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12 de abril de 1989
O Congresso
fora de compasso
Os parlamentares recriam estatais,
concedem aumentos ao funcionalismo
e se esquecem dos eleitores
Por vinte anos, o Congresso Nacional foi
pressionado pelo regime militar a fazer o que não queria
e sempre se queixou dessa interferência. Hoje, livre da sombra
fardada, o Congresso continua sob pressão, só que
seus membros raramente emitem queixas. Docemente constrangidos por
galerias inquietas, deputados e senadores têm trabalhado para
aumentar a boa vida da burocracia e para manter em atividade empresas
estatais que o próprio governo considera inúteis e
dispendiosas, a ponto de tentar abatê-las. Nas duas últimas
semanas, os eleitores que lotaram Câmara e Senado, com seus
atuais ocupantes, assistiram espantados a mais um carrossel de manifestações
desse gênero, nas quais os parlamentares promoveram aumentos
de salários de funcionários públicos -- dentro
do regime de congelamento -- e ressuscitaram oito órgãos
públicos extintos pelo Executivo. No fim, até alguns
parlamentares mostravam sinais de desânimo. "O Congresso virou
uma Câmara de Vereadores federais" , dizia Paulo Delgado,
deputado do PT de Minas Gerais.
Na noite da última quarta-feira,
durante uma sessão conjunta da Câmara e do Senado,
os parlamentares se reuniram para examinar dois projetos. O primeiro
estipulava um aumento de 100% no valor do salário mínimo,
que saltaria assim para 139 cruzados novos ainda este mês,
baseado em um preceito da nova Constituição de que
o menor salário pago a um trabalhador brasileiro seja, no
mínimo, suficiente para garantir o sustento de sua família.
O outro projeto previa um reajuste nos vencimentos dos 457 funcionários
do Supremo Tribunal Federal, a mais alta corte em atividade no país.
Os legisladores não hesitaram na hora de distribuir os benefícios.
Ao final dos trabalhos, haviam negado a elevação do
mínimo, entregue a uma massa de brasileiros que vive no limite
da penúria, enquanto colocaram uma gratificação
de 170% nos contracheques dos servidores do Supremo, que aplaudiam
a decisão das galerias. "Os parlamentares se submetem às
pressões de pequenos grupos e se esquecem do interesse de
140 milhões de brasileiros", critica o empresário
Luiz Carlos Mandelli, presidente da Federação das
Indústrias do Rio Grande do Sul.
Gaiolas Flutuantes -- Pode-se argumentar
que a concessão de um aumento tão grande no salário
mínimo do país traria efeitos nocivos para a economia,
com um inevitável aumento de custos para as empresas. Pode-se
dizer ainda que os funcionários do Supremo merecem o aumento
que tiveram. Finalmente, não se discordará de um deputado
que recomende estudos mais profundos antes da extinção
de estatais, como a Companhia de Navegação do Vale
do São Francisco ou a empresa que navega na Bacia do Prata
-- ambas donas de uma frota capenga de gaiolas flutuantes e de um
corpo considerável de servidores que ficam em terra. O ponto
central da questão, no entanto, é outro. Ao ressuscitar
estatais que o Executivo tentou extinguir, como essas duas companhias
de navegação, ou quando engorda salários de
servidores públicos, como fez na semana passada, o Congresso
emite um sinal profundamente simbólico ao resto do país.
Nos últimos seis meses, sob a regência
de uma nova Constituição que lhe amplia os poderes
antes cerceados pelo regime autoritário e exige mais responsabilidades
de sua atuação, a Câmara aprovou cinqüenta
projetos de lei, dos quais quinze concederam aumentos de salários
para a burocracia. A pressão, nessas ocasiões, toma-se
quase irresistível. "Eu não posso ficar contra a galeria",
admitiu recentemente o líder do PSDB no Senado, Fernando
Henrique Cardoso, a um funcionário do Palácio do Planalto,
Henrique Hargreaves, que lutava para convencê-lo a votar pela
extinção dos órgãos estatais. "Não
há problema, porque quando esse assunto chegar à Câmara
vai ser rejeitado", acrescentou o senador. Como se viu, a Câmara
também ouviu enlevada o canto das galerias. Nenhum dos oito
órgãos públicos foi extinto pelos deputados,
nem mesmo o Incra, uma entidade curiosa, encarregada de fazer a
reforma agrária num país cuja Constituição
praticamente impede reformas fundiárias. Conforme a decisão
do Congresso, pode-se passar sem reforma agrária, mas não
sem os 9.000 funcionários do lncra.
