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  9 de agosto de 1995
O bisturi quer mais imposto

Isolado no governo e no Congresso, Adib Jatene vai ao povo pela CMF e por si mesmo

O ministro da Saúde, Adib Jatene, é um homem de fôlego. Acorda todos os dias às 5h30 da manhã e vai para a pista de atletismo do Clube do Exército, em Brasília. Ali, caminha 3 quilômetros e meio, corre mais 1 quilômetro e ainda faz doze exercícios de barra. às 7 da matina, Jatene está a postos no ministério, mas, se for preciso, é capaz de chegar ainda mais cedo. O deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ), presidente da Comissão de Seguridade Social na Câmara dos Deputados, já foi recebido às 6 e meia da manhã - por duas vezes. O fôlego do ministro da Saúde transformou-se em assunto nacional desde que resolveu ressuscitar o imposto do cheque e produzir uma vitamina de 5,6 bilhões de reais para o caixa de seu ministério.

Pedir dinheiro é uma idéia fixa de Adib Jatene desde que sucedeu a Alceni Guerra no Ministério da Saúde do governo de Fernando Collor. Naquela época, enrolou-se na bandeira do Finsocial, um imposto que as empresas deveriam pagar, mas contestavam na Justiça. De volta ao mesmo ministério depois do intervalo Itamar Franco, Jatene já chegou a Brasília pedindo verbas. O ministro sonhava passar o ano de 1995 com uma verba de 22,6 bilhões de reais. Acabou ficando com 13,9 bilhões e teve a idéia do imposto do cheque para compensar a diferença. Tirando 0,25% toda vez que cada contribuinte sacar seu talão, calcula-se que poderá ficar com um orçamento de quase 20 bilhões. Com o nome maroto de contribuição sobre movimentações financeiras (para disfarçar o original IPMF), há um projeto em circulação no Senado Federal. "Com esse dinheiro, vamos gastar 200 dólares por habitante, por ano", diz o ministro. "E ainda assim é uma situação precária."

"REBAIXAR O DEBATE" - Jatene chegou ao governo Fernando Henrique com duas propostas embaixo do braço. Uma era levantar mais dinheiro. A outra, descobrir uma forma de obrigar as empresas privadas de saúde a ressarcir os hospitais da rede pública pelos gastos de pacientes que já pagaram pelo serviço. O projeto do imposto andou. O de mexer nos ganhos das empresas privadas, não. Antitabagista militante, Jatene herdou um decreto de seu antecessor, Henrique Santillo, que previa um pacote drástico de medidas de combate ao cigarro. O ministro revogou-o, formou uma comissão para discutir o assunto, mas, seis meses depois, não há nada no lugar. O máximo que se fez de lá para cá foi sonorizar as mensagens que dizem que o fumo é prejudicial à saúde - antes, elas só apareciam por escrito na TV. Na luta da CMF, o ministro da Saúde não tem o apoio do governo nem do Congresso, e na semana passada as chances de o imposto ser aprovado eram iguais a zero. Mas Jatene tem feito tantas viagens e aparecido com tanta freqüência nos meios de comunicação que desperta especulações de que, por trás das verbas e das mazelas hospitalares, o que está sendo embrulhada é sua estréia espetacular numa campanha eleitoral.

Perguntado a respeito, Jatene repele a questão de frente. "Não tenho nenhum interesse político ou eleitoral. Isso é uma tentativa de rebaixar o debate", reclama, esclarecendo que não é candidato a presidente da República nem a governador de São Paulo ou a prefeito. Guardar segredo sobre o futuro é um direito de qualquer político. Jatene não dispensa cargos públicos desde sua estréia no ramo, em 1979, com Paulo Maluf no governo de São Paulo. Chegou a circular como um bonito balão-de-ensaio na campanha presidencial de 1994, antes da ascensão do Real e de Fernando Henrique Cardoso. "A luta por mais recursos na Saúde pode representar para Jatene aquilo que o Plano Real foi para Fernando Henrique", diz o publicitário paulista Agnelo Pacheco. "E a Saúde é muito mais importante do que o Real. Afinal, mais importante do que salvar a economia de um país é salvar vidas." Mesmo com tantos indícios, contudo, mentes autorizadas de Brasília consideram que Jatene está mesmo falando a verdade e que não tem nenhum projeto eleitoral embutido na CMF. "Ele quer mudar a saúde", diz um ministro. "Mas errou de caminho."

