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12 de fevereiro de 1997
Terminou a polêmica

A trajetória do mais amado e
odiado jornalista brasileiro

Dizia verdades definitivas sobre física quântica, mas não sabia arrumar a própria mala. Cometia erros incríveis em artigos em que xingava os outros de burro. Exibia-se como um pavão para as câmaras de TV, mas era de uma timidez atroz. Grosso, agressivo e destemperado por escrito, era uma flor no contato pessoal. Tinha dezenas de amigos, mas dava a impressão de ser um solitário. O aparente ranzinza tinha um senso de humor de moleque. Em quase quarenta anos de presença constante na imprensa, milhões de leitores não conseguiam escapar da sua argúcia, da sua cultura, de seus juízos peremptórios e surpreendentes. Era admirado, odiado, imitado. Paulo Francis parecia que não ia morrer nunca. E, no entanto, na manhã de terça-feira passada, lá estava ele, estendido na sala de seu apartamento em Nova York, metido num pijama verde que achava horrível, derrubado por um ataque cardíaco, aos 66 anos.

O Brasil fica mais chato sem Paulo Francis. Às quintas-feiras e aos domingos, não haverá mais no Estado de S. Paulo, em O Globo e outros jornais pelo Brasil afora aquelas páginas de estilo inconfundível. A primeira nota, sempre política, descascava o governo, ou a Petrobrás, ou a telefonia nacional, ou os políticos, ou o Brasil. Depois vinham comentários sobre literatura, História, ópera, balé. De passagem, um pontapé em alguém famoso. Tudo muito pessoal: todas as frases poderiam começar com 'eu acho que'. À noite, Francis não aparecerá mais nos telejornais da Rede Globo, olhando a câmara de cima para baixo com um sorriso irônico, prolongando as últimas sílabas das palavras. Também perde sua alma o programa Manhattan Connection, da Globosat, em que Francis fazia o papel de besta-fera do neo-liberalismo politicamente incorreto, usando o jornalista Caio Blinder como saco de pancada, para divertimento de Lucas Mendes e Nelson Motta. Francis morreu no auge. Era o jornalista mais conhecido do Brasil, um dos mais respeitados, seus livros sempre entravam na lista dos mais vendidos, gostava imensamente do que fazia e ganhava cerca de 50 000 reais por mês.

Às 6 da manhã de terça-feira, a mulher de Francis, a jornalista Sônia Nolasco, da Gazeta Mercantil, telefonou aflita para Lucas Mendes. Queria que o idealizador do Manhattan Connection, íntimo de Francis, a ajudasse a convencer o marido a procurar socorro médico. Francis havia acordado mais cedo do que o habitual, com uma dor forte no lado esquerdo e dificuldade de respirar. Mas, teimoso, não deixava Sônia discar para o 911, o telefone de emergência médica de Nova York. 'É só a bursite', iludia-se Francis, referindo-se à inflamação óssea que seu médico diagnosticara três dias antes. Só concordou em tomar um analgésico, Tylenol, enquanto tentava concentrar-se na leitura dos jornais do dia, sentado no sofá da sala. Ferrado no sono, Lucas Mendes não ouviu o telefone, e o recado de Sônia ficou na secretária eletrônica. Como o marido não melhorasse, a jornalista ligou para a emergência. Em menos de dez minutos uma equipe de paramédicos chegou ao dúplex do casal, na esquina da Rua 47 com a Segunda Avenida. Pediram a Sônia que fosse para outro cômodo, enquanto deitavam seu marido no chão da sala. Ele já estava azulado, devido à ausência de oxigênio na corrente sanguínea. Às 6 e meia os paramédicos avisaram a Sônia que seu marido havia morrido. Ela o cobriu com uma colcha bege. Os amigos começaram a chegar. Os legistas vieram três horas depois, fizeram o seu trabalho e levaram o cadáver numa maca.

