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10 de fevereiro de 1993
Dias de ira e dor

Forte, racional e segura, Glória
Perez ergue a trincheira da luta
lancinante da mãe que não descansa
enquanto não justiçar a filha

Essa mulher é uma fortaleza. Inexpugnável como uma máscara de bronze, seu rosto de sulcos profundos não abriga expressões ternas ou angustiadas. Seus olhos enormes se fixam firmes nos do interlocutor e não mostram indignação ou surpresa ante perguntas embaraçosas. Ela fala com enorme segurança, sem parar para buscar palavras. Os raciocínios se sucedem movidos por uma lógica implacável, uma convicção férrea, que não admite dúvidas. Sua capacidade de articulação é tamanha que as frases parecem ter sido escritas antes, formando parágrafos concatenados, repletos de argumentos racionais. Ela chefia a família, imagina as tramas e escreve a novela que diariamente faz com que dezenas de milhões de pessoas se fixem na frente da televisão, organiza um dossiê jurídico-policial sobre seus inimigos - e faz tudo isso sem perder a calma. Sem se desesperar. Sem se descabelar. Versada em filosofia e literatura, fala como uma intelectual, e parece estar discorrendo sobre questões teóricas. Eis o que ela diz:

De Corpo e Alma não é violenta. Qual a violência da novela? Acho uma coisa completamente absurda querer resolver, a nível ficcional, os problemas do mundo concreto. Não se pode admitir, por exemplo, que no século XIX Marx, em vez de se dedicar a fazer a revolução, fosse atirar contra Balzac porque ele pintou o capitalismo nas obras dele. Me interessa o mundo concreto.

E ela diz uma frase arrepiante:

A morte da minha filha é concreta.

Glória Perez, de 43 anos, não está pontificando acerca de abstrações inefáveis. Ela está falando da dor maior que pode existir: a da mãe cuja filha morre inesperadamente. Num piscar de olhos, a sua Daniela, a "Dani", desapareceu para sempre, vítima de dezesseis estocadas horrendas. Como num roteiro de novela, escrito para depois ser transformado em imagens, Glória Perez lembra o seu pior, quando viu a filha morta:

A gente chegou ao local, aquele lugar horroroso, escuro, ermo, e eu vi o carro dela. Mas só acreditei quando vi o tênis que ela usava. Porque o corpo estava atrás de uma moita. Estava iluminado pelo farol do carro, e a primeira coisa que se via era o tênis. Aí você vai tendo aquela visão, você vai subindo do tênis para o rosto. É difícil dizer a sensação que se tem. É a coisa mais bruta da sua vida.

Na hora de sofrimento máximo, de fim e morte, Glória pensou em começo, em nascimento:

Quando vi a Dani morta, pensei na hora em que ela nasceu. Eu a abracei como se recolhesse a minha filha para dentro de mim mesma. Abracei o corpo dela para guardá-la, detalhe por detalhe, não na minha mente, mas nas minhas entranhas. Era como se eu quisesse colocá-la dentro de mim de novo. É como a música do Chico Buarque: a saudade é o revés de um parto.

Experiência mais solitária da existência, a dor - intransferível, incompartilhável - costuma jogar as pessoas em mais solidão. No abatimento, na prostração. Mas não para Glória Perez. Ela abraçou o cadáver de Daniela. Levantou-se e olhou ao redor. "Foi ali que eu comecei", diz a autora de De Corpo e Alma. "Depois do desespero, me deu uma lucidez incrível, e pensei: quero saber quem fez isso." Saber quem foram os autores do crime, para entender o que se passou com sua filha. Saber para exigir punição, vingança. A vingança, a ira tomaram conta de Glória Perez. Sentimentos feios, é certo, mas humanos e nobres quando expressos pela mãe cuja filha foi dilacerada pelas fúrias.

