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11 de fevereiro de 1976
De onde vem
o câncer

As causas da doença podem
estar fora do corpo - no ar, no
sol, na comida, no ambiente

Diariamente, 15.000 pesquisadores repetem, em todo o mundo, a operação de assestar a bateria de seus microscópios eletrônicos em direção a invisíveis células cancerosas. E assim vêm consumindo, década após década, energia e milhões nessa rotina minuciosa, estafante e de raríssimos resultados realmente espetaculares. Vez por outra, é verdade, alguma revelação, vazada da intimidade de seus laboratórios, detona no mundo exterior. Mas questões vitais continuam intactas - e, ultimamente, uma delas vem ganhando cada vez mais força. Até que ponto, pergunta-se, o câncer não seria também um produto da própria vida que se leva hoje em dia?

Essas perguntas emergem num momento em que o câncer faz dramáticos avanços em quase todo o mundo. Só no Brasil as precárias estatísticas oficiais e para-oficiais anotam a existêncía, hoje, de 520.000 portadores de câncer - e seguramente nenhum médico se arriscaria a garantir que haja recuperação definitiva para qualquer um deles. Nos Estados Unidos, o crescimento da mortalidade por câncer vinha se mantendo equilibrado por volta de 1% ao ano desde 1933 - mas subitamente, no ano passado, o câncer deu um brusco salto nas curvas do obituário, galgando o teto dos 5% e convertendo-se no mais mortal dos males atuais. Na Europa, no Japão e na África, enfim, tal tendência se acentua, embora os índices ainda estejam longe de alcançar as dimensões americanas.

Na opinião de muitos cientistas, toda essa escalada talvez devesse levar a uma pausa para meditação. Pois o câncer, pensam eles, poderia estar mais ligado aos hábitos cotidianos, desenvolvidos pela civilização industrial, do que à ação de algum vírus misterioso. Até agora, de fato, a ênfase das pesquisas sobre as causas do câncer vem sendo posta em vírus e bactérias, em possíveis mutações no patrimônio genético do paciente, em eventuais fatores hereditários. Mas se os pesquisadores decidissem retirar seus olhares do foco dos microscópios, poderiam observar curiosas coincidências relacionadas à propagação da moléstia. E, quem sabe, descobrir novas inspirações para seu trabalho.

Que significado oculta, por exemplo, a relação, estatisticamente comprovada, entre o hábito de se comer carne de boi todos os dias e o câncer na vagina? Por que os empregados de indústrias de plástico são mais afeitos do que outras pessoas aos tumores cancerígenos do fígado? Que motivo faz os japoneses se mostrarem mais vulneráveis do que os argentinos diante dos cânceres do estômago e esôfago? Que razões explicariam o fato de que metade dos pescadores de Sumatra e das ilhas Fiji morre antes dos 50 anos, vitimados freqÜentemente por erupções cancerígenas na pele?

Todas essas indagações acabaram merecendo recentemente certa deferência por parte da Sociedade Americana do Câncer e do formidável Instituto Nacional do Câncer, dos Estados Unidos, o mais poderoso centro de combate ao câncer do mundo, com 690 milhões de dólares de verba anual. Em conjunto, as duas entidades decidiram convocar um grupo de conceituados especialistas, inclusive uma dezena de Prêmios Nobel, sugerindo-lhes que esquecessem suas habituais preocupações com a gênese interna dos tumores cancerígenos ou sobre as estruturas celulares afetadas, para se deterem nessa questão básica - o câncer não seria uma doença provocada pelo próprio homem?

A conclusão foi contundente, quase escandalosa. Em 544 páginas de relatório, reunidas sob o título de "Pessoas Sob Alto Risco de Câncer", os cientistas insinuaram que o câncer vem se revelando, cada vez com maior clareza, uma doença típica do meio ambiente. Para contraí-la, portanto, não parece indispensável a intervenção do mecanismo hereditário ou de agentes viróticos desconhecidos. E nem mesmo que se desencadeiem, dentro do organismo da eventual vítima, explosivas metamorfoses de caráter genético. Tais mutações podem realmente ocorrer, dizem os especialistas - contudo, as causas vêm de fora. 0 simples ato de comer, beber, tocar um objeto ou respirar já pode ser suficiente para condenar qualquer indivíduo ao câncer.

