ordenado do primeiro
escalão do governo: no total, seus vencimentos são
estimados em 330 000 cruzados. No Palácio da Liberdade, sede
do governo de Minas Gerais, a situação também
é confortável para o primeiro escalão, montado
pelo governador Newton Cardoso.
Fantasma que voltou a povoar o cotidiano
dos consumidores desde que o Plano Cruzado desmoronou, a inflação
deixou de ser um problema para os secretários de governo
-- ali, ganha-se em OTN, tabela que faz o dinheiro crescer a cada
final de mês. Além de seu próprio ordenado,
fixado em tomo de 100 000 cruzados mensais, cada secretário
tem direito a uma verba especial, intitulada "eventuais de
gabinete", fixada em 600 OTN -- bolada que, na semana passada,
alcançava a soma de 226 000 cruzados. Há quatro secretários
que estão num patamar ainda mais alto, porém. É
um grupo de deputados estaduais que Newton Cardoso recrutou para
o governo. Eles acumulam os vencimentos que recebem na Assembléia
Legislativa, onde o último gatilho despachou os salários
dos parlamentares para 202 000 cruzados, com o dinheiro que chega
em OTN. Resultado: cada fim de mês, voltam para casa com um
pacote superior a 420 000 cruzados no bolso. "O que eu ganho
é suficiente", admite um deles, Eurípedes Craide.
"Os outros é que ganham mal."
"Para acabar com os marajás
é preciso ter coragem", afirma Maurício Pádua
(PMDB-MG). "A mesma parcela da classe política que os
utiliza para manter seus afilhados impede que sejam extirpados",
denuncia o deputado. As dificuldades, no caso, são bem antigas.
Há 22 anos, quando era ministro do Planejamento e batalhava
para enxugar os gastos do governo com funcionários ociosos,
o então ministro do Planejamento, Roberto Campos, chocou-se
com um muro de cimento -- em vez de diminuir o quadro de servidores
inúteis, o regime de 1964 promoveu contratações
em massa, convocando para a folha de pagamentos da administração
um conjunto de 200 000 servidores que até hoje não
sabem ler nem escrever direito. Vez por outra, os governantes que
enfrentam problemas de caixa anunciam uma caçada aos elefantes
dos marajás, mas, até agora, a colheita tem sido invariavelmente
magra, seja por falta de pontaria, seja porque a pólvora
estava molhada. No lance mais espetacular, no apogeu da recessão
de 1983, o presidente João Figueiredo chegou a assinar um
decreto, o de número 2036, proibindo, nas cinco linhas do
artigo 1.º, que qualquer servidor público acumulasse
vencimentos superiores aos da autoridade número 1 do país
-- ele próprio. Bombástica, meses depois a determinação
se transformaria numa das muitas anedotas do final do governo Figueiredo,
até cair no esquecimento. Com todas as despesas pagas pelo
erário, um presidente da República dispõe de
um salário módico. O do presidente José Sarney,
por exemplo, é de 55 000 cruzados. Suas despesas são
incalculáveis, no entanto. Uma estimativa modesta, feita
por um assessor do Planalto, projeta que Sarney, responsável
pela implantação de um padrão franciscano no
Palácio da Alvorada, consuma 500 000 cruzados mensais.
"Se você quiser demolir a Avenida
Rio Branco, pode tocar a obra sem maiores problemas", costuma
dizer o ex-governador Chagas Freitas, do Rio de Janeiro. "Mas
se isso envolver um cargo em comissão não consegue
mexer num bueiro." Escondidos entre os 2 milhões de
empregos nas mãos do governo federal, e outros milhões
espalhados pelos Estados, os marajás abrigam-se em ninhos
bem protegidos -- e sentem-se à vontade no ambiente de ar
refrigerado das empresas estatais.
Capazes de, simultaneamente, efetuar um
ataque de conjunto contra o bolso do contribuinte que paga suas
tarifas e ainda realizar uma surda concorrência entre si,
as estatais desenvolveram a ecologia ideal para a produção
de marajás -- como numa linha de montagem. Há casos
como o das empresas de energia elétrica, que, por um decreto
conhecido pela sigla R.G.G., que quer dizer Reserva Global de Garantia,
são obrigadas a repassar a r caixa do governo todo o lucro
superior a 10% de seus investimentos. Interessados em aumentar seu
próprio poderio e prestígio, no entanto, os chefes
dessas companhias fazem o possível para manter seus custos
acima de um determinado patamar. E por essa via, cheia de manhas
e artes inventadas, que a proteção aos marajás,
comumente vistos como indivíduos inescrupulosos que só
pensam em si próprios, acaba interessando às estatais
-- que relutam em despedi-los e, freqüentemente, travam uma
dura batalha para engordá-los. Nos últimos anos, a
Companhia Energética de São Paulo, por exemplo, empresa
encarregada de construir usinas hidrelétricas, colocou de
pé um conjunto de departamentos de pesquisa que cuidam do
carvão vegetal, da turfa, do metanol e da energia nuclear,
de pouca valia na hora em que o consumidor aperta o botão
para acender a luz de sua sala de visitas. "Eles têm
um andar inteiro só para cuidar de energia nuclear",
afirma um graúdo funcionário do Ministério
das Minas e Energia, em Brasília. "Só que esse
problema nem de longe é de sua área."
