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9 de setembro de 1987
Sarney arma seu ciclo

O presidente ganha o aplauso
dos generais elogiando-os
e mostrando seu carinho pelo
programa nuclear paralelo

Em menos de uma semana, o país ouviu o estrondo de uma explosão política e de outra nuclear - e continua de olho no horizonte, na tentativa de interpretar os dois cogumelos que se armaram. Nos dois casos, foi a parte fardada do ministério que acendeu o estopim, e, também nas duas oportunidades, foi o presidente José Sarney quem tomou a si a tarefa de saudar as explosões. Na quarta, durante uma inauguração na fábrica de explosivos Imbel, na cidade paulista de Piquete, Sarney fez caudaloso elogio ao Exército e a seu ministro, o general Leônidas Pires Gonçalves, que, dias antes, acusara a Constituinte de radicalizar e de trair a face majoritária e moderada do país. O Exército do general Leônidas, respondeu Sarney em Piquete "é hoje um dos firmes suportes da nossa transição para a democracia". Essa foi a primeira bomba despejada sobre os políticos que relutavam em engolir as críticas do general.

A segunda, de maior impacto, veio na sexta-feira, também de surpresa. Numa cerimônia no Palácio do Planalto, o presidente anunciou que o Brasil já domina a tecnologia do enriquecimento do urânio. "Este é um fato da maior transcendência na história científica do país", afirmou Sarney. "É também este o momento de reiterar, com ênfase e solenidade, as finalidades exclusivamente pacíficas do programa nuclear brasileiro." O acréscimo fazia-se necessário, já que o domínio do processo de enriquecimento do urânio, combustível radioativo, tanto pode levar à fabricação de pilhas atômicas para centrais elétricas como à produção de bombas.

Conseguiu-se domar o processo, segundo anunciou o presidente, nos laboratórios do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares de São Paulo (Ipen), um órgão onde trabalham 1.200 pessoas e que, por encomenda da Marinha, passou os últimos oito anos metido num trabalho secreto para o enriquecimento do urânio, que custou 37 milhões de dólares ao país. No ano que vem, estará pronta uma usina da Marinha, perto de Sorocaba, no interior paulista, onde se produzirá combustível para submarinos nucleares. Esse projeto custará perto de 400 milhões de dólares. Finalmente, a partir daí, com mais 4 bilhões de dólares, o Brasil poderá ter sua bomba atômica, porque a receita já terá sido aprendida. "O domínio do enriquecimento do urânio pode levar à bomba dentro de cinco anos, mas isso depende de uma decisão política do governo", diz o físico José Goldemberg, reitor da Universidade de São Paulo, que tomou conhecimento do avanço tecnológico, na cerimônia de Brasília, embora já tivesse notícias dele extra-oficialmente. "O presidente, porém, garantiu que o programa nuclear é pacífico", lembra Goldemberg.

TEMORES MÚTUOS - "Sem comentários", reagiu imediatamente um porta-voz da embaixada americana em Brasília, antecipando a reação fria que deverá partir de Washington por estes dias. "Congratulamo-nos com o presidente José Sarney por ter reiterado que o Brasil usará essa tecnologia exclusivamente para fins pacíficos", rebateu a Embaixada da República Federal da Alemanha, país que nos anos 70 firmou com o Brasil um milionário acordo nuclear, hoje desativado e praticamente arquivado desde o anúncio de sexta-feira passada. Em Resende, no Estado do Rio, há uma usina de enriquecimento de urânio por um processo desenvolvido na Alemanha, o "jato centrífugo", que é hoje a única do gênero em todo o mundo. Até mesmo na Alemanha, que começou a desenvolver o método e o vendeu ao Brasil, as pesquisas com o jato centrífugo foram abandonadas por seus resultados pífios. No entanto, era para a Argentina que o governo brasileiro olhava com mais atenção na semana passada, em virtude da concorrência disfarçadamente mantida pelos dois países no campo nuclear - e do risco representado pelo nascimento de uma bomba nuclear em qualquer dos lados da fronteira.

