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Reportagens 10
de junho de 1981A vida cibernética Uma revolução se arma no horizonte.
O computador entra na
Duas experiências incomuns marcam o primeiro dia de aula dos estagiários no Centro Educacional e Residencial da Gávea, a futurista escola que a IBM, a maior empresa de computação do mundo, mantém no Rio de Janeiro para reciclar executivos e treinar futuros usuários de seus computadores. A primeira experiência, visual, se dá quando os alunos saem para um pátio da escola, poucos metros abaixo da Pedra da Gávea, a plataforma de lançamento para os vôos livres no Rio. Do pátio, os estudantes podem ver, muitos deles pela primeira vez, esses Ícaros de um novo tempo em seus suaves mergulhos, descendo em asas delta para um pouso macio nas areias da praia do Pepino, em São Conrado. A segunda experiência, intelectual, é mais perturbadora. No ponto mais movimentado do prédio, os estudantes vêem repousar um silencioso computador IBM 1401, fabricado há apenas vinte anos e hoje desligado. O 1401 não está quebrado. Do tamanho de uma geladeira industrial, com sua meia tonelada de peso, esse computador relativamente jovem está apenas obsoleto. Tudo o que ele sabia fazer - e os estagiários aprendem que não era pouco - pode ser atualmente realizado por um simples tablete de silício que reúne 64 000 transistores microscópicos em apenas 1 centímetro quadrado de área. Esse mágico aparelho, que supera as grandes máquinas eletrônicas de um passado recente e que constitui o coração miniaturizado do computador moderno, não é maior que um botão de camisa. Sob o impacto dessa dupla imagem - homens voando com suas próprias asas enquanto no chão se articula a mais fenomenal façanha tecnológica desta geração -, os estagiários da IBM entram para seu primeiro dia de aula. Outro mundo - À sombra da Pedra da Gávea, no Rio de Janeiro, e virtualmente por todo o resto do planeta, o homem está entrando naquilo que começa a ser chamado de o "micromilênio - um futuro moldado, impulsionado comandado, até onde a vista alcança, pela microeletrônica. Desde já, e mergulhando a fundo no milênio que começa com o ano 2000, a miniaturização dos computadores, capaz de produzir aquele tablete com 64 000 transistores vai levar a vida humana a modificações tão profundas e espetaculares que o homem ainda não é capaz de compre dê-las direito - ele sabe, apenas, que está no portal de uma revolução tão importante quanto a que, cerca de anos atrás, começou a transferir de forma sistemática, pela primeira vez desde o surgimento da vida inteligente na Terra, o esforço físico para as máquinas. Os elementos em jogo são espantosos. Se a indústria automobilística tivesse se desenvolvido tanto quanto a de computadores, calcula o cientista e escritor Christopher Evans, numa comparação intencionalmente dramática, um Rolls-Royce custaria hoje 2,75 dólares, ou cerca de 240 cruzeiros. Ele seria capaz, ainda, de fazer 1 milhão de quilômetros com 1 litro de gasolina e teria em seu motor força suficiente para mover um transatlântico como o Queen Elizabeth II. Evans faz esse jogo matemático utilizando parâmetros teóricos, mas a mensagem embutida nele é bastante clara: nada está-se desenvolvendo no mundo com a velocidade dos microcomputadores, e isso torna nosso futuro inevitavelmente subordinado a eles. Tendo conquistado os problemas de preço e de tamanho - o exemplo mais clássico e imediato é o das minicalculadoras, que podem custar menos que uma dose de uísque e cabem num bolso - a microeletrônica, agora, faz avanços cada vez mais amplos e rápidos em suas áreas de utilização. É certo, assim, que todo homem que tenha hoje uma expectativa de vida de mais trinta anos - ou seja, todas as pessoas com até 45 ou 50 anos de idade - vai encerrar sua existência num mundo dramaticamente diferente do que conhece agora. Assim como os relógios a quartzo tendem a transformar os relógios mecânicos em artefatos que serão usados sobretudo como jóias, e não mais como um instrumento útil, toda uma infinidade de objetos, hábitos e maneiras de pensar será radicalmente transformado, ou simplesmente vai desaparecer. É essa revolução que está em curso hoje - e, curiosamente, o homem mal se apercebe dela em seu