Na semana passada, no Rio de Janeiro, Jatene fez um discurso no tom de um padre em estado paranóico. Apresentou-se como vítima de uma conspiração dos "20% hegemônicos que concentram a renda neste país" e defendeu o imposto em clima de tudo ou nada. "A opção é saber se se paga a contribuição sobre movimentações financeiras ou se se desativa um sistema que atende a população de baixa renda", pregou.

Nesse pronunciamento, Jatene criou constrangimentos para si e para o governo do qual faz parte. Como a equipe econômica é adversária da CMF desde que tomou conhecimento da proposta, resta saber se tanto o ministro do Planejamento, José Serra, como o da Fazenda, Pedro Malan, estão incluídos na articulação dos "20% que concentram a renda neste país". Numa hipótese, dois ministros merecem um pedido de desculpas. Na outra, Jatene é que não está levando seu discurso a sério. Em qualquer caso, quem perde é o governo de Fernando Henrique. Sem disposição para impor sua autoridade e correr os riscos de tomar uma decisão final, o presidente não disse nem sim nem não a Jatene. Apenas que, se ele ganhar no Congresso, leva, numa postura que lembra o técnico de futebol que emprega a primeira pessoa do plural para dizer "nós ganhamos" e a terceira do singular para dizer "ele perdeu".

"NÃO PASSA" - Entre maio e junho, Adib Jatene esteve doze vezes no Congresso, sempre levando no bolso um artigo que José Serra escreveu defendendo mais verbas para a Saúde. Ele mostra o artigo aos parlamentares dizendo que até Serra já reconheceu um dia que a situação é difícil. "Sei que ele escreveu isso quando era candidato, mas em todo caso...", diz Jatene, fazendo ironia. Até agora, os únicos deputados que estão fechados com a CMF são os setenta da bancada da Saúde, uma frente amplíssima de donos de hospital e médicos sanitaristas. Logo na reabertura do Congresso, os próprios líderes governistas trataram de bombardear o imposto. "Essa proposta não tem nenhuma chance de passar. O Jatene não consegue explicar as metas que tem para a Saúde. A impressão que se tem dele é que só paga hospital e larga o resto", diz o deputado José Aníbal, líder do PSDB. O PT, que acusa o governo de fritar Jatene e não investir na área social, não sabe o que fazer. Na quarta-feira, a bancada se reuniu para discutir o apoio à CMF. A reunião terminou aos berros e não se chegou a conclusão alguma. Nova reunião foi marcada para a próxima semana.

O presidente da Câmara, Luís Eduardo Magalhães (PFL-BA), é outro sem entusiasmo. "Não sou anti-Jatene, mas esse imposto aqui não passa", diz. Jatene tem pouca experiência de Congresso, tanto que diz: "Ele é só um deputado, é só um deputado", desdenhou, ao saber que Luís Eduardo não o apóia. "Mas ele é o presidente da Câmara, decide o dia, a hora e até o momento em que o projeto é votado. Se quiser atrapalhar, não tem jeito", alertou o deputado Pedro Corrêa (PFL-PE) numa conversa com o ministro. "Vou convencer a população. Os deputados precisam de votos e vão-se sentir pressionados", diz o ministro.

Pelo terno, sempre cinzento, pelo tom de voz, pausado, e pela paciência com que conversa com quem lhe dirige a palavra, Jatene tem um estilo próprio de ir ao povo. Embora tenha direito a jatinho da FAB, prefere viajar em aviões de carreira, nos quais não perde a oportunidade de distribuir apertos de mão e agradar desconhecidos. Na manhã de quarta-feira, a caminho do Rio de Janeiro, foi abordado por um estudante de medicina da Universidade Yale, nos Estados Unidos. John Fahrenholz, 27 anos, quis tirar uma fotografia ao lado do ministro. "Eu já ouvi falar do professor na universidade", disse. Depois Jatene analisou cuidadosamente uma radiografia da saúde no Rio, onde passaria o dia em reuniões, e por fim leu a carta de dois funcionários do ministério cujos filhos possuem cardiopatia congênita. Pediu a um assessor que o acompanhava na viagem que ambos fossem encaminhados a um amigo na Fundação Hospitalar de Saúde de Brasília. Jatene é assim: às vezes clinica a distância, no avião. Chega a atender servidores em seu próprio gabinete, o que fez mesmo com o mais recente político que passou por seu bisturi, o ministro da Educação, Paulo Renato de Souza.