Para apagar os temores mútuos, os presidentes Sarney e Raúl Alfonsín têm assinado acordos de cooperação nuclear cuja vida será tão longa quanto a fidelidade das partes às suas assinaturas. Na quarta-feira, dois dias antes do anúncio aos brasileiros, Sarney resolveu comunicar a novidade ao seu colega argentino através de um telefonema. Nessa conversa, disse a Alfonsín que estava enviando a ele uma mensagem detalhada na mala de seu assessor especial, embaixador Rubens Ricupero, que, no dia seguinte, desceu de um avião da Força Aérea em Buenos Aires e rumou imediatamente para a residência de Olivos. "Ah, isso é muito bom", cumprimentou Alfonsín, que, entre outras coisas, leu a respeito da intenção brasileira de usar sua conquista somente de forma pacífica. A Argentina domina o processo do enriquecimento do urânio desde 1983 - e, na quinta-feira, seu presidente recebeu um troco na mesma moeda por ele usada naquela época, ao comunicar seu avanço ao governo brasileiro antes do anúncio público. Desta vez, a Argentina foi o único país que recebeu um aviso prévio de Sarney sobre a vitória dos cientistas do Ipen.

Algumas poucas autoridades de Brasília estavam tão bem informadas quanto Alfonsín. Outras receberam apenas um sinal da explosão iminente, e, na sexta-feira pela manhã, circulava pela capital do país a informação de que o presidente faria um pronunciamento através de rede nacional de televisão. Por volta das l0 horas da manhã, adultos empertigados começaram a rondar misteriosamente os filhos que viam o programa Xou da Xuxa, na TV Globo. Nada descobriram de perturbador na televisão, além da apresentadora do programa, já que Sarney resolvera anunciar a novidade em cerimônia fechada. Na fila de cumprimentos que o presidente enfrentou em seguida, destacava-se o senador Fernando Henrique Cardoso, líder do PMDB no Senado, que sempre se declarara contra o programa nuclear clandestino do governo brasileiro e, sobretudo, contra a perspectiva de se ter no país uma fábrica de bombas atômicas.

TODOS NEGAM - É disso que se trata. "Todo país que domina o processo de enriquecimento do urânio abre a perspectiva de criar a bomba", diz o físico Fernando de Souza Barros, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro e um dos membros da Sociedade Brasileira de Física encarregados de acompanhar o minueto das autoridades brasileiras no campo nuclear. "Uma vez dominado o ciclo de enriquecimento, as etapas mais difíceis estão superadas e, daí por diante, o problema de construir ou não a bomba atômica é mais político e econômico do que técnico", explica Barros. Duas coisas se podem afirmar a respeito do trabalho do Ipen, desvendado na semana passada por Sarney. Em primeiro lugar, trata-se de um respeitável salto tecnológico que deverá capacitar o Brasil a produzir combustível para usinas elétricas, além de semear o país com vários subprodutos positivos para a medicina, a agricultura e outros campos. Além disso, é possível que esse avanço não tenha como alvo verdadeiro a fabricação de armas nucleares. Apenas possível porque desde 1967 os governos brasileiros se recusam a assinar o Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares, pelo qual mais de 100 países se comprometeram a não fabricar bombas. Assim, a Alemanha, que domina o ciclo nuclear, mostrou que não quer fazer uma bomba ao assinar o tratado.

As indicações que se podem colher no caso brasileiro apontam para a direção explosiva. Todos os países que pesquisam o ciclo do urânio negam sempre intenções bélicas até o momento em que elas se tomam evidentes, como se observou nos casos recentes da nuclearização de nações como Índia, China e Israel. No Ipen, os físicos postos a trabalhar pela Marinha conseguiram enriquecer o urânio numa escala superior a 1% e, segundo autoridades do governo, chegarão facilmente aos 3% necessários para tocar usinas atômicas que produzem eletricidade. No entanto, o mercado internacional dispõe de urânio enriquecido a 3% de sobra para oferecer a 300 dólares o quilo, enquanto o Brasil só tem uma usina que precisa deste combustível, Angra I, um fiasco que praticamente nunca funcionou e dificilmente terá condições de operar regularmente. Fabricar urânio a 3% para centrais elétricas inexistentes seria uma aposta no futuro, mesmo que se gaste muito mais para fazê-lo aqui do que para comprá-lo pronto no exterior. A equação se embaralha, ao examinar-se o caso, mais complexo, da usina que no próximo ano deverá ser inaugurada na região de Sorocaba, com a missão de fabricar urânio enriquecido a 20% para movimentar submarinos nucleares. Em primeiro lugar, o Brasil também não tem submarinos nucleares. "Isso é projeto apenas para o ano 2000", admite o almirante Henrique Saboia, ministro da Marinha. "Por enquanto, estamos ainda aprendendo a fabricar submarinos convencionais." Pergunta-se: a quem interessa uma usina com 50 ultracentrifugadoras, capazes de criar o urânio enriquecido num patamar elevado, se não há veículos submarinos para queimá-lo? Os responsáveis pelo programa nuclear não explicam e todos os demais suspeitam. Qualquer reator que queime urânio, a 3% ou a 20%, produz plutônio como subproduto - e o plutônio é um excelente explosivo para a bomba atômica. Pode-se fazer uma bomba também com urânio enriquecido a 90% - e, nesse caso, dominar o processo do enriquecimento a 20% é um bom caminho para chegar lá. "Dominada a tecnologia do enriquecimento, se o Brasil quiser a bomba, é só fazer", diz o físico Roberto Hukai, ex-diretor do Ipen. "É só um questão de dinheiro e de persistência."