Casos Perdidos - Pouco antes de
os deputados salvarem as oito preciosidades da burocracia que acabaram
ganhando vida extra, o mesmo enviado do Palácio do Planalto,
Henrique Hargreaves, ouviu uma justificativa inacreditável
do deputado Ibsen Pinheiro, líder do PMDB na Câmara.
"Agora que o Senado aprovou, nós não podemos rejeitar",
disse Pinheiro. Os órgãos que o Executivo tentava
extinguir, na esperança de cortar alguns gastos que considera
dispensáveis, acabaram assim recriados pela vontade dos parlamentares.
As quatro primeiras ressurreições -- Embrater, Geipot,
Incra e EBTU -- estão sacramentadas. As outras quatro, que
mantiveram as estruturas de três companhias de navegação
e de uma indústria, a Companhia Siderúrgica da Amazônia,
dependem ainda de chancela da Câmara, depois de passarem na
primeira prova, no Senado. São casos perdidos. A siderúrgica,
por exemplo, emprega 343 pessoas para produzir aço pelo dobro
do preço do mercado e este ano deve arcar com um prejuízo
de 300 000 cruzados novos. Há poucas chances, no entanto,
de que sejam abatidas no vôo pelo plenário dos deputados.
"Ou o Congresso acaba com o corporativismo, ou acabará sendo
derrotado por ele", pondera o deputado Antonio Britto (PMDB-RS).
Como todo ente burocrático, o Congresso
exibe um espírito de corpo à flor da pele. No entanto,
alguns parlamentares são capazes de ver que sua Casa, necessária
para o funcionamento do país em um padrão civilizado,
apresenta falhas de comportamento evidentes para as pessoas de fora.
"0 Congresso é patronal, protege a empresa privada, sangra
o Estado e cuida bem do próprio bolso", diz o deputado Paulo
Delgado, do PT de Minas Gerais, um dos representantes mais ativos
da esquerda no Parlamento. No pedaço mais conservador da
agremiação, existem também parlamentares dispostos
a fazer críticas. "Quando se preocupa em reativar empresas
estatais extintas, em vez de diminuir o déficit, o Congresso
dá provas de que não segura a sua parcela de responsabilidade",
afirma o senador Jorge Bornhausen (PFL-SC), ex-ministro da Educação
do atual governo.
Enquanto existiu o regime militar, a atuação
do Congresso era a de um coadjuvante da cena política. O
Executivo definia seu orçamento e distribuía a seu
critério os recursos levantados com a cobrança dos
impostos. Ao Congresso restava ratificar essas resoluções.
Da mesma forma, a definição das prioridades sociais
era feita em pequenas salas, nos ministérios, e enviada ao
exame dos parlamentares por mera formalidade oficial. Com a nova
Constituição, o Congresso se viu investido de uma
soma considerável de poder, enquanto o presidente da República
se tomou uma espécie de chefe do governo em um regime parlamentarista.
"Fizeram uma Constituição parlamentarista para
um regime presidencialista", lembra o presidente José
Sarney, um crítico sempre disposto a fustigar o Congresso,
de onde saiu como senador para seu atual posto no Planalto. "Como
o Congresso é sócio do poder, mas não precisa
prestar contas de seus atos, muitos abusos ocorrem sem que ninguém
se sinta culpado", diz Sarney.