"CLASSE MÉDIA E CLASSE MÉDICA" - Chegando a seu primeiro compromisso, na Fundação Oswaldo Cruz, Jatene foi abordado por uma senhora chamada Regina Souza, que tem 55 anos e uma doença no coração. Ela nunca tinha visto Jatene pessoalmente antes. "Ministro, eu preciso fazer uma cirurgia no coração. Agora que o senhor está cada vez mais famoso, todos os médicos trabalham em sua equipe. A gente não sabe mais em quem confiar", sussurrou Regina ao ouvido do ministro. "Gostaria que o senhor me indicasse um médico de sua confiança", pediu. "Eu continuo operando. Ligue para a minha equipe, marque a consulta e eu mesmo opero", respondeu Jatene. "Nossa! Estou muito satisfeita", espantou-se Regina, pondo as mãos no ombro do ministro-cirurgião.

Um pouco mais tarde, Jatene compareceu a uma reunião do Conselho Nacional de Saúde, ali no mesmo lugar. "Ministro, precisamos conversar. Nós temos uma estrutura muito grande e queremos ajudá-lo", cochichou no ouvido do ministro a médica Zilda Arns, irmã de dom Paulo Evaristo Arns, arcebispo de São Paulo. Zilda representa a CNBB no Conselho Nacional de Saúde. O ministro ouviu e sorriu. Não disse nada, mas abraçou-a como aliada. Outro apoio veio do cirurgião plástico Ivo Pitanguy, que encontrou Jatene numa cerimônia na Santa Casa de Misericórdia. "A luta do ministro hoje é a luta da classe médica e da classe média brasileira", diz Pitanguy. "A classe média perdeu o poder aquisitivo e hoje usa os serviços públicos. Quando ela sentir que será prejudicada com o caos no setor, vai-se levantar em apoio ao ministro." Pode até ser, mas até agora ninguém se levantou em defesa do ministro.


O caminho do dinheiro

Calcula-se que a volta do imposto sobre os cheques posssa arrecadar 5,6 bilhões de reais por ano. Se receber esse dinheiro, Jatene promete gastá-lo da seguinte forma: 2,8 bilhões em aumentos de 40%, em média, no reembolso dos hospitais e médicos conveniados
1,2 bilhão para cobrir o buraco gerado pelo aumento no salário dos servidores do ministério, concedido no governo Itamar
1,2 bilhão para saneamento básico, vigilância sanitária e medicina preventiva
400 milhões em campanhas de vacinação, pagamento de agentes de saúde e programas para a redução da mortalidade infantil


Libanês britânico

Nos corredores do Hospital das Clínicas de São Paulo comenta-se que o acreano Adib Domingos Jatene, 66 anos, tem cara, voz e marketing de libanês, mas comporta-se como um inglês. Metódico, pontual, é polido e dono de um humor sarcástico. Coisa de britânico. No trabalho, tem a força de um mouro. Acorda de madrugada e vai dormir por volta da meia-noite. Nas raras horas vagas, lê muito. Jatene gosta, e não nega, de Paulo Coelho e Sidney Sheldon. "Não dá para ficar só lendo coisas muito inteligentes. Do contrário, não consigo conversar com as pessoas", explica. Quando ouve música, prefere Roberto Carlos e Maria Bethânia. Até as distrações de Jatene são ligadas a trabalho. Nos anos 80 dedicou-se à mecânica e acabou inventando o oxigenador de bolhas - um coração artificial usado em operações -, que hoje lhe rende 50 000 dólares em royalties.

