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Reportagens 11 de dezembro de 1985Um fio de esperança Cientistas americanos revelam
Para o americano Davi Felker, 55 anos, e sua família de cinco filhos, 1985 será inesquecível. Catalogado como paciente terminal de câncer, ele estava virtualmente condenado à morte. Nenhum dos recursos médicos conhecidos no tratamento do câncer - cirurgia, radioterapia, químioterapia - se aplicava mais ao seu caso. Não havia garantias de Felker sequer estar vivo até o final do ano - muito menos com chances de recuperação. Sentado num leito hospitalar do Instituto Nacional do Câncer (NCI), em Bethesda, Estado de Maryland, nos Estados Unidos, ele enxugava as lágrimas na semana passada ao dizer as poucas frases que resumiam sua exultante perplexidade. "A vida é cheia de viradas. Há sinais visíveis de que estou melhorando. Estou maravilhado. Não sei por que fui tão abençoado." Felker é um dos 25 pacientes terminais de câncer que se submeteram a um tratamento experimental desenvolvido pelo doutor Steven Rosenberg, um cientista de 45 anos que acumula conhecimentos de biologia, química e física e que na semana passada eletrizou o mundo com a divulgação dos primeiros resultados. Inaugurando o método de terapia imunológica à base de uma proteína denominada interleucina-2, Rosenberg e sua equipe obtiveram uma regressão da doença em onze dos 25 pacientes terminais. Embora a experiência seja de âmbito restrito e sujeita a mais dúvidas do que conclusoes, a sua publicação no último número da prestigiosa revista científica americana The New England Journal of Medicine - espécie de bíblia para a pesquisa médica internacional - serviu de trampolim para que chegasse às primeiras páginas da grande imprensa americana. "É importantíssimo que isso não seja apresentado como a cura do câncer", advertiu com temor justificado o próprio doutor Rosenherg. "Trata-se de um instigante primeiro passo de uma nova forma de atacar a doença." NADA A PERDER - Quanto mais Rosenberg aparecia na televisão, contudo, menos a legião de desesperançados à espera de uma notícia boa prestava atenÇão às nuances e cautelas de seu discurso. Para as telefonistas do Instituto Nacional do Câncer, que normalmente recebem 2.000 chamadas diárias de consultas relacionadas à doença, a notícia gerou atropelos logísticos e morais. O hospital recebeu uma enxurrada de 1.000 chamadas diárias a mais do que o habitual, todas solicitando a inclusão de um nome na lista de pacientes experimentais do doutor Rosenberg. As telefonistas viram-se obrigadas a negar os pedidos. Funcionários de algumas embaixadas da vizinha Washington chegaram a se deslocar até a sede do hospital para solicitar o tratamento especial. "A maioria dos que telefonam está com a vida por um fio ou fala em nome da mãe, de um irmão, uma irmã. Eles não têm nada a perder", diz a funcionária Carol Case. Mas como o Instituto Nacional do Câncer ainda é o único hospital a trabalhar com o novo método, e mesmo assim só pode atender de quatro a oito pacientes por mês, não há o que fazer. A síndrome é semelhante à agitação que acompanhou o noticiário de que Rock Hudson estava com AIDS, só que numa vertente de esperança e não de medo. "É duro dizer 'não' a alguém que está com uma última esperança", afirma Alice Hamm, também telefonista. Vários centros médicos dos Estados Unidos já se candidataram a desenvolver projetos pilotos com a nova terapia, mas o único que anunciou a realização do tratamento experimental foi o Centro de Câncer da Universidade de Wisconsin, em Madison, que aceitará dezoito pacientes. GUINADA RADICAL - Compreensivelmente a classe médica como um todo e as autoridades americanas em particular querem dosar ao máximo uma euforia prematura e desmesurada. Afinal, a cura do câncer é um dos maiores desafios que a ciência médica já encarou, e não foram poucos os alarmes em falso. Houve alarde em torno da vacina contra a tuberculose