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9 de novembro de 1994
O milagre de amansar
o Leão
Uma lista da Receita mostra que os ricos
declaram que ganham pouco e pagam de imposto quatro vezes menos
do que deveriam
Daniela Mendes, de Brasília
Há no Brasil um milionário
para cada grupo de 326.000 cidadãos. São apenas 460
pessoas, menos que a platéia do Canecão em noite de
Roberto Carlos. Para entrar nessa seleção é
preciso ter um patrimônio pessoal mínimo de 19 milhões
de dólares. O patrimônio médio dos sócios
do clube fica na faixa de 58 milhões de dólares. No
topo da lista está Moyse Safra, um dos donos do banco que
leva seu sobrenome, com um patrimônio de 764 milhões
de dólares. Espalhado pelo país inteiro, preservando-se
no anonimato ou animando colunas sociais, esse pessoal nunca foi
reunido numa fotografia. Jamais passou junto um fim de semana. Para
juntar essas pessoas, foi necessária a ajuda da Receita Federal.
Em março deste ano, de olho em grandes
sonegadores, a Receita colocou de pé um plano vip chamado
Programa das Grandes Fortunas. Por meio de seus computadores, relacionou
todos os contribuintes que, ao longo de 1992, movimentaram pelo
menos 1 milhão de dólares em seus rendimentos. Tecnicamente,
quem movimenta 1 milhão de dólares é um milionário.
Nos computadores da Receita, apareceram 36.000 contribuintes fazendo
jus ao título de milionário. O Fisco queria mais,
queria chegar ao topo. Cruzando outros dados, conferindo rendimentos
e prestando atenção a números ainda mais graúdos,
chegou-se à lista dos 460 mais-mais do país. Ao lado
do nome e CPF, nessa lista constam, sobre cada um, o patrimônio,
a renda declarada, o volume de imposto pago na fonte e o rendimento
não tributável, entre outras informações.
PIB URUGUAIO - Na semana passada,
VEJA teve acesso a uma parte da lista dos 460 milionários.
O que se vê é de assustar. A lista mostra que, em 1992,
cada um dos membros do clube dos 460 embolsou em média oitenta
vezes mais que um cidadão de classe média, mas pagou
apenas onze vezes mais imposto. Juntos, eles detêm um patrimônio
avaliado em 26,7 bilhões de dólares, maior que a soma
dos PIBs do Uruguai, Paraguai e Bolívia. Ou 6% do PIB brasileiro.
Selecionando-se o topo do topo, isto é, os cinqüenta
mais ricos entre os 460, descobre-se que a fortuna deles, somada,
roça os 12 bilhões de dólares. Examinando quanto
pagam de imposto, descobre-se que deixaram uma ninharia para o Leão:
apenas 32,5 milhões de dólares. Enquanto a classe
média paga 1 real de imposto para cada 10 reais de patrimônio,
o clube dos 460 recolhe apenas 1 real para cada 821 de patrimônio.
É quase uma provocação. A Receita não
imagina que devessem pagar na mesma proporção que
a classe média. Mas ficaria muito satisfeita se os super-ricos
recolhessem pelo menos quatro vezes mais do que hoje em dia.
Os números analisados pelo Fisco
referem-se a uma parte relativamente modesta do total de impostos
arrecadados pela União. Eles dizem respeito às pessoas
físicas, responsáveis por 15,2% dos 85,5 bilhões
de dólares que a União deve receber de impostos em
1994. Só a Previdência responde por 27,6% do total
(veja gráfico abaixo). O grosso da sonegação,
desconfia a Receita, não está na fatia das pessoas
físicas. Está nas empresas que não recolhem
à Previdência e ao PIS, que burlam a Cofins, que não
pagam o IPI. Os 460 contribuintes do listão da Receita respondem
por 0,25% do total do quinhão do Leão. Num cálculo
conservador, a Receita estima que os 460 maiorais deveriam responder
por 1% do total dos impostos: é de 1% em 1% que o Leão
encheria o papo. Conseguir esse 1%, porém, é tarefa
para um batalhão de Leões. Seria preciso esmiuçar
declaração por declaração, fazer diligências,
chamar os 460 a prestar explicações. E as declarações
de renda deles não são feitas como as nossas, que
efetuamos os cálculos sozinhos, recorremos a um contador
amigo - geralmente o primo do vizinho da cunhada. As dos 460 são
feitas por especialistas em tributação.
"ESCÂNDALO" - "Tecnicamente,
na maioria dos casos, a declaração não é
errada, mas é um escândalo o que pagam em relação
ao patrimônio", diz o gerente de tributos da Trevisan
& Associados, Rubens Antônio Ribeiro, referindo-se aos
números da Receita que VEJA conseguiu. "Eles chegam
a desafiar o Fisco de maneira acintosa com os números apresentados
nas suas declarações", diz José Alves
da Fonseca, coordenador de arrecadação da Receita.
Da listagem, quatro em cada dez dos 460 endinheirados declararam
à Receita ter uma renda média mensal de 1.500 dólares.
Um em cada quinze teve mais coragem e disse ganhar 2.000 dólares
por mês. De cada oito, um aumentou o patrimônio sem
explicação lógica. Em metade desses casos,
o aumento patrimonial foi superior a 1 milhão de dólares.
Também ocorreu o contrário. O contribuinte cinco estrelas
recebeu uma bolada no ano de 1992, mas não comprou quase
nada e ninguém, além dele e seu contador, sabe onde
foi parar o dinheiro. Trezentos milionários declararam à
Receita que seus patrimônios não renderam 1 centavo.
