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12 de junho de 1985
A exumação do enigma

O mistério do caso Mengele
pode estar chegando ao fim

O último capítulo de um mistério que já dura quarenta anos pode ter sido exumado na quarta-feira passada no modesto cemitério do Rosário, na cidade de Embu, a 27 quilômetros de São Paulo. Ali jaziam, desde 8 de fevereiro de 1979, os restos de um homem que um casal de austríacos residente em São Paulo jura ser Josef Mengele, o célebre médico nazista que entre 1943 e 1945 comandou, no campo de concentração de Auschwitz, pavorosas experiências que lhe valeram o apelido de "Anjo da Morte" e fizeram dele o criminoso de guerra mais procurado em todo o mundo nos últimos anos. Os indícios de que a trajetória de Mengele terminou na sepultura número 321 do cemitério do Embu são decididamente fortes. Caso se comprove que não é dele o cadáver, a ativa e discreta rede de proteção aos foragidos nazistas, que há quatro décadas os esconde e ajuda, terá montado a maior, mais arrojada e mais minuciosa operação de despistamento já desencadeada desde o fim da II Guerra Mundial.

No final da semana, colocado no centro da curiosidade mundial, o enigma exumado no Embu - um monte de ossos enegrecidos, mechas de cabelos e sete dentes - encontrava-se numa caixa lacrada, protegida por gradis, no Instituto Médico Legal de São Paulo. Até a última semana deste mês, especialistas do IML tentarão colher provas suficientes para identificar os restos como pertencentes ao alemão Josef Mengele, nascido a 16 de março de 1911 em Günzburg, na Baviera - a origem de uma biografia que nas décadas seguintes incorporaria espetaculares histórias de horror e mistério. Os técnicos do IML têm como trunfo principal os quatro dentes que restaram da arcada superior, sustentados por uma prótese, e outros três da arcada inferior, um dos quais com uma obturação aparentemente em ouro. Se a confrontação entre esses dentes e uma ficha dentária de Josef Mengele feita na Alemanha e datada de 1938 não levar a resultados conclusivos, haverá a alternativa da ossada, sempre uma boa fonte de revelações quando submetida a exames minuciosos. Ainda que os trabalhos do IML resultem inúteis, é improvável que o cadáver permaneça sem identificação. Na sexta-feira passada, médicos legistas da Alemanha e dos EUA informaram que, nesses países, aparelhagens moderníssimas têm plenas condições de desvendar o enigma do Embu. Assim, o mundo parece prestes a saber se afinal terminou a mais longa caçada jamais empreendida contra um criminoso nazista - pelas autoridades da própria Alemanha, em primeiro lugar, e de todos os países que, como o Brasil, mantêm o compromisso de extraditar-lhe os autores de crimes cometidos durante a era de Adolf Hitler.

BUSCA PROVEITOSA - Até o final da semana passada, havia à disposição das autoridades uma extensa coleção de fatos concretos e incontroversos. O primeiro deles ocorreu em maio deste ano, quando um professor universitário alemão repassou à polícia da Alemanha confidências feitas a ele por Hans Sedlmeier, ex-procurador da empresa de máquinas agrícolas que dois sobrinhos de Mengele têm em Günzburg. Segundo o informante, Sedlmeier se gabara de ter providenciado, em anos anteriores, uma vultosa ajuda financeira a Josef Mengele. A polícia alemã mantinha Sedlmeier em observação desde 1960, quando ficou comprovado que ele se encontrara no Paraguai com Mengele - àquela altura um colecionador de furtivas passagens por outros pontos do planeta. Decidiu-se promover mais uma busca na casa de Sedlmeier em Günzburg no último dia 31 de maio. Desta vez, ao contrário das ocasiões anteriores, a investida foi proveitosa. Foram apreendidas algumas cartas do próprio Mengele, duas delas remetidas por um casal de austríacos, Wolfram e Liselotte Bossert, que vivia em São Paulo. Ficou evidente, pelo conteúdo das cartas, que os Bossert sabiam onde estava Mengele. Sedlmeier foi preso e, no mesmo dia 31 de maio, a informação foi transmitida pelos policiais alemães para o gabinete do delegado Romeu Tuma, superintendente da Polícia Federal em São Paulo, acompanhada pelo endereço do casal austríaco: Rua Missouri, número 7, no Brooklin, um bairro de classe média tradicionalmente favorecido por estrangeiros.