De certa forma, a Organização Mundial da Saúde já havia antecipado essa suspeita, estimando que 85% dos casos cancerosos venham da "exposição a fatores ambientais diversos" - em meio aos quais incluía fatalisticamente fatores desencadeados pelo próprio indivíduo, como o hábito de beber excessivamente, de fumar, de comer em demasia ou de se deixar bronzear ao sol além de certos limites. No entanto, as evidências relacionadas tanto pela entidade das Nações unidas quanto pela Sociedade Americana do Câncer apontam para um culpado ainda mais temível nas crÔnicas das desgraças cancerológicas, e já praticamente fora do controle do próprio homem - a poluição.

De fato, bastaria aos cientistas americanos superpor o mapa das grandes concentrações urbanas e industriais a um outro que assinalasse as maiores incidências da moléstia, cidade por cidade, área por área, para perceber a inquietante coincidência entre as manchas negras de um e outro. No Brasil, igualmente, embora os dados se resumam a periódicos levantamentos efetuados em alguns hospitais e a precários gráficos de mortalidade nas capitais estaduais, já se observa que à região mais industrializada e sede de maiores complexos urbanos - o triângulo Rio, São Paulo, Minas - corresponde a meca do câncer no Brasil.

O secretário especial do Meio Ambiente, Paulo Nogueira Netto, é um dos que se afligem com a correlação, embora prefira alertar que, como a palavra poluição designa "uma multidão de coisas", seria aconselhável não usá-la pura e simplesmente como sinônimo para câncer. Mas existe o risco de que isso ainda venha a ocorrer. Só nas últimas duas ou três décadas, "num fenômeno único em toda a história da humanidade", segundo o toxicologista americano Samuel Epstein, o ambiente humano recebeu o impacto de pelo menos 50.000 desconhecidos e poderosos agentes químicos. Eles são libertados ao ar livre pela fumaça das fábricas. Ou incorporadOs aos alimentos, como corantes ou adoçantes artificiais. Ou, enfim, transformados em novidades industriais: plásticos, fertilizantes, detergentes, solventes, drogas.

Cerca de 1.500 dessas substâncias já se revelaram altamente tóxicas em testes de laboratório com plantas ou cobaias, conta o dr. João Sampaio Góes Júnior, ex-diretor da Divisão Nacional do Câncer e atual presidente da Fundação Centro de Pesquisa de Oncologia do Estado de São Paulo. E, ainda que não se possa avaliar convenientemente seu "grau de tolerância" ao homem, as experiências não deixaram de ser uma advertência. Foi, aliás, a partir delas que os organismos sanitários dos Estados Unidos e de alguns países da Europa Ocidental resolveram banir do consumo 22 elementos considerados cancerígenos - entre eles os familiares DDT e Aldrin, fertilizantes do ramo dos organoclorados.

Dificilmente, porém, a lista se deterá nesses 22 nomes. Pesquisas prosseguem e, com elas, multiplicam-se as suspeitas. Por prudência, os especialistas evitam acusações definitivas ou proclamações alarmistas. Preferem apenas dizer, enquanto as experiências continuam, como no caso do cigarro, que seriam produtos que fazem "mal à saúde" - segundo rótulo exposto compulsoriamente em todos os anúncios de cigarros estampados pela imprensa nos Estados Unidos. Mas algumas indiscrições sempre escapam das pesquisas. E, de tal forma, que hoje em dia talvez seja mais fácil dizer o que não provoca câncer, do que o contrário.