"De maneira geral", conclui o
estudo da Receita, "verificou-se que os rendimentos recebidos
pelos 460 contribuintes eram de valor compatível com os percebidos
pelas pessoas de classe média." A Receita encontrou
motivos para suspeitar da declaração de um de cada
seis milionários e, desde maio, despachou cartas padrão
convocando-os a dar explicações. Houve quem, pelo
excesso de suspeitas, recebesse os seis tipos existentes de carta,
um para cada irregularidade.
Parte do material, relacionando dezoito
nomes, foi entregue ao deputado federal José Genoíno
(PT-SP) por um técnico da Receita do Rio de Janeiro. Logo
depois das eleições, Genoíno disse ao presidente
da Comissão de Economia da Câmara, Miro Teixeira (PDT-RJ),
que receberia uma lista com o imposto dos tubarões. Na quinta-feira,
de posse dos documentos, telefonou para Miro e, no dia seguinte,
os dois viajaram para Brasília. Genoíno fez a entrega
formal dos papéis a Miro e este despachou cópias para
o senador Ronan Tito (PMDB-MG), presidente da CPI da evasão
fiscal, e para a presidência da Câmara dos Deputados,
acompanhadas de um requerimento de informações à
Receita Federal. "Não cabe a mim emitir juízo
de valor, mas não podia deixar de encaminhar tais documentos
sob pena de cometer omissão grave", escreveu Genoíno
no documento que encabeçava os papéis. "Enquanto
os tubarões não pagarem imposto, não se pode
pensar em solução para o problema social brasileiro",
diz Miro. "A realidade do Rio de Janeiro, onde moram alguns
desses tubarões, exige investimentos que o governo federal
não produz por conta da sonegação."
Há casos surpreendentes, como o
do empresário capixaba Camilo Cola, dono da empresa de ônibus
Itapemirim. Ainda que seja dono de um patrimônio de 154 milhões
de dólares, os números da Receita indicam uma renda
mensal de 7.000. Como seu patrimônio aumentou em 54.000 dólares
de 1991 para 1992, só sobraram 2.500 por mês para tocar
a vida. É difícil que tenha conseguido. O deputado
federal eleito Wigberto Tartuce (PTB-DF), cujo patrimônio
é de 19 milhões de dólares, pagou apenas 2.100
dólares de imposto, menos do que um engenheiro iniciante
que trabalha em sua construtora. O investidor Mário Slerca
Júnior, por sua vez, ganhou 5,4 milhões de dólares
no mercado financeiro, mas seu patrimônio só cresceu
170.000. "Baseado no que eu via na declaração
de bens dessa gente, acho que deveriam se credenciar a receber uma
cesta básica do Betinho", diz o ex-secretário
da Receita Osiris Lopes Filho, que idealizou o trabalho.
É evidente que um empresário
do porte de Cecílio do Rego Almeida não pode manter
seu padrão de vida com um rendimento mensal de 8.000 dólares.
Ou que um empresário como Olavo Monteiro de Carvalho, com
uma renda mensal declarada de 35.000 dólares, ou mais que
1.000 dólares por dia, deveria dar um pouco mais ao Leão.
"Concordo que deveria pagar mais, mas não posso fazer
nada diante de uma legislação falha em relação
às grandes fortunas", diz Monteiro de Carvalho, um dos
poucos a reconhecer que paga pouco. No empresariado, a grita contra
os impostos é geral. A postura disseminada é que,
com tantos impostos, é quase inviável tocar as empresas.
Engano.
A prova está na lista da Receita:
Silvio Santos. O dono do SBT saiu do nada, foi camelô, radialista,
apresentador da Globo e construiu um império. O grupo Silvio
Santos, com 26 empresas e 5.000 funcionários, faturou 215
milhões de dólares em 1991. O SBT, também de
Silvio Santos, com 74 emissoras e 1.800 funcionários, teve
um faturamento de 54,4 milhões de dólares. Pois Silvio
Santos pagou mais de 6 milhões de dólares em 1992.
Sua declaração de renda foi esmiuçada pela
Receita, que a considerou um primor de correção. Silvio
Santos é a pessoa física que mais paga imposto no
país, apesar de não ser a mais rica (veja quadro à
pág. 107). "A filosofia do Silvio é fazer tudo
absolutamente dentro da lei", diz Luis Sandoval, diretor do
grupo e responsável pela declaração de renda
do empresário. "Podemos ser chamados de bobos por não
usarmos alguns artifícios legais, mas preferimos pagar tudo
direitinho", completa Sandoval, que não viu nenhum problema
em apresentar a VEJA a declaração de renda de Silvio
Santos e corrigir os dados que constam na lista da Receita. Os irmãos
Moyse e Joseph Safra, em anos anteriores, também foram campeões
no pagamento de impostos. A pergunta, inescapável, é
a seguinte: se Silvio Santos e os Safra pagam impostos de renda
astronômicos e ficam cada vez mais ricos, por que outros milionários
usam toda sorte de artifício para escapar do Leão?
PARLAMENTARES E JOGADORES - O Grandes Fortunas
é um dos programas iniciados por Osiris Silva com o objetivo
de gerar mais Silvios Santos. Faz parte desse programa uma lista
com os catorze maiores banqueiros do país. Outra investiga
os 300 donos de iates que ou omitiram ter o bem ou declararam ganhos
insuficientes para comprá-los. Há outros programas
que estudam os parlamentares brasileiros e jogadores de futebol.
Quem já viu o levantamento sobre o imposto de renda de 1992
dos deputados e senadores diz que é muito, mas muito mais
escandaloso do que o dos empresários. Entre outros parlamentares,
três estão na mira do Fisco. São eles os deputados
Paulo Octávio (PRN-DF), Flávio Rocha (PL-RN) e Sérgio
Naya (PP-MG). O trabalho sobre os jogadores de futebol já
concluiu que apenas quarenta atletas sonegaram 6 milhões
de dólares em 1992. Os três programas integram a chamada
Operação Vip.
