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9 de outubro de 1974
Um passo mais à esquerda

Cinco meses depois, chegou o sobressalto. Durante 153 dias, ofuscado pela luz crua da agitada liberdade que se seguiu à derrubada de Marcello Caetano e do salazarísmo, o regime português caminhou à procura de si mesmo. Mas em apenas três noites de incerteza, a partir do último dia 27, com os tanques de volta às ruas, a história apertou o passo. E, antes que a semana passada acabasse, o general Antônio de Spinola, primeiro ídolo do regime, partira para o exílio político (pelo menos temporário), Portugal sofrera uma dura guinada à esquerda e o futuro do país novamente recomeçava.

Símbolo inicial de uma nova mentalidade e principal profeta de um Portugal moderno, Spinola havia chegado ao poder pela força das armas e com o aplauso do povo, prometendo democracia e liberdade. Em amargo contraste, sua mensagem de renúncia, transmitida em cadeia nacional de rádio e televisão às 11h30 da manhã de segunda-feira passada, anunciava o caos econômico e o advento de um novo regime totalitário em Portugal. 'Sob a bandeira de uma falsa liberdade', afirmou em tom cansado, voluntariamente dramático, 'se preparam novas formas de escravidão em Portugal'.

Pouco antes, hostilizado pelos partidos de esquerda, isolado da tropa do Palácio de Belém, Spinola ainda lançara um derradeiro apelo à 'maioria silenciosa' conservadora numa tentativa de golpe constitucional, de cima para baixo, com a decretação do estado de sítio e a tomada de plenos poderes. Mas já era tarde. E sua queda não seria solitária. Ao mesmo tempo, foram destituídos da Junta de Salvação Nacional os generais Jaime Silvério Marques, Manuel Diogo Neto e Carlos Galvão de Mello. E seus ministros da Defesa e Informação, tenente-coronel Mário Firmino Miguel e José Sanches Osório, também não resistiram.

Poder mais forte - No lugar de Spinola, menos de 90 minutos após o anúncio de renúncia, subia um novo general - Francisco da Costa Gomes, de 60 anos -, menos impulsivo, mais hábil, trazendo novas promessas e esperanças. Um homem sem o carisma, o monóculo, o passado de feitos militares de Spinola, mas dono de uma personalidade mais flexível - e capaz, talvez, de Lima convivência mais íntima e harmônica com a tropa e os políticos.

Em sua primeira aparição pública já como o virtual comandante do segundo Portugal pós-salazarista, no balcão do Palácio de São Bento, na véspera de sua posse, Costa Gomes obteve urna reação jubilosa, em uníssono, de mais de 100 000 lisboetas ali reunidos para lhe dar apoio e ovações. Contudo, ainda é cedo para dizer se o novo chefe da nação portuguesa tentará, nas próximas semanas ou meses, afirmar uma personalidade política própria ou se governará sem ambições pessoais, à sombra do poder mais forte de seus inferiores hierárquicos.

Na semana passada, em Lisboa, conta o enviado especial de VEJA, Pedro Cavalcanti, havia apenas uma sensação generalizada - desde os partidos de esquerda, entre triunfantes e ainda preocupados, até a extrema direita, acuada e já clandestina, passando pelo grande vazio do centro: todos pareciam acreditar que não é possível fazer nada no país sem o apoio dos jovens oficiais esquerdistas que compõem o Movimento das Forças Armadas, o MFA (ver box). O 'movimento dos capitães', que derrubou o antigo regime, faz questão de ter sob seu controle o novo.

De smoking - Tecnicamente  no entanto, tudo decorreu a partir de sexta-feira dia 27, como uma simples troca de guarda, sem mortos nem feridos. Foi uma versão particularmente pacífica de golpe de Estado, onde se prenderam menos de quatrocentas pessoas até o final da semana passada e o único pedido de asilo veio de um recruta que se apresentou à embaixada do Brasil, culpado apenas de ter se desinteressado dos acontecimentos: ele dormiu na guarita e tinha medo de ser castigado.

