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10
de julho de 1974
O CHOQUE DO PRESENTE
A DIFÍCIL TAREFA DE ENTERRAR
UM MITO NACIONAL
O garçom portenho Eustaquio Flores,
53 anos, portador da ficha de inscrição n° 19 do Partido
Justicialista (a de n° 1 ainda pertence a Perón), empregado
do tradicional restaurante Sorrento, na avenida Corrientes, saiu
rua afora e, desesperado, gritou para que toda a Argentina ouvisse:
"Se nos fué el viejo, se nos fué el viejo".
Em seguida, Flores, amparado por seus
companheiros, retornou ao interior do restaurante. Eram 14h12 de
segunda-feira passada.
Chorando, os olhos e o nariz vermelhos,
com o rosto molhado pela chuva e o lenço embebido de lágrimas,
o peão de estância Inacio Cecilio Álvarez, 39
anos, chegou de Junín (260 quilômetros a oeste de Buenos
Aires) às 9h30 do dia seguinte, poucos momentos após
a passagem do cortejo fúnebre rumo ao Congresso.
Álvarez enfrentou todo o aguaceiro
que se abateu sobre a cidade naquela noite e ingressou no Salão
Azul cambaleante somente às 16h15 do dia seguinte. "Para
o trabalhador, Perón foi o maior. Foi o pai do Terceiro Mundo",
sussurrava sem parar. Finalmente, ainda chorando, Álvarez
retornou a Junín num dos trens grátis colocados à
disposição da população.
As cenas foram incontáveis, e as
emoções, incontroláveis. Enquanto a nação
argentina mergulhava numa dor quase mórbida, Buenos Aires
apresentava-se desnorteada como após uma guerra, comenta
o correspondente de VEJA em Buenos Aires, Augusto Montesinos. Com
suas lojas fechadas, o trânsito proibido e as calçadas
quase desertas, a capital havia cessado de viver desde as 13 horas
de segunda-feira, ao mesmo tempo que Juan Domingo Perón.
Aos 78 anos de idade, após ter dominado,
invadido, fascinado e moldado a vida dos argentinos durante três
décadas, Perón finalmente abandonava seus compatriotas.
Presidente absoluto durante nove anos, proscrito e exilado ao longo
dos dezoito seguintes, reentronado no poder há pouco mais
de nove meses, ele havia feito de seu nome uma bandeira e de sua
pessoa um patrimônio nacional. E tombou, vítima de
uma "broncopatia infecciosa, com repercussões sobre
uma antiga afecção circulatória central"
- como informaram os boletins médicos -, quando mais o país
necessitava de sua autoridade e sua liderança, para aplacar
as diferenças e disciplinar as tumultuadas expansões
da dividida sociedade argentina.
Desde o último dia 19, uma quarta-feira,
Juan Domingo Perón encontrava-se recolhido a seu leito de
doente no 1° andar do chalé branco cercado de eucaliptos
da residência presidencial de Olivos. A partir de sexta-feira,
dia 26, começaram a circular rumores alarmantes sobre seu
estado de saúde. E as últimas segunda e terça-feira
foram dias de lenta, angustiada agonia para Per6n e a Argentina,
com as emissoras de rádio e televisão divulgando boletins
médicos de hora em hora até que, às l4h10 da
terça-feira, entraram em cadeia nacional para que a vice-presidente
da República e mulher de Perón, María Estela
("Isabelita") Martínez, anunciasse ao país
a notícia ao mesmo tempo esperada e temida: havia 55 minutos
- desde 13h15 daquela tarde cinzenta e de nuvens pesadas em Buenos
Aires -, Perón estava morto.
O ESPÓLIO - O país
dobrava uma arriscada esquina de sua história. No dia seguinte,
o corpo do carismático presidente seria transportado para
a Catedral Metropolitana - onde foi rezada a missa - e em seguida
para o edifício do Congresso Nacional, onde foi exposto à
visitação pública durante três dias.
Mas, antes mesmo do sepultamento - ainda sem data marcada, no final
da semana passada, enquanto o corpo, cumprindo um inesperado périplo,
retomava à residência de Olivos -, María Estela
Martínez, feita presidente, já pôde compreender
que as personagens legendárias não têm sucessor
- ou, então, têm herdeiros demais, segundo Luiz Cláudio
Cunha, enviado especial de VEJA.
Com efeito, o espólio político
do caudilho, em meio ao caudaloso e multifacetado movimento peronista,
já está em pleno andamento. Irremediavelmente divididos
entre uma CGT oportunista e uma exaltada Juventude Peronista, oscilando
entre líderes como José López Rega - personificação
da direita - e Héctor Cámpora - bandeira da esquerda
-, os peronistas pareciam, já na semana passada, em plena
corrida pela disputa do poder. Era um mistério se - e até
quando - Isabelita, com seu despreparo e sua inexperiência
política, conseguiria o milagre de legar ao movimento um
mínimo de coerência e interesses comuns. E, em meio
ao gigantesco vazio deixado pela morte de Perón, além
das alas rivais do justicialismo, era possível intuir uma
renovada movimentação também em setores antiperonistas,
como os militares e a oposição civil ao ex-presidente,
liderada por Ricardo Balbín, do Partido Radical.
UM SÓ CHORO - Caía
a noite e, com ela, as primeiras gotas de chuva após a morte
de Perón. Na plaza del Congreso, cidadãos argentinos
começavam a se aglomerar em silêncio, enquanto militantes
da Juventude Peronista, de tendência esquerdista, e seus odiados
irmãos dá Confederação Geral do Trabalho
(CGT, direitista) manifestavam a mútua hostilidade.