Dois dias depois da morte de Daniela, sua mãe já estava na ativa. Escrevia a novela, consolava seus outros dois filhos (Rodrigo, de 19 anos, e Rafael, de 13) e, mais que tudo, procurava maneiras de incriminar e fazer com que a Justiça puna com rigor o ator Guilherme de Pádua e sua mulher, Paula Nogueira de Almeida Thomaz. Ela está colhendo depoimentos de pessoas que conviveram com Guilherme e Paula, para mostrar que sempre foram pessoas mesquinhas, cínicas e perversas, que planejaram em detalhe o assassinato. Também controla de perto a movimentação dos advogados, para evitar o relaxamento da prisão do casal e fazer com que o processo ande rápido. É uma atividade incessante, aparentemente inesperada numa mulher ferida tão fundamente. Para os artistas e psicólogos, no entanto, a fortaleza de Glória Perez, a sua recusa em calar-se e recolher-se, segue um padrão explicável.

Segundo uma tabela da Associação de Psiquiatria dos Estados Unidos, que mede os graus de stress de zero a 100, com a perda de um filho a pessoa se vê submetida ao nível máximo. O grau 100, na tabela, só é equiparável às grandes catástrofes naturais, como terremotos e inundações, ou às guerras, quando a morte e a destruição se generalizam. "A mãe que perde o filho não perde apenas a pessoa que seguramente mais ama. Ela perde o feto que carregou, o bebê que amamentou, a criança, o jovem e, principalmente, todas as fantasias do que aquele filho viria a ser", explica a psicóloga Lydia Aratanguy, especialista em problemas de família. "Glória Perez perdeu não somente a menina, mas a futura mãe de seus netos, a melhor atriz do Brasil, que a Daniela poderia vir a ser." Segundo a psicóloga, há um sentimento de culpa muito grande quando o filho morre, maior do que quando se perde um outro parente. "A mãe acha que tem poder sobre o destino e a felicidade do filho. Se ela se culpa até quando o filho vai mal na escola, imagine quando o filho desaparece numa tragédia, e a morte mostra que ela não tinha o menor poder sobre aquela vida. É desesperador entender isso."

Há o agravante de a experiência ser difícil de ser compartilhada. A maioria das pessoas já perdeu parentes mais velhos ou amigos. A perda de um filho é mais rara, fazendo com que o sofrimento seja solitário e difícil de entender pelos outros. "Quando a morte é trágica, inesperada, o stress é ainda maior", diz o psicólogo Fernando Ruy Barboza, que dá assistência a parentes de pacientes terminais. "A consciência da perda é tão arrasadora que a pessoa precisa de tempo para se acostumar com a idéia da morte de um parente em estado terminal. A morte abrupta é absolutamente arrasadora", completa o psicólogo.

Falando em tese, com base na experiência de psicólogos, Barboza e Lydia apontam um comportamento sintomático das mães ante a morte de um filho: elas continuam a agir como se ainda cuidassem do filho depois da morte. "É um tipo de entorpecimento, como a pessoa que sente uma coceira no pé que foi amputado, é a maneira de continuar sendo mães", afirma Lydia Aratanguy. "Quem passa por uma perda trágica mantém o ritual, segue tratando da filha", completa Barboza. Glória Perez não precisa de um psicólogo para entender esse sentimento. Ela chegou sozinha a essa conclusão:

Não há nada de supermulher na minha atitude. Na hora de defender um filho, vivo ou morto, você encontra forças que achava que não tinha. Você defende o seu filho até depois da morte. Como é que eu posso descansar e esquecer uma dor dessas, esquecer um filho dessa maneira. O que adianta mudar de cenário, o que eu vou fazer em Nova York ou Paris? Não posso fugir da realidade. Tenho de encará-la. Seria como abandonar minha filha. Jamais faria isso. Nunca.