De tempos em tempos, volta-se a alertar, por exemplo, para os perigos dos alimentos enlatados ou de certas bebidas alcoólicas destiladas. Insiste-se que tintas a óleo são nocivas, ou então que até as pinturas de cabelo podem causar tumores de pele. Tranqüilizantes e outras drogas repetidamente vêm sendo colocados sob suspeita. Relaciona-se a alta incidência de cânceres nos anexos do útero ou no seio com a pílula anticoncepcional - enquanto outros anunciam que a virgindade, isso sim, é que provocaria câncer.

Numa demonstração de que o fenômeno da cancerofobia se encontra profundamente arraigado inclusive em terras brasileiras, basta recordar a recente polêmica sobre o macarrão "gravatinha" e outras massas contaminadas. Nesse caso, é verdade, o fantasma estava escondido atrás de um remotíssimo silogismo. 0 macarrão estaria contaminado por fungos, dizia-se. Há fungos capazes de produzir uma substância cancerígena, a afiatoxina. Logo, o macarrão pode provocar câncer. Não se trata, porém, de um tema sem importância. Pois os alimentos deveriam, comprovadamente, estar na linha de frente das atenções científicas.

O episódio "gravatinha", significativamente, confirmou que no Brasil tal trabalho ainda não passa de um sonho distante. Pelo menos enquanto não existir a menor condição de se realizarem testes que comprovem, em termos rigorosamente científicos, o grau de toxicidade cancerígena de tal ou tal alimento. "Duvido que o Instituto Nacional do Câncer esteja aparelhado para isso", arrisca o cancerologista Alberto Raick, coordenador do setor de Patologia do Departamento de Ciências da Saúde, da Universidade de Brasília.

O que talvez seja até compreensível, levando-se em conta o habitual raquitismo das verbas disponíveis e das incongruências da burocracia oficial. A Divisão Nacional do Câncer, do Ministério da Saúde, recebe anualmente pouco mais de 110 milhões de cruzeiros, a serem distribuídos entre medidas de prevenção, pessoal, hospitais e equipamentos altamente sofisticados e caros - ou seja, 69 vezes menos do que amealha sua correlata dos Estados Unidos. É claro que, na partilha dos bens, a pesquisa é que fica em geral com o menor bocado. Um único laboratório está em funcionamento, no Rio - mas o próprio diretor da Divisão Nacional do Câncer, dr. Humberto Torioni, não especifica que tipo de experiências ele promove.

Portanto, se algum produto alimentar ou novidade industrial já chegou a ser submetido, alguma vez, a pesquisas cancerológicas, isso se deve apenas à dedicação de um ou outro especialista. É o caso, por exemplo, de Diogo Pupo Nogueira, professor da Faculdade de Saúde pública de São Paulo e autor de uma pesquisa sobre as relações entre os inseticidas organoclorados, como o DDT, e o câncer. "O resultado foi positivo", resume Nogueira. No mais, o Brasil tem muito pouco a oferecer, em termos de pesquisa. E, como não há praticamente pesquisa, o corolário inevitável é que não há nenhum controle.

É facilmente imaginável, assim, que a população brasileira, sobretudo os grandes conglomerados urbanos e os ajuntamentos operàrios, esteja se contaminando hoje com agentes potencialmente cancerígenos, cujos efeitos, em regra, levariam até trinta anos para se manifestar. Esse misterioso período de latência do câncer é, de resto, preocupação de pesquisadores de todo o mundo, à falta de elementos que permitam assegurar o grau de tolerância que o organismo humano está oferecendo a cada nova substância química. Chegará, então, o dia em que o câncer será inevitável para toda a humanidade? As estatísticas mostram que essa suposição não está fora de propósito. As advertências continuam a brotar, em quatro pontos chaves da investigação cancerológica, ligados aos hábitos do cotidiano e ao meio ambiente.


