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Reportagens 10 de julho de 1996Enfim, a esperança Um novo coquetel de drogas
Nesta semana, Vancouver, no Canadá, marcará seu lugar na história da medicina como a cidade de onde partiu o anúncio das primeiras vitórias significativas da ciência na batalha contra a síndrome da imunodeficiência adquirida. Sede da 11ª Conferência Internacional da Aids, Vancouver está atraindo 15 000 pesquisadores, médicos e ativistas de todas as partes do mundo. Até o próximo sábado, cientistas se revezarão em palestras e mesas-redondas para anunciar com orgulho, quase como uma vingança, os mais estupendos resultados já obtidos na luta contra o HIV, o vírus causador da Aids, a doença que em quinze anos de misteriosa e selvagem proliferação matou 4 milhões de pessoas. Depois de centenas de tentativas com as mais disparatadas terapêuticas, cientistas conseguiram descobrir e fabricar um coquetel de drogas capaz de conter o crescimento do HIV no organismo humano. O coquetel é 100 vezes mais poderoso do que o AZT, até então o único remédio disponível contra o vírus da Aids. As experiências são animadoras. Pacientes terminais ganham peso, controlam as infecções oportunistas típicas da doença e voltam a caminhar. Alguns retornaram ao trabalho. Ao cabo de três meses de tratamento, pessoas que se infectaram recentemente com o HIV livram-se de maneira quase total do vírus e não sobra o menor sinal dele na corrente sanguínea, mesmo sob o escrutínio dos métodos mais completos de detecção. "Pela primeira vez temos os instrumentos para combater a Aids: estamos de volta ao comando", diz, eufórico, o imunologista Martin Shechter, o canadense que preside a conferência de Vancouver. A palavra "cura" baila nos lábios dos médicos mas não é pronunciada, pelo menos publicamente. A terapia com o coquetel de drogas é ainda recente e, mesmo diante dos formidáveis casos de recuperação de pacientes, não se pode falar em cura. Os pesquisadores admitem abertamente, porém, que está próximo o dia em que a Aids sairá da lista de doenças fatais para integrar o rol das moléstias crônicas graves. É um alívio sem precedentes na história da doença, e o único sinal de esperança para 1,3 milhão de aidéticos espalhados por hospitais nos cinco continentes. A pandemia de Aids já levou o vírus a 21 milhões de pessoas, entre elas 700 000 no Brasil, que, diagnosticadas ou não, vivem como uma bomba-relógio humana. São reféns do instante pavoroso em que seu organismo finalmente perde a luta silenciosa contra o minúsculo invasor e a doença se instala. A nova multiterapia pode reverter esse cenário. Ela está calçada em surpreendentes descobertas teóricas recentes sobre a origem, a evolução e a natureza do HIV. Ela também se ampara em avanços farmacêuticos que não se supunha possíveis antes da virada do século. FAÇANHAS - Na semana passada, VEJA ouviu em Nova York os dois cientistas que serão as estrelas maiores em Vancouver. Um é Roy Gulick, pesquisador do Bellevue Hospital, ligado à Universidade de Nova York. O outro é David Ho, virologista que dirige o Centro de Pesquisa da Aids Aaron Diamond, cuja equipe e recursos técnicos rivalizam com o famoso Instituto Pasteur, de Paris. Ali, Ho dirige meia centena dos mais talentosos microbiologistas do mundo. Quando se for premiar, talvez até com o Nobel de medicina, o pai teórico do coquetel de drogas, a figura carismática e agitada do professor Ho terá de ser lembrada. Ele é autor de duas façanhas que revolucionaram a maneira como a ciência encarava a Aids. Primeiro, Ho descobriu um método de medir a quantidade de vírus circulante no organismo. Ele mostrou o que todo mundo intuía, mas nunca se tinha visto uma prova: quanto mais vírus circulante, mais violenta será a Aids e menor a sobrevida do paciente. Sua descoberta resolveu o enigma da razão por que pacientes com contagens altas de células de defesa tinham, muitas vezes, infecções oportunistas mais severas do que pacientes com contagens baixas. Ao provar que a tarefa mais urgente era diminuir quantidade de partículas viróticas no sangue, Ho abriu o caminho teórico para as multiterapias. Depois dessa descoberta, perdeu força a busca de uma vacina para a Aids. Ou seja, os cientistas constataram que seria mais produtivo tentar enfraquecer o vírus do que fortalecer o organismo humano. O segundo feito importante de David Ho foi demonstrar que o HIV