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11
de abril de 1973
Um entendimento inevitável
Deus, ninguém pode garantir - mas
São José certamente é brasileiro. Se não
fosse, como se poderia explicar que o rio Paraná, ao ser
represado na divisa entre São Paulo e Mato Grosso para saciar
a sede pantagruélica do reservatório de Ilha Solteira,
aparecesse cheio nas terras abaixo da barragem? No dia 1°, quando
foram fechadas as primeiras comportas, o embaixador argentino Julio
Barberis, representante no Comitê da Bacia do Prata, já
havia anunciado seus temores que, de certa forma, deveriam ser compartilhados
por todos aqueles que vivem ao sul da hidrelétrica e às
margens das águas nervosas do Paraná: "A atividade
de enchimento de uma represa num rio internacional de curso sucessivo
é um fato que pode ter conseqüências no meio ambiente
de áreas vizinhas além das fronteiras de um Estado".
Esse receio, apresentado em nome do governo
argentino, estava baseado na suposição de que, contendo-se
as águas em São Paulo, se poderia provocar uma seca
na Argentina, onde o Paraná, depois de encontrar os rios
Paraguai e Uruguai, banha Buenos Aires com o nome de Prata. Apesar
dos temores, a primeira semana da operação, cuja etapa
inicial deverá demorar dois meses, foi surpreendente. Em
Ilha Solteira, vendo o lago pachorrento que começa a subir
nas copas de velhas figueiras, o pescador Sebastião Benedito
Costa assistiu ao cumprimento de uma profecia dos técnicos
que visitaram a região há muitos anos: "Eles
disseram, apontando para lá onde agora está a muralha
de cimento: 'É aqui que vamos parar o rio' ".
São José não falha
- Mas os pescadores têm outras crenças além
da palavra dos engenheiros. Por isso, enquanto diplomatas brasileiros
e argentinos discutiam se a vazão prometida de 2.640 metros
cúbicos por segundo era suficiente para impedir que o Paraná
baixasse demais nos trechos em que é navegável, Sebastião
sabia qual seria, pelo menos por agora, o comportamento do "Paranazão".
E não se surpreendeu quando soube que a torrente saída
de Ilha Solteira levara consigo os espigões de anzóis
de outros pescadores, nem quando viu seu barraco inundado. Com o
fatalismo dos ribeirinhos experientes, reconheceu: "A enchente
de São José, de 19 de março, às vezes
atrasa, às vezes adianta, mas nunca falha". Dentro de
uma semana as águas de São José, depois de
percorrerem a fronteira do Brasil com o Paraguai, chegarão
à Argentina, generosas e bem comportadas, pois, alguns quilômetros
abaixo do barraco de Sebastião, elas foram controladas pelo
lago da hidrelétrica de Jupiá.
Prometendo 2.640 e despejando uma média
de 8.000 metros cúbicos de água por segundo através
das bocas de suas barragens, o Brasil parece ter afogado o primeiro
lance de um novo capítulo de controvérsias hidráulicas
e diplomáticas com a Argentina. Ao que tudo indica, em fevereiro
do próximo ano, quando estará concluída a segunda
etapa do represamento de Ilha Solteira, 22 milhões de metros
cúbicos de terra, pedra e concreto estarão aprisionando
a força de um lago seis vezes maior que a baía de
Guanabara. Dele, um conjunto de vinte gigantescas turbinas despejarão
3,2 milhões de quilowatts na região centro-sul do
Brasil, sem que a Argentina venha a sofrer qualquer prejuízo.
Esperando Godot - Os técnicos
que acompanham o nascimento da nova hidrelétrica estão
seguros disso, e o engenheiro Mário Bhering, presidente da
Eletrobrás, chega a adiantar benefícios para todas
as terras abaixo das usinas: "O rio Paraná passará
a ter uma descarga regularizada, ideal para um regime fluvial e
para sistemas de navegação". Mesmo assim, parece
difícil que garantias oficiais, índices incontestáveis
e até mesmo precedentes reconhecidos, como o do enchimento
de Jupiá, em 1968, realizado com critérios elogiados
pelos próprios argentinos, sejam suficientes para acalmar
o curso de todos os bergantins políticos que se lançaram
ao Paraná.