Idéia Malograda -- Ao editar
o Plano Verão em 15 de janeiro último, o presidente
José Sarney enviou para o Congresso uma proposta de privatização
de empresas estatais. Nessa providência, Sarney, pode-se dizer,
agiu contra seu instinto, já que o país reclama do
tamanho do Estado desde que ele tomou posse -- e só agora,
em meio a uma crise brutal da economia e frente à falência
da máquina do Estado, gorda, ineficiente e perdulária,
foi que ele resolveu aparar-lhe as fontes mais ociosas. Julgava-se
até então que o Executivo não tinha coragem
de cortar do próprio cerne. Quando a mensagem do presidente
chegou ao Congresso, viu-se que o Planalto fazia ao menos uma tentativa.
No Parlamento, ela malogrou. Preocupados com os cortes, os parlamentares
simplesmente jogaram uma pá de cal sobre a idéia de
privatizar estatais, alegando que esse passo era delicado demais
para ser dado sem um exame mais profundo. "O Congresso não
está colaborando", queixa-se o ministro Mailson da Nóbrega,
dono da Pasta da Fazenda.
Não é provável encontrar-se
uma pessoa no gozo de suas faculdades mentais que prefira ver o
país sem Congresso, diante dos vícios que o atual
exibe a cada dia. A questão, porém, não é
essa. O problema maior que atrai críticas sobre o Legislativo
está relacionado com o mau comportamento dos parlamentares
diante das exigências práticas. Até naquilo
em que deveriam demonstrar esmero eles deixam a desejar. Existem
hoje, encalhados nas prateleiras da Câmara, mais de 200 decretos-leis
que deveriam ter sido examinados e que não se sabe se um
dia serão levados ao plenário. Até a semana
passada, tramitavam na Câmara outras 4 753 proposições
legais à espera de votação. Diante da impossibilidade
prática de promover um desencalhe de toda essa papelada,
a Comissão de Constituição e Justiça,
o órgão encarregado de zelar pelo andamento de toda
a montanha de papéis manipulada pelos deputados, resolveu
adotar uma decisão drástica. Na quarta-feira, a comissão
mandou para o arquivo os projetos apresentados pelos deputados até
outubro passado. Ao todo, cerca de 3 600 projetos vão deixar
de existir -- e precisarão ser novamente apresentados por
seus interessados para se tomarem leis.
Além disso, passados mais de seis
meses do término da Constituinte, a Câmara até
agora não definiu o seu regimento interno, o documento sobre
o qual deve se assentar todo o funcionamento da Casa. "Se não
soubermos cumprir nossas novas funções, o Congresso
corre o risco de ficar mais fraco do que antes", alerta o deputado
José Thomas Nonô (PFL-AL). "O novo Congresso é
um elefante que ainda não descobriu nem usou a força
que tem", acrescenta o senador Carlos Chiarelli (PFL-RS).
"Na Base do Improviso"
- A morosidade do Congresso repousa sobre um paradoxo. A Câmara,
por exemplo, possui 9 170 funcionários para fazer andar sua
burocracia. Esse contingente ganha, em média, 2 000 cruzados
novos de salário a cada mês, uma faixa bem superior
aos 500 cruzados novos pagos por uma instituição como
o Exército e muito acima dos 64 cruzados novos recebidos
pelos trabalhadores brasileiros. Essa pesada folha de pagamentos,
porém, não produz grandes resultados na prática.
Os 487 deputados podem dispor de apenas 55 assessores técnicos
para tratar de assuntos mais delicados. Com as novas atribuições
dadas pela Constituição, cabe ao Congresso se manifestar
a respeito de quase todos os temas de importância na área
econômica, política ou financeira. Mesmo assim, o Congresso
não conta com um único especialista em defesa nacional,
energia nuclear, informática, saúde pública
ou política externa para assessorar os parlamentares. "O
Congresso ainda está funcionando na base do improviso", critica
o deputado Francisco Dornelles (PFL-RJ). "Por falta de estrutura,
ele ainda está numa posição passiva."
Em países mais desenvolvidos, os
quadros do Legislativo também ostentam um pelotão
de funcionários. O problema no Brasil é saber quem
são esses funcionários, por que estão no Congresso
e o que fazem lá no seu dia-a-dia. Em muitos casos esses
servidores são parentes ou protegidos de algum político.