Como em 20 de junho de 1973, quando do
ansiado retorno de Perón à Argentina, ambos queriam
chegar primeiro às proximidades do caudilho - não
importa estivesse ele morto. Como era de se supor, os duros grupos
paramilitares da CGT, identificados por uma braçadeira azul
e branca das 62 organizações sindicais, acabaram por
conquistar o controle da praça, prevalecendo-se de sua superioridade
numérica e dos revólveres que cada militante trazia
sob a jaqueta. Desta vez, no entanto, não se repetiu a tragédia
da recepção do caudilho em Ezeiza, quando o choque
entre as duas facções deixou um saldo de trinta mortos
e mais de trezentos feridos.
Já ao amanhecer de terça-feira,
uma coluna de tanques se postava nas imediações da
quinta presidencial, isolando a área num raio de quarenta
quadras. Enquanto isso, pelo menos 10.000 homens das três
armas dispunham-se ao longo do trajeto a ser percorrido pelo cortejo
fúnebre, numa extensão de mais de 15 quilômetros.
E no centro de Buenos Aires tinha-se a impressão de que a
cidade havia sido ocupada militarmente, lembrando, por instantes,
épocas mais duras de governos anteriores: apenas os veículos
oficiais e as motocicletas da Polícia Federal tinham livre
trânsito pelas ruas.
Assim, protegido contra eventuais excessos,
o féretro do líder justicialista abandonou a residência
de Olivos quando a terça-feira ainda começava a clarear,
escoltado por duzentos cavaleiros do Regimento de Granaderos de
San Martín. E quando, após longas horas, chegou à
plaza de Mayo sobre uma carreta militar e rebocado pelo Carrier
de registro EA-31688 (o mesmo tipo de transporte utilizado 21 anos
antes para levar o corpo de Evita), velhos de lealdade insubstituível
e jovens de dedicação inimaginável já
choravam da mesma e convulsiva forma.
PROBLEMAS DESCOMUNAIS - Sentiam-se
no direito de protestar contra a barreira militar que os distanciava
do ataúde e exigiram o recuo de um tanque, postado à
frente da Catedral Metropolitana onde seria oficiada a missa fúnebre,
que atrapalhava a visão da urna de Perón coberta com
a bandeira argentina e encimada pelo quepe e a espada do general.
Sobretudo, enquanto o cardeal de Buenos Aires, dom Antonio Caggiano,
orava pela alma desse "cristão, humanista e inimigo
da violência" - fazendo esquecer, definitivamente, irrequietas
relações Perón-Igreja do passado -, a multidão
se impacientou bastante com o desenrolar quase privado da cerimônia
religiosa.
Finalmente, pouco antes do meio-dia, o
ataúde do caudilho, mais uma vez sobre a carreta, percorreu
o último trajeto até o desbotado prédio do
Congresso Nacional - um meio-termo arquitetônico entre o Capitólio
de Washington e o Reichstag de Berlim -, onde seria venerado pelos
argentinos durante três dias. "Perón, Perón",
"Isabel, Isabel", gritava a multidão, agarrada
a árvores ou postes, debruçada em edifícios,
espremida nas calçadas, enquanto acenava lenços, jogava
flores, enxugava lágrimas.
Naturalmente, essa multidão, calculada
entre 800.000 e 1 milhão de pessoas, acarretava problemas
também descomunais. De fato, na área em frente ao
Congresso concentrava-se apenas a parte mais privilegiada da massa
peronista, enquanto nas ruas adjacentes um número de pessoas
talvez maior tentava de todas as maneiras ultrapassar as barreiras
de soldados e policiais armados de metralhadoras, fuzis automáticos
e lança-bombas de efeito psicológico. Para conter
a multidão a qualquer custo, foi armada uma espécie
de ecumênico acampamento militar das Forças Armadas
argentinas: soldados do Exército em roupa de campanha, pelotões
de choque, patrulheiros de motocicletas estridentes, membros da
Polícia Federal de capacete e uniforme azul, efetivos da
Polícia Provincial, além dos ríspidos elementos
da força paramilitar de CGT, que em muitos casos outorgavam-se
tanto ou mais autoridade do que os policiais. Todo esse aparato,
de braços entrelaçados, ombro a ombro, formava uma
dupla parede humana que suportava as idas e vindas da onda humana
em desespero.
INTRIGAS - Entre essa multidão
desamparada, desorientada, não faltou quem apelasse, naquela
hora de angústia e perplexidade, a um recurso desesperado
- procurar um culpado. "Se López Rega não tivesse
feito o 12 de junho, o general não teria morrido", disse
um jovem, na avenida Corrientes, a Luiz Cláudio Cunha. Na
verdade, ele não estava só nessa opinião: entre
vastas camadas da população argentina, acreditava-se
piamente, naquele momento, que se não fosse a friagem apanhada
por Perón no dia 12 - quando, num fim de tarde úmido
e com 5 graus de temperatura, falou ao povo na plaza de Mayo -,
seu estado de saúde não se agravaria. E, como foi
o ministro do Bem-Estar Social, José López Rega, quem
organizou o comício, logicamente só poderia ser ele
o culpado.
Em realidade, o nome de López Rega
- o incrível Rasputín da corte peronista, ex-secretário
particular de Perón e ex-guarda-costas de Isabelita, dado
à astrologia nas horas vagas e por isso alcunhado "el
brujo" - é atualmente, aos 57 anos, um dos mais citados,
para o bem e para o mal, na política argentina. Quando se
fala em divisões dentro do peronismo, ou da luta pelo poder
entre os partidários do falecido presidente, sua referência
é obrigatória. E, mais ainda, não se pode esquecer
de "el brujo" quando se entra no terreno sinuoso das intrigas
palacianas.
Desde o momento em que Perón expirou,
López Rega colocou-se freneticamente a campo, preparando
o assalto a seu maior rival dentro das hostes peronistas - Héctor
Cámpora. E, nessa luta, não hesitou em lançar
mão de um recurso de duvidosa ética - atribuir ao
falecido palavras que ele não mais poderá contestar.