Até quarta-feira passada, policiais paulistas vigiaram o sobrado dos Bossert, que moravam em companhia de dois filhos, e seus movimentos. Nesse dia, quando três agentes da polícia alemã já voavam rumo a São Paulo para participar das investigações, a casa foi invadida. Liselotte, embora inquieta, não pareceu surpresa. Em meio a uma crise de choro, disse que ela e o marido haviam acobertado Josef Mengele em São Paulo entre 1970 e 1979, quando o fugitivo morreu afogado durante uma curta temporada de verão numa praia de Bertioga, no Litoral Norte do Estado. Nas horas seguintes, Wolfram e Liselotte contaram à Polícia Federal uma história que, indiscutivelmente, tem começo, meio e fim.

HÓSPEDE NO SÍTIO - Nessa história, Wolfram Bossert, um ex-cabo do Exército nazista que mora no Brasil desde 1952, foi apresentado a Mengele em 1970 num sítio no município de Caieiras, a 30 quilômetros de São Paulo, por Wolfgang Gerhard, um compatriota austríaco que chegara ao país quatro anos depois do fim da II Guerra Mundial. Gerhard apresentou-o a Bossert como "Peter Gerhard", um viúvo que estava sendo perseguido por motivos políticos e saíra poucos meses antes do Paraguai, onde vivia escondido desde 1959. Precisava, explicou Gerhard, da ajuda de amigos. Bossert aceitou o pedido. Na semana passada, ele disse à Polícia Federal que preferiu "não fazer perguntas". Nem haveria necessidade de fazê-las para saber que tipo de pessoa estava ajudando - em 1970, alemães com mais de 45 anos de idade só poderiam ser perseguidos por motivos políticos se fossem criminosos nazistas.

Não há dúvida de que alguns amigos efetivamente ajudaram o fugitivo. Entre 1969 e 1974, "Peter", ou "seu Pedro", viveu como hóspede no sítio de Caieiras em que fora apresentado a Wolfram Bossert. O sítio, de 5 hectares, pertencia ao imigrante húngaro Gesa Stammer, que prestava serviços como topógrafo à prefeitura do município e ali morava em companhia da mulher, Gittara. Na semana passada, Luiz Carlos Luz, 36 anos, comerciante em Caieiras, contou que nessa época costumava freqüentar o sítio a convite de seus amigos Miklus e Peter Stammer, filhos de Gesa e hoje oficiais da Marinha brasileira. "Foi então que conheci um estrangeiro com cerca de 60 anos, cabelos e bigodes brancos, robusto", lembra Luz.

O comerciante notou que se tratava de um homem de pouca conversa - até porque praticamente ignorava o português. "Nas raras vezes em que falou comigo, não consegui entender", diz Luz. O hóspede dos Stammer, costumava usar um grande chapéu de palha e exibir uma barba de alguns dias. Calçava botas de cano comprido e passava a maior parte do tempo entretido em trabalhos de jardinagem. Já nessa época o discretíssimo Pedro freqüentava o sobrado do casal Bossert na Rua Missouri, onde consumia horas a fio em conversas sobre os velhos tempos, sem tocar em assuntos ligados à guerra, ou ouvindo discos de músicas alemãs. Em 1974, os Stammer venderam o sítio em Caieiras e Pedro transferiu-se para uma casa encravada num terreno de 1.000 metros quadrados na Estrada do Alvarenga, 5773, perto da Represa Billings. A casa pertencente aos Bossert tem dois quartos, sala, saleta, cozinha e banheiro. Hoje, suas paredes estão descascadas pelo abandono e o mato tomou conta do quintal.