Estão lá, muitas vezes, porque não há
concurso público e puderam chegar a seus empregos atravessando
uma ponte de fisiologia. Pelo volume de processos que entulham os
armários do Congresso, pode-se concluir que uma grande parcela
desses barnabés pouco ou nada faz -- e só se mantém
contratada devido a uma realidade bastante comum no serviço
público e especialmente disseminada no Legislativo: o empreguismo.
Segundo uma pesquisa feita pela jornalista alagoana Maria Aparecida
de Oliveira, que o Jornal do Brasil divulgou há um mês,
197 dos 495 deputados e 22 dos 75 senadores empregam um total de
325 parentes nas casas do Congresso.
Rotas Estranhas -- No Senado, em
particular, a concessão de benefícios com o dinheiro
do contribuinte forma um quadro assustador. Existem 7 140 funcionários
contratados, o que dá uma média de 95 servidores para
cada senador. Engana-se, todavia, quem imaginou que vai encontrar,
nos gabinetes do Senado, essa quantidade de empregados, até
porque os gabinetes normalmente possuem o tamanho de uma sala de
um apartamento de classe média. Nesse mundo de paradoxos,
há ainda fenômenos inexplicáveis para quem não
tem certa familiaridade com os costumes da burocracia legislativa
no país. O Senado tem em seus quadros 150 jornalistas, dos
quais menos de cinqüenta dão expediente diário.
Existe um centro gráfico que atende aos senadores, cuja mais
recente novidade foi a de produzir Constituições,
com capas almofadadas de couro, para distribuição
a eleitores. Nesse paraíso de gastos, existe até mesmo
um mascote do Senado, "Senadinho", que funciona no Rio de Janeiro,
abriga 98 funcionários e não possui nenhuma justificativa
lógica para ter a estrutura que lhe deram e os dez automóveis
que o atendem.
A tradição manteve de pé,
no Congresso, alguns hábitos que seriam inadmissíveis
em qualquer empresa particular - ou mesmo numa empresa pública
cuidadosa com o dinheiro que toma dos contribuintes. Tome-se como
exemplo o caso das passagens de avião a que todos os deputados
e senadores têm direito. Cada parlamentar recebe do Congresso
uma cota de quatro passagens por mês, para se deslocar de
seu Estado de origem até Brasília. Por uma norma interna,
duas dessas passagens têm como escala a cidade do Rio de Janeiro,
já que os políticos herdaram de outros tempos o gosto
de passar pela cidade que foi capital do país. Até
aí, nada de mais. Deve-se até incentivar as viagens
dos parlamentares, mesmo para o Rio de Janeiro, na suposição
de que estão trabalhando em benefício dos eleitores.
Mas há detalhes curiosos nessas rotas. Um deputado de Goiás,
para chegar a Goiânia, situada a cerca de 210 quilômetros
de Brasília, poderá percorrer 1 150 quilômetros
para ir ao Rio de Janeiro, outros 1 150 para voltar e ainda mais
250 para finalmente chegar a sua cidade de origem. E os parlamentares
eleitos em Brasília? Bem, esses ganham também passagens
aéreas para o Rio de Janeiro. Não se trata de uma
despesa tão grande, mas o gesto, e a complacência que
nele está embutida, conta muito como agente sinalizador.
As distorções se expandem
quando esse benefício adquire contornos de um privilégio
injustificado. Como nem todas as passagens cedidas pelo Legislativo
são utilizadas pelos parlamentares, que em muitos casos recebem
bilhetes dos governos estaduais, é comum que um deputado
ou senador acabe ganhando muito mais passagens do que tem condições
de usar. No cotidiano do Congresso, essas passagens acabam sendo
negociadas junto às companhias aéreas e trocadas por
bilhetes de roteiros para o exterior, por exemplo. Essas coisas
sempre foram assim, e o atual Congresso não é pior
do que os anteriores. O Brasil, porém, mudou e está
menos tolerante com abusos. "O Congresso é bom", defende
o senador Fernando Henrique Cardoso (PSDB-SP). "Mas como ele não
se parou para assumir o poder que tem hoje, precisa ser ainda aperfeiçoado."