O Jatene que junto com a mulher, a nutricionista Aurice, recebe os quatro filhos e dez netos na sala de sua confortável casa no Sumaré, bairro de classe média de São Paulo, é o mesmo das salas de cirurgia. Sempre mexendo com as mãos, fala pausadamente com os filhos, pergunta muito e nem sempre espera pela resposta. Fala de medicina o tempo inteiro. Os filhos - Fábio, Yeda, Yara e Marcelo - cresceram num sobrado nos Jardins, em São Paulo, que tem ares de laboratório. "Nos finais de semana, ele nos levava nas visitas que fazia a pacientes. Sabíamos todas aquelas terminologias", diz Yeda, que a exemplo de outros dois irmãos se tornou cardiologista. Por causa da medicina, o tempo de convívio na família Jatene sempre foi exíguo. Quando crianças, os filhos dormiam no sofá para ver o pai durante alguns minutos, de manhã, antes que ele disparasse para o hospital.

Quando pode, Jatene diverte-se com a Fazenda Palmeiras, em Itajobi, no interior de São Paulo, onde investe todo o dinheiro que ganha na produção de laranjas e criação de gado. "O meu hobby é passar os finais de semana castrando animais na fazenda", diz. O ministro não possui plano privado de saúde. Desconta o INSS e, quando precisa fazer exames médicos, os faz no próprio Incor. Todos os anos faz um check-up total. Não fuma, não bebe e evita doces. Exatamente o que recomenda a seus pacientes.


O próximo passo

A saúde, que hoje pede dinheiro, terá de enfrentar em breve um debate mais doloroso: a seleção de benefícios

A saúde no Brasil precisa de três remédios urgentes: dinheiro, dinheiro e mais dinheiro. O país tem 6 500 hospitais, uma oferta de médicos proporcionalmente igual à da Inglaterra e um número de leitos semelhante ao da Espanha. Consegue atender cerca de 1 milhão de pessoas por dia e faz campanhas excelentes de vacinação em massa, com as quais pôde erradicar a poliomielite e controlar o sarampo. Mas o serviço de saúde cresceu na mesma proporção em que o dinheiro sumiu. Desde 1987, quando o Brasil começou a abrir seu sistema de saúde para todos os 150 milhões de habitantes, o número dos que passaram ao menos uma noite num hospital saltou de 10 milhões para 15 milhões por ano, um salto de 50%. Enquanto isso, o investimento caiu 37%, de 80 dólares para 50 dólares por habitante em 1993, depois de ir ao fundo do poço, 45 dólares, em 1992. Com tal descompasso, não há mesmo como evitar que pacientes sejam instalados em macas nos corredores dos hospitais ou que ambulatórios não façam curativos por falta de esparadrapo ou algodão.

Com tamanha penúria, o Ministério da Saúde paga atualmente apenas 2 reais por consulta para os médicos que atendem um paciente do Sistema único de Saúde, o SUS. Mesmo que se trate de um profissional que pode ter mais de um emprego, não é remuneração à altura, pois é mais ou menos o que um engraxate cobra para lustrar um par de sapatos. Também paga tão pouco para os hospitais (130 reais por um parto, por exemplo) que até as entidades filantrópicas estão deixando de dar atendimento a pacientes públicos. Em Campinas, no interior de São Paulo, ocorreu uma rebelião em massa. Dos 22 hospitais da cidade, só sete aceitam pacientes do SUS. Em Salvador, o São Rafael, uma entidade filantrópica que oferece um dos melhores serviços da capital baiana, está reduzindo seu número de atendimento público. Antes, metade de sua clientela era formada por pacientes do SUS. Atualmente, esse número caiu para 30%. "Hoje em dia, atender um paciente do SUS já é em si um ato de filantropia", afirma o vice-diretor do hospital, Renilson Rehen.

DISCRIMINAÇÃO POSITIVA - O drama da saúde não pode ser curado apenas com dinheiro, dinheiro, dinheiro. "É uma questão grave, mas certamente não é a única", diagnostica Roberto Iunes, professor da Faculdade de Saúde Pública da USP. Antes de ter uma fartura de recursos, é preciso saber como e onde aplicá-los. No Estado de São Paulo, gastam-se 40% do orçamento em tratamentos caros que beneficiam apenas 3% da população. É dinheiro despendido em hemodiálise, cirurgias cardíacas, tratamento de câncer e transplantes. A questão, aí, é discutir se o Estado deve bancar despesas tão altas para um grupo tão reduzido. "É um gasto acrítico", diz o professor Gonzalo Vecina Neto, que trabalha no Hospital das Clínicas de São Paulo, o maior da América Latina. "O sistema precisa produzir eqüidade, e não igualdade, e isso implica fazer uma discriminação positiva." Em 1983, o Brasil despachou 120 cidadãos para tratamento no exterior. Gastou, com isso, o equivalente a todo o dinheiro destinado a prestar assistência médica para cerca de 9 milhões de pessoas.