Acima de todas as quedas do rio, orgulhosamente
superior aos próprios personagens envolvidos, como uma gigantesca
edição do misterioso Godot que os dois mendigos da
peça de Samuel Becket esperavam enquanto trocavam frases
desconexas e sabiamente significativas, o projeto de construção
da hidrelétrica brasileira de Itaipu, na região de
Sete Quedas, é o responsável pela orquestração
de uma demorada sinfonia de divergências diplomáticas
cuja partitura deverá, inevitavelmente, conduzir a um gran
finale de entendimento. Com a força de seus 10 milhões
de quilowatts de potencial, ela faz com que o Brasil, para não
abrir precedentes históricos, resolva encher Ilha Solteira
com generosas torrentes de água e secos procedimentos formais.
No lado argentino, onde também se espera por Itaipu, os técnicos,
mesmo sabendo que a informação brasileira de que seria
repetida a operação de Jupiá era suficiente
para afastar maiores suspeitas, resolveram protestar junto ao Comitê
Intergovernamental Coordenador dos Países da Bacia do Prata.
Assim, como era de se esperar, o embaixador do Brasil em Buenos
Aires, Antônio Francisco Azeredo da Silveira, entregou uma
nota oficial contendo as razões do Itamaraty. Como a enchente
de São José não permitirá que as águas
baixem nos próximos dez dias, era de se presumir que o capítulo
de Ilha Solteira fosse uma página virada na história
das diferenças no Prata. Mas, como ela é apenas um
capítulo de Itaipu, os movimentos prosseguiram. Na terça-feira,
em Nova York, para espanto de uns e de outros, encontraram-se na
mesma sala do aeroporto John Kennedy, esperando a hora de embarcar
no mesmo avião, os chanceleres Mário Gibson Barboza,
do Brasil, e Eduardo McLoughlin. da Argentina, com suas comitivas.
O renomado Watergate - Viajaram
juntos para Washington, onde participariam da reunião da
Assembléia da Organização dos Estados Americanos
e, eventualmente, almoçariam juntos na sexta-feira.
Lá, apesar dos rotineiros e grandiloqüentes
problemas hemisféricos, Itaipu continuou a dirigir boa parte
dos passos das duas delegações. Gibson, abatido por
uma forte gripe, desmarcou o jantar e não saiu da receita
de canja de galinha administrada pelo divertido cozinheiro Chevalier,
um dos mais velhos funcionários da embaixada em Washington.
Em troca, realizou-se apenas um encontro de quarenta minutos. Até
que ele ocorresse, diplomatas dos mais diferentes escalões
procuravam prever se algum dos chanceleres incluiria a questão
das águas no seu discurso. Para felicidade dos brasileiros,
depois de uma longa reunião num canto de salão, McLoughlin
e sua comitiva chegaram a um projeto final que pouco depois estava
na sede da delegação do Itamaraty junto à OEA,
instalada no renomado edifício Watergate.
Como ocorre freqüentemente nas assembléias
interamericanas, esperou-se muito e não aconteceu nada. Gibson
fez um discurso conservador e McLoughlin, mesmo tocando na questão,
foi elegante e hábil. Itaipu, porém, estava nos corredores.
Na sexta-feira, o veterano chanceler paraguaio Raul Sapena Pastor,
cujo país, por controlar a margem direita da calha do rio
Paraná, será sócio na empreitada e terá
direito à metade da energia produzida, anunciou que o presidente
Alfredo Stroessner assinará, no próximo dia 26, em
Brasília, o protocole de constituição da empresa
que deverá erguer e explorar a usina.
Energia diplomática - Contudo,
entre a assinatura de um protocolo e a ligação de
uma casa de força existem muitos anos e vários bilhões
de dólares. Ao que tudo indica, apesar de estarem sendo acelerados
os estudos de viabilidade da usina de Itaipu, que já custaram
60 milhões de dólares, muitos detalhes técnicos
deverão ser esclarecidas, tanto pelos engenheiros paraguaios,
brasileiros e italianos que trabalham às margens do rio Paraná
quanto por atentos diplomatas que, encerrados em salas frias de
casarões luxuosas comprados a aristocratas de todo o mundo,
movem com cautela e discrição os obstáculos
políticos atirados com alguma regularidade nas águas
que correm até a Prata.