B.C.G., no início dos anos 70, que parecia conter um potencial anticancerígeno. Houve as experiencias com a droga Thymidine, em 1979. E, sobretudo, houve a descoberta do interferon - a primeira evidência de que a imunologia era um caminho promissor -, cujos resultados até agora ainda são decepcionantes. Para o doutor James T. Kurnick, que também faz pesquisas com a interleucina-2 no Massachusetts General Hospital, o medicamento é útil mas não deve ser considerado mágico. "A interleucina-2 não deve ser considerada uma nova penicilina, e sim uma ferramenta", diz ele. O próprio relatório divulgado pela equipe do doutor Steven Rosenberg aponta os buracos: "Deve-se ressaltar que este estudo compreende um número limitado de pacientes, e que a freqüência e a duração dos resultados clínicos ainda não foram determinadas. A viabilidade e a segurança em aplicar esta terapia em um número grande de pacientes também ainda precisam ser definidas". Por mais que se façam ressalvas, contudo, resta a extraordinária essência da experiência divulgada na semana passada. O fundamental, no caso, não é discutir o exato poder curativo da interleucina-2 neste momento - e sim o princípio que envolve seu desenvolvimento e utilização. De fato, trata-se de uma guinada radical na forma de combater o câncer - até então centrada na cirurgia, radioterapia ou quimioterapia. "Não sei para onde isso vai nos levar, mas é indiscutivelmente um novo rumo", diz Rosenberg. Pela primeira vez, com o auxílio da engenharia genética, foi usado o sistema imunológico do próprio paciente no tratamento de câncer. "Isso é maravilhoso. A medicina e os pesquisadores têm feito avanços fantásticos. Espero, sinceramente, que com esse novo medicamento as pessoas não tenham de sofrer o que eu sofri. Espero do fundo do coração", disse o ministro da Fazenda, Dilson Funaro, 52 anos, que durante dez meses foi submetido a um tratamento quimioterápico para combater tumores que se haviam desenvolvido nos gânglios da cavidade torácica, entre os pulmões, e que hoje, curado, se limita a fazer exames de sangue de três em três meses. Já para o apresentador de TV Abelardo Barbosa, o "Chacrinha", 68 anos, que duas décadas atrás fez radioterapia seguida de uma cirurgia para extirpar um tumor no lóbulo superior do pulmão esquerdo, e que hoje também leva uma vida normal, a batalha científica do câncer ainda não está ganha. "Só o tempo e a prática dirão se o tratamento com a interleucina-2 é válido. Mas acho que está perto o dia em que o câncer vai ser como a tuberculose hoje. Antigamente, a tuberculose era uma doença galopante e era difícil sobreviver a ela. Hoje ninguém mais morre de tuberculose", diz ele. UM MURO - O novo caminho aberto por Steven Rosenberg leva a pesquisa do câncer para outro patamar. Até recentemente os cientistas pensavam no câncer como uma doença de mil faces, cada uma exigindo um tipo específico de medicamento e terapia para ser abordado com sucesso. Rosenberg e os pesquisadores que concentram suas atenções na animação do sistema imunológico sugerem que a maioria dos tipos de câncer pode ser controlada pelo próprio organismo agredido. Basta, para isso, que seus mecanismos de defesa contra infecção e tumores sejam incentivados a funcionar normalmente. "Eles partiram do simples fato de que as pessoas sadias exibem uma barreira permanente, um muro que as defende do câncer e cuja estrutura deve ser devolvida ao doente", diz Roland Mertelsmann, hematologista do Memorial Hospital de Nova York. O que Rosenberg e sua equipe fizeram ao longo dos últimos meses com pacientes terminais sentenciados à morte pelos diagnósticos dos maiores cancerologistas do país foi justamente tentar reconstruir suas barreiras imunológicas. Para isso contaram com a ajuda de uma substância naturalmente secretada pelo corpo humano, a interleucina-2. Eles a obtiveram em doses elevadas da empresa Cetus, da Califórnia, que consegue sintetizá-la com as técnicas da