Houve, é verdade, um ligeiro sabor latino-americano na crise, às 6 horas da manhã de segunda-feira, quando as tropas arremeteram contra uma festa no Hotel Sheraton de Lisboa para prender o general e membro da Junta de Salvação Nacional Galvão de Mello. Incurável playboy, que costumava freqüentar as reuniões oficiais do governo de camisa vermelha, calça xadrez e sapatos brancos sem meia, Galvão de Mello recebeu a ordem de prisão com uma resposta que parece resumir sua filosofia de vida: 'Os capitães não gostam de mim e os partidos não me suportam. Felizmente restam as mulheres bonitas, que me adoram', declarou ao sair escoltado, vestindo smoking e acompanhado de sua bela esposa, sob vaias por parte de uma pequena multidão em frente ao hotel.

Para os partidos políticos de esquerda, entretanto, o processo que culminou com a derrota dos 'spinolistas' foi bem mais tenso e grave. Na madrugada do sábado, dia 28, a situação parecia virtualmente perdida para eles. Os dois principais chefes do MFA, generais de brigada Vasco da Silva Gonçalves, primeiro-ministro, e Otelo Saraiva Carvalho, chefe do Comando Operacional do Continente (Copcon, núcleo encarregado das operações militares do MFA), estiveram, na prática, retidos no Palácio de Belém por ordens de SpinoIa. Reunidos nas sedes de seus respectivos partidos, socialistas e comunistas já começavam a levar seus arquivos para lugar seguro, prevendo uma eventual volta à clandestinidade. Esperava-se, também, que a extrema direita saísse a qualquer momento às ruas e não se excluíam possíveis ataques de grupos armados.

Discurso livre - Mas, com o passar das horas, notícias melhores começaram a chegar para os adeptos do MFA. Ao amanhecer, a Rádio Clube Portuguesa, que permanecera fora do ar durante a noite por ordem do ministro da Informação Sanches Osório, entrementes demitido, voltou a transmitir anunciando que o MFA dominava a situação e pedindo 'serenidade e vigilância' à população contra eventuais golpes de direita. E, na verdade, até o final da semana passada a população de Lisboa ainda não tivera conhecimento preciso do organograma exato dessa primeira tentativa de conter a claudicante marcha de Portugal para a esquerda.

Versões oficiosas de que o general Spinola, pessoalmente, tentara liderar o golpe dos conservadores continuavam chocando-se com teses igualmente fidedignas segundo as quais o ex-presidente apenas apadrinhara um movimento fomentado por seus assessores e seguidores mais próximos. Não resta dúvida de que ele se inclinou, com todo o peso de sua influência política e penetração militar, para o lado ora em desgraça. Parece igualmente certo que várias unidades militares essenciais ao êxito do golpe se recusaram a ocupar instalações-chave e confinar líderes do MFA devido à firme recusa do general Costa Gomes em referendar a ordem.

Sem dúvida, porém, atitude mais insólita ao longo dessa curta, decisiva guerra pelo poder coube aos oficiais do MFA. Quando, já desnudado de seu poder e derrotado em suas intenções, o general Spinola manifestou o desejo de falar à nação na segunda-feira, em transmissão direta pela televisão, o MFA não tentou impedi-lo - na verdade, seu discurso não foi sequer examinado antecipadamente por seus adversários. Assim, contrariamente à impressão de que ele falava de seu Palácio de Belém, Spinola, na realidade, estava se dirigindo a uma sessão plenária do Conselho de Estado, cujos membros ouviram, com incredulidade, as altivas acusações de traição à revolução portuguesa que proferiu contra os vencedores da luta pelo poder. Pouco depois, escoltado por membros da Guarda Nacional Republicana, que até o final da semana ainda se encarregaram de sua segurança, Spinola instalava-se em sua residência no bairro de Penha de França, onde passaria a semana recebendo visitas.

Alarme falso - Mas nem todos os cidadãos tiveram as mesmas regalias e houve momentos na semana passada, embora fugazes, em que as asperezas da instabilidade política foram claramente sentidas. De um momento para outro, todos os automóveis em trânsito pelas entradas de Lisboa eram metodicamente revistados, causando ligeiros incidentes de etiqueta quando a busca atingia algum membro do corpo diplomático entre eles um representante brasileiro e o embaixador da Inglaterra.

Por outro lado, quanto menos apareciam notícias nos jornais sobre o estado de ânimo da nação, mais se infiltrava o medo, junto à população, de que tudo ainda era possível. Assim, na noite de terça-feira, um grande comício de trabalhadores na praça de touros de Campo Pequeno, em Lisboa, foi caoticamente interrompido pela notícia de que a Guarda Nacional Republicana - o dispositivo militar mais conservador do país, último a abandonar Marcello Caetano na queda de 25 de abril último - percorria a cavalo a cidade. O alarme era falso e a afobação gratuita. Tratava-se apenas de uma ronda normal, no âmbito do estado de alerta decretado nas Forças Armadas.