"Dez minutos antes de morrer", disse o irrequieto ministro
do Bem-Estar Social a alguns dirigentes peronistas, "ouvi Perón
dizer que o que mais sentia era a traição de Héctor
Cámpora, por ter enchido o país de comunistas".
SINTOMAS - Naturalmente, essas acusações
- num momento em que Cámpora, abandonando a embaixada argentina
no México, voltava a Buenos Aires disposto a reativar suas
bases políticas - tiveram grande repercussão nos meios
políticos. E chegaram a provocar a intervenção
do capelão Hector Ponzo, responsável pela administração
da extrema-unção a Perón. Segundo o capelão,
o ex-presidente, logo depois de receber o sacramento, uma hora antes
de morrer, perdeu a consciência. E, portanto, não poderia
ter se dirigido a López Rega apenas 10 minutos antes de expirar.
Inevitavelmente, o episódio contribuiu
para o descrédito de "el brujo". E, apesar de toda
a sua antiga amizade a Perón e Isabelita - expressada muitas
vezes em níveis de puro servilismo -, havia indícios,
no final da semana passada, de que sua estrela estava em declínio.
Segundo se conta em Buenos Aires, as estreitas relações
mantidas entre López Rega e Isabelita começaram a
esfriar-se quando, já há dois meses, o ministro do
Bem-Estar Social interferiu inoportunamente numa conversa entre
a então vice-presidente e um diplomata estrangeiro. Friamente,
Isabelita ordenou-lhe que deixasse a sala. E a esse incidente sucedeu-se,
nas semanas seguintes, uma crescente irritação de
Isabelita diante das mal disfarçadas ambições
do ministro do Bem-Estar Social, ante a deterioração
da saúde de Perón. A impaciência da sra. Perón
teria chegado ao ponto de, como se informava na semana passada,
ter ordenado a López Rega que procurasse casa porque não
mais lhe seria permitido residir no palácio de Olivos.
Mas havia ainda outros sintomas da decadência
da outrora poderosa eminência parda da Casa Rosada. Segundo
certos rumores, seu nome e o do ministro da Economia, José
Gelbard, constariam de uma lista negra preparada pelos militares
alinhando as personalidades inaceitáveis para os futuros
gabinetes. E, se havia alguma surpresa pela inclusão de Gelbard
neste rol - afinal, aparentemente trata-se de um inofensivo tecnocrata
-, ninguém estranhou o aparecimento do nome de López
Rega, suficientemente desgastado para ingressar sem dificuldades
em qualquer lista de indesejáveis.
PESCAR A PRESA - Contudo, o nervosismo
político dos líderes mais chegados ao poder foi totalmente
ignorado pelos cidadãos argentinos que, na terça-feira
passada, permaneciam espremidos nas adjacências do Congresso
Nacional, na esperança improvável de conseguir entrar
no Salão Azul.
Inevitavelmente, começaram a cair
as primeiras vítimas. Além da emoção,
os argentinos que acorreram à plaza de Mayo passaram a padecer
de falta de ar. Homens, mulheres e crianças tiveram de ser
erguidos, muitas vezes já desmaiados, e transportados de
mão em mão, sobre a cabeça da multidão,
até a área livre em frente ao Parlamento onde dezenas
de enfermeiros e médicos os carregavam às pressas
para as treze ambulâncias disponíveis.
Tranqüilizantes, comprimidos e estimulantes
constituíam o tratamento de urgência. Nos casos de
ataques cardíacos ou grave insuficiência respiratória,
uma nova sirena passava a juntar-se à angustiante sinfonia
do local, tentando abrir caminho rumo ao hospital. Por outro lado,
aqueles que conseguiam recuperar-se em menos tempo, cediam seu lugar
na ambulância ao próximo desmaiado, e transferiam-se
para os degraus de um pequeno monumento a Thomas Edison, transformado
num improvisado "centro de repouso".
(A freqüência, entretanto, não
cessava. Só entre a manhã e a tarde de terça-feira,
mais de 1.800 pessoas foram atendidas.) Muitas vezes, nem mesmo
pelo ar era possível trazer a vítima do centro da
multidão até a área livre; nesses casos, os
médicos enfermeiros eram forçados a se jogar no meio
da massa humana, junto com policiais, para pescar a sua presa.
SINAL-DA-CRUZ - Para todos, a meta
era uma só: subir uma rampa que dava acesso à única
porta aberta do Congresso, e alcançar, fosse apenas por um
segundo, o Salão Azul, onde estava sendo velado o corpo de
Perón. Na verdade, muitos argentinos sequer tiveram direito
a esse segundo de contemplação: durante os primeiros
instantes da visitação, a confusão reinante
manteve a média de trinta pessoas por minuto em frente ao
caixão do caudilho. Mas pouco a pouco o fluxo cresceu para
cinqüenta pessoas, e, na quarta-feira, quando longas filas
de até vinte quadras de extensão foram finalmente
organizadas, o índice subiu para oitenta visitantes por minuto.
Alguns, ao verem o caudilho sob o pesado
lustre dourado de cristal - que, segundo os argentinos, "es
el segundo más grande del mundo" mas estava apagado,
pois o calor de suas dezenas de lâmpadas poderia afetar a
conservação do cadáver - faziam o sinal da
vitória; outros lançavam um breve aceno ou abanavam,
timidamente, um lenço branco. Todos, porém, faziam
o sinal-da-cruz - às vezes para desabar logo em seguida,
com um estrondoso desmaio, sobre o mármore róseo do
salão nobre.
Isabelita, que inicialmente pensara em
enterrar o marido já na quarta-feira, no cemitério
de Chacarita, localidade próxima a Buenos Aires onde a família
Perón tem um mausoléu, adiou o traslado em 24 horas,
para satisfazer a mais alguns milhares de peronistas desconsolados.
E na manhã de quinta-feira, ao invés de levá-lo
diretamente a Chacarita, ela transformou a solenidade do enterro
num simples ato de deposição do caixão na pequena
capela de Nossa Senhora das Mercês, na própria quinta
presidencial de Olivos, alegando a necessidade de consertos no túmulo
familiar.