1. Bebidas e dietas

Se o macarrão "gravatinha" estivesse realmente contaminado com fungos produtores de aflatoxina, é possível que os amantes de macarronada viessem a padecer, futuramente, de tumores no fígado - benignos ou malignos, de acordo, é claro, com o apetite do consumidor. A rigor, por si só a glutonice já implica um perigo, independente inclusive do cardápio. Mesmo a inofensiva carne bovina, se ingerida em quantidades pantagruélicas, traz o suposto risco de fazer brotar tumores no peito e, sobretudo, nos intestinos. Os escoceses, que consomem 20% mais carne de boi do que seus vizinhos ingleses, possuem uma das mais alarmantes taxas de câncer do intestino do mundo - secundados por povos como o argentino, o canadense, o neozelandês e americano, por coincidência também bravos devoradores de carne.

Mas os especialistas tendem a considerar, antes de tudo, que não é a carne em si a Substância cancerígena, mas a gordura que pode conter. Suspeita-se inclusive que o tumor se formaria a partir de complexas reações químicas, ainda em estudo, desencadeadas no contato dos resíduos gordurosos com as paredes do cólon e do reto. Por outras mas também desconhecidas razões, costuma-se relacionar a gordura e a dieta farta aos cânceres da próstata, do ovário e do útero. Na África, evidentemente, esses são os mais remotos dos males cancerígenos.

Os japoneses é que forneceram, contudo, o mais significativo quadro das relações entre hábitos alimentares e câncer. Basicamente, sua dieta se sustenta em legumes e peixes. E o resultado é que eles padecem, mais do que os ocidentais, dos males estomacais. Intrigados, os epidemiologistas japoneses perceberam que o pescado costuma abrigar consideráveis dosagens de nitratos e nitritos de sódio. Para alguns especialistas, trata-se de elementos altamente cancerígenos. E, para confirmar as suspeitas, verificou-se que os japoneses emigrados para os Estados Unidos vão perdendo, de geração em geração, a propensão para o câncer do estômago - mas adquirindo, por força de novos costumes dietéticos, tendências a contrair, por exemplo, o câncer do intestino.

A influência maligna dos compostos de sódio, presentes também no presunto, no bacon e em carnes defumadas, ainda está, porém, em debate. Os fisiologistas lembram que há nitrito de sódio mesmo na saliva e que "uma pessoa engole diariamente a mesma quantidade de nitrito existente em meio quilo de toucinho". A questão principal, portanto, parece ser a de definir as porções que podem ser ingeridas sem perigo. Ademais. a tradicional dieta ocidental já costuma naturalmente neutralizar a possível ação do agente cancerígeno. "Um copo de laranjada dilui os nitritos de quilos e quilos de presunto", assegura relatório da Sociedade Americana do Câncer.

Mais intrigantes seriam os vínculos entre o álcool e o câncer. Insinua-se freqüentemente, de todo modo, que grandes bebedeiras determinam, a longo prazo, a irupção de tumores na boca, no esôfago, na laringe, na garganta e no fígado - ou seja, exatamente ao longo do habitual percurso das bebidas. Mas nada existe de positivo a esse respeito, além da profunda convicção ética das ligas de abstêmios. De científico, resta somente a suspeita de que as bebidas destiladas seriam agentes cocarcinogêneos, Isto é, atuariam malignamente em contato com outro agente canceroso principal, o cigarro, por exemplo.


2. Radiacões

Já não se duvida, há mais de duas décadas, que o ofício de médico radiologista é praticamente uma condenação à leucemia, ao câncer tireoideano e a outros gêneros de tumores malignos. Da mesma forma, não se coloca em questão que o culpado disso é realmente o raio X. De fato, os pesquisadores puderam constatar que uma simples chapa de abdome ou pulmão implica certo risco e que, portanto, é absolutamente desaconselhável que esta obrigação periodica se torne uma rotina.

Há alguns médicos que chegam até a dizer que as chapas de peito - inclusive as mamografias, para prevenção do câncer do seio - só deveriam ser feitas por pacientes acima de 50 anos, quando o risco já independeria de tais fatores. Há outros que exigem, para os consultórios de radiologia, paredes com isolamentos especiais, pois as radiações podem afetar inclusive os vizinhos.