Como era possível que Francis estivesse morto? Seu fim de semana tinha sido ótimo. No sábado, assistira a um balé no Lincoln Center: a Mozartiana, segunda coreografia de George Balanchine, que adorava, segundo ele, por ser o único coreógrafo que gostava mesmo de mulher. No domingo, em casa, viu no disc-laser Interlúdio, que Alfred Hitchcock dirigiu em 1946, com Cary Grant e Ingrid Bergman. Chamava a atenção de Sônia para as cenas do filme em que apareciam imagens do Rio de Janeiro antigo, 'antes da invasão dos bárbaros', como dizia. Na segunda-feira, foi à sucursal da Globo para gravar sua participação nos noticiosos da emissora. Lá, os colegas lhe pespegaram o apelido de 'Nhô-Nhô' - ele era o senhor de escravos, e o resto da turma, a senzala. Estava de bom humor. Enquanto era maquilado, mostrava seu relógio Patek Philippe e discorria sobre as qualidades de seu novo computador portátil. 'Tínhamos muito carinho por ele, a sua arrogância era coisa de criança', conta o cameraman Orlando Moreira, que o ensinou a aparecer na frente das lentes e é uma das poucas pessoas de quem Francis levava broncas sem se alterar.

Da Globo, ligou para seu grande amigo Ivan Lessa, em Londres, comentaram Interlúdio, outros filmes, deram risada, Francis trocou o nome de Itamar Franco para Itamar Freitas e se despediram. Também telefonou para Roberto Moritz, um dos donos do banco Matrix, que cuidava de parte dos seus investimentos, para marcar um almoço para o dia seguinte. Na pauta do encontro: discutir a melhor maneira de alocar recursos para os advogados que o defendiam no processo que lhe foi movido por Joel Rennó, presidente da Petrobrás, e outros seis diretores da estatal. À noite, jantou com Sônia no Chien, restaurante chinês na Rua 46, voltou para casa e dormiu.

Nem tudo, no entanto, estava bem nas semanas que precederam a morte. Ele tinha padecimentos físicos que se confundiam com a angústia provocada pelo processo dos diretores da Petrobrás. Em outubro passado, no Manhattan Connection, no entusiasmo e na descontração do programa, Francis cometeu a leviandade de afirmar que 'os diretores da Petrobrás põem dinheiro na Suíça', 'roubam em subfaturamento e superfaturamento', 'é a maior quadrilha que já existiu no Brasil'. Rennó e sua turma lhe abriram um processo em Nova York, pedindo uma indenização por danos morais inconcebível: 100 milhões de dólares. Sem provas para sustentar sua afirmação, ciente de que a pendenga se arrastaria por no mínimo uns cinco anos, com seus advogados calculando os próprios honorários em cerca de 200 000 dólares, o jornalista se desesperou.

'Conheço o Francis desde 1970, falava com ele quase todos os dias ao telefone e nunca o vi tão transtornado', conta Ronald Levinsohn, dono da Faculdade da Cidade, no Rio de Janeiro. 'Ele se queixava de que o objetivo do processo era arruiná-lo financeiramente.' Durante semanas, Francis saiu de casa tão enfurecido que Sônia ligava, alarmada, para seus colegas do Manhattan Connection pedindo que o acalmassem antes de ele entrar no ar. Aos amigos, Francis reconhecia que fizera uma bobagem, e se justificava dizendo que o clima de bate-papo do programa lhe soltara a língua indevidamente. Sem conseguir dormir direito, passou a tomar 2 miligramas diários de Ativan, uma droga calmante. Quando soube que Francis estava profundamente perturbado pelo processo, o senador tucano José Serra, seu amigo, foi ver Fernando Henrique e lhe expôs o problema. O presidente disse a Serra para procurar Rennó e demovê-lo de seguir com o processo. Ao saber disso, Francis se acalmou. Mas o presidente da Petrobrás, no entanto, não tomou nenhuma providência prática para sustar o processo ou chegar a um acordo.

'Se me pedirem para apontar uma única causa da morte dele eu diria que foi o stress provocado pelos problemas jurídicos que estava enfrentando', diz Jesus Cheda, 66 anos, o médico particular de Paulo Francis. É um evidente exagero do doutor Cheda. Coronárias sadias não sucumbem a apenas alguns meses de stress. Clínico geral formado no Brasil e radicado nos Estados Unidos desde 1960, foi ele quem prescreveu calmantes para Francis. Cheda, por sua vez, chegou a ser acusado por alguns jornais de ter diagnosticado erradamente os sinais de infarto iminente em Francis como bursite, sendo o responsável pela sua morte. Francis o procurou na sexta-feira à tarde, quatro dias antes de morrer, reclamando de uma dor forte e paralisante no ombro esquerdo.