Há cerca de cinco anos, a disposição
brasileira de construir uma usina hidrelétrica em Sete Quedas
e, mais recentemente, a sua localização alguns quilômetros
abaixo dos saltos, na região de Itaipu, tornaram-se um fator
de desentendimento com setores políticos argentinos. Essas
divergências nunca transparecem nos discursos ou nas recepções
em que diplomatas dos dois países se saúdam. Pelo
contrário, como é indispensável à existência
da própria diplomacia que ocorram problemas, ela acaba ensinando,
sobretudo, como torná-los estanques e, sobretudo, solúveis.
Por isso, enquanto telegramas das agências internacionais
transmitiam declarações de políticos argentinos
condenando Itaipu, o "milagre brasileiro", o "eixo
Brasília-Washington" e outros perigos, o chanceler Mário
Gibson Barboza dizia, na sexta-feira passada a VEJA: "Por mais
de uma vez já afirmei que a amizade inequívoca, franca
e leal entre o Brasil e a Argentina é um imperativo histórico.
Não considero que haja qualquer problema entre os dois países".
Na noite anterior, em Brasília, o embaixador argentino José
Maria Alvarez de Toledo abrira sua chácara a algumas dezenas
de convidados para um jantar em pequenas mesinhas espalhadas pelas
jardins iluminadas. Lá não se falou em Itaipu nem
em Ilha Solteira. Como também não se falou uma semana
antes, na embaixada americana em Buenos Aires, durante um jantar
para cinqüenta pessoas, onde o embaixador Azeredo da Silveira
e a subsecretária de relações exteriores da
Argentina, Guillermo De La Plaza, encontraram-se diante de ruidosos
músicos e de um menu sustentado por uma galantina de peixe
e galinha ao molho de champanha.
Ameaças ao acordo - Apesar
dos calendários de festividades diplomáticas serem
completamente independentes dos acontecimentos políticos
que se verificam nos países onde são programados,
tanto Azeredo da Silveira quanto Alvarez de Toledo parecem estar
nas extremidades funcionais de uma delicada e fundamental negociação
política. Ao que tudo indica, o protesto argentino contra
Ilha Solteira, somado a uma nova discussão em torna da construção
da usina de Corpus, são estranhos movimentos em direção
a Itaipu. O documento -assinado em setembro do ano passado por Gibson
e McLaughlin no salão indonésia das Nações
Unidas. estabelecendo um entendimento a respeito do aproveitamento
dos rios que se tornou conhecido - talvez erradamente, por não
ter passado da fase de uma troca de cartas - como Acordo de Nova
York, depois de ter sido bem recebido na Argentina, começou
a fazer água durante a campanha eleitoral. O presidente eleito,
Hector Cámpora, anunciou sua disposição de
denunciá-lo e líderes peronistas atacaram-no com violência.
O bom desenho - Evidentemente, seria
uma tolice acreditar que o acordo possa ser um divisor de águas
razoável, pois elas parecem já tê-lo afogado.
Cem ou sem acordo, o Brasil está
planejando Itaipu e a Argentina quer construir, rio abaixo, a usina
de Corpus represando as águas de forma a tornar impossível
a construção da hidrelétrica brasileira. Em
Brasília, os técnicos não acreditam no projeto
de Corpus. "É um desenho a nanquim muito bem feito",
diz um deles. "Precisaria de dezoito meses para ser atualizado",
acrescenta outro.
Talvez estejam exagerando, pois, na pior
das hipóteses, o trabalho, que está reunido em seis
volumes, é obra de um devoto cruzado da eletrificação
argentina, a engenheira Maria Fuschini Mejia, atual delegada junta
à Comissão Mista com o Paraguai na rio Paraná.
Atualmente, ele é um dos mais sérios opositores do
projeto de Itaipu, mas uma idéia clara a respeito das vacilações
de Buenos Aires durante os últimos anos em relação
a Corpus foi oferecida pelo arquiinimigo da hidrelétrica
brasileira, o almirante Isaac Rojas, membro do triunvirato militar
que tomou o poder depois da deposição de Perón.
Enquanto técnicos da Secretaria de Recursos Hídricos
procuram convencer os paraguaios da Administração
Nacional de Eletricidade a concordarem com a inundação
parcial da hidrelétrica de Acaraí, construída
pelo governo de Assunção, Rejas revela:
'"Trata-se de um exemplo típico
do descuido com que são tratados esses importantes assuntos.