Nos últimos tempos, porém, não apenas essas radiações de consultórios caíram em desconfiança. Até o sol vem sendo relacionado, através de seus raios ultravioletas, à incidência de melanoma e outros tumores cancerígenos na pele - numa proporção de 50% dos casos, segundo pesquisas americanas. Percebeu-se, por exemplo, que os casos de melonoma são muito mais comuns nas ensolaradas costas da Califórnia ou da Flórida do que nas frígidas Minnesota ou Long Island. E, computando dados fornecidos por cientistas japoneses, os americanos constataram que mesmo seus habitantes das regiões mais tórridas ainda parecem menos vulneráveis aos tumores da pele do que os pescadores dos mares do sul, no Pacífico - ou do que os nativos do Congo e outras regiões tropicais.

Há, contudo, outros laboratórios vivos que podem fornecer ainda mais sugestivas advertências sobre as radiações cancerígenas. Cientistas americanos lembram, por exemplo, que o uso de raios radiativos contra homens e vegetais, no Vietnã, dará certamente ensejo a que se estude, em breve, o crescimento da incidência da leucemia e de ulcerações da pele nos antigos vietcongues. Para os que não querem esperar até lá, já existem Hiroxima e Nagasaki, onde os hospitais anotam hoje expressivo aumento de leucemia e carcinomas de vários gêneros. O que não deixa de ser um dado cientificamente relevante - isto é, bomba atômica, além de tudo, ainda dá câncer.


3. Ambiente de trabalho

A Revolução Industrial apenas começava, a poluição ainda era um mal de efeitos ignorados. Mas, já em 1775, un anatomista inglês, Sir Percival Pott, atinava para a relação entre o ambiente de trabalho e certas doenças. Examinando os limpadores de chaminé em Londres Sir Percival notou uma alta incidência de tumores em seus órgãos sexuais que, de certa forma, acumulavam maior quantidade de fuligem do carvão de pedra que outras partes do corpo. Os séculos seguintes só vieram confirmar a intuição de Pott.

Percebeu-se, por exemplo, que os trabalhadores que lidam com arsênico sofrem, com freqüência, de câncer de pele. Os empregados em fábricas de pneumáticos expõem-se, de modo especial, à leucemia, por causa de seu contato com a benzina. Os cromados que se utilizam na fabricação de tintas costumam provocar câncer no pulmão. Idêntico mal persegue os operários de refinarias ou complexos petroquímicos. E recentemente, o chefe de polícia de Washington descobriu entre seus 4.800 subordinados doze casos de tumor maligno de pele - atribuindo a taxa incomumente elevada ao emprego de gás lacrimogêneo em conflitos de rua.

Mas há especialidades industriais particularmente nocivas à saúde, embora só de vez em quando algumas tragédias alertem especialistas e a opinião pública para eles. Há dois anos, por exemplo, foi necessário que quinze trabalhadores morressem nos Estados Unidos, vitimados pelo mesmo e irrecuperável câncer no fígado, para que se confirmassem novamente os perigos desencadeados pelo cloreto de vinila - matéria-prima sintética empregada num largo espectro de produtos, desde cortinas de banheiro até bonecas e sacos plásticos.

A peculiaridade do cloreto de vinila é especialmente sinistra, já que, pela primeira vez, uma substância química desencadeia efeitos cancerígenos quase imediatos. Em três cidades do Estado de Ohio, EUA, pesquisadores descobriram um considerável número de mortes por tumores do sistema nervoso central, entre a população adulta, tanto quanto de formações neurais nas crianças. Na Inglaterra, houve três casos fatais entre 350 operários de uma fábrica de plásticos. E, na Itália, um cientista percebeu que as cobaias contraem câncer de fígado se expostas a uma quantidade de gás virilideno duas vezes menor do que aquela com que convivem os operários de qualquer indústria do gênero.