A esmagadora maioria dos 36.000 listados
pela Receita vive por conta da empresa através dos chamados
fringe benefits, expressão chique para os privilégios
dos donos das empresas e seus executivos. Um alto executivo brasileiro
vai a Nova York com a família em viagem de férias,
hospeda-se num hotel cinco estrelas, janta nos melhores restaurantes
e paga as contas com o cartão de crédito que a empresa
lhe dá. Quando volta ao Brasil, entrega as notas fiscais
à secretária e o material é anexado às
despesas dedutíveis do imposto de renda. Em seguida, vai
ao dentista, a mulher comparece ao ginecologista e os filhos voltam
à escola. Resolve também fazer um curso de alemão
preparando-se para a próxima viagem à Europa. Ao final
do mês, repete a operação. Entrega as notas
fiscais à secretária e tudo vira despesa da empresa.
Se o executivo recebesse no contracheque
o dinheiro gasto no parágrafo anterior, pagaria muito mais
de imposto de renda, e a empresa teria de recolher outro tanto ao
INSS. Além disso, sem aquelas despesas, a empresa teria um
lucro maior e, portanto, também pagaria mais imposto de renda.
Da forma como funciona hoje, as duas partes ficam dispensadas de
parte da carga tributária. A Previdência e a Receita
Federal, por sua vez, perdem com isso 60 centavos a cada vez que
uma empresa gasta 1 real de fringe. "O dono da empresa abate
seu aluguel, seu carro, sua criadagem, o chofer e quando precisa
de 50.000 reais para dar um presente à amante pede ao contador,
que arruma uma nota fiscal de despesa", diz o ex-secretário
Osiris Silva. "Como ele controla a empresa, pode pintar e bordar."
DOAÇÕES - A sucessão
de truques tem amparo na legislação, o que permite
ao clube dos 460 viver longe do mundo do pequeno sonegador de classe
média, que manipula recibos de médicos, dentistas
ou declara como dependentes pessoas que não são da
família. O clube dos 460 joga mais pesado. Boa parte deles
descarrega rendimentos na rubrica "rendimentos não tributáveis".
Ou seja, doações, heranças e bonificações
na forma de ações de uma empresa. Chamou a atenção
da Receita um alto índice de doações que alguns
empresários disseram ter recebido de terceiros. Os técnicos
não entenderam como um megaempresário tem a coragem
de declarar ter recebido doações. Fuçando,
descobriram um caso absurdo. Um empresário disse ter recebido
da empresa dividendos no valor de 10 milhões de dólares.
A Receita foi checar na empresa e não havia registro do pagamento.
Nos Estados Unidos, a herança só é isenta de
impostos até o teto de 1 milhão de dólares.
Acima disso, 55% da herança vai para o Fisco. O pessoal de
cima chia, mas o legislador teve como objetivo evitar a formação
de uma casta de herdeiros multimilionários.
No Brasil, há quem se enrole na
bandeira da economia liberal para falar mal da carga tributária
brasileira e reclamar da Receita. Em dezembro de 1992, a Fiesp procurou
o presidente Itamar Franco e pediu tolerância com os colegas
que tinham imposto atrasado. Em fevereiro deste ano, liderados por
Carlos Eduardo Moreira Ferreira, presidente da entidade, um grupo
de empresários fez uma manifestação em São
Paulo contra o aumento dos impostos e queimou livros fiscais. Gostam
de dizer que não dá para trabalhar com 58 impostos,
mas sabem que isso é mais que discutível. Os impostos
que importam são apenas nove, um deles o IPMF, que acaba
em dezembro deste ano. Entre os outros estão a taxa que se
paga para tirar passaporte e a taxa de classificação
de produtos vegetais, por exemplo, que arrecada menos de 2 reais
por mês no país todo. Ou o imposto territorial rural
pago pelos fazendeiros, que, no país inteiro, não
chega a recolher 30 milhões de reais por ano.
O estudo do coordenador da Receita, José
Alves da Fonseca, mostra que, para cada real arrecadado de PIS,
30 centavos deixam de ser recolhidos. No IPI, deixam de entrar 60
centavos a cada real que viaja para Brasília. No caso do
imposto de renda das empresas, a relação é
de 1,40 para cada real arrecadado. Uma olhadela sobre o que ocorreu
nas três semanas em que se cobrou IPMF no final do ano passado
é suficiente para constatar que há fortunas rendendo
dividendos sem gerar impostos. Segundo a Receita, o contribuinte
que mais movimentou dinheiro por suas contas declarou-se isento
do imposto de renda. De cada dez contribuintes que movimentaram
1 milhão de dólares em suas contas correntes, quatro
só haviam procurado a Receita uma vez - para tirar o CPF.
O maior proprietário de terras do país, Pedro Aparecido
Dotto, dono de 2,1 milhões de hectares no Acre, área
equivalente a um país como El Salvador, paga tanto imposto
quanto um metalúrgico do ABC.
A BUTIQUE DELA - Em abril deste
ano, a socialite Letícia Monteiro de Carvalho, neta de Joaquim
Monteiro de Carvalho, prima de Lilibeth, a ex-mulher de Fernando
Collor, foi multada depois que resolveu abrir uma butique em área
residencial do Rio de Janeiro, sem pagar imposto, sem licença
ou alvará. Ao ser aberta, a butique Sozzia ganhou festa no
casarão da família em Santa Tereza, mas fechou as
portas depois do comportamento de camelô adotado pela dona.
Também tiveram butiques fechadas Cristina McCortney, neta
do dono do Banco Nacional, Magalhães Pinto, e Ana Lúcia
França, mulher de Hélio França, gigante do
comércio exterior. Tiveram de encerrar o negócio ao
pensar que nota fiscal e livro de contabilidade eram coisas de gentinha.