Sobretudo no sábado passado, data do 64º aniversário da proclamação da República portuguesa, essa vigília das tropas portuguesas nos principais pontos de Lisboa e da cidade do Porto foi redobrada, a fim de evitar qualquer distúrbio durante as festividades. Mais uma vez, porém, o inimigo pareceu invisível. Sem incidentes alguns trabalhadores trocaram o nome da larga ponte sobre o rio Tejo, de Antônio Oliveira Salazar, para '25 de Abril' e Costa Gomes passou em revista as tropas diante da Assembléia Nacional, enquanto o arredio Vasco Gonçalves, conhecido por sua aversão a jornalistas, pronunciava um discurso solene na cidade portuária.

Folha de papel - Não que as Forças Armadas de Costa Gomes tivessem grandes dificuldades em encontra os inimigos que procuravam. Até o final da semana, e sem qualquer derramamento de sangue, mais de trezentas pessoas haviam sido detidas e levadas para .a prisão de Caxias - entre elas portugueses ilustres, como o combativo general Kaulza de Arriaga, ex-comandante das tropas em Moçambique e mais conhecido como a 'Pantera Cor-de-Rosa'. Animados com essas vitórias fáceis, grupos variados de militantes controlados por unidades militares entraram nas casas de ex-deputados salazaristas também nas pequenas cidades do interior à procura de depósitos clandestinos de armas. Mas, embora se saiba com alguma segurança que existia, e ainda existe, uma quantidade considerável de armas escondidas pelo país, virtualmente nada foi encontrado.

Com sua habitual boa vontade, os jornais noticiaram na última quarta-feira a descoberta de um imponente arsenal na sede do Partido do Progresso, de extrema direita e contrário à independência total das colônias africanas. Contudo, lendo-se com mais atenção a notícia, verificou-se que a descoberta não foi de um arsenal em si, mas resumiu-se à captura de uma folha de papel onde a relação do anunciado armamento aparecia simplesmente datilografada. A lista dos principais detidos também não esclarece devidamente de onde a extrema direita teria tirado o seu financiamento e suas armas. Sobretudo porque não houve apenas uma lista, mas várias e contraditórias.

Além do geralmente odiado Kaulza de Arriaga, em todas apareciam os ex-ministros caetanistas Silva Cunha, Moreira Batista, Franco Nogueira, os generais Pereira de Castro e Barbiere Cardoso. O conde de Pavulo, o mais conhecido traficante de armas de Portugal - que adquiriu uma fortuna considerável às custas de Biafra e como ex-fornecedor do próprio Exército português -, é citado em algumas listas juntamente com o desenhista Quito, criador dos cartazes da 'maioria silenciosa', e os jornalistas Miguel Freitas da Costa, diretor da Bandarra, uma revista panfletária de extrema direita que durou apenas as duas semanas anteriores ao golpe.

Ao telefone - A dúvida maior, entretanto, parece ser a correta detecção dos possíveis financiadores, de todas essas atividades. Em algumas relações de presos, publicadas nos jornais ou coladas nos muros e portas dos partidos políticos de esquerda, aparece o nome de Antônio Champalimaud, em outras, o de José Luís Champalimaud. Mas, na verdade, quem está preso não é o banqueiro, que na quarta-feira passada descia sossegadamente de um Volkswagen à porta de sua casa, nem seu filho, que continua a responder ao telefone, e sim um sobrinho que mantém relações pouco cordiais com a família: Antônio de Mello Champalimaud. Por outro lado, nunca se chegou a confirmar oficialmente a prisão do milionário Manuel Vinhas, embora no final da semana seu Mercedes esporte continuasse estacionado no pátio do Copcon, em Lisboa.

Forçosamente, esses e outros boatos contribuíram para que o clima em Portugal, nessa primeira semana de pós-golpe-e-contra-golpe não fosse de tranqüilidade completa. É certo que o novo governo foi regularmente empossado e que o general Costa Gomes assegurou a volta à normalidade, num discurso hábil e moderado pela televisão - no qual sequer faltaram homenagens a Spinola. 'um verdadeiro soldado, ao qual me ligam meio século de profunda amizade e numerosas horas de amargura', As violentas ameaças de caos feitas por Spinola, entretanto, continuavam a ecoar pelo país.