engenharia genética. O procedimento científico da equipe do Instituto Nacional do Câncer ajudou a reforçar a seriedade dos resultados apresentados. Desde 1979, Rosenberg vem testando o método em animais. DUAS ETAPAS - Os pequisadores anunciaram resultados jamais obtidos anteriormente por qualquer outra técnica de tratamento de câncer. Dos 25 pacientes terminais admitidos como voluntários, onze apresentaram regressão parcial de tumores. Um deles, o feliz David Felker, curou-se de um melanoma, um feroz câncer de pele que quando se alastra é fatal em 100% dos casos. Felker tinha tumores já no fêmur e num pulmão. Nove pacientes com câncer no cólon, três com tumores nos rins e dois com a moléstia tomando conta do fígado viram as radiografias de seus órgãos exibirem cada vez tumores menores. O máximo de redução que se conseguiu no caso desses pacientes foi de 50% no tamanho dos tumores. No restante dos pacientes nenhuma reação benéfica foi observada. "Não sei ainda aonde esses números vão nos levar mas eles apontam um caminho inteiramente diferente, pois trata-se da primeira abordagem nova desde que as drogas quimioterápicas foram desenvolvidas há trinta anos", disse Rosenberg em seu comentário mais otimista. Para a indústria os números levantados pelo trabalho dos médicos de Bethesda são prenúncios de investimentos sem precedentes. Os grandes fabricantes de remédios dos Estados Unidos consideram uma droga experimental promissora quando ela apresenta resultados positivos em pelo menos 10% dos pacientes testados. A terapêutica de Rosenberg atingiu 50% já na primeira rodada. O segredo do pesquisador americano foi desenvolver um processo que devolve ao organismo a missão de combater o mal que o aflige, em vez de entupi-lo com drogas poderosas, que atacam com igual virulência o tecido sadio e o doente. Para isso Rosenberg submeteu seus voluntários a um tratamento em duas etapas. Na primeira, por meio de uma máquina especialmente desenvolvida por ele, retirou parte dos glóbulos brancos do sangue e os tratou com doses elevadíssimas de interleucina-2. Depois de três dias imersos numa solução rica nessa substància, os glóbulos brancos se multiplicaram velozmente e ativaram algumas de suas células mais especializadas no ataque a tumores - as chamadas "células assassinas", que estavam inibidas pela doença em estado avançado no organismo. Injetadas de volta no paciente, as células brancas reforçaram de tal forma o sistema imunológico que ele ganhou ânimo e força para combater a doença. Doses extras de interleucina-2 pura continuaram a ser ministradas aos pacientes. Com isso Rosenberg estimulou a continuação do processo de multiplicação dos glóbulos brancos, e aumentou a concentração no sangue de substâncias que combatem doenças. CONTRAPESO - A principal delas é o "Fator de Necrose de Tumores", secretado por um tipo especial de glóbulos brancos. Também aumentou a produção de interferon, a proteína humana que faz o papel de mensageiro do sistema imunológico, levando de uma célula a outra a informação de que o organismo está sendo atacado. "O novo tratamento acerta o alvo mais próximo da mosca do que qualquer outro tentado até hoje", explica Vincent T. Devita Jr., diretor do Instituto Nacional do Câncer dos Estados Unidos. As mais eficientes drogas quimioterápicas, as radioterapias e as cirurgias exibem de contrapeso doses variáveis de subprodutos indesejáveis ao organismo. As sessões de radiação e os remédios contra o câncer provocam a queda dos cabelos, náusea, perda do apetite e queimaduras. Porque deprimem a produção de células sanguíneas e, assim, diminuem o poder de fogo do sistema imunológico do organismo, tais tratamentos acabam redundando, em cerca de 15% dos pacientes, em novos tipos de câncer. As cirurgias, por seu turno, também não são seguras. Um cirurgião, ao extrair um tumor, corre o risco de deixar no corpo do paciente algumas células cancerosas. Ou ainda de, ao cortar o tecido, forçar