nunca descansa no organismo. Mesmo no longo período assintomático, que varia de sete a mais de dez anos, o HIV continua se reproduzindo loucamente no organismo. Ho descobriu que o vírus se entrincheira nos nódulos linfáticos, pontos-chave do sistema imunológico humano. Dali, de seu quartel-general privilegiado, fora do alcance dos testes e drogas convencionais, o HIV se fortalece para o assalto final ao paciente. Sua descoberta mostrou que é preciso e possível combater o vírus desde o primeiro dia em que ele se instala no organismo - e não mais apenas quando ele começa a causar problemas. Seu lema é "atacar cedo e forte". É exatamente isso o que Ho está fazendo. IDOLATRIA - No 7º andar do centro de pesquisas que dirige em Manhattan, David Ho é conhecido por não se sentar quase nunca e por ter sido o médico do astro de basquete Earvin Magic Johnson, o mais famoso portador do vírus da Aids do planeta. Todo assessor de Ho conta aos visitantes, num exercício de idolatria, que há dois anos ele recebeu e recusou, no mesmo telefonema, o convite do presidente Bill Clinton para ser o czar da Aids nos Estados Unidos. "Por nada neste mundo trocaria o laboratório melhor equipado do mundo por um trabalho burocrático", afirma Ho, 46 anos, a face de lua cheia, irrequieta e risonha. Do pesado sotaque chinês dos pais sobrou apenas o ritmo das frases em que as palavras saem aos jatos, seguidos de longos silêncios. Ele recebe informes de experiências semelhantes em todo o mundo. Ho é uma espécie de centro mundial de referência da doença. "Sei que no Brasil a Merck tem um importante programa de monitoramento do efeito dessas drogas novas", diz Ho. Em Vancouver, ele mostrará os resultados espetaculares obtidos com o novo coquetel em dezoito voluntários, pessoas que contraíram o vírus da Aids há menos de dez meses. "As drogas são muito poderosas, tanto que em três meses eles não têm mais sinal do vírus no sangue", explica Ho, que recentemente conseguiu obter de alguns dos voluntários permissão para colher amostras de seus nódulos linfáticos e pesquisar neles a existência do vírus. "Caso as biópsias mostrem que não há vírus nos nódulos, vamos interromper as drogas", conta Ho. Se o vírus não voltar em cinco anos, os médicos podem declarar os pacientes clinicamente sadios. Cinco anos é um período de tempo meio cabalístico entre os pesquisadores. Em dez anos, sabe-se, o organismo renova quase todos os 70 trilhões de células do corpo humano. Em cinco anos, se um câncer estirpado cirurgicamente, por meio de drogas ou radiação, não reaparece, o paciente é considerado curado. Dificilmente terá restado no organismo alguma semente do mal. Ho não fala em cura da Aids. Mas ele conta com a certeza de que o coquetel de drogas quebrou a espinha dorsal da doença: a capacidade do vírus de se multiplicar no organismo. Ele usa em seus pacientes uma combinação do velho AZT com duas novidades farmacêuticas, o 3TC e o Ritonavir. O AZT e o 3TC são parecidos. Eles podem bloquear os estágios iniciais do ciclo reprodutivo do vírus HIV na célula humana. Já o Ritonavir, sintetizado pelo laboratório Abbott, é capaz de interferir no estágio final do ciclo reprodutivo do vírus. Ou seja, as drogas permitem um ataque múltiplo e combinado ao inimigo. As drogas que atacam o primeiro estágio do vírus são chamadas de "bloqueadores de transcriptase reversa". As que atacam no final do ciclo são conhecidas como "inibidores de protease". O médico Roy Gulick utiliza uma ligeira variação do coquetel de Ho. Em vez de Ritonavir, ele usa um outro inibidor de protease, o Indinavir, do laboratório Merck. Gulick trabalha com doentes já maltratados pelas infecções oportunistas da Aids. ALEGRIA - Os funcionários e colegas de Gulick no Bellevue, o mais antigo hospital público dos Estados Unidos, nunca o viram tão disposto. Antes da descoberta dessas novas drogas, ele chegava ao hospital cabisbaixo, mudo, impenetrável. Parecia mais um doente do que um médico. "A diferença é que antes eu não podia dar alívio a meus pacientes, e agora voltei a ser um médico: trato deles como se tivessem uma doença crônica e acho que, num futuro próximo, será como se sofressem, digamos, de pressão alta e não de Aids", diz Gulick, cujo consultório é separado do de David Ho apenas pelo tráfego pesado da Primeira Avenida, em Manhattan. É coincidência que Nova York tenha sido a cidade onde foram feitos os experimentos