Muitos viram os primeiros sinais de desgraça nos longínquos distúrbios ocorridos no início da semana entre militantes do PAIGC e soldados portugueses em São Vicente, capital de Cabo Verde, ou na bomba que explodiu na manhã de sexta-feira no aeroporto de Luanda, Angola. É possível, porém, que nem o próprio Spinola esperasse a realização instantânea de suas negras profecias. Na, verdade, sua renúncia pode ter sido a retirada estratégica de um homem que confia no seu carisma para voltar em momento mais oportuno. A dúvida, agora, é se ele conseguirá isso.

Candidato natural - Talvez seja difícil. Todo o rancor acumulado durante a luta surda pelo poder que Spinola travou com os capitães explodiu de repente com uma veemência exagerada. Um balanço dos cinco meses em que permaneceu na presidência indica que ele caiu aos poucos, em trancos desajeitados. Sua primeira manobra para reconquistar uma força que já ameaçava escapar-lhe das mãos, em fins de julho, foi puramente legal: ele pretendia antecipar as eleições presidenciais, apresentar-se como candidato e legitimar-se no poder libertando-se da tutela do Movimento das Forças Armadas.

Os capitães vetaram a medida e os resultados acabaram sendo desastrosos: o primeiro-ministro Adelino de Palma Carlos, seu homem de confiança, viu-se obrigado a bater em retirada, levando consigo os elementos liberais que equilibravam a composição do governo. Ingloriamente, Spinola procurou fazer um novo chefe de governo, ameaçou renunciar, porém recuou no último momento aceitando os nomes impostos pelo MFA - entre os quais Vasco Gonçalves, Victor Alves e Mello Antunes. Isolado, mas ainda combativo, Spinola adotou nova tática: passou a percorrer quartel após quartel fazendo propaganda direta de suas posições, numa tentativa de aplicar um curto-circuito na cúpula do MFA.

Os resultados começaram a brotar em meados de agosto, através de um abaixo-assinado patrocinado por capitães spinolistas que pediam a destituição da Comissão Coordenadora do MFA, órgão máximo do movimento. Mais uma vez não deu certo. E na grave crise que se seguiu, com o Exército partido em dois - luxo impossível para uma jovem democracia -, começou-se a procurar um árbitro e eventual substituto. Foi o momento em que Francisco da Costa Gomes apareceu como candidato natural.

Primeiro desafio - No posto de chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, e com o prestígio de uma carreira militar brilhante, Costa Gomes garantiu sem dificuldades seu crédito junto aos colegas de patentes elevadas. Ao mesmo tempo, sempre foi suficientemente anti-salazarista para gozar das boas graças dos capitães. Já em 1961, como subsecretário de Estado do Ministério do Exército, ganhou valiosas marcas no que seria sua folha-corrida junto ao MFA: acompanhou seu chefe, general Júlio Moniz, numa frustrada tentativa de golpe contra Salazar e acabou transferido para um obscuro posto em Angola.

Mas a morte do ditador trouxe-lhe a promoção a general, e desde então passou a ocupar, sucessivamente, o comando da região militar de Moçambique e o comando-chefe das Forças Armadas em Angola - até atingir, em 1972, o posto máximo da hierarquia militar portuguesa. Amigo chegado de Spiriola e confidente dos capitães desde o início clandestino do movimento, Costa Gomes foi uma das peças-chave na derrubada de Marcello Caetano. De fato, no início deste ano, lançou um primeiro desafio aberto ao governo, garantindo a publicação do livro 'Portugal e o Futuro' do general Spinola, na época seu adjunto.

Um mês mais tarde, Costa Gomes solidarizou-se publicamente com a fracassada sublevação do regimento de Caldas da Rainha, o que lhe custou o posto mas precipitou o levante generalizado de 25 de abril. Por fim, uma vez no poder, como vice-presidente da Junta de Salvação Nacional, seu prestígio começou a crescer na proporção em que o de Spinola declinava. De crise em crise, ele foi paulatinamente reforçando sua Posição até dominar por completo a delicada política de descolonização - e garantir, contra a vontade de Spinola, a assinatura dos acordos de Argel, com o PAIGC da Guiné, e de Lusaca, com a Frelimo de Moçambique.