intelecto, acostumado cada vez mais a receber o progresso como fato natural da existência, mal se detendo para absorver, meditar ou admirar-se mesmo com os mais sensacionais avanços da tecnologia. Dentro da vida - O mundo atual, na verdade, já está construído em boa parte sobre os sólidos alicerces da cibernética. Não haveria viagens espaciais, previsão meteorológica confiável, ou transmissões de TV via satélite sem o auxílio dos computadores. Os bancos não teriam como atualizar diariamente os saldos de seus clientes - a não ser que se contentassem com poucos clientes. Grandes estruturas, como a barragem de Itaipu, são hoje calculadas com a ajuda de computador, sem o qual não haveria reserva instantânea de passagens aéreas ou conversas telefônicas via DDD. A Loteria Esportiva não poderia existir sem computadores assim como não poderiam existir centenas, literalmente, de outras atividades cotidianas. Eles alteraram a paisagem, não há dúvida. Mas isso é apenas o que já fizeram nos últimos dez a vinte anos. Agora, no entanto, as perspectivas de emprego do computador começam a alterar-se de maneira mais vasta que nunca. De armazenador de dados e eficiente realizador de operações aritméticas para grandes empresas e órgãos de governo, e sempre operado por especialistas profissionais, ele passa a se instalar dentro da vida de cada um. Não indiretamente, por meio do contracheque que chega no fim do mês ou das contas de água e telefone, mas como um objeto de uso pessoal. O computador, neste início dos anos 80, cada vez mais começa a ser visto, manipulado e utilizado pelo cidadão médio. "Antes só existiam computadores nas salas refrigeradas dos bancos e dos institutos de pesquisa", constata Henrique Costabile, engenheiro de 32 anos e subchefe da Secretaria Especial de Informática (SEI), o órgão oficial ligado ao Conselho de Segurança Nacional e que controla a política de produção de computadores no Brasil. "Há agora uma popularização, uma democratização do computador, e essa difusão aumentará a escala da computação numa ordem talvez de milhões de vezes." Já manipula pessoalmente algum tipo de computador no Brasil, hoje em dia, quem consulta um relógio digital, brinca numa máquina de fliperama de última geração, soma numa calculadora de bolso, ou pesa carne numa balança eletrônica do açougueiro da esquina. É que também essas máquinas, todas filhas da era cibernética, carregam um chip em suas entranhas. Logo, são computadores, mesmo que seu raio de ação esteja rigidamente delimitado. Noção inversa - O computador, com a miniaturização, se apossa vorazmente de novos territórios - e essa invasão, além de rápida, é inevitável. Se há nela algum segredo é que os computadores são máquinas que funcionam muito bem. Desde o monstruoso Mark I, o primeiro computador, criado na Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, em 1944, com 20 metros de comprimento e 3 de altura, esses artefatos perderam peso e tamanho numa escala que provavelmente não encontra precedentes na história da tecnologia. O motivo está ligado ao fenomenal encolhimento de suas peças íntimas. Quando apareceram, os computadores eram impropriamente chamados de "cérebros eletrônicos". O cérebro humano, de um ponto de vista estritamente funcional, pode ser definido como um sistema complexo com 10 bilhões de neurônios, os instrumentos do ato de pensar, da mesma forra ma que válvulas, e mais modernamente transistores, funcionam para a memorização e os cálculos. Para conter o mesmo número de elementos do cérebro, um computador de fins da década de 40, a fase das válvulas, teria o tamanho de São Paulo. Em fins dos anos 50, com os transistores, bastava um computador com as dimensões do Cristo Redentor. Anos 60: o computador seria como um ônibus. No momento, fase da chamada "integração em escala ultralarga", com a aglomeração de centenas de milhares de transistores num único chip, cérebro e computador finalmente começam a entrar num acordo numérico. Dentro em breve, o tamanho será o mesmo. Tamanho, no entanto, é apenas parte da questão. Eles também ficaram melhores - e infinitamente mais baratos. Compra-se hoje, nos Estados Unidos, o maior centro mundial da computação, um pequeno computador para cuidar de tarefas domésticas - memorizar