Considerando-se o interminável périplo
do cadáver de Evita Perón através de décadas
e países, é de se supor, igualmente, que o corpo do
caudilho não venha a descansar em paz tão breve. A
quase hereditária devoção à morte dos
argentinos, sua atração por espetáculos macabros
e o indisfarçado gosto pelo dramático certamente hão
de impedir que os restos mortais de Perón sejam esquecidos.
A permanência em Buenos Aires do
soturno embalsamador de cadáveres Kamayura, que embelezou
Evita e manteve em sua própria casa o corpo da esposa por
um período de cinco anos, pode ser outro indício de
que o trabalho executado em Perón na semana passada (injeção
nas veias de uma solução de formol para melhor conservação)
ainda não está concluído.
HORIZONTE INFLACIONÁRIO -
Permanecendo insepulto, o cadáver de Perón cumpre
a função de preencher provisoriamente o próprio
vazio que deixa. Certamente não caberá a uma só
pessoa - e, ao que tudo indica, dificilmente a Isabelita - preenchê-lo.
Antes de mais nada porque cada célula do organismo peronista
se julga no direito de desenvolver-se agora independente das demais.
Depois, porque há organismos que, rivais do peronismo vivo
e não podendo devorá-lo antes, se empenham para alimentar-se
dele agora.
Nesse quadro, a única herdeira legal,
Isabelita, tem pela frente a imensa tarefa de definir - e limpar
- o caminho a seguir, caso queira preservar o legado.
Por enquanto, todas as forças afirmam
a disposição de respeitar o processo constitucional,
isto é, nada fazer que possa contribuir para afastar María
Estela da presidência da República antes de 1977, quando
termina seu mandato legal.
Mas parece quase certo, igualmente, que
muitos sindicatos não concordarão em continuar mantendo
o Pacto Social - acordo firmado em maio de 1973 entre empregados,
empregadores e governo, congelando alguns preços e os salários
até junho do próximo ano. A hipótese de rompimento
do compromisso - até dias atrás mantido por esforço
pessoal de Perón - faz vislumbrar um horizonte inflacionário
que terminaria por destruir o esquema econômico com que até
agora o peronismo manejava para manter os cofres argentinos em razoável
equilíbrio. E, rompido o equilíbrio econômico,
é previsível que o precário equilíbrio
social da nação se romperá também.
OUVIR, APENAS - Boiando sobre o
mar agitado que se prenuncia, a presidente María Estela terá
de definir, primeiramente, em que ala do peronismo poderá
encontrar apoio para se manter à tona. De um lado, há
a direita, cuja expressão pessoal é López Rega,
amparado na burocracia sindical. Seus adversários vislumbram
nele o diabólico arquiteto de planos de pressão sobre
a presidente, visando a anular muitas conquistas dos trabalhadores.
Outro caminho que se apresenta para Isabelita
é o de buscar amparo na Juventude Peronista, cujo principal
candidato a porta-bandeira continua sendo Héctor Cámpora.
Para obter esse apoio, no entanto, ela terá de violentar
uma das vontades de Perón, na medida em que os jovens esquerdistas
são favoráveis a profundas mudanças sociais
e a restrições às atividades de empresas estrangeiras
instaladas na Argentina.
Seja qual for a escolha, a facção
desprezada dificilmente deixará de colocar-se como um adversário.
O que faz com que Isabelita talvez tente prolongar ao máximo
a única manobra que no momento parece oferecer-lhe a chance
de sobreviver politicamente: ser uma espécie de administradora
do espólio, ouvindo todos e não decidindo nada. Resta
que os principais interessados não parecem dispostos a conceder
prazos.
INICIATIVA ALHEIA - Embora mantendo
o ar bonachão de dentista e presidente aposentado, Cámpora,
aos 65 anos, estaria disposto a iniciar uma luta sem quartel para
retomar a condução do peronismo, que manteve até
sua melancólica renúncia em 13 de julho do ano passado,
após 49 dias na Casa Rosada. Pretenderia mesmo, segundo os
rumores que já circulavam insistentemente em Buenos Aires,
voltar a obter nas urnas - desta vez sem Perón - pelo menos
os 50% de votos obtidos em 11 de março como delegado do caudilho.
E, mais que uma tentativa de chegada ao poder, transparece em seu
gesto uma esperança de reparação ao dia em
que, por obra dos peronistas conservadores, teve de abrir as portas
da Casa Rosada (onde estava "no governo") para Perón
(que estava "no poder").
Agora, mais uma vez ele renunciou. E, ao
que tudo indica, também por iniciativa alheia. Dia 28 último,
ao ser informado da gravidade da saúde do presidente, abandonou
o posto de embaixador da Argentina no México, para onde fora
enviado pouco após seu curto mandato presidencial, e voou
para Buenos Aires, visitando Perón imediatamente. Ao desembarcar,
declarou à imprensa que viera cuidar da próxima visita
do presidente do México, Luís Echeverría, à
Argentina. Mas o chanceler Alberto Vignes desmentiu-o imediatamente
e obrigou-o a apresentar sua renúncia, numa tentativa de
afastá-lo não só do cargo mas também
do peronismo à disposição.
NAVIO À DERIVA - É
impossível porém, afastar todos, sobretudo os adventícios.
Ricarlo "el chino" Balbín, por exemplo, apesar
de seus 69 anos e de seu corpo atarracado, tem-se revelado extremamente
insinuante. Eterno adversário do peronismo, encarcerado por
isso durante o primeiro governo de Perón, 27 anos atrás,
ele vinha mantendo seguidas reuniões - "de entendimento",
em suas próprias palavras - com o caudilho, cuja morte já
era tida como uma hipótese bastante viável. No velório,
"o velho adversário" despediu-se de "um amigo".
