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  11 de abril de 1973
Um entendimento inevitável

Deus, ninguém pode garantir - mas São José certamente é brasileiro. Se não fosse, como se poderia explicar que o rio Paraná, ao ser represado na divisa entre São Paulo e Mato Grosso para saciar a sede pantagruélica do reservatório de Ilha Solteira, aparecesse cheio nas terras abaixo da barragem? No dia 1°, quando foram fechadas as primeiras comportas, o embaixador argentino Julio Barberis, representante no Comitê da Bacia do Prata, já havia anunciado seus temores que, de certa forma, deveriam ser compartilhados por todos aqueles que vivem ao sul da hidrelétrica e às margens das águas nervosas do Paraná: "A atividade de enchimento de uma represa num rio internacional de curso sucessivo é um fato que pode ter conseqüências no meio ambiente de áreas vizinhas além das fronteiras de um Estado".

Esse receio, apresentado em nome do governo argentino, estava baseado na suposição de que, contendo-se as águas em São Paulo, se poderia provocar uma seca na Argentina, onde o Paraná, depois de encontrar os rios Paraguai e Uruguai, banha Buenos Aires com o nome de Prata. Apesar dos temores, a primeira semana da operação, cuja etapa inicial deverá demorar dois meses, foi surpreendente. Em Ilha Solteira, vendo o lago pachorrento que começa a subir nas copas de velhas figueiras, o pescador Sebastião Benedito Costa assistiu ao cumprimento de uma profecia dos técnicos que visitaram a região há muitos anos: "Eles disseram, apontando para lá onde agora está a muralha de cimento: 'É aqui que vamos parar o rio' ".

São José não falha - Mas os pescadores têm outras crenças além da palavra dos engenheiros. Por isso, enquanto diplomatas brasileiros e argentinos discutiam se a vazão prometida de 2.640 metros cúbicos por segundo era suficiente para impedir que o Paraná baixasse demais nos trechos em que é navegável, Sebastião sabia qual seria, pelo menos por agora, o comportamento do "Paranazão". E não se surpreendeu quando soube que a torrente saída de Ilha Solteira levara consigo os espigões de anzóis de outros pescadores, nem quando viu seu barraco inundado. Com o fatalismo dos ribeirinhos experientes, reconheceu: "A enchente de São José, de 19 de março, às vezes atrasa, às vezes adianta, mas nunca falha". Dentro de uma semana as águas de São José, depois de percorrerem a fronteira do Brasil com o Paraguai, chegarão à Argentina, generosas e bem comportadas, pois, alguns quilômetros abaixo do barraco de Sebastião, elas foram controladas pelo lago da hidrelétrica de Jupiá.

Prometendo 2.640 e despejando uma média de 8.000 metros cúbicos de água por segundo através das bocas de suas barragens, o Brasil parece ter afogado o primeiro lance de um novo capítulo de controvérsias hidráulicas e diplomáticas com a Argentina. Ao que tudo indica, em fevereiro do próximo ano, quando estará concluída a segunda etapa do represamento de Ilha Solteira, 22 milhões de metros cúbicos de terra, pedra e concreto estarão aprisionando a força de um lago seis vezes maior que a baía de Guanabara. Dele, um conjunto de vinte gigantescas turbinas despejarão 3,2 milhões de quilowatts na região centro-sul do Brasil, sem que a Argentina venha a sofrer qualquer prejuízo.

Esperando Godot - Os técnicos que acompanham o nascimento da nova hidrelétrica estão seguros disso, e o engenheiro Mário Bhering, presidente da Eletrobrás, chega a adiantar benefícios para todas as terras abaixo das usinas: "O rio Paraná passará a ter uma descarga regularizada, ideal para um regime fluvial e para sistemas de navegação". Mesmo assim, parece difícil que garantias oficiais, índices incontestáveis e até mesmo precedentes reconhecidos, como o do enchimento de Jupiá, em 1968, realizado com critérios elogiados pelos próprios argentinos, sejam suficientes para acalmar o curso de todos os bergantins políticos que se lançaram ao Paraná.