"Nada Fiz de Ilegal" --
Mesmo capazes de irritar a população pela extensão
de suas mordomias, os marajás são, obviamente, pessoas
de sorte. Vez por outra, no entanto, um deles enfrenta seu dia negro.
Isso é raro mas, mesmo entre gente que fatura mais de 500
000 cruzados por mês, pode acontecer. Instalado no Senado
Federal por um pistolão de grosso calibre, um casal de antigos
funcionários da casa, Virgínia e Luiz Antonio Laranja,
arquitetou um dos sonhos dourados da categoria -- uma carreira internacional
por conta do contribuinte. Sem enfrentar nenhum teste de seleção,
a família Laranja, que mal balbuciava palavras como yes,
no e good morning, embarcou para os Estados Unidos, quatro anos
atrás, com uma bolsa de 5 000 dólares, ou 300 000
cruzados em dinheiro de hoje.
Em tese, ambos deveriam estudar na Universidade
de Nova York, em Albany -- mas aí começaram os problemas.
Incapazes de conseguir uma matrícula pelas vias normais,
ambos foram acusados de falsificar documentos para assistir às
aulas. Mais tarde, enfrentariam um novo drama, pois, além
de tudo, eram maus alunos. Num caso que se tomou rumoroso, foram
obrigados a retomar ao Brasil antes da hora prevista, mas mesmo
assim o passeio teve lá suas delícias -- tanto que
conseguiram desembarcar uma mudança de 4,5 toneladas. Descobertos
aplicando uma fraude de largas proporções, Luiz Antonio
e Virgínia chegaram a responder a um processo por falsidade
ideológica e acabaram suspensos por noventa dias -- e raras
vezes, na vida de um marajá, a sorte pareceu ter mudado assim
tão de repente. Tratava-se, no entanto, de uma falsa impressão.
Ao contrário do que ocorre na vida
dos cidadãos comuns, onde os processos, em geral, são
a causa de muita dor de cabeça, quando se abre um inquérito
contra os marajás o resultado é tão previsível
quanto a multiplicação de seus salários --
o caso nunca leva a nada de muito sério. "Você
já viu algum deles sendo brigado a devolver o dinheiro público?",
questiona o deputado Alceni Guerra. Luiz Antonio e Virgínia
não chegaram a tanto. No mês retrasado estavam de volta
seus empregos no Senado, onde Virgínia dá um folgado
expediente no 17.º andar do edifício chamado Anexo 1,
e Luiz Antonio, na garagem do Bloco C. Juntos, ambos recebem uma
renda familiar estimada em 120 000 cruzados. Quanto ao turismo nos
EUA, ficou uma lembrança amarga. "Já tive muito
aborrecimento por causa disso", diz Luiz Antonio Laranja. "Além
do mais, nada fiz de ilegal." Reside nessa camada da geologia
social do país, onde a terra fofa da legalidade dá
a impressão de se misturar com o barro da imoralidade, a
moradia obrigatória dos marajás, esses seres que,
em sua árvore genealógica, misturam lições
importadas de vários países. Para o cálculo
de seu salário, utiliza-se de uma legítima matemática
das arábias, onde os aumentos, reajustes, gratificações
e recompensas variadas passam por várias multiplicações
entre si, de tal forma que um oficial da PM, cujo soldo é
inferior a 100 000 cruzados, tem vencimentos acima de 550 000, como
acontece com o chefe da Casa Militar do governo de São Paulo,
o coronel Theseo Bueno de Toledo. Na defesa de seus interesses,
os marajás são duros como a nomenklatura que governa
os países comunistas - a tal ponto que, se mais da metade
de todo o funcionalismo sobrevive com magros salários de
até 5 000 cruzados mensais, os 10% mais remunerados consomem
um terço das folhas de pagamento. Por qualquer lado que sejam
examinados, porém, os mesmos marajás podem dar origem
a vários escândalos, mas sempre estão sob proteção
das leis em vigor no país -- ou de decisões judiciais
que os favoreceram.