Em 1964 o Banco Interamericano de Desenvolvimento concedeu ao Paraguai
um empréstimo de cerca de 20 milhões de dólares
para a execução da obra de Acaraí e, na diretoria
do banco, está representada a Argentina. Mas a questão
não pára aí. Há um ano, aproximadamente,
o funcionário argentino que era diretor do banco e que representava
o nosso país votou pela ampliação de Acaraí,
contra os verdadeiros interesses regionais e argentinos. Desde a
publicação do artigo de Rojas, no jornal "El
Territorio" de 31 de janeiro, tem havido longas negociações
em Assunção e os paraguaios parecem dispostos a aceitar
o projeto de Corpus que, em última análise, acabaria
oferecendo belos lucros em quilowatts.
Os caminhos de conciliação
entre Itaipu e Corpus são muitos e circulam no espaço
de algumas dezenas de metros na altura das duas barragens. Um técnico
brasileiro chegou a admitir "que não parece confortável
se construir uma hidrelétrica durante dez anos com um vizinho
protestando".
Cinturão de países -
Contudo, no confuso clima pós-eleitoral argentino, onde a
25 de maio não deverá ocorrer apenas uma mudança
de presidente, mas uma mudança de regime com a subida ao
poder de um movimento que depois de dezessete anos de proscrição
conseguiu a maioria absoluta do eleitorado, qualquer previsão
a respeito da composição ministerial e de medidas
concretas de política externa do governo Cámpora não
passa de um exercício de fantasia. Como o rio Paraná
tem para os argentinos um profundo significado político e
econômico, a questão de Itaipu, envolta nas águas
encapeladas das disputas de gabinetes e de posições,
parece estar servindo de estuário para formulações
bem mais complicadas.
Num artigo para o número de janeiro
da revista "Estratégia", o engenheiro Julio Sanguinetti,
vice-presidente da União Argentina de Associações
de Engenheiros, depois de ressaltar a importância da Bacia
do Prata, advertiu: "As decisões que se adotem a esse
respeito haverão de condicionar o desenvolvimento sócio-político
e econômico do nosso país, tão fortemente como
o fizeram os que o conduziram ao modelo agro-importador adotado
sob os influxos da geração de 80 e que hoje, tendo
perdido o valor, nos legou uma nação desintegrada
regionalmente". E a seguir, num raciocínio mais amplo
no tempo e no espaço, acrescenta: "Uma Argentina integrada
ao processo de libertação hispano-americana através
da criação de um cinturão de países
autodeterminados do Pacífico seria o ponto de apoio para
reverter a situação atual do Brasil, quem sabe, dentro
de duas décadas, quando o povo brasileiro, mediante seu inevitável
acesso a níveis sociais e de consumo, adquira consciência
de seus direitos e encare seu próprio processo de libertação".
Água na fervura - Evidentemente,
o artigo de Sanguinetti é um trabalho teórico, mas,
como é muito freqüente que os analistas argentinos confundam,
por exemplo, as hipóteses geopolíticas formuladas
pelo general Golbery do Couto e Silva, chefe do Serviço Nacional
de Informações durante o governo Castello Branco,
com a política externa brasileira, seria muito desagradável
para o entendimento entre Buenos Aires e Brasília se do outro
lado da fronteira também se misturassem especulações
intelectuais com decisões nacionais.
Mais pragmático, o ex-subsecretário
das Relações Exteriores Oscar Camilion, autor de um
dos primeiros informes políticos chamando a atenção
do governo para a necessidade de se desenvolver uma política
energética na Bacia do Prata, parece ter colocado alguma
água na fervura de um hipotético confronto entre o
arco do Pacífico e o que se está chamando de "eixo
Brasília-Washington". Mesmo assumindo uma atitude crítica,
ele escreveu: "Poder-se-ia argumentar que, seja qual for o
interesse nacional do Brasil como Estado independente e as aspirações
democráticas da sociedade brasileira, de fato existe hoje
o que se passou a chamar de 'eixo Brasília-Washington' que
a diplomacia argentina tem que orientar-se para quebrar. Este argumento
é mais de efeito que real, ao menos como base de uma diplomacia
argentina de projeção continental. Isso porque com
a mesma ou maior razão se pode falar de um eixo Washington-México
ou um eixo Washington-Caracas. Além disso, é uma hipótese
bastante infundada a que venha a acreditar, por exemplo, em divergências
substanciais entre o Brasil e o Peru. ( ... ) Sucede também
que, por agora, as vinculações entre o Brasil e pelo
menos dois de nossos países limítrofes, Bolívia
e Paraguai, estão passando por um momento de notória
excelência".