E pouco depois sugeriu a formação de uma coligação
partidária para "desestimular uma aventura da direita
e realizar o programa de libertação nacional tantas
vezes prometido" - por Perón .
A única resposta veio dos montoneros,
talvez por verem no gesto de Balbín uma tentativa de abordagem
do navio à deriva, ou uma possibilidade de fortalecimento
da ala conservadora do peronismo. Na quinta-feira, em comunicado
publicado no jornal Crónica, a organização
guerrilheira peronista advertiu que, se o governo não executar
"o programa de libertação nacional votado pelas
massas populares no ano passado" - isto é, o de Cámpora
-, retomará ao "árduo caminho da luta armada".
Na verdade, embora em recesso voluntário
desde a volta do peronismo ao poder, os montoneros não depuseram
totalmente as armas. Poucos meses atrás, condenaram López
Rega à morte. E, se retomarem "ao árduo caminho",
certamente encontrarão seus antagonistas também armados.
CARTAS POLÍTICAS - Por enquanto,
a única voz que afasta um pouco esse temor é a do
comandante do Exército, com seu discurso em nome das três
armas. "As armas da pátria", disse o general Leandro
Enrique Anaya, "permanecerão em constante vigília,
velando dentro da mais absoluta legalidade o trabalho dos cidadãos
para chegar ao objetivo da unidade nacional." No entanto, é
sintomática a delegação da palavra, pelos comandantes
da Marinha e da Força Aérea, ao do Exército.
No leque de dúvidas que se abria mais e mais no final da
semana, indagava-se se essa atribuição não
teria sido dada ao general Anaya pelo fato de ser ele, desde 1945,
um fiel seguidor de Perón - ou seja, um excelente embaixador
para incentivar boas relações no vasto país
peronista.
Se as Forças Armadas, como instituição,
talvez necessitem recorrer a artifícios diplomáticos,
nem todos os militares - principalmente os da reserva - precisam.
O território neutro em que se transformou o velório
do caudilho foi subitamente invadido por personagens detestadas
no interior dessa fronteira.
Registrou-se a presença do ex-presidente
Roberto Marcelo Levingston, e do brigadeiro Carlos Alberto Rey,
integrante da junta militar que há um ano cedeu passagem
para o peronismo. Os outros dois ex-presidentes militares, Juan
Carlos Onganía e Alejandro Agustín Lanusse, não
foram. Mas enviaram à viúva cartas de condolências,
interpretadas pelos peronistas como cartas políticas, potencialmente
eleitorais. Movia-os, quem sabe, realmente a cobiça, aliás
generalizada em todos os círculos políticos,
Contudo, além desse sentimento -
talvez até explicando-o -, algo mais forte e mais profundo
começou a movimentar a Argentina. Com a morte de Perón,
a vida política no passado parece condenada à extinção.
E o presente, como um choque, começa a reorientar as opções
da nação.
A FORÇA DA TENACIDADE
O LENTO E PACIENTE CAMINHO
DE MARÍA ESTELA
MARTÍNEZ ATÉ A PRESIDÊNCIA
Ironicamente, se nos últimos dezoito
anos o passado foi a arma invencível, e o trunfo mágico
de Perón, para Isabelita, agora definitivamente exposta à
curiosidade e ao interesse públicos, ele assume os contornos
de um tenaz adversário.
Até segunda-feira passada, a Casa
Rosada ainda se recusava olimpicamente a distribuir os tradicionais
dados biográficos daquela que se tornou, em setembro de 1973,
vice-presidente da Argentina. Com a mesma cautela as centenas de
páginas de jornais portenhos consagradas à morte e
à sucessão de Perón se limitaram a três
magras linhas, em suas incursões pelo passado longínquo
da nova presidente: "La señora María Estela Martínez
de Perón nació en la Rioja el 4 de febrero de 1931".
Toda essa prudência em traçar
o perfil da herdeira de Perón é explicável
pela existência, em sua biografia completa, de dois momentos
potencialmente devastadores para a sua afirmação política
no país: a comparação inevitável, e
necessariamente danosa, com Evita Perón, e as circunstâncias
obscuras de seu encontro, quando bailarina no Panamá, com
o já então idoso (61 anos) caudilho exilado.
Para se desfazer desse passado incômodo
e da carga esmagadora de suceder Evita na alma dos argentinos e
substituir Perón no comando da nação, Isabelita
ingressa na seleta galeria de figuras tão eminentes como
Golda Meir, Indira Gandhi e Sirimavo Bandaranaike com uma única
arma: a tenacidade.
NOME ARTÍSTICO - Desde jovem,
quando ainda era chamada de "Nena" por sua mãe
italiana, sua disciplina para obter o que queria era posta à
prova diariamente. Decidida a se tornar bailarina clássica
e triunfar sob os refletores do Teatro Colón, ela se impôs
um regime alimentar draconiano e combateu sua tendência a
engordar para manter os 52 centímetros de cintura condizentes
com sua baixa estatura (1,57 metro).
Mesmo não lhe abrindo os palcos
do Colón, essa dieta, aliada à sua dedicação
total às aulas de dança, acabaram por lhe trazer um
convite para integrar o corpo de balé do Teatro Cervantes.
E, em setembro de 1955, quando Perón era deposto da presidência
e embarcava rumo ao Paraguai, María Estela já havia
tomado a decisão de abandonar a casa paterna, seus cinco
irmãos e o namorado do bairro de Bajo Belgrano, em Buenos
Aires, para tentar a carreira artística sob um novo nome:
Isabel.
FASCÍNIO POR PERÓN
- Assim, como integrante ainda anônima de um grupo que, nas
mãos do empresário Joe Heralds, especializou-se em
danças menos clássicas, Isabelita percorreu diversas
capitais latino-americanas antes de se apresentar no cabaré
Happyland, "o mais famoso do Panamá", segundo o
proprietário Lucho Donadio Demare, onde seu destino sofreria
uma reviravolta total. De bailarina, passaria a secretária
e acompanhante de Perón no exílio.