MORADIA GRATUITA - Wolfram Bossert, técnico em mecânica desempregado, e sua mulher, Liselotte, então professora do Colégio Humboldt, em Santo Amaro, muito procurado por imigrantes alemães com filhos em idade escolar, compõem um típico casal de classe média - e é certo que casais nessa faixa não costumam ceder moradias gratuitamente mesmo aos melhores amigos. Pedro, todavia, pôde alojar-se na Estrada do Alvarenga sem pagar aluguéis, embora haja evidências de que não lhe faltava dinheiro. "Ele me pagava um bom salário e chegou a me fazer empréstimos algumas vezes", conta Elza Gulpian de Oliveira, 34 anos, que foi sua empregada doméstica em 1977 e 1978. "Era um homem bastante atencioso e amigo de todos, inclusive dos empregados." Em certa ocasião, documentada por uma fotografia recolhida pela Polícia Federal na semana passada, Pedro levou para jantar num restaurante em Santo Amaro a empregada Elza, Dalva Vigerelli, que lhe prestava serviços como costureira, e um amigo de Dalva.

Celebrações desse gênero eram, contudo, raríssimas - o morador do número 5773 da Estrada do Alvarenga, cujas contas de luz vinham em nome não de "Peter Gerhard", como fora inicialmente apresentado, mas de "Pedro Stammer", em um homem de hábitos rígidos e morno cotidiano. Acordava às 8 horas, dava longos passeios pelas cercanias, fazia pequenos consertos na casa, cuidava do jardim e saía para compras modestas, sempre de ônibus e trajando terno e gravata. Uma vez, com amigos, fez um passeio pela região de Itatiaia. Ouvia muita música clássica, sobretudo sinfonias de Beethoven, escrevia cartas e demorava-se em anotações no livro Die Evolution der Organismen, de Gerhard Heberer. Nas margens das páginas do livro, que traça um paralelo entre a visão do Gênese segundo a Bíblia e a visão do darwinismo, fazia observações vagamente filosóficas em alemão e as traduzia para uma mistura de palavras em espanhol e português.

Pedro contentava-se em almoçar pratos simples da cozinha brasileira e substituir o jantar por saladas de frutas, mas não gostava de falhas funcionais: numa espécie de diário, em meio a observações banais sobre como fora seu dia-a-dia, anotava os erros eventualmente cometidos pelos empregados. Além da empregada Elza e do jardineiro Luís Rodrigues, hoje com 25 anos, Pedro tinha a companhia de um vira-lata. E falava com carinho de um jovem cujas fotos às vezes guardava entre seus pertences e a quem se referia como "um sobrinho" que morava na Alemanha. Em 1977, esse jovem, descrito sumariamente por Elza como "um moço muito bonito que falava alemão e italiano", hospedou-se por duas semanas na casa da Estrada do Alvarenga.

CONVERSAS A DOIS - Às terças-feiras, Pedro recebia a visita de Wolfram Bossert, em companhia de quem jantava para depois ouvir música clássica. Nas noites de sábado, também Liselotte se sentava à mesa de jantar. Uma vez por mês, um homem com cerca de 70 anos, alto e magro, visitava Pedro para longas conversas a dois, sempre em alemão, e para entregar-lhe um envelope. Elza deduz que havia dinheiro nesse envelope. "Eu recebia o pagamento sempre um dia depois da visita desse homem", lembra a empregada. O conteúdo do envelope era imediatamente guardado num baú que Pedro conservava em seu quarto, fechado com uma chave da qual jamais se separava.

É incontestável que o homem da Estrada do Alvarenga se comportava como um foragido. Evitava falar sobre o próprio passado, não costumava mostrar fotografias de amigos ou parentes e jamais recebia cartas das mãos de carteiros - a correspondência era invariavelmente entregue no endereço dos Bossert, que a encaminhavam a Pedro. Ele também sempre fez questão de não ter telefone em casa. Não tinha conta bancária nem usava talão de cheques. Esporadicamente, recebia visitas de vizinhos, que retribuía com parcimônia, e procurava não emitir juízos sobre outras pessoas, mesmo quando lhes votava evidente hostilidade. Segundo a empregada Elza, o silencioso patrão não gostava de pretos. "Bem que ainda podia existir a escravidão", disse Pedro certa feita. Nos momentos de irritação, dava um tapa na testa e exclamava: "Sacramento!"