Em Búzios, a modelo Luiza Brunet foi multada em 140.000 dólares
porque sua butique preferia guardar as notas fiscais na gaveta em
vez de emiti-las. Reclamou de perseguição. De fato,
ao procurá-la a Receita perseguia sonegação.
No Brasil, se os grandes empresários
pagam pouco imposto, os pequenos quase não pagam. Para ter
uma idéia, as 30.000 maiores empresas do país, e há
mais de 2 milhões em solo nacional, são responsáveis
pelo recolhimento de 89% do IOF, 82% do IPI e 76% do IRPJ. Na média,
essas 30.000 empresas pagam 74% dos impostos federais. Somente as
370 maiores pagam 50% da Cofins e as 160 maiores, 50% do IRPJ. O
grau de sonegação entre as pequenas e médias
é tamanho que, em 2.609 municípios brasileiros, a
arrecadação global da Receita é de 10.000 reais.
A experiência ensina que não
se pode esperar que o contribuinte resolva pagar seus impostos porque
acredita no Estado. É preciso ir buscar. Com 25.000 fiscais,
sendo 2.500 de uma tropa de elite, com o Fisco americano ninguém
brinca. Num dos casos mais recentes, o Leão americano leiloou
uma fazenda com campo de golfe e outras 22 propriedades do cantor
de música country Willie Nelson. O cantor deixara de pagar
32 milhões de dólares em impostos sobre suas propriedades.
O caso mais notório é o da milionária Leona
Helmsley, dona do edifício Empire State e de uma cadeia de
hotéis. Em 1992, Leona foi condenada a quatro anos de cadeia
e a pagar uma multa de 7 milhões de dólares depois
que usou 4 milhões das empresas na reforma de uma casa de
campo e disse à camareira que "pagar imposto era coisa
de pobre".
ATRÁS DAS GRADES - Em 1993, 3.000
americanos foram a julgamento nos Estados Unidos devido a alguma
violação do código tributário, 2.200
foram parar na cadeia. Na Itália, o imposto passou a ser
levado mais a sério depois que a atriz Sophia Loren foi presa
em Nápoles por evasão fiscal. Na Alemanha, não
há crime que mande alguém mais rápido para
a cadeia do que a sonegação. Com alíquotas
altas, variando de 20% a 55% (no Brasil variam de 15% a 35%), qualquer
riqueza visível é imediatamente taxada. Lá,
basta o fiscal usar alguns argumentos sólidos junto a um
promotor e, em poucas horas, consegue uma autorização
para investigar. Em menos de um dia o Fisco tem um quadro completo
de todas as movimentações bancárias do suspeito
nos últimos dois anos.
Em geral, a Receita não consegue
mandar para a cadeia quem sonega imposto de renda. Com outros tributos,
é menos raro. Em julho do ano passado, os irmãos Celso,
Célio e Sullivan Covre foram pegos pela Receita em Brasília
por sonegar PIS, Finsocial e reter o imposto de renda descontado
dos funcionários da Atacadista Santa Terezinha. Devem 2 milhões
de dólares e terão seus bens leiloados para cobrir
a dívida. Em abril deste ano, o empresário Hayao Kawasaki,
sócio de uma importadora em Ribeirão Preto, também
foi parar atrás das grades por sonegação do
IPI. Em Joinville, Luiz Batschauer, diretor-presidente da Cipla,
empresa de tubos e conexões, também viu o sol nascer
quadrado. A Cipla recolheu todos os impostos devidos, mas não
os repassou à Receita e à Previdência. Segundo
a Procuradoria da República no Estado, os débitos
da Cipla ultrapassam 50 milhões de dólares. Todos
já foram soltos.
Quando é apanhado pela Receita,
o contribuinte é informado de que está sob investigação
e se vê obrigado a fornecer todas as informações
solicitadas, tais como contas de telefone, extratos de contas correntes,
despesas com cartões de crédito, documentos de compra
e venda de imóveis, carros e barcos. Tem de agüentar
uma dupla de fiscais por até seis meses perguntando, perguntando,
perguntando - até que toma a multa. Um grande empresário
paulista, dono de uma rede nacional de supermercados passou a tomar
Lexotan depois de ter sido pego pelo Leão. Noutro caso, o
sonegador em potencial chorou e apelou para a compaixão dos
fiscais. A iniciativa, contudo, rende frutos. Depois de terem mandado
as cartas para os empresários reclamando do imposto de renda
de 1992, os técnicos da Receita constataram que os destinatários
das correspondências entregaram as declarações
de 1994, referentes a 1993, com pagamentos mais generosos. Em alguns
casos, o recolhimento de impostos cresceu até 60%.
SIMBA - O Leão brasileiro
é manso diante de hienas astutas porque é pequeno
e doce como Simba, o filhote órfão do desenho animado
Rei Leão. Com 5.500 fiscais, dos quais 2.000 cuidam do controle
aduaneiro, a Receita brasileira é uma máquina pequena
e precária. São quatro vezes menos fiscais que os
Estados Unidos, dez vezes menos do que o Canadá e dezoito
vezes menos que a Inglaterra. Só no porto de Hamburgo, na
Alemanha, há mais fiscais do que em todo o território
brasileiro. Um dos concursos para a contratação de
2.000 fiscais abertos pela Receita recentemente acabou embargado
por suspeitas de maracutaias. O resultado é que a carga tributária
brasileira equivale a 25% do PIB. Nos Estados Unidos a carga é
de 30%, na Grã-Bretanha, de 39%, e, na França, 44,2%.