As circunstâncias exatas desse encontro
jamais foram esclarecidas, embora não faltem versões
de amigos - e ainda menos de inimigos - do casal. Segundo os primeiros,
Isabel teria sido levada à casa que então ocupava
Perón por um colega de trabalho, "Martincho", para
um encontro do caudilho com alguns argentinos residentes no Panamá.
Silenciosa como de hábito, porém atenta, ela teria
se fascinado com o tom didático e preciso das declarações
políticas do general, e daí teria nascido um entendimento
só quebrado dezoito anos depois.
PRESENÇA OBRIGATÓRIA
- Segundo essa mesma fonte, Panamá foi, na verdade, apenas
um reencontro, já que em 1951, com Evita ainda viva, Perón
teria sido apresentado a Isabelita por Roberto Maschio, cunhado
dela, numa manhã de domingo, quando, pilotando sua Harley
Davidson, saiu para comprar os jornais e deteve-se a conversar com
quem se encontrava nas redondezas.
Ainda assim, a versão menos generosa
de que Perón, numa de suas incontáveis rondas noturnas
pelas boates panamenhas, teria detectado Isabelita no Happyland,
pago uma quantia não especificada de dinheiro para libertá-la
do contrato, e oferecido à jovem bailarina o posto de secretária
particular embora ela desconhecesse a datilografia, continua circulando
com igual vigor. Nesse caso, o intermediário de toda a transação
teria sido José López Rega, então um obscuro
suboficial da guarda de Perón, que acompanhava o presidente
deposto em seu périplo de exilado, e que conhecera Isabelita
ainda em Buenos Aires, quando ambos teriam sido membros de uma seita
de ocultismo denominada Ordem de Pantaleão.
Seja como for - e não faltam versões
intermediárias -, Isabelita passou a ser aceita, paulatinamente,
como presença obrigatória e indispensável ao
lado do caudilho. Inicialmente, pelos ditadores (Anastasio Somoza,
Marcos Pérez Jiménez, Rafael Trujillo) de diversos
países latino-americanos, que a receberam com honras e pompa
durante as várias mudanças de residência com
Perón. Em seguida, já como mulher legítima
do caudilho, por centenas de militantes peronistas, militares ou
sindicalistas, que se revezavam nos salões da Puerta de Hierro,
em Madri, durante os treze anos de permanência do casal na
Espanha.
VITÓRIA DECISIVA - Para a
nação argentina, entretanto, a figura pálida
de Isabelita apenas fazia lembrar com saudosismo redobrado a imagem
messiânica, bela, autoritária e apaixonante de Eva
Perón. Isabelita, com seus tailleurs anônimos mais
ao estilo da família real britânica, sua frieza social
e obediência educada às ordens de Perón, nada
tinha para empolgar os argentinos em busca de uma nova rainha peronista.
Mais uma vez, contudo, sua tenacidade e
disciplina - ela se submeteu a cursos de oratória, aprendeu
a jogar tênis e a praticar esgrima, não pestanejou
ao receber em sua casa madrilena, como hóspede de muitos
cuidados, o cadáver de Evita, e firmou-se como a mais zelosa
sentinela e a mais dedicada discípula de Perón - se
fizeram sentir.
"Na tarefa política",
declararia mais tarde, já mais à vontade com jornalistas,
"é necessário falar muito das coisas, pouco das
pessoas e nada de si mesmo". De fato, sobre seus gostos pessoais,
dessa época, sabe-se essencialmente que ela comia muito mel
e tinha se entusiasmado com o filme "Love Story".
Mas pouco a pouco, quase contra vontade,
os argentinos passaram a tratar a "campañera Isabel"
com algum respeito, apesar das dúvidas quanto a suas qualificações
políticas: seu primeiro teste público de 1965 - quando
percorreu sozinha a Argentina, como vice-presidente do Justicialismo,
para unificar o movimento peronista - fora um desastre.
Em setembro do ano passado, porém,
obteve a vitória decisiva sobre sua rival de sempre: conseguiu
tornar-se vice-presidente de Perón, quando, 21 anos antes,
o nome de Evita para o mesmo cargo fora vetado pelos militares.
A conquista não apenas formal da presidência, contudo,
pode lhe ser bem mais difícil.
O TEMPO DE PERÓN
O DESTINO DE UM CAUDILHO,
SEUS RECUOS,
SEU TRIUNFO E SUA MÍSTICA
Durante três décadas, ele
foi a fronteira que dividiu a Argentina em dois países: o
peronista e o não-peronista. Capaz de inspirar ao mesmo tempo
a mais fanática devoção e o ódio mais
irracional, Juan Domingo Perón conseguiu, à força
de habilidade, astúcia - às vezes à força
da própria força -, tornar-se a mais acabada, e talvez
derradeira, expressão do típico caudilho latino-americano.
Em nenhum momento revelou a grandeza olímpica de um de Gaulle,
o brilho de um Churchill, a genialidade política de um Lênin.
No entanto, teve momentos de carisma em que se igualou não
só a todos eles mas talvez até ao megalomaníaco
Hitler e ao esparramado Mussolini, a quem tanto admirou.
Mas será certamente na canhestra
galeria dos caudilhos latino-americanos deste século, não
na dos líderes mundiais, que o nome de Perón ocupará
um lugar de destaque, não tanto por sua obra, boa ou má,
mas pela principal característica de seu desempenho político
- o senso de oportunidade. E, como símbolo exemplar desse
seu traço, elevado muitas vezes aos padrões da astúcia,
bastarão suas próprias palavras de setembro de 1955:
"Se meu espírito de lutador me impele para a contenda,
meu patriotismo e meu amor ao povo me induzem a toda renúncia
pessoal".