receitas culinárias, administrar um número crescente de operações bancárias pessoais, pagar contas, receber informações ou ajudar na declaração de imposto de renda - pelo preço de um televisor em cores. Quase todo mundo pode comprar - e é justamente isso que começa acontecer nos Estados Unidos. Desde quando foram lançados, há três anos, os computadores domésticos, máquinas de manejo simples, vendidas a uma média de 60 000 cruzeiros, já entraram nas residências de quase 1 milhão de americanos. Até o fim da década, espera-se que pelo menos 20 milhões de americanos os tenham em casa. Trata-se de um sucesso de vendas. Mas o fenômeno tem um significado além das fronteiras do comércio. Com seu contínuo avanço tecnológico, os computadores desalinhavaram a própria noção de progresso, algo que sempre se associou a aumento de tamanho, de preço e de consumo. Quer se trate de navios, aviões ou prédios para morar, o grande sempre pareceu ser um avanço em relação ao pequeno, com a clássica exceção dos perfumes franceses. Com os computadores, essa concepção tradicional ficou de pernas para o ar. Sertão de Minas - Hoje, quanto menor melhor, mais útil e mais barato - e foi na esteira dessa subversão de conceitos que a computação invadiu o Brasil, encontrando condições concretas para efetivamente se implantar na vida do país. Atualmente, de fato, os avanços da cibernética deixaram de acontecer apenas "lá fora" - com o Brasil na posição de mero receptor periférico, e mais ou menos passivo, de equipamentos importados, mal compreendidos, limitados em suas tarefas e operados por um restrito pelotão de iniciados. Hoje, há em funcionamento no país cerca de 22 000 computadores de todos os tipos, sem contar os milhões de diferentes objetos operados por alguma espécie de chip, de calculadoras a relógios digitais. Um exército de 150000 pessoas, entre operadores, analistas e programadores de todos os níveis, manipula profissionalmente, todos os dias, algum tipo de computador. Da gigantesca IBM, com seus 5 100 funcionários, duas fábricas, vinte filiais e 12 bilhões de faturamento em 1980, à pequena Basic, há cinqüenta empresas fabricando computadores, terminais e componentes no Brasil, trinta delas de capital nacional. Como um todo, a indústria de computadores teve no Brasil um espetacular aumento de produção de 18% em 1980, crescimento que poucos setores industriais conseguem igualar, mesmo em anos de boom econômico. Os computadores, no Brasil, podem aparecer nos lugares mais intrigantes. Há, por exemplo, uma fábrica de microcomputadores, a Quartzil Informática, instalada bem no sertão de Minas Gerais, na cidade de Montes Claros, uma região da área da Sudene que acolhe indústrias mas que é tipicamente de criação de gado. "Apostamos na fantástica potencialidade do mercado de microcomputadores", justifica seu presidente Renato do Vale Dourado, que justamente este mês está lançando no mercado seus micros QI 8000 para cuidar da papelada de pequenas empresas. No Rio Grande do Sul, um lugarejo de 2 500 habitantes, Teutônia, a 113 quilômetros de Porto Alegre, tem um microcomputador, o Edisa 311, que controla a distribuição de contas de luz para a Cooperativa Regional de Eletrificação Rural. "Teutônia não tem restaurante nem cinema, mas tem microcomputador e, além disso, os vizinhos ainda se visitam", informam Zaíra e Alexandre Belló, ela programadora, ele analista de sistemas. Recém-casados, os dois técnicos foram importados de Porto Alegre meses atrás com um salário conjunto de 80000 cruzeiros, um dos mais altos da região. Baratos e eficientes, os computadores tomaram-se irresistíveis a um número crescente de atividades e pessoas pelo Brasil afora. O governador Ney Braga, do Paraná, por exemplo, acostumou-se a lançar mão de um computador em sua atividade diária de político e administrador. Numa sala ao lado de seu gabinete no Palácio Iguaçu, em Curitiba, ele mandou instalar um terminal ligado aos dois IBM 370 do Centro Eletrônico do Paraná, um banco de dados recheado com todo o tipo de informações sobre a administração pública do Estado. Quando precisa de um informe confiável sobre o território que governa, seja um balanço da produção agrícola ou um panorama das obras públicas naquele momento, Braga simplesmente