'MEGALOMANIA' - Ao se somar intenções de fabricar combustível com outros ingredientes espalhados pelo mapa nacional, tem-se como resultado um provável pavio. Exército e Marinha desenvolvem mísseis secretamente. Também secretamente, um laboratório do Centro Tecnológico do Exército, na Restinga da Marambaia, faz pesquisas nucleares - no campo bélico, segundo suspeita encravada em pelo menos um cacique do PMDB. No sul do Pará, descobriu-se há 1 ano uma base da Aeronáutica, o campo de Cachimbo, onde há poços de 320 metros de profundidade, igualmente secretos e talvez adequados a testes nucleares. "A profundidade das perfurações é compatível com as que usam no programa americano para explosões subterrâneas", acha o físico Luis Pinguelli Rosa, da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Enfim, se os militares brasileiros querem distância da bomba, eles seguramente trataram de ficar próximos das ferramentas necessárias para iniciar a confecção de um artefato explosivo.

"Se for para valer, é uma megalomania extrema", critica Enio Candotti, presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Segundo Candotti, não se joga uma bomba com estilingue. "Bomba atômica, para ter alguma função, pressupõe a existência de submarinos, foguetes, uma rede de detecção de ataque e resposta - algo que exigiria gastos da ordem de 40 bilhões de dólares", espanta-se ele. Mesmo que não houvesse uma bomba em perspectiva - e isso é o que garante o governo -, o programa nuclear dos militares brasileiros ainda assim rondaria o absurdo. Na mesma semana em que o ministro Bresser Pereira, da Fazenda, afirmava em Viena que o país não pode pagar sua dívida externa, falava-se em Brasília de um país quebrado que pretende investir ninguém sabe quanto num projeto nebuloso, sem que alguém tenha pronunciado em qualquer momento a palavra prioridade.

APLAUSOS - Quando o governo firmou o acordo nuclear com a Alemanha, o PMDB, tomado de fúria santa, designou esse projeto como faraônico. Ao se descobrir mais tarde que esse acordo não transferiria tecnologia ao Brasil conforme a expectativa inicial, o governo tratou de montar um programa paralelo, secreto, destinado ao desenvolvimento de tecnologia própria no país. Na semana passada, o presidente José Sarney anunciou um resultado prático dessa decisão, ao comunicar que o Ipen já domina o processo de enriquecimento do urânio. Ninguém falou em custos, mas sabe-se que esse programa sigiloso, do qual o Ipen é apenas uma peça, envolve mais de 3.000 pessoas e dezenas de indústrias - e torra quantias entre 1 bilhão e 3 bilhões de dólares por ano, talvez mais, sem que esse dinheiro mereça referência na contabilidade pública. Nem assim, o PMDB pediu explicações sobre custos. O partido, outrora inquieto, preferiu apenas oferecer aplausos.

Ao comunicar à nação as boas novas do Ipen, Sarney puxou da manga um trunfo político costurado sobre o controle do enriquecimento do urânio e deu uma demonstração de grande controle sobre o uso do próprio combustível. Há um mês, o Ipen já concluíra que o trunfo estava na mão. "Chegamos à conclusão de que a técnica brasileira era comparável à internacional, comunicamos o fato às autoridades e fizemos um churrasco", conta o almirante Othon Luiz Pinheiro da Silva, que cuidou do projeto em São Paulo ao longo de todo o seu desenvolvimento. Silva não sabe por que Sarney decidiu esperar um mês para fazer o anúncio. Um exame ao calendário político dos últimos dias ajuda a entender.