Duas maldições - A momento algum, porém, Costa Gomes negligenciou seus subalternos, liderados pelo primeiro-ministro Vasco Gonçalves. Durante todo o tempo em que se manteve chefe do Estado-Maior das Forças Armadas - posto que teve o cuidado de conservar como presidente da República - assinou uma série de expurgos e promoções nos quadros militares, através dos quais o MFA, que nasceu como uma hierarquia paralela, foi pouco a pouco alcançando os postos-chave. E é perfeitamente previsível que no futuro esse mesmo esquema venha a se acentuar até que toda a oposição importante ao MFA esteja neutralizada dentro das Forças Armadas.

Resolvido o problema da unidade militar, Costa Gomes e Vasco Gonçalves certamente se verão às voltas com duas maldições previstas no discurso de despedida de Spinola: o caos econômico e o político. Nos próximos meses, é verdade, a economia portuguesa promete enfrentar riscos graves. O número de desempregados acusa cifras cada vez mais altas na população ativa de 3 milhões de portugueses - e ameaça crescer de maneira brutal à medida que começarem a chegar ao mercado de trabalho os colonos da África e os soldados desengajados.

Mais grave, talvez, os 50 000 novos candidatos a um emprego que aparecem todos os anos já não poderão emigrar com a mesma facilidade para os países europeus, igualmente ameaçados de crise econômica. Espera-se, também, que o aumento generalizado dos salários nos últimos meses acabe elevando ainda mais a taxa inflacionária - já de 30% este ano, a mais alta da Europa. Por fim, o déficit na balança de pagamentos, devido às importações de petróleo, poderá fazer evaporar boa parte das reservas de ouro acumuladas pela política salazarista de entesouramento.

Planos inalterados - Apesar dos maus augúrios, entretanto, tudo não parece perdido. Três economistas de um dos maiores grupos econômicos portugueses, reunidos na semana passada na sede de sua empresa holding em Lisboa, traçaram um rápido quadro da situação para VEJA. Inegavelmente, reconhecem eles, existe uma retração nos investimentos ao nível de pequenas empresas, que vêem a sua lista de pedidos diminuir paulatinamente, e enfrentam dificuldades financeiras. E, quanto às empresas estrangeiras, algumas - em particular as de montagem de aparelhos eletrônicos - passaram a considerar o clima político pouco salutar e preferiram fechar suas pequenas fábricas espalhadas pelo interior do país.

Mas, em contrapartida, todos os grandes investidores, sejam de capital estrangeiro, como a Ford, Philips e Bayer, ou nacionais, como a todo-poderosa Companhia União Fabril (CUF), mantiveram seu planejamento inalterado. Mesmo após as modificações políticas da semana passada, poucos acreditam numa nacionalização iminente ou mesmo a mais longo prazo. E, em alguns casos, o fim da ditadura de quarenta anos trouxe até mesmo resultados favoráveis inesperados, como no caso da Lisnave, um dos maiores estaleiros europeus, com 500 000 metros quadrados de docas secas em Lisboa.

Com seus 10 000 empregados do estaleiro e das quatro companhias filiadas, a Lisnave obviamente tinha problemas sérios na folha de pagamentos com o aumento de salários, Em maio passado, a empresa víu-se paralisada durante uma semana pelos operários que exigiam um salário mínimo de 7 800 escudos - cerca de 2 600 cruzeiros - em lugar do de 3 200 que então vigorava. O acordo final, estabelecido em torno de 5 000 escudos, representou um acréscimo de 300 milhões de escudos por ano para a empresa. Mas em compensação, com a mudança da política portuguesa, negociações que vinham se arrastando há dois anos para a construção de um estaleiro no emirado de Bahrein, no golfo Pérsico, resolveram-se como por encanto, e o mercado dos países comunistas, antes inabordável tornou-se subitamente acessível.

