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  12 de maio de 1982
Agonia no Atlântico

Depois de uma primeira rodada de
combates o impasse continua, a
Inglaterra amplia o raio de ação de seu
bloqueio e a Argentina não se dobra

Quantas vidas podem valer as Malvinas? Ao longo de toda a semana passada, a Inglaterra e a Argentina se fizeram, sombriamente, a mesma pergunta. Quase 400 homens já haviam morrido no Atlântico Sul ate a manhã de sábado, e, a seguir esse ritmo, brevemente haveria mais mortes no mar gelado do que habitantes nas ilhas contestadas. Diante desse quadro, os dois timoneiros da crise - o presidente Leopoldo Galtieri, em Buenos Aires, e a primeira-ministra Margaret Thatcher, em Londres, debateram-se ferozmente entre a opção de ceder e a de prosseguir a escalada.

"Parem com essa matança", dizia a frase pintada na semana passada num muro do porto de Portsmouth, de onde continuavam saindo unidades navais britânicas rumo à zona de guerra no Atlântico Sul. A frase anônima, de um bom senso banal, mereceu uma reportagem na televisão inglesa e comentários de rádios do país. Parecia surpreendente, de fato, que alguém tivesse pensado algo tão sensato, quando em Buenos Aires o Prêmio Nobel da Paz 1980, o argentino Adolfo Pérez Esquivel, sentenciava: "Essa guerra é justa". Na verdade, ela é sobretudo absurda, pela desproporção entre seus objetivos e os custos para atingi-los - e na semana passada, quando começou a contagem dos mortos e a guerra tornou-se subitamente real, essa noção ficou mais clara e mais chocante do que nunca.

No momento em que o Nobel da Paz defendia a guerra, num ponto perdido do Atlântico Sul, exatamente na latitude de 55 graus e 25 minutos sul, longitude de 61 graus e 22 minutos oeste - área onde o cruzador argentino General Belgrano fora posto a pique por um submarino inglês na tarde de domingo -, ainda boiavam corpos de marinheiros e soldados que, devido às ondas e aos blocos de gelo, ninguém conseguiu resgatar. As cenas desse horror, assim como as do ataque ao navio-patrulha Alférez Sobral, também argentino, só não chegaram a ser transmitidas para milhões de telespectadores do mundo inteiro porque não foram filmadas, como os recentes atentados a Ronald Reagan, João Paulo II ou Anuar Sadat. Mas descrições não faltaram e um especialista em sobrevivência, entrevistado em Londres pela BBC, esclareceu: "Naquelas condições atmosféricas, e sem colete termopneurnático, ninguém pode ter resistido mais de 2 a 4 minutos dentro da água. Saber nadar não serviria para nada".

Dois dias depois, outros corpos boiavam mais perto das Malvinas, com a estréia mundial do míssil Exocet, fulminante novidade para as batalhas navais modernas: atingido pelos argentinos, o destróier Sheffield, um dos navios-chave da frota inglesa, também tinha ido para o fundo do mar. Por fim, do lado leste das ilhas já consideradas malditas, surgia o primeiro rosto individual de uma vítima da guerra - o do tenente britânico Nicholas Taylor, de 32 anos, que morreu encaixotado em seu caça Sea Harrier, na profundidade de um fiorde, abatido por um Mirage da Argentina quando voltava a bombardear o aeroporto de Port Stanley, a capital das Malvinas. O pai do piloto, Harry Taylor, 70 anos e aposentado, recebeu a notícia em sua casa de Closworth, no Somerset. "Estou orgulhoso em saber que meu filho morreu fazendo o trabalho que ele gostava, pelo país que ele amava", disse. Após um mês inteiro de crise, iniciado com a invasão das ilhas até então britânicas pela Argentina, ambos os lados começavam a chorar seus mortos.

'TUDO', MENOS... - Com navios afundados, aviões abatidos, soldados mortos e mais combates à vista, estava em curso algo muito parecido a uma guerra - apenas as firulas jurídicas do Direito Internacional permitiram que a palavra fosse evitada por Inglaterra e Argentina. Os choques para valer começaram no sábado anterior, com os primeiros bombardeios ingleses sobre o aeroporto de Port Stanley, escalaram dramaticamente com os afundamentos do Belgrano e do Sheffield e chegaram ao final da semana sem uma perspectiva de que pudessem estar se encerrando. Embora nem um tiro tenha sido disparado entre terça e sábado, os mais pessimistas atribuíam essa trégua a meras manobras dos dois lados para ganhar tempo e se preparar melhor para uma nova rodada de combates.