No dia 21, o general Leônidas Pires Gonçalves apareceu falando que o Exército tem de se reequipar. Na quinta-feira da semana retrasada, o mesmo general Leônidas despachou sua enxurrada de críticas à Constituinte numa reunião do ministério. Na última terça-feira, o presidente Sarney elogiou Leônidas na cidade de Piquete, citando-o como um sustentáculo da transição para a democracia. Na sexta-feira passada, finalmente, Sarney anunciou o controle do processo de enriquecimento do urânio - e, nesta segunda-feira, deverá estar no palanque da parada de 7 de setembro, com os militares. Desde 1969, quando o país chafurdava na anarquia militar, jamais uma Semana da Pátria teve uma programação tão cheia. Ao escolher a sexta-feira passada para a notícia do Ipen, depois de uma fase de desentendimentos com a Constituinte, que o ameaça com o regime parlamentarista, o presidente tirou do acontecimento o máximo de dividendos políticos. Em seu benefício, é preciso ressaltar que ele falou em público de um segmento do Programa Nuclear Paralelo, sempre escondido por um biombo espesso nos últimos anos e assentado sobre contas bancárias ilegais, segundo as normas da contabilidade pública.

SEGREDO ESFARRAPADO - O mundo subterrâneo do programa nuclear brasileiro dividiu-se nos últimos anos entre um segredo de Polichinelo - o fato de que equipes militares coordenavam um projeto que leva à bomba atômica - e um profundo mistério administrativo e contábil: a eficácia e o preço desse trabalho. Desde 1967, quando o presidente Costa e Silva anunciou que não assinaria O Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares, a comunidade internacional sabia que o governo brasileiro pretendia construir seu próprio explosivo, pelo menos em tese. Em 1975, quando o presidente Ernesto Geisel assinou o acordo nuclear com a Alemanha, o governo deu um passo adiante, criando um instrumento de intercâmbio tecnológico capaz de levar, na prática, à construção da bomba. Nessa época o Alto Comando das Forças Armadas foi especificamente informado, com todas as letras, de que se caminhava para a construção de um artefato. Em 1976, o secretário de Estado americano Cyrus Vance recebeu do chanceler Azeredo da Silveira mais um sinal expresso de que o Programa Nuclear acabava na bomba. O chanceler recusou uma proposta do governo americano para que o Brasil e a Argentina partilhassem uma usina de reprocessamento de urânio sob fiscalização internacional. Segundo Vance, a Argentina tinha concordado. Ou seja, os Estados Unidos captaram um sinal pelo qual o governo brasileiro informava que seu projeto iria em frente, mesmo se os argentinos resolvessem desacelerar seu projeto de bomba.

Se o desejo dos governos brasileiros de caminhar em direção à bomba sempre foi um segredo esfarrapado, uma densa nuvem de mistério envolve, desde os anos 70, toda a armação administrativa, financeira e diplomática que permeia a questão nuclear. Pode-se estimar que essa malha funciona, há anos, tão centralizada, secreta e onipotente quanto os DOI, centrais de repressão política que atuaram livremente de 1970 a 1976.

CLANDESTINIDADE - Não se sabe exatamente quanto custou o Programa Paralelo, embora se possa ficar com a estimativa que o coloca num patamar superior a 1 bilhão de dólares por ano. Ainda hoje, quando o país vive uma situação democrática, ninguém tem acesso a dados precisos. Acredita-se que o ministro Dilson Funaro chegou a ter apenas uma idéia desse dinheiro. Estima-se que o ministro Luiz Carlos Bresser Pereira não tenha conseguido nem isso. "O sigilo é fundamental no programa nuclear brasileiro", defende o ministro da Marinha, Henrique Sabóia. Seu antecessor no cargo, Alfredo Karan, reza pela mesma cartilha. "É um assunto da mais alta segurança, que não deve ser comentado publicamente", diz Karan. Confunde-se aí sigilo com clandestinidade. Um diagnóstico médico é protegido pelo sigilo e abertamente legal. O jogo do bicho, embora público, ostensivo, é clandestino, porque todas as suas operações são ilegais e suas contas, secretas. O programa nuclear, que escala fornecedores sem concorrência e que faz pagamentos através de vias irregulares, até mesmo em suas iniciativas diplomáticas, assemelha-se muito mais, portanto, à armação do jogo do bicho do que ao que se denominaria normalmente, com toda propriedade, de uma coisa secreta. Ninguém reclama do segredo. Reclama-se apenas do descontrole.