A ameaça geopolítica -
Há razoáveis indícios de que a usina de Corpus,
o eixo e muitos outros receios façam parte de um só
pacote que, atirado contra as obras de Itaipu, poderiam retardar
seu início e, com isso, afastar fantasmas geopolíticos
que rondam o nordeste da Argentina, hipoteticamente ameaçado
por uma rede de estradas e de quilowatts brasileiros. Em 1972, no
jornal "Clarin", o general da reserva Juan Enrique Guglialmelli,
um ano depois de ter deixado a secretaria do Conselho Nacional de
Desenvolvimento, descreveu uma assombrosa manobra a que chamou de
"Operativo Missiones", onde, valendo-se dos desníveis
de fronteiras, construindo superportos e lançando estradas,
o Brasil assumiria mais uma vez o porte imperialista com que foi
retratado no Prata durante o Império.
Como até hoje nenhum país
de razoáveis proporções territoriais conseguiu
provar definitivamente que não é imperialista, nem
mesmo a própria Argentina, o Brasil não parece disposto
a paralizar projetos necessários ao seu desenvolvimento para
satisfazer intuições alheias. Enquanto isso, o Paraguai,
que foi convidado para se associar a projetos hidrelétricos
argentinos com menos de 50 por cento de direitos, prepara-se para
dividir a metade das vantagens de Itaipu, e seu principal técnico
em assuntos hidrelétricos, Enzo Debernardi, propôs,
na semana passada, que se estude uma possibilidade de participação
brasileira no projeto de Corpus.
Sólidos argumentos - Ao largo
dessa discussão bastante estimulada pelo momento político
argentino, começam a se formar ilhas de sensatez e já
se pode acreditar que algum representante do governo Cámpora
esteja se preparando para negociar com o Brasil a uma razoável
distância do alarido.
Assim, quando começar o novo governo,
os dois países haverão de manter conversações
com base nos quilômetros de fronteiras comuns e nos números
de seu comércio exterior. Então, se descobrirá
que se o Brasil pode estreitar as águas do Paraná,
a Argentina pode apertar o consumo de pão em Brasília
atrasando a partida de um cargueiro com trigo. E também ficará
claro que pelo menos cinqüenta produtos argentinos vivem quase
exclusivamente para o mercado brasileiro, desde arame farpado e
barbeadores elétricos até um razoável comércio
de frutas que chega a 50 milhões de dólares. Afinal
de contas, quando dois países aumentam seu comércio
de manufaturas de 200 milhões de dólares para 350
em quatro anos é razoável supor que tenham sólidos
argumentos para se entenderem. O comércio argentino de manufaturas,
que cresce 6 por cento ao ano no mundo, vem aumentando em 30 por
cento ao ano para o Brasil.
O hábil negociador - Para
negociar com os argentinos, o Itamaraty dispõe hoje de um
de seus mais articulados diplomatas. Vestindo freqüentes ternos
escuros, levantando-se da cadeira e aproximando o rosto a quase
um palmo de seu interlocutor quando deseja marcar uma afirmação,
Azeredo da Silveira, aos 54 anos, está no posto mais importante
de sua carreira, depois de ter liderado o bloco subdesenvolvido
na reunião da UNCTAD de Nova Délhi, em 1968. Seu bisavô
foi o negociador brasileiro que se entendeu com o presidente argentino
Bartolomeu Mitre no século passado e seu avô era o
ardiloso presidente do Senado no fim da República Velha.
Contudo, de forma quase surpreendente para um diplomata, evita falar
da ascendência como se ela o tivesse deserdado. Em Buenos
Aires, com uma agilidade desconcertante, oscila entre um trabalho
monástico e um círculo de relações que
lhe permite atravessar incólume qualquer borrasca política.
No Itamaraty, alguns lhe atribuem qualidades
de negociador quase mágicas e, certamente, é o único
embaixador capaz de reunir, em 24 horas, uma equipe de diplomatas
espalhados por diversos postos para redigir um documento sobre a
política no Prata, comércio de especiarias ou mercado
de arte.