Paralelamente, dois planos de cessar-fogo colocados à disposição dos interessados permaneciam sem assinatura. Um, proposto pela ONU por intermédio de seu secretário-geral, o peruano Javie Pérez de Cuéllar, e outro, elaborado pelo presidente do Peru, Fernando Belaúnde Terry, com o apoio e o peso do secretário de Estado americano Alexander Haig, previam o cessar-fogo imediato - e estipulavam, com nuances variadas, a retirada dos argentinos das Malvinas, o retorno da frota inglesa para casa e uma temporária administração internacional das ilhas disputadas. As propostas diferiam apenas no quarto item. Enquanto o plano da ONU previa que na última fase os 1.800 habitantes das Malvinas decidiriam seu destino, por meio do voto, o plano peruano concluía com negociações em torno do crucial problema da soberania das ilhas.

Mas, apesar do intenso fogo cruzado diplomático no qual dezenas de chancelarias mobilizaram consideráveis esforços, a semana acabou como havia iniciado. A Argentina dízia aceitar "tudo", menos sair das ilhas antes de acertar o problema da soberania. A Inglaterra declarava estar disposta a oferecer "tudo", menos a permanência das tropas argentinas nas ilhas e um reconhecimento prévio da soberania argentina sobre as Malvinas. "Se eles não saem das ilhas", afirmou categórico o chanceler britânico Francis Pym, "então seremos obrigados a fazer o que não fizemos até agora: usar a maneira forte."

SUPERBLOQUEIO - Como que ecoando essas vibrações, uma alta fonte militar de Buenos Aires assegurava a VEJA que "a Argentina, até o momento, apenas deu o troco aos ataques ingleses. Isso vai mudar. Eles que se preparem porque o fogo agora será total". De fato, era difícil imaginar que os dois lados não voltassem a se chocar com violência depois que o "Ministério de Guerra" chefiado em Londres por Margaret Thatcher apertou dramaticamente o cerco em volta da Argentina. Em decisão tomada ao cair da noite de sexta-feira, o governo inglês esticou o bloqueio inicial das ilhas Malvinas até a própria costa continental da Argentina, deixando ao inimigo um corredor de apenas 12 milhas marítimas (22,2 quilômetros) para se locomover. Fora dele, navios e aviões argentinos estão avisados de que podem a qualquer momento receber disparos ingleses. Considerando-se que duas horas antes, conforme apurou VEJA, o mesmo "Ministério de Guerra", aquartelado em Downing Street, analisava seriamente uma alternativa bem mais assustadora - o bombardeio dos aeroportos argentinos desde o balneário de Mar del Plata, 400 km abaixo de Buenos Aires, até o extremo sul do litoral - pode-se dizer que o "superbloqueio" foi dos males o menor.

Oficialmente, a medida era apenas defensiva, para compensar a aguda vulnerabilidade tática sentida pela força-tarefa britânica desde as perdas que sofreu ao longo da semana. Além de um caça Sea Harrier abatido, outros dois foram dados como desaparecidos, reduzindo assim em 15% a já sofrível cobertura aérea da frota composta originalmente de apenas vinte caças-bombardeiros. A percepção desse calcanhar-de-aquiles fez o comando inglês despachar, já no final da semana, outros vinte jatos para o teatro de operações. Até que cheguem e entrem em ação, porém, a situação é delicada. O ataque contra o Sheffield forçou os dois porta-aviões ingleses, Hermes e Invincible, e seus navios de apoio a navegarem a leste das Malvinas, fora do alcance de outros ataques - eliminando assim, momentaneamente, a capacidade dos Sea Harrier de dar cobertura para o projetado desembarque inglês nas ilhas. Sem o bombardeio dos aeroportos inimigos, para impedir a operação de seus aviões, ou o bloqueio continental da Argentina, os Harrier teriam de ficar confinados à tarefa exclusiva de patrulhar o espaço aéreo da frota, para evitar outros ataques de caças argentinos baseados no continente.

POUCAS OPÇÕES - Soube-se que dois destróieres da mesma classe do Sheffield foram os primeiros navios enviados para patrulhar o novo espaço aberto com o decreto das 12 milhas. Trata-se do Broadsword e do Brilliant, dotados da principal arma que faltava no contratorpedeiro afundado pelos argentinos: o míssil antimíssil Sea Wolf, capaz de interceptar e destruir o temível Exocet. Como ninguém espera que o governo do general Galtieri obedeça ao surpreendente decreto militar inglês, é bem possível que toda essa maquinaria letal venha novamente a ter uso concreto nos mares. Caso, porém, a Inglaterra continuasse decidida a tentar uma invasão das Malvinas, apesar da surda irritação que isso provocaria junto a seus aliados europeus e americanos, o novo bloqueio poderia ter sido decretado apenas como cortina de fumaça para confundir o adversário.

