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Reportagens 10 de abril de 1996No comando do circo Leonardo Pareja ressurge numa
Terminou a segunda aventura de Leonardo Pareja, 22 anos, o bandido da luz do flash. Na quarta-feira da semana passada, Pareja assumiu o volante de um Omega e fugiu do Centro Penitenciário Agroindustrial de Goiás, nos arredores de Goiânia, liderando um cortejo de oito automóveis que transportavam 39 prisioneiros amotinados, munição à beça e seis reféns. Em seu carro, Pareja levava, como refém, o estudante de direito Aldo Sabino, de 23 anos. Assim que se aproximaram da saída da penitenciária, o bandido entregou um colete à prova de balas ao estudante, dizendo: 'Coloque isso, você pode se machucar'. No meio da fuga, ele parou num bar em Goiânia para comprar três cervejas e três refrigerantes. Pagou a conta com uma nota de 50 reais e não quis o troco. Alegrou os fregueses ao convidá-los a beber por sua conta. Na manhã do dia seguinte, cercado pela polícia num posto de gasolina em Porangatu, na fronteira de Goiás com Tocantins, virou-se para o refém e entregou a única arma que tinha. - Fica com esse revólver. É para sua proteção. - Não, você não vai se arriscar. Bota esse revólver na minha cabeça -, respondeu o estudante de direito, oferecendo-se como escudo para o bandido escapar mais uma vez. Cercado, sabendo que se escapasse dessa barreira teria de enfrentar outra, e mais outra, e mais outra, Pareja preferiu entregar-se, convocando dois juízes para conduzi-lo de volta à prisão. Com sua prisão, a rebelião estava chegando ao fim. Os seis reféns foram liberados com vida, dezesseis prisioneiros já haviam sido recapturados. Até o início dos feriados da Páscoa, a única vítima fatal fora a universitária Carolina Cardoso de Andrade, que nada tinha a ver com a rebelião. Ela foi alvejada durante uma troca de tiros entre os bandidos e a polícia. Pareja andava quieto desde setembro do ano passado, quando seqüestrou uma menina na Bahia, passou mais de um mês escapando da polícia, ao mesmo tempo em que dava entrevistas por telefone esculhambando a ação policial. Daquela vez, entregou-se - a uma repórter da Globo - depois de se esconder por mais de um mês, e isso lhe rendeu mais reportagens. A aparição da semana passada foi bem mais curta, só durou sete dias, mas foi muito mais marcante. Até porque, na primeira vez, Pareja deu um banho nas polícias dos Estados por onde passou. Desta vez, acabou espetando um nariz de palhaço no rosto do governador Maguito Vilela, em todo o governo goiano e, por que não?, no do ministro Nelson Jobim, da Justiça. No mais longo motim da história policial brasileira, acabou sendo Pareja - criminoso condenado a nove anos por roubo e assalto a mão armada - quem promoveu as negociações entre presos e o governo. Foi ele quem definiu os termos de cada uma das tratativas, decidiu quais reféns seriam soltos e quais seguiriam no cárcere e estabeleceu a moeda de troca, de doze reféns por oito automóveis, conferindo as marcas e modelos pedidos. Alguns prisioneiros chegaram a pedir metralhadoras automáticas para as autoridades goianas, mas Pareja convenceu-os de que era mais conveniente reivindicar revólveres, pois poucos dos criminosos presentes saberiam manipular armas mais sofisticadas. Essa é a moral da história: a atuação de Pareja mostrou que se vive, nas penitenciárias brasileiras, uma situação de beira de abismo, em que as autoridades policiais e governamentais delegam a um criminoso a execução de tarefas que deveriam ser suas, como debelar uma rebelião e garantir a vida dos reféns. 'Ele se mostrou um líder', diz o desembargador Homero Sabino, presidente do Tribunal de Justiça do Estado, pai de Aldo, também refém. 'Todo mundo ali só foi salvo por causa de Pareja', afirma. 