Na Inglaterra, onde funciona um serviço de saúde pública invejável, o Estado não paga hemodiálise para os pacientes idosos - ou eles têm a sorte de ter dinheiro suficiente para bancar o tratamento ou morrem. É cruel, do ponto de vista humanitário, mas foi a forma que o governo inglês encontrou de manter a qualidade do serviço sem prejudicar a maioria da população. No Estado do Oregon, nos Estados Unidos, há uma experiência parecida. O Estado estava gastando tanto dinheiro com os tratamentos sofisticados que decidiu convocar a população para definir um pacote de saúde gratuito. Definido o pacote, há tratamentos que o Estado deixou de pagar. No Oregon, quem tem apendicite, por exemplo, recebe tudo o que precisa. Mas um cardíaco que tenha de colocar ponte de safena paga do próprio bolso ou arruma um plano privado. No Brasil, convive-se com um sistema que é capaz de realizar com maestria um transplante de medula óssea, mas não consegue orientar a mãe de um recém-nascido nos cuidados básicos.

POSTO FECHADO - Além da falta de critérios para gastar os recursos, o país também tem poucos parâmetros na hora de arrecadá-los. Os 32 milhões de brasileiros que têm planos privados de saúde, ou pagam consultas para um médico particular, têm o direito de deduzir 100% dessas despesas no imposto de renda. "Isso vira um subsídio indireto do governo para os grupos de medicina supletiva", diz o professor Iunes. Calcula-se que, com essa isenção, o governo deixe de recolher cerca de 2 bilhões de reais por ano - dinheiro que equivale a um terço do que o ministro Adib Jatene quer recolher com a CMF. É possível ver esses 2 bi também como um investimento, já que, se o setor privado não estivesse na Saúde brasileira, o Estado teria de aumentar ainda mais seus desembolsos. A questão é que, a bordo dessa ajuda, o setor privado cresce de vento em popa em detrimento do setor público. Sua clientela aumentou 60% e, hoje, põe no bolso 250% mais em mensalidades. Além disso, os hospitais privados têm isenção para importar equipamentos. Só no primeiro semestre deste ano, essa isenção chegou a 8 milhões de reais. Parece nobre, mas os equipamentos raramente são usados por pacientes do SUS. Para compensar, o Ministério da Saúde está estudando uma forma de fazer com que esses equipamentos sejam usados, em 20% de sua capacidade, para atender comunidades carentes. É o mínimo que se deve fazer num caso assim.

O sistema de saúde no Brasil é eficaz para uma campanha de vacinação em massa, mas nas ações prolongadas, de combate à esquistossomose ou de estímulo ao aleitamento materno, ele fracassa. Uma campanha de massa é um esforço concentrado num certo dia, vacinando-se crianças até no meio da rua, se for preciso. Já um programa continuado precisa de um posto de saúde. E os postos de saúde custam dinheiro, estão falidos e têm o estranhíssimo hábito de fechar à noite e nos fins de semana. No bairro União, de classe média baixa, em Belo Horizonte, há um centro que deve atender uma comunidade de 30 000 pessoas. Nos fins de semana, o espaço é destinado a bailes ou velórios.

Em todo o planeta, os custos de saúde sobem mais do que as taxas de inflação. Há uma luta em países como os Estados Unidos, que investem 1 trilhão de dólares por ano em saúde, em baratear custos cada vez mais. No Brasil, perdeu-se uma boa oportunidade de reduzir os gastos com uma enrolada lei dos remédios genéricos. Malfeita, a lei não entrou em vigor até hoje e está sendo contestada na Justiça pela indústria farmacêutica. Ela prevê que todo remédio deve ser vendido nas farmácias com seu nome científico, e não apenas com o nome de marca. Faz uma diferença brutal. Na semana passada, quem quisesse comprar um vidro com 250 miligramas de ampicilina, um antibiótico muito popular, teria várias opções. Numa grande rede de farmácias de São Paulo, encontrava-se a ampicilina com oito marcas diferentes - e o preço, conforme a marca, oscilava de 2,87 reais até algo 300% mais caro, 11,32 reais. Sem a lei em vigor, apenas os entendidos no assunto sabem que as oito marcas são iguais em eficácia. O cidadão comum pode entender que os oito remédios contêm propriedades variadas e corre o risco de comprar o mais caro.

