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11 de março de 1987
O logro da declaração
Depois de prometer não aumentar
a carga tributária da classe média, o governo cria
artifícios e solta os freios do imposto de renda
Pedro Lopes Perez, 58
anos, gerente administrativo de uma distribuidora de materiais elétricos
de Salvador, estava seguro, ao se debruçar dias atrás
sobre sua declaração anual de imposto de renda, de
que não iria pagar mais do que pagara no ano passado - na
pior das hipóteses, imaginava, pagaria a mesma importância.
Casado, cinco filhos, dono de um apartamento com três quartos
num bairro de classe média e um salário de 25 000
cruzados mensais, Perez acreditou nas garantias dadas desde o final
de 1985 pelo ministro da Fazenda, Dilson Funaro, segundo as quais
neste ano de 1987 ninguém iria pagar mais do que vinha pagando
ao Leão da Receita Federal. Como milhares de outros contribuintes
que a partir desta segunda-feira poderão começar a
entregar suas declarações à rede bancária,
Perez teve uma surpresa amarga ao terminar suas contas. No ano passado,
ele entregou ao imposto de renda 1 123 cruzados, pagos após
carimbar sua declaração numa agência bancária
- além, naturalmente, dos 14 928 que já tinha pago
na fonte em 1985. Neste ano, além do que recolheu na fonte
em 1986, pagará mais 13 390 cruzados - fantásticos
1 093% a mais do que teve de pagar no ano passado.
"Esse aumento do imposto é
um absurdo", espanta-se Perez, que se surpreendeu ainda mais
ao somar dois mais dois e constatar que, enquanto o imposto devido
aumentou quase 12 vezes de um ano para o outro, sua renda líquida
apenas dobrou entre 1985 e 1986. "Qual a lógica destas
contas?", indaga, aflito. Se um dia chegou a existir de fato,
a lógica foi a mesma que levou o Congresso, em dezembro de
1985, a aprovar em regime de urgência, numa votação
permeada por espertezas dos parlamentares, socos e insultos, um
pacote que, entre outras providências, criava o que o governo
batizara de "sistema de pagamento de imposto em bases correntes".
Em bom português, isso significava que o imposto de renda
seria pago pelo contribuinte no exato momento em que recebesse seu
rendimento, nada mais sendo devido no ato da declaração.
"O imposto retido na fonte será,
efetivamente, o imposto devido", dizia Funaro. "A tabela
da declaração foi montada para que seja apenas uma
confirmação da tabela da retenção na
fonte", assegurava, por sua vez, o assessor especial do ministro
da Fazenda, economista João Manuel Cardoso de Mello. "Só
vai pagar mais ou receber de volta o contribuinte que, em 1986,
sair de seu padrão em termos de deduções ou
abatimentos". Como Pedro Lopes Perez, o contribuinte Carlos
Roberto Lázaro, 46 anos, gerente de vendas de uma multinacional
em Curitiba, não teve nenhuma mudança substancial
em seu padrão de rendimentos. Enquadra-se, portanto, no perfil
que Cardoso de Mello descrevia no final de 1985 como o de um contribuinte
que, em 1987, nada teria a receber de volta ou a pagar ao Fisco.
Casado, três filhos e mais a sogra como dependente, Lázaro,
que ganha hoje 35 010 cruzados por mês, teve direito, em 1986,
a uma devolução de 10 121 cruzados - que, por sinal,
não recebeu, pois no festival de mudanças promovidas
no IR o governo arrogou-se o direito de pagar do jeito que bem entendesse
as quantias cobradas a mais dos contribuintes. No caso de Lázaro,
a devolução foi dividida em quatro parcelas anuais.
Este ano, em vez de devolução,
ele terá de desembolsar, afora os 49 179 cruzados já
retidos na fonte em 1986, mais 10 881 cruzados. Resultado: vai pagar
327% a mais de imposto de renda em relação ao ano
passado, embora seu salário, no mesmo período, tenha
crescido tão-somente 167%. Lázaro manteve todos os
itens de sua declaração nos mesmo padrões do
ano passado, exceto no caso de gastos médicos - um item dedutível
do imposto a pagar. "Minha filha sofreu um acidente e eu tive
despesas extras com especialistas", explica. Tal fato deveria
puxar para baixo o imposto a pagar - mas ocorreu o contrário.