'Quero agradecer em primeiro lugar a Deus, depois ao Pareja. Se não fosse por ele, nós, os reféns, não sairíamos de lá vivos', diz Nicola Limongi Filho, diretor do presídio, também feito refém, que ficou conhecido no país inteiro pelo seu papelão: sofrer uma crise de choro num dos muros da penitenciária. Na realidade, Pareja se mostrou um talento excepcional para manipular os meios de comunicação. Enquanto durou a rebelião, seu nome saiu nos jornais todas as manhãs, sempre na primeira página. Também se tornou a principal atração dos telejornais, à noite. Não há nada mais monótono do que motim em penitenciária, mas o bandido sabia como tornar a rebelião de Goiânia uma atração à parte. Num dia, jogou futebol. No outro, tocou violão. Quando a polícia impediu a imprensa de fazer fotos e imagens do pátio do presídio, subiu na caixa-d’água e ali instalou uma barraca de lona preta e, muito a propósito, uma bandeira nacional. Numa das cenas mais debochadas da semana, chegou a conceder uma entrevista coletiva na terça-feira. Mas exigiu que os jornalistas chegassem às 8 da noite - na hora do Jornal Nacional. Conseguiu o que queria. Em todas as suas ações, Pareja humilhou a polícia e o governo e só atraiu simpatia. Leonardo Pareja aproveitou os seis dias e sete horas de um motim para exacerbar um marcante senso de espetáculo. Em outubro passado, depois de seqüestrar uma menina de 13 anos e mantê-la sob a mira de um revólver por três dias, ele passou 41 dias fugindo da polícia de três Estados. Rodou 2 000 quilômetros e, em cada cidade que passava, fazia questão de dar entrevistas para as rádios. Escreveu cartas para os jornais. Na hora de se render, quis a presença de um juiz, mas antes tomou o cuidado de telefonar para uma repórter de televisão. 'Quem não gosta de ser famoso? Eu adoro', revela o criminoso, que gosta de se apresentar como herói dos humilhados. 'Eu sou um herói dos presos, gente que foi humilhada e maltratada pela polícia', afirma. 'Não me considero um Robin Hood, mas confesso que me identifico com ele.' Pareja vive dentro de um filme desde a adolescência. Com uma cabeça espetaculosa, tem tão pouca noção dos seus atos que costuma dizer que entrou no mundo do crime em busca apenas de 'aventuras radicais' - algo como fazer uma manobra mais ousada com uma prancha de surfe numa praia de Santa Catarina -, e assim está até hoje. Aos 13 anos, foi preso pela primeira vez por um motivo inocente. Com um grupo de amigos, saiu de um show de Lulu Santos em Goiânia e começou a fazer baderna, chutando latas de lixo. Entre 15 e 16 anos, ele já andava em motos e carros roubados. Aos 16, fez seu primeiro assalto a mão armada. Aos 17, com uma ficha de dez carros roubados, foi preso. A polícia descobriu que ele era o 'assaltante dos classificados'. Lia os anúncios, entrava em contato com o vendedor e pedia que fosse até sua casa, com o carro ou a moto, pegar um cheque com sua mãe. No meio do caminho, armado, roubava o veículo. Em outubro passado, quando Pareja voltou para o presídio em Goiás, uma equipe de médicos peritos traçou seu perfil psicológico. No laudo, há poucas conclusões e muita descrição. Ali, o próprio Pareja conta que era uma criança extremamente medrosa e dormia sempre no quarto dos pais. Na entrevista com os médicos, contou que, aos 10 anos de idade, provocou a separação dos pais, induzindo seu pai a pensar que era sistematicamente traído pela mãe. O pai o mimava, dando-lhe tudo o que pedia, enquanto sua mãe impunha limites. Arrepende-se de agressões verbais que lançou contra a mãe, mas relata que seu relacionamento com ela só se tornou tranqüilo depois que o pai morreu, em 1992, época em que Pareja tinha 18 anos de idade e então concluiu: 'Eu só tenho a ela e ela só tem a mim'. Sua mãe, dona Luzia, uma mulher nervosa que adora o filho, vive numa casa modestíssima nos arredores de Goiânia. Não trabalha nem tem renda própria. É ajudada por um antigo namorado, um mecânico de carros. Um homem que Leonardo Pareja não tolera. Na cadeia, Pareja costurava bolas durante o dia. No tempo livre, escrevia um livro de memórias. Na mesma máquina de escrever, ele freqüentemente redige petições para seus colegas de prisão. Com esse comportamento no presídio e o zelo pela 'imagem pública', Pareja tem um alto ibope. Do Rio de Janeiro, uma