Para o coronel reformado Jack Child, que durante 22 anos serviu como especialista em América Latina no Exército dos EUA, foi membro da Junta Interamericana de Defesa, conhece pessoalmente vários dos atuais generais argentinos e lecionou na Academia Militar de West Point, a verdadeira cortina de fumaça seria outra. Segundo ele, tanto Argentina como Inglaterra estariam, na verdade, mais do que propensas a negociar, em decorrência de um real ímpasse no campo de batalha e pelo fato de que as estratégias militares de ambos falharam parcialmente. Child sugere que os argentinos, no momento, não podem fazer mais nada. Se tentassem romper o bloqueio naval, poderiam perder outra aeronave, e o porta-aviões 25 de Mayo teria o mesmo destino do Belgrano. E a única maneira de romperem o bloqueio aéreo seria por meio de um maciço ataque suicida - que, além do mais, dificilmente daria qualquer resultado prático de monta. "Se você atacar com 75 ou 80 aparelhos, alguns sem dúvida furarão a linha de defesa", diz Child. "Mas a Força Aérea argentina poderia perder até um terço de todos os seus aviões na tentativa, e não creio que eles estejam dispostos a pagar esse preço." Os ingleses, por sua vez, têm um leque bem maior de opções militares - mas não poderiam pagar o preço político de novas baixas.

REDESCOBERTA - Nos edifícios públicos da Inglaterra, desde a última quarta-feira, a bandeira inglesa estava exposta a meio pau. A rainha Elizabeth II enviou telegramas pessoais de conforto para os familiares das 23 vítimas oficiais e admitiu, perante um grupo de atores que lhe perguntavam por seu filho - o príncipe Andrew, segundo na linha de sucessão ao trono depois de Charles, e embarcado no porta-aviões Invincible -, que aquele era "um momento de ansiedade para todos nós". Ansiedade também para Margaret Thatcher, obrigada a realizar reuniões de emergência três vezes por dia e aconselhada a perder a vivacidade com que vinha se locomovendo, até então, entre a Sala de Operações do Ministério da Defesa, em Londres, e a Central de Comunicações da Marinha, em Northwood. De forma contagiante, a Inglaterra inteira começava a se perguntar se a força-tarefa estava, realmente, pronta e equipada para enfrentar a aventura nos mares do Sul. Entre sua saída cinematográfica de quatro semanas atrás e a fila de parentes em lágrimas, à espera de notícias de seus mortos, as cercanias do cais de Portsmouth representavam, na semana passada, a imagem de uma Inglaterra que de repente se redescobria em guerra - uma guerra real e de desfecho incerto para cada um dos 6.000 militares ingleses deslocados até os confins do Atlântico.

O comandante da frota, contra-almirante John "Sandy" Woodward, que na semana antenor achava a campanha das Malvinas "um passeio", deixou entender que alguma coisa não se processara como manda o figurino. Falou da falta de apoio aéreo: de Londres, haviam-lhe prometido uma cobertura adequada, mas apenas dois Harrier patrulhavam a parte mais importante da frota quando os argentinos eliminaram o Sheffield do almanaque da Marinha de Guerra de Sua Majestade. Na semana passada, no Ministério da Defesa em Londres, circulava a notícia de que Woodward havia exigido uma definição em 72 horas, ou até a manhã de domingo - caso contrário pediria oficialmente instruções para recuar uma parte da frota, talvez até a ilha de Ascensão, no meio do Atlântico. Uma frase recolhida por VEJA no comando da Marinha revela que "Sandy" continua com o apoio da corporação: "Não fosse ele, e fosse Downing Street a ter que resolver as coisas, a esta altura já estaríamos todos nadando".

Do outro lado da crise, as preocupações do presidente Leopoldo Galtieri eram também colossais. A perda de centenas de vidas no Belgrano, o isolamento das forças argentinas nas ilhas e a possibilidade de novos desastres abalaram profundamente a crença de que a guerra pode ser ganha com exortações patrióticas e manifestações de rua. Galtieri, ao mesmo tempo, sente problemas na condução prática do conflito. Desde que começou a crise das Malvinas, a 2 de abril, ele esteve somente dois dias em sua casa de comandante-em-chefe do Exército, no Campo de Mayo, em Buenos Aires. Sua família vem regularmente da quinta presidencial de Olivos para visitá-lo na Casa Rosada, onde fincou residência numa suíte contígua a sua sala de despachos, no 2º andar. O presidente tem dormido em média cinco horas por noite, mas não se esquivou da sesta depois do almoço. "Ele é um touro e muito mais forte do que a Thatcher", gaba-se um de seus assistentes diretos, o coronel García Femández.