O monástico alemão não gostava de ter a rotina perturbada pela aparição de desconhecidos. "Em 1978, ele sofreu um derrame e ficou três dias na cama, sem chamar um médico", lembra o jardineiro Luís Rodrigues. "Quem cuidou dele nesses dias foi dona Liselotte, que preparava as refeições e lhe levava a comida na cama." Também o visitou, na época, o homem que lhe levava o misterioso envelope mensal. Ao fim dos três dias, por lá apareceu Wolfram Bossert, que se encarregou de transferi-lo para um hospital nas imediações do aeroporto de Congonhas. "O senhor Pedro me dizia que, antes de vir para São Paulo, ele cuidava de animais numa fazenda", recorda Luís Rodrigues. "Ele tinha em casa seringas para aplicar injeções e soro contra picadas de cobras."

MORTE NA PRAIA - Segundo o jardineiro, Pedro gostava de trabalhos manuais, mas queixava-se de dores freqüentes na mão esquerda. "Ele não conseguia movimentar direito os dedos", diz Luís Rodrigues. Inês Mehlich, 48 anos, que trabalhou cerca de um ano na casa da Estrada do Alvarenga e ali permaneceu até dois meses depois da morte do patrão, recorda que nos últimos meses ele parecia inquieto com uma teimosa alergia que lhe castigava o pescoço. "Ficou distraído, quase foi atropelado na porta da casa e por pouco não caiu num poço que havia no quintal", conta Inês.

A última empregada do misterioso fugitivo lembra que, no verão de 1979, ele não pareceu animar-se com o convite para uma curta temporada em Bertioga, feito pelo casal Bossert. Dizia-se muito cansado, mas afinal concordou em viajar. "Vou para a praia porque minha vida está no fim", disse Pedro. Em Bertioga, os três amigos alugaram uma casa na Rua Manoel da Nóbrega, 272, e também ali implantaram o código da discrição. "A casa vivia fechada e nunca ouvíamos barulho na cozinha", atesta Arnaldo Santana, 31 anos, que mora com sua mulher, Dulcinéia, 29, numa edícula nos fundos da casa. "Eles só conversavam em alemão e nunca falavam com a gente", diz Santana.

Na tarde do dia 7 de fevereiro de 1979, Santana, que hoje trabalha como escriturário no Sesc em Bertioga, foi à praia jogar futebol e viu Liselotte chorando, rodeada por um grupo de pessoas. "Notei que havia um corpo no chão", conta Santana. "Era um senhor idoso, amigo deles, que também estava hospedado na casa." E incontestável que, naquele 7 de fevereiro, um homem que estava em companhia do casal Bossert morreu afogado na praia da Enseada, em Bertioga, como também é certo que desde então o enigmático morador da Estrada do Alvarenga nunca mais foi visto.

INDÍCIOS DE DERRAME - O cabo Espedito Dias Romão, 39 anos, da PM de Bertioga, patrulhava a praia da Enseada naquela tarde quando viu o grupo de banhistas em torno de um homem aparentando quase 70 anos, trajando um calção preto. "Ao lado dele, uma mulher de maiô chorava muito, e dizia palavras numa língua estrangeira", lembra Romão. Perto, um homem curvado sobre a própria barriga parecia sentir-se mal. "A mulher me disse que era seu marido e que ele tentara salvar o amigo do afogamento", conta o cabo da PM. Wolfram Bossert explicou-lhe mais tarde que, ao observar o amigo nadando, notou que ele tinha dificuldade para movimentar um dos braços. Atirou-se à água para salvá-lo e quase afundou também. Há indícios de que o homem que nadava sofreu um derrame e não conseguiu ficar à tona.