mais positivos com as novas drogas? "As experiências devem ter ocorrido aqui porque nenhum médico sofreu como a gente", diz Gulick. "Em números absolutos, Nova York, e em especial nossa vizinhança, foi campeã de Aids durante muitos anos." Gulick sente-se vingado contra o vírus HIV, uma peste microscópica que contém apenas nove genes e mesmo assim se vinha impondo contra o complexo organismo humano e seus 100 000 orgulhosos genes. O presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia, André Villela Lomar, acusa a mesma sensação de alívio. "É uma alegria ver um paciente que vivia prostrado dizer que nunca se sentiu tão bem quanto agora", diz Lomar. A maioria dos pacientes de Gulick estava beirando a fase terminal da doença. Tinha contagens de linfócitos, as células do sistema imunológico que são a principal vítima do HIV, abaixo de 440 por mililitro de sangue. O normal é 1 000 células por mililitro. Menos de 500 já é começo do fim. Seis meses depois das primeiras doses, os sinais animadores começaram a aparecer. No início, sumiram as infecções da boca. Em seguida, os pacientes começaram a ganhar peso. Logo não se podia mais encontrar as vermelhidões e inflamações da pele que a Aids provoca. Mas a maior vitória ocorreu nas duas últimas semanas. Gulick não revela a ninguém os dados coletados mais recentemente, pois quer reservá-los para a platéia científica de Vancouver. Mas quem viu os manuscritos de Roy Gulick sabe que ele vai contar em Vancouver que, ao cabo de doze meses de tratamento, o novo coquetel de drogas curou um paciente do sarcoma de Kaposi e em outro fez essa terrível doença associada à Aids reverter ao ponto da remissão quase total. O ponto fundamental da ação das novas drogas é impedir a reprodução do HIV, que se propaga de maneira assustadoramente rápida no organismo. Se não for atacada por drogas, a população virótica se renova 50% a cada dois dias. Ou seja, em 48 horas morre metade dos vírus que estão perdendo a guerra contra o corpo humano. Mas eles logo são substituídos por novos vírus mutantes, ainda mais capazes de enfrentar o combate com as defesas do organismo. Esse processo de seleção natural dos vírus mais fortes é muito eficiente. Em alguns anos o exército de vírus livra-se de todas as cepas fracas, e tem em suas fileiras apenas os espécimes mais violentos. É nesse instante que a Aids sai do controle e destrói o sistema imunológico, abrindo caminho para as infecções oportunistas. INDAGAÇÃO - O coquetel de drogas, em primeiro lugar, diminui em uma centena de vezes o ritmo de reprodução do vírus. Em segundo, ele interfere no processo natural de mutação do vírus de um modo muito engenhoso: o HIV não consegue mais escapar do ataque químico pelo caminho natural. Ou seja, desenvolvendo resistência à droga. Em dezoito meses o vírus fica resistente a uma única droga - ao AZT por exemplo. As chances, porém, de que ele ao mesmo tempo desenvolva resistência ao AZT, ao 3TC e ao ritonavir são matematicamente quase nulas. "Se o vírus escolhe o caminho evolutivo de ficar resistente ao AZT, ele acaba se tornando suscetível ao ritonavir. Ele não consegue mutar nas duas direções ao mesmo tempo", explica Gulick. "Pela primeira vez nós conseguimos combater o vírus no campo dele e por enquanto estamos vencendo." "Charles Darwin ficaria radiante se soubesse que, mais de 100 anos depois de formulada sua teoria da evolução, ajudou a combater uma doença fatal", comenta Gulick. O pesquisador americano Robert Gallo e o francês Luc Montagnier, pioneiros da luta contra o vírus, têm razões de sobra para comemorar. Eles apostaram suas carreiras na hipótese de que sem HIV não existiria a Aids. Uma teoria paralela, dando conta de uma Aids de origem não virótica, vinha ganhando corpo nos últimos anos, alimentada principalmente pelo fato de que aparentemente muitas pessoas tinham HIV no corpo, mas não desenvolviam a doença. A teoria não virótica está sepultada por ora pelos coquetéis de drogas. Para alegria de Gallo e Montagnier, os experimentos mostram que, sempre que a carga de vírus diminui no organismo, caem na mesma proporção as doenças associadas à Aids. Ou seja, o HIV é mesmo culpado. A perturbadora indagação que todos os cientistas se fazem agora é: até quando se conseguirá dominar o vírus com a multiterapia? "Realmente, a nova terapia baixa muito a quantidade de vírus no organismo, mas só o tempo vai dizer se esses