Cadeiras Vazias -- "É
natural que todo mundo queira ganhar o máximo que a lei permite",
afirma Adyara Sproesser, 59 anos, chefe da Assessoria Técnica
da Mesa da Assembléia Legislativa de São Paulo, titular
de vencimentos superiores a 400 000 cruzados a cada mês. Também
há marajás que recebem 420 000 cruzados por mês
e garantem embolsar apenas 15000 cruzados, reservando o dinheiro
restante para obras de seu gabinete, como ocorre com o mineiro Tancredo
Naves, secretário de Esporte, Lazer e Turismo. Nesse mundo
exótico, ocorrem fatos estranhos -- como o de empregados
do serviço público que, encarregados de elaborar as
leis que regulamentam a vida dos cidadãos, também
elaboram a legislação em vigor para si próprios.
No início deste ano, em Santa Catarina, os juízes
do Tribunal de Contas do Estado tomaram uma resolução
em menos de um minuto -- um acréscimo de 55% nos vencimentos,
a título de auxílio moradia e ajuda de transportes,
inclusive para aqueles que têm residência fixa em Florianópolis.
"Admito, até, que a decisão
possa não ser justa, mas é um direito que temos",
afirmou o presidente do tribunal, Octavio Pedro Ramos. No Tribunal
de Contas do Paraná, o governador Álvaro Dias trava
uma luta dolorosa contra uma norma de 1981 que permite uma aposentadoria
precoce -- os juízes podem somar até quinze anos de
serviço no setor privado para ter direito às pensões
do governo, sem a perda de nenhuma vantagem. Num conflito pesado,
que ainda não se resolveu, há um grupo de aposentados
chamados de volta ao trabalho, outro de demitidos que não
querem perder a vaga e, como quadro dramático dessa confusão,
as sessões do Tribunal de Contas daquele Estado são
realizadas com uma equipe desfalcada -- e cadeiras vazias.
Caricatura mais grotesca de uma situação
que tem, na outra ponta da linha, um funcionalismo submetido a um
longo achatamento salarial, os marajás compõem um
problema que diz respeito, em sua natureza, à estrutura global
dos serviços públicos do país - mais do que
à disposição de um grupo de indivíduos
para reforçar seus próprios salários ou à
vontade dos governantes. Nos anos 70, quando resolveu fechar o Asilo
dos Voluntários da Pátria, destinado aos remanescentes
da Guerra do Paraguai, o presidente Emesto Geisel travou um combate
de meses com seu ministro do Exército, general Sylvio Frota
-- e só conseguiu dobrá-lo sob a ameaça de
que não assinaria qualquer outro despacho enquanto não
recebesse o ofício. A estrutura do Estado, no país,
tem uma face conservadora e rígida e outro lado, que é
seu oposto. Quando ocupava a Presidência da República,
o marechal Castello Branco descobriu que seu irmão, Cândido
Castello Branco, ganhara um carro de presente de um grupo de fiscais
de renda -- empolgados com a aprovação de uma lei
que os favorecia. Castello ordenou ao irmão que devolvesse
o automóvel. Inconformado, Cândido lhe apresentou um
argumento matemático: se, em vez de somar suas economias,
os mesmos fiscais tivessem lhe dado, cada um, uma gravata, teriam
gastado o mesmo dinheiro -- e ele teria uma coleção
do mesmo valor que um carro zero quilômetro. Duro, o presidente
dobrou o irmão com um aviso: se não devolvesse o carro,
seria preso.
O Rei e o Povo -- Às voltas
com orçamentos minguados, os governadores do PMDB inauguraram
seus mandatos anunciando uma campanha nacional contra os marajás
-- tão dolorosos, pelo que sugam do contribuinte, como assustadores,
como fisionomia de um aparelho que governa país. Trata-se
de um desafio de proporções colossais, em que se colheram
parcos resultados, até agora, como em Alagoas, onde seus
pagamentos foram cortados em mais da metade, ou em Aracaju, onde
obscuras funcionárias, como Ilka Vieira, 100 000 cruzados
por mês -- estima-se poderia ganhar 150% a mais do que isso.
Intocáveis, os marajás continuam em sua caminhada
milionária pelo país, à espera de menos discursos
moralizantes e mais providências efetivas. Silenciosos e bem
situados, deixam, atrás de si, um recado para a população,
que os odeia, e para os governantes, que os toleram -- mensagem
idêntica à que o poeta Luís de Camões
registrou em Os Lusíadas, relatando a bem-sucedida expedição
de Vasco da Gama na qual os marajás da Índia foram
avistados pela primeira vez. "Leis em favor do Rei se estabelecem",
escreveu Camões, num diálogo entre Vênus e Cupido.
"As em favor do povo só perecem."
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