Acima de todas as quedas do rio, orgulhosamente superior aos próprios personagens envolvidos, como uma gigantesca edição do misterioso Godot que os dois mendigos da peça de Samuel Becket esperavam enquanto trocavam frases desconexas e sabiamente significativas, o projeto de construção da hidrelétrica brasileira de Itaipu, na região de Sete Quedas, é o responsável pela orquestração de uma demorada sinfonia de divergências diplomáticas cuja partitura deverá, inevitavelmente, conduzir a um gran finale de entendimento. Com a força de seus 10 milhões de quilowatts de potencial, ela faz com que o Brasil, para não abrir precedentes históricos, resolva encher Ilha Solteira com generosas torrentes de água e secos procedimentos formais. No lado argentino, onde também se espera por Itaipu, os técnicos, mesmo sabendo que a informação brasileira de que seria repetida a operação de Jupiá era suficiente para afastar maiores suspeitas, resolveram protestar junto ao Comitê Intergovernamental Coordenador dos Países da Bacia do Prata. Assim, como era de se esperar, o embaixador do Brasil em Buenos Aires, Antônio Francisco Azeredo da Silveira, entregou uma nota oficial contendo as razões do Itamaraty. Como a enchente de São José não permitirá que as águas baixem nos próximos dez dias, era de se presumir que o capítulo de Ilha Solteira fosse uma página virada na história das diferenças no Prata. Mas, como ela é apenas um capítulo de Itaipu, os movimentos prosseguiram. Na terça-feira, em Nova York, para espanto de uns e de outros, encontraram-se na mesma sala do aeroporto John Kennedy, esperando a hora de embarcar no mesmo avião, os chanceleres Mário Gibson Barboza, do Brasil, e Eduardo McLoughlin. da Argentina, com suas comitivas.

O renomado Watergate - Viajaram juntos para Washington, onde participariam da reunião da Assembléia da Organização dos Estados Americanos e, eventualmente, almoçariam juntos na sexta-feira.

Lá, apesar dos rotineiros e grandiloqüentes problemas hemisféricos, Itaipu continuou a dirigir boa parte dos passos das duas delegações. Gibson, abatido por uma forte gripe, desmarcou o jantar e não saiu da receita de canja de galinha administrada pelo divertido cozinheiro Chevalier, um dos mais velhos funcionários da embaixada em Washington. Em troca, realizou-se apenas um encontro de quarenta minutos. Até que ele ocorresse, diplomatas dos mais diferentes escalões procuravam prever se algum dos chanceleres incluiria a questão das águas no seu discurso. Para felicidade dos brasileiros, depois de uma longa reunião num canto de salão, McLoughlin e sua comitiva chegaram a um projeto final que pouco depois estava na sede da delegação do Itamaraty junto à OEA, instalada no renomado edifício Watergate.

Como ocorre freqüentemente nas assembléias interamericanas, esperou-se muito e não aconteceu nada. Gibson fez um discurso conservador e McLoughlin, mesmo tocando na questão, foi elegante e hábil. Itaipu, porém, estava nos corredores. Na sexta-feira, o veterano chanceler paraguaio Raul Sapena Pastor, cujo país, por controlar a margem direita da calha do rio Paraná, será sócio na empreitada e terá direito à metade da energia produzida, anunciou que o presidente Alfredo Stroessner assinará, no próximo dia 26, em Brasília, o protocole de constituição da empresa que deverá erguer e explorar a usina.

Energia diplomática - Contudo, entre a assinatura de um protocolo e a ligação de uma casa de força existem muitos anos e vários bilhões de dólares. Ao que tudo indica, apesar de estarem sendo acelerados os estudos de viabilidade da usina de Itaipu, que já custaram 60 milhões de dólares, muitos detalhes técnicos deverão ser esclarecidas, tanto pelos engenheiros paraguaios, brasileiros e italianos que trabalham às margens do rio Paraná quanto por atentos diplomatas que, encerrados em salas frias de casarões luxuosas comprados a aristocratas de todo o mundo, movem com cautela e discrição os obstáculos políticos atirados com alguma regularidade nas águas que correm até a Prata.