TRANSIÇÃO - A sensação de que a saúde piorou nos últimos anos não é falsa, mas tal constatação é fruto de um avanço, não de um retrocesso. Até 1987, os hospitais atendiam apenas os cidadãos que pagavam o antigo INPS. Havia então 50 milhões de brasileiros que só conseguiam ser atendidos de favor, pois não tinham direito a nada. De lá para cá, o sistema incorporou 40 milhões dos antigos excluídos, ficando ainda uma parcela de 10 milhões que, vivendo em regiões muito remotas, não conseguem acesso ao sistema. "O fato é que estamos numa situação em que a saúde melhorou 100% para os 40 milhões que estavam excluídos e piorou bastante para os milhões que eram atendidos", diz o sanitarista Eduardo Levcovitz, secretário de Assistência à Saúde do ministério. Além de aumentar muito a demanda, a mudança pegou o Brasil num período que os especialistas chamam de "transição epidemiológica". Convive-se ao mesmo tempo com doenças típicas de países pobres, como dengue e disenteria, que respondem por 6% das mortes no país, e doenças típicas dos países industrializados, tais como infarto e câncer - que, somadas, hoje respondem por 44% das mortes. É uma carga imensa para um setor cuidar, ao mesmo tempo, de dengue e câncer.

Mesmo assim, o sistema consegue alguns resultados. Está radicalizando a experiência do SUS e transferindo para os municípios a responsabilidade de administrar todos os recursos da saúde, sem intermediação dos governos estaduais. Se o projeto for levado até o fim, as secretarias estaduais de saúde poderão deixar de existir, ou terão só função normativa. Incluída entre as 43 cidades que estão testando o projeto, Natal melhorou o sistema de saúde e conseguiu enxugar seus gastos. Antes, o governo federal mandava 1,7 milhão de reais por mês para pagar os hospitais. Agora, a conta baixou para 1 milhão. Com a economia, a prefeitura municipal aumentou em 50% os atendimentos ambulatoriais, em 23% as consultas médicas e em 28% as consultas odontológicas. Além disso, o Ministério da Saúde também conseguiu enxugar gastos no pagamento da rede de hospitais do SUS, feito por intermédio das chamadas AIH, autorizações de internação hospitalar.

NEGÓCIO HONESTO - Ao assumir o cargo, o ministro Jatene mudou o critério de pagamento dos hospitais. Conseguiu reduzir o prazo de pagamento para, no máximo, 25 dias, um recorde histórico, e também reduziu o valor. Antes, cada Estado podia hospitalizar até 10% de sua população por ano. Jatene reduziu para 9%. Assim, São Paulo, que recebia em média 281 000 AIH por mês, passou a receber apenas 240 000. Em seis meses, o governo economizou 112 milhões de reais. Como ninguém chiou, conclui-se que antes estavam sendo feitos gastos inúteis. "Eram internações que os hospitais só faziam para ganhar mais dinheiro", diz Eduardo Levcovitz, do Ministério da Saúde. Os Estados onde se detectaram outras distorções suspeitas também foram punidos. No Maranhão, o governo identificou um número muito grande de internações por motivos banais, como dor nas costas e gripe, e cortou em 8% o valor dos repasses de dinheiro ao Estado, ceifando em mais de 1 milhão de reais. Na Paraíba, cortaram-se 8,6% da verba. Em Goiás, o corte foi de 4,66%. "De fato há fraudes, mas elas não chegam a 5% do total de recursos. Ou seja, é um dos negócios mais honestos do Brasil", diz o deputado Eduardo Jorge (PT-SP).