Plenário Vazio -- Com os
novos que conquistou na Constituinte, o Congresso passou da situação
de passageiro para a de motorista -- está ao mesmo tempo
numa situação de maior responsabilidade e de maior
exposição. Ainda estão frescos memória
na memória nacional episódios recentes que em nada
contribuíram para melhorar a imagem do Legislativo. Em junho
de 1985, por exemplo, ao longo de uma sessão destinada a
votar a regulamentação das eleições
municipais daquele ano, sete votos de parlamentares foram considerados
duvidosos e quatro deputados foram flagrados por fotógrafos
"tocando piano". Ou seja, eles acionaram duas vezes os botões
de registro de votos. No ano passado, ao final dos trabalhos da
Constituinte, dois parlamentares, os deputados Felipe Cheidde e
Mário Bouch decidiram não assinar a nova Carta. Justificativa:
sentiram-se constrangidos, pois praticamente não foram a
nenhuma sessão ao longo de toda a duração da
Assembléia. Houve um período durante a confecção
da atual Constituição em que a Mesa tinha dificuldade
para reunir deputados e senadores em número suficiente para
compor o quorum mínimo para abertura de cada sessão.
Hoje em dia, aprovada a nova Carta de leis do país, a situação
não é muito diferente.
Há quinze dias, o senador Nelson
Carneiro (PMDB-RJ), presidente do Senado, passou a cobrar de seus
pares uma presença maior nas sessões. Pelo critério
adotado por ele, os faltosos teriam 3% de desconto em seu salário
mensal, cada vez que não estivessem presentes às votações.
Carneiro chegou a ter esperança de sucesso com a medida,
mas acabou sendo um dos poucos senadores a serem realmente afetados
com sua decisão. Na semana passada, pediu aos funcionários
da Mesa que descontassem um dia de seu salário -- por ele
ter se ausentado de Brasília num dia de votação.
Foi o único senador a ser multado por falta. Por constrangimento
e pudor, pagou a soma que estipulara para os faltosos, numa iniciativa
solitária e inócua contra o absenteísmo. Com
o novo regimento do Senado, aprovado na última quinta-feira
e que ainda deverá ser alvo de exame pelo plenário
do Senado, Carneiro não teria sido prejudicado por seu ato.
Pelo documento, os membros do Senado terão assegurados os
direitos de faltar até a cinco votações por
mês - sem sofrer qualquer tipo de desconto em seus contracheques.
"Pressão Forte"
- Ultimamente, a nação deixou de cobrar dos parlamentares
a assinatura cotidiana de listas de presença, mesmo porque
sua ação tornou-se mais delicada em campos realmente
decisivos, como a elaboração de políticas para
a vida do país. Há poucas semanas, o Executivo mandou
ao Congresso a sua proposta de orçamento para este ano --
e os parlamentares aumentaram as despesas previstas, inclusive os
gastos destinados à Ferrovia Norte-Sul, cujo primeiro trecho
o presidente José Sarney inaugurou sexta-feira passada, no
Maranhão. Antes disso, essa ferrovia tão criticada
era algo associado à teimosia do presidente. Agora, a Norte-Sul
leva também a assinatura do Congresso. Há duas semanas,
quando a Câmara aprovou a recriação do primeiro
lote de estatais, até mesmo ferrenhos adversários
da idéia acabaram sendo tragados pelo mar de oportunismo
que às vezes inunda o Congresso. "Eu vou votar contra a recriação
dessas estatais", disse, por exemplo, o deputado José Lourenço
(PFL-BA), líder de seu partido na Câmara, antes de
o assunto ser colocado em pauta. Horas depois, consultado por um
amigo, Lourenço já manifestava uma mudança
de tom. "A pressão das galerias está muito forte
e está impressionando a bancada", reconheceu José
Lourenço. Depois da votação, quando seu partido
havia se colocado a favor das estatais, o líder encontrou
uma nova explicação para a mudança de opinião.