PORCO, ABORTO - Não abandonar Daniela, seguir sendo sua mãe, é o que Glória Perez está fazendo quando protege a filha das insinuações de que estaria tendo um caso com o seu assassino Guilherme de Pádua, quando insiste que o ator e sua mulher, Paula, não prestam, são maus e devem ser punidos. Os artistas já transformaram em versos memoráveis o que os psicólogos explicam e Glória Perez vive. No teatro grego, Agamenon aceita que sua filha Ifigênia seja morta num sacrifício, para que o tempo melhore no Porto de Aulis e os navios gregos possam zarpar para Tróia. Mas a mãe de Ifigênia, Clitemnestra, ao saber do crime, só descansa quando vinga a filha. Ela espera dez anos, até que Agamenon volte vitorioso da guerra de Tróia, para matá-lo. Diferente de Clitemnestra, Glória Perez não quer matar Guilherme e Paula, mesmo porque é contra a pena de morte. "Eu posso ser passional e querer pular no pescoço do Guilherme, mas o Estado tem de se regular por preceitos éticos", diz a escritora. Ela parece mais com a rainha Margareth de Ricardo III, de Shakespeare. Poderia usar com Guilherme as maldições que Margareth lança contra Ricardo, que lhe matara os filhos: "Que o verme da consciência te roa permanentemente a alma! Que enquanto viveres suspeites da traição dos amigos e tenhas como amigos os traidores mais pérfidos! Que o sono jamais feche teus olhos mortíferos, a não ser para que um horrendo pesadelo te assombre com um inferno de tenebrosos demônios! Encarnação do Mal, porco, aborto, filho do inferno, tumor do ventre de tua mãe, produto amaldiçoado do sêmen de teu pai!".

Ésquilo e Shakespeare eram dramaturgos. Ou seja, imaginavam tramas para prender a atenção dos espectadores, levá-los à catarse, à expiação de seus sentimentos e impulsos. O grego e o inglês faziam ficção, enquanto a tragédia de Glória Perez é real, é dor de verdade. Ocorre que ela também é uma dramaturga. Ocorre que imaginou a trama que, pelos acasos do destino, colocou Guilherme de Pádua em contato com a filha - o caçador frente à presa. Caminhos tortuosos fizeram com que algumas almas caridosas vissem nessa coincidência motivo para atacar Glória Perez, para levá-la a sentir-se culpada pela morte da filha.

Como não tem pecado, o primeiro a atirar pedras na mãe de Daniela foi dom Lucas Moreira Neves, cardeal-arcebispo de Salvador e primaz do Brasil. Num incandescente artigo publicado no dia 13 passado no Jornal do Brasil, o piedoso prelado tomou emprestado o título do célebre panfleto de Émile Zola sobre o caso Dreyfus - "J'Accuse!" - para fazer uma pomposa condenação da televisão brasileira, acusando-a de "imbecilizar faixas inteiras da população", de formar "uma geração de debilóides" e de ser a "demolidora dos mais autênticos e inalienáveis valores morais, sejam eles pessoais ou sociais, éticos religiosos e espirituais". Encerrando sua peroração, o Zola de batina perguntou-se "Quem matou, há dias, uma jovem atriz?" e, mandando às favas o ensinamento de que não se deve julgar para não ser julgado, proferiu sua serena sentença: "Seria ingenuidade não indiciar e não mandar ao banco dos réus uma co-autora: a TV brasileira. A novela das 8. E - sinto ter de dizê-lo - a própria novela De Corpo e Alma". Talvez a covardia tenha impedido o primoroso primaz de resumir sua condenação numa sentença mais sucinta: Glória Perez matou a filha, Daniela.

PSICOPATA - Dom Lucas pode ter esquecido momentaneamente a terceira das virtudes teologais, a caridade, quando em vez de confortar a mãe sofredora machucou-a cruelmente, reforçando o sentimento de culpa que, segundo os psicólogos, é inerente ao luto pela perda de um filho. Também falou com a inexperiência de quem não é pai, não passou pela angustiante experiência de contemplar o filho chorando de dor de ouvido, quanto mais de ter uma filha assassinada. O esquecimento, a crueldade e a inexperiência do cardeal, ensina o catecismo, devem ser perdoados. O que é duro de desculpar é a diminuta inteligência de seu argumento. Que a televisão brasileira é apelativa e exagera nas cenas de erotismo e violência não há nenhuma dúvida. Os próprios profissionais do meio reconhecem isso (veja reportagem à pág. 70). Mas se a televisão, e em particular as novelas, provocasse assassinatos diretamente, numa relação mecânica de causa e efeito, haveria um crime na vida real para cada capítulo levado ao ar. Qual assassinato que, comprovadamente, foi instigado pela televisão? Nenhum.