Há cerca de cinco anos, a disposição brasileira de construir uma usina hidrelétrica em Sete Quedas e, mais recentemente, a sua localização alguns quilômetros abaixo dos saltos, na região de Itaipu, tornaram-se um fator de desentendimento com setores políticos argentinos. Essas divergências nunca transparecem nos discursos ou nas recepções em que diplomatas dos dois países se saúdam. Pelo contrário, como é indispensável à existência da própria diplomacia que ocorram problemas, ela acaba ensinando, sobretudo, como torná-los estanques e, sobretudo, solúveis. Por isso, enquanto telegramas das agências internacionais transmitiam declarações de políticos argentinos condenando Itaipu, o "milagre brasileiro", o "eixo Brasília-Washington" e outros perigos, o chanceler Mário Gibson Barboza dizia, na sexta-feira passada a VEJA: "Por mais de uma vez já afirmei que a amizade inequívoca, franca e leal entre o Brasil e a Argentina é um imperativo histórico. Não considero que haja qualquer problema entre os dois países". Na noite anterior, em Brasília, o embaixador argentino José Maria Alvarez de Toledo abrira sua chácara a algumas dezenas de convidados para um jantar em pequenas mesinhas espalhadas pelas jardins iluminadas. Lá não se falou em Itaipu nem em Ilha Solteira. Como também não se falou uma semana antes, na embaixada americana em Buenos Aires, durante um jantar para cinqüenta pessoas, onde o embaixador Azeredo da Silveira e a subsecretária de relações exteriores da Argentina, Guillermo De La Plaza, encontraram-se diante de ruidosos músicos e de um menu sustentado por uma galantina de peixe e galinha ao molho de champanha.

Ameaças ao acordo - Apesar dos calendários de festividades diplomáticas serem completamente independentes dos acontecimentos políticos que se verificam nos países onde são programados, tanto Azeredo da Silveira quanto Alvarez de Toledo parecem estar nas extremidades funcionais de uma delicada e fundamental negociação política. Ao que tudo indica, o protesto argentino contra Ilha Solteira, somado a uma nova discussão em torna da construção da usina de Corpus, são estranhos movimentos em direção a Itaipu. O documento -assinado em setembro do ano passado por Gibson e McLaughlin no salão indonésia das Nações Unidas. estabelecendo um entendimento a respeito do aproveitamento dos rios que se tornou conhecido - talvez erradamente, por não ter passado da fase de uma troca de cartas - como Acordo de Nova York, depois de ter sido bem recebido na Argentina, começou a fazer água durante a campanha eleitoral. O presidente eleito, Hector Cámpora, anunciou sua disposição de denunciá-lo e líderes peronistas atacaram-no com violência.

O bom desenho - Evidentemente, seria uma tolice acreditar que o acordo possa ser um divisor de águas razoável, pois elas parecem já tê-lo afogado.

Cem ou sem acordo, o Brasil está planejando Itaipu e a Argentina quer construir, rio abaixo, a usina de Corpus represando as águas de forma a tornar impossível a construção da hidrelétrica brasileira. Em Brasília, os técnicos não acreditam no projeto de Corpus. "É um desenho a nanquim muito bem feito", diz um deles. "Precisaria de dezoito meses para ser atualizado", acrescenta outro.

Talvez estejam exagerando, pois, na pior das hipóteses, o trabalho, que está reunido em seis volumes, é obra de um devoto cruzado da eletrificação argentina, a engenheira Maria Fuschini Mejia, atual delegada junta à Comissão Mista com o Paraguai na rio Paraná. Atualmente, ele é um dos mais sérios opositores do projeto de Itaipu, mas uma idéia clara a respeito das vacilações de Buenos Aires durante os últimos anos em relação a Corpus foi oferecida pelo arquiinimigo da hidrelétrica brasileira, o almirante Isaac Rojas, membro do triunvirato militar que tomou o poder depois da deposição de Perón. Enquanto técnicos da Secretaria de Recursos Hídricos procuram convencer os paraguaios da Administração Nacional de Eletricidade a concordarem com a inundação parcial da hidrelétrica de Acaraí, construída pelo governo de Assunção, Rejas revela:

'"Trata-se de um exemplo típico do descuido com que são tratados esses importantes assuntos. Em 1964 o Banco Interamericano de Desenvolvimento concedeu ao Paraguai um empréstimo de cerca de 20 milhões de dólares para a execução da obra de Acaraí e, na diretoria do banco, está representada a Argentina. Mas a questão não pára aí. Há um ano, aproximadamente, o funcionário argentino que era diretor do banco e que representava o nosso país votou pela ampliação de Acaraí, contra os verdadeiros interesses regionais e argentinos. Desde a publicação do artigo de Rojas, no jornal "El Territorio" de 31 de janeiro, tem havido longas negociações em Assunção e os paraguaios parecem dispostos a aceitar o projeto de Corpus que, em última análise, acabaria oferecendo belos lucros em quilowatts.

Os caminhos de conciliação entre Itaipu e Corpus são muitos e circulam no espaço de algumas dezenas de metros na altura das duas barragens. Um técnico brasileiro chegou a admitir "que não parece confortável se construir uma hidrelétrica durante dez anos com um vizinho protestando".

Cinturão de países - Contudo, no confuso clima pós-eleitoral argentino, onde a 25 de maio não deverá ocorrer apenas uma mudança de presidente, mas uma mudança de regime com a subida ao poder de um movimento que depois de dezessete anos de proscrição conseguiu a maioria absoluta do eleitorado, qualquer previsão a respeito da composição ministerial e de medidas concretas de política externa do governo Cámpora não passa de um exercício de fantasia. Como o rio Paraná tem para os argentinos um profundo significado político e econômico, a questão de Itaipu, envolta nas águas encapeladas das disputas de gabinetes e de posições, parece estar servindo de estuário para formulações bem mais complicadas.

Num artigo para o número de janeiro da revista "Estratégia", o engenheiro Julio Sanguinetti, vice-presidente da União Argentina de Associações de Engenheiros, depois de ressaltar a importância da Bacia do Prata, advertiu: "As decisões que se adotem a esse respeito haverão de condicionar o desenvolvimento sócio-político e econômico do nosso país, tão fortemente como o fizeram os que o conduziram ao modelo agro-importador adotado sob os influxos da geração de 80 e que hoje, tendo perdido o valor, nos legou uma nação desintegrada regionalmente". E a seguir, num raciocínio mais amplo no tempo e no espaço, acrescenta: "Uma Argentina integrada ao processo de libertação hispano-americana através da criação de um cinturão de países autodeterminados do Pacífico seria o ponto de apoio para reverter a situação atual do Brasil, quem sabe, dentro de duas décadas, quando o povo brasileiro, mediante seu inevitável acesso a níveis sociais e de consumo, adquira consciência de seus direitos e encare seu próprio processo de libertação".

Água na fervura - Evidentemente, o artigo de Sanguinetti é um trabalho teórico, mas, como é muito freqüente que os analistas argentinos confundam, por exemplo, as hipóteses geopolíticas formuladas pelo general Golbery do Couto e Silva, chefe do Serviço Nacional de Informações durante o governo Castello Branco, com a política externa brasileira, seria muito desagradável para o entendimento entre Buenos Aires e Brasília se do outro lado da fronteira também se misturassem especulações intelectuais com decisões nacionais.

Mais pragmático, o ex-subsecretário das Relações Exteriores Oscar Camilion, autor de um dos primeiros informes políticos chamando a atenção do governo para a necessidade de se desenvolver uma política energética na Bacia do Prata, parece ter colocado alguma água na fervura de um hipotético confronto entre o arco do Pacífico e o que se está chamando de "eixo Brasília-Washington". Mesmo assumindo uma atitude crítica, ele escreveu: "Poder-se-ia argumentar que, seja qual for o interesse nacional do Brasil como Estado independente e as aspirações democráticas da sociedade brasileira, de fato existe hoje o que se passou a chamar de 'eixo Brasília-Washington' que a diplomacia argentina tem que orientar-se para quebrar. Este argumento é mais de efeito que real, ao menos como base de uma diplomacia argentina de projeção continental. Isso porque com a mesma ou maior razão se pode falar de um eixo Washington-México ou um eixo Washington-Caracas. Além disso, é uma hipótese bastante infundada a que venha a acreditar, por exemplo, em divergências substanciais entre o Brasil e o Peru. ( ... ) Sucede também que, por agora, as vinculações entre o Brasil e pelo menos dois de nossos países limítrofes, Bolívia e Paraguai, estão passando por um momento de notória excelência".