aperta botões. "A resposta é sempre correta", admira-se ele, "e não se perde tempo esperando." Três segredos - Entre seus pares, há muitos outros na mesma trilha. O ministro das Minas e Energia, César Cals, tem um terminal em seu próprio gabinete e usa seus conhecimentos de engenheiro para operá-lo pessoalmente com sutilezas de homem do ramo. Cals bloqueou três programas do computador com uma chave numérica que só ele sabe. Os temas secretos são: a quantas anda o orçamento do Ministério, certas questões ligadas ao petróleo e detalhes sobre as relações internacionais de sua pasta. Quando alguém em algum outro terminal tenta capturar esses programas bloqueados, o computador não só nega a informação como também anota o número do terminal que a solicitou. Assim, o ministro fica sabendo quem é o abelhudo. Ele também costuma armazenar no computador um resumo dos pedidos que recebe de políticos. Em seguida, registra ao lado a solução que deu ao caso. Quando o interessado telefona, Cals tecla seu nome no terminal e surge na tela todo o histórico do caso. Para quem telefona sem conhecer os truques do computador, a memória do ministro parece diabólica. O presidente do PDS, senador José Sarney, conhece essa interessante vantagem política do computador e, agora, quer também fazer uso do malabarismo cibernético. Sarney já autorizou o PDS a gastar o que for necessário na compra de um computador capaz de armazenar e manipular todos os dados da estrutura partidária - com seus 200 000 membros de direção e mais de 1 milhão de filiados. Ter à mão informações completas e instantâneas sobre todo esse contingente - e sobretudo saber programar com o máximo de eficiência o computador - nunca será demais, principalmente em véspera de eleições. Produtos inéditos - Mas o fenômeno mais importante desse fértil campo cibernético situa-se na faixa do microcomputador, um aparelho cujo preço vai de 200 000 a 2,5 milhões de cruzeiros, conforme suas habilidades sejam maiores ou menores, e que cabe facilmente numa mesa comum de escritório. As vendas no Brasil, no ano passado, foram 600% superiores às de 1979 - 3 000 unidades contra 500, numa escalada sem precedentes nesse setor. "Qualquer empresa que fatura no mínimo 35 notas fiscais diárias já tem um movimento que justifica o microcomputador", esclarece Romeu Danesi, diretor da Polimax, uma das novas indústrias brasileiras na área da computação. "O mercado dos micros está em franca ebulição", sentencia outro homem de indústria, Antônio Carlos Mascaro, da Scopus, empresa que lançou seu microcomputador há apenas algumas semanas e que fornece terminais para usos variados - entre eles a composição de textos para impressão, técnica que vai tomando conta da imprensa e da indústria editorial brasileira em geral. Não há apenas uma febre de vender e de comprar. Há também uma enxurrada de produtos inéditos despencando sobre um mercado favorável. Nada menos que oito microcomputadores estão sendo lançados exatamente agora no Brasil, entre maio e julho. E, no meio deles, dois com características de computador doméstico, a grande coqueluche da computação nos Estados Unidos. Os domésticos brasileiros podem controlar o saldo bancário do dono, funcionar como agenda eletrônica que avisa sobre compromissos, atuar como instrumento de lazer, oferecendo telejogos. Podem também auxiliar no dever escolar das crianças - treinando-as na tabuada, por exemplo. Oscar Alegre, gerente da Dismac, produzirá quarenta por mês, ao preço médio de 300 000 cruzeiros. Ele está otimista. "O computador pessoal tem lugar garantido no Brasil porque ajuda a desenvolver habilidades necessárias ao mundo que vem aí", argumenta ele. "Daqui a uma ou duas décadas, quem não souber lidar com um computador enfrentará as mesmas dificuldades que um analfabeto tem hoje." Jogos matemáticos - A escola do futuro já funciona em muitos lares brasileiros. Nicola Nazarenko, 53 anos, gerente de desenvolvimento de maquinaria da Pirelli, em São Paulo, possui em sua residência um Apple americano, para coisas sérias. "Tento descobrir meios de usar um computador na indústria e, nessa tentativa, vou aprendendo os segredos da máquina", diz ele. Mas quem usa mesmo o computador em casa é o filho de Nazarenko. Com 17 anos de idade, Ivan