No boletim de ocorrência que registra o caso do afogado de Bertioga, preenchido pelo plantão do 6º Distrito Policial, não aparecem, contudo, os nomes "Peter" ou "Pedro". Ali se informa que o morto era "Wolfgang Gerhard, de nacionalidade austríaca, cor branca, 54 anos, viúvo, técnico mecânico, residente à Rua Missouri, 7, Brooklin Novo, São Paulo" - ou seja, "Pedro" morria com o nome do homem que o apresentara ao casal Bossert. "A mulher que chorava parecia desesperada e só chamava o homem de Wolfgang", confirma o cabo Romão. Na verdade, esse nome já o acompanhava há muito tempo. É indiscutível que desde 1969, quando chegou ao Brasil, o fugitivo usava documentos falsos com o nome do seu protetor - mais precisamente, uma carteira modelo 19 de Wolfgang Gerhard, da qual fora retirada a foto do legítimo portador e colocada, em seu lugar, uma foto de Pedro. Em 1976, ao refazer alguns documentos, tangido por mudanças na carteira modelo 19, o falso Wolfgang Gerhard estava em perigo. Sua falsa carteira de identidade perderia o valor.

Nessa ocasião, para socorrer o amigo em dificuldades com a documentação, o verdadeiro Wolfgang Gerhard, que regressara à Áustria em 1975, veio ao Brasil - e é certo que ninguém faz viagens tão dispendiosas para socorrer um conhecido qualquer. Wolfgang Gerhard teve de vir ao Brasil porque só ele podia tirar a nova carteira modelo 19 exigida pelas mudanças legais - para, em seguida, entregá-la a Pedro. Os dois Wolfgang Gerhard - o verdadeiro e o falso - passaram no mesmo dia 3 de fevereiro de 1976 para as fotografias da nova carteira. Semanas depois, o verdadeiro Gerhard retirou o documento na Delegacia de Estrangeiros, entregou-o ao amigo e voltou à Áustria. Assim, entre 1969, quando chegou ao Brasil, e 1979, quando morreu afogado em Bertioga, um estrangeiro viveu no país com documentos falsificados, alguns deles de forma grosseira. Esse estranho senhor não se chamava "Wolfgang Gerhard", nem "Peter Gerhard", tampouco "Peter Stammer", muito menos "Pedro". É certo, enfim, que esse homem foi enterrado no cemitério do Embu com o nome de Wolfgang Gerhard.

CRISE NERVOSA - A policia alemã tem evidências de que o verdadeiro Wolfgang Gerhard morreu a 16 de dezembro de 1978 e está enterrado na cidade de Graz, na Áustria. A polícia brasileira constatou na semana passada, de forma igualmente indiscutível, que um falso Wolfgang Gerhard foi sepultado no cemitério de fevereiro de 1979, acompanhado de um atestado de óbito assinado pelos médicos Jaime Edson Andrade Mendonça e Carlos Affonso Novaes de Figueiredo, ambos da cidade de Santos. O enterro foi feito pelo coveiro José Laurindo, 49 anos, o mesmo que na quinta-feira passada participou dos trabalhos de exumação.

"Lembro-me bem daquele enterro, porque só havia uma mulher acompanhando o caixão", recordava Laurindo na semana passada. "É a mesma mulher que está aqui hoje." Era Liselotte Bossert. Quando o amigo morreu afogado, ela decidiu enterrá-lo na sepultura onde jazia a mãe do verdadeiro Wolfgang Gerhard. No momento em que o administrador do cemitério do Embu, que conhecia Gerhard graças às suas visitas ao túmulo materno, preparava-se para abrir o caixão, Liselotte sofreu uma crise nervosa. O incidente apressou o sepultamento e o caixão não foi aberto. Se o fosse, o administrador perceberia que o morto não era o homem que havia conhecido. Na semana passada Liselotte confessou que a crise nervosa fora uma simulação.