Como Simba, o Leão brasileiro teria de receber muito mais
verbas, computadores e autoridade para poder transformar-se em Mufasa,
o leãozaço do desenho dos estúdios de Walt
Disney. Essa transformação depende, em muito, da vontade
política do presidente em arrecadar mais, comprando brigas
com os sonegadores.
Outra diferença entre o Brasil e
os países evoluídos na fiscalização
é que, aqui, a burocracia faz com que o andamento dos processos
seja emperrado e jogue a favor do sonegador. Na esfera administrativa
do Ministério da Fazenda, um processo pode levar até
oito anos. Só então é mandado para a Procuradoria
Geral da República, onde manda Aristides Junqueira. Cerca
de 120.000 processos estão em andamento na instância
administrativa, referentes a pessoas físicas e jurídicas.
Representam uma dívida de 30 bilhões de dólares.
Nem o novo presidente, Fernando Henrique Cardoso, deve ver a cor
desse dinheiro até o final de seu mandato. "Mesmo que
encontre a fraude, o sonegador tem um longo caminho e muitas possibilidades
de se safar de um processo", diz o ex-secretário da
Receita Antonio Carlos Monteiro, antecessor de Osiris no cargo.
MUAMBA E PC - A última vez que os
brasileiros prestaram atenção à Receita fora
do período de entrega da declaração foi na
muamba do tetra. No desfile alegórico, o secretário
Osires Lopes Filho exigiu que a bagagem fosse revistada, acabou
esnobado pelos escrúpulos de Rubens Ricupero e perdeu o posto.
Osiris só não se tornou um morto-vivo por causa da
indignação com o privilégio oferecido aos tetracampeões
do mundo. Mas a simples cronologia de sua queda informa que ele
poderia estar predestinado a ser expelido da Receita. Osiris vinha
sendo alvejado no cargo desde que resolveu deslanchar o Programa
Grandes Fortunas, que deu início a murmúrios que logo
se transformaram em gritarias para desmoralizá-lo. Na semana
passada, ocorreu um lance nos bastidores da Receita que merece talvez
mais atenção do que as bugigangas do Galeão.
O sucessor de Osires, Sálvio Medeiros Costa, decidiu demitir
a delegada Rosa Soares Defensor, titular da delegacia da Zona Sul
de São Paulo.
Rosa Soares Defensor, até a semana
passada, trabalhava num prédio nas vizinhanças da
Avenida Paulista e comandava a fiscalização sobre
vinte integrantes do clube dos 460, entre eles Abilio Diniz. Sua
demissão já foi levada ao ministro Ciro Gomes, que
a aprovou e espera apenas a assinatura do secretário executivo
do ministério, Clóvis Carvalho. Ciro Gomes refere-se
ao episódio como "apenas" uma troca de funcionário.
"Não é problema meu", diz, como se fosse
o ministro da Educação e não o da Fazenda,
ministério ao qual a Receita está subordinada.
Na sexta-feira, a cúpula da Receita
tinha outro problema para administrar. Um caso de corrupção,
envolvendo um coordenador de fiscalização e dois fiscais
no Rio de Janeiro. Existe uma fita em que os três teriam conversado
sobre dinheiro, e a suspeita é de que seja uma prova de que
recebiam propinas. Nos últimos meses, Itamar assinou a demissão
de dez fiscais corruptos. É ótimo que o governo se
preocupe em livrar-se de maus funcionários, que fraudam o
contribuinte e desmoralizam o Leão. Mas há que reconhecer
que chegou a hora de olhar de perto os sonegadores. Quando o assunto
é imposto de renda, a sonegação só tem
um preso no Brasil de hoje. É ele mesmo, PC Farias. Se for
preciso promover um impeachment de presidente toda vez que se tornar
necessário colocar um sonegador de imposto de renda na cadeia,
é porque existe uma vasta estrutura disposta a evitar o aumento
da arrecadação. o
O rei da noite
Em 1992, o empresário Olacyr de
Moraes, da empreiteira Constran, do banco Itamarati e o maior produtor
individual de soja do mundo, pagou 114.756 dólares ao Leão.
Ele mesmo faz questão de mostrar suas contas, que informam
que sua principal fonte de renda pessoal são dividendos gerados
por suas 42 empresas. Sobre 1 milhão de dólares em
dividendos que recebeu foram recolhidos 8% de imposto de renda.
Antes de remunerar seu proprietário, as empresas pagaram
um imposto sobre o lucro, de 40%. Se em vez de dividendos ele ganhasse
salários, o IR seria de 25% e não de 8%. "Há
dois anos fazia uma retirada de 120.000 dólares mensais.
Para uma pessoa como eu, na minha idade, vivendo sozinho, é
mais do que suficiente." Olacyr separou-se da mulher em 1992
e, a partir de então, trocou o título de rei da soja
pelo de rei da noite. De lá para cá, vive cercado
de mulheres bonitas. Viaja bastante, freqüenta festas animadas
e mantém a forma em pistas de dança. "Com as
mulheres gasto o equivalente a um trator por mês", disse
certa vez. Um trator médio custa 35.000 dólares. Para
quem tem cacife para gastar 4.000 dólares por dia, não
chega a ser um absurdo.
Patrimônio: 52 milhões
de dólares em 1992. Caiu 1.000 dólares em relação
ao ano anterior
Renda mensal estimada: 120.000 dólares
Imposto pago no ano: 120.000 dólares
Nota 10
O empresário Silvio Santos é
um herói da Receita. Segundo sua declaração
de imposto de renda, em 1992, pagou 6,6 milhões de dólares
ao Fisco, quantia que o colocou em primeiro lugar na lista dos grandes
contribuintes. É uma bolada só comparável a
seu rendimento anual como pessoa física, mais de 20 milhões
de dólares. A renda de Silvio Santos não vem de dividendos
dos seus negócios. Através de contratos, Silvio recebe
pelos serviços que presta às suas empresas. Na TV,
recebe como apresentador do programa de domingo. No Baú da
Felicidade e na Liderança, a remuneração de
um divulgador.