senhora de 72 anos costuma mandar-lhe cartas com mensagens de carinho, como uma avó faria com o neto. Na semana passada, uma adolescente do interior da Bahia, Barbara Cinthia, lhe enviou dois cartões de congratulações pelo seu aniversário. Com letras miúdas e caprichadas, a garota diz: 'Desejo-lhe toda a felicidade do mundo, pois você merece muito mais. mil felicidades. Parabéns. Você não está um ano mais velho. Está um ano melhor'. A aura de bom bandido que Pareja construiu deve-se muito mais aos policiais do que a ele próprio. Como a polícia é brutal, atrapalhada e ignorante, Pareja faz força para tornar-se o símbolo do descontentamento silencioso da sociedade contra essa polícia. 'Não sou um superbandido, mas certamente sou mais inteligente do que a polícia', já disse ele. Também o ajuda o fato de que, apesar de já ter ferido duas pessoas - um policial e uma menina de 13 anos -, não matou ninguém nem provocou um banho de sangue. Até agora, naturalmente. Pareja diverte porque é capaz de submeter a polícia a uma seqüência de situações cômicas. A rebelião começou no dia 28 quando um grupo de autoridades decidiu visitar o presídio, dando início ao programa Justiça Itinerante, para analisar a situação das cadeias do Estado. Era a primeira visita do programa. Por volta das 11 horas da manhã uma comissão composta por juízes e advogados e pelo desembargador Homero Sabino chegou ao presídio, com capacidade para 320 presos, e que abriga 782. A visita foi acompanhada pelo diretor Limongi e pelo secretário de Segurança Pública, Antonio Lorenzo. Apenas dezessete guardas penitenciários com cassetetes faziam a proteção das autoridades. A comissão passou pelo pavilhão A, onde ficam os presos de bom comportamento, como Pareja. No pavilhão B, a ala de isolamento, Limongi estranhou que, ao contrário de sua recomendação, os presos estivessem fora das celas. Quando passavam pelas últimas celas, os detentos se rebelaram. Armados com facas, estiletes e dois revólveres, 100 condenados renderam os guardas penitenciários e toda a comissão. De quebra foi pega também uma equipe da TV Anhangüera, que acompanhava a visita. Reza a cartilha da negociação policial que, em casos de motim, autoridades de alto escalão só compareçam diante dos presos em último caso. Pois no meio desse bando da comissão de negociação estava o secretário de Governo e de Justiça de Goiás, Virmondes Cruvinel. Presenças desse quilate costumam conferir aos presos poder e prestígio impróprios. Mostra a experiência que, quando estão diante de um assessor, os presos pedem revólveres. Diante de uma autoridade superior, os amotinados costumam querer logo uma metralhadora. Foi o que aconteceu. Tamanha foi a estupidez das autoridades que os presos conseguiram uma coisa inédita no mundo da negociação policial. Entraram pedindo menos e levaram mais. Os presos começaram fazendo exigências genéricas, como o desejo de ter carros-fortes, metralhadoras e munição, sem, contudo, quantificar nada. Depois, queriam quatro carros, oito revólveres calibre 38 e oito caixas de bala, além de 20 000 reais. Também queriam deixar a prisão com quatro reféns. Como as autoridades aceitaram os pedidos na hora, animaram-se a pedir mais. Na segunda-feira da semana passada, as exigências passaram a ser feitas por escrito, numa carta assinada por Pareja. Pediam-se sete carros, nove metralhadoras, nove revólveres, oito caixas de bala, nove pistolas 765, nove telefones celulares com duas baterias cada um, vinte coletes à prova de bala e 30 000 reais. A comissão recusou as metralhadoras, mas levou o troco. Teve de dar 100 000 reais (e não 30 000), oito carros (e não sete), 25 revólveres (e não nove). Também ficou combinado que não haveria perseguição até dez horas após a fuga. 