Na verdade, as lutas de Perón, ao
final das quais na maioria saiu vitorioso, se constituíram
basicamente de renúncias. Duas vezes pressionado pelas armas,
ele recuou: em outubro de 1945, quando era o homem forte do regime
militar instaurado dois anos antes na Argentina, e em setembro de
1955, quando exercia seu segundo mandato presidencial.
Das duas vezes, o êxito coroou sua
renúncia. Em 1945 chegou ao poder, em 1955 transformou-se
em mito.
Ante a morte, Perón lutou até
onde lhe permitiu o vigor combalido de seus 78 anos. Para ele, porém,
a derrota consistiu menos em tombar frente a um inimigo implacável
do que no fato simples e profundo de não ter preparado ninguém
para empunhar a bandeira - ou herdar as sobras - do peronismo. Por
isso, ao que tudo indica, daqui para a frente a expressão
peronismo não qualificará nada mais que o tempo de
Perón.
MUSSOLINI - Esse tempo começa
em junho de 1943, quando o Exército derruba o governo do
presidente Ramón Castillo, num golpe liderado pelo general
Edelmiro Farrell. Por trás do movimento, poucos notam a presença
de um coronel de 48 anos e modestos antecedentes, mas que logo despontaria
como um cometa no firmamento da política argentina.
Nascido na localidade de Lobos, província
de Buenos Aires, em 8 de outubro de 1895, a vida de Perón
fora até então a expressão perfeita do comum.
Quando ele tinha 5 anos, a família
se transferiu para uma estância em Santa Cruz, na Patagônia.
Entre o pequeno povoado e o pampa infinito, gaúchos e cavalos,
seu destino de estancieiro estava praticamente decidido, não
manifestasse ele a vocação para a carreira das armas.
Aos 15 anos ingressou na Escola Militar, destacando-se como hábil
cavaleiro e esgrimista - foi campeão nacional de espada em
1918.
Galgando um a um os degraus da oficialidade,
seu destino parecia confinado aos limites da carreira militar. Mas,
em 1939, o prenúncio de alterações no mundo
viria modificar seu caminho. Em fevereiro daquele ano, Perón
foi enviado em viagem de estudos à Itália. E ali,
mais do que aprender táticas militares, pôde assistir
ao espetáculo fascista, ao ponto de, três anos depois,
já na Argentina, dizer a seus amigos: "Mussolini é
o maior homem deste século. Mas cometeu erros que não
cometerei".
PRIMEIRO TRIUNFO - Foi talvez com
a determinação de tornar-se tão grande quanto
imaginava ser o Duce que Perón começou então
a se movimentar entre os integrantes do Grupo de Oficiais Unidos,
núcleo do golpe de 1943 e trampolim do qual se lançou
para uma trajetória incontível. Nomeado, a seu próprio
pedido, para o modesto posto de titular da Secretaria do Trabalho,
logo transformado por ele num dinâmico Ministério,
de seu gabinete começaram a brotar medidas populares: aumentos
de salários, redução das jornadas de trabalho,
instituição do 13.° salário.
Na verdade, a explosão de Perón
coincidia com alterações fundamentais na sociedade
e na economia argentinas. Nascido sob um signo eminentemente rural
e pastoril, o país, desde o início da década
de 30, vinha se industrializando. A II Guerra Mundial, ao privar
a nação de muitos artigos importados, contribuiu para
acelerar esse processo de transição. E com a Argentina
industrial crescia o proletariado urbano, potencialmente desejoso
de maior participação na riqueza - e no poder. Contrariando
o comportamento do caudilhismo clássico, baluarte das tradicionais
forças detentoras do poder, Perón teve a sagacidade
de colocar-se como intermediário entre elas e a classe emergente.
Corria 1945, um ano de definições
cada vez mais claras e conflitantes para a Argentina: de um lado,
a democracia liberal, desejosa de um retorno ao sistema anterior
a 1943; de outro, um fervoroso caos popular que tinha em Perón
- já acumulando os cargos de secretário do Trabalho,
ministro da Guerra e vice-presidente - seu líder indiscutido,
encarnação intuída de um profundo conteúdo
nacional e uma atitude avançada no campo social. A tensão
se definiria rapidamente. Em 9 de outubro, parte da oficialidade
exigiu a renúncia de Perón aos três cargos -
exigência não acatada, como seguida da prisão
na ilha de Martín García, no rio da Prata. Mas, se
a renúncia definiu a vocação de Perón
para o recuo, sua detenção consistiu na nota dramática
que elevaria sua mística à categoria do martirológio.
Foi seu primeiro grande triunfo.
ERA DE EVITA - No dia 17, ocorreria
a maior surpresa da história política argentina. Desde
a madrugada, uma caótica maré humana, vinda do cinturão
suburbano, começou a desabar sobre Buenos Aires, de forma
pacífica porém determinada a obter a libertação
de seu líder. Defronte a Casa Rosada, na Plaza de Mayo, já
às centenas de milhares, unida num só grito - "Perón!"
-, a multidão impõe sua vontade. E no dia seguinte
Perón é reconduzido à vice-presidência.
Estava aberto o caminho para a vitória eleitoral no ano seguinte.
Em seu sentido mais profundo, o 17 de outubro
de 1945 marcou o vínculo inquebrantável entre o líder
e seu povo, bem como a falência dos partidos tradicionais
e dos fatores de poder vigentes até então. E, acima
de tudo, despontou a presença da mulher que não demoraria
a se tornar a mola propulsora da vida de Perón - Maria Eva
Duarte, a Evita, presidente da Associação dos Radialistas
Argentinos e locutora da Rádio Belgrano. Foi ela quem praticamente
o salvou da prisão, convocando pelo rádio, de sindicato
em sindicato, com sua voz rouca e apaixonada, os trabalhadores.
E no dia 17 de outubro de 1945, com a era do peronismo, nascia a
era de Evita.