a entrada de algumas delas na corrente sanguínea e permitir ao câncer que se espalhe pelo organismo. EFEITOS COLATERAIS - A técnica de Rosenberg significa a cura do câncer em l985? "Não. Trata-se de uma promissora linha de pesquisa mas não da cura do câncer", apressa-se em responder o próprio Rosenberg. Ele tem consciência de que seu trabalho deu uma virada sensível num terreno onde os pesquisadores marcavam passos há décadas. É algo comparável à descoberta do dinamarquês nascido na Inglaterra, Niels Jerne. Em 1955 Jeme mostrou que o corpo humano não é uma fábrica de anticorpos contra qualquer tipo de agressor que o ataque mas, sim, que possui estoques fixos de anticorpos que podem ser multiplicados na quantidade necessária. Por essa idéia simples ele ganhou o Prêmio Nobel de Medicina em 1984. Rosenberg sabe também que o método posto de pé por ele e sua equipe apresenta limitações. A primeira delas diz respeito aos efeitos colaterais adversos. A carga adicional de milhões de células ativadas em laboratórios é recebida pelo organismo com algum ônus. Febre, mal-estar, náusea, inchação do baço e, principalmente, o ganho de peso e a dificuldade respiratória são alguns efeitos adversos do tratamento com a interleucina-2. Alguns pacientes chegaram a engordar 10 quilos ao longo da terapêutica. Alguém com câncer, e sem esperança nas técnicas médicas convencionais, pode considerar tais efeitos bastante suportáveis. Existem, contudo, outros entraves. Se a interleucina-2 pode ser obtida hoje em doses gigantescas graças à engenharia genética, o equipamento de separação de glóbulos brancos dos vermelhos desenvolvido por Rosenberg é ainda de uso restrito. Ele só pode receber oito pacientes por mês, mesmo bombeando o sangue 24 horas por dia. MODIFICAÇÕES - Para alargar essa pequena oferta de esperança, o Instituto Nacional do Câncer planeja abrir outros centros experimentais para utilizarem a mesma técnica em outros pontos do território americano. Na semana passada, a Clínica de Câncer da Universidade do Wisconsin, na cidade de Madison, anunciou que receberá a partir do próximo mês dezoito pacientes para seu projeto experimental inspirado nas descobertas de Rosenberg. "Estamos trabalhando o mais rápido que podemos", diz Dan Long, o imunologista que dirige os programas experimentais do NCI. Já existem duas modificações tecnológicas a caminho. Na primeira, uma bomba ligada a um sistema semi-automático aceleraria para apenas 1 hora a retirada e tratamento do sangue dos pacientes. Na segunda, os glóbulos brancos teriam suas células "assassinas" separadas e cultivadas em laboratório até assumirem a dimensão de colônias. Em seguida seriam inoculadas nos pacientes. Como todo método experimental, o do cientista americano precisará ainda de alguns anos até ser normatizado como um procedimento médico de rotina. Rosenberg acredita que serão consumidos ainda "de cinco a dez anos" até que algumas premissas básicas para isso sejam respondidas. Até agora, por exemplo, não se sabe se o método cura os tumores para sempre. Em dois pacientes que deixaram de receber o tratamento, os tumores voltaram a recrudescer um mês após a interrupção do tratamento - embora, submetidos novamente à interleucina-2, tornassem a regredir. Além disso, não se sabe se os pacientes serão obrigados a tomar doses periódicas da droga, de que se tornariam dependentes, como os diabéticos da insulina. Mais: os pesquisadores nem sequer têm evidências de que tipos de câncer são mais suscetíveis ao tratamento. Se Rosenberg teve a alegria de ver uma vítima do melanoma livrar-se do mal, também teve que registrar o fato de que outra, doente acometido da mesma moléstia, não apresentou a menor reação positiva. NO BRASIL - Desde que as empresas Cetus, Genentech e Immunex, todas americanas, passaram a produzir comercialmente a interleucina-2 a partir do ano passado, as experiências com a substância proliferaram pelo mundo. Diversos centros