Erros do passado - A posição
brasileira diante do novo governo argentino parece ser de razoável
cordialidade, mas nenhuma declaração política
feita antes da posse de Cámpora haverá de mobilizar
a chancelaria brasileira. Por enquanto, em Brasília, alguns
diplomatas limitam-se a localizar erros concretos praticados pelo
Brasil num passado recente que agora poderão criar, pelo
menos, situações embaraçosas. Em 1964, por
exemplo, o governo Castello Branco, interpretando de forma discutível
a legislação internacional sobre navegação
aérea, proibiu que um cidadão argentino prosseguisse
seu vôo para Buenos Aires, apesar de ser um simples passageiro
em trânsito num avião da Iberia. Chamava-se Juan Domingo
Perón. Recentemente, quando se procurou identificar nesse
ato uma prova de hostilidade ao peronismo, o então chanceler
argentino Miguel Angel Zavalla Ortíz reconheceu que fizera
um pedido formal ao Itamaraty para que sustasse a viagem de Perón.
Como Ortíz, que em 1955 estava num dos aviões que
bombardearam a Casa Rosada para depor o presidente, está
agora na Frente Justicialista que levou Cámpora ao poder,
é de se acreditar que os ressentimentos já tenham
desaparecido.
Perón, numa longa entrevista à
revista "Manchete", lembrou que o atrito entre Brasília
e Buenos Aires só interessa a forças colocadas fora
do hemisfério. Essa declaração, que não
parece ter sido suficiente para levar ao repouso estandartes antibrasileiros,
representa, porém, que o núcleo central do atual governo
não está definitivamente contagiado por dramáticos
quadros geopolíticos, ricos no risco da imaginação
e pobres na base científica desejável.
O que interessa - A questão
central para o Brasil é Itaipu, mas acreditar que esta também
seja o problema fundamental dos argentinos seria cometer uma perigosa
integração de problemas. A hidrelétrica brasileira,
colocada a serviço de um parque industrial que exige a duplicação
do parque energético a cada cinco anos, é, para o
engenheiro Mário Bhering, "um prato para cinco garfadas".
Na Argentina, o problema ainda não tem nome preciso, pois
os projetos estão atrasados. É quase certo que a solução
esteja em Corpus, mas pode também estar em Apipé.
De qualquer forma, lutar contra a instalação de 10
milhões de quilowatts numa região selvagem e pobre
com argumentos de ciência política talvez seja uma
fórmula doentia de medievalismo. "O que verdadeiramente
interessa do ponto de vista argentino é uma política
dinâmica de aproveitamento dos recursos. É típico
o que acontece com as obras de Salto Grande e Apipé, que
deveriam estar concluídas no curso da década dos 60
e ainda estão em planos", disse o ex-presidente Arturo
Frondizi numa curta declaração sobre a questão
das hidrelétricas, durante o período pré-eleitoral.
Fato consumado - Para o Brasil,
o surgimento de problemas concretos e esotéricos em suas
relações com a Argentina servirá para demonstrar
a importância capital da América Latina em sua política
externa. Ao que tudo indica, o ciclo de políticas conservadoras
inaugurado há pouco mais de dez anos ruiu lentamente e exige
do Itamaraty uma agilidade bastante mais complicada que a rotina
onde se negociava com o presidente Eduardo Frei no Chile, Fernando
Belaunde Terry no Peru, Pacheco Areco no Uruguai e Juan Carlos Onganía
na Argentina.
Enquanto isso, repetindo mais uma vez o
eterno contraste entre as grandes formulações dos
governantes e as razoáveis necessidades dos governados, Angel
Benito González Meza o prefeito de Puerto Esperanza, pequena
cidade da fronteira brasileiro-argentina, às margens do rio
Paraná, onde não se consegue captar nem a televisão
argentina nem a brasileira, via a questão incendiária
da semana passada com bastante simplicidade: "Até agora
não senti nenhuma influência. Li nos jornais que houve
um protesto. O rio está uns dois ou três metros mais
alto que o normal. Daqui a uns dois ou três meses, talvez
a gente perceba algo. Mas, enfim, Ilha Solteira é uma obra
de avanço que não se pode deter. Afinal, a represa
poderá diminuir o caudal, mas os outros afluentes do Paraná
estão situados abaixo dela e poderão manter a vazão.