A ameaça geopolítica - Há razoáveis indícios de que a usina de Corpus, o eixo e muitos outros receios façam parte de um só pacote que, atirado contra as obras de Itaipu, poderiam retardar seu início e, com isso, afastar fantasmas geopolíticos que rondam o nordeste da Argentina, hipoteticamente ameaçado por uma rede de estradas e de quilowatts brasileiros. Em 1972, no jornal "Clarin", o general da reserva Juan Enrique Guglialmelli, um ano depois de ter deixado a secretaria do Conselho Nacional de Desenvolvimento, descreveu uma assombrosa manobra a que chamou de "Operativo Missiones", onde, valendo-se dos desníveis de fronteiras, construindo superportos e lançando estradas, o Brasil assumiria mais uma vez o porte imperialista com que foi retratado no Prata durante o Império.

Como até hoje nenhum país de razoáveis proporções territoriais conseguiu provar definitivamente que não é imperialista, nem mesmo a própria Argentina, o Brasil não parece disposto a paralizar projetos necessários ao seu desenvolvimento para satisfazer intuições alheias. Enquanto isso, o Paraguai, que foi convidado para se associar a projetos hidrelétricos argentinos com menos de 50 por cento de direitos, prepara-se para dividir a metade das vantagens de Itaipu, e seu principal técnico em assuntos hidrelétricos, Enzo Debernardi, propôs, na semana passada, que se estude uma possibilidade de participação brasileira no projeto de Corpus.

Sólidos argumentos - Ao largo dessa discussão bastante estimulada pelo momento político argentino, começam a se formar ilhas de sensatez e já se pode acreditar que algum representante do governo Cámpora esteja se preparando para negociar com o Brasil a uma razoável distância do alarido.

Assim, quando começar o novo governo, os dois países haverão de manter conversações com base nos quilômetros de fronteiras comuns e nos números de seu comércio exterior. Então, se descobrirá que se o Brasil pode estreitar as águas do Paraná, a Argentina pode apertar o consumo de pão em Brasília atrasando a partida de um cargueiro com trigo. E também ficará claro que pelo menos cinqüenta produtos argentinos vivem quase exclusivamente para o mercado brasileiro, desde arame farpado e barbeadores elétricos até um razoável comércio de frutas que chega a 50 milhões de dólares. Afinal de contas, quando dois países aumentam seu comércio de manufaturas de 200 milhões de dólares para 350 em quatro anos é razoável supor que tenham sólidos argumentos para se entenderem. O comércio argentino de manufaturas, que cresce 6 por cento ao ano no mundo, vem aumentando em 30 por cento ao ano para o Brasil.

O hábil negociador - Para negociar com os argentinos, o Itamaraty dispõe hoje de um de seus mais articulados diplomatas. Vestindo freqüentes ternos escuros, levantando-se da cadeira e aproximando o rosto a quase um palmo de seu interlocutor quando deseja marcar uma afirmação, Azeredo da Silveira, aos 54 anos, está no posto mais importante de sua carreira, depois de ter liderado o bloco subdesenvolvido na reunião da UNCTAD de Nova Délhi, em 1968. Seu bisavô foi o negociador brasileiro que se entendeu com o presidente argentino Bartolomeu Mitre no século passado e seu avô era o ardiloso presidente do Senado no fim da República Velha. Contudo, de forma quase surpreendente para um diplomata, evita falar da ascendência como se ela o tivesse deserdado. Em Buenos Aires, com uma agilidade desconcertante, oscila entre um trabalho monástico e um círculo de relações que lhe permite atravessar incólume qualquer borrasca política.

No Itamaraty, alguns lhe atribuem qualidades de negociador quase mágicas e, certamente, é o único embaixador capaz de reunir, em 24 horas, uma equipe de diplomatas espalhados por diversos postos para redigir um documento sobre a política no Prata, comércio de especiarias ou mercado de arte.