benefícios podem ser mantidos para sempre e a que custo para o organismo", diz David Uip, infectologista do Hospital das Clínicas. Pela primeira vez, desde os primeiros diagnósticos da Aids, em 1981, tais indagações não têm como resposta apenas um assustador "ninguém sabe". Pelo menos agora se sabe que a resposta independe menos do poder de reação do vírus e mais da capacidade do organismo de absorver e conviver com os remédios. Os cientistas estão convencidos de que a multiterapia é um ardil evolutivo para o vírus. Ela força o surgimento de vírus cada vez mais fracos. A questão crucial no momento é manter o organismo dos pacientes forte o bastante para suportar a agressão da terapia. O AZT, por exemplo, é muito tóxico. Alguns pacientes simplesmente não o toleram. O ritonavir interage com os antibióticos e antifungais usados por muitos pacientes aidéticos. O indinavir sozinho pode levar os vírus a desenvolver resistência a ele e a outros bloqueadores de protease. Há outros problemas grandes com as multiterapias - mas cuja solução nem se compara em magnitude e complexidade à situação anterior de combater o HIV apenas com o AZT. "Parece que estamos vivendo uma época de trégua do vírus", conta Dráuzio Varella, oncologista de São Paulo. Os comprimidos bloqueadores de protease, por exemplo, são absorvidos com muita dificuldade pelo organismo. Um teste feito na Itália mostrou que, mesmo depois de um paciente ingerir nove comprimidos de indinavir, a quantidade do remédio que chegou ao seu sangue variou de 0% a 4%. É muito pouco. Espera-se que em Vancouver os laboratórios anunciem novidades nessa área. O Hoffman-La Roche vai mostrar na reunião do Canadá dados sobre o saquinavir, outro poderoso bloqueador de protease, cuja absorção pelo organismo é muito mais eficaz. Os médicos também já souberam que o laboratório Vertex/Glaxo sintetizou um composto bloqueador de protease, o VX-478, que seria capaz, segundo os dados preliminares, de atacar o vírus não apenas na corrente sanguínea, mas em redutos que se julgavam indevassáveis: o cérebro e os nódulos linfáticos. CARO - Uma avaliação geral das novas terapêuticas deixa os médicos otimistas. Os problemas de intolerância e absorção das drogas são questões com as quais os laboratórios sabem lidar. Eles salientam que o atual estágio da luta contra a Aids lembra os primeiros tempos da quimioterapia contra o câncer, no início dos anos 60. Naquela época, os remédios eram quase tão letais quanto a doença. Atualmente, a maioria dos tipos de câncer pode ser combatida com algum sucesso, graças à quimio. Um paciente que recebe o diagnóstico de câncer hoje vive quase dez anos mais, em média, do que nos anos 60. Alguns tipos de câncer, como a leucemia infantil, que matava 95% de suas vítimas nos anos 60, hoje podem ser tratados em boa parte dos casos. "Pelo ritmo dos avanços atuais caminhamos para uma situação em que a Aids não será mais uma preocupação para os nossos filhos", observa Fernando Reinach, pesquisador da Universidade Cornell e da Universidade de São Paulo. Ele tem filhos com menos de 10 anos. Superados todos os problemas biológicos e farmacêuticos, a nova maneira de atacar a Aids ainda está longe de erradicar a doença do mundo. O problema maior é o custo. Nove em cada dez aidéticos moram em países pobres e não têm como pagar o custo, médio, de 12 000 dólares por ano pelo tratamento, que talvez tenha de se prolongar por toda a vida. Os cientistas não gostam de falar no assunto. "Pergunte aos laboratórios. Não posso pensar nisso, senão fico paralisado", confessa David Ho. Pelos cálculos do Banco Mundial, a pandemia de Aids terá custado até o ano 2000 1,4% do PIB mundial. Isso dá algo em torno de 500 bilhões de dólares, o equivalente a varrer do planeta toda a economia do Brasil. Tratar o 1 milhão de pacientes de Aids dos países pobres custaria bem menos, cerca de 12 bilhões de dólares por ano - uma cifra que não assusta quando se sabe que no ano passado os países ricos doaram 54 bilhões de dólares para os pobres. Tratar todos os cerca de 18 milhões de soropositivos pobres, no entanto, exigiria um esforço jamais tentado. Significaria transferir todos os anos cerca de 180 bilhões de dólares do Hemisfério Norte para o Sul. Mas o problema do custo pode ser resolvido. O básico é ter sido encontrada uma maneira eficaz de enfrentar a doença. |
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