Dois dias depois do enterro, Wolfram Bossert foi à casa da Estrada do Alvarenga para transmitir a notícia à empregada Inês e pedir que ficasse à espera de alguns amigos do morto, que apareceriam nos próximos dias. Pouco depois, lá estiveram uma mulher e dois oficiais da Marinha Mercante cuja descrição corresponde à esposa de Gesa, Gittara Stammer, e seus filhos Peter e Miklus. Na semana passada, agentes da Polícia Federal vasculharam a casa e já encontraram, no livro em que o inquilino fazia insistentes anotações, fotos e cartas que na sexta-feira eram examinadas com extremo interesse por técnicos brasileiros e alemães. É possível que ali estejam a caligrafia e o rosto de Josef Mengele - a verdadeira identidade, neste caso, do homem que chegara ao Brasil em 1969, vindo do Paraguai como "perseguido por motivos políticos", e que em seus dez anos de silenciosa vida no sítio de Caieiras e na casa da Estrada do Alvarenga usara os nomes de "Wolfgang", "Peter" e "Pedro".

VISITAS DO FILHO - "Ele era Josef Mengele", afirmou Wolfram Bossert na semana passada ao depor na Polícia Federal. "Dois ou três anos depois que nos conhecemos, ele próprio revelou-me sua verdadeira identidade. Como já éramos amigos, eu e minha mulher resolvemos nada dizer às autoridades e continuamos a ajudá-lo." Na última sexta-feira, confrontada com fotos antigas do "Anjo da Morte", Elza Gulpian de Oliveira não hesitou: "É o seu Pedro". Também na semana passada, um envelope apreendido na casa da Estrada do Alvarenga traz uma carta que Rolf Mengele, o filho do primeiro casamento do médico de Auschwitz, enviou em 1983 ao casal Bossert. A carta veio acompanhada por uma foto que mostra Rolf ao lado da mulher e do filho pequeno do casal - portanto, o neto de Mengele. Ao ver a foto, Elza reconheceu nela o "moço bonito que falava alemão e italiano" e lhe fora apresentado como "sobrinho" do patrão. "É esse o rapaz que passou duas semanas com o seu Pedro em 1977", disse Elza.

"Rolf Mengele esteve duas vezes no Brasil", garante Wolfram Bossert. "Além da visita que fez ao pai em 1977, ele voltou ao Brasil depois da morte de Mengele. Entreguei-lhe uma pulseira de ouro e um diário que haviam pertencido a seu pai." Bossert também entregou a Rolf algumas fotografias que tiraram do amigo, mas várias outras permaneceram na casa da Estrada do Alvarenga. Elas retratam o fugitivo em diferentes poses, trajes e situações. "Gosto muito de fotografar e uso meus amigos para me exercitar", explica Bossert.

Graças a tais exercícios, a polícia dispunha na semana passada de um farto material para a comparação de traços fisionômicos. "Existe 90% de chance de que o corpo encontrado no Embu seja o de Josef Mengele", diz o delegado Romeu Tuma. Mais comedido, o comissário alemão Gerhard Schöller, um dos policiais enviados ao Brasil para acompanhar as investigações, limita-se por enquanto a informar que, nos últimos meses, se haviam multiplicado as pistas que apontavam para a presença de Josef Mengele no Brasil.

'PISTA FRIA' - "Esta é a sétima morte de Mengele", ironizou em Nova York o célebre caçador de nazistas Simon Wiesenthal, abrindo uma ofensiva de ceticismo quanto à possibilidade de que sejam do "Anjo da Morte" os restos mortais exumados no Embu. "Só no Paraguai ele já foi sepultado três vezes, sempre com testemunhas que juravam ter visto seu rosto. Numa dessas ocasiões, encontramos um cadáver de mulher." A exemplo de outros perseguidores de criminosos nazistas, Wiesenthal acredita que se encontra em curso uma manobra destinada a forjar a morte de Mengele e, assim, dar-lhe fôlego para prolongar a clandestinidade. "O corpo exumado no Brasil não é o de Josef Mengele e sim o de um impostor ali colocado para tirar da pista os caçadores do 'Anjo da Morte'", endossa John Loftus, ex-promotor do Departamento de Justiça dos Estados Unidos, que em anos anteriores participou da caçada ao médico de Auschwitz.