Silvio Santos foi investigado pela Receita
em 1992 em função de um acidente nos negócios.
Ele vendeu a TV Corcovado para o empresário paranaense José
Carlos Martinez, dono da Rede OM de Televisão. Parte do pagamento
foi feita com um cheque fantasma do esquema PC, e por essa razão
os fiscais resolveram estacionar no SBT para conferir a contabilidade.
Após uma auditoria exaustiva, não se descobriu nenhuma
irregularidade. Em vez de aplicar multa, a Receita terminou por
cumprimentá-lo. Em 1990, seu patrimônio era de 4 milhões
de dólares. No ano passado, de 46 milhões de dólares.
Nem tudo representou, no entanto, um crescimento real. Seus bens,
como o de todo brasileiro, foram atualizados em Ufir para efeito
de imposto de renda.
Patrimônio: 33 milhões
de dólares em 1992. Cresceu 24 milhões de dólares
em relação ao ano anterior
Renda mensal estimada: 2 milhões de dólares
Imposto pago no ano: 6,6 milhões de dólares
Um ano fraco
O empresário Olavo Egydio Monteiro
de Carvalho, presidente do grupo Monteiro Aranha, não contestou
os números de sua declaração de renda. Olavo,
que recebeu seu patrimônio de herança, tem duas fontes
de renda pessoal: salários e, principalmente, dividendos
pagos pelas empresas do grupo. Diz que não pagou mais impostos
em 1992 porque os negócios não andaram bem. "O
grupo não distribuiu dividendos por causa de prejuízos",
conta ele. Foi esse também o motivo que fez seu patrimônio
encolher. "Fui forçado a vender alguns ativos pessoais",
afirma. Monteiro de Carvalho reconhece que deveria pagar mais impostos
como pessoa física: "Não posso ser responsabilizado
se a legislação brasileira é falha na cobrança
de impostos sobre o patrimônio", diz o empresário,
dono de um apartamento em Paris, uma casa no sul da França
e uma ilha no Rio de Janeiro.
Patrimônio: 36 milhões
de dólares em 1992. Caiu 180.000 dólares em relação
ao ano anterior
Renda mensal estimada: 35.000 dólares
Imposto pago no ano: 72.500 dólares
"Gastei mais"
O empreiteiro Cecílio do Rego Almeida,
64 anos, acumulou números estranhos em seu imposto de renda.
Um dos homens mais ricos do país, com um patrimônio
pessoal de mais de meio bilhão de dólares, C.R., como
gosta de ser chamado, pagou apenas 15.500 dólares de imposto
de renda em 1992. A partir desse dado, pode-se deduzir que C.R.
passou aquele ano com uma renda mensal de 8.000 dólares.
O empreiteiro, dono da Construtora C.R. Almeida, é o primeiro
a reconhecer que esses números, que constam da declaração
de renda que ele apresentou ao Fisco, não correspondem à
realidade. "É óbvio que gastei mais do que isso
em 1992. Trabalho há mais de cinqüenta anos e é
lógico que acumulei muito dinheiro, que hoje estou gastando",
diz.
No ano de 1992, apenas na celebração
de seu segundo casamento, com a publicitária ângela
Brandão, C.R. pode ter consumido mais dólares do que
os que constam em sua declaração de renda. Só
entre o aluguel do salão nobre do Hotel Maksoud Plaza, em
São Paulo, e o fretamento de um Boeing 737-300 da Vasp para
trazer de Curitiba seus convidados, o empreiteiro gastou 20.000
dólares. A conta se completa com a gastança em comes
e bebes e com a viagem de lua-de-mel de 35 dias pela Europa.
Patrimônio: 515 milhões
de dólares em 1992. Caiu 55.000 dólares em relação
ao ano anterior
Renda mensal estimada: 8.000 dólares
Imposto pago no ano: 15.500 dólares
Com salário
O empresário Abílio Diniz
é dono do grupo Pão de Açúcar, segunda
maior rede de supermercados do país, atrás apenas
do Carrefour. Faturou 1,5 bilhão de dólares no ano
passado. Na lista da Receita, o empresário aparece com um
patrimônio de 23 milhões de dólares em 1992
e sua renda, segundo se calcula a partir dos dados tributários,
chegou a 55.000 dólares por mês. É um dos poucos
empresários do país que vivem do salário da
empresa, e não dos dividendos. A desvantagem do salário
é que o imposto é maior. Em 1992, Diniz pagou 126.000
dólares ao Fisco. Recebeu 17.000 dólares mensais da
empresa, e só alcançou renda de 55.000 dólares
através da redução de seu patrimônio,
que caiu 230.000 dólares de 1991 para o ano seguinte. Curioso,
no caso, é que, aparentemente, Diniz diminuiu seu patrimônio
para bancar despesas pessoais corriqueiras.
Com base nas informações
da Receita, a Trevisan & Associados aponta duas possibilidades
para explicar esse quadro. Ou o empresário queria ficar mais
pobre aos olhos do Fisco, ou seus negócios iam tão
mal a ponto de não lhe render um salário suficiente
para o seu padrão de vida. Em 1992, ano do patrimônio
caindo, o empresário manteve-se fiel à elegância.
Encomendou, de uma só vez, ao alfaiate Augusto Panzica, que
costura para a família há duas décadas, 24
ternos de gabardina, lã e tropical importados, num pacote
que lhe custou 28.800 dólares, um pouco mais da metade do
salário de um mês. Na semana passada, aficionado por
esportes, Diniz estava em Nova York para participar de uma tradicional
maratona da cidade.