Walter Clark, ex-diretor da Rede Globo, correu em socorro de dom Lucas, seguindo por uma outra trilha acusatória. "O que me preocupa nisso tudo é a obsessão de sucesso da Glória Perez, que queria fazer da filha uma estrela e a colocou em contato com um psicopata", disse ele à revista Contigo! "A mãe puxava a brasa para a filha na novela. O garoto devia cercar a menina porque ela era duplamente importante: era bonita e tinha poder." É mais insensatez. Só mães estúpidas não querem que suas filhas façam sucesso. Nada mais previsível, igualmente, que, em podendo ajudar, a mãe puxe a brasa para o lado da filha. Resta a questão da psicopatia de Guilherme de Pádua. Pode ser que ele seja realmente um psicopata. Mas ninguém sabia, muito menos Glória Perez, que o conhecia mais que superficialmente: só havia trocado cumprimentos com ele, nada mais.

POUCA CONVERSA - Glória Perez não menciona os nomes de dom Lucas e Walter Clark. No máximo, se refere ao comentarista de TV da Folha de S.Paulo, José Simão, que fez piadas sobre o assassinato e criticou De Corpo e Alma. E usa uma frase de Marx para falar de Simão: "Há pessoas que não levam em conta a realidade, mas em compensação a realidade também não as leva em conta". Quanto à acusação de fundo, a escritora tem a resposta na ponta da língua:

Você quer saber se me sinto culpada pela morte de minha filha? Não, não tenho nenhuma culpa. Dei a minha filha tudo que ela quis. Como Tom Jobim já disse, o sucesso no Brasil é ofensa pessoal. Encaro essas acusações como vindas de quem tem um ressentimento muito grande a respeito do sucesso dos outros.

E prossegue:

Não tenho tempo a perder com essas acusações. Tenho que colocar os assassinos de Daniela na cadeia.

Guilherme de Pádua completou um mês de cadeia. Ele está numa cela de 12 metros quadrados, na delegacia da Barra da Tijuca, onde convive com um estelionatário, um traficante, dois assaltantes e dois homicidas, como ele. Os presos não tomam banho de sol e, sem camas no cubículo, dormem sobre papelões no chão. Guilherme recebe uma visita semanal dos parentes, vindos de Minas Gerais. Não tem rádio nem televisão, mas devora o noticiário dos jornais sobre o crime que cometeu. Escreve à noite e está lendo o romance As Sandálias do Pescador. Recebe cartas com alguma freqüência, mas só responde às enviadas por religiosos, fazendo numerosas referências a Cristo e Deus. Conversa pouco com os seis colegas de cela, mas divide os sanduíches que a família lhe traz. às vezes chora e revolta-se com a prisão da mulher, a quem viu por menos de quinze minutos desde a noite de 28 de dezembro.

Paula, na carceragem feminina da Polinter, em Niterói, tem mais companhia e conforto. Na sua cela, há outras treze presas, pode tomar banho de sol e passa o dia diante da televisão. Só não assiste a De Corpo e Alma. Como seus pais trazem presentes às suas colegas de cela durante as visitas, Paula tem uma convivência pacífica e é protegida de qualquer hostilidade por quatro detentas.

O tempo em que o casal de homicidas ficará na cadeia é uma incógnita. A acusação trabalha com afinco para levá-los a julgamento o mais rápido possível, por entender que o tempo diminuirá o clamor por justiça e acabará beneficiando o casal. "Se o julgamento for antes de outubro, os dois devem ser condenados", diz um experiente advogado carioca, que acompanha o caso à distância. "Se for entre novembro e dezembro, crescem as chances de um deles ser absolvido. Ficando para o ano que vem, torna-se imprevisível seu desfecho." Esse é o maior receio de Glória Perez: que o caso se arraste, as pessoas esqueçam e os assassinos sejam libertados. Por isso batalha noite e dia por justiça, pela proteção de sua filha contra a impunidade.