"Enquanto na declaração passada o Leão
comeu 10,3% de minha renda bruta, este ano vai comer 16,4%",
indigna-se. "Daqui a pouco o governo vai querer todo o meu
salário. É o fim do mundo". E, também,
um límpido, puro e simples caso de confisco de renda - com
a perversidade adicional de ser praticada justamente contra os mais
fiéis, pontuais e indefesos pagadores de imposto de renda
do país: os membros da classe média que vivem de salário.
"Efeito retardado" - A
constatação amarga a que Perez, em Salvador, e Lázaro,
em Curitiba, chegaram ao manusear suas declarações
recebidas pelo correio é a mesma a que devem chegar milhares
de contribuintes em todo o país. Quem tinha, normalmente,
imposto a receber de volta, neste ano de 1987 nada receberá
- passará a pagar, ou generosamente, receberá bem
menos do que estava acostumado a receber. Quem já pagava,
por sua vez, pagará muito mais. Já estava escrito
que seria assim desde 1985. Mas o governo, como tem feito em assuntos
que digam respeito às contas públicas de gastos e
despesas, garantia que a carga tributária só se elevaria
a partir de quarenta salários mínimos 54 720 cruzados
em dinheiro de hoje -, "assim mesmo em percentuais moderados".
No curso de uma densa polêmica que se seguiu, o então
consultor econômico do Palácio do Planalto, Luís
Paulo Rosenberg, previu - selando seu destino no governo - que o
pacote tributário era uma "bomba de efeito retardado",
por apenas criar a ilusão de que a classe média não
pagaria mais impostos.
O ex-ministro Mário Henrique Simonsen
também se envolveu na discussão e questionou as garantias
que o governo passava ao contribuinte. Por precaução,
começou a formar desde janeiro do ano passado uma poupança
para o imposto que iria pagar em 1987. "Agi certo", diz
Simonsen, cujo imposto a pagar aumentou 500% nesta declaração.
Segundo ele, só agora as pessoas vão começar
a perceber que, se em 1986 pagaram proporcionalmente menos imposto
de renda na fonte em relação ao que pagavam nos anos
anteriores, em 1987 vão ter de devolver tudo ao governo -
e ainda mais um pouco. "Será o efeito Quarta-feira de
Cinzas, que eu já previa há muito tempo", ironiza
o ex-ministro. "É quando os contribuintes vão
descobrir que o Carnaval do Cruzado foi alegre demais e chegou a
hora de pagar a conta."
Não é pequeno o time dos
pagadores. Em 1986, de um total de 7,87 milhões de brasileiros
que preencheram e entregaram suas declarações de renda,
5,65 milhões pagaram imposto. Destes, quase 872 000 pagaram
não só na fonte mas também após a entrega
da declaração. Neste ano, segundo as estimativas da
Receita, o time dos que pagam na entrada e na saída, ou seja,
na fonte e na declaração, passará de 872 000
para cerca de 3,75 milhões de brasileiros - quase a metade
dos contribuintes em geral. É fácil de ver, só
com esses números, o brutal avanço do estado sobre
o bolso dos contribuintes, que além do IR já são
visitados cotidianamente por uma grossa penca de impostos de todos
os tipos, diretos e indiretos, para não falar da tributação
disfarçada sob a forma de taxas e contribuições,
algumas invisíveis a olho nu. Mas, apesar desta realidade
que invade o mundo do contribuinte, o titular da Secretaria da Receita
Federal, Guilherme Quintanilha de Almeida, sustenta que a carga
tributária não aumentou.
"Pouquinho a pagar" -
"O contribuinte padrão não vai pagar mais imposto
de renda em 1987 em relação ao que pagou em 1986",
sustenta Quintanilha, um empresário de São Paulo que
veio para o governo a convite de Funaro. Pelos dados que afirma
dispor, quem ganhava entre 10 000 e 15 000 cruzados no ano passado
terá "um pouquinho de imposto a pagar, coisa de 200
a 300 cruzados". Tais contas não batem com os cálculos
realizados pelos especialistas em tributação das firmas
de auditoria e consultoria fiscal. Um contribuinte com renda mensal
de 10 000 cruzados, por exemplo, cujo perfil seja o de um cidadão
casado, com dois dependentes, que more em casa própria financiada
e tenha gastos normais com saúde e educação,
pagará - segundo projeções da firma Trevisan
& Associados, de São Paulo 4 847 cruzados em sua declaração
deste ano, além do que já recolheu na fonte, e não
apenas 200 a 300 cruzados, como acredita Quintanilha.