Patrimônio: 23 milhões
de dólares em 1992. Caiu 230.000 dólares em relação
ao ano anterior
Renda mensal estimada: 55.000 dólares
Imposto pago no ano: 126.000 dólares
Ganhos mágicos
O empresário Wigberto Tartuce, eleito
deputado federal por Brasília, ganhou apenas 1.500 dólares
mensais em 1992, segundo declarou à Receita. Com uma renda
tão minguada, ele mantinha uma casa de 3.000 metros quadrados
de área construída e 63 cômodos, no valor de
6 milhões de dólares, com onze carros na garagem:
uma Mercedes, duas vans americanas, um Cadillac, um Camaro, uma
Lumina, dois Escort, uma picape F-1000 cabine dupla e um buggy.
Naquele ano, Tartuce e a família viajaram quatro vezes ao
exterior. "É um caso clássico de sonegação",
diz Rubens Ribeiro, da Trevisan & Associados. "É
óbvio que seus gastos pessoais são lançados
como despesas operacionais das suas empresas. Assim, o que é
renda vira despesa e não paga imposto."
Patrimônio: 19 milhões
de dólares em 1992. Caiu 13.000 dólares em relação
ao ano anterior
Renda mensal estimada: 2.500 dólares
Imposto pago no ano: 2.100 dólares
De dividendos
O engenheiro Pedro Paulo de Souza, dono
da Encol e de uma fortuna pessoal de 230 milhões de dólares,
declarou ter recebido em 1992 apenas 3.000 dólares mensais
de rendimentos. "Meu pró-labore é pequeno, meus
dividendos é que dão suporte às minhas despesas",
afirma Pedro Paulo. Com isso, estima-se que sua renda mensal tenha
batido em 100 000 dólares. É uma artimanha comum e
esperta. Quem recebe salário, ou pró-labore, paga
mais imposto do que quem vive de dividendos. Em 1992, Pedro Paulo
recebeu da Encol 600.000 dólares em forma de bonificações
que, pela lei, são isentas de imposto. Aplicou o dinheiro
no mercado financeiro e pagou, sobre o lucro, 510.000 dólares
de imposto na fonte.
Patrimônio: 230 milhões
de dólares em 1992. Cresceu 250.000 dólares em relação
ao ano anterior
Renda mensal estimada: 120.000 dólares
Imposto pago no ano: 520.000 dólares
Baixa renda
Dono de 28 empresas, cujo carro-chefe é
a Itapemirim, maior companhia de ônibus do país, o
capixaba Camilo Cola é discreto. Mora no Espírito
Santo, ao lado da empresa. Só viaja a negócios, em
seu próprio avião. Pela declaração de
renda, descobre-se que o patrimônio de Cola valia 154 milhões
de dólares em 1992. O curioso é que ele pagou imposto
equivalente a uma renda mensal de 7.000 dólares. "O
que ganho invisto na empresa", explica.
Patrimônio: 154 milhões
de dólares em 1992. Cresceu 54.000 dólares em relação
ao ano anterior
Renda mensal estimada: 7.000 dólares
Imposto pago no ano: 26.000 dólares
Ruim no banco
Ângelo Calmon de Sá teve em
1992 um ano ruim para o banqueiro e esplendoroso para o cidadão.
Dono do grupo Econômico, Calmon de Sá viu seu patrimônio
cair 2.000 dólares - uma insignificância num patrimônio
de 93 milhões de dólares. Mas, com base nos dados
oficiais da Receita, um tributarista consultado por VEJA calcula
que sua renda mensal foi um estrondo, de 150.000 dólares.
"Não chegou a tanto", diz o banqueiro, ex-ministro
de Fernando Collor. "Aliás, não recebi nada do
banco quando fui ministro." A renda pode ter sido essa mesma.
Ou então Calmon de Sá seria um raríssimo tipo
de contribuinte que paga mais imposto do que deve. Se pagou 420.000
dólares, é porque recebeu 1,7 milhão de dólares.
É uma bolada. Mas ele ganhou mais ainda. Em rendimentos livres
do imposto, embolsou 590.000 dólares.
Patrimônio: 93 milhões
de dólares em 1992. Caiu 2.000 dólares em relação
ao ano anterior
Renda mensal estimada: 150.000 dólares
Imposto pago no ano: 420.000 dólares
Jogos na bolsa
O advogado carioca Mário Slerca
Junior, 59 anos, um famoso jogador das bolsas de valores, recebeu
1.912 dólares de salário mensal durante 1992, segundo
dados da Receita Federal. Sobre eles pagou, no ano todo, 600 dólares
de imposto - menos do que um professor de 2º grau. Ocorre que
Slerca possui um patrimônio declarado de 20 milhões
de dólares e pagou 1,8 milhão de dólares de
imposto sobre ganhos obtidos na bolsa de valores. Por lei, esse
imposto é de 25%. Ou seja, em 1992, Slerca ganhou, já
descontado o imposto, 5,4 milhões de dólares. Mas
na declaração de renda seu patrimônio aumentou
somente 170.000 dólares. Onde foi parar o resto do dinheiro?
Existem duas hipóteses: ou Slerca torrou 5 milhões
de dólares em despesas pessoais ou mandou tudo para fora
do país.
Patrimônio: 20 milhões
de dólares em 1992. Cresceu 170.000 dólares em relação
ao ano anterior
Renda mensal estimada: 450.000 dólares
Imposto pago no ano: 1,8 milhão de dólares
Maus negócios
O engenheiro Carlos Fernando Carvalho,
70 anos, tem uma fortuna pessoal de 520 milhões de dólares,
mas em 1993 pagou apenas 45.000 dólares de imposto. "E
paguei muito", diz ele. "Meu patrimônio está
em ações de minhas empresas imobiliárias, que
têm tido prejuízos desde 1989." Pelos dados da
Receita, seu patrimônio diminuiu 490.000 dólares. "Redução
do patrimônio é um sinal de que algum bem foi vendido",
diz o consultor da Trevisan. "Esse dinheiro não aparece
para o Fisco."