O secretário do Tesouro, Andrea Calabi, sabe apenas que seus computadores hospedam as contas do Programa Paralelo sem que ele, contudo, tenha acesso aos códigos que levam os dados ao vídeo. Ele sabe os grandes números, mas não conhece os grandes bolsos. O senhor dessas chaves é o general Rubens Bayma Denys, chefe do Gabinete Militar e secretário-geral do Conselho de Segurança Nacional. Há três anos, o projeto do presidente Tancredo Neves era bem diverso. Informado pouco depois de sua eleição da existência do Programa Paralelo, Tancredo Neves decidiu que ele ficaria debaixo da jurisdição do Ministério da Ciência e Tecnologia. Nessa transferência de um cogumelo clandestino e militarizado para um ministério civil, percebe-se, hoje, uma clara diferença entre o que vem sendo o governo José Sarney e o que teria sido a presidência Tancredo.

O movimento de dinheiro atômico dentro do Brasil já foi detectado pelo jornal Folha de S. Paulo, que provou em dezembro do ano passado que a Comissão Nacional de Energia Nuclear operava no Brasil através de pelo menos duas contas bancárias, clandestinas, denominadas Delta. Centenas de milhões de dólares trafegam em transações internacionais que suportam as despesas nucleares. Uma parte desse dinheiro é rigorosamente misteriosa. A diretoria do Banco Central, por exemplo, não a controla nem a vê. Há pouco tempo, contudo, quando surgiu dentro do governo a idéia de uma centralização da caixa externa, burocratas de Brasília foram surpreendidos por um estranho fenômeno de migração de milhões de dólares depositados em contas do Banco do Brasil e repentinamente sacados. Procuraram descobrir o que tinha sucedido e deram-se conta de que se tratava de depósitos do próprio governo que ficavam no banco e, com o medo do aparecimento de um sistema de controle, fugiram para santuários mais seguros.

PANFLETAGEM - Nesse mundo de mistérios, o presidente da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), o físico Rex Nazareth Alves, é o único a conhecer todas as peças do quebra-cabeça. Abaixo dele funciona uma rede formada por oficiais das Forças Armadas. Uma boa parte deles é composta por uma elite de técnicos formados no exterior, sobretudo na Alemanha, debaixo do manto protetor da Nuclebrás. Outro pedaço é composto por oficiais que nos últimos 20 anos militaram sobretudo na comunidade de informações. É essa fusão entre "linha dura", "comunidade de informações" e SNI que dá ao Programa Paralelo uma aparência semelhante à dos porões policiais do passado. Desse grupo, o arquétipo é o coronel Francisco Araripe, um dos mais destacados exemplares da "linha dura" dos anos 60, que migrou para o SNI sob a proteção do general Octávio Medeiros, diretor do órgão entre 1979 e 1984, acumulando as funções de czar do Programa Paralelo. O coronel Araripe recebeu do presidente eleito Tancredo Neves a chefia da Polícia Federal e, em 1985, deixou-a para regressar ao SNI, onde estão hoje alguns dos radicais que em 1976 se opunham através de panfletagens clandestinas à política de abertura do presidente Ernesto Geisel.

TRAPALHADA - Não se conhece a cronologia do trabalho dessa gigantesca operação clandestina. Sabe-se, no entanto, que ocorreram lances audaciosos, como uma negociação conduzida pelo próprio Rex Nazareth, para comprar urânio chinês por baixo do pano, e jogadas mirabolantes de final desastrado, como um projeto de associação com o Iraque. Através do SNI e com a participação do presidente da fábrica de material bélico Engesa, José Luis Whitaker, o governo do general João Figueiredo ofereceu ao Iraque tecnologia para a fabricação de uma bomba. Recebeu de volta uma resposta aborrecida, pela qual "o senhor Whitaker não devia vir nos oferecer o que não tem para vender". Alguma coisa, contudo, o Brasil tinha, e acertou-se com o presidente Saddam Hussein o fornecimento de pasta de urânio para a construção de um reator no qual os iraquianos pretendiam produzir plutônio com a ajuda de tecnologia francesa. O plano transformou-se numa trapalhada quando o primeiro-ministro Menahen Beguin, na madrugada de 7 de junho de 1981, mandou uma esquadrilha de jatos para o Iraque e arrasou à bomba o canteiro de obras do reator, bem como uma central de pesquisas próxima. Pouco depois o general Medeiros embarcou secretamente para Paris, onde teve uma reunião com militares israelenses que lhe fizeram duras advertências com base nas ligações do governo Figueiredo com o projeto nuclear de Saddam Hussein. Segundo um colega de ministério de Medeiros, os israelenses classificavam o projeto como uma gigantesca construção terrorista e, veladamente, sugeriram que seriam capazes de responder na mesma moeda.