Cínico e dissimulado
"Fiquei revoltada com o cinismo e a dissimulação. Eu liguei para Guilherme, na noite do crime, para saber se ele tinha idéia de onde Dani estava. Ele disse que não sabia. Mais tarde, ele e Paula chegaram a pedir que eu ligasse para eles assim que Dani chegasse em casa porque estavam muito preocupados. Depois de ter trucidado a minha filha, Guilherme falou comigo como se fosse um amigo de Dani e ainda foi à delegacia, usando o carro do crime, para me dar os pêsames. Não existe nada mais contundente do que esse comportamento para mostrar quem ele é. (...) Na primeira vez que eu o vi na vida, nada me chamou a atenção. Fui a uma gravação, ele passou por mim e disse 'eu sou o Bira'. Mal olhei para ele. Guilherme nunca foi alguém próximo. Na televisão, parecia intimidado por estar na novela das 8, fazendo um papel maior do que todos os anteriores. Levava mel para a Leonor Bassères. Também fazia confidências para a Dani sobre como havia lutado para chegar até ali, trabalhando em várias peças que não diziam nada até conseguir uma chance na Globo. Dizia que queria estudar, se dedicar, que tinha casado muito cedo e não queria o filho que Paula está esperando. Na verdade, ele é um especialista em sedução, um oportunista. O Guilherme deveria estar de olho na Daniela porque era a filha da autora. Ele se casou durante a novela e ninguém ficou sabendo. Achava que se o público soubesse do seu casamento poderia estragar a carreira. Por que matar não estraga, mas casar, sim? Ele é um homem que sempre teve relações amorosas visando lucro, um ganho e um degrau a mais para subir na vida. Nenhuma foi gratuita, nenhuma foi uma vivência afetiva."

As órfãs da violência
A luta das mães para
fazer justiça aos filhos

Na casa em que a menina Miriam Leão Brandão, de 5 anos, costumava passar os fins de semana, em Belo Horizonte, há um antigo quadro que diz: "Vinde a mim todos vós que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei". Desde que a garota morreu queimada pelos seus seqüestradores, há um mês e meio, a frase extraída do Evangelho de Matheus não serve para aplacar a ira de sua mãe, a comerciante Jocélia Maria de Castro, de 26 anos. "Mesmo depois que Mirinha se foi, acordo todos os dias pensando na mamadeira dela", conta. Crente, Jocélia passou a duvidar de Deus: "Chego a pensar que Ele não existe". Mães marcadas por tragédia igual à vivida por Glória Perez mostram-se confusas, mas estão seguras de que não há para os assassinos de seus filhos castigo à altura do mal que fizeram.

Jocélia gostaria que os dois matadores de Miriam, presos e à espera de julgamento, morressem torturados. Mas desejaria antes uma conversa franca. "Quero saber o que sentiram quando viram aquele rostinho sendo queimado." Outra vítima de uma violência recente, Sirley Furini, de 50 anos, culpa-se pelo assassinato do filho Nélson, de 13 anos, no dia 18 de janeiro, em São Paulo. Sozinho em casa, Nélson foi morto com um tiro na cabeça, disparado pelo assaltante Arnaldo Santos de Araújo, de 16 anos, que mora em uma favela em frente à sua casa. "Por que não me mudei antes daquele bairro ou por que deixei meu filho sozinho justo naquele dia?", atormenta-se Sirley. "Todos os dias, quando acordo, começa o pesadelo: sei que ele nunca voltará." Preso na semana passada, o assassino foi recolhido ao SOS Criança.