Patrimônio: 520 milhões
de dólares em 1992. Caiu 490.000 dólares em relação
ao ano anterior
Renda mensal estimada: 55.000 dólares
Imposto pago no ano: 45.000 dólares
Vida confortável
O empreiteiro Walduck Wanderley é
dono da construtora Cowan, com sede em Minas Gerais, empresa que
fatura 156 milhões de dólares por ano. Em 1992, Walduck
recebeu 1.500 dólares por administrar a empresa. Foi tão
pouco que ficou isento de pagar imposto na declaração.
Mas o empreiteiro viveu com uma renda mensal de 190.000 dólares,
derivada de seu patrimônio, de 117 milhões de dólares,
e de suas aplicações no mercado financeiro e de ações.
Por esses investimentos, pagou 840.000 dólares de imposto
na fonte. Segundo técnicos da Trevisan & Associados,
o empreiteiro está tecnicamente em dia com o Fisco.
Walduck vive muito bem. Tem duas filhas,
é separado da mulher há dez anos e mora num apartamento
de 4.000 metros quadrados em Belo Horizonte, com quadra de esportes,
sauna e piscina térmica. Há três meses ele quase
demoliu o apartamento, que vale 600.000 dólares, para uma
reforma. Entre outras coisas, montou um bar e transformou um dos
quartos num enorme banheiro, com piso de mármore italiano.
Quando viaja, usa um dos jatinhos de sua empresa de táxi
aéreo.
Ficaram célebres em Belo Horizonte
as festas de casamento de suas filhas. Em junho de 1991, no casamento
da filha mais velha, Ana Cristina, Walduck mandou construir uma
capela de 800 metros quadrados e recheou a igrejinha com orquídeas.
Estima-se que ele gastou no mínimo 150.000 dólares
nessa festa. Ou seja, quase todo o rendimento de um mês.
Patrimônio: 117 milhões
de dólares em 1992. Cresceu 200.000 dólares em relação
ao ano anterior
Renda mensal estimada: 200.000 dólares
Imposto pago no ano: 840.000 dólares
O irmão pobre
Senador pelo Amapá em fim de mandato,
Henrique Rego Almeida é irmão de Cecílio do
Rego Almeida e sócio dele na construtora C.R. Almeida. Na
empresa, Cecílio tem 51% das ações e Henrique,
26%. Seu patrimônio também é menor: 215 milhões
de dólares, enquanto o irmão tem 515 milhões.
Os dados da Receita mostram que Henrique declarou uma renda de apenas
10.000 dólares mensais em 1992 - pequena se confrontada com
seu patrimônio. Ainda mais se sabendo que, como senador, ele
recebia um salário de pelo menos 3.000 dólares por
mês, livres de impostos. Henrique vive numa casa com quadra
de esportes e piscina, no requintado bairro de Champagnat, em Curitiba,
avaliada em 1,5 milhão de dólares.
Patrimônio: 215 milhões
de dólares em 1992. Caiu 43.000 dólares em relação
ao ano anterior
Renda mensal estimada: 10.000 dólares
Imposto pago no ano: 14.000 dólares
O pequenino
O empresário capixaba e senador
da República Jonice Siqueira Tristão comanda um grupo
de empresas com sede em Nova York, uma indústria de torrefação
em Vitória, Espírito Santo, e uma empresa de exportação
do café solúvel Realcafé. Em 1992, seu patrimônio
pessoal era de 36 milhões de dólares. Segundo cálculos
feitos para VEJA pela Trevisan & Associados, sua renda mensal
foi de 150.000 dólares em 1992. Esse dinheiro lhe permite
cruzar as ruas do Rio de Janeiro a bordo de um Mercedão e
pedir aos amigos da Varig que o abasteçam de caviar londrino.
Vai tanto ao exterior que desde janeiro já ficou afastado
do Senado por 97 dias. Na semana passada, estava no Japão.
Tristão é um grandalhão nos negócios,
mas pequenino na hora de pagar impostos. Segundo dados oficiais
da Receita, como pessoa física, Tristão pagou apenas
17.300 dólares ao Leão.
Patrimônio: 36 milhões
de dólares em 1992. Caiu 1,6 milhão de dólares
em relação ao ano anterior
Renda mensal estimada: 150.000 dólares
Imposto pago no ano: 17.300 dólares
Atrás do lucro
O empresário Mário Bussab,
77 anos, concorre simultaneamente aos troféus de o maior
ganhador e o maior gastador do mundo. Segundo os dados da Receita
Federal, analisados por três consultores tributários,
seu rendimento líquido em 1992 foi de nada menos que 725
milhões de dólares. Nesse ano, Mário Bussab
vendeu a empresa Casas Buri, que fundou em 1947, para a rede Ponto
Frio. Isto justifica a renda tão alta. O problema é
que ele também declarou ter aumentado seu patrimônio
pessoal naquele ano em 2,5 milhões de dólares, o equivalente
a apenas 0,3% dos rendimentos. Onde foi parar o resto? "É
a declaração mais estranha que já vi. Talvez
ele tenha zerado o caixa, transformado tudo em dividendos e incorporado
a seu patrimônio como bonificação", acredita
Rubens Ribeiro, da Trevisan & Associados.
Patrimônio: 316 milhões
de dólares em 1992. Cresceu 2,5 milhões de dólares
em relação ao ano anterior
Renda mensal estimada: 60 milhões de dólares
Imposto pago no ano: 3,1 milhões de dólares
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