Tal fato decorre da correção
da tabela do imposto progressivo na declaração em
apenas 110%, quando o certo, segundo os tributaristas, seria um
reajuste de no mínimo 130%. Nesse caso, em vez de pagar 4
847 cruzados, aquele contribuinte com salário de 10 000 mensais
teria direito a uma devolução de 1 009 cruzados. "De
uma maneira geral, os contribuintes pagaram menos na fonte, no ano
passado, e agora deverão pagar na declaração
mais do que deveriam", afirma Luiz Carlos Andrezani, sócio-gerente
da Trevisan & Associados.
A pancada que a declaração
do imposto de renda reserva ao contribuinte não vem só
pelo que cada um terá de pagar a mais diante de uma correção
das alíquotas num nível inferior à inflação
real registrada no exercício fiscal. Já em janeiro,
numa repetição do que vem sendo uma constante no Brasil
nos últimos anos, a Receita Federal corrigiu a tabela do
imposto de renda na fonte em apenas 12,3%, quando, só para
acompanhar a inflação, deveria ter considerado um
reajuste de 20%. O efeito dessa bruxaria estatística é
que, por conta dos reajustes salariais dados apenas para compensar
a perda de poder aquisitivo decorrente da inflação,
o contribuinte escala novos degraus na tabela de retenção
na fonte - e passa a pagar mais imposto, embora, em termos reais,
seu salário continue exatamente do mesmo tamanho.
"Presente de grego" -
"Os casuísmos tributários neste país atacam
o contribuinte por todos os lados", censura o tributarista
Rubens Branco da Silva, diretor do escritório do Rio de Janeiro
da Arthur Andersen, uma das maiores empresas de consultoria do país.
Há vários deles nas novas regras do imposto de renda.
Exemplo: em 1986, o imposto devido podia ser pago em oito prestações.
Hoje, o parcelamento é de apenas seis vezes. Foi também
antecipado de abril para março o mês de início
do pagamento do IR devido na declaração. "Foi
um presente de grego para o contribuinte", dispara Rubens Branco.
Computando o que pagará a mais na fonte, fruto da correção
abaixo da inflação praticada pelo governo, com o que
terá de desembolsar na declaração, um contribuinte
com salário de 15 000 cruzados deixará nos cofres
do Tesouro, a partir de março, 11,28% do que ganha - caso
parcele em seis vezes o imposto devido.
Essa proporção da mordida
do Leão, segundo as tabelas da Trevisan & Associados,
cresce rapidamente para os contribuintes com renda mais elevada
- que tenham três dependentes e morem em casa financiada.
Quem ganha 30 000 cruzados, por exemplo, terá quase um quarto
de sua renda mensal, ou mais de 23%, consumido diretamente com o
pagamento do imposto, entre a fonte e o parcelado em seis vezes
na declaração, enquanto estiver liquidando a fatura
do IR de 1986. No caso de um salário de 50 000 cruzados,
o fardo do imposto, entre a fonte e o devido na declaração
e pago parceladamente, sobe para 34,25% - ou seja, só de
imposto de renda esse cidadão entregará ao governo
um dia de cada três que trabalha. "Pela primeira vez
na história do imposto de renda, deveremos ter um grande
número de contribuintes inadimplentes", prevê
o tributarista Rubens Branco.
O administrador de empresas Júlio
Arelaro, 36 anos, gerente de vendas de uma indústria de vidros
em São Paulo, está pensando em seguir por este caminho.
"O governo não corrige a tabela da declaração
como devia, fajuta o reajuste da tabela na fonte e ainda por cima
me deve o imposto que cobrou a mais em 1985 e não me devolveu
no ano passado", queixa-se Arelaro, que ganha cerca de 45 000
cruzados por mês, com os quais sustenta a esposa, três
filhos e paga 10 202 cruzados de aluguel por um apartamento de três
quartos. "Mesmo que eu concordasse com a tabela do imposto
na declaração, não teria dinheiro para pagar.
Além disso, não vou contrair uma dívida num
banco para pagar o que acho injusto."