Em geral, as mães vítimas da violência buscam obsessivamente a justiça. Um exemplo é a deputada Regina Gordilho. Há seis anos, ela era uma pacata dona de casa, quando se lançou numa cruzada para pôr na cadeia os cinco policiais que assassinaram seu filho Marcellus, de 24 anos, no Rio. Quatro nem foram julgados e um foi condenado a um ano e meio - nem chegou a ser preso. "Entrei na política para lutar por justiça ao meu filho", afirma. Há treze anos, a doméstica Marli Pereira Soares iniciou uma peregrinação por quartéis da PM carioca à procura dos assassinos de seu irmão Paulo. Localizou três, mas só um foi condenado, Jairo dos Santos. Depois de quatro anos na cadeia, o ex-militar ganhou liberdade. Marli não conseguiu justiça e, há um mês, sofreu nova violência. Seu filho de 15 anos, Sandro, foi morto a tiros, aparentemente por policiais. "Não descansarei enquanto não prender os homens de farda que mataram meu filho", promete.

Paula foi a mentora

"Paula é uma menina extremamente violenta, que fez várias tentativas de agressão, como pegar uma garrafa e partir para cima de alguém. Todas as pessoas que ouvi usam as mesmas palavras para defini-la: agressiva, ciumenta, possessiva, dissimulada, fria. Durante a confissão, ela até se gabou para o policial, dizendo que o Guilherme ficou nervoso na hora de matar, mas ela é muito mais fria. Paula não tem a indignação dos inocentes, nem o remorso dos culpados. Ela não sente culpa porque não tem limite moral. Falta-lhe um tipo de sensibilidade um pouco maior, que as mulheres grávidas, como ela está, costumam ter. Tenho certeza de que ela foi a mentora intelectual do crime. Ela matou por ciúme. Um amigo do Guilherme me contou que, quando Yasmin e Bira trocaram um beijo na novela, falou com Paula pelo telefone. 'Você viu? Hoje, o Guilherme beijou aquela p...', disse Paula. Esse amigo argumentou que Guilherme era um ator e beijaria ainda muitas mulheres em novelas. Ela começou a gritar que jamais se acostumaria com isso. Mas Paula não é aquela mulher que se apaixona por um homem e por ele faz todas as loucuras. Ela teve esse mesmo comportamento com todos os que passaram pela sua vida. Costuma exigir provas de amor. Para um ex-namorado, pediu que saísse de um quarto pela janela e, equilibrando-se no parapeito, entrasse no seu quarto. Eles estavam no 8º andar. Paula deve ter um charme grande para homens maus. Eu não sei o que ela sabe sobre o Guilherme, mas ela o tem na mão.."

Daniela dentro de mim

"Quando vi a Dani morta, pensei na hora em que ela nasceu. Eu a abracei, como se recolhesse a minha filha para dentro de mim mesma. Abracei o corpo dela para guardá-la, detalhe por detalhe, não na minha mente, mas nas minhas entranhas. Era como se eu quisesse colocá-la dentro de mim de novo. É como a música do Chico Buarque: a saudade é o revés do parto. Mais tarde, no velório, eu olhava o caixão e via uma menina que no dia anterior estava aqui em casa, na hora do almoço, dançando pela sala. Eu tinha aquela imagem na cabeça - ela entrando no escritório, falando comigo. Eu olhava para o caixão e não acreditava, achava que ela ia se mexer, que ia acordar, que aquilo era uma cena, não era real. Ainda sinto aquele atordoamento da falta da pessoa. Não escuto a voz dela, não há a sua presença física, e no entanto Dani está em todas as referências de vida que existem à minha volta. Está nas músicas que tocam no rádio das quais ela gostava, está na maneira de uma pessoa se vestir que ela apreciaria. à medida que o tempo passa, a idéia de morte vai ficando ainda mais cruel. A vida vai mudando e as pessoas que se foram já não estão presentes nesses novos acontecimentos. Daqui a pouco, outra moda virá, outros filmes estrearão e eu não saberei o que a Daniela acharia deles. Mas prometo que farei justiça à minha filha. Farei por ela agora o que fiz a vida inteira. Se você defendeu o seu filho em vida por que vai abandoná-lo depois de morto? Você tem de defendê-lo de uma forma ainda mais forte porque ele já não tem defesa nenhuma."


 
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