Erros do passado - A posição brasileira diante do novo governo argentino parece ser de razoável cordialidade, mas nenhuma declaração política feita antes da posse de Cámpora haverá de mobilizar a chancelaria brasileira. Por enquanto, em Brasília, alguns diplomatas limitam-se a localizar erros concretos praticados pelo Brasil num passado recente que agora poderão criar, pelo menos, situações embaraçosas. Em 1964, por exemplo, o governo Castello Branco, interpretando de forma discutível a legislação internacional sobre navegação aérea, proibiu que um cidadão argentino prosseguisse seu vôo para Buenos Aires, apesar de ser um simples passageiro em trânsito num avião da Iberia. Chamava-se Juan Domingo Perón. Recentemente, quando se procurou identificar nesse ato uma prova de hostilidade ao peronismo, o então chanceler argentino Miguel Angel Zavalla Ortíz reconheceu que fizera um pedido formal ao Itamaraty para que sustasse a viagem de Perón. Como Ortíz, que em 1955 estava num dos aviões que bombardearam a Casa Rosada para depor o presidente, está agora na Frente Justicialista que levou Cámpora ao poder, é de se acreditar que os ressentimentos já tenham desaparecido.

Perón, numa longa entrevista à revista "Manchete", lembrou que o atrito entre Brasília e Buenos Aires só interessa a forças colocadas fora do hemisfério. Essa declaração, que não parece ter sido suficiente para levar ao repouso estandartes antibrasileiros, representa, porém, que o núcleo central do atual governo não está definitivamente contagiado por dramáticos quadros geopolíticos, ricos no risco da imaginação e pobres na base científica desejável.

O que interessa - A questão central para o Brasil é Itaipu, mas acreditar que esta também seja o problema fundamental dos argentinos seria cometer uma perigosa integração de problemas. A hidrelétrica brasileira, colocada a serviço de um parque industrial que exige a duplicação do parque energético a cada cinco anos, é, para o engenheiro Mário Bhering, "um prato para cinco garfadas". Na Argentina, o problema ainda não tem nome preciso, pois os projetos estão atrasados. É quase certo que a solução esteja em Corpus, mas pode também estar em Apipé. De qualquer forma, lutar contra a instalação de 10 milhões de quilowatts numa região selvagem e pobre com argumentos de ciência política talvez seja uma fórmula doentia de medievalismo. "O que verdadeiramente interessa do ponto de vista argentino é uma política dinâmica de aproveitamento dos recursos. É típico o que acontece com as obras de Salto Grande e Apipé, que deveriam estar concluídas no curso da década dos 60 e ainda estão em planos", disse o ex-presidente Arturo Frondizi numa curta declaração sobre a questão das hidrelétricas, durante o período pré-eleitoral.

Fato consumado - Para o Brasil, o surgimento de problemas concretos e esotéricos em suas relações com a Argentina servirá para demonstrar a importância capital da América Latina em sua política externa. Ao que tudo indica, o ciclo de políticas conservadoras inaugurado há pouco mais de dez anos ruiu lentamente e exige do Itamaraty uma agilidade bastante mais complicada que a rotina onde se negociava com o presidente Eduardo Frei no Chile, Fernando Belaunde Terry no Peru, Pacheco Areco no Uruguai e Juan Carlos Onganía na Argentina.

Enquanto isso, repetindo mais uma vez o eterno contraste entre as grandes formulações dos governantes e as razoáveis necessidades dos governados, Angel Benito González Meza o prefeito de Puerto Esperanza, pequena cidade da fronteira brasileiro-argentina, às margens do rio Paraná, onde não se consegue captar nem a televisão argentina nem a brasileira, via a questão incendiária da semana passada com bastante simplicidade: "Até agora não senti nenhuma influência. Li nos jornais que houve um protesto. O rio está uns dois ou três metros mais alto que o normal. Daqui a uns dois ou três meses, talvez a gente perceba algo. Mas, enfim, Ilha Solteira é uma obra de avanço que não se pode deter. Afinal, a represa poderá diminuir o caudal, mas os outros afluentes do Paraná estão situados abaixo dela e poderão manter a vazão. A percentagem que ela roubará será mínima". Itaipu, em Puerto Esperanza, ainda é um assunto pouco debatido, apesar de que em 1980 a usina estará funcionando a poucas dezenas de quilômetros do vilarejo pacato.