Pelas suas contas, ele deve cerca de 30
000 cruzados, além dos 52 000 já retidos na fonte
no ano passado. "Vou entregar minha declaração,
mas não vou pagar", avisa Arelaro. "Quando vierem
me executar na Justiça, vou me defender com o argumento de
que é o governo quem está devendo". A lógica
de Arelaro não impressiona o governo e pode não comover
a Justiça, mas é impossível fazer de conta
que ela não existe: ao deixar de devolver corretamente o
que cobrou a mais em 1985, a Receita Federal meteu-se na intrigante
situação de ser credora e devedora ao mesmo tempo,
só que esquecendo a segunda parte dessa dupla personalidade.
Já desconfiado disso, Mário
Rosito, 36 anos, gerente de planejamento da filial instalada em
São Paulo de uma multinacional inglesa, abriu uma caderneta
de poupança tão logo soube que a redução
do IR na fonte, no ano passado, seria cobrada na hora da declaração.
"Para não levar um susto, comecei a fazer um fundo,
no qual fui depositando a diferença do imposto na fonte que
deveria ter sido recolhido", lembra Rosito. O susto ele evitou,
mas, já com o formulário na mão, constatou
que, embora tivesse economizado a quantia certa, ainda terá
imposto a pagar. Com um salário mensal da ordem de 50 000
cruzados, uma família de quatro pessoas e um apartamento
quitado, Rosito calcula, já considerando todas as deduções
e abatimentos, que vai entregar ao Leão 20 000 cruzados,
além dos 66 000 recolhidos na fonte.
"Isso é 10 000 a mais do que
eu poupei", contabiliza ele, amargurado ao constatar que seguiu
os conselhos do governo, abriu uma poupança e ainda terá
de desembolsar dinheiro vivo de seu orçamento doméstico.
Para Rosito, é uma ironia o governo cobrar mais e, ao mesmo
tempo, dever ao contribuinte as devoluções do ano-base
de 1985. "Eu deveria pegar o imposto que estou devendo, parcelar
também em quatro anos e entregar cada parcela ao ministro
Funaro na data de seu aniversário, como ele está fazendo
agora conosco", raciocina Rosito. "Não seria perfeitamente
justo?"
"Aumento brutal" - É
difícil, na verdade, imaginar onde e quando haverá
um freio aos avanços tributários de um estado que
despende a maior parte de suas receitas em gastos que nada acrescentam
ao bem-estar da população - e de um governo que age
como se o volume de operações tributáveis fosse
infinito. Soaria estranho, no Brasil de hoje, a atitude tomada em
1841 pelo senador americano Thomas Hart Benton, que se opôs
a uma subvenção à viúva do presidente
William Harrison, observando que tal concessão seria "uma
nova página aberta no livro dos gastos públicos, que
levam ao abismo sem fundo das pensões civis e ajudas familiares".
Para o ministro da Justiça, Paulo Brossard, o problema está
no formato do estado. "Quanto mais se aperfeiçoa, mais
ganancioso o estado fica", acredita Brossard.
O tributarista René lsoldi Avila,
gaúcho como Brossard, tem opiniões mais fortes. "O
aumento brutal no imposto de renda é coisa de gente mal-intencionada",
diz AviIa, que tem em sua clientela grandes empresas do Rio Grande
do Sul e pessoas de várias classes, de militares a agricultores.
O pior, segundo ele, é o aumento do imposto vir acompanhado
de uma anistia fiscal aos que possuem imóveis ou valores
não declarados. "A anistia é uma patifaria que
nunca houve na história do país", protesta AviIa.
"Arrumaram um cambalacho para favorecer todos os picaretas".
O fato é que o aspecto mais dramático do quadro tributário
brasileiro consiste em que as necessidades de recursos por parte
do estado são sempre supridas pelos assalariados e não
pelos mais ricos, o que viria a ser o caminho natural.
Além de voraz, o estado é
incompetente para ir cobrar de quem mais tem. Os agricultores, por
exemplo, graças aos incentivos e deduções da
Cédula G, passam ao largo da vigilância do Leão.
"Eles têm tantos mecanismos de desconto que na prática
não pagam 1 tostão de imposto", diz a economista
Cláudia Eris, professora da Faculdade de Economia da USP.
O maná da Cédula G é tão generoso que
há muitos anos qualquer cidadão de alta renda, que
jamais viu em toda sua vida um pé de feijão, já
descobriu o macete de atribuir a sítios de lazer uma lavoura
ou pastagem que nunca vicejou. Há também o caso dos
parlamentares - semelhante ao dos juízes e militares. Um
parlamentar recebe, entre vencimento fixo e parte variável,
cerca de 63 000 cruzados por mês. Paga imposto, porém,
apenas sobre a parte fixa, que vem a ser de 6 330,55 cruzados -
caindo, assim, na alíquota de 8%. Na prática, estão
isentos.