Uma parte dessa trapalhada nuclear foi registrada pelo jornalista Alexandre von Baumgarten, em mau estilo e com lances de ficção medíocre, no romance-verdade que intitulava de Yellow Cake. Baumgarten foi assassinado misteriosamente em outubro de 1982, e o manuscrito de Yellow Cake foi resgatado por sua família, mas acredita-se que faltem páginas.

PALAVRA EM SEGREDO - Em matéria nuclear, o Brasil tem feito anúncios grandiosos para colher depois resultados abaixo de medíocres. A primeira usina nuclear do país, Angra I, comprada da Westinghouse americana por um preço inicial de 350 milhões de dólares, está por 1,8 bilhão e vive enguiçada. O país colocou algo como 5 bilhões de dólares em material para a montagem de Angra II e Angra III, adquiridas através do acordo com a Alemanha, e as duas usinas estão com sua construção semiparalisada. "Há peças feitas para Angra II que estão encostadas há mais de sete anos", critica o físico Rogério Cerqueira Leite, da Universidade de Campinas. "Essas usinas, da mesma forma que Angra 1, não vão funcionar", prevê Leite. Quanto aos resultados do Programa Paralelo, eles também encontram ceticismo por parte de muitos cientistas. "O Rex Nazaré Alves já anunciou grandes sucessos que, mais tarde, não passaram de intenções", lembra o presidente da SBPC, Enio Candotti. Ele se refere aos processos de laboratório em andamento no Ipen e ao projeto do submarino nuclear, que se pretende colocar em prática nas vizinhanças de Sorocaba.

Se o Programa Paralelo pretende chegar à bomba atômica, conforme se suspeita, o caminho estará livre pelo lado teórico e haverá obstáculos grandes pelo lado prático. A bomba atômica é algo teoricamente muito simples, que adquiriu uma áurea de mistério por conta do "Projeto Manhattan", através do qual, em segredo, os Estados Unidos montaram e explodiram o primeiro artefato, em 1945. Na realidade, não há relação entre a banalidade do princípio da bomba e o segredo que a guerra exigia em torno de sua fabricação. O primeiro homem a idealizar uma bomba atômica foi o cientista húngaro Leo Szilard. A idéia ocorreu-lhe em 1933, precisamente no momento em que, numa caminhada pelas ruas de Londres, esperava que se abrisse o sinal de trânsito de um dos cruzamentos da Southampton Road. Um ano depois, Leo Szilard registrou seu invento no Departamento de Patentes do governo inglês e sugeriu ao British War Office que o classificasse como secreto. A burocracia militar rebarbou a sugestão (no ano de 1943, quando os pesquisadores americanos inventaram a palavra "implosão" para designar o processo pelo qual seria detonada a carga de urânio da bomba que construíam, a burocracia militar já trabalhava na direção oposta e a simples palavra foi considerada um segredo de Estado até 1949). Em 1939, nos Estados Unidos, quando o físico Niel Bolir mostrou a fissão de um átomo de urânio diante de uma platéia na qual havia dois jornalistas, nenhum jornal interessou-se e mesmo os dois repórteres presentes fizeram apenas pequenas notas para páginas internas de suas publicações. Na prática, porém, a bomba exige o domínio de tecnologias refinadas em vários campos, a começar pela construção de seu vaso de contenção até a criação de um sistema adequado de detonação, o que não é fácil. Mesmo diante de um desafio desse porte, o simples domínio do processo de enriquecimento de urânio já é uma conquista de grande envergadura. Ironicamente, no mesmo dia em que o governo anunciou sua capacitação nesse terreno, os jornais informavam que o governo não tem o controle do ciclo da Lei do Inquilinato.


 
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