'É difícil corrigir uma negociação que começou errado', diz o senador Romeu Tuma, ex-policial. O bandido que fez a polícia de boba entrou na rebelião quase por acaso. Em entrevista a VEJA publicada em outubro passado, disse que só fugiria se estivesse sendo maltratado. Não era o caso. Pareja estava quieto na cela 17C, e, assim como os demais presos, acabou sendo solto pelos rebelados. Como não consegue ficar distante dos holofotes, bastaram poucas horas para que entrasse na cúpula do motim e logo assumisse o comando. Formou três grupos. Um para cuidar da limpeza, outro da água e o terceiro ficou encarregado da comida. Mandou arranjar lençóis limpos para as mulheres reféns e deu a elas uma atenção especial na higiene. Chegou a proibir que um dos presos fumasse numa cela para não importunar um refém. Três amotinados se rebelaram contra a decisão e acabaram presos por outros presos. Quem colocava ordem no pedaço não era a polícia, era o bandido Pareja, um exibicionista com mais tirocínio que as autoridades.
Nossos bandidos de charme É longa a história de sedução que alguns bandidos exercem sobre pacatos cidadãos cumpridores de seus deveres. Antes de Leonardo Pareja, houve o ítalo-paulista Amleto Gino Meneghetti, o mineiro Lúcio Flávio Villar Lírio e o catarinense Bandido da Luz Vermelha, os dois últimos retratados em filmes de Hector Babenco e Rogério Sganzerla. Deles, cada um à sua época, a imprensa fez mitos. Sobre Meneghetti, ladrão morto em 1973, aos 98 anos, que humilhava a polícia com fugas espetaculares, se disse: 'Lia Marx, enquanto esperava pelo momento mais oportuno de escapulir de entre as grades'. Lúcio Flávio, morto na cadeia em 1975, que roubava carros, supermercados e casas lotéricas, sempre foi lembrado por seu 'Q.I. altíssimo'. Luz Vermelha, que assaltava residências e cumpre pena há 29 anos em São Paulo, chegou a ser descrito como 'um dândi, sempre metido em roupas caras e disposto a pagar alto para ter as mulheres que desejava'. Como os mitos dependem de meias verdades, pouco se fala que, além de ter cometido quatro homicídios, Luz Vermelha era um estuprador sádico, ou que Lúcio Flávio estourava a balas o cérebro de seus inimigos, sem piscar. Ou que Meneghetti cometia assaltos bem mais perigosos, para as vítimas, do que se costuma lembrar. Além do fato de todos serem tipos solitários, capazes de espetaculares afrontas à lei, a origem social é o que mais diferencia Meneghetti, Lúcio Flávio, o Bandido da Luz Vermelha e Pareja do sem-número de Escadinhas e Uês dos morros cariocas. Bandidos dessa linhagem não são pobres nem pretos. Geralmente são brancos, de baixa classe média. A exceção, nos anos 60, foi o carioca Manoel Moreira, o 'Cara de Cavalo', ídolo do artista plástico Hélio Oiticica, criador do slogan 'seja marginal, seja herói'. Os criminosos de classe média não se encontram naquela situação humilhante, socialmente desprezível, no fundo, de quem é tão incapaz de ganhar dinheiro que tem de roubar para comer. São pessoas que têm origem e mesmo algum estudo. Não se tornaram criminosos por 'necessidade', mas em função de alguma 'vocação' ou mesmo 'opção'. Ao contrário dos criminosos da ralé, de quem só se conhece o apelido, eles têm personalidade, são tratados como indivíduos, têm direito a nome e sobrenome - portanto, reconhece-se que possuem uma família -, dão opiniões, têm seus gostos e manias. O fato de serem criminosos por terem escolhido assim, quando, em teoria, poderiam ter feito carreira como advogado ou pelo menos como gerente de banco, é interpretado como um ato de rebeldia, no sentido de que são pessoas que não se submetem às mesmas obrigações e deveres que marcam o cotidiano do advogado e do gerente de banco. Isso é o que garante o charme de suas biografias, fazendo deles personagens interessantes de ser cultivados pela imprensa e pela indústria cultural. Depois de garantir o pão de boa parte da imprensa de sua época, o Bandido da Luz Vermelha e Lúcio Flávio terminaram sua carreira glamourizada como bandidos românticos. Considerando as vítimas que deixaram atrás de si, é difícil classificá-los assim. Mais acertado é classificar como romântica, cegamente romântica, a visão que se cultivou deles, pois de sonhadores não tinham nada. No Brasil, o embelezamento dos bandidos de classe média dos anos 60 e 70 foi facilitado