Coros e bailados - Ainda assim, os irmãos Jorge e Manuel de Mello, proprietários de 60% das ações da Lisnave, não parecem totalmente tranqüilizados. Pelos corredores de sua empresa, boa parte da decoração consiste agora em cartazes anunciando a apresentação de coros e bailados soviéticos. enquanto panfletos de MRPP, um grupo de extrema esquerda, inundam a entrada principal proclamando diariamente a extensão da crise econômica, militar, social e política do capitalismo português. Tampouco idéias, como a do primeiro-ministro Vasco Gonçalves, de transformar o domingo passado em dia de trabalho normal, para 'comemorar a vitória da revolução', não parecem destinadas a provocar a entusiasmo dos empresários - apesar do apoio público que a Confederação das Indústrias manifestou ao novo governo,

Seja como for, todas as dúvidas quanto ao futuro deverão, teoricamente, encontrar sua solução no dia 15 de março próximo, quando, segundo os prazos estabelecidos pelo programa do MFA, o povo português elegerá uma Assembléia Constituinte. E somente o novo governo escolhido na ocasião terá direito de modificar a fundo a economia e a organização social do país. Até lá, entretanto, permanecem pelo menos três dúvidas básicas. Primeira, ninguém até o momento tem uma idéia sequer aproximada dos eleitores potenciais de cada partido. Segunda, desde a semana passada já não se sabe com certeza se as eleições serão ou não adiadas. E, finalmente, há poucas garantias, por enquanto, de que essas eleições sejam tão livres e democráticas quanto se sonhava cinco meses atrás.


Como há cinqüenta anos não se realizam em Portugal eleições livres de qualquer tipo e não há sondagens publicadas pela imprensa, os números que circulam por Lisboa têm maior relação com o otimismo ou pessimismo de cada partido do que com a matemática. Segundo uma pesquisa que teria sido encomendada pelo Partido Popular Democrático (PPD, de centro), mas que é discretamente divulgada pelos socialistas de Mário Soares, uma eleição, hoje, daria os seguintes resultados: PPD, 8%; Partido Comunista, 18%; socialistas, 25%.

Governo forte - Curiosamente, entre os que acreditam que a porcentagem comunista é ainda menor está um dos fundadores do PC português. Segundo explicou ele a VEJA, na semana passada, dentro de Lisboa e em algumas cidades do sul a penetração comunista, dirigida pelo secretário Álvaro Cunha, é realmente maciça - sobretudo depois que pôde contar, nos últimos cinco meses, com o impulso de uma máquina bem organizada de 1 500 funcionários pagos. Ao norte do Tejo, porém, os comunistas nunca tiveram, e continuam não tendo, influência alguma. Nessas condições, a orientação mais lógica do PC seria, portanto, a de pedir um adiamento das eleições até conquistar uma fatia mais significativa do eleitorado. Baseados na mesma análise, a maioria dos socialistas e elementos do PPD se declaram desde já favoráveis à manutenção da data de 15 de março.

Quanto aos partidos restantes, o único a apresentar algumas possibilidades eventuais ainda é o Centro Democrático e Social (CDS), que, como seu nome indica, se pretende de centro. Dispondo de dinheiro e de uma bela sede num prédio do século XVII recém-restaurado no centro de Lisboa, com poltronas de couro negro e um número invejável de máquinas xerox, o CDS sofre, no entanto, de uma inferioridade quase irremediável: nunca aparece na televisão, raramente é citado nas rádios e, com poucas exceções, continua ignorado pelos jornais.

Sobre esse boicote por parte dos meios de comunicação, o secretário geral do CDS, Amaro da Costa, tem uma explicação algébrica. Acostumada a cinqüenta anos de paternalismo autoritário, a imprensa portuguesa, a partir de 25 de abril, continuou a pensar e a escrever exatamente da mesma forma, com a única diferença de que o sinal, agora, é trocado. E o pior, segundo Costa, é que isso poderia acontecer também com a maioria dos trabalhadores acostumados a longos anos de sindicalismo vertical - e prontos agora, talvez, a obedecer da mesma maneira passiva a quaisquer novas ordens que chegarem.

Compreensível nas palavras de Amaro da Costa, esse pessimismo parecia ter invadido na semana passada uma boa parte da área socialista. De fato, muitos já temiam como única alternativa para um período de perene conturbação em Portugal, o estabelecimento de um governo forte vivendo à sombra das Forças Armadas. Certamente esses não foram os objetivos originais dos jovens capitães que derrubaram Marcello Caetano cinco meses atrás. Contudo, conforme demonstra sua curta experiência no governo, a cada vez que encontram resistências mais duras a seu ideário político os militares portugueses se sentem menos inclinados a delegar o poder.


 
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