Na verdade, a importância de Evita
na vida de Perón foi tão grande que sua mulher anterior
ficou na história apenas como uma referência circunstancial:
Aurelia Tizón, a "Potota", uma ex-professora falecida
em 1938, com quem esteve casado por dez anos. Depois dela veio Eva
Duarte, primeiro como amante, dias após o 17 de outubro como
mulher e, finalmente, como seiva vital. Sua influência sobre
Perón, o peronismo e a Argentina fica evidenciada na tentativa
do marido de moldar a terceira mulher e atual presidente, Isabelita,
à sua imagem.
Não demoraria para que Evita passasse
a ser a "chefe espiritual da nação" e Perón,
o "fundador da Nova Argentina". Mais que ele, todavia,
foi ela o fator decisivo para a formação da mística
do peronismo. Distribuindo alimentos, magnetizando multidões
com discursos de conteúdo revolucionário, Evita se
impôs definitivamente como uma das figuras mais impressionantes
da Argentina contemporânea. Morta em 1952, de leucemia, no
auge da popularidade, aos 33 anos, a mística em torno de
sua imagem cresceu ainda mais. E colocou-a em pé de igualdade
com o marido, na grandeza e no carisma, na galeria dos santos da
religião peronista.
SÍNTESE - A liturgia desse
credo começou com a eleição de Perón,
em fevereiro de 1946. Sua primeira fase, triunfante, duraria três
anos, favorecida por uma conjuntura externa e interna particularmente
propícia. A ascensão de Perón coincidia com
uma vaga de prosperidade sem precedentes na Argentina. Ao fim da
guerra, as missões comerciais estrangeiras se sucediam em
Buenos Aires para comprar trigo e carne. A balança comercial
era favorável e havia pleno emprego. Perón se vangloriava:
"Não podemos caminhar pelos corredores do Banco Central.
Estão abarrotados de lingotes de ouro". E as nacionalizações
se sucediam: estradas de ferro, companhias de gás, bancos.
No entanto, passado o eufórico período
de prosperidade do pós-guerra, vieram as primeiras dificuldades.
As exportações declinaram, as reservas de divisas
diminuíram, os salários reais sofreram quedas abruptas.
Com a deterioração da situação econômica,
surgiram as primeiras críticas. E estas eram respondidas
com a truculência.
Surgiam denúncias de arbitrariedades
policiais, torturas. A imprensa era perseguida, jornais e rádios
fechados. Segundo alguns críticos do peronismo, tratava-se
de impor mais e mais a mística irracional de uma doutrina
que, tentando definir tudo e ser a síntese de todas as doutrinas,
nada definia e nem uma doutrina chegava a ser. Mas o poder concreto
dessa mística era tal que, majoritários no Congresso,
os peronistas reformaram a Constituição, para que
Perón pudesse ser reeleito em 1951.
Seria o tempo, porém, de pagar pelos
erros e desperdícios do primeiro mandato. Até então
catalisador dos interesses de praticamente todas as classes, o peronismo
atraía cada vez mais inimigos. As pregações
em favor de "a terra para quem a trabalha" contavam com
a simpatia ingênua dos "peones" - mas também
com a ira dos latifundiários. Os industriais argentinos se
sentiam ameaçados pelo crescente recurso do Estado aos investimentos
externos. Temiam a ruidosa CGT, agigantada durante o peronismo.
Quanto aos militares, jamais confiaram nos sindicatos.
O MAIOR ERRO - No ano de 1955, Perón
cometeu o que talvez tenha sido seu maior erro. Com seu furor característico,
os peronistas desencadearam uma campanha contra certos direitos
e privilégios da Igreja. Templos foram queimados, sacerdotes
expulsos do país. E a Igreja, até então uma
força de apoio ao regime, revidou aos ataques com igual intensidade.
Perón foi excomungado. A oposição - incluindo
católicos, liberais anticlericais, marxistas - agrupou-se
em torno do clero.
No dia 16 de junho, foi sufocada uma revolta
da Marinha. Mas estava aberto o caminho para outra, das três
Armas, em 16 de setembro, vitoriosa em quatro dias. Na manhã
chuvosa do dia 20, Perón se asilou na canhoneira "Paraguay",
de onde sairia no dia 3 de outubro para tomar o hidravião
que o levaria para o exílio, primeiro por vários países
da América Latina e finalmente para a Espanha.
GOVERNO E PODER - No entanto, foi
em vão que os protagonistas da Revolução Libertadora
tentaram apagar os vestígios do peronismo. Acusaram-no de
corrupto e corruptor de menores, destituíram-no da patente
de general, apagaram seu nome de edifícios públicos,
ruas e escolas - mas não conseguiram tirar a Argentina da
crise econômica. E, quanto mais o país afundava, empurrado
além de tudo pelos peronistas inconformados, que se entregaram
a um frenesi terrorista denominado Resistência Peronista,
mais alta parecia estar a imagem do caudilho.
Assim, à força dos erros
de seus adversários, ele foi se tornando, ao longo dos dezoito
anos de seu exílio, o homem supostamente providencial para
a Argentina. Em 1966, os militares assumem o poder. O último
presidente militar, general Alejandro Agustín Lanusse, num
lance de aguda percepção, convence seus camaradas
de que a única maneira de destruir o mito talvez fosse confrontá-lo
com o homem. Em 25 de maio de 1973, o dentista Héctor Cámpora,
velho cacique peronista, chega, com quase 50% dos votos, ao governo.
E, 49 dias depois, renuncia, abrindo passagem para que o chefe supremo
chegue diretamente à Casa Rosada, em consagradoras eleições
realizadas no dia 12 de outubro.
Nos quase dez meses que passou na presidência,
enfrentando divisões cada vez mais agudas dentro do que se
transformara seu heterogêneo movimento, impotente para resolver
a crise econômica do país, a figura mitológica
de Perón começava a desmoronar. Talvez providencialmente
- para ele -, o homem tombou antes. E arrastou consigo, segundo
tudo indica, a projeção agigantada da sua própria
sombra.
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