O asbesto ou amianto, isolante térmiCO e elétrico, tem se revelado, nas últimas três décadas, tão insidioso como o cloreto de vinila. Nos Estados Unidos, chegou-se a uma estatística chocante: um entre cinco operários que lidam com o mineral está irremediavelmente condenado à morte pelo câncer de pulmão. Mais ainda, três operários entre dez, nesse ramo industrial, não escapam a outras formas de tumores malignos, A contaminação pode se dar até à distância, como no caso de uma moradora de Paterson, Nova Jersey, que faleceu de câncer no pulmão aos 37 anos de idade. Intrigados com morte tão precoce, os médicos apuraram que, quando criança, a vítima costumava lavar os macacões do pai, empregado numa fábrica de amianto.

A ausência de episódios semelhantes, no Brasil, não significa, evidentemente, que o país seja uma ilha de salubridade industrial. De acordo com o sanitarista Pupo Nogueira, 510 operários brasileiros trabalham hoje só na produção de asbestos, sem se contar a industrialização propriamente dita. "É pouco provável que não haja casos de câncer entre eles", assegura Nogueira. "O que não há é diagnóstico."

Por isso mesmo é que as raras estatísticas disponíveis oferecem a ilusão de que o Brasil se acha imune às chamadas moléstias ocupacionais. Pupo Nogueira observa que os gráficos de 1974 falam apenas, genericamente, em 1.896.986 "acidentados do trabalho". Aliás, essa ancestral omissão oficial só começou a ser timidamente vencida agora, com a entrada em vigor de um decreto federal obrigando as empresas com mais de 100 empregados a contratar, no mínimo, um médico, um enfermeiro e um auxiliar de enfermagem.


4. Medicamentos

Paradoxalmente, há uma extensa legião de cientistas que teme muito menos os danos da alimentação, ainda que exagerada ou desequilibrada, do que, por exemplo, dos medicamentos que tiram a fome. Estes sim, dizem os pesquisadores, são potencialmente perigosos. A razão principal parece simples: tais medicamentos são compostos por substâncias químicas nem sempre devidamente testadas. E sua desconfiança se estende a vários outros gêneros de drogas.

Já se sabe, de fato, com relativa segurança, que as mulheres que tomam reserpina, remédio contra a hipertensão, ficam mais expostas aos tumores mamários. O cancerologista paulista Sampaio Góes trata de aumentar a relação. Ele fala, por exemplo, no fenilbutazona, capaz de provocar leucemia. A ingestão de clornafazin, observa Góes, parece estar ligada a cânceres no trato urinário. E o iodo radiativo pode dar origem ao tumor na tireóide.

Mas, se existem realmente drogas sob estreita e desconfiada vigilância, são aquelas relacionadas à fertilidade feminina. As suspeitas, no caso, recaem sobre as pílulas anticoncepcionais, usadas periodicamente por pelo menos 1 milhão de brasileiras. Essas desconfianças vêm se multiplicando sobretudo depois que experiências estrangeiras com animais, em laboratório, demonstraram que um dos componentes básicos da pílula, o estrógeno, provoca câncer no seio.

Da mesma forma, mulheres de meia idade que ingeriram consideráveis doses de estrógeno para aliviar os dramas da menopausa, nos Estados Unidos, tornaram-se mais vulneráveis ao tumor uterino. Mas o episódio mais trágico foi responsabilidade de um similar sintético do estrógeno, o dietilstibestrol (DES). Ministrado a milhares de mulheres americanas durante a II Guerra Mundial, na presunção de que seria eficaz contra abortos, a droga acabaria revelando drástico efeito retardado. Sete garotas, filhas de mães que haviam tomado o DES, passaram a padecer de um incomum carcinoma vaginal - e uma delas, Marilyn Malloy, veio a morrer, em maio de 1974, aos 17 anos.


 
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