prefere brincar com o computador. Sua brincadeira predileta: jogos matemáticos, tais como descobrir rotas aéreas alternativas em vôos simulados na tela de TV, acoplada ao aparelho. Ivan também joga xadrez com a máquina. Ele mesmo prepara as instruções que seu pequeno amigo eletrônico deve seguir - a programação - para brincar em sua companhia. A amizade é sólida. "Quando chego perto do Apple não consigo pensar em mais nada", admite Ivan. "Só quero saber de problemas de computador." Vestibular escolhido por Ivan: Engenharia, no Instituto Tecnológico Aeroespacial, o ITA, de São José dos Campos. Antes que existissem computadores pessoais fabricados no Brasil, muitos técnicos em computação já faziam diabruras desse tipo com aparelhos trazidos dos Estados Unidos. Edmundo Teixeira, um engenheiro paulista de 36 anos, por exemplo, aprendeu tudo sobre computadores nos três exemplares americanos que tem em casa. "As pessoas trazem como contrabando", revela ele, "ou simplesmente trazem na bagagem normalmente, como brinquedo. E eles são mesmo brinquedos." Segundo sua estimativa, existem talvez uns 1 000 computadores domésticos de origem americana espalhados pelo Brasil. "Eu mesmo faço parte de um grupo de oito aficionados, quase todos engenheiros eletrônicos, que vivem trocando equipamentos e programas", conta Teixeira. Alguns membros desse miniclube chegam à façanha de construir, eles próprios, seu computador pessoal. Teixeira fez exatamente isso com dois amigos. O produto de seu trabalho, batizado com o nome de Basic, é justamente um dos dois computadores domésticos brasileiros que acabam de ser lançados no mercado, a um preço de 330 000 cruzeiros. Na lavanderia - Se o computador pessoal educa seu proprietário para a era eletrônica, quem não quer levar um computador para casa acaba caindo indiretamente nas malhas da educação cibernética, por meio de aulas esporádicas difíceis de evitar. Já existe terminal de computador até nos caixas de uma rede de supermercados de São Paulo, a Makro. Quem faz uma compra média, de vinte itens, por exemplo, gasta 6 minutos para sair do caixa com sua nota computadorizada na mão, incluído nesse tempo o preenchimento do cheque. Num outro supermercado, gastaria o dobro do tempo. O melhor hotel da América Latina, o Maksoud Plaza, em São Paulo, também aderiu. Dos 26 terminais de vídeo e teclas espalhados pelo hotel e ligados a um computador central Sisco, um deles está instalado na lavanderia. O funcionário Luís Carlos Amorim Gomes, 27 anos, formação ginasial, vive em lua-de-mel com a máquina. "Eu pensava que ia levar dez anos para aprender a lidar com o computador, mas aprendi em dois tempos", orgulha-se ele. Na verdade, levou quinze dias. É facílimo. Ele pega a roupa lavada, peça por peça, e tecla o nome do cliente no terminal. Instantaneamente, o computador central adiciona aquele valor à conta do hóspede. O aprendizado é tão rápido nos computadores modernos que o público às vezes se aproxima de um deles, aciona teclas, recebe informações e, depois de tudo, mal suspeita de que esteve falando com um computador. É o que ocorre com os paulistas que se perdem dentro do Shopping Center Ibirapuera, um dos mais movimentados e maiores conjuntos de lojas do país. Ali, um placar eletrônico mostra à pessoa onde ela se encontra pelo simples piscar de uma lâmpada num mapa do Shopping Center. E um visor, como os de TV, indica em que andar fica a loja procurada. A tecla e o vídeo do computador escondem um poder que geralmente passa despercebido, tamanho tem sido o bombardeamento de mudanças a que as pessoas estão submetidas na rotina moderna. Em certos momentos de sua trajetória, desde que abandonou as árvores, o homem mudou profundamente sua vida porque utilizou a força da inventividade. Assim aconteceu quando sopesou pela primeira vez uma pedra de formato curioso, conveniente, em solo africano. Foi assim também com invenção da imprensa. Uma vez mais, com a Revolução Industrial que há dois séculos transferiu para as máquinas vitorianas boa parte do que os homens vinham fazendo com seus músculos. Não há país ou pessoa que tenha ficado imune, de lá para cá, às transformações provocadas pelas máquinas mecânicas. Uma das maiores foi a migração dos campos para as