por um truque banal. Alguns intelectuais de esquerda chegavam a vê-los como 'companheiros de viagem', porque eram perseguidos pela mesma máquina policial que prendia, torturava e matava os que se opunham ao regime de 1964. Essa visão diferenciada dos bandidos não é invenção brasileira, mas acompanha a humanidade desde Robin Hood. Neste século, o francês Jean-Paul Sartre desenvolveu a mitologia do 'bom bandido', patrocinando a carreira teatral de Jean Genet, ladrão, condenado à prisão perpétua, a quem classificava de 'comediante e mártir' da sociedade contemporânea. Genet não era uma coisa nem outra, mas um criminoso com razoável talento para escrever peças teatrais, como O Balcão, e obras literárias, como o Diário de um Ladrão. Nossos bandidos de charme ainda não investiram nessa área - até agora, sempre deixaram que os intelectuais fizessem esse serviço em seu lugar. Um estímulo à rebeliões As negociações são amadoras Existe o hábito de medir a eficácia de um negociador numa rebelião penitenciária de acordo com o número de reféns mortos. Por esse ângulo, o desfecho do motim de Goiânia foi um sucesso, já que nenhum refém perdeu a vida. O critério, no entanto, é enganoso. Primeiro, porque houve dois mortos, um preso fugitivo e uma estudante de 24 anos que se encontrava acidentalmente perto de um tiroteio. Depois, porque a fuga, com os presos partindo em carros potentes e armas à farta, foi um desastre que só não acabou em morticínio por pura sorte. Segundo a opinião de especialistas em lidar com essas situações, nada é menos recomendável do que abrir as portas de um presídio para os rebelados - ainda que os reféns estejam sendo mantidos ao lado de botijões de gás, como aconteceu em Goiânia. Não há estímulo maior que se possa dar para o estouro de novos motins pelas prisões afora. Conta a experiência, também, que uma negociação longa, como a de Goiânia, favorece quem está do lado de fora do presídio - e não os presos amotinados. 'Não se tem registro de morte de reféns durante as rebeliões', afirma o capitão da PM Augusto Mamede, especialista em Tratativas e Negociações, que trabalha no Rio Grande do Sul. Nas rebeliões, os reféns correm risco de vida sério apenas nas duas primeiras horas do motim, quando os bandidos estão tomando conta da penitenciária e podem ocorrer confrontos. Depois disso, cria-se aos poucos uma identificação mútua - o refém torce pelo preso, de cujo sucesso depende sua vida, e o preso faz tudo para preservar o refém, cuja vida é sua única esperança de se safar. Diante disso, os especialistas têm um roteiro a seguir. Começa-se por jamais ceder aos primeiros pedidos, por mais inocentes que possam ser. Deve-se estudar o corte de água e luz, e até impedir fornecimento de comida. Também se recomenda confinar rebelados e reféns no menor espaço físico possível. Assim, além de ter maior controle sobre as ações dos presos, a polícia cria um clima favorável à sua própria ação. Feito isso, a regra seguinte é ganhar tempo. Em países como Estados Unidos, Inglaterra, França e Alemanha, equipes especializadas comandam as negociações. O negociador, manda a regra, é sempre neutro e tem uma boa tarimba em psicologia, indispensável, por exemplo, para distinguir um preso que blefa para negociar daquele psicopata capaz de cometer uma insensatez a qualquer momento. O negociador não deve ter poder de decisão, para ganhar tempo e sempre poder alegar que, na hora H, precisa fazer uma rodada de consultas. No Brasil, a rotina é o contrário. Entende-se que alguém com o poder de decisão é que deve estar à frente das negociações. Na semana passada, a comissão que conversava com os presos tinha, entre seus integrantes, um representante do governador do Estado, Maguito Vilela. Era o secretário de Governo e Justiça Virmondes Cruvinel, encarregado de fazer a ponte entre os presos e o governador. 'A negociação tem de ser vista como uma operação policial. Às autoridades cabe avalizar os passos dos técnicos', diz Chagas Monteiro. |
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