"A pista é fria", afirmou na quinta-feira passada Neal Sher, também do Departamento de Justiça americano. Na sexta-feira, por via das dúvidas, Sher desembarcou em São Paulo para acompanhar os trabalhos de identificação do cadáver. Depois de terem formulado ironias contra a hipótese de que Mengele morreu em 1979, tanto Wiesendial quanto o casal Serge e Beate Klarsfeld, que há anos se dedicam a buscar o criminoso nazista, julgaram melhor, no final da semana, esperar os resultados dos exames nos restos exumados no cemitério do Embu.

De qualquer forma, todos eles permanecem céticos. "Se realmente Mengele tivesse morrido, o mundo inteiro seria informado 5 minutos depois, não cinco anos depois", diz Wiesendial. "Sua mulher, os filhos, todos os parentes, além dos amigos e simpatizantes, teriam feito tudo para anunciar a morte de Mengele, para passarem tranqüilos o resto de suas vidas. Para Wiesenthal, Mengele está vivo e escondido no Paraguai - país no qual chegou a se naturalizar e onde passou a maior parte do tempo desde que sumiu da Alemanha, no final da guerra. Assim também pensa Beate Klarsfeld, que em maio passado esteve no Paraguai, sempre à procura do célebre foragido alemão. "O governo do general Alfredo Stroessner teria todo o interesse em informar que Mengele está morto se isso fosse verdade", raciocina Beate. "Assim, o país se livraria da imagem de valhacouto de nazistas."

TEORIAS EQUIVOCADAS - "É muito estranho que essa história apareça no momento em que se anuncia uma recompensa de 3,4 milhões de dólares a quem oferecer informações capazes de levar à captura de Mengele", intriga-se Beate Klarsfeld. "Além disso, Stroessner programou uma viagem à Alemanha em julho. É muito compreensível que ele tente livrar-se do fantasma de Mengele antes dessa visita." Na sexta-feira, precavido, o próprio Stroessner tratou de adiar a viagem. Em Paris, Serge Klarsfeld mostrou-se mais cauteloso que sua esposa e Wiesenthal. "Tanto pode ser Mengele como o sinal de um trabalho bem-feito", comentou. Na quinta-feira, ele ouvira de um procurador da Justiça alemã que não são poucas as chances de efetivamente ter-se encontrado o cadáver do médico nazista.

Em Moscou, a agência de notícias Tass vislumbrou os culpados de sempre: "Os Estados Unidos estão por trás dessa trama, cujo objetivo é encerrar o caso Josef Mengele", decidiu um despacho da agência soviética. Em Haifa, Israel, funcionários do Instituto de Pesquisas sobre o Nazismo suspeitam de que policiais brasileiros caíram numa armadilha montada por neonazistas e deixam claro que não confiam no delegado Romeu Tuma, por tratar-se de um policial que já exercia funções idênticas "nos tempos do regime autoritário". Também no instituto baseado em Haifa circula a tese de que o Brasil não costuma empenhar-se no cerco a fugitivos nazistas.

Ambas as teorias são equivocadas. Afinal, foram policiais brasileiros os autores da prisão em 1967 do nazista Franz Paul Stangl, antigo comandante dos campos de concentração de Treblinka e Sobibor, na Polônia, e que sob identidade falsa trabalhava na fábrica da Volkswagen em São Bernardo do Campo. Em 1978, o próprio Romeu Tuma comandou a operação que resultou na captura de Franz Wagner, responsável pela morte de milhares de prisioneiros judeus no campo de concentração de Sobibor. No caso da busca ao suposto Josef Mengele, Tuma e os demais policiais brasileiros fizeram o que lhes cabia fazer - e, também corretamente, passaram as investigações ao Instituto Médico Legal. Agora, resta esperar pelas conclusões dos exames.