nos Estados têm utilizado a droga, mas limitam-se a injetá-la em doses variáveis na circulação dos pacientes. A única novidade além da oferecida por Rosenberg vem da Itália. Um grupo de pesquisadores do Hospital de Bolonha inventou um emplasto gelatinoso que, embebido em interleucina-2, é introduzido debaixo da pele do paciente. Isso evita que a droga seja inoculada toda de uma vez na corrente, mas vá sendo liberada aos poucos. Os italianos foram também os únicos, além dos americanos, a publicar o resultado de suas experiências. Em seis pacientes com câncer na bexiga tratados com a droga, houve regressão total em três. Em dois deles, os tumores perderam 70% de suas células malignas. A divulgação de tais experimentos veio carregada de uma tardia homenagem a outro astro da ciência nos Estados, o bioquímico Robert Gallo, que ganhou notoriedade mundial ao isolar o vírus da AIDS no ano passado. Foi Gallo que em 1977 conseguiu separar numa solução celular a interleucina-2 de vários outros produtos químicos gerados no metabolismo das células. Desde então as pesquisas com a droga espalharam-se pelo mundo, chegando também ao Brasil. Ao contrário do professor Rosenberg, que usou interleucina-2 feita com técnicas da engenharia genética, os pesquisadores brasileiros que realizam pesquisas com essa proteína têm de contentar-se com experimentos mais modestos. A maioria deles utiliza a própria interleucina-2 que fabrica em laboratório e enfrenta, com isso, uma séria limitação: sem auxílio da engenharia genética é impossível obter-se a droga na sua forma pura. A exceção é a doutora Chloé Musatti, 46 anos, professora adjunta do Departamento de Imunologia da Escola Paulista de Medicina. Utilizando interleucina-2 que recebe em frascos dos Estados Unidos, ela realiza experiências em laboratório desde 1980. E, para quem trabalha num laboratório às voltas com uma crónica falta de verbas e de equipamentos mais modernos, Chloé fez avanços importantes. MEIO DE CULTURA - Entusiasta da imunologia, ela decidiu pesquisar a produção de interleucina-2 em pacientes de câncer. Como uma sua aluna da Escola Paulista de Medicina estivesse estudando a doença de Hodgkin, ou câncer linfático, Chloé voltou seu interesse às vítimas desse mal. "Foi uma escolha inteiramente casual", avisa ela. Utilizando-se do sangue retirado de dezesseis pacientes do mal de Hodgkin, um tipo de câncer dos nódulos linfáticos, Chloé teve primeiro o cuidado de fazer uma confirmação: as vítimas apresentavam, de fato, uma drástica diminuição da resistência a infecções. Em seguida, Chloé descobriu que essa redução ocorria em virtude da baixa produção de interleucina. Realizando testes em tubos de ensaio, Chloé encerrou sua pesquisa demonstrando que, com a administração de interleucina-2, a taxa de linfócitos se normalizava. "Só não consegui responder por que a interleucina diminui", diz Chloé. "Mas isso acho que nem o doutor Rosenberg saberia." Os pesquisadores brasileiros que não desfrutam o conforto de contar com interleucina-2 importada nos seus experimentos, feita com as modernas técnicas da engenharia genética, produzem essa droga a partir de células brancas humanas ou de animais. Os linfócitos são colocados num tubo de ensaio e estimulados por substâncias especiais retiradas de vegetais como o grão de feijão e a semente da jaca. Nesse meio de cultura, os linfócitos se multiplicam e seguem produzindo interleucina. A próxima etapa é a que os pesquisadores chamam de "quantificação": procura-se saber o volume de droga existente na cultura, para depois retirá-la dali. 0 último passo é o da purificação. Por mais que os pesquisadores se esforcem, porém, o método utilizado não impede que permaneçam à volta da interleucina outros produtos do metabolismo celular, como interferons e imunotoxinas. Por essa razão a droga será sempre considerada impura. PASSOS PEQUENOS - Empregando interleucina produzida assim, sem as máquinas e os instrumentos