Contudo, enquanto nas grandes cidades se discute a construção da hidrelétrica em termos apaixonados e nas pequenas mal se sabe do que se trata, o engenheiro Mário Bhering, em seu gabinete na sede da Eletrobrás, no Rio de Janeiro, assegura: "Itaipu é um fato consumado" .


O BEM E O MAL PARA A OBRA DE ITAIPU

Por mais tecnicismos hidráulicos e geopolíticos que envolvam a questão das hidrelétricas do Prata, ela se resume a um conjunto de possibilidades e dificuldades. No mapa está o rio Paraná com as três usinas discutidas: Itaipu, Apipé-Yaciretá e Corpus. Nas três, o Paraguai entra como sócio em 50%. O Brasil quer construir ltaipu, e a Argentina, as outras duas. Os gráficos mostram onde há acordo, onde há conflito e como se poderá chegar a algum entendimento.

SEM INCOMPATIBILIDADES Até meados do ano passado, a Argentina estava concedendo grande prioridade ao seu projeto de hidrelétrica na região de Apipé-Yaciretá. É uma idéia que vem sendo discutida desde 1957, e a obra deverá ser realizada com a colaboração do Paraguai. Contudo, técnicos dos dois países ainda não chegaram a uma conclusão definitiva a respeito do traçado da barragem.

Como o projeto brasileiro de construção de Itaipu prevê que as águas sejam despejadas a uma cota de 105 metros acima do nível do mar e Apipé pretende represar o rio a 86 metros, não há incompatibilidade entre as duas obras. Para os argentinos, essa hidrelétrica pode ter importância discutível, pois as características topográficas da região onde será levantada exigem que a muralha do dique tenha uma extensão de 40 a 60 quilômetros. Assim, cada quilowatt instalado custará cerca de 600 dólares, três vezes mais que o de Itaipu, onde a barragem deverá ter no máximo 3 quilômetros.

UMA QUESTÃO DE NÍVEL - Atualmente, o Brasil deseja construir Itaipu com a descarga a 105 metros e a Argentina diz-se disposta a levantar a hidrelétrica de Corpus, com potência de 5 milhões de quilowatts, represando as águas na cota de 120 metros. A menos que as leis da hidráulica deixem de vigorar na bacia do Prata, os projetos são conflitantes, pois o lago afogaria a saída de Itaipu.

Mas essa não é a única dificuldade geográfica que ronda o projeto. Para erguer a barragem seria inevitável afogar a metade da potência da usina paraguaia de Acaraí, onde já foram investidos 70 milhões de dólares. No lado brasileiro, seria necessária uma autorização do governo para que fosse inundado um braço de terra de 20 quilômetros de extensão.

Como argentinos e paraguaios serão sócios, a perda de Acaraí seria compensada com a conquista de 2,5 milhões de quilowatts na nova obra. Em Buenos Aires acredita-se que, trabalhando-se num ritmo acelerado, os estudos de factibilidade estariam prontos na segunda metade de 1974.

SUBIR OU DESCER - A conciliação entre as duas obras dependerá da altura das barragens. Se os argentinos não fizessem Corpus a 120 metros, mas a 100, o Brasil poderia descarregar em Itaipu a 105. Da mesma forma, se o Brasil não descarregasse a 105, mas a 130, Corpus poderia ter o nível de sua represa a 120.

Quem vai subir e quem vai descer só se poderá saber depois de sérias negociações. Para o Brasil, a mudança significaria a perda de 2 dos 10 milhões de quilowatts de potência e a elevação do custo da obra em ltaipu. A energia perdida seria compensada com a construção de Corpus. Contudo, resta uma única pergunta: se o Brasil em 1980 já estiver com Itaipu operando dentro da solução ideal argentina e Corpus continuar sendo um projeto cujo estudo de viabilidade poderá ficar pronto apenas na segunda metade do próximo ano, onde poderá reclamar seus 2 milhões de quilowatts?

 
     
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