LAUDO CONCLUSIVO - Ao contrário do que se supõe, é possível que o exame do esqueleto do Embu não seja suficiente para determinar com absoluta segurança que nele viveu Josef Mengele. Através de cálculos de medicina legal, pode-se estabelecer o sexo, a altura e a idade aproximadas de uma ossada. Já se sabe que na cova estava um homem. Em poucos dias se saberá sua altura, com uma margem de erro de 5 centímetros. Como Mengele tinha 1,74 metro, daí resultará um bom elemento de comparação. Os exames químicos permitirão estabelecer a idade com que a pessoa morreu, tolerando-se uma margem de erro de dois anos. Mengele, nascido em 1911, teria 68 anos em 1979. Além disso, os legistas poderão descobrir a que grupo étnico pertencia a pessoa.

Mesmo que se possa garantir que no Embu estava um homem branco, caucasiano, com pouco mais de 1,70 metro de altura e com pouco menos de 70 anos de idade, isso será certamente pouco para que termine a lenda de Mengele. Precisa-se de mais de algo que apenas Mengele tivesse. Essa curiosidade só poderá ser saciada pela comparação da única ficha dentária de Mengele, datada de 1938, com as arcadas do esqueleto do Embu. Nele foram encontrados sete dentes, quatro na arcada superior e três na inferior, um dos quais com um trabalho de restauração. A ficha de 1938 é a de um homem de 27 anos em cuja boca ainda estavam quase todos os 32 dentes. Por isso, a comparação será muito mais definitiva para provar que o esqueleto não é de Mengele do que para sustentar sua identidade. Basta que na ficha de 1938 um dente esteja assinalado por alguma restauração e que nas arcadas de 1985 esse mesmo dente esteja intacto para que se possa proclamar com certeza que o homem do Embu não é Mengele.

Embora haja a possibilidade do mistério de Mengele sobreviver ao exame dos dentes, a junção de todas as pesquisas dos legistas poderá levá-los a emitir um laudo diante do qual só não acreditará que ele era o dono do esqueleto do Embu quem não quiser. Isso porque o exame dos ossos da mão esquerda mostrará se nela ocorreu, na juventude de seu dono, uma fratura. Mengele sofreu um ferimento nessa mão e o senhor Pedro carecia de alguns movimentos com ela. Na verdade, com a ajuda de legistas americanos e alemães, o IML de São Paulo poderá ir até os limites da medicina legal de hoje - uma ciência tão avançada que ao fim da guerra do Vietnam, onde morreram cerca de 46.000 soldados americanos, um centro de análises montado no Havaí conseguiu identificar todos os corpos, exceto um, que se tornou no ano passado o Soldado Desconhecido.

MEDO E ÓDIO - Por que o casal Bossert não anunciou antes Bossert o fim de Mengele? "Tínhamos medo de sofrer perseguições ao se saber que havíamos abrigado Mengele", alega Liselotte Bossert. Na sexta-feira, ela constatou que seus temores tinham fundamento: foi demitida do Colégio Humboldt, onde lecionava há nove anos para crianças do jardim da infância e do pré-escolar. "Não queremos ser acusados de acobertar nazistas", argumenta o professor Adolfo Ernesto Gothelf Krause, 44 anos. "A demissão é irreversível", diz Krause. "Ela só voltaria a dar aulas se provasse estar inocente no caso."

Assim, Josef Mengele acabou fazendo mais uma vítima - seja dele ou não o cadáver exumado no Embu. Quarenta anos depois do fim da guerra, o médico que horrorizou o mundo com seus experimentos em Auschwitz continua a suscitar ondas de ódio e medo. Essa trajetória, por sinal, requeria um desfecho mais espetacular que a cena de Mengele morrendo quando se divertia numa tarde de verão em Bertioga. O jornalista Ottmar Katz, dono de um dos mais completos arquivos sobre o "Anjo da Morte", vê com naturalidade a eventual confirmação dessa hipótese. "Nesse caso, a história se repetirá mais uma vez", diz Katz. "Diante da imensidão dos rumores que circularam em torno da lenda de Mengele, a verdade de seu fim será surpreendentemente singela."


 
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