"Quem realmente paga imposto de renda
é a classe média assalariada", garante um técnico
da Receita Federal. Um dos funcionários da repartição,
a economista Lytha Spindola Silva, mostrou, em tese defendida na
Universidade de Brasília, que 91% dos valores declarados
no Brasil provêm de rendas do trabalho, dos quais 81% do rendimento
assalariado - lançado na Cédula C - e 10% do trabalho
sem vínculo (Cédula D). Apesar da pujança destes
números, ainda há quem defenda a tese de que se paga
pouco imposto no Brasil. Trata-se de uma falácia, largamente
difundida entre os economistas, seja os ligados ao governo passado
seja os ligados à atual administração. Em meio
aos debates sobre o pacote de 21 de novembro do ano passado, o chamado
Cruzado II, a economista Maria da Conceição Tavares,
expoente da esquerda do PMDB, por exemplo, propôs mais imposto.
Estopim da Revolução -
"O que deve ser aumentado", disse Maria da Conceição
na ocasião, "são as alíquotas do imposto
de renda para a classe média e as pessoas ricas, já
que a carga fiscal no Brasil é baixa comparada com a dos
países desenvolvidos". A idéia não prosperou
graças ao presidente do PMDB, deputado Ulysses Guimarães,
que via no aumento da carga tributária da classe média
o estopim de uma revolução. Sem revolução
nenhuma, os brasileiros vão pagar neste ano uma carga de
IR como nunca pagaram. Os números da própria Receita
Federal desmentem a tese da professora Maria da Conceição.
Pode-se chegar a essa constatação medindo a alíquota
média do IR que incide sobre os contribuintes. Ela foi de
16,3% no ano-base de 1985, vem crescendo desde 1980 e neste ano
poderá triplicar. É uma taxa superior à de
países como o Japão (5,34%) ou a Suécia (9,92%),
por exemplo.
Paga-se aqui, em termos médios,
mais imposto que nos países desenvolvidos, com o agravante
de a carga de contribuição estar concentrada sobre
os ombros de uma única classe - a classe média. Em
relação ao produto interno bruto, a carga tributária
é de 35% nos Estados Unidos e de 53% na Suécia, contra
21,5% no Brasil. Mas se a maioria dos contribuintes brasileiros
que sustentam a máquina fiscal do estado fosse transferida
para os Estados Unidos, convertendo-se seus rendimentos simplesmente
em dólares, não só seria incluída na
faixa dos isentos como cairia também na linha da miséria
- candidatando-se a receber assistência alimentar do governo.
"A carga tributária de um país é pesada
ou não dependendo dos serviços que o estado presta",
diz um importante funcionário da Receita Federal. "Uma
carga tributária de 53% na Suécia dia", reconhece
o presidente Sindicato dos Trabalhadores na Construção
Civil de Porto Alegre e vice-presidente da CGT, Ricardo Baldino.
"Se é para voltarmos ao rnonetarisrno, que volte também
o Francisco Dornelles, que entende melhor disso do que o Funaro".
Para Baldino, o imposto pago teria de reverter ao contribuinte sob
a forma de serviços visíveis e eficientes.
"Imposto", ensina o advogado
carioca Antônio Fernando Bulhões de Carvalho, "é
a remuneração compulsória do contribuinte a
um serviço que o estado lhe presta". O dinheiro arrecadado,
contudo, vai em boa parte financiar os gastos de empresas estatais,
cobrir operações fracassadas para manter o preço
do café lá fora, sustentar o programa nuclear paralelo.
Para o consultor tributário Eduardo Azuma Nishi, do escritório
paulista da Arthur Andersen, a política fiscal acaba sempre
atrelada às necessidades circunstanciais do governo. "O
contribuinte fica à deriva da situação econômica",
constata Nishi. Nos Estados Unidos, ele compara, discutiu-se durante
oito anos a redução do imposto de renda. Aqui, em
poucos meses e sem nenhuma consulta, o governo vai à carteira
do contribuinte e aumenta, na marra, a sua parte no bolo. "Este
ano", lamenta-se, "os brasileiros vão levar um
susto como nunca levaram".
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