A percentagem que ela roubará será mínima".
Itaipu, em Puerto Esperanza, ainda é um assunto pouco debatido,
apesar de que em 1980 a usina estará funcionando a poucas
dezenas de quilômetros do vilarejo pacato.
Contudo, enquanto nas grandes cidades se
discute a construção da hidrelétrica em termos
apaixonados e nas pequenas mal se sabe do que se trata, o engenheiro
Mário Bhering, em seu gabinete na sede da Eletrobrás,
no Rio de Janeiro, assegura: "Itaipu é um fato consumado"
.
O BEM E O MAL PARA A OBRA DE ITAIPU
Por mais tecnicismos hidráulicos
e geopolíticos que envolvam a questão das hidrelétricas
do Prata, ela se resume a um conjunto de possibilidades e dificuldades.
No mapa está o rio Paraná com as três usinas
discutidas: Itaipu, Apipé-Yaciretá e Corpus. Nas três,
o Paraguai entra como sócio em 50%. O Brasil quer construir
ltaipu, e a Argentina, as outras duas. Os gráficos mostram
onde há acordo, onde há conflito e como se poderá
chegar a algum entendimento.
SEM INCOMPATIBILIDADES Até meados
do ano passado, a Argentina estava concedendo grande prioridade
ao seu projeto de hidrelétrica na região de Apipé-Yaciretá.
É uma idéia que vem sendo discutida desde 1957, e
a obra deverá ser realizada com a colaboração
do Paraguai. Contudo, técnicos dos dois países ainda
não chegaram a uma conclusão definitiva a respeito
do traçado da barragem.
Como o projeto brasileiro de construção
de Itaipu prevê que as águas sejam despejadas a uma
cota de 105 metros acima do nível do mar e Apipé pretende
represar o rio a 86 metros, não há incompatibilidade
entre as duas obras. Para os argentinos, essa hidrelétrica
pode ter importância discutível, pois as características
topográficas da região onde será levantada
exigem que a muralha do dique tenha uma extensão de 40 a
60 quilômetros. Assim, cada quilowatt instalado custará
cerca de 600 dólares, três vezes mais que o de Itaipu,
onde a barragem deverá ter no máximo 3 quilômetros.
UMA QUESTÃO DE NÍVEL -
Atualmente, o Brasil deseja construir Itaipu com a descarga a 105
metros e a Argentina diz-se disposta a levantar a hidrelétrica
de Corpus, com potência de 5 milhões de quilowatts,
represando as águas na cota de 120 metros. A menos que as
leis da hidráulica deixem de vigorar na bacia do Prata, os
projetos são conflitantes, pois o lago afogaria a saída
de Itaipu.
Mas essa não é a única
dificuldade geográfica que ronda o projeto. Para erguer a
barragem seria inevitável afogar a metade da potência
da usina paraguaia de Acaraí, onde já foram investidos
70 milhões de dólares. No lado brasileiro, seria necessária
uma autorização do governo para que fosse inundado
um braço de terra de 20 quilômetros de extensão.
Como argentinos e paraguaios serão
sócios, a perda de Acaraí seria compensada com a conquista
de 2,5 milhões de quilowatts na nova obra. Em Buenos Aires
acredita-se que, trabalhando-se num ritmo acelerado, os estudos
de factibilidade estariam prontos na segunda metade de 1974.
SUBIR OU DESCER - A conciliação
entre as duas obras dependerá da altura das barragens. Se
os argentinos não fizessem Corpus a 120 metros, mas a 100,
o Brasil poderia descarregar em Itaipu a 105. Da mesma forma, se
o Brasil não descarregasse a 105, mas a 130, Corpus poderia
ter o nível de sua represa a 120.
Quem vai subir e quem vai descer só
se poderá saber depois de sérias negociações.
Para o Brasil, a mudança significaria a perda de 2 dos 10
milhões de quilowatts de potência e a elevação
do custo da obra em ltaipu. A energia perdida seria compensada com
a construção de Corpus. Contudo, resta uma única
pergunta: se o Brasil em 1980 já estiver com Itaipu operando
dentro da solução ideal argentina e Corpus continuar
sendo um projeto cujo estudo de viabilidade poderá ficar
pronto apenas na segunda metade do próximo ano, onde poderá
reclamar seus 2 milhões de quilowatts?
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