Com todas as mazelas, o sistema conseguiu criar um programa eficaz nas comunidades carentes. São os agentes comunitários, aqueles que receberam mochilas, bicicletas e guarda-chuvas e renderam ao ex-ministro da Saúde Alceni Guerra uma penca de acusações de fraude e corrupção, das quais ele foi inocentado pelo Supremo Tribunal Federal. O programa surgiu em 1991, com 20 000 agentes, e, em 1993, pulou para 30 000. Os agentes ficam responsáveis por atender uma certa comunidade, levam conselhos básicos e pequenos medicamentos. É a versão rural e brasileiríssima dos médicos de bairro ingleses (veja quadro abaixo). Em Olinda, a agente Luzinete Gonçalves, de 36 anos, assiste 40 000 famílias junto com um pequeno exército. "Eu me sinto gratificada fazendo isso", diz Luzinete, que recebe um salário mínimo por mês. Recentemente, ela passou pela casa de uma família, deu dicas sobre como diagnosticar a meningite e, dias depois, soube que seus conselhos valeram uma vida. "A mãe da menina me disse que, no dia seguinte, sua filha teve os sintomas, mas ficou curada." O ministro Jatene está tão empolgado com o programa de Alceni Guerra que já ordenou o recrutamento de 5 000 novos agentes e pretende chegar a 50 000 até o final do ano, inaugurando o projeto em 550 cidades. Mas tem um problema para atingir essa meta. Adivinhe qual? Dinheiro. Jatene tem 16 milhões de reais para aplicar no programa, mas precisa de mais 13 milhões de reais. n


O lado bom

Não faltam médicos no Brasil. O país tem 1,46 profissionais por 1.000 habitantes, o mesmo índice da Inglaterra. Só que estão concentrados nos grandes centros urbanos
O Brasil foi o 1º país da América Latina a erradicar a poliomielite, em 1989. O sarampo e a difteria estão sob controle
Em quinze anos, a taxa de mortalidade infantil caiu 45%

O lado ruim

Há 10 milhões de brasileiros sem acesso a qualquer tipo de assistência
Estima-se que mais de 1 bilhão de reais somem, por ano, em desvios, fraudes e corrupção
O Brasil tem 6.500 hospitais, um número bom, mas há 1.750 construções paradas. São necessários 3 bilhões para concluí-las

A solução de cada um

Pelo mundo afora, não há uma regra para o sistema de saúde. Abaixo, as fórmulas de atendimento adotadas por quatro países:

Inglaterra: Tem uma rede de consultórios públicos que garante atendimento gratuito a todos. Nas cidades, os consultórios são divididos por bairros e os médicos só atendem os moradores do lugar, todos cadastrados. A mesma regra vale para o campo. Os médicos ingleses, por não ser funcionários públicos, são reembolsados por consulta feita nos chamados distritos sanitários. Ali se resolvem nove de cada dez casos. Os problemas mais graves são encaminhados a especialistas ou levados a um hospital. Poucos são os hospitais privados e não há planos de saúde.

Argentina: É um sistema muito parecido com o brasileiro, em que a rede hospitalar pública convive com os hospitais privados e 300 convênios médicos. A exemplo do Brasil, o atendimento é bem melhor para quem tem algum plano de saúde. Os pobres enfrentam filas nos hospitais públicos e a rede privada garante atendimento a um quarto da população. Apesar de o sistema não ser tão bagunçado quanto o brasileiro, o governo argentino investe muito pouco na saúde. São 138 dólares por habitante todo ano, uma miséria se comparados aos dos países europeus.

Estados Unidos: Do consultório aos hospitais, é um sistema privado. Se tem dinheiro, o americano escolhe um convênio médico de primeira linha. Se não tem, escolhe um menos abrangente.

Para os pobres, o Estado compra serviços dos planos privados. Para os idosos também. O modelo marginaliza 37 milhões de pessoas (entre elas 9 milhões de crianças). São pessoas jovens que estão um pouco acima da linha de pobreza do governo, mas ainda assim não têm dinheiro para pagar convênio. Bill Clinton quer reformar o sistema, mas até agora nada conseguiu no Congresso.

Canadá: 100% estatal, o sistema canadense é bem montado. O governo federal banca metade das despesas e os Estados entram com a outra metade. Não há hospitais privados nem planos de saúde. A exemplo do modelo inglês, o sistema é todo montado a partir dos bairros, com médicos que atendem os pacientes da região. Voltado para a medicina preventiva, o Canadá investe alto na saúde, mas corta gastos sempre que pode economizar. No ano passado, Montreal fechou quatro hospitais e Toronto aposentou 4 000 leitos. Motivo: havia excesso de oferta.

 
     
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