"Nós não podíamos ser o único partido
a ficar contra a medida", afirmou.
Na verdade, as últimas votações
sobre a recriação de estatais têm contado com
uma assistência pesada nas galerias e discreta no plenário.
Graças a uma artimanha desenvolvida pelos parlamentares,
um assunto como esse pode ser decidido totalmente apenas no chamado
Colégio de Líderes, um grupo que reúne um representante
de cada partido que pode decidir qualquer assunto em nome de sua
bancada. Assim, os líderes dos partidos com representação
no Congresso têm carta branca para tomar decisões,
sem que para isso haja um número mínimo de deputados
e senadores presentes. Nesse caso, a lógica que preside todo
o processo acaba ferindo a aritmética. Como o líder
de um pequeno partido pode pedir à Mesa que verifique se
o número de parlamentares presentes no plenário é
suficiente para iniciar as votações. ele acaba conseguindo
impor ao Colégio uma série de proposições
-- apenas para não solicitar a contagem de seus colegas.
Dessa forma, o líder do PMDB na Câmara, lbsen Pinheiro,
que comanda a maior bancada de deputados, dispõe, no Colégio
de Líderes, do mesmo poder de fogo de um líder como
o deputado César Cais Neto, do PDS, partido cujo número
de deputados é de cerca de um quinto da bancada do PMDB.
Os primeiros sinais explícitos de
insatisfação com a atitude dos parlamentares têm
surgido, como era de esperar, longe das fronteiras do Parlamento.
Na semana passada, sob o regime de congelamento do Plano Verão,
os vereadores de Foz do 1guaçu, no Paraná, aumentaram
seus salários em mais de 200%. Na mesma hora, a população
presente à galeria disparou moedas em direção
aos políticos e despejou uma chuva de vaias. Esta semana,
um novo atrito poderá tomar corpo na esfera federal. O consultor-geral
da República, Saulo Ramos, deve concluir um parecer em que
propõe ao presidente Sarney que simplesmente não cumpra
a decisão dos parlamentares de recriar as empresas estatais
que o governo tentou extinguir. O parecer de Saulo se baseia em
um artigo da Constituição que garante apenas ao presidente
da República o poder de acabar com empresas públicas.
Por essa ótica, na visão do consultor, o Congresso
teria ultrapassado os seus limites ao fazer renascer as estatais.
"Trata-se de uma decisão inconstitucional, que o governo
não precisa cumprir". sustenta Saulo Ramos.
Caridade Pública -- Acusado
de dar guarida a mamatas, o Congresso Nacional pode se orgulhar
de uma faceta muito mais perene e muito mais importante em sua biografia
do que seus tropeços das últimas semanas ou meses.
Foi o Congresso, por exemplo, que derramou a última pá
de cal sobre o regime militar ao eleger pela via indireta um civil
como Tancredo Neves para a Presidência da República.
Da mesma lavra foi a decisão de rejeitar o Decreto-lei n.º
2024, que impunha um pesado arrocho aos assalariados. Recentemente,
foi no Parlamento que se gerou o maior pacote de benefícios
sociais da História do país, com a promulgação
da nova Constituição. O que assusta hoje o país,
porém, não é a habilidade dos parlamentares
de criar boas notícias para seus eleitores e tampouco a sua
compulsão para fazer caridade com o dinheiro público.
A raiz do problema está na efetiva capacidade de deputados
e senadores de, ao cumprir os deveres para os quais foram eleitos,
contribuir para que o país encontre soluções
para seus problemas e fique longe de efervescências que ponham
em risco as liberdades dos cidadãos. "Ou é o Congresso,
ou é a escuridão", define o ministro-chefe do Gabinete
Civil, Ronaldo Costa Couto. O problema é saber que Congresso.
É sempre bom ter algum em funcionamento, mas melhor ainda
será ter em Brasília um Congresso que entenda o compasso
do país, não torre dinheiro dos contribuintes de maneira
irresponsável e saiba aplicar uma ótica de austeridade
a suas decisões -- por respeito aos eleitores, que estão
cansados e não querem mais fazer papel de bobos.
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