No manejo dos assuntos militares, contudo, Galtieri esteve cada vez mais distante das decisões, sobretudo no que se refere às operações nas Malvinas e no Atlântico Sul. Nessa área, reina absoluto o almirante José Lombardo, chefe do Teatro de Operações Navais do Atlântico Sul, que tem autonomia para tomar decisões inclusive acima do Estado-Maior das Forças Armadas. Outro militar que roubou boa parte da popularidade de Galtieri na semana passada foi o almirante Jorge lsaac Anaya, ministro da Marinha e autor, segundo várias fontes, da ordem de afundar o Sheffield - o avião Super Étendard, que desfechou o golpe, lembrava-se em seu Ministério, pertencia à Marinha, e não à Força Aérea. Um taciturno oficial de 55 anos, Anaya é o arquiteto original da tomada das ilhas Malvinas e o mais tenaz adversário de concessões diplomáticas por parte da Junta Militar argentina.

Historicamente, a Marinha tem sido a mais agressiva das três armas na questão das Malvinas - como, de resto, na briga com o Chile em torno do Canal de Beagle - e desde que assumiu o Ministério, em setembro último, Anaya parecia decidido a passar da retórica à ação. Há indícios de que, para conseguir o apoio de Anaya em seu assalto à Casa Rosada, em dezembro último, quando despejava do poder o general Roberto Viola, Galtieri prometeu que as ilhas Falkland logo seriam conhecidas no mundo como Malvinas - e que a Argentina iria tomá-las à força.

'I'M SORRY' - Espertamente, o govemo argentino, que ganhara inesperadas simpatias no exterior diante do afundamento do Belgrano, aguardou o Ministério da Defesa inglês confirmar a perda do Sheffield em Londres para só então se manifestar. Desde o início dessa crise, a junta argentina tem procurado apagar sua imagem de agressora inicial. No plano interno, porém, uma ampla ação psicossocial fornece diariamente ao argentino comum uma dose completa de orgulho nacional pela invasão das Malvinas. O golpe contra o Sheffield ocorreu no exato momento em que a nação entrava em estado letárgico. O superdimensionamento da performance argentina na batalha, segundo a imprensa do país, apontava vitórias mirabolantes: dez helicópteros destruídos, vários avariados, treze Sea Harrier aniquilados, e assim por diante.

O exagero chegou ao delírio com a informação de que um pequeno avião Pucará, de fabricação argentina, voando a 10 metros de altura "para despistar os radares inimigos", conseguira atingir nada menos que o Hermes, nave capitânia da frota britânica - sem contar o insistente rumor de que o mesmo Hermes estava sucumbindo e que o fleugmático comandante Woodward se suicidara. "A despreparação para a guerra desenvolvida na Argentina deveria ser estudada seriamente. Nunca vi coisa igual", espantou-se um adido militar baseado em Buenos Aires.

Pelas ruas de Buenos Aires, pequenos outdoors utilizados para propaganda de azeitonas foram substituídos por fotos coloridas mostrando uma rota bandeira inglesa com as inscrições "Ahora a la Muerte - I'm Sorry". Na verdade, a ditadura argentina fez das Malvinas uma viagem sem retomo. Bombardeado diariamente por músicas marciais entremeadas com slogans semelhantes aos do Brasil do início dos anos 70 - como "Argentina, hasta a vencer", ou "Argentinos, adelante" -, o cidadão argentino passou a andar com um enfeite azul e branco na lapela e não admite sequer a hipótese de se arriar a bandeira nacional das Malvinas. Por toda parte, centenas de adolescentes responderam às convocações radiofônicas para comparecer à Sociedade Rural de Buenos Aires e auxiliar no empacotamento de alimentos a "nuestros muchachos en las Malvinas", enquanto a Liga das Donas-de-Casa produzia 3 toneladas de "Tortas Malvinas Argentinas" com o mesmo destino. Sentadas no coração de Buenos Aires, à sombra do obelisco da Plaza de Mayo, mães, namoradas e irmãs dos soldados encontram-se pontualmente às 15 horas para, de agulhas em punho, tricotar cachecóis e casacos. Com esse pano de fundo, qualquer solução negociada que exija concessões do governo de Buenos Aires na questão da soberania das ilhas explodirá os militares da Casa Rosada com a precisão de um míssil Exocet.

 
     
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