especiais do professor Rosenberg, um grupo de três pesquisadores do Instituto Nacional do Câncer, do Rio de Janeiro, formado pelos imunologistas Vivian Rumjanek, 38 anos, Sérgio Arroyo, 31, e Cláudia Sounderman, 34, realiza em camundongos estudos na mesma direção do trabalho americano. "Como a droga que temos é impura, não podemos fazer experiências em seres humanos", explica Vivian. Desde 1971, os pesquisadores inoculam tumores em camundongos e depois os tratam. Uma das experiências mais animadoras ocorreu este ano com quatro grupos de dez camundongos cada um. Salvo o primeiro grupo, que não recebeu qualquer medicamento, aos demais foram ministradas diferentes drogas contra o câncer. No que recebeu ciclofosfamida, um quimioterápico usado em vários tipos de tumor, os resultados foram ruins. Ao terceiro grupo os pesquisadores ministraram interleucina e ao quarto uma associação dessa droga com ciclofosfamida: o último foi o que apresentou melhores resultados. "Com as experiências que fazemos aqui no Brasil também estamos contribuindo para o progresso da imunologia", diz Vivian. Ela e os colegas festejaram na semana passada os resultados colhidos pelo professor Rosenberg como uma espécie de aval pelo trabalho silencioso realizado até agora, em meio a tantos outros que correm no Instituto Nacional do Câncer. "O professor Rosenberg conseguiu algo muito alentador para todos nós", diz Vivian. O oncologista clínico paulista Vicente Odone Filho, 35 anos, mais cauteloso, lembra que as novidades científicas nem sempre saltam dos laboratórios para a vida real com o mesmo ímpeto. Mesmo assim, ele reconhece que é este mesmo o ritmo em que deve avançar a luta contra o câncer. "Os passos nessa área costumam ser muito medidos e pequenos", afirma Odone. SÉCULO XXI - Feitas todas as contas, fica claro que a humanidade assistiu, na semana passada, à entrada em grande estilo de um novo agente do progresso no palco das maravilhas médicas da nossa era - e esse novo agente tem, agora, todo um caminho a percorrer até que suas potencialidades sejam plenamente desenvolvidas. A inteleucina-2 não é uma descoberta mágica contra o câncer, mesmo porque o mundo de hoje não é um mundo de descobertas - ou seja, do desvendamento súbito de uma realidade ou de uma possibilidade científicas que até então estavam ocultas. As descobertas de hoje têm uma natureza diferente. Elas não derivam mais de um fato ou de uma inspiração isolados - fazem parte, isso sim, de um processo. Desta forma, afloram como fruto de um encadeamento, às vezes longo, às vezes tortuoso, de pesquisas, experiências e idéias que vão se interligando, recebendo novas influências e abrindo pistas, até resultar num avanço efetivamente aplicável. A interleucina-2, nesse sentido, é algo típico da era em que vivemos, e seu percurso não difere do que foi seguido pelos grandes avanços da medicina contemporânea, em que anos, e às vezes décadas, separam o passo inicial do ponto de chegada. Foi, por exemplo, do uso pioneiro de gás de mostarda na I Guerra Mundial que se desembocou no desenvolvimento da quimioterapia, trinta anos depois. A utilização mais genérica da radioterapia durante a II Guerra Mundial, por sua vez, teve como elo original uma descoberta do século passado - o raio X. Não é de se esperar, assim, que a interleucina-2, mesmo tendo sua produção e aplicação altamente ampliadas, passe a gerar curas em massa nos pacientes que hoje sofrem de câncer, ou nas pessoas destinadas a contraí-lo brevemente. É certo, porém, que o princípio no qual a nova droga se baseia rompe uma área na qual o inimigo, até há pouco, estava seguro. Inevitavelmente, essa área será mais e mais devassada pelas armas da ciência daqui para diante e a interleucina-2 ou suas sucessoras parecem reunir as condições para ser importantes agentes de cura no século XXI. Que, sempre é bom lembrar, está a catorze anos de distância. |
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