cidades. Outra, a padronização dos artigos de consumo. Agora, chegou a vez das máquinas eletrônicas. Só que elas não mais aliviarão os músculos humanos. Os computadores, como se pode ver por todos os lugares, já trabalham em lugar do cérebro humano numa relação desconheci da há alguns anos para a humanidade. Os efeitos dessa substituição, certamente profundos, só podem ser vislumbrados. Vida em casa - "Toneladas e toneladas de papel vão sair para sempre das bibliotecas", imagina, por exemplo, o escritor de ficção científica Ray Bradbury. "Em seu lugar ficarão minúsculas caixas eletrônicas, que serão os livros e os arquivos do futuro." Bradbury acha que isso é bom. "Há papel em excesso espalhado por aí." O escritor Christopher Evans, recentemente falecido, desce a detalhes. Para ele, o homem viverá dentro de muito pouco tempo cercado por geladeiras que o lembrarão de abastecê-las. Terá televisores pelos quais conversará com os entrevistados de um programa qualquer, automóveis que lhe dirão quando estiver correndo muito, terminais que o ligarão diretamente a grandes bancos de dados. "Parece ficção científica", notava ele, "mas grande parte da tecnologia para isso já está desenvolvida." O homem possivelmente viverá mais em casa. A educação por computador, prática solitária muito eficiente que começa a dar bons resultados nos Estados Unidos e em alguns países da Europa, poderá apagar muitas das funções hoje desempenhadas por professores. O acesso irrestrito à informação farta, crêem muitos, diminuirá muito a magia e a importância das especializações profissionais. Algo supersticiosamente, há temores com perspectivas dessa ordem. Célebres computadores criaram vida na ficção científica, como o sagaz HAL, de "2001, Uma Odisséia no Espaço", e deixaram um vago pressentimento no ar. Com o crescente desenvolvimento dos computadores, muitos receiam que as posições se invertam e o homem passe a se escravizar ao computador. Mas a própria ficção científica se redime fora dos livros. "Estamos chegando num ponto", afirma um de seus mais celebrados autores, Isaac Asimov, "no qual os problemas que precisamos resolver vão-se tornando insolúveis sem computadores. Não temo os computadores. Temo a falta deles." Sinais claros - A rigor, todos os impulsos que se podem capturar nesse instante de transição entre o reinado das máquinas mecânicas e o das máquinas eletrônicas apontam para soluções - e não para problemas. A verdade é que o computador tem facilitado muito as coisas para o homem moderno. Uma prova disso é o que anda ocorrendo no campo dos cuidados médicos, uma área mais delicada que, por exemplo, a hotelaria ou o abastecimento por supermercados. Em Brasília, a Secretaria da Saúde se muniu de computadores e, depois de um censo hospitalar que começou há poucos dias, vai ter condições de marcar consultas para doentes por telefone. Com a aliança da cibernética, a Secretaria saberá, em qualquer momento, em quais enfermarias da cidade há leitos vagos. Uma empresa do Rio de Janeiro, a Biodata Informática e Tecnologia, equipou vários hospitais cariocas, entre os quais o das Pioneiras Sociais, com um serviço de computação pelo qual os médicos podem ler toda a história dos internados numa tela de computador - que nunca conta uma história diferente e não atrasa. No Instituto do Coração de São Paulo, enfim, reduto do Dr. Zerbini e sua equipe de cirurgiões, os pacientes ficam sob a vigilância de um computador, que a intervalos regulares lhes tira a pressão arterial, examinam sua freqüência cardíaca e tomam sua pressão. Se tudo corre bem, os médicos do Instituto não precisam ficar à beira dos leitos desses pacientes estreitamente vigiados. Com o auxilio do computador, podem dividir sua atenção entre outros que dela têm mais necessidade. Esses são apenas alguns sinais do avanço dos computadores. Mas são bastante claros. Ao contrário da revolução tecnológica anterior, a industrial, cujos impactos se entenderam em doses homeopáticas por mais de um século e meio, o ritmo das mudanças que se armam no horizonte será estonteante. Mas aqueles que, ao mesmo tempo, são os agentes e os destinatários dessa transformação estão provando que podem e querem conviver com ela. |
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