O jornalista passou quarenta minutos no consultório do médico amigo, a quem contou que sem a ajuda da mulher não teria conseguido vestir-se pela manhã, tamanho era o desconforto causado pela dor quando tentava levantar o braço. Cheda localizou um ponto inflamado no seu ombro e ali aplicou duas injeções. Uma de anestésico e outra de cortisona, um poderoso antiinflamatório. 'Ele sentiu um alívio imediato', conta o médico. Não ocorreu a Cheda submeter Francis a um eletrocardiograma. E por que não o fez, já que desconforto no braço esquerdo freqüentemente é dor reflexa de uma angina? Cheda responde dizendo que a dor era localizada e foi embora com medicação tópica. Sinal, para ele inequívoco, de que se tratava mesmo de inflamação óssea. 'Além disso, eu conhecia o Francis e seu organismo: ele não era um cardíaco, tinha ótimas taxas de colesterol e triglicérides e sua pressão era normal', afirma o médico. Elias Knobel, cardiologista e chefe do Centro de Atendimento Intensivo do Hospital Albert Einstein, de São Paulo, acha que Cheda agiu corretamente. 'Só um médico com excesso de zelo teria investigado as condições do coração de um paciente conhecido, mesmo tendo localizado e tratado da bursite com sucesso', diz Knobel. Ataques agudos e fatais do coração absolutamente assintomáticos são raros. Nos Estados Unidos, apenas um em cada 100 ataques cardíacos letais ocorre sem aviso prévio. Estatisticamente Francis pode ter sido vítima de um deles.

Nenhum outro jornalista brasileiro neste século teve tanto público e influência quanto Paulo Francis. Uma trajetória extraordinária, que começou nos palcos de teatro do Nordeste, onde fez uma turnê como ator no início dos anos 50, passou pela defesa de posições esquerdistas nos anos 60, o que lhe valeu várias prisões pelo governo militar, e depois pelo estabelecimento em Nova York em 1971, pela ida para a televisão nos 80 e pela defesa cada vez mais entusiasmada do capitalismo nos 90. A cada virada, Francis surpreendia. E se tornava mais popular. Em Nova York, com freqüência brasileiros lhe pediam autógrafos. Era festejado, adulado e temido pelos poderosos. Era de uma arrogância ímpar. 'Vale lembrar aqui que o professor sou eu', disse-lhe o economista americano John Kenneth Galbraith, que Francis entrevistou para a televisão. Professor emérito de Harvard, Galbraith se abespinhou porque o jornalista estava lhe dando lições de economia.

Nascido numa família de classe média carioca, seu nome verdadeiro era Franz Paulo Trannin Heilborn. Foi um menino cabeçudo e vesgo que estudou com padres jesuítas e não fez curso superior. Em O Afeto que Se Encerra, seu livro de memórias, ele conta que, dos 14 aos 27 anos, lia em média seis horas por dia, de tudo. Essa formação autodidata, além do ecletismo, deu-lhe algo mais decisivo na sua formação: a capacidade de pensar por conta própria, de não se preocupar com método ou coerência. Sem saber muito bem para qual profissão se encaminhar, o jovem Franz apresentou-se na companhia de Paschoal Carlos Magno e ofereceu-se para ser ator. Foi aceito na hora, sem teste. Como seu nome era impronunciável, o diretor inventou-lhe um nome artístico, o de Paulo Francis. De ator passou a diretor e logo em seguida a crítico de teatro, com coluna fixa na imprensa. Como crítico, advogava o fim do academicismo e das comédias de costume importadas. Queria realismo, política, discussão séria nos palcos. Era um crítico respeitado e polêmico, que escrevia claro, citava autores que ninguém conhecia, entendia a fundo o teatro grego e Shakespeare. Mas, apesar de toda a sua erudição e racionalismo, protagonizou uma baixaria que marcou época. Sem nenhum motivo inteligível, escreveu um artigo infamante contra Tônia Carrero. O marido da atriz, o italiano Adolfo Celi, procurou-o e se engalfinharam. Paulo Autran também tomou as dores da amiga e partiu para a briga com Francis. Anos depois, o jornalista reconheceu que o artigo era uma infâmia.

Com coluna na imprensa, a passos largos Francis foi ampliando seus horizontes. Abandonou a crítica teatral, passou a fazer artigos sobre cultura e política, tornou-se editor. Ou seja, virou jornalista. E jornalista de esquerda. Estava na contracorrente, na medida em que era admirador de Leon Trotsky e a esquerda brasileira, na década de 60, era majoritariamente stalinista. A oposição entre Francis e os stalinistas estava longe de ser absoluta. Um de seus melhores amigos, naquele período e depois, era o falecido editor Ênio Silveira, intelectual do PCB. O regime militar atingiu-o em cheio, principalmente depois do Ato Institucional nº 5, de dezembro de 1968. No ano seguinte, estava em O Pasquim, jornal ipanemense que, por força das circunstâncias, simbolizou a resistência ao regime militar e teve o condão de renovar a imprensa brasileira. Ali, Francis escreveu artigos virulentos denunciando a agressão militar do imperialismo americano ao Vietnã. O que não impediu a Fundação Ford de lhe conceder uma bolsa que permitiu a sua mudança para Nova York, em 1971. Nos Estados Unidos, Francis continuou esquerdista e colaborador de O Pasquim. Só em 1977, convidado por Claudio Abramo, transferiu-se para a grande imprensa, virando correspondente da Folha de S. Paulo.

Começava a nascer, então, o Francis que morreu na semana passada: página inteira de comentários sobre os mais variados assuntos, notas curtas, pedradas - em José Guilherme Merquior, Ruth Escobar, José Sarney etc. etc. Também começava a curva caprichosa que o levaria da esquerda à direita, da simpatia a Trotsky ao apoio a Fernando Collor de Mello, da rebeldia ao conservadorismo, da solidariedade com os pobres aos vitupérios contra nordestinos e negros. Essa curva, feita sob o signo da independência intelectual, também refletia a mudança dos tempos: a crise do modelo soviético, os Estados Unidos vencendo a Guerra Fria, o capitalismo se expandindo. Mas, como nada é simples, mesmo enriquecendo e se elitizando, Francis continuou a incomodar os bem pensantes, a prestigiar artistas inovadores e marginais, a se arriscar. Agora mesmo, por exemplo, no final do ano, em Paris, dizia em sua suíte no hotel Meurice (diária de 500 dólares) que durante a viagem de Concorde (6 000 dólares a passagem) escreveria um conto sobre uma aeromoça. Queria voltar a fazer ficção, mesmo sabendo que seus romances dos anos 60 haviam sido fracassos retumbantes de crítica e público. No auge da sua glória, queria mais. Descansando em Paris, não via a hora de voltar ao batente da escrita, para se confessar, se expor, criar, cobrar. Era um poço de contradições, de fúrias invisíveis. Como no poema de Mario Faustino, que ele tanto admirava, Francis não soube firmar o nobre pacto entre o cosmo sangrento e a alma pura. Tanta violência, mas tanta ternura. Fará uma falta incrível.

"Gosto que me leiam e saibam o que acho das coisas. É uma forma de existir. Trabalho é a melhor maneira de escapar da realidade"

"Acho que a tendência do intelectual é ser de direita. Ele é por definição um elitista"

"É preciso meter as mãos na cabeça raspada do Vicentinho língua-presa. Eu lhe daria uma chicotada para ver se reage docilmente como escravo"

"Dizem que ofendo as pessoas. É um erro. Trato as pessoas como adultas. Critico-as. Crítica não é raiva. E crítica, às vezes, é estúpida"

"Nenhum filme brasileiro dá certo porque todos os cineastas tentam demagogicamente se colocar na posição de humildes. É falso, visceralmente. Sempre vejo algum favelado em filme brasileiro tenho vontade de sair gritando: é um santo! É um santo!"

"O negro africano não tinha língua escrita, como notaram os exploradores da África no século XIX; logo não pode, pela ordem natural das coisas, possuir uma cultura como a entendemos"

"A função das universidades é criar elites, e não dar diplomas a pés-rapados"

"Fernando Henrique é elegante, é bonito. É um presidente que nos orgulha, porque temos sido governados por tipos estranhíssimos. Mas ele precisa governar para valer"

"Quero que fique registrado que eu favoreceria o fechamento do Congresso ou qualquer outra dessas instituições reacionárias que impedem o progresso do país"

 


 
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